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segunda-feira, 12 de agosto de 2024

5091) A biblioteca de Fernando Pessoa (12.8.2024)



 
O poeta Fernando Pessoa morreu em 1935, aos quarenta e sete anos, consumido pela solidão, o cigarro, a bebida e sabe-se lá mais o quê. Era um indivíduo intenso e arredio, embora tivesse cultivado amizades sólidas que duraram por toda sua vida adulta. 
 
Nunca se casou, embora tenha mantido uma espécie de namoro platônico com uma prima, Ofélia, que provavelmente lhe inspirou o famoso verso dizendo que “todas as cartas de amor são ridículas”. 
 
Pessoa deixou como herdeiros dois sobrinhos, parentes distantes a quem se juntaram seus amigos mais fiéis para administrar o espólio após sua partida – principalmente o famoso e inesgotável baú onde se encontravam, talvez, 90% de sua obra conhecida atualmente. 
 
Pessoa publicou pouco em vida. O único livro que publicou com seu nome foi o justamente famoso Mensagem. Os poemas que atribuiu aos seus “heterônimos”, poetas imaginários que ele usava para adotar diferentes atitudes e mentalidades poéticas, foram publicados aqui e ali durante sua vida. Os heterônimos eram um artifício conhecido de seus amigos mais próximos, mas nas décadas seguintes a sua morte tomaram o mundo de assalto. 
 
Sua biblioteca pessoal foi recentemente colocada à disposição dos leitores, pela Internet, num portal que enumera todos os livros encontrados em seu poder quando de sua morte, e tem imagens digitalizadas de páginas anotadas, comentadas, com dedicatórias, etc. 
 
São ao todo 1.312 títulos num total de 1.419 volumes, divididos em dez classes: 



 
Anos atrás comentei aqui no Mundo Fantasmo a biblioteca deixada por Guimarães Rosa, quando morreu em 1967. 
 
Aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/01/2453-biblioteca-de-j-g-rosa-1412011.html
 
Tenho uma curiosidade especial para saber o que liam e o que mantinham consigo esses escritores que admiro. Em parte por interesse histórico, vontade de avaliar (mesmo indiretamente, com indícios circunstanciais) possíveis fontes ou influências literárias. Com cautela, é claro. A presença de um livro numa biblioteca não prova que o livro foi lido; no máximo revela algum interesse por parte do dono da biblioteca. E nem tudo que lemos (ou que possuímos) nos influencia. 
 
Correr os olhos por uma lista assim serve também para nos surpreender. Por melhor que conheçamos o que alguém escreveu não é a mesma coisa ficar sabendo o que essa pessoa costumava ler. 
 
A biblioteca de Pessoa pode ser acessada aqui: 
https://bibliotecaparticular.casafernandopessoa.pt/index/index.htm
 
Pessoa tinha temperamento místico, ritualístico, e uma fascinação pelo simbolismo iniciático das sociedades secretas. Na Classe 0, “Generalidades”, de sua biblioteca, há numerosos livros sobre a Maçonaria e a Fraternidade Rosa-Cruz, interesses permanentes do poeta ao longo de sua vida. 
 
Por outro lado, tinha um interesse real pela ciência de sua época nessa mesma seção vê-se um livro de H. G. Wells: Anticipations of the reaction of mechanical and scientific progress upon human life and thought (1914). Eu tinha curiosidade em saber se Pessoa era leitor de ficção científica, não a FC das revistas populares (embora ele fosse fluente no inglês, idioma que aprendeu muito cedo na África do Sul, onde passou parte de sua infância) mas alguma coisa do chamado “scientific romance” europeu, ao qual ele certamente tinha acesso. 



 
E o nome que brotou nas listas da biblioteca foi justamente o de H. G. Wells, que durante o tempo de vida de Pessoa estava no auge de sua popularidade. Nas primeiras décadas do séulo 20, Wells era um autor prolífico, bem-falante, viajava pelo mundo, envolvia-se em polêmicas, era recebido por chefes de Estado. Foi o autor de FC com maior status politico internacional, rivalizado tempos depois por Arthur C. Clarke. 
 
E na Classe 8 da biblioteca pessoana encontram-se obras suas como First and Last Things , The invisible man, Kipps, Love and Mr. Levisham , The new Machiavelli, The sea lady, The short stories of H. G. Wells, The time machine, The Island of Dr. Moreau, Tono-Bungay, The wheels of chance, e When the sleeper wakes. Note-se que não são todos romances de FC – porque Wells, tipicamente para sua época, escrevia em todos os gêneros, sem fazer distinção autoral entre eles. 
 
Em termos da literatura hoje considerada “de gênero” (FC, policial, fantasia, etc.) os autores mais presentes na biblioteca pessoana são Wells e o inabarcável G. K. Chesterton, outro “monstro sagrado” da literatura da época, tanto em sucesso popular quando no respeito por parte da crítica literária. O autor de Orthodoxy morreu em 1936, um ano depois de Pessoa; foram rigorosamente contemporâneos (GKC alguns anos mais velho), e na biblioteca do poeta encontra-se o seu clássico A Incredulidade do Padre Brown (1926), a terceira das cinco coletâneas de contos com o padre-detetive. 
 
Outras obras chestertonianas espalhadas pelas estantes do poeta são What’s wrong with the world (1912, na Classe 3, de Ciências Sociais), A short history of England (1917) e a biografia George Bernard Shaw (1914), ambos na Classe 9, que inclui “Biografia”. 
 
A presença de todas estas obras sugere admiração, devoção, alinhamento ideológico ou estético? Nem tanto. No poema em prosa “Ultimatum” (1917), um dos textos fundamentais para se entender o pensamento de Pessoa, o heterônimo “Álvaro de Campos” passa o rodo na literatura, na cultura e na política da Europa, num dos ataques mais virulentos, mais eloquentes e mais acidamente verbalizados que a Europa já sofreu. 




“Campos” age como um iconoclasta que entra numa catedral ou num museu, cano-de-ferro em punho, e sai reduzindo a cacos todas as imagens que surgem na sua frente. 
 
E diz, a certa altura: 
 
(...)
Fora tu, H. G. Wells, ideativo de gesso, saca-rolhas de papelão para a garrafa da Complexidade !
Fora tu, G. K. Chesterton, cristianismo para uso de prestidigitadores, barril de cerveja ao pé do altar, adiposidade da dialéctica cockney com o horror ao sabão influindo na limpeza dos raciocínios ! 
(…)
 
Pessoa afirmava fazer poesia dramática, falando em nome de personagens que tirava da própria imaginação. E é curioso que, ao voltar sua metralhadora verbal contra a literatura européia, ele coloque assim, lado a lado, juntinhos, dois dos escritores mais bem representados em suas estantes. Dois dos seus mais fiéis companheiros de café, cigarro e madruga. 
 
Uma relação um tanto obscura na biografia de Pessoa é a que ele manteve com o mago Aleister Crowley, uma das personagens mais peculiares daqueles tempos. Crowley já foi descrito como uma mistura de Thomas Green Morton e o Conde de Cagliostro. Apelidado “a Besta do Apocalipse”, era um sujeito de personalidade forte, inteligente, carismático, sem escrúpulos, que alegava ter poderes paranormais e ser bem relacionado no mundo dos deuses e dos demônios. 
 
Fernando Pessoa tinha interesse pela magia ritual, e além disso Crowley era um dos personagens mais polêmicos na imprensa da época. O poeta tinha entre seus livros o 777 (1909) de Crowley, a biografia The Legend of Aleister Crowley (1930) de P. R. Stephensen, e a autobiografia (que alguns chamam “auto-hagiografia”) The Confessions of Aleister Crowley (1929). 
 
Estes dois últimos livros surgem na mesma época do misterioso encontro presencial de setembro de 1930 entre Pessoa e Crowley, na “Boca do Inferno”, em Cascais, quando o poeta ajudou o bruxo inglês a forjar o seu próprio desaparecimento, um episódio bizarro que nunca entendi direito e sobre o qual leria de bom grado um livro inteiro. 
 
Há algum material a respeito neste documento:
https://www.brown.edu/Departments/Portuguese_Brazilian_Studies/ejph/pessoaplural/Issue1/PDF/I1A08.pdf
 
Pessoa lia biografias de Oscar Wilde, Lord Byron, Percy Shelley. Há um pequeno volume, The Poe cottage at Fordham (1922, Reginald Pelham Bolton) que tem como foco a casinha novaiorquina onde Edgar Allan Poe viveu alguns momentos de felicidade efêmera com sua prima-esposa Virginia Clemm. Fiquei curioso quanto ao teor de The mental condition and career of Jesus of Nazareth (1904, Henry Leffman) e também de Lives of the necromancers or an account of the most eminent persons in successive ages who have claimed for themselves or to whom has been imputed by others the exercise of magical power  (William Godwin, 1876). 
 
Na Classe 1 da biblioteca, que envolve filosofia e psicologia, surge um título curioso sobre a sexualidade de Walt Whitman: Walt Whitman’s Anomaly (1913), de W. C. Rivers. Whitman é uma das grandes fontes de inspiração para os poemas de “Álvaro de Campos”. Seu tratamento poético do tema da homossexualidade causou escândalo na época, e é um viés presente na poesia de Álvaro de Campos, o “autor” de obras como “Tabacaria” e o “Poema em Linha Reta”. 
 
O interesse científico de Pessoa está mais manifesto na Classe 5, nas obras sobre “Matemáticas e Ciências Naturais”. Ali se encontram, ao lado de vários livros sobre Teoria da Evolução e o Darwinismo, obras sobre a Teoria da Relatividade: The Theory of Relativity (Henry L. Brose, 1920), Einstein (Alembert, 1923), Initiation aux théories d’Einstein (A. Berget, Gaston Moch, 1922), Relativity (William Rose, James Rice, 1927). 
 
São obras do momento, do quente da batalha, como se diz por aí. Obras da época em que Einstein, depois de muitos anos de luta, começava a impor à comunidade científica sua visão do Universo, da matéria, do espaço e do tempo (ele recebeu o Prêmio Nobel em 1922). Pessoa acompanhou, mesmo que o tenha feito superficialmente, essa batalha. 
 
E quanto à literatura de gênero, registro na Classe 9, literatura, o testemunho do amor irrestrito de Pessoa pelo conto detetivesco, ou “conto de raciocínio”, como ele os chamava. Conto e romance, é claro. A biblioteca preserva algumas revistas de contos policiais como All Detective Magazine (1934), Detective (1940) em meio a outras revistas literárias em geral. E ali estão títulos de autores clássicos daquele período, como Trent’s Last Case (E. C. Bentley), The Vane mystery (Anthony Berkeley), His Last Bow (Conan Doyle), Raffles (E. W. Hornung), The Old Man in the Corner (Baronesa de Orczy), The mystery lamp (Mary R. Rinehart) e John Silence (Algernon Blackwood). 
 
Pessoa reafirmou em várias ocasiões o seu gosto pela literatura policial-detetivesca, e chegou a praticá-la de forma fragmentária. Veja aqui: 
 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/02/4912-o-detetive-fernando-pessoa-1222023.html
 
Pessoa era leitor de Edgar Wallace, talvez o mais célebre autor de romances policiais daquela época. Não vi nenhum livro dele na biblioteca pessoana, o que nada prova; mas posso encerrar com esta observação arguta do poeta: 
 
A concisão e a captação do interesse do leitor, requeridas nas estórias detetivescas, não são menos requeridas em todas as literaturas. Nada se ganha com fatigar o leitor. Edgar Wallace é mais interessante do que Walter Scott, mas Edgar Wallace não é mais interessante do que Shakespeare. Há um Edgar Wallace em Shakespeare. 
(Fernando Pessoa, Obras em Prosa, Ed. Nova Aguilar, 1986, p. 490) 
 


(Fernando Pessoa, 1928)
 
 




quarta-feira, 3 de novembro de 2021

4760) A literatura fantástica no "Sgt. Pepper's" (3.11.2021)



Uma vez eu estava discutindo com uma turma sobre a enorme reviravolta que a ficção científica experimentou na década de 1960, na Inglaterra e nos EUA. Na Inglaterra houve principalmente o surgimento da revista vanguardista New Worlds, dirigida por Michael Moorcock, que divulgou a obra de autores importantes como Brian Aldiss, J. G. Ballard, Christopher Priest, M. John Harrison, John Sladek, John Brunner, Tomas M. Disch...
 
Comentei: “A FC estava presente em tudo, no cinema inglês, na cultura pop...”  E proferi a frase impensada, comprometedora: “A capa do Sgt. Pepper’s, dos Beatles, está cheia de escritores de ficção científica”.
 
Foi uma afirmação intuitiva, baseada na memória inconsciente, mas o rigor acadêmico me obriga a aboná-la com a observação empírica. A lista abaixo interpreta o termo “escritores de FC” no sentido mais amplo possível, incluindo personalidades cuja obra teve e tem algum tipo de influência no gênero, seja a influência pervasiva e difusa das grandes idéias, seja o contato com algum ícone específico.



Edgar Allan Poe (*) é um dos mais visíveis, até por estar bem no centro da fileira do alto. Poe é uma das figuras mais universais da literatura em inglês, todo adolescente leu alguma coisa dele. Do ponto de vista temático, está mais próximo dos gêneros “policial” e “horror”, mas ninguém questiona a importância que suas idéias tiveram para a FC. Escreveu sobre viagens de balão, viagens à Lua, o mito da Terra Oca, mesmerismo, hipnose, animação suspensa, fendas  temporais... Seu nome é citado por John Lennon na letra de “I Am the Walrus”.




Ao lado de Poe, na capa do disco, aparece o psicólogo Carl G. Jung. Suas teorias sobre arquétipos, sonhos e alucinações controladas, inconsciente coletivo e simbolismo influenciaram não apenas a literatura do mainstream mas também a literatura fantástica ocidental (Philip K. Dick era grande leitor de Jung). E coube a ele uma das mais detalhadas explicações psicológicas sobre o fenômeno dos discos voadores (Flying Saucers – A Modern Myth of Things Seen in the Skies, 1964).



Ainda na fila do alto, entre as figuras da capa do disco, o segundo personagem da esquerda para a direita é Aleister Crowley, o famoso mago inglês que durante décadas aprontou rituais escandalosos de ocultismo e magia ritual nas Ilhas Britânicas e fora delas (em Lisboa, envolveu-se num episódio bizarro com Fernando Pessoa, numa história que até hoje não foi bem contada). Chamava a si mesmo “A Besta do Apocalipse” (outros o chamaram “O Besta do Apocalipse”) e influenciou gerações de escritores de romances fantásticos. Somerset Maugham o usou como modelo para o tenebroso Oliver Haddo, o vilão de O Mágico (1908). Também influenciou inúmeros roqueiros crédulos, de Jimmy Page a Raul Seixas.



Na segunda fila de baixo para cima temos um peso-pesado, Aldous Huxley (*), o autor de clássicos como Admirável Mundo Novo, A Ilha (ficção utópica), O Macaco e a Essência (futurismo absurdista?) e outros. Huxley estava no auge de sua fama póstuma (morreu em 1963) quando o álbum saiu.

 

Logo em seguida, um pouco mais abaixo, aparece Dylan Thomas, o maior poeta do País de Gales e um dos maiores da língua inglesa. Uma parte menos conhecida de Thomas é sua prosa, embora o Retrato do Artista Como Jovem Cão (1940), uma brilhante coletânea de contos semi-autobiográficos, seja reeditada com frequência. Thomas escreveu numerosos contos de índole onírica, ocasionalmente macabra ou fantasmagórica. Uma boa seleção deles é The Collected Stories (New York: New Directions, 1984).

 

E logo ao lado dele temos a figura de Terry Southern, cuja interface mais notável com a ficção científica é o roteiro que fez para o Dr. Fantástico (1964) de Stanley Kubrick. Ao que se comenta, o romance original (de Peter George) era sério e com final otimista. Coube a Southern ajudar Kubrick na criação de um roteiro histérico, satírico, iconoclasta e de final comicamente apocalíptico. Era essa a praia de TS, que depois teve também alguma participação no roteiro de Barbarella (1968) de Roger Vadim.



Mais adiante nessa mesma fileira, intrometendo-se sobre a sobrancelha de Marilyn Monroe, está o inquestionável William S. Burroughs (*), autor de Naked Lunch (1959). A ficção de Burroughs é uma mistura de experimentalismo da vanguarda, delírio surrealista com forte viés alucinógeno (poucas pessoas escreveram sobre drogas com tanta franqueza e conhecimento de causa) e pulp fiction espacial absorvida na adolescência. Neste último aspecto, ele é uma influência reconhecida por William Gibson, J. G. Ballard, Philip K. Dick e outros.



Outro inquestionável, quase no fim dessa fila, no lado direito, é H. G. Wells (*), um autor que dificilmente deixaria de ser lido por jovens ingleses imaginativos como Lennon e McCartney principalmente. (Dizem que na elaboração das listas de sugestões para a capa desse álbum George Harrison se limitou a indicar alguns gurus indianos, e Ringo Starr disse: “O que vocês botarem eu concordo." )



Descendo um pouco e indo para a esquerda, aparece outro nome de peso, Oscar Wilde. É o criador de um dos fantasmas mais simpáticos do gênero terrorífico, o protagonista de O Fantasma de Canterville, que já traduzi para a Casa da Palavra, com as belas ilustrações de Romero Cavalcanti. E Wilde criou uma das mais poderosas imagens do “duplo” na literatura com o clássico O Retrato de Dorian Gray (1891), a brilhante narrativa decadentista de um indivíduo que é capaz de desviar a velhice, as doenças, os males do corpo, para um ponto afastado de si (a pintura que o retrata).



Por cima da cabeça de Ringo Starr aparece esse rapaz que nunca foi autor de ficção-científica, mas está aí simbolizando (para mim) um clássico do gênero. Johnny Weissmuller foi um dos melhores Tarzans do cinema, e certamente um ídolo da geração dos Beatles, que estão 1 degrau geracional acima de mim (9-10 anos em média). Ele nos faz lembrar, é claro, do grande Edgar Rice Burroughs, cujos livrinhos da Coleção Terramarear devorei na juventude; ainda tenho alguns deles, os mesmos exemplares comprados por volta de 1964, 1965, quando as guitarras da beatlemania já soavam em nossos ouvidos. Vale lembrar também que o autor foi o criador das aventuras marcianas de John Carter, que são pura FC pulp.



E chegamos finamente ao lado direito com Lewis Carroll (*), o autor das Aventuras de Alice no País das Maravilhas / Alice através do espelho. Aqueles livros que sobrevivem a qualquer adaptação para o “público infantil”. São literatura fantástica, isso ninguém pode negar; e como Carroll era um grande conhecedor e investigador da Matemática e da Lógica, seus livros são cheios de adaptações de postulados, teoremas, leis ou mecanismos dessas disciplinas das quais as Ciências da Matéria tanto necessitam.
 
Muito bem, então. Talvez a capa não esteja “cheia de escritores de ficção científica” propriamente ditos. Dos onze personagens listados acima, apenas cinco aparecem na The Encyclopedia of Science Fiction, e estão assinalados com um asterisco (*). Os demais, nos entanto, alargam, aos meus olhos de leitor, o universo cultural de onde brotaram esses quatro rapazes. Quando peguei no vinil de Sgt. Pepper’s pela primeira vez, nem Bob Dylan eu sabia quem era. Rastrear essas figuras me levou uma vida inteira, e só consegui neste século graças à Beatles Encyclopedia de Bill Harris (Hyperion, 1993) e à Wikipedia. Os Beatles, nessa capa, criaram uma constelação temática que ilumina o próprio conceito de FC.
 



 
 






domingo, 5 de julho de 2009

1149) A Besta Loura novamente (18.11.2006)


(Aleister Crowley e Barbara Bush)

A melhor coisa das Teorias da Conspiração é que nelas, ao contrário da vida real, tudo faz sentido. Tudo se encaixa, tudo acaba se fechando num desenho tão harmonioso que cada revelação nos faz exclamar: “Arrá!... Então era por isso!”. Aqueles que acreditam ser George W. Bush “a Besta Loura Calibã”, para usar um termo proposto por Ariano Suassuna na Pedra do Reino, acabam de receber uma caixa de munição pesada. No blog de um tal de Joseph Cannon foi levantada uma lebre que não tem mais tamanho: o presidente Bush seria neto de Aleister Crowley, o mestre da Magia Negra que foi chamado “a Besta do Apocalipse”. Crowley foi um desses charlatães pseudo-demoníacos que exercem fascinação sobre gente sem rumo, como foi o caso de Raul Seixas e Paulo Coelho, dois brasileiros ingênuos que foram por algum tempo seus admiradores. (Hoje, Paulo Coelho quer ouvir falar de tudo, menos de Crowley).

A história é longa, e sugiro ler os detalhes em: http://cannonfire.blogspot.com/2006/04/george-w-bush-barbara-bush-and.html. Crowley (1875-1947), ocultista famoso, fundou vários grupos dedicados à prática da Magia, onde se praticavam ritos sexuais. Era um sujeito egocêntrico, intelectualmente brilhante, capaz de dar os maiores golpes financeiros e de conquistar qualquer mulher (ou homem) por quem se sentisse atraído. À sua volta viviam poetas e socialites, gente com dinheiro, desocupada, e doida para ser cobaia da Magia Sexual.


Uma delas era Pauline Pierce, americana que por volta de 1924 deixou os filhos pequenos nos EUA para juntar-se à “entourage” de Crowley. Pauline era casada com Marvin Pierce, presidente da McCall Corporation, que entre outras coisas publicava as revistas McCall’s e Redbook. Pauline conviveu na Europa vários meses com sua amiga Nellie O’Hara, o amante dela, Frank Harris (autor do clássico erótico Minha Vida, Meus Amores) e Crowley. Em outubro de 1924, Pauline voltou para os EUA. Em junho de 1925, deu à luz sua terceira criança, uma menina que recebeu o nome de Barbara. A qual, muitos anos depois, se tornaria a esposa de George Bush, e mãe do atual presidente George W. Bush.

Vejam bem: estou vendendo pelo preço de fatura. Pelo que sei, tudo isto pode ter sido inventado pelo dono do blog. Consultei o capítulo dedicado a Crowley por Colin Wilson em O Oculto (Ed. Francisco Alves), mas este não menciona Pauline Pierce. Tanto Crowley quanto a família Bush, contudo, são personagens públicos, de vida bem documentada, e quem duvidar pode ir atrás e checar os nomes e as datas. A questão levantada por Cannon é de que existe a possibilidade de que Barbara, mãe de George W. Bush, não seja filha de Marvin Pierce, e sim um fruto das experiências de magia sexual que Pauline teria praticado com Crowley. O blog de Cannon compara uma foto de Crowley com uma foto de Barbara Bush, uma mulher severa, de cabelos brancos, que parece um general vestido de “drag queen”. Cá pra nós, parecem irmãos.