Mostrando postagens com marcador Monteiro Lobato. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Monteiro Lobato. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

4538) O autor sem nenhum caráter (2.1.2020)




(Monteiro Lobato)


Eu tinha acabado de comprar um livro na banquinha do sebo e ao passar na calçada de um bar vi alguns braços se erguerem: eram amigos que estavam tomando um chope para comemorar o fim do expediente. Meu expediente só começa pra valer de noite, mas num ato de solidariedade corporativa puxei uma cadeira e mostrei de longe, ao garçom, o indicador erguido.

– Comprou livro? – perguntou um deles, olhando o saco plástico que botei em cima da mesa.

Abri o saco e mostrei: era A Barca de Gleyre, de Monteiro Lobato. Livro de correspondências dele com Godofredo Rangel. Era um dos dez títulos favoritos de Guimarães Rosa.

– Lobato? – disse um deles, dando um gole. – Mas ele não era racista?

O racismo de Lobato acaba de ser descoberto pelas redes sociais, que são uma espécie de confessionário público onde todo mundo vai confessar os pecados alheios.

– E você é machista – respondi. – E nem por isso eu deixo de ler as porcarias que compro naquelas tuas noites de autógrafos, onde não vai ninguém.

Houve uma gargalhada geral, inclusive dele (cujas noites de autógrafos, diga-se de passagem, botam gente pelo ladrão), e ficou por 1x1. Mas a gente entrou num corredor-de-discussão interessante: o fato de um autor cultivar uma filhadaputice qualquer deve riscar a obra dele de nossas leituras possíveis?

No tiroteio da conversa alguém lembrou que William Faulkner era alcoólatra, pecado venial que foi minimizado por todos, com mais uma rodada de chope. Dostoiévsky perdeu fortunas no jogo, lembrou outro; mas desde quando o brasileiro acha que jogo é pecado? Jogo é um esporte nacional, mais generalizado do que o futebol. Céline era antissemita, disse alguém. Eu nunca li Céline, mas não seja por isso: já devo ter lido muitos antissemitas sem saber.

Chegamos a um veredito provisório: pode até existir algum indivíduo-ou-indivídua que não tenha defeitos de caráter, mas essas figuras certamente não serão escritores profissionais. Serão monges ou monjas em algum mosteiro remoto, numa cordilheira onde se fala o sânscrito.

Quem é escritor(a) é porque é humano, demasiado humano. Tem algum defeito de fábrica, e os primeiros da fila são a vaidade intelectual, a autoindulgência afetiva, a propensão para cagar regras e a ânsia de enriquecer sem fazer força. Depois vêm o machismo (em homens e em mulheres), o racismo, o classismo, o voto-do-partido-oposto-ao-nosso...

Não acaba nunca, até porque os defeitos que criticamos nos escritores, agora em 2019, não são necessariamente os mesmos que criticávamos vinte ou trinta anos atrás.

A questão que se coloca para muita gente ansiosa é expressa mais ou menos nesses termos: “Mas como ele pode ser um grande escritor, se em sua vida pessoal ele era um canalha, ou era desonesto, ou era cruel, ou era bajulador de poderosos, ou batia na mulher, ou apanhava da mulher?...”

Ser escritor (artista, etc.), muitas vezes, é um processo de compensação num indivíduo que sabe estar trilhando um caminho nebuloso em outras regiões da vida. Muitos autores de belos poemas sobre a espiritualidade humana derivaram para a religião movidos pelo tormento de se acharem grandes pecadores.  Talvez nem o fossem tanto, aos nossos olhos de 2019. Mas eles sabiam a vida que levavam. Achavam-se culpados de pecados inomináveis, e condenados ao inferno; e procuravam se redimir através da poesia, não pedindo desculpas ou escondendo suas “faltas”, mas lançando ao seu Deus perguntas sérias sobre sua própria condição e a condição humana em geral.

Quem espera de um escritor uma impossível pureza de caráter e uma improvável nobreza de sentimentos está atribuindo ao ofício literário um poder que ele não tem: o poder de servir de modelo para todos nós, para que digamos aos jovens, “olhem só, o Grande Escritor Fulano é assim, procurem ser como ele!”.  Não, não é isso.

Um livro é como uma chapa de raio-X. “Olhem só o estado do pulmão desse rapaz!...” A chapa é tirada para nos dar uma idéia do que acontece com aquela pessoa, e o livro é escrito por uma razão não muito diferente. Não temos que ser como os escritores. Nenhum desses caras deve servir de modelo para nós. Não são santos nem heróis da pátria. Alguns se metem a ser, e acabam se tornando figurões meio patéticos.

A literatura é feita para nos dizer o que somos, e não “como devemos ser”. E o que somos nem sempre é muito agradável ao espelho. Somos monstros? Não, somos até bonitinhos por fora (nas fotos, nos currículos Lattes, nas redes sociais) mas por dentro somos todos quasímodos. Me lembro de um bêbo que me confidenciava, anos atrás: “Rapaz, todo mundo me acha todo certinho, mas por dentro eu sou pior do que uma batida de trem.”

Não era um escritor, era um leitor. "Meu semelhante, meu irmão."


  



















quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

4421) Algumas leituras de 2018 - III de 3 (3.1.2019)




(conclusão)
PROSA CONTEMPORÂNEA

Memorial de Maria Moura (BestBolso) de Rachel de Queiroz foi talvez o romance que mais me impressionou este ano. Maria Moura é uma capitã de jagunços, uma espécie de Diadorim vestindo calças e montando a cavalo, mas sem ambigüidade sexual. O livro conta a criação, ao longo de muitos anos, de um valhacouto de assaltantes nas faldas da Serra do Padre. Os conhecimentos da autora sobre a História do Ceará dão solidez à narrativa, que é precisa e vai no osso. E a prosa é das melhores que o Brasil já deu. Límpida, forte, cheia de sutilezas inesperadas.

A árvore que falava aramaico e Cavalos de Cronos (ambos da Ed. Zouk, Porto Alegre) de José Francisco Botelho, são dois livros de contos onde o mainstream se alterna com o fantástico, e no segundo a prosa se alterna com a poesia narrativa. Botelho (que traduziu para o português obras de Shakespeare e de Conan Doyle, além dos Contos de Canterbury de Chaucer) é um narrador de prosa segura, rica de observação. Seus contos fantásticos exibem um sentimento ominoso que brota ao mesmo tempo da paisagem física e das memórias familiares. Há um pouco de Borges e de Kafka, mas nos melhores momentos ele evoca também os pesadelos ancestrais de Arthur Machen e Algernon Blackwood.

Days of Awe de A. M. Homes foi um volume de contos que traduzi para a Companhia das Letras. A autora tem uma prosa rápida, cortante, excelentes diálogos, e descreve um ambiente californiano meio surreal de tão específico; lembra os quadrinhos de Daniel Clowes. Aquelas histórias de classe média urbana onde uma coisa bizarra e surreal pode acontecer a qualquer instante.

A Colônia de Férias (Alfaguara) de Emmanuel Carrère. Publicado num volume conjunto com O Bigode, é a história de um menino amedrontadiço e fantasiador que se vê ilhado entre gente estranha, sendo que crimes hediondos ocorrem à sua volta. Carrère explora aquela linha romanesca bem francesa de descrever com minúcias todas as alternativas e contra-alternativas de pensamento de uma pessoa apavorada, arrastada por desejos que não compreende e aos quais tenta dar justificações pueris.



LIVROS SOBRE LIVROS

A Barca de Gleyre é um clássico, dois volumes das cartas de Monteiro Lobato para seu grande amigo, o tradutor e escritor Godofredo Rangel. São extensas discussões sobre mil assuntos mas principalmente literatura. Lobato, escrevendo para uma platéia de um só, era mais Lobato do que nunca. Poucos livros são capazes de revelar a este ponto, sem pose, no calor do momento, a paixão pela literatura.

A Marca do Z (Jorge Zahar Editor) de Paulo Roberto Pires conta a história da Editora Zahar, uma das editoras que fizeram a cabeça da minha geração, talvez a melhor editora de ciências sociais para o grande público. Cada capa de livro lido dá vontade de ler de novo. Um livro-homenagem cheio de revelações sobre as idas e vindas do mercado editorial antes, durante e depois dos anos da ditadura militar. E o retrato de um homem que amava os livros.

Em Memória de João Guimarães Rosa (Ed. José Olympio, obra coletiva) e Joãozito (Ed. José Olympio) de Vicente Guimarães são duas obras importantes sobre o escritor mineiro. O primeiro registra as numerosas homenagens logo após sua morte em 1967, inclusive os discursos na Academia Brasileira de Letras, e traz um ótimo material adicional sobre sua vida e obra. O segundo são as memórias de seu tio materno Vicente, que pela proximidade etária foi quase que um primo do escritor. Ambos são essenciais para conhecer o reflexo de sua personalidade e de sua obra sobre seus contemporâneos.

Autobiografia Poética (Ed. Autêntica) de Ferreira Gullar é um balanço comedido e frequentemente autocrítico do grande poeta sobre suas aspirações, paixões, desencantos e guinadas conceituais. Inclui alguns textos de prosa crítica sobre poesia, lúcidos e bem argumentados, como tudo que Gullar produziu.

A Arte do Romance (Companhia das Letras) de Milan Kundera é uma coletânea de artigos sobre a escrita. Algumas opiniões idiossincráticas, boas reavaliações da obra de seu conterrâneo Franz Kafka, de Jacques Diderot, e em geral um conjunto de reflexões que vale a pena ler e considerar.

O flâneur das duas margens (José Olympio) de Guillaume Apollinaire é uma coletânea de artigos do poeta surrealista sobre ambientes e personagens obscuros da Paris dos anos 1910. Poetas, donos de bar, sebistas, vagabundos, todos são retratados com riqueza de detalhes e de observação. Um mundo de cem anos atrás, mas que parece ainda vivo e a cores.

Shakespeare & Co (Casa da Palavra) de Sylvia Beach, é o volume de memórias, também do princípio do século 20, da livreira que se tornou a primeira editora do Ulisses de James Joyce. Como qualquer livro desse tipo, é um desfile de episódios pitorescos vividos por grandes escritores e artistas, suas excentricidades, suas polêmicas, seus pequenos gestos de generosidade ou de mesquinhez.









domingo, 21 de outubro de 2018

4396) A arte de escrever limpo (21.10.2018)





(Monteiro Lobato)


Um autor francês publicou há poucos anos um livro onde ensinava o leitor a conversar com firmeza sobre um livro qualquer, mesmo sem o ter lido. Entrando no clima, não comprei nem li o livro, que aliás é excelente. E me veio a idéia de fazer um livrinho fino listando (este é o século das listas; o próximo será o das mãos espalmadas na parede da caverna) Os 100 Clássicos da Literatura Universal Que Muito Provavelmente Você Morrerá Sem Ler.

O tratamento um tanto brusco do título não se dirige ao leitor, mas a mim mesmo: “Imbecil, tu passa um mês relendo um livro véi de Ellery Queen que já leu três vezes, enquanto nunca leste Homero, Dante, Stendhal, Gjerellup, Pontopiddan...”

E me veio à mente Camilo Castelo Branco, famosíssimo autor português de quem nunca li uma linha sequer. Camilo é tido como um autor melodramático, prolífico de enredos e visceral de sentimentos, com uma linguagem por vezes desabrida, mas sempre com a voz e a narrativa sob controle. Uma mistura de Balzac e Dumas, com traços de Nelson Rodrigues? Difícil saber sem ter lido.

Quem lia Camilo e gostava, de modo divertido e aparentemente sincero, era Monteiro Lobato, que em 1917 escrevia a seu amigo, o escritor e tradutor Godofredo Rangel:

Sabes o que estou lendo com enorme agrado? Macaulay, o incomparável, e Dickens. As memórias de Pickwick são um modelo de arte. Diz-se lá num capítulo o que os cacetissimos psicólogos de hoje dizem em todo um livro. Acho arqui-preciosa a leitura dos ingleses: livra-nos de absorver a infecção luética dos franceses: galiqueira mental que vai dessorando as nossas letras e fazendo-as um luar da francesa. E, fora dos ingleses, leio Camilo; não passo um dia sem umas páginas.

As cartas de Lobato para Rangel foram coletadas nos dois volumes de A Barca de Gleyre (1944), livro tido como inspirador por muitos autores. Lobato e Rangel tinham uma amizade sólida e bem humorada, compartilhavam muitas opiniões literárias, e na juventude tinham feito parte de grupos literários paulistanos. As cartas de Rangel não foram recuperadas, mas o livro traz o lado lobatiano da correspondência, onde ele fala sobre livros, família, fazenda, correção de estilo, carpintaria literária.

Lobato de novo, em outra carta de 1917, durante a leitura de A Mulher Fatal (1870):

Li ou estou lendo a Mulher Fatal – conheces? Que ótimo está ali o Camilo. Que desprezo de todas as regras da composição francesa! Quando se lhe depara lance de morder num adversário, larga da cena romântica com que está maçando o leitor e desanca. Na Mulher Fatal há isto: “Aí apareceu certa vez um arqui-tolo com grandes foros para maior graduação, etc.” E embaixo da página a nota: “O senhor doutor Joaquim Teófilo Braga, na Visão dos Tempos, 1ª. série.”  Imagine Flaubert fazendo isso em Salambô!

Não lhe perdoavam nada a Camilo, mas com que furor revidava os assaltos! Há dele não sei qual romance que em certo ponto está lamecha demais e “pau”; parece que Camilo mesmo percebe isso e, de repente, sem mais nem menos, larga a história e dá uma surra tremenda nessa mesmo Teófilo Braga. Depois continua a história, como se não tivesse havido coisa nenhuma.

O fato de Lobato se deleitar com isto não quer dizer que seja uma qualidade, mas não há como negar que ele se diverte sinceramente com o que o autor apronta, o que não é estranho, porque eu também me divirto com isso. Mesmo quando Glauber Rocha, no Riverão Sussuarana (1978) deixa vazar para dentro do romance o debate acalorado sobre fatos da sua vida pessoal durante a escritura do livro.

Na verdade, ficamos sabendo mais sobre Lobato quando vemos o que ele elogia nos seus mestres e nos seus contemporâneos:

Ontem li Histórias Sem Data, de Machado, e ainda estou sob a impressão. Não pode haver língua mais pura, água mais bem filtrada, nem melhor cristalino a defluir em fio da fonte. E ninguém maneja melhor tudo quanto é cambiante. A gama inteira dos semi-tons da alma humana. É grande, é imenso, o Machado. É o pico solitário das nossas letras. Os demais nem lhe dão pela cintura. (1915)

Uma das razões para isso é essa elegância que ele encontra em Machado, onde o enxugamento não se faz às custas da expressividade. Lobato admirava Coelho Neto, mas dizia que nele “há 200 mil adjetivos a mais”. E, em carta de 1915: “Estou convencido de que o vocábulo fora de moda, fóssil ou raro, é ‘pedra’ de banana-maçã”.

Em muitas dessas cartas Lobato manifesta uma certa expectativa em descobrir autores de estilo limpo, direto, espontâneo, forte. Sem a adiposidade dos beletristas da época. Daí sua impressão sobre Lima Barreto após as primeiras leituras, dirigindo-se a Rangel, em 1916:

Conheces Lima Barreto? Li dele, na Águia, dois contos, e pelos jornais soube do triunfo do Policarpo Quaresma, cuja segunda edição já lá se foi. A ajuizar pelo que li, este sujeito me é romancista de deitar sombras em todos os seus colegas coevos e coelhos, inclusive o Neto. Facílimo na língua, engenhoso, fino, dá impressão de escrever sem torturamento – ao modo das torneiras que fluem uniformemente a sua corda dágua. Vou ver se encontro um Policarpo e aí o terás. Bacoreja-me que temos pela proa o romancista brasileiro que faltava.

As opiniões de Lobato estão certas ou erradas? O estilo que ele defende é superior ou inferior aos demais estilos? Nada disso importa. Lobato era um indivíduo vigoroso, energético, homem de ação. Páginas e páginas das cartas são dedicadas à descrição de sua rotina na fazenda, consertando telhados, reforçando cercas, cuidando das criações, dirigindo plantios e colheitas, quebrando a cabeça com as burocracias cartoriais da época.

E não é apenas o despojamento que Lobato admira em Camilo, é a mão segura para ousar fazer tudo que ousa:

O mérito de Camilo está em que nos ensina todas as acrobacias da língua, e nos mostra todas as “bravuras” e ainda nos diverte. Quando se põe a troçar é enorme! Quando vira palhaço e vai descambando para o reles, sai-se com um disparate de gênio e salva tudo... Em matéria de diálogos de gente do povo, não sei de nada igual. (1916)

A Barca de Gleyre foi um dos títulos citados por Guimarães Rosa num questionário, quando lhe pediram uma lista de títulos de autores brasileiros que o haviam influenciado. Essa exuberância devoradora de leitor, esse gosto em se deixar arrebatar por um autor que entusiasma, parecem ter passado para Guimarães Rosa. Mesmo que os respectivos gostos fossem diferentes, a atitude para com a literatura era parecida.

Não muito diferente da de Ariano Suassuna, que dizia:

“É melhor estudar um só livro, qualquer que seja ele, com ‘raça’, alegria e entusiasmo, do que estudar todos os livros do mundo friamente.  Porque em tais casos um livro, mesmo menor, examinado e reexaminado em todas as suas implicações, aplaudido aqui e ferozmente negado ali, pode ser, para o jovem que o leia, o que foi, para mim, o ‘Assim Falou Zaratustra’ de Nietzsche, na adolescência: a descoberta da ardente e duradoura alegria do conhecimento”.
(Ariano Suassuna, Iniciação à Estética, pag. 13)









sexta-feira, 19 de outubro de 2018

4395) Uma retórica do Fantástico (19.10.2018)




Existe uma retórica do Fantástico, da literatura do sobrenatural, do insólito, do irreal?

Ou seja: existem procedimentos puramente verbais que estejam intimamente associados ao gênero fantástico? Um conjunto de “figuras de linguagem” ou equivalente, que por sua própria natureza conduzam à produção do sentimento do fantástico, num texto?

Quando estava pesquisando para minha antologia Freud e o Estranho (Casa da Palavra, 2007), li um excelente livro sobre cinema de terror, Caligari’s Children (1980), de S. S. Prawer, autor que eu deconhecia.

No capítulo 4, “The Uncanny”, ele diz (tradução minha):

Pode ser bastante produtivo, como já tentei demonstrar em outro contexto, elaborar algo como uma retórica ou gramática do Estranho [Uncanny]: examinar os instrumentos retóricos – a aposiopese, a anáfora, a anfibologia, construções aparentemente impessoais, deslocamentos da sintaxe, empilhamento de exclamações e interrogações, e assim por diante – de que os autores têm lançado mão, em diferentes momentos, com o fito de criar em seus leitores um estado de espírito adequado, uma sensação do Estranho e uma sensibilidade para o Estranho. (p. 114)

Prawer é professor de Língua e Literatura Alemã em Oxford, e esse breve apanhado de recursos retóricos me parece uma pontinha de uma montanha soterrada que pesquisadores de Letras poderiam escavar com proveito.

Para meu uso doméstico, resolvi dar uma avaliada. Dos recursos enumerados por ele, o mais banal e que primeiro salta aos olhos é o “excesso de exclamações e interrogações” de tanta pulp fiction. A exclamação denota o assombro, o espanto, o terror; a interrogação denota dúvida, incredulidade, incapacidade momentânea de entender.

Há precursores ilustres (ou dependentes famosos) destes recursos, como a gente vê em mestres do “relato alucinatório” como Edgar Allan Poe, E. T. A. Hoffmann e muitos outros, como o grande Guy de Maupassant:

Meu Deus! Meu Deus! Finalmente vou escrever o que me aconteceu! Conseguirei fazê-lo? Atrever-me-ei? É coisa tão estranha, tão inexplicável, tão incompreensível, tão louca! Se não tivesse certeza daquilo que vi, se não tivesse certeza de que não houve nenhuma falha nos meus raciocínios, nenhum erro nas minhas averiguações, nenhuma lacuna na sequência irredutível das minhas observações, eu me julgaria um mero alucinado, vítima de alguma estranha visão. E, afinal, quem sabe?
(“Quem Sabe?”, em Histórias Eternas, trad. Ondina Ferreira, Ed. Cultrix, 1959)


O parágrafo acima é uma dessas aberturas-padrão de tantos contos fantásticos, em que um indivíduo, tendo passado por uma experiência aterrorizante ou incompreensível, tenta fazer sentido do que lhe aconteceu, mas seu estado de desorientação emocional é revelado justamente pelos pontos de exclamação e de interrogação.

Dos recursos citados por Prawer, este é a esta altura o mais banal, o mais clichê.

Resolvi então dar um rápido balanço nas figuras de linguagem que ele cita, essas senhoritas enigmáticas e glamurosas vestindo túnicas gregas.

Prawer cita como exemplo a Anáfora, assim descrita nos manuais:

A repetição da mesma palavra ou grupo de palavras no princípio de frases ou versos consecutivos. 

Os exemplos disso são milhões:

Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. Foi a idade da sabedoria, foi a idade da tolice. Foi a época da fé, foi a época da incredulidade. Foi a estação da luz, foi a estação das trevas. Foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero. 
(Charles Dickens, Um Conto de Duas Cidades)


Esta simples figura de linguagem pode produzir o sentimento do fantástico, ou favorecer seu aparecimento? Um texto fantástico pode usar a anáfora, mas ela não me parece estruturalmente identificada a ele, como as demais figuras da lista.

De qualquer forma, a Anáfora é uma entre muitas figuras narrativas baseadas na repetição. E aí, sim, porque em termos narrativos isso gera todas as histórias de duplos, Doppelgängers, reflexos, desdobramentos, cisões, duplicação de um mesmo ser.

Das figuras citadas por Prawer a mais conhecida deve ser a Anfibologia, apresentada por Monteiro Lobato em Emília no País da Gramática, quando a boneca é levada a visitar os cárceres onde estão presos os vícios de linguagem.

Emília botou-lhe a língua e passou ao terceiro cubículo. Viu lá dentro um vulto de mulher com duas caras.
— E esta "bicarada"? — perguntou.
— Esta é a ANFIBOLOGIA, que faz muita gente dizer frases de sentido duplo, ou duvidoso, como: Ele matou-a em sua casa. Em casa de quem, dele ou dela? Quem ouve fica na dúvida, porque a matança tanto pode ter sido na casa do matador como da matada.  


O que a Gramática classifica como defeito, quando por ignorância, pode ser efeito, quando usado em busca de um resultado específico.

O Fantástico pode ser evocado de maneiras interessantes através de frases “anfibológicas”, frases que, como certos desenhos, certos efeitos ópticos, podem ser rigorosamente interpretadas de duas maneiras opostas.

Como as frases de som quase idêntico que abriam e fechavam os contos de Raymond Roussel.

Seria uma tarefa interessante ir registrando e compilando trechos desse tipo, em que algo é descrito, até com certo detalhismo, mas o leitor não sabe a quem atribuir aquela ação, ou pensamento.

Fui à cata da tal Aposiopese. Mestre Google me brindou de início com esta descrição:

Interrupção intencional de um enunciado com um silêncio brusco, seguido ou não de um anacoluto, querendo significar que se resolveu calar o que se ia dizer. A aposiopese geralmente é representada graficamente pelas reticências. 

É uma figura de linguagem que reproduz aquele movimento em que a mente se atira para diante mas se detém subitamente porque algo mudou. É um movimento de estranheza, de raciocínio cortado ao meio por uma surpresa ou um desmentido.

Outra página, citando Massaud Moisés, esclarece:

Segundo o Dicionário de Termos Literários (Massaud Moisés, Editora Cultrix, 2002), entende-se aposiopese como «silêncio súbito, interrupção, reticências»; a referida obra acresenta ainda: «[C]onsiste na suspensão de um pensamento já iniciado, por meio de corte repentino na cadeia sintática. Espécie de anacoluto consciente, a aposiopese assinala o momento em que o escritor interrompe bruscamente a sequência das ideias, 1) ao perceber que vai adiantar raciocínios ou surpresas, 2) quando pretende dar ênfase às palavras, ou 3) quando se dá conta de que vai dizer mais do que deseja. No geral, a aposiopese evidencia-se, graficamente, pelas reticências, mas nem todo sinal suspensivo denota a presença deste recurso estilístico»

A aposiopese pode ser ampliada no contexto de uma única frase para o de uma narrativa inteira. São aqueles contos fantásticos em que alguém começa a descrever um fato ou uma percepção extraordinários e interrompe-se, repetidas vezes, recomeçando a seguir de um ponto totalmente diverso, na tentativa vã de abarcar algo maior do que sua capacidade de expressão.

Com um pouco de boa vontade, posso encontrar um exemplo de algo nesse sentido em um recurso estilístico muito frequente em Jorge Luís Borges, quando seu personagem, diante de um fato estranho ou fantástico, tenta explicações bem diferentes, sucessivamente:

Este palácio é obra dos deuses, pensei primeiramente.  Explorei os inabitados recintos e corrigi: Os deuses que o edificaram morreram.  Notei suas particularidades e disse: Os deuses que o edificaram estavam loucos.
(“O Imortal”, em O Aleph, 1948)

Muitas vezes a penetração no ambiente fantástico se dá assim, por aproximações sucessivas, por tentativas de explicação sempre interrompidas antes de chegar ao fim, devido ao aparecimento de novos elementos insólitos.




segunda-feira, 20 de agosto de 2018

4378) Alice e Emília (20.8.2018)




Vejo por aí muitas discussões literárias sobre a questão de “personagens femininas típicas”, sobre a necessidade de uma literatura que reproduza a psicologia, o comportamento, os valores etc. de mulheres verossímeis.

Essa crítica não cessa de mostrar muitas personagens que ou são inverossimilmente abobalhadas ou inverossimilmente heróicas.

(Eu diria que o mesmo se aplica a personagens masculinos – mas essa é outra questão.)

Anos atrás traduzi um livro fascinante de Isaac Asimov que conta um breve espaço de tempo na vida de Hari Seldon: Prelúdio à Fundação. Seldon, um dos melhores personagens de Asimov, é o cientista que criou a Psico-História, a ciência de calcular probabilisticamente e psicologicamente a dinâmica das sociedades humanas a ponto de predizer certos fatos com séculos de antecedência.

Nesse livro, ele é auxiliado por uma cientista chamada Dors Venabili. O livro foi escrito numa época em que as reivindicações feministas pipocavam por todo lado nas revistas literárias. Talvez por isso o romance (que aliás é bom) tem uma dupla de protagonistas que, se o livro fosse adaptado para o cinema, poderia ser interpretada por Woody Allen (Hari Seldon) e Sigourney Weaver (Dors Venabili). Porque ele, apesar de cientista genial, é do ponto de vista prático um sujeito meio abestado, e é ela quem o protege, assessora, aconselha, inclusive quem o defende na hora da briga física.



Ou seja: substitui-se o clichê da mocinha indefesa pelo clichê da mocinha que é uma versão mulher de um macho típico. Isso é personagem feminino?

Alguém pode objetar que há inúmeras situações, na vida real, em que uma pessoa (homem ou mulher) meio abestalhada e indefesa é protegida por outra pessoa (homem ou mulher) experiente e capaz de encarar brigas violentas.

Não discuto esse aspecto de verossimilhança, apenas observo que toda a literatura popular tipo pulp fiction procede como se esta fosse a situação mais frequente na vida humana.

Perguntaram certa vez a Salman Rushdie “qual o primeiro livro por que ele se apaixonou”. A resposta dele foi:

Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Não apenas pelas razões óbvias (a toca do coelho; o “me coma / me beba”; um sorriso sem um gato; o Chapeleiro Louco, a Lebre de Março, o Arganaz; “não há lugar, não há lugar”; “sopa da noite, linda sopa”); mas porque eu me apaixonei pela autoconfiança de Alice. Ali está ela, perdida no País das Maravilhas, mudando de tamanho o tempo inteiro, sem saber nada do ambiente que a cerca, e mesmo assim ela é tão irresistivelmente cheia de opiniões a respeito de tudo, sempre contradizendo as pessoas e estalando os dedos diante dos poderosos e dizendo: “Vocês não passam de cartas de um baralho!”. Meu tipo de garota.

Diante dessa descrição, não há como não lembrar de uma personagem feminina parecida, a Emília, de Monteiro Lobato, no ciclo do “Sítio do Picapau Amarelo”. Sei que hoje em dia a maioria das pessoas lembra do seriado da TV Globo, mas é da Emília dos livros que estou falando, e à qual poderia se aplicar totalmente a descrição de Rushdie faz da personagem de Carroll.

Que aliás deve ter ajudado a inspirar o escritor paulista – como se sabe, na coleção de livros infantis de Lobato aparecem traduções/adaptações de clássicos infantis, com o “Alice” entre eles. De modo que alguma transfusão de sangue literário deve ter passado da personagem de Carroll, bem anterior, para a boneca de olhos de retrós.

São personagens que, talvez até por serem garotas em livros destinados a outras garotas, o autor não procurou “tornar femininas”, o que em mãos de autor homem geralmente implica em tornar abestada ou tornar sexy.

Alice e Emília são meninas espertas, meio avoadas, meio corajosas, meio trapalhonas, cheias de recursos e ao mesmo tempo descobrindo coisas novas o tempo inteiro. Podem ser implicantes, irreverentes, negociadoras, mal-educadas, prudentes, cabeças-de-vento, interesseiras. São meninas reais – nesse sentido vejam o quanto Emília, a boneca, é mais real e mais interessante do que Narizinho, que apesar de ter seu charme tem uma certa aura politicamente correta.

O que acontece com alguns autores homens é que eles têm uma dificuldade cultural em se colocar no lugar de uma mulher. Receiam abrir mão de seu raciocínio de homem, sua intuição de homem, sua capacidade avaliadora de homem. Ou seja, de um conjunto lentamente conquistado de “olhares masculinos” sobre tudo.

Não sabem como é uma mulher por dentro (não me refiro a todos, claro). Mesmo quando precisam se colocar no ponto de vista delas, são sempre umas “elas” desenhadas pelo olhar masculino.

Em revistas literárias têm aparecido com certa frequência trechos satíricos em que escritoras parodiam o jeito masculino de descrever personagens femininas. Elas descrevem os homens do jeito que os escritores homens descrevem as mulheres em seus livros. O resultado é geralmente hilariante e plausível.

Coisas tipo:

“Sir Stanley Nottingham vinha descendo lentamente a escadaria de sua mansão. Dentro da camisa engomada de linho, seu peito musculoso e peludo erguia-se compassadamente. Sua mão morena deslizava ao longo da balaustrada, enquanto ele sentia a cada passo a compressão do seu sexo volumoso no interior da cueca;  uma aura de masculinidade exsudava de seu vulto atlético enquanto ele descia os degraus seguido pelos olhos fascinados de Lady Winterbottom.”

Os homens descrevem mulheres nesse estilo, há séculos, e vêm se safando.












quarta-feira, 15 de julho de 2015

3867) Escritor = traidor (16.7.2015)



Antigamente era normal um romancista passar três páginas seguidas descrevendo o quarto de uma marquesa ou o estúdio de um artista. No século 19 a pintura, o teatro e a ópera compensavam o lado não-visual da literatura, e um leitor era capaz de visualizar colagens de objetos e paisagens que afinal não estavam muito distante de sua experiência diária, mesmo vendo a vida dos nobres à distância. O cinema, quando surgiu, demonstrou ser uma espécie de teatro com o tempo narrativo e o tempo real tão manipuláveis quanto os da literatura.

Um dos primeiros choques tradutórios que senti foi quando comecei a ler S. S. Van Dine em inglês, depois de ter lido em tradução uma meia dúzia de seus romances de crimes enigmáticos (The Benson Murder Case, etc.). Tive um susto. Philo Vance, seu detetive, é um esnobe que gosta de discorrer páginas inteiras sobre egiptologia ou história natural para avaliar a importância de uma pista. Esses longos “infodumps”, ou entulhos de informação, estavam conspicuamente ausentes das traduções de Monteiro Lobato, da Companhia Editora Nacional. Lobato devia achar aquilo um saco e metia a tesoura, cortava tudo. Os leitores que não gostam do dandismo de Van Dine, sua pose de J.-K. Huysmans novaiorquino na década de 1930, podem muito bem ler as versões lobatianas, mais enxutas, mais leves.

Como aliás dizem ser a tradução que Borges fez de “The Purloined Letter” de Edgar Poe para uma das suas antologias. Em termos de estilo Borges era o anti-Poe. Essa sua tradução pode ser um bom exemplo de crítica praticada via tradução, não via ensaio. Traduzir, às vezes, é a nossa chance de reescrever uma história que estilisticamente não nos agrada, e aí cedemos à tentação de melhorar o original.

Lobato e Borges tomava essas liberdades porque eram escritores traduzindo, e não tradutores de ofício. O tradutor de ofício e o escritor sofrem as mesmas tentações, como a de melhorar o original; mas talvez o escritor ceda com mais facilidade. Ressalvando sempre o bom senso das partes envolvidas, o tradutor vê no autor do livro alguém ligeiramente superior a ele, quando mais não seja pelo fato de que é o dono do texto original. Já um escritor pensa: “Ora que diabo, estou traduzindo mas sou escritor também, vou dar uma ajeitada nos parágrafos desse nobre colega.”  O que é o mesmo que ir no museu e dizer: “Vou dar uma ajeitada no nariz desta estátua, na perspectiva desse quadro.”  Onde um tradutor sério passa uma noite inteira pesquisando e sofrendo, um escritor às vezes não hesita em passar o rodo na estilosidade do colega e seguir adiante, esfregando as mãos e assobiando. Ele diz que prefere saber como salsicha é feita.



domingo, 7 de junho de 2015

3834) A frase de Groucho (7.6.2015)



Groucho Marx foi um dos mais inteligentes e imprevisíveis cômicos do cinema norte-americano. Também do rádio, do teatro, e da TV, mas tudo que vi dele foi no cinema, em filmes absurdistas como Uma noite na Ópera, Uma noite em Casablanca, Animal Crackers, Duck Soup e vários outros. Os Irmãos Marx eram um grupo anárquico: Chico, o espertalhão; Harpo, o mudinho que transformava em qualquer coisa qualquer objeto que houvesse no cenário; e Groucho, o trocadilhista, insultador de senhoras e figurões, aprontador de pequenos esquetes improvisados.  Um filme dos irmãos Marx é uma comédia romântica, ou aventura policial, ou outro gênero, desde que os irmãos (Groucho principalmente) não estejam na cena. No momento em que eles aparecem, subvertem o gênero. Fica o filme querendo ir numa direção e os Marx empurrando-o na direção da bagunça surrealista e irreverente.

Groucho tem um dito famoso: “Jamais entrarei para um clube capaz de me aceitar como sócio”.  É uma das suas frases paradoxais, muito citada; diz-se que ele a enviou num telegrama para um clube de Beverly Hills que o convidou para se associar.  Como se dá com os grandes paradoxos de Oscar Wilde ou de G. K. Chesterton, é uma frase que faz sentido imediato quando a lemos, apesar da aparente contradição.

Dei uma pesquisada a respeito dela, para saber a data, por causa de um conto de Monteiro Lobato que reli por acaso. O conto é “Um homem de consciência”, em Cidades Mortas (1909), a história de João Teodoro, um homem pacato e meio decepcionado com a decadência de sua cidadezinha, Itaoca. Certo dia ele é nomeado delegado, bota os baús em cima de um burro e vai embora, dizendo: “Terra em que João Teodoro chega a delegado eu não moro”.  É a mesma lógica grouchiana, sendo que em 1919 o Marx bigodudo (então com 29 anos) mal estava iniciando sua carreira artística.

Mexe aqui, mexe acolá, encontrei a referência de que John Galsworthy (Prêmio Nobel de Literatura em 1932) teria dito sobre um personagem, na Parte I de The Forsyte Saga: “Ele tinha um desprezo natural por um clube capaz de aceitá-lo como sócio”. É a mesma idéia.  A obra de Galsworthy pode ter influenciado independentemente tanto Groucho quanto o americanófilo Lobato, pois é um famoso conjunto de romances publicados entre 1906 e 1922 (em 1921 já havia uma tradução brasileira, da Ed. José Olympio). Não é absurdo supor que essa frase, curta porém marcante, tenha se grudado na memória do comediante de Hollywood e do autor do “Picapau Amarelo”. Ou – o que é igualmente provável – que este seja um sentimento intuitivo, presente em todos os que sabem o que é não pertencer às classes “diferenciadas”.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

3518) "Histórias da Velha Totônia" (6.6.2014)




Veio parar nas minhas mãos um livro de José Lins do Rêgo que eu nunca tinha lido: Histórias da Velha Totônia (1936), uma coletânea de histórias de Trancoso que Zé Lins diz ter escutado, quando era menino, dessa velhinha que andava de engenho em engenho, contando suas histórias.  A 21a. edição de José Olympio é de 2010; como o livro é curtinho, sobre espaço para vários textos explicativos e para as ótimas ilustrações de Tomás Santa Rosa, da edição original.

Esse livro parece ter sido o inspirador de outro publicado no ano seguinte: Histórias de Tia Nastácia de Monteiro Lobato, muito mais conhecido, até porque Lobato tem um público infantil historicamente estabelecido, ao contrário de Zé Lins.  Presumir influências é sempre arriscado – pode ser que Zé Lins tenha ouvido falar que Lobato estava preparando um livro de histórias de Trancoso e resolveu adiantar-se, lançando primeiro o seu.  Em todo caso, o de Zé Lins tem apenas quatro histórias, contra 43 do livro de Lobato. (E há duas em comum: “O Sargento Verde” e “O príncipe pequeno”/”O homem pequeno”).

Comparando as histórias vê-se que Monteiro Lobato reproduz o conto da maneira mais despojada possível, mas Zé Lins (talvez por dispor de menos material) capricha no enchimento. O que em Lobato se resolve com “Um dia apareceu um moço, também muito lindo, querendo casar com ela”, dá a Zé Lins assunto para uma página inteira (em “O Sargento Verde”).  O autor literário, em geral, quando pega esse tipo de narrativa aumenta os diálogos, as descrições, etc. – aumenta somente o material acessório, até por um certo pudor de mexer no esqueleto, na estrutura narrativa.

No seu livro, Zé Lins se queixa se que “as velhas Totônias estão desaparecendo”.  O livro é de quase 80 anos atrás, e como o Nordeste ainda é cheio, hoje, de velhinhas contando histórias, podemos imaginar que no momento exato em que Zé Lins escrevia havia algumas Totônias (ou Nastácias) nascendo por toda parte.  A maior contadora-de-histórias paraibana, Luzia Tereza (1909-1983) tinha 27 anos quando o livro dele saiu, e certamente ainda não tinha aprendido a maior parte do repertório que a tornaria famosa.

O número dessas pessoas tende a diminuir, mas mesmo que diminua é possível fazer com que elas não desapareçam. Não se trata apenas de amparar e documentar as velhinhas que passam adiante as histórias da memória oral.  Mas fazer com que elas não falem só para os pesquisadores e os gravadores – falem para as meninas e meninos de hoje, as mocinhas e os rapazinhos de hoje.  Alguns deles, quem sabe, estarão daqui a 70 anos recontando a histórias de Luzia Teresa, de Tia Nastácia e da velha Totônia.

terça-feira, 23 de abril de 2013

3167) Monteiro Lobato e Mark Twain (23.4.2013)





O que há em comum entre esses dois escritores, além do fato de que estão entre os primeiros que li, e os mais queridos? Uma porção de coisas.  Ambos foram escritores com uma obra para adultos séria e relevante, mas acabaram se tornando famosos como autores para jovens, em função de seus livros de maior sucesso. A imensa maioria dos que os conhecem leram apenas essas obras infanto-juvenis e desconhecem seus livros mais complexos.

Monteiro Lobato é famoso pela sua série de romances do Sítio do Picapau Amarelo, mas só é conhecido no Brasil. Às vezes imagino o susto e o maravilhamento de meninos ingleses, japoneses, norte-americanos, quenianos, se pudessem ler boas traduções dessas obras e conhecer um mundo de surpresas inesgotáveis. Mark Twain escreveu alguns livros com as aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, dois garotos rurais num ambiente mais realista do que o de Lobato, mas igualmente divertido. Aliás, Lobato fez adaptações de livros de Twain para a Editora Brasiliense, e talvez tenha sido através dele que muitos brasileiros conheceram o norte-americano.

Ambos tiveram flertes com a ficção científica. Lobato com o histórico O Presidente Negro (1926) e alguns volumes infantis (A Chave do Tamanho, Viagem ao Céu, A Reforma da Natureza); Twain com Um Ianque na Corte do Rei Artur (1889), uma história clássica de viagem no tempo, mesmo que sem explicação técnica de como isso aconteceu, e numerosos contos já reunidos em coletâneas. Ambos tiveram interesse pelo lado prático da literatura: Lobato criando a Companhia Editora Nacional e outros empreendimentos semelhantes, e Twain investindo todo seu dinheiro (e dos amigos) numa máquina impressora que pretendia concorrer com o linotipo. (Ambos deram com os burros nágua e perderam fortunas.)

E ambos foram acusados de racismo por terem escrito romances em que adultos negros apareciam sendo maltratados ou ridicularizados por crianças brancas: a Tia Nastácia de Lobato e o escravo Jim de As aventuras de Huck. Uma acusação injusta por ignorar a pressão da mentalidade do tempo em que viveram. Talvez o mesmo venha a acontecer conosco, que os acusamos. Se o Brasil virar um dia uma democracia racial sem Casa Grande nem Senzala, nossos descendentes nos considerarão racistas e escravocratas pelo fato de que pagávamos pessoas negras para cozinharem nossa comida, lavarem nossa roupa e cuidarem dos nossos bebês. Achamos tudo isto uma coisa normal, faz parte do mecanismo social em que crescemos, e é difícil para nós imaginar que os brasileiros do futuro talvez olhem para nós com repulsa e mandem tirar nossos livros das bibliotecas eletrônicas de suas escolas.



terça-feira, 8 de março de 2011

2498) Literatura e joguinhos (8.3.2011)




Os videogames são uma das formas de narrativa mais interessantes inventadas nas últimas décadas. (Neste caso, estou colocando no mesmo saco produtos distintos, como o game de PC, que roda através de um CD-Rom ou DVD, e o game de console, que é plugado na TV e roda com cartucho). Ele é a confluência entre os jogos de mesa-e-tabuleiro como War ou Banco Imobiliário, o cinema de animação e a TV.

Dizem que os literatos e os intelectuais em geral têm preconceito contra os games. Bem, talvez esse preconceito exista “em geral”, mas sei de numerosos casos particulares em que sujeitos sérios (como eu) se afeiçoam a certos jogos e não acham que estão perdendo seu tempo. Nos casos em que o preconceito existe, ele usa, curiosamente, termos parecidos com os das pessoas que não gostam de ficção científica. Ou seja: 1) É coisa de garoto, não de adulto; 2) É coisa de americano, não tem nada a ver com a realidade brasileira; 3) Só trata de guerra, violência, monstros. São verdades parciais, e todo preconceito é alimentado por verdades parciais que alguém transforma em generalizações definitivas. Não importa se um milhão de negros são trabalhadores; basta o preconceituoso ver um negro com preguiça para dizer: “Tá vendo? Todo negro é preguiçoso”.

Sugiro a leitura deste artigo (http://tinyurl.com/6aupee5) no saite da Livraria Saraiva, em que escritores brasileiros jovens (Daniel Galera, Antonio Xerxenesky, Samir Machado, Simone Campos) dão seu depoimento sobre sua vivência com os games e o modo como eles estão sendo assimilados em seus romances e contos.

A grande contribuição dos games é quanto à narrativa, porque eles propõem uma interatividade que a literatura-de-livro só pode oferecer até um certo ponto. Existem games violentos, mas porque o mercado se estruturou assim. E por falar nisso, também existem livros violentos. Assim como temos hoje histórias em quadrinhos adaptando a obra de Proust, nada impede que daqui a algumas décadas tenhamos um videogame do Ulisses de Joyce, em que o jogador passeará por Dublin, terá acesso à infância de Stephen Dedalus, encherá a cara com Bloom num bordel, poderá bisbilhotar as aventuras extraconjugais de Molly... Se houver mercado para isso, acontecerá.

Nada impede que tenhamos um dia um game da Guerra de Canudos, usando material fornecido por Euclides da Cunha, Vargas Llosa, Manuel Bombinho e outros. Nada impede que o Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, possa virar um imenso universo interativo, reproduzindo antigas e novas aventuras. O que era literatura (texto, palavras, frases) pode virar game (imagens, som, movimento, narrativa, interatividade), com alguma perda estética neste processo, mas também com a possibilidade de ganhos estéticos. É irrelevante essa discussão boba de “quem é melhor, a literatura ou o game”. O melhor meio é o que atrai maiores talentos individuais. Já foi a literatura, mas nada obriga que seja assim eternamente.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

2396) O racismo e Monteiro Lobato (9.11.2010)



Comentei aqui nesta coluna a recente polêmica envolvendo o livro de Monteiro Lobato, Caçadas de Pedrinho. Leitores se queixaram do modo desrespeitoso como a personagem negra, Tia Nastácia, é tratada em certos momentos. Quem leu Lobato sabe que a toda hora a boneca Emília chama a cozinheira do Sítio do Picapau Amarelo de “negra beiçuda”, “negra burra”, etc. É a única que a trata assim: a avó Dona Benta, os netos Pedrinho e Narizinho, todos tratam Tia Nastácia de modo mais respeitoso. Em todo caso, é compreensível que o MEC decida “exigir da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura.”

Pipocaram comentários na Internet dizendo que o livro tinha sido censurado e proibido pelo Governo. Não foi o caso. (Quem quiser mais detalhes pode consultar este blog, que transcreve longos textos do parecer do MEC: http://tinyurl.com/3a3gg9c). Mas esse episódio mostra um grave problema existencial de entidades como o Governo, a Igreja, a Academia, as Escolas, etc. São entidades abstratas organizadas em função de um tipo ideal de comportamento.

Um escritor pode ter personagens racistas, machistas, drogados, criminosos, porque um escritor trabalha com o mundo real e não tem remédio senão descrevê-lo como ele é. As escolas e os governos, contudo, trabalham há séculos com um conceito de mundo real que na verdade é um mundo ideal, o “mundo como deveria ser”, o mundo que tentamos ensinar aos nossos filhos, cheio de valores éticos, regras de comportamento, etc. e tal. São entidades normativas, que pregam uma maneira de ser. A arte (ou pelo menos a maior parte dela) é contraditória, não prega maneira de ser; alardeia suas próprias dúvidas, tentações, descreve o ser humano com todos os seus defeitos.

Nos EUA, todo mês aparece uma biblioteca pública tirando de catálogo os livros de Harry Potter porque a família de uma criança, evangélica, denuncia que a biblioteca está pregando o culto à feitiçaria. E quando algum funcionário tenta conciliar, eles perguntam: “Vocês estão com quem – com Jesus Cristo, ou com Satã?”. Agora imagine se um leitor assim encontrasse na biblioteca livros de Henry Miller, Nelson Rodrigues, Chuck Palahniuk ou Dalton Trevisan!

Voltando a Lobato: seus livros podem trazer para uma criança uma tal quantidade e variedade de coisas positivas que nada perderão com um prefácio ou posfácio que coloque seus momentos racistas num contexto. Inclusive para mostrar que até mesmo pessoas progressistas, como ele foi em vários sentidos, também podem ser preconceituosas. Como diria o Conselheiro Acácio, “ninguém está isento de seus próprios defeitos”. Admiramos tanto os escritores que criamos para eles uma imagem meio “chapa branca”, de um Fulano sem defeitos. É bom poder enxergar a pessoa por trás dos livros.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

2393) Monteiro Lobato e a negra velha (5.11.2010)



O livro de Monteiro Lobato Caçadas de Pedrinho está tendo sua utilização nas escolas questionada, sob acusação de racismo. (Não, não foi proibido: o Conselho Nacional de Educação apenas recomendou que as edições do livro tragam uma ressalva explicando o contexto cultural em que o livro surgiu.) A personagem de Tia Nastácia, a cozinheira do Sítio do Picapau Amarelo, é frequentemente xingada pela boneca Emília de “negra burra, negra beiçuda” e outras coisas nesse tom. O próprio narrador onisciente do livro, volta e meia, diverte-se ridicularizando esta ou aquela ação da negra, como quando diz que ao ver uma onça ela subiu pelo mastro da bandeira feito “uma macaca de carvão”. Bastou isso para que um leitor indignado protestasse, dando início à polêmica pública.

Existe um livro tristemente famoso que se intitula, se bem me lembro, Comunismo para Crianças, cujo autor defende a tese de que a obra infantil de Lobato fazia parte de uma campanha para disseminar o Comunismo dentro da nossa juventude. Espero que não apareça um dia “Racismo para Crianças” dizendo que ele é um perseguidor da raça negra. Lobato tratava os negros de acordo com o diapasão de sua época, assim como Mark Twain, cujo Huckleberry Finn sofre esse mesmo tipo de acusação. Daí a achar que esses livros são ativamente racistas é uma coisa completamente diferente.

Tia Nastácia, aliás, é descrita na maior parte do tempo como uma personagem cheia de aspectos positivos. É carinhosa, dedicada às crianças, e amada por elas. No Picapau Amarelo ela é raptada pelo Minotauro e levada para o labirinto de Creta; em O Minotauro Dona Benta e seus netos vão à Grécia para salvá-la, e ali descobrem que ela amansou o “monstro de guampas” dando-lhe bolinhos para comer. Em A Reforma da Natureza, após o fim da II Guerra Mundial os líderes e reis da Europa querem reconstruir o mundo de acordo com bases civilizadas e humanistas. Quem é que eles chamam para dar-lhes conselhos? Dona Benta e Tia Nastácia, que fazem as malas e rumam para o Velho Continente para ensinar à Europa a arte de bem viver.

Tia Nastácia e Dona Benta exprimem o lado popular e o lado erudito de uma mentalidade matriarcal, compassiva, humanista, que Monteiro Lobato via como alternativa para um mundo de líderes belicosos e cheios de ambição. O sucesso do “Picapau Amarelo” deve muito a ambas. Um livro como Caçadas de Pedrinho inclui uma dúzia de epítetos zombeteiros contra os negros, mas se fosse proibido isso privaria todos os leitores – inclusive os leitores negros – de conhecer uma bela personagem negra de nossa literatura. Eu li esse livro com 8 anos e nunca achei Tia Nastácia uma personagem inferior ou ridícula. Talvez seja porque cresci numa casa onde havia negras velhas ajudando a cuidar de mim, e aprendi desde cedo a considerá-las gente, apenas gente, iguais a qualquer outra pessoa.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

0638) Monteiro Lobato (5.4.2005)



Cresci devorando os livros infantis de Monteiro Lobato. Li cada um deles mais de trinta vezes. Alguns, como História do Mundo para as Crianças ou Emília no País da Gramática, não menos de cem. Por que? Acho que porque eu era meio burrinho e acabava me esquecendo. Só sei que a releitura sempre me deu tanto prazer quanto a leitura inicial.

Nunca me dei bem com a literatura adulta de Lobato, que mesmo assim tem vários contos bons. Mas o linguajar era pomposo, o que nos mostra que as crianças de 1930 eram mais contemporâneas nossas do que os adultos. Sessenta, setenta anos depois de escritos, os livros do Picapau Amarelo mantêm uma fluência espantosa de narração, de descrição, de diálogo, de peripécias. Claro que alguns livros são meras dramatizações para fins didáticos, de ensino de história, geografia, física, astronomia. Mas mesmo no interior destes há episódios de enorme originalidade. Não posso imaginar melhor introdução à mitologia grega do que O Minotauro e Os Doze Trabalhos de Hércules.

Sua trilogia de ficção científica é muitíssimo original. Viagem ao Céu (1932) daria um belo filme de animação, com o seu São Jorge, seus marcianos cheios de crocotós, a cena da patinação nos anéis de Saturno. A Chave do Tamanho (1942) é talvez nosso primeiro livro sobre miniaturização de seres humanos, e um livro curiosamente cruel e sombrio, refletindo talvez a época da Guerra. A Reforma da Natureza (1941) mostra Emília fazendo alterações absurdas no mundo natural, agigantando insetos, tudo que o cinema americano faria na década seguinte.

Os seus livros com temas especificamente rurais são deliciosos: O Saci (1921), Caçadas de Pedrinho (1933). Sem falar no mais rico de todos, Reinações de Narizinho, de 1931, mas cujas histórias isoladas já vinham sendo publicadas desde 1920. Nos livros de Lobato, os garotos do Sítio contracenam com Dom Quixote, Tom Mix, heróis da Mitologia grega, cientistas americanos, São Jorge e Peter Pan. Sua salada cultural tem a impressionante credibilidade das histórias escritas por quem escreve pensando na história, e não em si mesmo ou no mercado editorial.

Monteiro Lobato foi um entusiasta da civilização norte-americana, embora tivesse dela uma visão distorcida, como mostrou em seu livro adulto de FC, O Presidente Negro. Vivendo num Brasil rural, que saía da hibernação do Império para a modorra da República, ele via nos EUA um sonho futurista de eficiência, seriedade, pragmatismo e espírito científico. Fico imaginando como veria o Brasil de hoje, que está se americanizando da pior forma possível, absorvendo a negação dessas qualidades com que ele sonhava.

Existem bons autores de livros infantis hoje em dia, mas foram Lobato e Malba Tahan os escritores que formataram a cabeça de sucessivas gerações de brasileiros. Graças a eles, dezenas de milhões de garotos como eu escaparam da burrice. Um país que tem dois escritores como estes não pode dar errado.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

0620) Zilka Salaberry (15.3.2005)



Morreu Zilka Salaberry, a Dona Benta do “Sítio do Picapau Amarelo”. Para mim é o caso típico da atriz de um papel só, embora eu saiba muito bem que Dona Zilka teve uma carreira longa e variada. Paciência. Anos e mais anos interpretando a matriarca do Sítio fixaram sua imagem de maneira indelével na minha (acredito que na de nós todos) memória afetiva.

Cresci devorando os livros infantis de Monteiro Lobato. Alguns deles, como Historia do Mundo para as Crianças, Emília no país da gramática, Serões de Dona Benta ou O Picapau Amarelo, não li menos de cem vezes. Por que? Acho que porque eu era meio burrinho e acabava me esquecendo, porque a releitura sempre me deu tanto prazer quanto a leitura inicial.

Nunca me dei bem com a literatura adulta de Lobato, que mesmo assim tem alguns contos bons. Mas o linguajar era pomposo, o que nos mostra que as crianças de 1930 eram mais contemporâneas nossas do que os adultos. Lobato e Malba Tahan formataram minha cabeça e a de mais de uma geração. Graças a eles dois, dezenas de milhões de brasileiros como eu escaparam da burrice. Um país que tem dois escritores como estes não pode dar errado.

Voltando a Dona Benta, é admirável que Lobato tenha escolhido uma avó, e não um avô, como o símbolo da sabedoria. Talvez eu tenha me deixado contaminar com facilidade porque sou de uma família onde as mulheres idosas sempre foram chegadas tanto aos livros quanto às lições de sapiência, ao saber “só de experiências feito”. Minha mãe, minha avó Clotilde, minha tia Adiza, foram algumas das principais Donas Bentas que supervisionaram meu crescimento e a formação do meu caráter. Isto me tornou um adepto de certas formas de matriarcado, porque sendo homem eu entendia muito bem os rompantes de autoritarismo e de rispidez dos homens, sabia de sua falibilidade como líderes. As mulheres, mais compassivas, mais serenas, tinham uma autoridade que se baseava menos no individualismo e mais numa rede interligada de responsabilidades.

É notável que Monteiro Lobato, num livro como A Reforma da Natureza, faça com que ao final da II Guerra Mundial os líderes da Europa, engalfinhando-se em contradições e disputas, resolvam convocar Dona Benta e Tia Nastácia para servir como “árbitras” das questões internacionais. Dona Benta, muito bem informada sobre política, aceita imediatamente e parte para a Europa. Aos oito anos de idade eu achava isto uma coisa meio surrealista, e ao mesmo tempo extremamente lógica. Afinal, Hitler, Mussolini e o Rei Carol da Romênia tinham comprovado sua incompetência para gerir o mundo, e nada mais natural do que convocar para conserta-lo as pessoas cujo sistema de administração tinha produzido uma comunidade organizada e pacífica.

Dona Benta é o símbolo de uma autoridade baseada na experiência e na credibilidade, mas disposta a acreditar no novo, no imprevisto e no improvável – haja vista a disposição com que ela se deixa arrastar nas aventuras das crianças, seja visitando a Grécia antiga, seja indo parar na Terra do Faz de Conta.