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sábado, 12 de novembro de 2022

4882) Miniconto também é conto (12.11.2022)




Volta e meia estou retornando, aqui, ao tema do “Microconto” ou “Miniconto” – o conto curtíssimo. Esse conceito se desdobra em inúmeras fórmulas relativas a sua extensão, mas no frigir dos ovos todos têm esse aspecto essencial em comum: são curtíssimos.
 
(O conceito de “curtíssimo”, é claro, é tão subjetivo quanto o de “bom”. Cada pessoa traça sua linha-limite onde lhe convém.)
 
Existem contos de menos de 100 palavras; contos de 100 caracteres; contos de 6 palavras; contos de 6 linhas... Qualquer fórmula nova é geralmente bem vinda. Note-se que muitos desses textos são produzidos num regime de desafio – revistas, jornais, websaites etc. lançam a provocação, e os leitores chovem com suas respostas. É um teste, de fato. Um teste de contenção, de síntese, de foco.
 
Não há, portanto, muita necessidade de “definir o que é mini/microconto”, até porque ninguém tem uma definição científica do que é conto. Digamos, então, que um conto é uma história curta, e que um mini/microconto é uma história curtíssima. O resto é como nas Casas José Araújo: “quem manda é o freguês”.


Quem lida com esse tipo de texto derrapa facilmente na comodidade de achar que basta escrever uma frase para que ela seja automaticamente um miniconto. Quer ver? Vou inventar agora, de improviso, três minicontos desse tipo.
 
1)      Abriu a janela e constatou, em pânico, que o Brasil existia mesmo.
2)      Pousaram no asteróide, e extraíram minérios valiosos até morrerem de fome.
3)      Reencontrar você só serve para confirmar minhas suspeitas.
 
Tentarei teorizar estes exemplos banais, mas característicos.
 
No primeiro, temos apenas a descrição de uma ação física e uma reação psicológica, um fato com duração de alguns segundos (a “abrição” da janela). Não há enredo, história, narrativa – há um flash único. Isto ficou mais parecido  com um cartum de Jaguar do que com um filme. Eu posso até chamar isso de miniconto, mas sem muito entusiasmo; para mim, chamá-lo de “cartum verbal” ou de mera piada me parece mais adequado.
 
Por que? Porque, mais do que no conto comum, no miniconto o desafio é contar uma história. Frase, qualquer um escreve. Contar uma história numa frase é outro patamar. É este o grande desafio, a rede na quadra de tênis. Sem ela não tem graça.
 
E vamos ao exemplo 2. Aqui, sim. Por bobo que seja, há um fio de história, há um mínimo de narrativa, uma sequência temporal de três fatos em que cada um é resultado dos anteriores, o que é um requisito básico de uma narrativa literária. O texto ilustra concretamente (e isto foi involuntário de minha parte, foi instintivo) a famosa estrutura “começo – meio – fim”.
 
Em poucas frases ficou clara a ambientação, o gênero literário (ficção científica), tudo sem muito esforço. Há uma leve tintura de final-surpresa, de desfecho imprevisto, o que não é fácil de obter em tão curto espaço – é a famosa arte de “dar um drible em cima de um lenço”. Com alguma boa vontade, posso considerar isso um miniconto.
 
O terceiro exemplo não é um conto nem aqui nem na China. (Claro que qualquer pessoa pode chamá-lo de conto; também pode chamar de avestruz, de sanfona, do escambau. “Chamar” é grátis.) É uma frase apenas, uma reflexão silenciosa, um fragmento de idéia. Relendo agora, me ocorre que seria um pouquinho mais narrativo se fosse em forma de fala, de diálogo:
 
-- Olha, reencontrar você só serve para confirmar minhas suspeitas...
 
Isto nos permitiria fantasiar visualmente o reencontro e a conversa entre dois ex-cônjuges, dois ex-sócios, etc. 
 
Já ministrei oficinas sobre “O Conto Narrativo” como uma forma de enfatizar a existência, na ficção, de uma gradação que tem num extremo a Narração Pura (se é que isto existe) e no extremo oposto a Reflexão Pura (idem). Toda (!) narrativa mistura as duas coisas: a Narração, ou os fatos físicos que acontecem, e a Reflexão, os comentários íntimos dos personagens (ou do autor).


(Clarice, por Bertoni)
 

 
Clarice Lispector é extraordinária contista pela sua habilidade em inventar e misturar todas as nuances possíveis desses dois elementos, em praticamente tudo que escreve. Falei “habilidade” mas o reverso obrigatório dessa moeda é “espontaneidade”, que ela usa em igual medida. Acho que ela não escreve desse jeito porque estudou as variadas correntes teóricas; escreve (acredito eu) porque é desse jeito que ela pensa.
 
Não é uma autora intelectual, dada a planejar estruturas complexas. Acho que era uma intuitiva que lia muito. O que produz lhe sai num jorro de imprevistos, de repentes, de infrações às regras e geralmente levamos algum tempo para admitir que uma parte da cabeça dela mantinha tudo marromeno no lugar certo, de forma satisfatória, e enriquecedora, para o leitor.
 
Tudo isso constitui, principalmente quando reduzido às dimensões exíguas do mini e do micro, uma arte de malabarismo, difícil de praticar em duas ou três páginas, e ainda mais em duas ou três linhas – ou em qualquer outra minifórmula.


Um levantamento interessante e útil foi feito por Carlos Willian Leite na Revista Bula:
 
https://www.revistabula.com/1787-de-anton-tchekhov-a-franz-kafka-30-microcontos-de-ate-100-caracteres/
 
Ele montou uma pequena antologia comentada de microcontos, e aconselho uma olhada. De minha parte, comentarei alguns que me parecem esclarecedores.
 
a)      Tempo. Inesperadamente, inventei uma máquina do
(Alan Moore)
 
Este é um clássico. O autor sugere um engraçado loop acidental com grande economia de meios. Há inúmeras tirinhas de HQ e cartuns usando truques parecidos.
 
 
b)      Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, se suicida.
(Anton Tchecov)
 
Eu já conhecia este, mas não como microconto, e sim como a semente de um desafio lançado pelo autor russo: desenvolver essa idéia de forma plausível. Pode não parecer, mas grandes contos da história da literatura surgiram de provocações desse tipo entre amigos escritores: “Duvido você ser capaz de escrever um conto onde acontece, etc etc etc”.



 
c)       A mulher que amei se transformou em fantasma. Eu sou o lugar das aparições.
(Juan José Arreola)
 
O mexicano Arreola é um dos meus contistas-obscuros favoritos; aconselho sua coletânea clássica Confabulário Total, publicada no Brasil tempos atrás (há edições pela Edinova e pela Arte & Letra).  Seu conto é curioso porque se encrava, sem muito esforço, naquilo que é chamado “o fantástico todoroviano”, a partir das teorizações de Tzvetan Todorov: uma história que pode ser classificada tanto como um evento sobrenatural quanto como um evento meramente psicológico.
 
 
d)      Pegou o chapéu, embrulhou o sol, então nunca mais amanheceu.
(Menalton Braff)
 
Existe narração aí. Um gesto corriqueiro que redunda num fato fantástico, descomunal, contado com a singeleza de um Ray Bradbury ou Mario Quintava. (Ou então, dado o caráter fortemente visual deste exemplo, como um quadro de Marc Chagall ou um cartum de Juarez Machado.)
 
 
 
e)      Eu ainda faço café para dois.
(Zak Nelson)
 
Para ninguém pensar que eu sou radical, eis um exemplo onde o vetor narrativo é mínimo, tudo se reduz a um comentário singelo, mas o modo contido e reflexivo com que ele é feito nos induz a supor um passado, supor um acontecimento qualquer (uma morte? uma separação?) e isto estica, de certa forma, o elástico narrativo.
 
“Narração” é isso: um elástico que se estica, cuja tensão aumenta à medida que o texto avança, e num texto literário a certa altura estamos lidando com vários “elásticos” simultâneos, e é da tensão e relaxamento de cada um deles que advém o prazer da leitura.
 
 
 
 
 





terça-feira, 13 de abril de 2021

4693) Um cânone brasileiro alternativo (13.4.2021)



No ano já distante de 2006, a revista recifense Continente Multicultural convidou uma porção de gente, eu inclusive, a participar de uma votação sobre o “Cânone da Literatura Brasileira”, incluindo aí a prosa de ficção e a poesia.
 
Não sei como os outros definem “cânone literário”, mas eu defino, meio frouxamente, como um possível conjunto de obras que é preciso conhecer para entender os caminhos, as possibilidades e o espírito da nossa literatura.
 
Não é uma lista dos “dez melhores”.
 
É uma lista de livros que contribuíram fortemente para a formação dos autores que vieram depois; e com impacto inclusive fora do âmbito estritamente literário. Livros influentes; e livros que nos reflitam como povo, que nos revelem como cultura, que indiquem a um leitor, recém-chegado ao mundo, o que é o Brasil pela voz dos seus escritores – e modéstia à parte, não sei que voz mais adequada haveria.
 
Na época daquela enquete, questionei um detalhe que me preocupava. Com o passar dos anos, certos livros vão se tornando quase obrigatórios. Sua ausência provocaria indignações, arrufos, talvez até uma troca de sopapos. “Como se atreve a deixar de fora Grande Sertão: Veredas?! Dom Casmurro?!!!”.
 
Resultado: ninguém mexe mais no cânone, onde entram somente as unanimidades. Fica parecendo os Dez Mandamentos. Pra tirar dali um desses consagrados vai ser preciso fazer uma verdadeira CPC, “Campanha de Problematização e Cancelamento”.
 
Minha sugestão, na época, foi deixar de fora os títulos que parecessem óbvios. E indiquei dez que na época me pareceram plenamente merecedores de figurar entre o que o Brasil já produziu de melhor, mas que talvez nunca entrassem numa lista dessa natureza. Talvez até por serem preteridos por outras obras supostamente “superiores” do mesmo autor.
 
Pensando assim, fiz minha sugestão incluindo seis obras de prosa: Corpo de Baile de Guimarães Rosa, Memórias Sentimentais de João Miramar / Serafim Ponte Grande de Oswald de Andrade, Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna, Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato, A Grande Arte de Rubem Fonseca, Nove, Novena de Osman Lins. 
 
E quatro de poesia: Invenção de Orfeu de Jorge de Lima, Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, Eu de Augusto dos Anjos e Cobra Norato de Raul Bopp.
 
Todo mundo tem o direito (e o prazer) de discordar, é claro, mas com esses dez livros embaixo do braço eu passaria mais uma vida inteira. Alguém dirá: “Mas faltou Fulano de Tal!”  E eu responderei: “Em toda lista falta alguém, até na Lista de Schindler.”
 
Colocou-se há pouco, numa discussão semelhante, a questão: “Tudo bem, você indicou uma opção B aceitável; mas, haveria uma opção C?”  Ou seja: seria possível indicar uma nova lista sob os mesmos critérios, deixando de lado os “óbvios, incontornáveis”, e também os dez títulos acima?
 
Não acho difícil. Conferenciei aqui com meus botões, ou melhor, com minhas teclas, e bolei a lista abaixo. Para não me afastar muito da proposta inicial, são novamente seis obras em prosa e quatro em verso. Todos me parecem necessários para compreender do que o Brasil é capaz – além de serem livros, é claro, que me despertam um sentimento de gratidão e de orgulho-alheio, sempre que me lembro deles.
 
E sempre lembrando: o objetivo destas minhas listas é indicar títulos “não-óbvios”, que dificilmente seriam indicados para um cânone porque outras obras do mesmo autor, as consideradas “obrigatórias”, passariam na frente.
 
Obras em prosa:

 
1.       Dona Flor e seus Dois Maridos (1966) de Jorge Amado. Não botei nada do baiano na minha primeira lista, e tenho convicção de que se alguém for “canonizar” um livro dele provavelmente vai ser Gabriela, Cravo e Canela. Mas Dona Flor foi um sucesso enorme desde o lançamento, foi adaptado para o cinema, marcou gerações. Sem ter sido o primeiro livro de Jorge que li, foi o primeiro que me despertou, na adolescência, para as possibilidades literárias do romance erótico e para as possibilidades brasileiras do romance de fantasmas. (E me ajudou a ir morar na Bahia dez anos depois, mas isso já é outra história.)



2.       Memorial de Maria Moura (1992), de Raquel de Queiroz. Qual é o título óbvio, de Raquel? Claro que é O Quinze, que dizem ter sido escrito quando ela tinha 17 anos – e é um grande livro. Mas por trás dele acabam ficando invisíveis outros romances excelentes, como este. É um épico sertanejo de uma mulher-guerreira, uma mistura de Cat Ballou e Dona Guidinha do Poço. Pesquisa histórica e geográfica bem fundamentada, aventuras, violência, morte, paixões eróticas desenfreadas, religião, economia rudimentar. Um romance guerreiro que se encerra, triunfalmente, com o “exército” sertanejo partindo para uma batalha de resultado imprevisível. E publicado por uma escritora de 80 anos.



3.       Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), de Lima Barreto. O óbvio de Lima é Policarpo Quaresma, mas eu tenho uma admiração por esta história de um rapaz negro, inteligente, com leitura, forçado a trabalhar como contínuo num jornal cheio de pavões menos competentes do que ele. O retrato do Rio é excelente. Foi o primeiro livro escrito pelo autor, que já estava todo nele. E o retrato da imprensa brasileira continua atual.



4.       Felicidade Clandestina (1971), de Clarice Lispector. Os títulos canônicos mais óbvios de Clarice seriam A Paixão Segundo G.H. (mais complexo) ou A Hora da Estrela (mais popular). Mas eu acho que a influência maior da obra da “frasista mais famosa da Internet” está nos contos, sempre brilhantes. Como neste livro, onde cabem pequenas crônicas, pequenas histórias absurdistas, retratos de família, e até o inexplicável e inesgotável “O Ovo e a Galinha”.



5.       Elas Gostam de Apanhar (?), de Nelson Rodrigues. A obra de Nelson é um caos bibliográfico; sua influência sobre o público foi maior na imprensa do que nos livros. Coloco aqui esta coletânea da Editora Bloch (não localizei a data), que li nos anos 1960, com capa de Ziraldo. Tudo que está no teatro de Nelson está em sua prosa de ficção.



6.       Várias Histórias (1896) de Machado de Assis. Pois é, em qualquer cânone alguém instala o Dom Casmurro ou o Memórias Póstumas de Brás Cubas (com toda justiça, aliás) e deixa de fora um dos maiores contistas do país. Escolher um volume de contos entre tantos também não é fácil. Escolho este porque a maioria de seus contos saiu durante a década miraculosa de 1880.
 
 
Obras em poesia:


1.       Caprichos & Relaxos (1983), de Paulo Leminski. É um autor recente, mas ouso dizer que já pode ser incluído no cânone, até mesmo como provocação, porque era um notório chovedor no piquenique alheio. Leminski marcou presença no romance, no ensaio, na publicidade, na música popular, e recentemente seu volume Toda a Poesia chegou às listas de best-seller. Sua influência, dos anos 1980 para cá, tem sido imensa – e merecida.



2.       A Educação pela Pedra (1962-65) de João Cabral de Melo Neto. Mais uma vez: o óbvio cabralino em qualquer lista seriam O Cão Sem Plumas ou Morte e Vida Severina, mais conhecidos, mais marcantes, mais emblemáticos. Não me custa nada indicar esse livro duro, árido, onde Cabral se transpôs com alicerces e tudo para o verso longo, o quase-decassílabo, expandindo sua poética para além das cadências redondilhas do romanceiro. 



3.       Poemas (1922-1953) de Ascenso Ferreira. É o volume que reúne os três livros anteriores do autor (Catimbó, Cana Caiana e Xenhenhém). A oralidade, o coloquialismo, o vocabulário regional, os temas “folclóricos”, tudo está presente nesses livros que são talvez o melhor encontro entre o Modernismo e a poesia falada. E deve ter sido um dos primeiros livros da poesia brasileira a trazer a partitura das melodias citadas.



4.       Xadrez de Estrelas (19760 de Haroldo de Campos. A Poesia Concreta dos paulistanos teve um impacto profundo na literatura brasileira, inclusive sobre os que não gostam dela. Eu gosto. Esta coletânea de Haroldo de Campos traz vários dos seus livros concretistas e se encerra com o clássico Galáxias (1973), uma experiência de prosa poética “riocorrente”. Alguém pode até não gostar dos poemas (eu gosto), mas ninguém pode negar que essa poesia fez muitos poetas perceberem pela primeira vez que a poesia era feita de palavras, não de idéias, e que as palavras tinham materialidade.
 
Os títulos listados acima seriam, na minha opinião, uma boa introdução à literatura brasileira para um hipotético estrangeiro (sueco, queniano ou vietnamita) razoavelmente bem informado, e com domínio razoável da língua portuguesa falada no Brasil.
 
A lista esgota nossa literatura? Não, nenhuma lista esgota. Por que ficam de fora tantos autores? Provavelmente porque nunca li, como é o caso de obras que admiro à distância, como O Tempo e o Vento de Erico Verissimo ou Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos. 

E por que não incluí as obras X, Y e Z, que efetivamente li? Porque o mote é “lista de dez”. Quando estou desocupado, precisando esquentar o motor do juízo para escrever coisas mais sérias, pensar nisso ajuda a produzir a ignição. A lista não tem importância.
 
 
 





segunda-feira, 27 de novembro de 2017

4290) Traduzir e retraduzir (27.11.2017)



No artigo cujo link vai aqui embaixo, Rachel Cooke medita sobre os caminhos da tradução literária. Ela começa se referindo ao romance de Françoise Sagan Bom dia, tristeza (“Bonjour, tristesse”), grande sucesso dos anos 1950.


Meus comentários neste artigo vão ficar engraçados porque ela questiona duas traduções diferentes, do francês para o inglês; e eu aqui vou retraduzir estas para o português, mas procurando ficar o mais próximo possível da forma de cada uma.

Rachel Cooke diz que amou o romance de F. Sagan desde a adolescência, e desde que que leu pela primeira vez a famosa frase de abertura do livro:

« Sur ce sentiment inconnu dont l'ennui, la douceur m'obsèdent, j'hésite à apposer le nom, le beau nom grave de tristesse. »

Uma frase que eu poderia, numa primeira tentativa, traduzir aproximadamente, procurando manter inclusive sua estrutura :

Sobre este sentimento desconhecido cujo tédio e cuja doçura me obcecam, eu hesito em apor o nome, o belo e grave nome de tristeza.

Meio desajeitadão, até porque “obcecam” é uma palavra meio opaca, a gente tem que pensar um segundo a mais para poder entender, e “apor” é um verbo que eu evito mais do que beco escuro de madrugada. Uma solução parcial destes dois problemas poderia ser, numa segunda tentativa:

Neste sentimento desconhecido cujo tédio e cuja doçura me inquietam, eu hesito em colocar o nome, o belo e grave nome de tristeza.

Ficou mais legível, mas resta a questão de fidelidade. Em todo caso, como diz um tradutor amigo meu sem papas na língua, “de graça, só vou até aí.”

Mas preciso lembrar que nossa amiga Rachel leu o livro em inglês. A tradução que ela diz que leu na adolescência foi a de Irene Ash, que abre o livro desta forma:

“A strange melancholy pervades me to which I hesitate to give the grave and beautiful name of sadness”

Uma estranha melancolia se apodera de mim, à qual eu hesito em dar o nome grave e belo de tristeza.

Traduzir essas palavrinhas que envolvem sentimentos é sempre uma coisa traiçoeira, porque nem sempre palavras parecidas, em dois idiomas, correspondem a todas as nuances do que a gente descreve como o mesmo sentimento.

Lembro-me de Gregory Rabassa, o tradutor norte-americano de Cien Años de Soledad de Garcia Márquez, explicando por que o “soledad” em castelhano virou “solitude” em inglês, e não “loneliness”.

No caso da frasezinha de Sagan, “melancolia” e “tristeza” já são duas esquinas onde é preciso parar e observar o trânsito com cuidado; mas é o tal do “pervades me” que me deixa encucado.

Que eu saiba, não temos em português (ou pelo menos no português do meu Dicionário Houaiss) o verbo “pervadir” e o adjetivo “pervasivo”; temos invadir e invasivo, que não são a mesma coisa. Invasivo é um exército ou uma cirurgia; pervasivo é um perfume ou uma lembrança.

Traduzi “pervades me” por “se apodera de mim”, mas isso contamina o texto de uma conotação diferente. A tristeza, no original algo indefinível que aos poucos impregna uma mente ou uma sensibilidade, passa a ser algo que “se apodera”, conquista, arrebata, adquire poder... Não é a mesma coisa, em termos exigentemente tradutórios.

Mas olhe... nem é esse o problema. O problema, para Rachel, é quando ela, querendo reconstituir seus sentimentos de juventude, pegou de novo o livro de Sagan – só que agora em outra tradução inglesa, a de Heather Lloyd. E descobriu que este novo livro começava assim:

This strange new feeling of mine, obsessing me by its sweet languor, is such that I am reluctant to dignify it with the fine, solemn name of ‘sadness’.

Mais uma vez tento arremedar passo a passo a ordem sintática do original, o que nos dá mais ou menos:

Este meu novo e estranho sentimento, que me obceca com sua doce languidez, é tal que me deixa relutante em dignificá-lo com o nome delicado e solene de tristeza.

Rachel Cooke recuou diante dessa frase como se o livro a tivesse mordido, e comenta: “Ela soava aos meus ouvidos como se tivesse sido escrita por um robô”.

A comparação entre essas opções – no contexto de uma simples frase, embora uma frase de abertura, uma frase com altas reponsabilidades – mostra: 1) a dificuldade de encontrar um equivalente exato ao que foi dito, e sugerido, e implicado, e referido no original; e 2) a quantidade de soluções diferentíssimas a que diferentes tradutores podem chegar e geralmente chegam.

Uma matéria que peguei agora na web, da revista Exame, assim reproduz a frase numa tradução em português, sem citar o tradutor:

Sobre esta estranha sensação de que o tédio, a tranquilidade me obcecam, hesito em colocar o nome, o belo nome sério da tristeza. 

Data venia do nobre colega autor dessa tentativa, eu ainda ficaria com a minha que foi exemplificada acima, e que copio de novo:

Neste sentimento desconhecido cujo tédio e cuja doçura me inquietam, eu hesito em colocar o nome, o belo e grave nome de tristeza.

E para quem ficou curioso a respeito do caso de Gregory Rabassa traduzindo Garcia Márquez, vai aqui o arrazoado dele, extraído do seu livro de memórias If This Be Treason (New York: New Directions, 2005):

(...) Chegando a soledad, temos um caso de ambiguidade bem semelhante. (...)  A palavra em espanhol tem o sentido do seu cognato em inglês, mas também carrega em si algo de “loneliness”, e admite tanto os sentimentos negativos quanto os positivos associados à condição de estar sozinho. Preferi solitude porque é um termo mais abrangente, e porque contém em si o gérmen de loneliness, se levado até os limites, como Billie Holliday já demonstrou de forma tão eloquente.

Ele se refere à gravação de “Solitude”, que pode ser escutada aqui:


Meu comentário sobre isto é que “loneliness” é uma palavra muito focada no indivíduo, na sensação de estar sozinho no mundo, mas “solitude” é mais amplo, dá uma escala social, coletiva e até cósmica à condição de um povo que está sozinho no mundo porque “não tem quem puna por ele” e vai ter que se virar sozinho mesmo.

Rabassa comenta que no caso de Cem Anos de Solidão ele não seguiu seu método habitual de pegar o livro “do zero” e ler à medida que traduzia. Ele já havia lido o livro, sem saber que pouco tempo depois seria contratado para traduzi-lo; e talvez ao iniciar a tradução, e pensar no título, ele já tivesse em mente a escala majestosa de tempo, destino e fatalidade em que Garcia Márquez envolve, ao longo de toda a narrativa, seus personagens e sua cidade imaginária.

Sobre o livro de Rabassa, falei mais demoradamente aqui:


Ele traduziu também Clarice Lispector, e quando a conheceu pessoalmente num Congresso literário disse: “É aquele tipo raro de pessoa que parece com Marlene Dietrich e escreve como Virginia Woolf.” 










domingo, 30 de março de 2014

3460) Escolhendo títulos (30.3.2014)



Ainda sobre a questão do título de um livro (ou de uma obra de outra natureza, mas que comporte um título): sua escolha deveria ser objeto das mesmas discussões madrugada adentro que os casais geralmente fazem para escolher o nome de um bebê.  Com um fator de dificultação a mais, porque o nome do bebê basta ser interessante e agradável, não tem a obrigação de condensar a essência do bebê (que nem existência tem ainda, coitado, quanto mais isso), ao passo que título de livro precisa ser tão elucidativo quanto um nome próprio, tão personalizado quanto uma impressão digital e tão expressivo quanto um rosto.

No blog de Marcelino Freire “Ossos do Ofídio” (http://bit.ly/N2DOm8) li uma divertida discussão de Clarice Lispector com dois colegas. Ela queria intitular um livro seu A veia no pulso. Fernando Sabino foi contra, porque achou que o título sugeria Aveia no pulso. João Cabral disse que o título era ótimo, que não se tratava de um cacófato, e que as veias e o pulso são coisas que a mente associa uma à outra sem muito esforço, de modo que só um idiota entenderia errado. Aliás, o livro acabou se chamando A Maçã no Escuro – muito melhor, pelo meu gosto.

O jovem romancista perseguia o escritor veterano e enchia-lhe o saco pedindo sugestão de título para um romance. Um dia o cara se encheu e disse: Me diga uma coisa. Aparece algum tambor no seu livro? O rapaz: Não, não aparece.  Ele: Bom. Tem alguma corneta? O rapaz: Claro que não!  Ele:  Então está aí seu título: Sem Tambor nem Corneta!

Esse tipo de definição por exclusão lembra o conselho de Mark Twain de que sempre que se fosse criar uma biblioteca a primeira coisa a fazer seria não comprar os livros de Jane Austen. “Mesmo que nenhuma outra obra venha a ser comprada,” dizia Twain, “só pelo fato de não ter nenhum livro dessa senhora já será uma excelente biblioteca”.

Que ave misteriosa e insondável, a Coruja da Desinspiração, habitava o campanário mental de Machado de Assis, quando ele, a certa altura, anunciou que seu próximo romance seria intitulado Último?  (Não foi: é o atual Esaú e Jacó).  Ver que mesmo um indivíduo capaz de alguns títulos primorosos, como é o caso de Machado, considera usar um título tão torto e instável como Último, mostra que nenhuma fórmula esgota as possibilidades da resposta lá fora, de centenas, de milhares de pessoas diferentes. Você está acostumado a ler Os Pardaillans, ou Anos de Tormenta ou A Mansão Misteriosa, aí de repente ergue um livro no balcão da livraria e lê: Um Pouco Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo, você se pergunta que palavrão é aquele. Aí compra – porque o título inquietou. 


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

2422) A renovação da linguagem (9.12.2010)



Li num jornal literário este comentário de um crítico, que transcrevo sem citar a autoria, porque na verdade não me interessa contradizer o autor, e sim examinar por que motivo eu, que já disse a mesma coisa numerosas vezes, sempre o fiz com um certo desconforto e insatisfação. Dizia ele: “Fulano de Tal, com seu livro, não se propõe a renovar a linguagem literária. Ainda bem, porque de tentativas de renovação da linguagem a literatura brasileira está saturadíssima. Hoje em dia, essa prática se tornou lugar comum entre os escritores ‘bem’ pensantes. Mas afinal, depois de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, isso seria possível?”

Me parece verdadeiro, mas também me parece insatisfatório. Tenho uma certa impaciência com tentativas de “renovar a linguagem literária brasileira”, como se isto fosse tarefa para cada novo escritor que desembarca nas livrarias. Ao mesmo tempo me pergunto: será que acabou tudo com Guimarães Rosa e Clarice? Será que fechou a tampa, e não é preciso renovar mais nada? E, aliás, por que usamos o termo “renovar”? Renova-se uma literatura como quem renova um guarda-roupa durante uma viagem? Ou como quem renova um modelo de automóvel (tirando o acendedor de cigarros e botando um tocador de MP3, p. ex.)?

Não sabíamos (acho) que era possível ver o mundo com olhos como os de Kafka, até que Kafka surgiu e nos mostrou. Não imaginávamos (acho) que perscrutações íntimas, contraditórias, paradoxais e sem-desfecho, como as de Clarice Lispector, pudessem resultar em boa literatura; os livros de Clarice mostraram que sim. Muita gente escrevia romances sobre detetives durões que investigavam crimes brutais, cercados por mulheres sedutoras; eram livros rústicos, sensacionalistas, descuidados. Parecia impossível produzir boa literatura com ingredientes assim, mas Raymond Chandler mostrou que não. O romance regionalista rural era considerado um gênero estático, impermeável ao resto do mundo, sobre pessoas de baixo Q.I.; Guimarães Rosa mostrou que não.

Muitas tentativas de renovar a linguagem literária se frustram porque os autores, paradoxalmente, querem escrever parecido com o autor da renovação mais recente. A renovação se auto-destrói, cai no vazio, porque a comparação é inevitável entre o original e a cópia. O que seria de Rosa se tentasse escrever parecido com Afonso Arinos, e de Chandler se tivesse querido adotar o estilo de Dashiell Hammett, a quem admirava?

Não sei se todos os grandes autores queriam renovar nada. Queriam apenas se exprimir (acho) dentro de suas habilidades e seus limites. A literatura é uma Língua Geral cuja sintaxe e vocabulário pode receber acréscimos de qualquer autor. Os grandes individualistas trazem sua maneira de ver e maneira de dizer. Algo disso se incorpora. Mas aposto que eles não estavam querendo “renovar” nada. Escreviam assim porque não conseguiriam escrever de outra forma.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

1611) As modas literárias (11.5.2008)



(Rubem Fonseca)

Houve uma época, a partir dos anos 1960, em que o sucesso de Guimarães Rosa e James Joyce dava aos jovens da minha geração a idéia de que escrever bem era inventar palavras novas o tempo inteiro, recriar o “fluxo de consciência” dos personagens, etc. Foi um momento salutar para a literatura. Ajudou a libertar o talento de escritores que tinham instintivamente esse perfil mas não achavam um ambiente propício junto à crítica e o público. Rosa e Joyce os libertaram para ser quem realmente eram. O problema é com os escritores que não eram assim, mas acharam que para serem publicados e admirados teriam que escrever assim. A gente sente, instintivamente, quando o autor não tem uma idéia muito clara do que está fazendo e o faz somente para seguir uma moda.

Talvez Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Rubem Fonseca sejam os autores brasileiros com maior número de seguidores hoje em dia. “Seguidores” são pessoas que sofreram uma forte influência. São os que se identificaram a tal ponto com Fulano de Tal que absorveram suas idéias, suas opiniões, seu vocabulário, seu ritmo de fala, seus cacoetes, seus preconceitos, seus equívocos. Ao escrever, vibram em uníssono com o espírito de Fulano, e o que fazem não é nem sequer imitação, chega a ser quase uma psicografia mediúnica (mais admirável ainda quando se trata de autor vivo).

No caso de Clarice e de Rosa, é principalmente a linguagem que escraviza os jovens imitadores. Há leitores com uma propensão instintiva para o jogo lúdico da linguagem, a montagem e desmontagem de palavras novas, a derivação imprevisível, que são características de Rosa. Como ainda são muito jovens, não tiveram tempo de desenvolver isto por conta própria, e ao ler Grande Sertão na adolescência sofrem uma conversão brutal e definitiva como a que São Paulo sofreu na estrada de Damasco. Tornam-se rosianos, antes de terem tempo de ser quem são.

O mesmo se dá com Clarice, com sua sintaxe truncada que corresponde de maneira tão tocante às dificuldades dos adolescentes em produzir um raciocínio coerente com começo, meio e fim. Estão ali as crises de identidade em que nos sentimos dezenas de seres contraditórios e incompatíveis. As neuroses mansas que em vez de nos destruir como um fogo nos mantêm insones como uma luz. A catação incessante de cacos de uma realidade nunca apreendida por inteiro, e onde tudo oscila entre o urgente e o irremediável.

Já Rubem Fonseca veio ao encontro de numerosos escritores com propensão para a prosa jornalística, a ética estóica do “roman noir” americano, e um cinismo “blasé” e auto-suficiente que é tão carioca. Rubem fez com a narrativa policial brasileira o que Dashiell Hammett fez com a americana. Suas lições (como as de Rosa e Clarice) são numerosas e enriquecedoras, mas mais fácil do que estudar seus métodos (o que certos autores fazem com êxito) é tentar reproduzir seus resultados, o que já naufragou tanta gente.

sábado, 23 de janeiro de 2010

1560) As entrevistas de Clarice (13.3.2008)





Estou lendo a coletânea de entrevistas feitas por Clarice Lispector quando trabalhava na imprensa. O livro (Clarice Lispector entrevista, Rocco, Rio, 2007) traz 42 diálogos que Clarice travou com escritores, artistas plásticos, etc., dos quais 23 já haviam sido publicados numa coletânea anterior (De corpo inteiro) e 19 são inéditos. 

Clarice escreveu em revistas (Vamos Ler!, Fatos & Fotos, Manchete) e jornais (A Noite, Jornal do Brasil). O tom coloquial das entrevistas (onde às vezes ela fala tanto quanto o entrevistado) nos revela sua pessoa de uma maneira mais superficial, mas mais visível, do que a sua prosa às vezes obscura.

Clarice entrevistadora é aquilo que os falantes de inglês chamam de “candid”. Inesperadamente sincera e direta, ela faz em voz alta comentários que em geral a gente deixaria subentendidos. Confessa detalhes pessoais sem intenção de exibicionismo, apenas por estar vivendo um momento de conversa franca com uma pessoa amiga. 

Suas entrevistas eram na verdade bate-papos com pessoas que ela conhecia bem. Cada um desses diálogos envolve elogios recíprocos, admissíveis num encontro entre duas pessoas que se gostam mas que têm a consciência de ser personalidades públicas aos olhos do leitor. Mesmo a sós, são diálogos travados com um olho no leitor, como se estivessem num talk-show de TV.

O que os salva de serem uma rasgação-de-seda permanente é essa franqueza de Clarice, uma pessoa de emoções instáveis, hiper-sensibilidade, sinceridade abrupta. 

Um episódio bem descritivo de sua maneira de ser é contado num poema de João Cabral (“Contam de Clarice Lispector”, em Agrestes, 1981-85). Clarice está em casa com alguns amigos falando sobre a morte, recordando episódios dolorosos e engraçados sobre a morte de outras pessoas. Chega então outro grupo de amigos que vêm do futebol, entusiasmados, e passam a monopolizar a conversa discutindo a partida, “gol a gol”. E a última estrofe conclui: 

Quando o futebol esmorece 
abre a boca um silêncio enorme 
e ouve-se a voz de Clarice: 
“Vamos voltar a falar na morte?”.

As respostas dos entrevistados de Clarice são visivelmente copidescadas por ela, porque vemos em todas a mesma polidez sintática, a mesma correção vocabular, e aquele leve artificialismo que se instala na linguagem oral quando é filtrada pelos parâmetros saia-justa de linguagem escrita. 

Às vezes Clarice tomava apontamentos, outras vezes levava um gravador. Alguns depoimentos são tão longos e taxativos que me dão a impressão de respostas fornecidas por escrito, e não de um diálogo testa-a-testa. 

Os diálogos mais surpreendentes, para mim, são os que ela trava com figuras do mundo do futebol (Zagalo, João Saldanha). A relação pessoal mais distante que ela tem com os entrevistados dá um peso extra às respostas pessoais que extrai de cada um. No geral, são conversas inteligentes e leves, em que o leitor aprende tanto com as perguntas quanto com as respostas.





sábado, 12 de dezembro de 2009

1422) O mendigo e a camisa (4.10.2007)




(ilustração: Jan Adriansz van Staveren)

Walter Benjamin (Magia e Técnica, Arte e Política, Brasiliense, pags. 159-160) conta a parábola de indivíduos que conversam numa estalagem, enquanto um velho mendigo, vestindo apenas uma camisa suja, cochila a um canto. 

Os fregueses falam sobre o que pediriam se lhes fosse dado realizar um só desejo. Um diz que queria uma oficina de ferrreiro, outro queria uma casa nova, outro um bom casamento para a filha... Resolvem perguntar ao mendigo o que ele gostaria.

O mendigo responde: “Gostaria de ser um rei poderoso que certa noite tem seu país invadido, seu palácio tomado, seus aposentos saqueados. O rei foge pela floresta, vestindo apenas a camisa com que dormia. É perseguido, mas ilude os perseguidores, e depois de muito tempo consegue se refugiar numa estalagem, sujo, cansado, faminto, mas vivo.” 

Os outros homens ficam sem entender e um deles pergunta: “E o que você ganharia com isso?” Ele diz: “Uma camisa”.

É uma ótima parábola, até porque ficamos nos perguntando se o mendigo não seria de fato o próprio rei, em desgraça e incógnito. Mas ela me recorda um episódio contado por Clarice Lispector. 

Certa noite ela vinha da casa de uma amiga e ficou esperando ônibus na Praça da Bandeira. Era uma noite chuvosa e gelada do inverno carioca, ela estava com um vestido fino, sem dinheiro para um táxi, batendo o queixo de frio, e nada do ônibus aparecer. 

Dizia Clarice que isto a ajudou a dormir pelo resto da vida. Quando se sentia desconfortável na cama, bastava imaginar que estava lá, de novo, na madrugada da Praça da Bandeira, vergastada pelo vento gelado e pela chuva. De repente, pensava: “Não! Não estou lá! Estou aqui, na minha cama quentinha!” E adormecia.

A mecânica disto é parecida com aquela famosa história do bode na cabana: o mestre zen aconselha o lavrador (que se queixa da casa desconfortável) a colocar um bode na sala durante um mês e depois tirá-lo, para ver como a casa fica uma beleza. 

E parecida também com aquela piada do garoto que esperava a mãe no portão com a bola de futebol embaixo do braço e diz: “Mãe, sabe aquele seu vaso japonês bem caro?...” Quando a mãe arregala os olhos e leva as mãos à cabeça, ele prossegue: “Pois eu quebrei aquela vidraça que fica perto dele”.

É um pouco como a obra-prima de Philip K. Dick, O Homem do Castelo Alto, ambientada num tempo alternativo em que os EUA perderam a guerra e têm seu território dividido entre a Alemanha nazista e o Japão. Ali, um escritor de FC escreve um romance em que imagina um mundo feliz, o qual, por ironia, é muito semelhante ao nosso. 

Se eu fosse escritor de auto-ajuda escreveria um livro inteiro aconselhando às pessoas: “Caro amigo, se você anda sorumbático e macambúzio, se você acha que a vida não vale a pena, não se preocupe. Seus problemas acabaram! Basta você imaginar-se noutra vida onde é infeliz, mas por algum motivo consegue sonhar com esta vida aqui como um desejo irrealizável, uma felicidade inatingível”.





segunda-feira, 26 de outubro de 2009

1330) Que mistério tem Clarice (17.6.2007)



A propósito de uma exposição sobre Clarice Lispector que ocorre em São Paulo, Zuenir Ventura, num artigo no “Globo”, perguntou-se, e a nós: “Como uma escritora tida como hermética, inacessível, introspectiva, é capaz de tanto sucesso de público?” A pergunta do mestre Zuenir é a mesma que me fiz por muitos anos, até perceber que não tem resposta porque é uma pergunta iludida, uma pergunta cujas premissas não batem com a realidade. Eu, por exemplo, me perguntava como é que uma autora tão intelectual conseguia ser tão lida, copiada, citada e imitada por adolescentes. Ora, não é bem isso. Se existe uma autora brasileira que não é intelectual é Clarice. Ou melhor: ela não é intelectual no sentido livresco-erudito da palavra, e sim no sentido metafísico, no sentido em que o jagunço Riobaldo é um dos grandes intelectuais da nossa literatura.

Clarice não é uma racionalista: é uma intuitiva que usa palavras simples e diretas para exprimir sensações mentais tortuosas e obscuras. Introspectiva? Isso, sim. Tudo que lhe acontece é da retina para dentro. Ela é capaz de escrever um livro inteiro narrando os poucos minutos de contemplação mútua entre uma mulher e uma barata numa cozinha. Enredo não era seu forte, porque quando ela começa a contar uma história a história dispara a galope para dentro dela e começa a contá-la. Tudo acontece dentro da mente dela. Mesmo quando descreve uma cena com pessoas almoçando e conversando numa sala não temos a impressão de ver a sala, e sim de estar olhando uma foto de Clarice e na pupila do seu olho estar acontecendo a cena, como se fosse uma janelinha do YouTube.

Num texto publicado aqui (“Claríssimo Espectro”, 14.11.2004) falei que ela criava a loucura como quem cria um cachorro dentro do apartamento. Era o seu estilo de conviver com o paradoxo, de dizer “eu sou mais forte do que eu”, “Eu não sou Tu, mas mim és Tu” e outros paradoxos lógicos que a Razão não comporta mas que são a essência da Literatura. Para a lógica aristotélica, A é A e B é B, e a questão acaba aí. Para a sensibilidade literária, A pode ser B. Ou pode ser X, pode ser 345, pode ser um coelho correndo em cima de um muro. Qualquer coisa, no momento da fagulha poética, pode ser qualquer outra, porque o Inconsciente (isto que popularmente é chamado de “emoção”) é o amálgama que “dá liga” entre as duas, que as funde numa única essência. E o Inconsciente não é racional. Pode ser analisado racionalmente, como descobriram Freud, Jung, etc., mas ele próprio não funciona pelas leis da Razão e da Lógica.

Por que motivo os adolescentes em geral entendem e amam Clarice? Porque em seus momentos de introspecção é assim que eles se sentem, são A e são Não-A ao mesmo tempo, movidos pelo choque e antagonismo entre corpos em plena metamorfose, pressões familiares e sociais, obrigação de tomar partido em disputas que não entendem, exigências e dilacerações que os deixam sem saber se são uma pessoa ou uma barata.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

0943) O conto narrativo (25.3.2006)




(na foto, Rubem Fonseca)

O que é o conto narrativo? É o que conta uma história com começo, meio e fim. 

Parece uma obviedade, mas não é. A grande maioria dos contos que leio hoje em dia não contam nada. São registros de emoções, de impressões, de lembranças, entremeados com pequenos episódios. Servem ao autor para exemplificar uma idéia, mas a rigor não constituem uma narrativa. 

Simplificando bastante, eu diria que o conto narrativo é aquela história tradicional do século 19, mas que o conto do século 20, o conto moderno e contemporâneo, vem abrindo mão da narrativa com o mesmo espírito com que a Poesia abriu mão da métrica e da rima, e a Pintura abriu mão do figurativismo.

Algum problema com isso? Por mim, nenhum. Todos os estilos são interessantes, todos podem dar origem a contos de boa qualidade. 

O problema é quando essa cronologia começa a virar um juízo de valor, como se as formas mais recentes viessem necessariamente para substituir e extinguir as formas que as precederam. “Que coisa mais velha, pintura figurativa! O negócio é abstracionismo”. “Ah, ninguém faz mais poesia rimada e metrificada, isso é coisa de antigamente”. E assim por diante.

Vai daí que hoje em dia há uma enorme expansão do conto que não tem nenhuma história para contar. É o conto-crônica, o conto-poema, o conto-desabafo, o conto-auto-análise. 

Nada contra esse tipo de conto, é claro. Há pessoas que o transformam em obras-primas, como é o caso de Clarice Lispector. Mas a maestria de Clarice deixa nos seus jovens leitores a impressão de que qualquer pessoa pode (e deve) escrever como ela, assim como a maestria de Machado de Assis (cujos enredos, em geral, são limitadíssimos) nos dá a impressão de que qualquer sucessão de fatos banais do cotidiano resulta automaticamente num bom conto.

O que salva e justifica os textos de Clarice e Machado não são as histórias que contam, são a tensão elegante do estilo, onde cada frase parece uma corda retesada e pronta para desferir uma seta; e a sua capacidade de, a cada parágrafo, fazer emergir mais uma camada até então insuspeitada da psicologia de seus personagens (ou da voz anônima que nos fala).

Grande contista narrativo é outra coisa. Ele tem histórias originais a contar, histórias em que vemos uma imaginação em movimento, e não um simples observador do cotidiano (contra os quais, repito, nada tenho; mas não são a única opção estética possível). 

Edgar Allan Poe, Dalton Trevisan, Jorge Luís Borges, Rubem Fonseca, Ruth Rendell, Conan Doyle, Julio Cortázar... bem, não vou encher isto aqui com uma lista. Estes escritores imaginam pessoas, ambiente, uma situação invulgar, o desdobramento dessa situação, e tudo que sucede ao longo deste processo. 

No conto narrativo há sempre um senso de urgência, de tensão, uma concentração dramática nos fatos narrados que lhes dão um poder hipnótico e deixam em nós um eco inesquecível.









sexta-feira, 15 de agosto de 2008

0517) Claríssimo espectro (14.11.2004)




Era ininteligível à maneira das plantas, dessas trepadeiras que se expandem buscando a luz, que parecem imóveis, mas basta a gente ir lá dentro tomar um copo dágua que na volta ela já avançou mais um ladrilho. 

Perguntava um pouco o tempo inteiro. A caligrafia era tumultuada, evitava as linhas do caderno como se evita um tiroteio, as palavras dispersadas em várias direções por um terremoto silencioso.

Ainda hoje seu rosto é um mistério de olhos amendoados e malares salientes, cercado por penteados e roupas dos anos 50. Erguia o cigarro como se não lhe pertencesse. Escrevia em transe, aos arrancos, aos ziguezagues. 

Deus a definiu um dia como um círculo cuja circunferência estava em toda parte e o centro em nenhuma. Debatia-se na gosma espessa do tempo, retida no insuportável presente, vendo o calendário fluir à sua volta, escorrer sem remissão. Sua vida foi um afogamento. Suas mãos eram arcos e eram cordas.

Passou entre nós como um fantasma para o qual fôssemos nós os transparentes, nós e as forças que nos movem: paixão, coração, prazeres. Através da matéria, enxergava o balé das forças, a hierarquia inconstante das vontades, a fatalidade serena que impele a gota de chuva rumo ao chão e o chão rumo à gota de chuva. 

O destino descascou sua vida, enxaguou-a de tempestades, esboroando tudo menos a pedra lavrada das palavras.

Em volta dela, aonde fosse, movia-se aquele umbral. Falava de coisas ausentes como se estivessem sentadas ali naquela mesma sala. Óculos, xícara, leque, biscoito, batom: tudo isto era feito da mesma substância cristalina das mãos que os tocavam. Seu comércio com o mundo era solerte, na cumplicidade que as meras coisas mantêm entre si quando não estão sendo observadas.

Criava a loucura como quem cria um cachorro num apartamento. Aceitava o fato de que crescemos como uma árvore ao contrário, onde cada galho ramifica-se em outros galhos mais grossos, e estes em outros mais grossos ainda. Aceitava o gigantesco desperdício que é viver. 

Quando tinha insônia, aconchegava-se ao travesseiro e ao consolo de não estar numa madrugada fria, levando chuva num ponto-de-ônibus deserto. Tinha um corpo sem terra, uma mente sem teto. Escutava os pensamentos de todo mundo o tempo inteiro e não conseguia se concentrar nos seus. Pensava que ser todo mundo era uma obrigação, e que não estava sabendo se desincumbir direito.

Para ela, o ser e o não-ser eram as duas asas do ser. Via numa parede o que se vê nos espelhos, e via no espelho o que se vê nas janelas. Viveu separando com um bisturi as fibras do melodrama. 

Sobreviveu à própria infância. Passou a vida com um anzol cravado na língua da alma. Todas as noites um anjo a visitava, mas nunca lhe disse nada. O mundo passou por ela como o sol por uma peneira. Um sorriso oblíquo morava em sua boca, como se ela não soubesse que era apenas uma mulher feita de cacos de vidro.