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domingo, 25 de setembro de 2011

2671) Livros Proibidos II (25.9.2011)



(Capa de Harry Potter, recriada por M. S. Corley)

A Semana dos Livros Proibidos (última semana de setembro), chama a atenção para o que os organizadores, nos EUA, chamam de “Banned and Challenged Books”. “Banned” é o livro banido, proibido oficialmente por um governo, com todas as consequências (apreensão policial dos exemplares à venda, com prejuízo para o livreiro, etc.). Muitas vezes isto envolve a ameaça à liberdade ou à integridade física do autor ou do editor. “Challenged” significa que o livro é impugnado, questionado, denunciado por grupos ou entidades, sob a alegação de que infringe algum princípio. O número de livros denunciados, claro, é muito maior do que o de livros de fato proibidos, já que nem toda denúncia é aceita. Ainda assim, o estrago é grande, porque a denúncia produz efeitos locais, principalmente no que diz respeito à eliminação de livros das bibliotecas e do currículo escolar de colégios e universidades.

Todo mundo entende que o Minha Luta (“Mein Kampf”) de Hitler seja proibido. O furibundo alemão é o saco-de-pancadas preferencial do Ocidente. A tal ponto, aliás, que por todo lado brotam jovens carrancudos, insatisfeitos, irritados com a hipocrisia da época, e começando a murmurar uns com os outros: “Por que será que proibiram o livro do cara? Vai ver que ele denunciava isso-tudo-que-está-aí... Era um idealista...”. E pronto, a proibição tem um resultado inverso: projeta uma aura de contestação e de martírio sobre a obra de um desorientado.

Já os livros de Harry Potter têm sido largamente denunciados nos EUA porque grupos evangélicos de variadas colorações os consideram uma apologia ao satanismo, à magia negra, etc. Se você acha isso absurdo, e que Harry Potter é inofensivo, o que dizer então da denúncia contra a série Capitão Cueca de Dav Pilkey? Sucesso aqui no Brasil, os livrinhos ficaram em sexto lugar na lista de obras mais denunciadas nos EUA em 2002, por “falta de sensibilidade”, por serem “inadequados à faixa etária” e por “encorajarem as crianças a desobedecer as autoridades”. Pois é. Começa com Capitão Cueca, daqui a pouco os meninos vão estar lendo Che Guevara.

A denúncia contra Harry Potter, é claro, é proporcional ao seu sucesso. Há incontáveis livros sobre meninos bruxos que entram e saem dos lares e das escolas sem que ninguém lhes dê importância ou os considere Os Evangelhos de Belfegor. Mas os professores não são bobos. Harry Potter foi um movimento social em torno de um livro, um movimento que arrebatou dezenas de milhões de garotos. Ninguém faz sucesso impunemente. Ninguém atinge milhões de pessoas sem que alguma autoridade se debruce sobre o caso, luneta em punho, para saber por quê.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

2133) Os embaraços da ficção científica (8.1.2010)



Em 2 de setembro de 2001, um domingo, a comunidade da FC norte-americana reuniu-se no Marriott Hotel, na Filadélfia, para a cerimônia de entrega do Prêmio Hugo, considerado o Oscar da ficção-científica nos EUA. A cerimônia ocorreu durante a 51a. Worldcon, a convenção mundial da FC, uma festa gigantesca que ocorre todos os anos, geralmente nos EUA. Com a presença de cerca de 6.200 fãs, foi uma das convenções mais numerosas das últimas décadas. O “gran finale” da Worldcon é a entrega do Prêmio Hugo nas categorias de melhor romance, melhor noveleta, melhor conto, etc. e tal.

Americanos adoram cerimônias desse tipo, e o Hugo é o prêmio de maior visibilidade no mundo da FC. Daí que não foi sem uma certa perplexidade que, ao ser aberto o último envelope da noite, constatou-se que o melhor romance de ficção científica escolhido em 2001 foi “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, de J. K. Rowling. Tem gente esbravejando até hoje. Na Internet e nas revistas especializadas muita gente considerou isto uma infantilização do prêmio, uma tapa na cara dos fãs mais radicais de FC. O Hugo ir para um mau livro de FC já rende polêmica bastante, mas foi esta a primeira vez que isto aconteceu com uma obra que, embora ligada ao que chamamos “literatura de gênero” (e que inclui FC, fantasia e horror), não tinha o menor vínculo com a FC, e era, ainda por cima, um livro infantil. A FC estava deixando de lado seu papel de observadora do futuro?

Parece que sim, porque nove dias depois dessa cerimônia na Filadélfia todo mundo sabe o que aconteceu. Minha imaginação doentia me faz supor que havia pelo menos uns 500 leitores de FC tomando cafezinho e discutindo o resultado do Prêmio Hugo em diferentes andares do World Trade Center quando os aviões sequestrados explodiram nas duas torres. Terrível ironia para um gênero que é tido pelo grande público (embora erradamente, a meu ver) como uma literatura que nos avisa sobre o que vai acontecer no futuro. O futuro eram os terroristas islâmicos estudando nos EUA como decolar (mas não como pousar) um Boeing. A FC, naquele momento, era Harry Potter.

Vendo tudo à distância, hoje, é melhor reconhecer que o prêmio (para o qual votam todos os participantes da Worldcon, independentemente de sexo, idade ou preferências literárias) refletiu a chegada de uma geração de leitores mais jovens, apaixonados por Harry Potter, e muitos dos quais estavam votando no Hugo pela primeira vez. Não há como negar, no entanto, que o resultado simbólico desse prêmio mostrou um ponto de inflexão que o mercado da FC estava tomando naquele momento, em pleno terremoto editorial. Grandes conglomerados não-livreiros estavam adquirindo editoras de peso e de renome no mundo inteiro, e quem dava o tom eram os “grandes sucessos”. O mercado editorial, que sempre havia sido mais ou menos autônomo, tornou-se um apêndice (muitas vezes um apêndice facilmente extirpável) do grande mercado corporativo.

sexta-feira, 12 de março de 2010

1782) Dawkins versus Harry Potter (25.11.2008)


O professor Richard Dawkins é um cara que gosta de pegar briga pesada. Recentemente escreveu um livro contra Deus (A Ilusão de Deus). Agora, não satisfeito, foi mais longe e resolveu enfrentar Harry Potter. 

Numa entrevista recente, Dawkins protestou contra o que ele acredita serem hábitos nocivos que os livros de J. K. Rowling estão disseminando entre os jovens, os quais, segundo ele, “estão sendo criados no hábito de acreditar em feiticeiros e encantamentos”. “O livro que vou escrever no ano que vem,” disse Dawkins, “será um livro destinado às crianças, mostrando-lhes como refletir sobre o mundo, e mostrando o contraste entre o pensamento científico e o pensamento mítico”. 

Se for apenas isto, estou de acordo, porque pensamento científico e pensamento mítico são duas coisas muito diferentes, e que precisam ser identificadas com clareza. O nó da questão, no entanto, é que Dawkins provavelmente vai dizer no seu livro que o pensamento científico é o único que está certo, e o pensamento mítico está errado. É justamente nessa bifurcação que eu divirjo e discrepo do nobre pensador. 

O pensamento científico nos serve para entender o mundo material que nos cerca. As ciências que cultivamos deveriam ser chamadas de Ciências da Matéria, porque afinal não é de outra coisa que tratam. 

O pensamento mítico, por outro lado, trata das Ciências da Mente, um domínio totalmente diverso. Elas funcionam de outro jeito, e manipulam outros parâmetros. Dawkins talvez seja (espero não estar sendo injusto com o professor) um desses caras para quem a palavra grega “mito” significa “mentira”, e este simples fato torna desnecessário qualquer estudo a respeito. Se é mentira não é verdade, e se não é verdade, para que perder tempo com isto?! 

O professor ficaria surpreso se visse que grande parte dos garotos que lêem Harry Potter e suas aventuras feiticeiras também lêem autores de ficção científica como Isaac Asimov. As duas mentalidades não apenas podem coexistir, como a literatura é justamente o melhor espaço para essa coexistência. 

A literatura imaginativa desperta a curiosidade de garotos e garotas a respeito do mundo da matéria, do mundo da mente, do mundo dos átomos, do mundo da mitologia. Garotos e garotas inteligentes lêem com o mesmo prazer livros sobre feitiçaria e sobre espaçonaves, livros sobre cavaleiros medievais e sobre robôs. Para eles, tudo pertence ao mundo da imaginação, pertence às fronteiras da realidade. Se umas coisas funcionam na vida prática e outras não, qual é o problema? É de literatura e de imaginação que estamos falando. 

Dawkins me parece às vezes um Inquisidor ao contrário, um sujeito que está numa cruzada ateísta para banir a religião do mundo mesmo que seja à base de fogueira e Santo Ofício. Um procedimento nada científico, professor. Nada científico. Me dá às vezes a impressão de que ele sofreu algum tipo de enfeitiçamento, mas, cala-te boca.





quarta-feira, 11 de novembro de 2009

1357) O Tesouro de Harry Potter (20.7.2007)




O mundo pegou fogo de novo. Está saindo mais um livro de Harry Potter, e mais um filme. A imprensa inteira se vê obrigada a falar a respeito, e isto pode ser um bom sinônimo de sucesso. 

“Sucesso é quando todo mundo quer falar de você, mesmo que você não queira”. 

Uma das perguntas mais repetidas é: qual a razão do sucesso de Harry Potter, das dezenas de milhões de livros vendidos, etc. e tal? Ninguém sabe nem saberá. Sucesso é algo imponderável, não tem fórmula. Se tivesse, todo mundo aplicava. 

Fala-se de marketing, de campanhas publicitárias, etc. e tal. Bobagem. Campanha nenhuma arranca um livro da estaca zero. As campanhas, os cartazes, os fã-clubes, os bonecos de plástico, os bonés e mochilas... tudo isso alavanca as vendas de um livro, mas somente depois que o livro já fez sucesso. 

O primeiro milhão de livros vendidos é o mais difícil, mas depois dele, é como diz Paulo Coelho, “o Universo inteiro conspira a favor”.

O gosto do público, felizmente, ainda é imprevisível. Podemos, talvez, avaliar o que fez sucesso no ano anterior. Se o Homem Aranha ou o Código da Vinci arrebanham milhões de compradores aí está um bom sinal. De imediato, candidatos a milionários começam a rodar filmes intitulados O Homem Lacrau ou a escrever O Código Michelangelo, crentes que vão vender a mesma quantidade – e não vendem. O público não é burro. Somente uns 10% se deixam enganar por esses aproveitadores de última hora. 

O editor que lançou Paulo Coelho, Nelson Liano, dizia que recebia por semana 20 ou 30 livros com as palavras “Mago” ou “Alquimista” no título, sem contar os numerosos livros de gente que percorreu a pé o Caminho de São Tiago. Sabe quantos desses venderam um milhão? Somente o primeiro, que não tinha ambições tão altas. O resto, que tinha, afundou.

Dentro dessa engrenagem mortal a que chamamos O Mercado, existe uma lei não-escrita que rege todos os comportamentos e define todas as estratégias: 

“O sucesso é contagioso, e o fracasso também”. 

Se quisermos entender o cinema de Hollywood, o show-business musical, as Bolsas de Valores, as articulações políticas do Congresso brasileiro, e o comportamento dos nossos adolescentes, temos que levar em conta essa Lei de Newton que rege todos os fenômenos de atração e repulsão social. 

Quando você está subindo, está aparecendo, está vendendo, está fazendo sucesso, todo mundo quer se aproximar. Todo mundo fala bem de você, todo mundo jura que é seu amigo “desde o tempo em que ele era um joão-ninguém”, todo mundo telefona só para bater papo, todo mundo chama para um projeto, todo mundo convida para uma participação especial, todo mundo tem uma grande idéia e acha que você é a pessoa certa para participar dela. 

Por que? Por causa da Mágica de Contato, coisa que os antropólogos descobriram há muito tempo junto aos índios. Comprar e exibir um livro de Harry Potter é participar do sucesso de Rowling. E depois ainda dizem que mágica não funciona.






quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

0754) Harry Potter is all right (18.8.2005)



I don’t know about you, dear reader – but I enjoyed the first two Harry Potter books, and didn’t read the others for the only reason that I have lots of more important books to read; and moreover, at this point of the championship, Ms. Rowling can do very well without my scarce and hard-earned reais.

Eu ia continuar em inglês mesmo, mas lembrei que devo satisfações a outra parte do meu público leitor, então bora simbora na língua de Camões. O fenômeno Harry Potter continua de vento em popa, e o recente lançamento de Harry Potter and the Half-Blood Prince trouxe mais alguns fatos interessantes para o folclore já farto que cerca a Pottermania. O que me traz aqui no momento é algo que li na Folha de São Paulo. As vendas antecipadas bateram recordes em vários países, e um balanço feito entre nossas livrarias mostrava que nos primeiros dias após o lançamento já haviam sido vendidas cinco mil cópias de HPATHBP somente aqui no Brasil. Tu já pensou uma coisa dessa? Cinco mil exemplares do livro em inglês foram comprados em nossas livrarias. E eu não tou falando naqueles livrinhos infantis com trinta páginas, cheio de figuras e uma letrona desse tamanho. São 652 páginas, meu camaradinha, e o preço é 17 dólares. Faça suas contas do peso total do investimento.

Cinco mil pessoas dispostas a ler Harry Potter em inglês me parecem um bom sinal. Claro que muitos escritores brasileiros que não vendem nada vão dizer que é essa concorrência desleal que está reduzindo as vendas dos livros de autores brasileiros. Besteira. Ora, os meus próprios livros não vendem quase nada, mas quem disse que a culpa é de Harry Potter? Todo escritor tem que procurar sua audiência, as pessoas que podem se interessar por aquilo que ele tem a dizer. A maioria não consegue encontrar; paciência. A sra. Rowling encontrou o público dela, e pouco importa se são filhos de americanos que moram no Brasil, se são garotinhos ricos que têm aulas particulares de inglês, ou se são garotos que ficam economizando a mesada durante os anos que J. K. Rowling leva pra escrever um catatau daquele tamanho. Por que não? Eu faria o mesmo.

Sou escritor, e tudo que crie mais leitores no mundo é bem vindo. Acima disto sou leitor, e digo que qualquer maneira de amar a literatura vale a pena, num contexto em que tudo contribui para nos afastar dela. Não sou apocalíptico, não sou inimigo dos computadores nem dos “games”; em vez de jogar pedra na planta do vizinho, eu agôo a minha pra ver se ela cresce bem verde. (Esqueça o verbo, amigo – é licença poética.) O feiticeiro Potter e o mago Paulo Coelho, tão vilipendiados, têm mostrado a milhões de pessoas que livro é espelho, janela, tábuas-da-lei, retrato-do-mundo, tapete mágico. Você tem o direito de não gostar desses livros, mas eles acabam sendo um excelente adubo para as mentes jovens que daqui a dez anos estarão adentrando o universo de Guimarães Rosa ou Garcia Márquez.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

0576) Harry Potter vs Tolkien (22.1.2005)


(J. R. R. Tolkien)

O sucesso das séries “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis” tem levado muita gente a colocar os dois no mesmo saco. Afinal de contas, são muitos os pontos que as duas obras têm em comum. Ambas são de autores britânicos, abordam um universo fantástico, têm um poderoso apelo junto aos jovens, vendem milhões de livros no mundo inteiro, deram origem a filmes que também tiveram enorme sucesso. Isto faz com que muita gente raciocine como certa vez vi alguém dizendo: “Está faltando quem faça literatura de boa qualidade, e isso cria um vácuo por onde acabam entrando essas coisas tipo Harry Potter, Senhor dos Anéis...”

Peço licença para discordar. Peguemos os livros de J. K. Rowling. Ela não é uma grande estilista, sua imaginação é vulnerável a clichês (mas só percebe isto quem lê muita Fantasia inglesa), e parece ter uma tendência a escrever de forma cada vez mais prolixa. Tirando isto, seus livros são excelentes aventuras para garotos na faixa dos 8 aos 14 anos (estou falando garotos europeus, pois nem todo garoto brasileiro de 8 anos lê um livro sem figuras daquele tamanho). Têm histórias bem imaginadas (dentro das convenções do gênero), um protagonista interessante. E têm um forte senso de finalidade: o leitor sabe que cada um dos sete livros previstos irá narrar um dos sete anos necessários para a formatura de Harry como feiticeiro na escola de Hogwarts. A própria Rowling, na TV, mostrou certa vez um caderno onde ela diz ter a sinopse de todos os livros. O final já existe. Todos esperam chegar lá um dia.

Harry Potter é um entretenimento agradável, que não faz mal nenhum a um garoto, pelo contrário, dá-lhe a bendita e inesquecível experiência de “ler um livro grosso até o fim”. Li apenas os dois primeiros, e não tenho nada contra.

O Senhor dos Anéis é outra história. Tolkien é um erudito, um estilista, um poeta, e um indivíduo de pensamento profundo, com idéias vastas e complexas sobre o mundo, e que escolheu o gênero da Fantasia Heróica para exprimir estas idéias. Compará-lo com J. K. Rowling é como comparar Ingmar Bergman com George Lucas. Tolkien é um autor do mesmo time de (no Brasil) Guimarães Rosa, Ariano Suassuna e Euclides da Cunha. Pertence a uma linhagem literária de enorme valorização da tradição, do nacionalismo, e da firme convicção de que o Mundo é um campo de batalha onde se defrontam o Bem e o Mal. Seu estilo é um tanto pesadão mas clássico; os poemas que ilustram seus romances são obras impecáveis. O mundo fantástico que criou não tem paralelo. Pode-se discordar dele, mas não negar sua estatura.

Rowling e Tolkien não surgem num vácuo de ausência de boa literatura. Surgem num contexto em que a literatura fantástica vem sendo reavaliada e recriada por escritores e leitores, bem à frente, com a crítica tentando alcançá-los pouco a pouco. O mais notável deste processo é que ele seja simbolizado por autores tão distantes e tão diferentes quanto estes dois.