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terça-feira, 20 de setembro de 2016

4162) Tropeções de escritor (20.9.2016)



("cadavre exquis" - www.letti.de)

O escritor Tim Powers contava que começou a ler um livro e a certa altura dois personagens entram no carro e pegam a estrada para outra cidade. Vão conversando e de repente o narrador diz: “Pedi licença a Fulano e fui na cozinha pegar duas cervejas.” E o leitor dá um pulo e diz: Peraí, os caras não estavam num carro?!

Erro de continuidade não existe só no cinema. Existe um certo surrealismo nesses cortes bruscos motivados por inexperiência, carraspanas, doença na família, ou mero esquecimento mesmo. Um autor de pulp fiction, por exemplo, tinha que fazer “x” páginas por dia e geralmente fazia sem ter tempo (ou saco) para reler o que tinha feito na véspera. Pegava de onde tinha deixado.

A falta de cerimônia deles para com a arte literária beirava a de Nelson Rodrigues, que, reza a lenda, aproveitava os remansos do tempo na redação do jornal onde garimpava o leite das crianças, e ficava na máquina batucando os folhetins com que garantia o café dos adultos, e que assinava como “Suzana Flag”(Meu Destino É Pecar, Escravas do Amor, etc).

Eram novelões intrincados, ora com alguma rudeza naturalista, ora melodrama puro, tango argentino puro. Cada romance era como três ou quatro peças rodriguianas interagindo umas com as outras.

Daí que em certos momentos Nelson enchia o saco, vestia o paletó e descia para almoçar ou para tomar uma. Os colegas corriam para a máquina, liam, sentavam ali e continuavam a história por mais duas ou três páginas até alguém anunciar o retorno dele, e aí todos voltavam a suas mesas. Nelson tirava o paletó, pendurava o paletó no encosto, puxava a cadeira, sentava, erguia o prendedor de metal de sobre a folha de papel e relia as últimas cinco linhas. Repunha o prendedor, e daí seguia em frente.

Isso é uma típica brincadeira de redação ou de escritório, ambientes propensos a esse tipo de gracejo. Imagino por minha conta que esse detalhe, mesmo que fosse revelado a Nelson, não mudaria nada. Ele daria de ombros, enfastiado. Que importava se havia um texto intruso incrustado no DNA de sua criatura? Autoria? Que importava a autoria?  Fossem perguntar a Suzana Flag.

Eu diria que em outro contexto isso seria uma brincadeira surrealista de meta-parceria em cabra-cega. Aquela brincadeira de escrever uma frase e dobrar o papel deixando um pedacinho para ser lido e continuado pelo próximo, que faz o mesmo e passa adiante. São os tais “cadáveres delicados” que André Breton, Luis Buñuel, Paul Éluard e os demais surrealistas praticavam, com textos e desenhos coletivos feitos às cegas.

Nelson Rodrigues, mesmo sob o próprio nome, e no que tem de melhor, sempre foi um imperfeccionista, produzindo sem parar, confiando mais no impacto da verdade central de tudo aquilo do que em qualquer filigrana estilística.

Era escritor de redação de jornal, com formação de almanaque, de palavras cruzadas, de coluna de variedades, curiosidades, faits-divers (como também o foram Georges Perec, Raymond Queneau, Mario Quintana). O redator navalha, que com uma só frase degola uma dúvida e encerra uma questão.

Essa era a escola de Nelson, um fazedor de frases impecável. Teatro + jornal = literatura. A tirada brilhante das grandes cenas do melodrama, e a concisão desconcertante do criador de manchetes.

Talvez alguma coisa de sua obra envelheça, mas não acho que serão os diálogos. Talvez os enredos. Não era um grande concatenador de manobras complicadas. Suas intrigas eram intrigas suburbanas; mesmo no romance eram teatrais; mesmo no teatro tinham algo de radiofônico. Pessoas falando, falando, jogando tudo pra fora. 

E as tramas dele eram entendíveis por quem é capaz de entender uma página policial, uma novela hispânica, um folhetim francês. Mas seu negócio não era a “trama”. Eram as situações bizarras, patéticas, brutais, constrangedoras em que ele jogava seus personagens como quem joga gente aos leões. Seus enredos não parecem um silogismo ou uma equação, e sim uma girândola de fogos de artifício.

Lembro às vezes a história, acho que contada por Frank Gruber, de um escritor de pulp fiction que deu uma festa para uma multidão de amigos em seu apartamento em Manhattan, anos 1940. Enquanto os convidados bebiam e dançavam, o dono da casa, num recanto, datilografava a toda velocidade as últimas vinte páginas de um conto que precisava pôr no Correio no dia seguinte. À meia-noite ele deu o conto por terminado e foi beber e dançar com os outros.

Nessas lendas urbanas literárias, a profissão de escritor parece mais romântica do que é, mas o crítico e o leitor: pensam: como ficaria uma história escrita assim? Para alguns, não faz diferença. Tem gente que escreve num café de calçada, num beliche de caserna, num trem lotado. Tem escritor que nem se altera, pode estar num clube, num grito de carnaval, escrevendo num caderno sob a chuva de confetes, e o texto sai com som de mosteiro.

Penso assim: pessoas como esses escritores pulp reliam o que tinham feito? Pegavam da última frase, como Nelson Rodrigues? Mantinham controle de continuidade em algum bloco-de-notas com nomes, datas, direções mencionadas no texto? Ou era tudo de oitiva?  Isaac Asimov orgulhava-se de só pegar num conto para revisar quando ele era recusado por todas as revistas disponíveis no momento. Eu acho isso uma heresia pior do que não ir ao médico.

O texto que Asimov mandava era seu primeiro rascunho, que já era praticamente o texto final. O Doutor não gostava de reescrever, tinha (ao que se diz) uma memória espantosamente retentiva, e defendia sua teoria estilística da “prosa da vidraça” (transparente, mostrando tudo, sem chamar a atenção para si)  contra a “prosa do vitral”, a prosa ornada, que não importa do que fale, está mostrando antes de tudo a si própria.

Se você não é Asimov, como é o meu caso, o jeito é revisar. Você “perdiganha” um tempo imenso relendo pela décima vez um trecho que já foi reescrito nove, mas por isso mesmo, prestenção. 

Será que Nelson percebeu e cortou as intervenções dos seus companheiros de jornal? E como seriam? Será que eles esculhambavam muito, ou procuravam repetir os nomes dos personagens, continuar, mesmo avacalhando, o que estava escrito ali? Cem anos depois, algum professor de literatura vai envelhecer tentando em vão entender que cortes bruscos de enredo e de tom eram aqueles que de vez em quando sobressaltavam o livro.

De qualquer modo, brincadeira surrealista ou não, é uma interferência na obra feita à revelia do autor da obra. Comparo com aquela tradução de Os Lusíadas para o inglês onde o tradutor britânico cortou várias estrofes consideradas impróprias, mas em compensação inseriu trezentos versos com a descrição de uma batalha marítima que não existe no original. (Aqui:









sábado, 5 de outubro de 2013

3306) Unanimidade burra (2.10.2013)





Nelson Rodrigues é autor de frases brilhantes. Um dos maiores fazedores de frases da nossa língua, juntamente com Millôr Fernandes, Paulo Leminski, Guimarães Rosa, Glauco Mattoso, Otto Lara Resende... 

Não apenas a frase sentenciosa, que exprime um conceito redondo, impactante: “Nem toda mulher gosta de apanhar, somente as normais”. Mas a frase-incompleta, que precisa vir apensa a um texto maior, mas dá-lhe um colorido e significado inconfundíveis: “o olho rútilo e o lábio trêmulo” é uma imagem rodriguiana que serve para descrever o personagem tomado por uma emoção incontrolável, seja a luxúria, a raiva, a cobiça.

Uma das frases mais desperdiçadas pelos que o citam, no entanto é o famoso “toda unanimidade é burra”. 

Eu diria que toda frase que tem o formato “todo x é y” é burra, mas esse tiro-no-pé tautológico me força a equacionar a coisa de outra forma. 

Frases com o formato “todo x é y” não exprimem uma verdade científica (uma verdade exterior à mente que a enuncia, uma verdade verificável por terceiros), nem mesmo uma opinião definitiva do autor. 

Frases assim são explosões, desabafos, e não é por lhes faltar um ponto de exclamação que são menos exclamativas. Podem até não ser verdade, mas são algo que o autor pensou por impaciência num certo instante e resolveu explodir.

O problema com esse formato de frase é que esse é o modelo preferido de enunciado para a afirmação de preconceitos: todo baiano é preguiçoso, todo árabe é terrorista, todo russo joga bem xadrez... 

Nelson disse sua frase (quanto quer de aposta?) porque era um insatisfeito em seu estado normal e um revoltado em momentos mais intensos. Gostava de ser do contra, de desafinar o coro dos contentes. Se dez pessoas juntas tivessem a mesma opinião ele via nisso um sinal de preguiça mental, de passividade, de obediência cega, de mentalidade admirável-gado-novo.

O problema, hoje, é que quando um livro faz sucesso e começa a ser elogiado logo aparece alguém proclamando: “Esse filme não pode prestar, porque toda unanimidade é burra”. Se todo mundo em volta concorda quanto a um fato recente no País, surge alguém para dizer que essa interpretação é burra, valendo-se de Nelson. 

Nelson era um ressentido cósmico, um existencialmente inadaptado, um Seu Lunga sem paciência para com a estupidez e a mesquinharia humanas. Na ditadura, ele, um conservador, via-se ilhado em redações aguerridamente esquerdistas e oposicionistas. Individualista até o tutano, não queria nenhum grupinho dizendo-lhe o que pensar. 

Discordo muitas vezes de suas idéias, mas hoje, quando ele começa a virar unanimidade nacional, é preciso a todo custo defendê-lo da burrice alheia.


terça-feira, 19 de março de 2013

3137) Romance e futebol (19.3.2013)




(Nelson Rodrigues)


Um espectro que nunca deixou de assombrar a crítica literária brasileira foi: Por que motivo não existe entre nós uma grande literatura de ficção (romances, contos) voltada para o futebol? Pode-se argumentar que há bons livros sobre o tema (Macedo Miranda, Edilberto Coutinho, etc.), mas é um “corpus” ainda desproporcional em relação à importância que o futebol tem em nosso país. Num post de 2010 em seu blog TodoProsa, Sérgio Rodrigues afirma: “Pois eu tenho uma pista. Nada de elitismo ou falência da arte brasileira. Aposto que o Grande Romance do Futebol Brasileiro está escondido no mesmo limbo em que dormem seus irmãos, os embriões eternos do Grande Romance do Basquete Americano, do Grande Romance da Fórmula 1 Italiana, do Grande Romance do Pingue-Pongue Chinês e do Grande Romance do Curling Escocês”.

Ou seja: é uma falácia esse raciocínio de que se um país é bom num esporte ele deveria ter uma literatura florescente voltada para esse esporte. Não é uma relação assim tão mecânica. No Brasil, o que temos de alto nível é a crônica futebolística, o que me parece lógico. Temos clubes de verdade, craques de verdade, espetáculos épicos de verdade. Quem gosta de futebol, gosta da adrenalina produzida pela disputa esportiva de verdade, entre grandes times. (Ou entre times pequenos, desde que o contexto emocional ou social dê a esse confronto uma dimensão épica qualquer.) E o que cresceu aqui no Brasil foi a literatura de não-ficção em torno desse universo real. Da crônica, que vem desde os irmãos Mário Filho e Nelson Rodrigues até os cronistas mais recentes, não temos do que nos queixar. Nossa crônica tem um alto nível literário.

O problema do romance e do conto talvez seja o mesmo do cinema. Ninguém gosta de ver num filme um jogo de futebol inventado, encenado por atores. A falsidade é evidente. Ninguém se emociona, mesmo quando um atacante dribla cinco e entra com bola e tudo. Qualquer espectador sabe que a jogada foi escrita, ensaiada e dirigida para acontecer daquele jeito, então qual é o mérito? O mérito do futebol é ser imprevisível, improvisado, sujeito a reviravoltas que não são determinadas por uma equipe roteirizadora. Numa história de ficção é dificílimo transmitir essa impressão de imprevisibilidade, de chances totalmente abertas. O futebol é familiar demais aos torcedores para que um jogo claramente escrito e coreografado possa se fazer passar pela coisa de verdade. Até um VT de quaisquer dois times pelos quais o espectador não torce é melhor, porque sabemos que, no momento da gravação, tudo aquilo estava acontecendo de verdade, tudo podia acontecer, e essa é a emoção principal do esporte.





sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

3062) A gente não presta (21.12.2012)






Nelson Rodrigues tornou célebre o conceito de “complexo de viralata”, a forma peculiar de complexo de inferioridade que o brasileiro em geral costuma puxar do bolso à menor derrota, ao menor fracasso. Esse complexo está bem ilustrado na famosa piada sobre a criação do mundo. Deus põe no Brasil as melhores florestas, as melhores praias, o que há de melhor na Natureza, e quando alguém reclama de tanto favorecimento ele diz: “Ah, você precisa ver o povinho vagabundo que eu vou colocar aqui”. 

Eu proponho rebater essa piada com outra em que Deus está distribuindo as classes sociais no Brasil, e vai derramando aqui as elites mais egoístas e mesquinhas, os intelectuais mais colonizados, os banqueiros mais rapaces, a classe média mais consumista, os políticos mais venais, e assim por diante. Alguém protesta contra tanto castigo e Deus responde: “É porque você ainda não viu o Povo-mesmo que eu vou botar aqui, é um povo que vai passar por cima disso tudo e vai fazer um grande país”.  A piada é besta?  Não é nem piada?  Sei lá, pra mim é tão boa ou tão ruim quanto a outra, porque a mente da gente aceita o que já está estruturalmente preparada para aceitar.  Tem brasileiro que duvida do Brasil e pronto, acabou-se. Para ele, dizer que o Brasil não presta serve de camuflagem inconsciente para o fato de que quem não presta é ele.

Caetano Veloso disse uma vez em sua coluna no “Globo”: “Gostaria que, em vez de desvalorizar para se eximir, que é o que a maioria se acostumou a fazer, as pessoas se habituassem a valorizar o Brasil, porque isso dá mais responsabilidade”. Acho que ele detectou o nosso bug.  Desvalorizamos o Brasil para que o Brasil não cobre muito esforço de nós, coisa que o Brasil faria se estivesse destinado a grandes realizações. Somos como o jogador de futebol que diz: “Pra que correr? Vamos perder de qualquer jeito...”  E eis um belo exemplo de profecia que cumpre a si mesma.

Dizer que o Brasil não presta interessa a um grupo de deprimidos macambúzios (como desculpa para não fazerem nada, porque são mesmo incapazes de fazer seja lá o que for) e a um grupo de gente para quem o Brasil presta, e muito, do jeito que está – todos os que estão se enchendo de grana com o atual estado de coisas. “O Brasil é essa porcaria mesmo”, dizem, “todo mundo aqui é ladrão, todo mundo aqui é vagabundo, isso aqui não tem futuro”. Desmoralizar o país é uma simples tática para bloquear os que gostariam de moralizá-lo. Talvez o Brasil seja (na visão desses caras) um pitbull que vai estraçalhar todos os seus esquemas, as suas tenebrosas transações, no instante em que descobrir que não é um mero viralatas. Quem viver, verá.


terça-feira, 26 de julho de 2011

2618) A bola não quis entrar (26.7.2011)



Assisti somente o 2º. tempo da decisão da Copa América, quando o Uruguai derrotou o Paraguai por 3x0 e tornou-se merecidamente o campeão. Foi uma final disputada entre o time que tirou a Argentina e o time que tirou o Brasil, de modo que o resultado confirmou o momento difícil vivido pelas duas principais seleções do continente. O Uruguai, a terceira força, se impôs com um futebol competitivo, fechado, veloz no contra-ataque, jogado com a raça habitual e com a técnica que o futebol uruguaio tem, mas que às vezes é suplantada pela raça, a ponto de esta se transformar em truculência e botinada.

A raça, quando entregue a si própria, vira botinada; a técnica, quando entregue a si própria, vira salto alto. Foi este o caso da Seleção Brasileira, que oscilou entre a apatia autoconfiante (“O gol vai sair naturalmente”) e a perplexidade esbaforida (“Que saco, esses caras que não jogam nada não estão deixando a gente jogar!”). Já vimos esse filme, não é mesmo? A Seleção Brasileira só é ela mesma quando consegue, além de administrar os poderosos fatores extra-campo, encontrar dentro de campo esse equilíbrio ideal entre vontade e capacidade, entre a disposição de buscar o gol e a competência para fazê-lo. Não ouvi nesta Copa América a inevitável frase dos nossos atacantes, “a bola não quis entrar”, mas certamente ela foi pronunciada. Se o Brasil não tivesse trazido nenhuma outra contribuição ao futebol, bastaria essa frase, exemplo perfeito da fuga à responsabilidade, para inscrever nosso país (de uma maneira não muito recomendável, concordo) na história do esporte.

A verdade é que alguns times, mesmo que não saibam produzir pedaladas ou dancinhas comemorativas, sabem fazer com que a bola entre. O Uruguai meteu três gols no mesmo Paraguai que bloqueou o Brasil durante 120 minutos e quatro pênaltis. O terceiro gol, no último minuto, foi uma pintura, pelo contra-ataque, pelo lançamento, pelo passe de cabeça de Suárez que encontrou Furlán um segundo antes de estar impedido, e pela conclusão firme deste, colocando a bola rente à trave, e dando a impressão, até o último segundo, de que ela não entraria. Ela deu toda a pinta de que não queria entrar, mas ele soube fazer com que ela lhe obedecesse.

O Brasil está decadente e nossos jogadores são medíocres? Que nada, o time é razoável, o técnico tem princípios que merecem confiança. A questão é que neste Mercosul do futebol o Brasil só entra em campo com ares de prima-dona. Antes do jogo a imprensa já pergunta aos atacantes se haverá pedalada, se haverá dancinha, como vão comemorar os gols, e os jogadores respondem, dando o gol como coisa certa. Enquanto isso, os adversários treinam para fazer com que a bola brasileira não queira entrar, e não sei que conspiração malévola é essa que mesmo com quatro pênaltis a condenada da bola não entra!... Não sofremos mais do complexo de viralata de que falava Nelson Rodrigues; temos complexo, sim, de “poodle” de madame.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

2429) A pergunta boba (17.12.2010)



Todos nós, profissionais calejados, rimos quando vemos na TV a jovem repórter principiante (sim, minhas amigas, não é preconceito meu, mas geralmente é uma mulher) perguntando ao entrevistado famoso quem ele levaria para uma ilha deserta ou qual a sua cor favorita. São perguntas idiotas, mas no estreito mundinho mental em que ela foi forçada a viver, o das revistas-para-meninas e revistas-para-moças, essas perguntas são feitas com enorme frequência. Ela cresceu ouvindo-as e certamente imagina viver numa cultura em que não apenas todo mundo tem uma cor favorita, mas todo mundo se interessa em saber qual é a cor favorita dos outros.

Grande parte das perguntas feitas em entrevistas não são coisas que o público quer saber, e muito menos coisas que o jornalista quer perguntar. São perguntas que ele herdou. Perguntas que passam de geração em geração de repórteres, pelo simples fato de que é mais fácil usá-las de novo do que ter uma ideia nova. Além do mais, quem critica jornalistas não sabe o que é todo dia ter que encher aquela página que parece ter um hectare de superfície branca. Todo dia ter que reinventar o mundo a partir do zero. Todo dia ter que perguntar algo a desconhecidos, a alguém sobre quem o repórter leu meia lauda de informações colhidas às pressas, enquanto sobe no elevador para bater na porta do entrevistado.

Daí que muitas vezes o repórter faz uma pergunta besta e o entrevistado dá uma resposta áspera. Perguntaram a Nelson Rodrigues “que recado ele daria aos jovens”. Nelson jogou este paralelepípedo: “Envelheçam!”. Coitados dos jovens, que tiveram de obedecer-lhe a contragosto. O repórter (desta vez imagino que era um rapaz) certamente estava acostumado a entrevistar velhos cheios de conselhos e palavras de ordem.

Consta que alguém perguntou a Ariano Suassuna o que ele achava da Aids, e ele retrucou: “Prefiro Dostoiévski”. Menos mal para o entrevistador, que voltou para a redação com uma resposta pitoresca, ainda que revestida de um certo azedume. Ariano é o tipo do escritor que se irrita com a mania de se querer saber a opinião de um escritor sobre qualquer assunto, como se pelo fato de ser escritor ele tivesse obrigação de ter uma frasezinha espirituosa ou uma idéia revolucionária a respeito de qualquer tema.

Há autores que raramente dão entrevistas (Rubem Fonseca, Guimarães Rosa, etc). Não é por serem antipáticos ou misteriosos, é para não terem que dizer “onde encontram idéias para escrever tantos livros” ou “tipo, como foi que pintou essa coisa, assim, de escrever”. O problema não é a dificuldade de dar uma resposta, é o constrangimento de ter que escutar a pergunta. Perguntaram a Jorge Luis Borges o que faria se fosse nomeado Ministro da Economia da Argentina, e ele explicou: “Renunciaria”. Acho que é por isso que se perguntam tantas coisas, mesmo bobas, aos escritores. Eles só dão respostas pra lá de sensatas.

sábado, 29 de maio de 2010

2086) Machado e Nelson (14.11.2009)



Difícil encontrar dois indivíduos tão diferentes e tão parecidos. Ambos eram grandes fazedores de frases, cada um ao seu modo. Alguém já disse que uma frase é algo parecido com uma espada. Se assim for, a frase de Machado era um florete, a de Nelson uma katana de samurai. Viveram do jornalismo em épocas de jornalismos muito diferentes, mas todos dois herdaram do jornalismo a fluência, a aparente facilidade de escrever, o diálogo direto com o leitor, sem falar nos truques narrativos do folhetim.

Ambos eram fascinados pelo adultério, aquela vozinha incansável que lhes sussurra coisas de dentro do travesseiro quando estão tentando dormir. Para a maioria das pessoas o adultério é um perigo terrível mas remoto, como a possibilidade da queda do avião em que estamos ou de incêndio do prédio em que residimos. Para esses indivíduos especiais, no entanto, o adultério é fonte perpétua de deleite e tortura. A idéia do adultério próprio é um Paraíso sem Deus, onde o todo-poderoso é ele, com Eva ao seu dispor, e fazendo o papel de serpente e de folha de parreira. O adultério da companheira é um Inferno de Dante, com todos os Nove Círculos só para si.

Machado era pudico e Nelson era devasso, e cada um fez ao seu modo a crônica do pudor e da devassidão que os cercavam. Alguns leitores acostumados a emoções fortes criticam o pedestrianismo dos enredos de Machado, onde só acontecem coisas banais, domésticas, e os meros crimes de morte podem ser contados nos dedos. Por comparação, os enredos de Nelson são um prolongamento da página policial dos matutinos. Fervilham de tragédias e escândalos que fariam o Bruxo tremer, assustado com tal desvendamento de segredos que ele levava noites inteiras para encaixar nas entrelinhas.

Curiosamente, Nelson (que não praticou a poesia, ao que eu saiba) escrevia tão bem para o teatro quanto no romance, no conto, na crônica. Sua matéria-prima eram situações humanas, expostas através de ações e diálogos. Já Machado foi perfeito no conto e no romance, mas nunca consegui acreditar no seu teatro, e acho sua poesia meio fraquinha (eita, agora lá vêm 200 emails me excomungando!). Alguns sonetos aceitáveis; nenhum que seja classe A (sim, nem mesmo o da Carolina, o do Natal, o do vagalume).

Não sei se Nelson admirava ou desdenhava (e em que termos) a obra de Machado, cujo nome não é mencionado no índice remissivo de O Anjo Pornográfico de Ruy Castro. Talvez tivesse pelo autor de Dom Casmurro aquela admiração tácita de quem escreve bem por quem escreve bem, independentemente de afinidades; e uma dose encorpada de menosprezo por um sujeito que talvez lhe parecesse um fraco, um tímido, um “cauteloso pouco-a-pouco” na expressão de Mário de Andrade. Se compararmos as trajetórias de vida dos dois, a de Machado é um gráfico horizontal que só de longe em longe é perturbado por um estremeção. A de Nelson daria algo parecido com um resumo sismográfico do Japão nos últimos cem anos.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

1957) Os anjos pornográficos (17.6.2009)



Qualquer estudo sobre as relações entre o machismo, a literatura de folhetim e o cristianismo não pode deixar de incluir Nelson Rodrigues e Luís Buñuel como personagens. (Não seriam os únicos, claro – como deixar de fora Rubem Fonseca, Adelino Moreira, Pedro Almodóvar, Carlos Zéfiro, Dalton Trevisan, etc.?) O teatro de um e o cinema do outro são herdeiros do teatro de melodrama e do folhetim do século 19, cuja mentalidade absorveram na infância. Desinformação, tabus, voyeurismo, culpa, pecado... e um desejo sexual maciço, que, segundo Don Luís, não podia ser comparado com nada neste mundo.

Nelson Rodrigues via na arte uma função purificadora: “o personagem é vil para que não o sejamos”. Dizia que as mulheres honestas viam a adúltera no palco e descarregavam através dela suas tentações; era o que bastava para que se mantivessem fidelíssimas. Seu teatro tem a duplicidade permanente que permeia a obra de tantos moralistas: descrevem o pecado com minúcias, e no fim elogiam a virtude.

Coisa parecida ocorre com o cinema de Buñuel, que compartilhava com Nelson a maldição de ter nascido no interior de uma cultura católica, repressiva, em que o sexo era carregado de culpa. Buñuel dizia não gostar dos filmes modernos (dos anos 1960) em que as pessoas tiravam a roupa e copulavam na tela. Isto o desagradava – mas não o impedia de realizar filmes cheios de perversões e depravações contadas indiretamente, como Viridiana ou A bela da tarde.

O sexo, nessas circunstâncias, tem o mesmo poder liberador da blasfêmia. Quando é permitida, a satisfação do desejo sexual é como uma brisa agradável que acaricia, trazendo um misto de alegria e paz. Reprimida, tem a força do ar comprimido capaz de disparar uma bala; ou de um furacão que esperou anos para tirar aquela cidade do meio do seu caminho. A obra desses autores frutos da cultura cristã (mesmo quando se afirmam ateus) é a ponta do iceberg celibatário de homossexualismo e pedofilia em seminários, mosteiros e conventos. O ascetismo é possível, é belo e nobre. Mas aqui pra nós, não é pra todo mundo. Requer uma chama límpida e fria, quase divina, e nós somos (para o bem e para o mal) humanos e “calientes”.

Reprimidos, angustiados e cheios de conflitos, nem Don Luís nem Nelson viveriam em paz no mundo de hoje. A superabundância de bundas na TV e nas capas de revistas os chocaria. Tarados até a medula, eram do tipo para quem o excesso de nudez física é um entrave à fantasia mental. O que os excitava não era propriamente tocar a carne feminina, mas, de certo modo, possuir a mente da parceira, dobrá-la aos seus desejos, arrastá-la ao pecado conjunto. Como no velho bolero cantado por Dalva de Oliveira (“Querido!... / Eu tenho um pecado novo / e quero pecar contigo...”), seu desejo era o de ser seduzido e de seduzir, o de pecar e arrastar para o pecado, o de raptar uma parceira e conduzi-la de volta ao Jardim da Serpente.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

1938) O mundo de Don Luís e Nelson (26.5.2009)



O mundo cinematográfico de Luís Buñuel e o mundo teatral de Nelson Rodrigues são tão primos e tão próximos que parecem uma coisa só. Parecem obras de um mesmo autor, que por problema de contrato escrevia parte do seu material sob pseudônimo. Os dois são representantes típicos daquela geração de homens atormentados que viveu no começo do século 20, indivíduos encharcados de catolicismo, moralismo, sexualidade e culpa. Esse pessoal viveu num mundo muito diferente do mundo de hoje, onde vigoram a permissividade sexual (desde que vinculada ao entretenimento e ao comércio) e o erotismo-por-atacado em que cada veículo procura ser mais explícito do que o vizinho.

Nelson dizia: “Sou e serei sempre um menino espiando pelo buraco da fechadura”. (Não há como não lembrar da cena de Buñuel em El, o Alucinado, em que uma mulher entra no quarto para trocar de roupa, olha para o buraco da fechadura, e enfia ali com rapidez uma longa agulha, para vazar o olho de um possível “voyeur”). A tentação do mistério, do proibido, do pecaminoso, coloria as fantasias sexuais do dramaturgo pernambucano-carioca e do cineasta espanhol. Para eles, o sexo vinha sempre carregado de transgressão, de blasfêmia, de pecado, de ameaça de ir para o inferno.

Os dois tinham uma religiosidade cheia de conflitos, bem expressa na frase famosa de seu quase contemporâneo João Cabral de Melo Neto: “Não acredito em Deus mas tenho medo do inferno”. É uma religiosidade sem êxtase, sem epifanias e sem transcendência, uma religiosidade da qual tudo se evapora na descrença, menos o não, a proibição, a culpa, a condenação eterna por causa do pecado mortal. Uma religiosidade triste e sem esperanças, que nada lhes deixou de bom. Nem mesmo no plano moral, porque todo esse terror e essa tortura nunca os impediu de pecar desbragadamente, tanto na vida quanto na obra.

Buñuel diz que na Espanha de sua juventude só havia dois ambientes possíveis para o sexo: o bordel e o casamento. Diz ele: “Os homens da minha geração, e além disso espanhóis, sofriam duma timidez ancestral relativamente às mulheres e dum desejo sexual que era talvez o mais forte do mundo. Quando esse desejo, desrespeitando todas as interdições, conseguia ser satisfeito, causava um prazer físico incomparável, porque se misturava sempre com a alegria secreta do pecado. Sem sombra de dúvida que um espanhol tinha um prazer superior ao copular do que um chinês ou um esquimó”.

Quanto mais inatingível a mulher, mais desejável. Buñuel narra suas fantasias eróticas com a Rainha da Espanha, com a Virgem Maria, com a própria mãe. E diz uma das frases mais libertadoras do seu credo pessoal: “Foi apenas por volta dos sessenta ou sessenta e cinco anos que compreendi plenamente e aceitei a inocência da imaginação. Foi preciso este tempo todo para admitir que o que se passava na minha cabeça só me dizia respeito a mim”.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

1394) Buñuel e Nelson Rodrigues (1.9.2007)



Um artigo recente de Nuno Ramos na revista Piauí de abril faz uma boa análise da obra teatral de Nelson Rodrigues. A matéria-prima de Nelson são os sonhos e pesadelos da classe média suburbana: emprego e desemprego, casamento e adultério, obediência e desobediência às convenções, pecados e remorsos, impulsos de ascensão social e de afirmação erótica. Seus personagens se debatem entre uma luxúria poderosa que os arrasta a todos os tipos de pecados, e uma ânsia desesperada por um amor puro, espiritualizado, não maculado pela sordidez humana. Querem fazer sexo no Inferno, e depois adormecer em paz no Céu.

Diz Nuno Ramos sobre Nelson: “Sua persona foi sempre mais específica, particular e lenta – o reacionário, aquele que não se universaliza, como uma má notícia ambulante a assombrar a velocidade do mundo lá fora. (...) A sua matéria é o particular, entendido como o detalhe significativo que produz escândalo e denota a falsidade do resto. (...) O Brasil do dramaturgo não é aquele que se procura, mas o que não se deixa ir – aquele que ao ser esquecido volta para assombrar”.

Nelson é um conservador, no sentido de que é fiel aos fantasmas que o obcecavam na infância e adolescência. Dedicou sua vida adulta a dialogar com eles, em vez de varrê-los para baixo do tapete (como faz a maioria, inclusive seus personagens) ou de transcendê-los através da psicanálise ou da revolução sexual dos anos 1960. Nelson foi chamado de pornógrafo por uns e de moralista por outros, o que é sempre um indício de que estava remexendo camadas profundas. Nisto ele se assemelha a Luís Buñuel, que, como ele, foi um grande leitor de romances em estilo folhetim, muitos dos quais (Tristana, Belle de Jour, Diário de uma Camareira, etc.) adaptou para o cinema. Quanto a Nelson, usou o pseudônimo de Suzana Flag para escrever ele próprio alguns folhetins imensos que li quando adolescente e foram agora reeditados: Meu Destino é Pecar, Escravas do Amor.

A obra de ambos revela os exageros próprios do folhetim, que em Nelson são redimidos artisticamente através de sua concepção peculiar de dramaturgia e diálogo, e em Buñuel são enriquecidos pelo imaginário surrealista francês. Ambos extraem sua inspiração do melodrama, mas o melodrama moderno que fazem deixaria desconcertados os artistas a quem copiam ou parafraseiam. Sexo e morte são seus temas preferidos. Criados em sociedades machistas e repressoras, o erotismo era sua obsessão. Buñuel diz em suas memórias: “Os homens da minha geração, e além disso espanhóis, sofriam duma timidez ancestral relativamente às mulheres e dum desejo sexual que era talvez o mais forte do mundo. (...) Sem sombra de dúvida que um espanhol tinha um prazer superior ao copular do que um chinês ou um esquimó”. É essa a mesma luxúria irresistível que conduz os personagens de Nelson a todo tipo de pecado. Para eles, pecar é uma forma de auto-afirmação e de auto-conhecimento.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

0724) Os clichês (14.7.2005)




A certa altura de todo curso de Jornalismo, um professor manda a turma redigir um trabalho qualquer, e depois que os recolhe manda alguém ir ao quadro e ir anotando as expressões que ele ditar. E vai dizendo: “ferragens retorcidas... os bravos soldados do fogo... tórrido romance... corpo escultural... posição privilegiada...” 

Depois, ele faz cada aluno jurar sobre a Bíblia (ou sobre o Manual de Redação e Estilo) que jamais voltará a usar estas expressões. São clichês. São lugares-comuns. São junções de substantivos e adjetivos que um dia, quando foram usadas pela primeira vez, provocaram no leitor um agradável susto-de-novidade. 

Hoje, depois de milhões de repetições, são um sintoma claro de preguiça, ou de falta de vocação. Caneta vermelha em punho, caros leitores! Toda vez que eu usar um clichê, corrijam-me sem dó nem piedade. O Brasil agradece.

“Sem dó nem piedade”, aliás, é um belo dum clichê, concordam? Eles são invisíveis e onipresentes, e só damos pela sua existência quando estamos à sua procura. Basta escrevermos pensando noutro assunto, e eles desabrocham que é uma beleza. Não os vemos porque eles fazem parte da paisagem, como os postes de luz e os orelhões. 

Aprendemos a contar com eles, porque são expressões previamente decodificadas, que nos eximem de pensar. Por exemplo: acabei de usar o termo composto “susto-de-novidade”, o qual, aposto, vocês não encontrarão em nenhum dicionário, e talvez nem mesmo no Google. É uma expressão rara, mas de sentido imediatamente perceptível. (É também uma expressão metalingüística: a reação que produz em nós é seu próprio significado) Se eu continuar a usá-la, ela se tornará familiar. Se todo mundo começar a usá-la, daqui a poucos anos será um insuportável clichê.

É conhecida a anedota sobre o sujeito leigo que foi assistir o Hamlet pela primeira vez, e saiu queixando-se de que a peça estava cheia de clichês: “Ser ou não ser... Algo de podre no reino da Dinamarca... O resto é silêncio...” 

As grandes frases, quando se popularizam, viram clichê. É o perigo de autores como Nelson Rodrigues, cujas frases extremamente criativas acabaram virando clichês: óbvio ululante... calçar as sandálias da humildade... elas gostam de apanhar... o olho rútilo e o lábio trêmulo... Parem de repeti-las, amigos. Passou do ponto. Deixem que repousem apenas nas páginas imortais (olha o clichê) do velho Nelson.

O clichê serve de atalho, quando estamos com preguiça de pensar e queremos chegar logo ao ponto principal. Mas, por que não pararmos para pensar neles? Seria um bom exercício nas faculdades: invente uma nova maneira de dizer um clichê. Não é possível que entre 40 alunos não surja pelo menos uma boa idéia! 

Quem criou um clichê não o criou do nada, e sim a partir de uma situação, um fato concreto, uma associação de idéias. Este processo pode ser refeito para produzir um resultado novo, desde que você seja um redator de mão-cheia. (Olha o clichê!)






segunda-feira, 10 de março de 2008

0160) A arte de citar (25.9.2003)




(ilustração: Vita Wells)

Quando citamos uma frase, geralmente dizemos o seu autor, e mais nada: “É como dizia Shakespeare: o resto é silêncio”. Verdade. Mas talvez fosse mais certo dizer: “É como dizia o príncipe Hamlet, de Shakespeare: ...” Porque a frase é do dramaturgo, mas o contexto é do personagem. 

Um dos erros mais comuns no leitor ingênuo ou desambientado com um texto de ficção (ou dramático) é o de julgar que todas opiniões ali expostas são as opiniões pessoais do autor. Se um personagem faz um discurso racista, por exemplo, esses leitores condenam o autor, afirmando que ele pensa daquela forma.

Nelson Rodrigues disse: “O dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.” Esta citação é de Bonitinha, mas ordinária, que nunca li. Mas quem diz isto no livro? Não sei. Pode ser o desabafo de um pretendente pobre, derrotado por um playboy de Copacabana que lhe arrebata a trêfega noivinha. Pode ser um pai de arma em punho convencendo o filho recalcitrante a casar com uma herdeira feia de dar pena. Pode ser uma quarentona, sofrida, realista, sussurrando ao ouvido de um banqueiro lúbrico e septuagenário. 

A frase tem seu valor de origem, como frase em si, e tem os valores que lhe vão sendo superpostos por personagens, atores, por quem quer que as enriqueça repetindo-as.

Daria uma interessante pesquisa rastrear, por exemplo, todos os contextos em que a frase “viver é perigoso” é repetida em Grande Sertão: Veredas. Em alguns casos pode ser verdade, em outros não. Uns a dirão com temor, outros com exultação, outros com perplexidade. A cada ator que a diz, a frase se recria. 

“O nazismo, intrinsecamente, é um fato moral, um despojar-se do velho homem, que está viciado, para vestir o novo.” (Jorge Luís Borges) 
Não estou inventando a frase, nem atribuindo-a falsamente a Borges. Ele a escreveu de fato, só que a pôs na boca de Otto Dietrich zur Linde, o carrasco nazista de seu conto “Deutsches Requiem”. Seria absurdo atribuir esta frase a Borges, que deixou sua visão do nazismo muito clara nesse conto e em “Anotação ao 23 de agosto de 1944” (em Outras Inquisições). Mas quando o caso não é assim tão nítido, quando do autor sabemos apenas o nome, podemos pensar que quem diz aquilo é ele, e não o personagem.

Um escritor inventa frases alheias com a mesma facilidade com que um desenhista desenha rostos alheios. 

Nem todo desenho é um auto-retrato, e o mesmo vale para romance, conto, poema ou peça teatral. As ações e as falas dos personagens não precisam se parecer com as do autor. E aliás nem poderiam, já que os personagens precisam ser diferentes uns dos outros. Há escritores, mesmo grandes escritores, que não sabem construir personagens que não sejam parecidos com ele próprio. Outros parecem médiuns recebedores universais, e as frases que criam para seus personagens têm às vezes o poder de causar-lhe surpresa, ou repulsa, ou medo.