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domingo, 17 de março de 2013

3136) O medo da noite (17.3.2013)



(by Emma Dima)


Era uma cidade pequena e pacata. Vivia-se ali uma vida sem sobressaltos, mas houve uma época em que pessoas, cada vez mais numerosas, começaram a ser atacadas por surtos de insônia e medo. Deitavam-se à hora habitual mas não conseguiam adormecer. Enquanto maridos ou esposas ressonavam em paz, ao lado, esposas ou maridos retorciam-se sobre o colchão, ora de um lado, ora do outro, fitando as telhas do teto ou os traços à meia-luz da janela fechada, por onde se infiltrava um pouco da luz da rua. O sino próximo batia uma hora. Depois duas. Depois três. A madrugada avançava e as pessoas sofriam, de olhos abertos e com a mente em redemoinho. De nada adiantava a água com açúcar, o chá quente de camomila; de nada adiantava a garrafa de vinho sorvida sem prazer, o meio litro de uísque engolido como quem quer ganhar uma aposta. O sono não vinha.

Vinha a insônia, e com ela o medo da solidão, o medo da noite, o medo inexplicável daquela cidade que durante a noite parecia morta. Médicos ficavam sem ter o que receitar, esgotados todos os recursos de sua farmacopéia artesanal. Mulheres com olheiras despejavam lágrimas; homens embrutecidos pela incapacidade de dormir praguejavam, brigavam no trabalho, perdiam o emprego.

Alguns fizeram uma descoberta. Era melhor fingir que estava tudo normal e, madrugada afora, escancarar as janelas da rua, acender todas as luzes, agir como se fosse a horinha do anoitecer.  Os outros insones viam aquela única casa iluminada e saíam para a rua, levavam para a calçada suas cadeiras, sentavam-se ali e ficavam olhando aquela sala luminosa e colorida onde alguém lia um jornal ou regava flores.

A administração pública resolveu intervir; já eram muitas centenas os insones. E foi modificado o horário de funcionamento de alguns edifícios públicos: a cadeia, o hospital, o manicômio. Logo estes se revelaram ímãs poderosos para atrair o deserdados do sono. Naqueles prédios, sempre havia uma ala funcionando a todo vapor durante a madrugada, com luzes acesas, janelas escancaradas para a platéia de notívagos, por fim apaziguados, sentados no meio-fio, em banquinhos, em cadeiras de plástico de botequim, cadeiras de balanço. Trazidas de casa. Quem passasse na rua veria as pequenas multidões dos perseguidos da noite contemplando as enfermeiras que limpavam um doente, o interrogatório brutal de um ladrão de cavalos, ou as rotinas insensatas dos loucos do hospício, talvez os que aderiram com mais entusiasmo àquela reviravolta no mundo dos relógios; dormiam de dia e passavam a noite representando, conforme lhes dava na telha, a novelazinha de suas vidas para a platéia dos órfãos do sono.




quinta-feira, 8 de julho de 2010

2248) Insônia (22.5.2010)



(xilo: Franz Masereel)

Todo usuário de computador já se viu com uma tela congelada à sua frente, uma tela que não reage a nenhum comando mas que ao mesmo tempo não se apaga, fica ali parada, existindo em vão. Todo mundo já se deparou com máquinas defeituosas que a gente não consegue desligar, e que ficam funcionando até gastarem toda a energia que as alimenta. É mais ou menos isso que acontece com nossa mente durante uma crise de insônia. O corpo está exausto, a mente pede pelo-amor-de-Deus para adormecer; mas uma parte dela própria entrou num “loop”, num círculo vicioso que se recusa a ser descontinuado. Noventa por cento de nosso cérebro já entregou os pontos, mas o restante é uma ponta de iceberg que se recusa a afundar.

Borges disse que seu conto “Funes, o Memorioso” é “uma vasta metáfora da insônia”. Funes é um rapaz de 19 anos que leva uma pancada na cabeça por acidente e desde esse dia fica, como alguns pacientes do Dr. Oliver Sacks, com acesso à memória total de tudo que lhe aconteceu. Lembra tudo com exatidão absoluta, e por lembrar tudo é incapaz de parar de pensar. A cabeça pensa sozinha, reconstituindo fragmentos de milhões de minutos vividos, associando imagens e idéias, comparando milhões de lembranças... Não é um computador travado, é um computador funcionando sozinho, como um cavalo que não obedece mais ao cavaleiro e galopa sem parar.

Dormir, para Funes, era quase impossível. Diz Borges: “Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas no catre, na sombra, configurava cada fenda e cada moldura das casas que o rodeavam. Ao leste, num trecho não demarcado, havia casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava pretas, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção voltava o rosto para dormir. Também costumava imaginar-se no fundo do rio, embalado e anulado pela corrente”. Confesso que quando a luz do juízo teima em ficar acesa, a lembrança dessas frases, lidas aos 22 anos, me consola, e obedecer a sua sugestão me anula e me adormece.

A escritora Fran Leibowitz disse que “a vida é algo que acontece quando você não consegue pegar no sono”. Esta frase tem um mistério que a de Borges (cartesiana e de implacável racionalidade, mesmo descrevendo um fato impossível) não alcança. Pode significar que a vida é irredutível, não dá o braço a torcer, não precisa e não depende da nossa consciência para continuar existindo. E me lembra a frase involuntariamente cruel de John Lennon, “a vida é o que lhe acontece quando você está ocupado fazendo outros planos”, de uma canção que ele lançou meses antes de ser assassinado. Lennon foi também um insone famoso, como cantou em “I’m so tired”: “Estou tão cansado que não consigo dar um cochilo”. Existe algo de aterrorizante nesse mundo real que se rebela contra nós, que se recusa a ser diluído pelo sono, que nos trata com a indiferença de um drogado, um mundo que nos diz, “durma, se quiser, morra, se quiser, eu não preciso de você para continuar existindo”.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

1545) A noite escura da alma (24.2.2008)




(James Blish)

Um mistério da humanidade que para mim não tem mistério algum é: por que motivo algumas pessoas preferem trabalhar de noite, e não de dia? Como pertenço a essa espécie, meu modo de ser me parece óbvio, e os outros é que são estranhos. 

A alta madrugada é o único horário propício para o trabalho intelectual. Para escrever, para compor, ou apenas para pensar. Frederik Pohl descreve assim esse período mágico: 

“O meio da noite é especialmente benfazejo para um escritor. O telefone não toca, ninguém bate à porta, as crianças estão dormindo. É possível produzir pensamentos longos e consecutivos”.

Esta última frase diz tudo. Quem escreve precisa desenvolver idéias até uma certa extensão, sem perder de vista tudo que foi pensado antes. É um pouco como fazer castelos de cartas. Tudo se apóia numa base muito frágil. Qualquer perturbação bota tudo abaixo e é preciso recomeçar do zero. 

Eu comparo escrever a fazer contas de cabeça, somar vários números de cinco ou seis dígitos. Se a gente é interrompido, esquece tudo que veio antes, e tem que recomeçar.

Outro escritor de FC, James Blish, saiu-se com uma versão interessante e científica para essa importância atribuída à noite. Seu conto “The Dark Night of the Soul” (1956) descreve o cotidiano em uma colônia espacial situada em Calisto, um dos satélites de Júpiter. Ali, vários artistas (pintores, poetas, músicos, etc.) são reunidos para trabalhar em tempo integral, e um dos cientistas explica por quê:

“A maior parte do trabalho criativo é feito durante a noite. Durante essas horas, a massa inteira da Terra está entre você e o Sol. Ela o protege de um tipo muito penetrante de radiação solar, feito de partículas chamadas neutrinos. Estatisticamente, essa proteção é irrisória, porque toda matéria é quase perfeitamente penetrável pelos neutrinos, mas parece que os processos criativos são sensíveis até à menor proteção”. 

Quando lhe perguntam por que a colônia artística foi criada em Calisto, ele responde: 

“Primeiro, porque a esta distância do Sol o fluxo de neutrinos corresponde a apenas 3,7% do que experimentamos na Terra. O outro motivo é que por cerca de cinco horas a cada duas semanas, quer dizer, a cada ‘dia’ local, você está protegido não apenas pela massa do satélite, mas por toda a massa de Júpiter, que se interpõe entre você e o Sol. Durante esse período, você é capaz de utilizar suas forças criativas com um mínimo de interferência da estática dos neutrinos”.

A possibilidade de manter “pensamentos longos e consecutivos” é essencial para quem escreve. É como um compositor escrevendo uma sinfonia; ao escrever a parte de cada instrumento, ele precisa ter em mente tudo que os demais instrumentos estarão tocando naquele instante, lembrar o som de cada uma dessas combinações, etc. 

O pensamento linear é fácil de manter. Pensamentos complexos, simultâneos, em paralelo, só sem a interferência dos neutrinos.





domingo, 3 de agosto de 2008

0488) A luz e as trevas (12.10.2004)



(Van Gogh, "Noite Estrelada")

Como sou um cara de temperamento noturno, sempre me incomodei um pouco com a mania das pessoas de identificar as trevas com o Mal. A escuridão é sempre associada ao medo, à ignorância, ao perigo, à maldade, à tristeza. Entendo perfeitamente, mas, como ocorre com toda associação de idéias, ela também pode ser virada às avessas. Tomo como exemplo a frase de Emerson sobre o céu estrelado. Diz ele que se nunca pudéssemos avistar o céu noturno, e um dia de repente isto fosse possível, os homens ficariam deslumbrados e entoariam cânticos de louvor a Deus pela beleza de sua criação. Isaac Asimov inverteu esta plausível proposta em seu conto “Nightfall”, onde descreve um planeta num sistema de sóis múltiplos, onde, em virtude disto, nunca anoitece. Um dia, uma conjunção de órbitas faz com que um lado do planeta fique às escuras: ao ver as trevas infinitas e as estrelas faiscantes, o planeta mergulha no caos e no terror. E é uma possibilidade tão plausível quanto a outra.

Eu não troco uma noite estrelada por todos os sóis de verão deste mundo, e uma coisa que me incomodava muito no tempo da ditadura militar era a mania da MPB em compará-la à noite, e ficar falando “no dia que vai chegar”, “o sol que vai raiar”, “esta noite vai ter fim”... Meu amigo! Eu acho uma beleza, do ponto de vista visual, a aurora dedirrósea erguendo-se no Oceano Atlântico, mas, pela parte que me toca, o fim de uma noite é sempre uma má notícia.

Pois saibam os adeptos da Luz que a Luz é que precisa ser vista à distância. A Luz queima, a Luz mata, ou pelo menos queima e mata àqueles que, iludidos pelo seu brilho enganador, querem nela mergulhar. Perguntem às mariposas de Adoniran Barbosa! Luz é para a gente circular em volta dela, e não para mergulhar de ponta-cabeça como fazem as moscas de botequim naquele néonzinho azul onde se suicidam. Vejam por exemplo o caso de Lúcifer, o anjo da luz, que quis se transformar na Luz propriamente dita e como castigo acabou ricocheteando para o fundo das trevas. O sonho mais vão da Humanidade é tocar a Luz. Mas ninguém toca impunemente o Fogo; e não lembro de parábola mais bela dessa nossa ambição infantil do que o conto de Ray Bradbury “Os Frutos Dourados do Sol”, onde uma espaçonave vai até o Sol para colher seu fogo e trazê-lo à Terra.

“A luz assassinava demais”, diz Guimarães Rosa no Grande Sertão. Quem já teve as retinas crestadas pela fornalha nuclear que crepita no zênite sertanejo é capaz de ver na noite um Paraíso, nas trevas uma bênção divina. As trevas são como um sono para um corpo cansado, como o silêncio para ouvidos massacrados pelas cacofonias urbanas. Vivemos numa época cruel, pragmática, interesseira, onde o fazer é considerado um Bem absoluto comparado ao não-fazer; daí que palavras como “escuridão” e “silêncio” pareçam a negação da Vida, quando na verdade são a parte oásis dela.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

0427) Poesia e crise psíquica (1.8.2004)



(Fernando Pessoa fazendo um poema)


Comentei ontem nesta coluna episódios ocorridos com Augusto dos Anjos e Cole Porter, que em momentos de doença grave compuseram versos impecáveis. Uma espécie de crispação mental foi capaz de elevá-los a um estado alterado de consciência, a uma epifania criativa. Outro episódio curioso, e em alguns pontos semelhante, é narrado por Fernando Pessoa numa carta a Mário Beirão, em fevereiro de 1913 (“Crise psíquica”, em O Eu Profundo). Pessoa atravessava uma fase de atividade febril, escrevendo aos borbotões. Uma fase que ele denominava “crise de abundância”, em que a mão mal tinha tempo de registrar por escrito a cachoeira de versos que lhe brotava da mente. O poeta (que tinha fobia de trovoadas, desde a infância) voltava para casa certo dia, quando o céu carregou-se de nuvens escuras, e uma chuva pesada começou a cair. Tenso, angustiado com a possível proximidade de um ribombar de trovões, Pessoa apavorou-se e começou a correr para casa. Mas (como diria Veríssimo) deixemos que o próprio Fernando nos conte o que aconteceu.

“Atirei-me para casa com o andar mais próximo do correr que pude achar, com a tortura mental que você calcula, perturbadíssimo, confrangido eu todo. E neste estado de espírito encontro-me a compor um soneto – acabei-o uns passos antes de chegar ao portão de minha casa --, a compor um soneto de uma tristeza suave, calma, que parece escrito por um crepúsculo de céu limpo. E o soneto é não só calmo, mas também mais ligado e conexo que algumas coisas que eu tenho escrito. O fenômeno curioso do desdobramento é coisa que habitualmente tenho, mas nunca tinha sentido neste grau de intensidade.”

Eis o tal soneto, que ele intitulou Abdicação: “Toma-me, ó Noite Eterna, nos teus braços / e chama-me teu filho... Eu sou um Rei / que voluntariamente abandonei / o meu trono de sonhos e cansaços. // Minha espada, pesada a braços lassos, / em mãos viris e calmas entreguei, / e meu cetro e coroa – eu os deixei / na antecâmara, feitos em pedaços. // Minha cota de malha, tão inútil, / minhas esporas dum tinir tão fútil, / deixei-as pela fria escadaria. // Despi a Realeza, corpo e alma, / e regressei à noite antiga e calma / como a paisagem ao morrer do dia.”

A história torna-se plausível quando vemos que o soneto, apesar de bom, tem todas as imperfeições de um improviso: repetição de palavras que se enfraquecem mutuamente (“braços”, “calma”), um primeiro terceto bem fraquinho, rimas óbvias. Existe no entanto uma coerência estilística na descrição desse Rei que se despe de seus atributos de realeza; e existe verossimilhança psicológica nesse percurso mental de quem foge às angústias e às batalhas da vida real para regressar à paz dessa Noite simbólica. Que um indivíduo seja capaz de produzir um poema tão articulado enquanto corre na base do pernas-pra-que-vos-quero debaixo de um toró, é para mim uma prova definitiva de que todo momento poético é um momento de loucura sob controle.

domingo, 27 de abril de 2008

0379) Os que escutavam (6.6.2004)




A força de um bom poema reside tanto no que ele diz quanto no que ele deixa de dizer. Algo semelhante ocorre nas boas histórias de mistério, que quando se encerram parecem ser ainda mais misteriosas do que durante seu transcorrer, e nos deixam com mais perguntas do que respostas.

O poema “The Listeners” do inglês Walter De La Mare (1873-1956) sempre me produziu esta impressão. Nunca o li em tradução, e fico imaginando como se traduziria seu título. “Os ouvintes”? Não gosto: a palavra tem entre nós uma conotação muito forte de “ouvintes de rádio”, é uma palavra muito contaminada de contexto. “Os que escutam”? Não sei.

Em todo caso, o poema começa dizendo: “—Há alguém aí? – perguntou o Viajante, batendo na porta banhada pelo luar, enquanto seu cavalo mastigava a grama no solo fértil da floresta.” 

É uma noite de lua, e esse cavaleiro veio bater à porta de um casarão aparentemente deserto. Um pássaro esvoaça da torrezinha do solar, assustado pela batida, mas “ninguém se debruça da balaustrada, enquanto ele permanece ali, perplexo e imóvel.”

O Viajante bate mais uma vez, com força: “Há alguém aí?!” 

A casa está às escuras e parece abandonada, mas o poeta revela que ela está ocupada por “uma horda de fantasmas que escutam aquela voz vinda do mundo dos homens.” O Viajante sente a estranheza daquele momento, daquela ausência de respostas, e volta a esmurrar a porta com toda força, erguendo a cabeça para as janelas e bradando: “Pois digam a todos que eu vim, e que ninguém respondeu! Digam que eu cumpri minha palavra!” 

Sua voz volta a ecoar no interior sombrio da mansão. Os fantasmas o escutam, mas não ousam fazer o menor movimento. Eles ouvem quando o Viajante caminha até o cavalo; ouvem seus pés montando nos estribos, e o som das ferraduras sobre as pedras. E o silêncio retorna, mais pesado do que antes, quando o som dos cascos do cavalo se perde à distância.

Que lugar é este? Que mansão é esta? Não sabemos. Vemos o desfecho de uma história que não nos foi contada, mas que ressoa dentro de nós como as batidas do cavaleiro noturno ressoam à porta da casa deserta.

Por que esse homem voltou? Por que os fantasmas lá dentro se escondem, silenciam, fazem de conta que não o ouvem chamar? Quem é esse Viajante que vem de tão longe, a essa hora, somente para cumprir uma palavra dada?

Temos a estranha sensação de que já vimos esta cena. A sensação de que já fomos aquela pessoa que para cumprir uma promessa bate em vão à porta de uma casa abandonada; e de que já fomos aqueles que se escondem e escutam alguém batendo à nossa porta, para um acerto de contas do passado distante.

Temos a sensação de que vivemos num país de surdos, de fantasmas amedrontados, e que há um homem que bate à porta deste país, para nos lembrar de um compromisso antigo; mas não temos força para atender. Fingimos que não o ouvimos, na esperança de que um dia ele pare de nos chamar.





quinta-feira, 10 de abril de 2008

0361) Dolores Duran (16.5.2004)




Tito Madi afirmou certa vez que a música de Dolores Duran e a dele próprio eram uma ponte entre a canção romântica de Francisco Alves e a canção da bossa-nova. De fato, era tipicamente da bossa-nova a delicadeza verbal e a visualidade das imagens que a gente encontra nas melhores letras de Dolores, como em “Estrada do Sol”, parceria com Tom Jobim: “É de manhã, vem o sol, mas os pingos da chuva que ontem caiu ainda estão a brilhar...” A simplicidade com que materializava emoções está destilada nos versos de sua clássica “A noite do meu bem”: “Quero a paz de crianças dormindo, o abandono de flores se abrindo... Quero a alegria de um barco voltando, quero ternura de mãos se encontrando...”

Viveu 29 anos apenas, dedicados à música. Cantora profissional desde cedo, foi “crooner” de orquestra, excursionou pelo mundo. O único CD seu que possuo é da série “2 em 1” e reúne dois elepês intitulados Dolores Duran canta para você dançar, 1 e 2. Dolores canta em inglês (“Only You”), italiano (“Nel blu dipinto di blu”), espanhol (“Que murmuren”), francês (“Viens”). Cantou em nordestinense também, pois viveu em plena apoteose do baião, gravando músicas de Luiz Vieira (“Na asa do vento”) e Chico Anysio (“A fia de Chico Brito”).

Sua especialidade, no entanto, eram as músicas de solidão: “Ai, a rua escura, o vento frio... Esta saudade, este vazio... Esta vontade de chorar...” (“Ternura antiga”, parceria com o pianista Ribamar). Seu tempo foi um tempo de boates, cigarro, uísque, madrugadas ao pé do piano, boemia pesada num Rio que era feudo masculino. Era baixinha, tinha rosto redondo, feições miúdas. Deve ter experimentado a melancolia que recai sobre as mulheres sem beleza e os homens sem audácia. Escreveu versos que não envelhecerão: “Eu quero qualquer coisa verdadeira: um amor, uma saudade, uma lágrima, um amigo... Ai, a solidão vai acabar comigo” (“Solidão”)

Sem o melodrama bombástico em que tantas vezes se transformam as canções de dor-de-cotovelo, Dolores sabia organizar em palavras nítidas o tumulto mental dos apaixonados: “A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer, briga pensando que não vai sofrer, que não faz mal se tudo terminar...” (“Castigo”). Dizem os amigos que, longe de ser a pessoa depressiva que suas músicas sugerem, era alegre, bem-humorada, mas seu romantismo era de um realismo a toda prova: “Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar: há um adeus em cada gesto, em cada olhar...” (“Fim de caso”).

Nasceu no subúrbio do Irajá, chamava-se Adiléa da Silva Rocha. Morreu em 1959, de parada cardíaca, depois de chegar de uma farra às 7 da manhã. Provavelmente subiu ao céu e, ao bater na porta, continuava com a esperança de que alguém a abrisse dizendo: “Entre, meu bem, por favor... Não deixe o mundo mau lhe levar outra vez. Me abrace, simplesmente: não fale, não lembre, não chore, meu bem.” (“Por causa de você”)

quinta-feira, 27 de março de 2008

0302) Retrato do artista quando chove (9.3.2004)



Eu não tenho nada contra o sol, mas me sinto muito mais à vontade na companhia da chuva. Estou falando bem baixinho para que não me escutem no Rio de Janeiro, onde moro, e em João Pessoa, onde este jornal também circula. Que isto fique somente entre nós, campinenses, que aprendemos desde a infância a arte sutil de saborear a textura diáfana de uma neblina, e que não nos sentimos de maneira alguma prejudicados quando a tarde se acinzenta, as nuvem se avolumam, e o céu cai por cima de nós com toda força.

Tenho pensado muito nisto agora, com essas chuvas que andam desabando pelo Nordeste, derruindo pontes, invadindo casas, expulsando populações inteiras. Muita gente aqui no Rio fica perplexa, porque os telejornais ficam mostrando imagens alternadas de catástrofes e de comemorações; adultos em lágrimas com os troços na cabeça e pirralhos felizes tibungando na barragem. A mente cartesiana dos civilizados trava um pouco diante disto. É difícil explicar que num lugar apocalíptico como o velho Nordeste tudo está sempre a uma vírgula de uma catástrofe qualquer. Chover é problema, mas não chover também é problema, e já que tudo é problema nós apenas vivemos num nível mais problemático de normalidade – e é só tocar o barco como sempre se fêz.

O bom da chuva, reconheço, é quando se mora numa casa segura, num apartamento ao abrigo das enchentes e de outros incômodos. (Calma, amigos, sou solidário com as populações ribeirinhas e periféricas, mas tenho meus momentos poéticos!) A chuva que sangra açudes, desmorona barragens, engrossa rios e alaga bairros é uma chuva prosaica, uma chuva desencadeadora de meros fatos. Eu gosto mesmo é da chuva que se escuta lá fora, de preferência à noite. Primeiro é um barulho ciciante que parece vir de todas as direções, cada vez mais alto; então escutamos o tamborilar das primeiras gotas no vidro da janela, e logo é um verdadeiro jorro de água que fustiga o vidro. Pelo meio-fio desce a enxurrada marrom onde passam velozmente galhos, sacos plásticos, latas amassadas.

A chuva lava o mundo lá fora, e o ruído da chuva parece que lava a gente aqui por dentro, como uma ducha fria em tarde quente, arrastando até o último grão de poeira em nossos cabelos e em nossa pele. A chuva lembra à gente que o mundo está vivo. Numa hora qualquer de sol ou de noite aberta, a gente até pensa que está num lugar morto, numa espécie de Marte que ainda não virou deserto mas onde a Natureza não existe mais. Durante um temporal, contudo, não há como não perceber que aquilo é uma espécie de voz dizendo alguma coisa. Quando chove estamos escutando, como diria Stanislaw Lem, “uma sinfonia que cria a si mesma”, a música que o mundo tocava para si mesmo antes de ser habitado por criaturas que produzem sons com instrumentos inventados. A chuva nos diz algo que só entendemos aqui, no escuro, à luz dos relâmpagos e ao som dos trovões, no calor aconchegante de quem retornou a águas antigas.

segunda-feira, 10 de março de 2008

0169) Sombras da noite (5.10.2003)




(xilogravura de Frans Masereel, 1889-1972)

Todo dia meu é a Divina Comédia: a manhã é um inferno, a tarde um purgatório, e a noite um paraíso. Pode ser uma questão de metabolismo, porque há pessoas solares e pessoas lunares. Pode ser uma questão de horário de trabalho meio torto – 90% do que produzi de aproveitável na vida surgiu entre meia-noite e cinco da manhã. Pode ser também a angústia kafkeana que me embebe: quando acordo e me lembro de quem sou, e do país e do século em que vivo, o choque é tão brutal que levo algumas horas para me recuperar.

Usei há pouco as expressões “manhã”, “tarde” e “noite”, mas elas devem ser entendidas em sentido metafórico. Eu só acordo por volta do meio-dia, e “manhã” para mim é o trecho que vai até as 16:00, quando, depois de muito tempo ao computador e ao telefone, começo a acordar. Daí até a meia-noite é o que chamo de tarde: é almoço, jantar, ida ao cinema, convivência com a família, televisão, assuntos domésticos. À meia-noite, todo mundo em casa vai dormir. Vou até as janelas e as escancaro. A Baía de Guanabara se estende aos meus pés, imersa na treva, mas coruscante de estrelas e dos milhões de luzes dos edifícios da metrópole. A noite começou. O mundo nasceu outra vez.

Estou sendo metafórico de novo, porque quando abro a janela não vejo a Baía de Guanabara, e sim a casa da frente, a guarita do segurança e os carros estacionados no meio-fio. É tão poderoso, no entanto, o sopro espiritual das divindades noturnas a quem rendo tributo que me sinto como o próprio Cristo Redentor, escancarando o peito, o coração e a mente para captar com minhas antenas os sonhos que estão sendo sonhados pelos meus semelhantes, embeber-me de sua substância volátil, passá-los para o papel antes que se dissipem.

Nessas horas, lembro a estrofe de Guilherme de Almeida, que decorei na infância: “Busca a Sombra, o Silêncio, a Solidão: três “ésses”, / três serpentes do teu Paraíso interior. / Colhe o fruto que assim tu mesmo te ofereces: / chama-se Pensamento, e é até melhor que o Amor.” No silêncio da noite, é possível escutar a respiração profunda da cidade, a pulsação descansada do seu coração subterrâneo. O cérebro da gente respira aliviado, como se tivesse se libertado de uma pressão insuportável. Os humanos estão dormindo, e isso diminui a estática mental que polui o éter. Em ocasiões especiais é possível escutar ao longe o deslocamento da Lua através do espaço, que produz um ruído parecido com aquele distante ruído metálico que faz uma bacia quando é retirada obliquamente de uma banheira cheia dágua. É possível ouvir o crepitar distante das fornalhas nucleares das estrelas, o único fogo que aquece a alma das criaturas noturnas como eu. Às vezes, um bug civilizatório provoca um blecaute, e é possível avistar no céu a Via Láctea, que Vitor Hugo descreveu como “a hidra-universo torcendo seu corpo incrustado de astros”. O dia só existe na Terra. A noite é o estado natural do Cosmos.