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terça-feira, 12 de setembro de 2023

4981) Young Sheldon (12.9.2023)



 
Não assisto muitas sitcoms (“situation comedies”) na televisão. Não porque não goste, mas porque é algo como comer Batatas Pringle: de uma em uma você come uma caixa, e quando olha pela janela você percebe que agora é um septuagenário e ainda não leu A Divina Comédia.
 
Este argumento me saiu muito ao estilo de Sheldon, o personagem da sitcom The Big Bang Theory, cuja infância estou agora acompanhando via Netflix na série Young Sheldon (primeira temporada). É bastante pringle esse seriado, porque cada episódio tem menos de meia hora, e a narrativa é rapida, estilo vapt-vupt. Quando você menos espera o episódio terminou e você meio inconscientemente se permite saltar para o começo do próximo.
 
Sheldon é um dos meus personagens preferidos na televisão, uma espécie “do que eu gostaria de ser caso crescesse”. Ele tem a memória de um Funes O Memorioso, a objetividade de um Sherlock Holmes, o traquejo social de um Jerry Lewis e a empatia de uma maçaneta. Depois de anos de sucesso de The Big Bang Theory, o ator que o interpreta (Jim Parsons) teve uma idéia: por que não fazer outra série, contando a infância do personagem?


 

(Jim Parsons como Sheldon; Iain Armitage como o jovem Sheldon)
 
Sheldon, segundo os críticos, tem um comportamento com características de autismo (ou de “síndrome de Asperger”) e de personalidade obsessivo-compulsiva. Seus cacoetes são uma fonte permanente de humor nas histórias. Em Young Sheldon, aos dez anos de idade ele coloca em situações constrangedoras os pais, os irmãos, os professores e os colegas, pela sua mania  impassível de recitar respostas certas ou de fazer comparações despropositadas envolvendo a Física Quântica, a Astronáutica ou o Cálculo Diferencial. 
 
Todos os pais querem ter um filho brilhante, mas ninguém quer ter um filho cujo poder intelectual está na razão inversa de sua capacidade de conviver. Em Young Sheldon, o geniozinho  é de certa forma o eixo e o ponto de desequilíbrio de uma família assustadoramente comum. 



(Annie Potts, como a avó de Sheldon) 


Um episódio da primeira temporada mostra Sheldon e a avó Meemaw (a ótima Annie Potts, que sempre tem as melhores falas) assistindo um episódio de Star Trek. Sheldon, é claro, é fã de Mr. Spock, que ele vê como um modelo de inteligência, impassibilidade e invulnerabilidade emocional. Cabe à avó mostrar a ele que o herói dela na série é o Capitão Kirk, que tem mais jogo de cintura e é capaz de pequenas trapaças para conseguir o que quer. Com isso, ela ensina Sheldon a mentir e a trapacear – e de certa forma o liberta do automatismo. 
 
A série é divertida porque nos identificamos com a família de Sheldon – que não entende as fórmulas matemáticas e os conceitos científicos recitados por ele a qualquer pretexto. O garoto fica na condição de qualquer garoto-prodígio num contexto não hostil, onde a família tem afeto e admiração por ele e faz o possível para criá-lo “como um menino normal”. 
 
Sheldon, por sua vez, se encaixa naquela definição de Henri Bergson segundo a qual o humor nasce quando vemos uma pessoa se comportar de maneira mecânica, cega, repetitiva, sem atentar para o feedback que recebe do mundo à sua volta. Por outro lado, o fato de Sheldon não possuir um grande “simancol” no trato social o faz revelar verdades ocultas, abordar problemas que outras pessoas varrem para baixo do tapete, criticar “sem papas na língua” os defeitos que percebe em outras pessoas.



Young Sheldon é uma série-pipoca, divertida, que tem pontos de contato com outros trabalhos de maior espessura dramática. Desde o início me lembrei deste filme de Jean-Pierre Jeunet, um cineasta que aprecio muito: The Young and Prodigious T. S. Spivet (2013), onde um garoto também super-dotado manda um trabalho para o Smithsonian Institute (sem revelar a própria idade), e depois que o trabalho é aceito precisa fugir de casa (lá nos confins do Meio Oeste) para ir a Washington fazer a palestra (e aturdir de incredulidade os funcionários do Instituto).
 
Lembrei também da série O Gambito da Rainha (2020) de Scott Frank, com sua protagonista super-inteligente, fora-de-esquadro, meio antissocial, meio imprevisível.



E um filme talvez hoje esquecido, mas que na epoca me despertou muita atenção: Little Man Tate (“Mentes Que Brilham”, 1991), dirigido por Jodie Foster (ela própria uma criança excepcional) e que conta a história de um garoto super-inteligente e do cabo-de-guerra entre a mãe (que o adora, mas é uma mulher “simples”, e não sabe como cuidar dele) e a professora (que pode dar a ele um acompanhamento profissional).
 
Sheldon é uma versão bem-humorada desse problema – o que fazer com as crianças super-inteligentes, pontos-fora-da-curva. Trazê-las para a curva seria um desperdício, e além disso é impossível. É a curva que precisa diminuir a distância entre os dois.
 
 
 
 
 
 





sábado, 21 de abril de 2012

2850) Temple Grandin (21.4.2012)




Temple Grandin é uma mulher autista, e tem 64 anos.  Na infância teve professores especiais, mas depois estudou em escolas de crianças normais.  Como se sabe, crianças “normais” não perdoam crianças que sejam um pouquinho diferentes delas. Quando percebem que Fulano é “estranho”, elas mangam, zoam, perseguem, às vezes dão porrada.  Temple Grandin diz hoje que tinha dificuldade em entender a razão daquilo: “Eu pensava que todo mundo pensava igual a mim, e não entendia por que eles me tratavam daquele jeito”.  Todo autista é uma pessoa completa, e toda pessoa é diferente.  Quando alguém tem uma condição especial como autismo, isso é apenas 10 ou 20%, e os outros 80 ou 90% dela são tão imprevisíveis quanto os de qualquer pessoa.  Nenhum ser humano pode ser definido exclusivamente em função de alguma condição especial que possua, seja ela qual for.

Temple estudou Psicologia e tornou-se uma defensora dos “direitos humanos dos animais”, se bem me exprimo.  Planejou fazendas, currais e matadouros menos estressantes para o gado. Mesmo reconhecendo a necessidade do sacrifício do gado para nos alimentar, ela resume sua reivindicação para eles em “uma vida digna e uma morte indolor”.  Incapaz de sentir emoções, como muitos autistas, ela mesmo assim fez muito mais pelos bichos do que muita gente que se comove com a tragédia deles mas não move uma palha em seu favor (eu, por exemplo).

Aqui está uma palestra dela (com legendas em português: http://bit.ly/HLYZQs), “O mundo necessita de todos os tipos de mentes”. É uma mulherona grisalha, com camisa florida de cowboy, um jeito meio masculino. Vi-a pela primeira vez anos atrás, num documentário da TV que mostrava uma engenhoca bizarra que ela construiu, a “máquina do abraço”, uma coisa feita de traves de madeira, roldanas e tudo mais. Ela entrava naquela estrutura, movia controles, e as partes de madeira pressionavam partes diferentes das costas, das pernas e dos braços dela, produzindo-lhe “uma indescritível sensação de bem estar”. Deve ser o que as crianças normais sentem quando são abraçadas e acarinhadas pelos pais.  O fato de Temple ter precisado inventar uma trapizonga mecânica para obter esse efeito mostra, como diria Drummond, que “cada pessoa é diferente e somos todos iguais”. 

Os autistas se fixam em pequenas obsessões, diz ela: animais, automóveis, livros. Pode-se usar essas obsessões para lhes ensinar matemática, desenho, história, etc.  Infelizmente nosso ensino não é (nem tem como ser) personalizado. Existe um conjunto de fórmulas que todos devem assimilar até a graduação e o diploma. Quando os autistas forem maioria (estão aumentando!), talvez isso mude.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

2463) Um conto em Power Point (26.1.2011)



Novas tecnologias criam novas maneiras de manipular textos. Com sorte, podem produzir também novas dinâmicas internas: o modo de organizar as palavras; o modo de destacá-las; o modo de conduzir o olhar do leitor e o fluxo de leitura; o modo de alternar cenas; o modo de encadeá-las produzindo a impressão de continuidade ou sequência. Tudo isto faz parte da arte da narrativa, e o surgimento de novos suportes para a palavra escrita pode nos ajudar a contar histórias de uma maneira que não poderia ser contada num texto apresentado de modo convencional, como este aqui.

A escritora Jenifer Egan produziu um conto narrado em forma de apresentação de Power Point, este popularíssimo recurso que possibilita a conferencistas projetarem os parágrafos de sua conferência numa tela, em grandes letras coloridas, e lerem o texto em voz alta para uma plateia que lê ao mesmo tempo, movendo os lábios. Paulo Freire não teria concebido uma maneira melhor de alfabetizar professores e doutores!

O conto de Egan se intitula “Great Rock and Roll Pauses” e utiliza o sistema de “slides” sucessivos do Power Point, telas que se sucedem, cada uma com certa quantidade de texto organizada em torno de formas geométricas, induzindo diferentes fluxos de leitura. O conto foi incluído em seu livro A Visit from the Goon Squad (Knopf, 2010), e pode ser visto em sua forma original (quadros coloridos, sucessivos), aqui:
http://www.slideshare.net/JenniferEgan/rockandroll97-2004cppt.

O conto, aliás,tem como tema um garoto autista (irmão da narradora) cujo hobby é colecionar e analisar o que em música de chama de “pausas Clearmountain” – aquelas pausas bruscas no meio de uma canção, para logo em seguida a música voltar com força total. (Têm este nome por terem sido usadas e abusadas pelo produtor musical Bob Clearmountain). Talvez o estilo Power Point ajude a reproduzir a mentalidade precisa, ordenada e meio mecânica de um autista.

Não se trata, como tanta gente repete, passivamente, de “destruir as formas arcaicas e superadas de literatura”. Nenhuma forma é tão arcaica e superada que não possa ser usada de maneira eficiente ou original. Trata-se de experimentar formas novas, não para “renovar a literatura”, coisa que nenhum escritor pode fazer sozinho, mas pelo espírito lúdico de se divertir com uma maneira diferente de contar. Se isto vai ser assimilado pelo chamado “corpus” literário, não depende de nenhum autor individual. É um processo coletivo e randômico. Melhor ir se preocupar com outra coisa.

Alguém um belo dia teve a ideia de usar tipos de letras diferentes (que hoje chamamos de itálico e negrito) para destacar partes diferentes do texto – mudar de interlocutor, distinguir entre frases pensadas e frases ditas em voz alta, sugerir a presença de uma consciência externa à cena e que a contempla, etc. No começo isto pode ter parecido mero exibicionismo ou excentricidade; mas hoje é um recurso usado em qualquer best-seller.

sábado, 30 de outubro de 2010

2387) Os autistas voluntários (30.10.2010)



Greg Egan, um dos grandes escritores da FC de hoje, colocou um capítulo sobre o autismo em seu romance Distress (1995). O tema do livro é outro, e o autismo só aparece no capítulo 6, numa entrevista feita pelo protagonista, um jornalista investigativo. Ele dá voz a um personagem, James Rourke, pertencente a um grupo chamado Associação dos Autistas Voluntários (a história se passa em 2055). Nesse futuro hipotético, foi descoberta uma área do cérebro chamada “área de Lamont”, e se postula que o autismo resulta de uma lesão produzida nessa área por uma variedade de razões. O mais interessante do caso, no entanto, é a existência da própria associação. Descobertas as causas do autismo, esses autistas não querem ser curados. Preferem permanecer do jeito que são.

Diz James Rourke que a mente humana desenvolveu ao longo de milênios de evolução uma capacidade para compor modelos das outras mentes. Somos capazes de imaginar o que os outros estão pensando ou sentindo. Somos capazes de nos identificar com esses sentimentos, desenvolvendo um senso de intimidade, ou de empatia. A evolução foi fortalecida pelos laços monogâmicos que os homens criaram com suas companheiras. Intimidade, empatia e amor são três aspectos básicos do nosso quadro de valores emocionais.

O que ocorre quando um indivíduo – um autista – é incapaz de produzir esses modelos de outras mentes? Segundo o personagem, esse talento não passa, na verdade, de um talento para a auto-ilusão. As pessoas na verdade não sabem o que as outras pensam ou sentem: elas apenas imaginam saber. E como é necessário, por razões evolutivas, que sejamos capazes de manter essa ilusão, que “dá liga” a nossa vida em grupo, somos condicionados a achar que somos capazes de empatia e de compreensão, mesmo quando encontramos provas e mais provas de que isso não ocorre. Mas precisamos dessa ilusão para que a espécie continue evoluindo.

Os Autistas Voluntários do livro não querem alimentar essa ilusão. Eles consideram que não sabem e nunca saberão, intuitivamente, o que se passa nas mentes alheias, e que só podem se relacionar com outras pessoas através de processos mais formais e explícitos, como a linguagem verbal. Para eles, continuar autista é uma recusa a deixar-se enganar. E Rourke faz uma provocação final, ao comparar os Autistas Voluntários com os transexuais. Diz ele que nossa sociedade acha que é justo uma pessoa mudar de sexo para que seu corpo corresponda à sua imagem mental de si mesma. Por que então proibir que pessoas acostumadas a interagir sem emoções, sem empatia, sem intimidade com as outras, mantenham essa condição? Será que mudar de sexo é normal, mas não ter empatia é uma anomalia que precisa ser curada? Um autista pode viver sem abraços, sem olho-no-olho, sem demonstrações de afetividade e ainda assim ser querido e respeitado pelas outras pessoas, e sentir-se em paz consigo mesmo. Por que motivo a sociedade quer lhe negar este direito?

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

2380) Os direitos dos autistas (22.10.2010)



(Ari Ne'eman)

Amigos meus postaram um texto no Facebook dizendo: “As pessoas precisam entender que as crianças com necessidades especiais não estão doentes. Elas não procuram uma cura, apenas aceitação”. Eu estava justamente começando a preparar uma coluna sobre este assunto, abordando a questão dos autistas. Autistas são aquelas crianças que por alguma razão têm dificuldade de se relacionar com outras pessoas, demoram a aprender a falar, a andar; são ensimesmadas, têm baixa afetividade, comportam-se de maneira mecânica, têm hábitos extravagantes (embora inofensivos). A variedade de sintomas é enorme.

Muitos autistas crescem e tornam-se funcionais. Este é o termo pragmático, utilitário, egoísta, com que nossa sociedade premia os que se integram nela. Funcionam – como uma máquina obediente. Há pouco, o presidente Obama nomeou um autista para o National Council of Disability (NCD), um painel que assessora medidas na área da saúde pública, escolas, e reformas em geral para favorecer os portadores de deficiência (ver: http://tinyurl.com/2cptc8p). Ari Ne’eman afirmou à imprensa que os autistas precisam de respeito, direitos civis e acesso aos serviços da comunidade; o que não precisam é de piedade e de cura. Os autistas, diz ele, não querem se tornar iguais às outras pessoas, querem ser como são (pois se sentem bem sendo assim) e ter os mesmos direitos. “A comunidade dos autistas”, diz ele, “não tem se focado nessas questões de qualidade de vida e de direitos civis, porque tem sido distraída por questões como a causa da doença e as possíveis curas”.

O autismo consiste, em grande parte, na incapacidade de ter empatia, de criar um modelo mental dos pensamentos das outras pessoas e reproduzi-lo, identificando-se com elas. Mesmo os autistas funcionais têm dificuldade em perceber duplos sentidos, ironias, gozações, etc. Um autista tende a interpretar ao pé da letra tudo que vê. Um autista tem dificuldade em perceber quando alguém está blefando; e é praticamente incapaz de blefar. Autistas não sentem necessidade de falar com outras pessoas com os olhos nos olhos (isto não tem uma função especial para eles, como tem para nós); não têm disposição para o que se chama de “small talk”, conversar bobagem na companhia de outras pessoas, apenas para criar um momento de camaradagem, de comunicação sem compromisso. E os autistas (diz Ne’eman) querem continuar sendo assim.

O autista está integrado num movimento de “neurodiversidade”, em torno da ASAN (Autism Network International - http://www.autisticadvocacy.org/) . É o movimento dos que têm uma mente diferente da nossa. E que se sentem no direito de tê-la. Diz Ne’eman: “A vida diária num mundo organizado para as outras pessoas é, para nós, como atravessar um campo minado. Há um grande número de regras sociais que não compreendemos. E as consequências para quem viola essas leis são terríveis”.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

0989) A cidade imaginária (18.5.2006)



Um tipo de literatura que tem crescido cada vez mais nas últimas décadas é a Literatura Descritiva, em contraposição à Literatura Narrativa. Acho que estes dois termos são claros o bastante, e expressam duas funções básicas da mente humana. A grande tradição romanesca do século 19 parece ter conseguido o equilíbrio ideal entre as duas. Dali em diante, parece que o negócio desandou, e o “descritivismo” está se tornando uma verdadeira mania. Um exemplo típico disto é a obra de J. R. R. Tolkien, que batizei de “ficção catalográfica”: uma enorme descrição de um mundo imaginário, com sua astronomia, sua geologia, sua geografia e corografia, suas línguas e dialetos, suas raças humanas, semi-humanas e animais, suas dinastias de reis e imperadores, suas intermináveis listas de batalhas e conquistas. Desse mapa descritivo e monumental, Tolkien ainda conseguiu extrair algumas Narrativas que fizeram o seu sucesso, como O Senhor dos Anéis.

Certos autores (penso em Georges Perec) acham que às vezes inventar um ambiente é um processo que se basta a si mesmo, e que não é preciso contar histórias para justificá-lo. É o caso da literatura utópica, desde Platão a Thomas Morus. Um exemplo recente é o da cidade imaginária de Urville, criada por Gilles Tréhin, um rapaz que vive na cidade francesa de Cagnes-sur-Mer. Gilles é um autista, ou seja, um daqueles indivíduos que parecem viver fechados em si mesmos, extremamente concentrados em sua própria atividade mental e com pouca ou nenhuma vontade de se relacionar com o mundo exterior. Claro que existem gradações em casos assim, e Gilles é “extrovertido” o bastante para escrever e falar sobre si mesmo e sobre a cidade que inventou.

A princípio, era uma cidade que ele pretendia reconstruir inteiramente com peças de Lego, numa enorme maquete. Depois, chegou à conclusão de que era mais simples e mais rico produzir um conjunto de textos e desenhos. A cidade foi crescendo, e não parou mais de crescer. O processo todo começou por volta de 1984, e até agora Gilles produziu cerca de 250 desenhos muito detalhados, todos eles derivados de cinco plantas básicas que incluem todos os setores da cidade. Quem quiser dar uma olhada nesta ciclópica aventura, vá aqui: http://urville.com/.

A empreitada de Gilles mistura arquitetura, urbanismo e literatura, porque ele escreve a história da cidade, sua evolução, os fatos importantes que aconteceram ao longo de sua história. É como se um jogo tipo Sim City fosse criado no papel por um único indivíduo. O fato de Gilles ser autista, ou portador da Síndrome de Asperger, parece indicar que esta síndrome tem às vezes como conseqüência a hipertrofia de uma função mental em detrimento de outras. No presente caso, Gilles é um “descritor” de mão-cheia. A excepcionalidade de sua missão não deve obscurecer o fato de que isto que ele faz hoje está se encaminhando para ser no futuro um gênero artístico autônomo, como o romance histórico ou o relato utópico.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

0510) O autista e o amor (6.11.2004)




(Greg Egan, Klein's Quartic Curve, http://math.ucr.edu/home/baez/KleinDual.gif)

Uma característica comum a vários tipos de autismo é a incapacidade de perceber subtextos, segundas intenções. Jovens ou adultos autistas têm a tendência de interpretar ao pé da letra o que ouvem; não conseguem entender uma ironia. 

Um autista vê um sujeito suado, carregando nas costas uma pedra de 50 quilos, e pergunta: “Como vai?”. “Estou ótimo,” diz o outro, “nunca me senti melhor em minha vida.” E o autista vai embora satisfeito, acreditando piamente no que ouviu. 

Um autista não consegue jogar pôquer direito. Ele absorve com rapidez as regras do jogo, porque tem sempre uma habilidade espantosa para números, séries, etc. Mas não entende o que é um blefe.

Vai daí que muitos autistas não têm senso de humor, porque o senso de humor depende muitas vezes de um duplo sentido, depende da nossa capacidade de interpretar uma frase ou uma situação, e, uma fração de segundo depois, perceber que no contexto específico daquela historinha aquela frase ou situação admite uma interpretação completamente diferente, que inverte por completo o significado da cena. O riso é uma descarga nervosa causada pela surpresa diante dessa reviravolta mental e do contraste entre as duas interpretações. O autista é incapaz de perceber essa duplicidade de leituras, e, se a percebe, isto o deixa indiferente. Ele nasce geneticamente vacinado contra a ironia, o sarcasmo, a insinuação, a mentira diplomática.

Greg Egan imagina em seu romance Distress (1995) uma organização intitulada Voluntary Autists Organization. É uma entidade de autistas que querem ter o direito de ser como são, porque estão satisfeitos assim. As pessoas “normais” (dizem eles) têm uma capacidade inata para observar as outras e imaginar o que estão pensando a partir de seus gestos, palavras, etc. “Modelamos” em nossa mente, sem parar, a mente das pessoas que nos cercam, e nos comportamos de acordo com isto. Ao longo da evolução humana, essa capacidade se funde ao comportamento afetivo instintivo dos mamíferos e ao impulso reprodutivo, e dá origem ao sentimento chamado “empatia afetivo-sexual”, ou “amor”.

No livro de Egan, o autismo é atribuído a uma lesão cerebral que anula essa capacidade para se identificar emocionalmente com outras pessoas. E os indivíduos que têm uma lesão parcial querem que a Constituição lhes dê o direito de aumentá-la, cancelando por completo sua capacidade para a empatia. Eles invocam o mesmo direito alegado pelos transexuais: “Quero ter o direito de ser como sou, por inteiro.” Identificar-se com outro ser humano (alegam eles) é uma ilusão, uma mentira. Deveríamos nos comportar de acordo com regras e valores morais, não com uma ilusão de afeto mútuo. A noção de empatia, de intimidade psíquica com outro ser humano, é uma premissa falsa. E aí eu pergunto: se um transexual tem o direito de mudar de sexo, um semi-autista tem o direito de amputar suas próprias emoções, e viver em paz, sem ser obrigado a fazer algo que considera uma mentira?