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domingo, 12 de janeiro de 2025

5142) Oito fatos reais (12.1.2025)




1
Jim Walpole, 77 anos, caminhava por uma rua de Toronto quando tropeçou e caiu de encontro a um andaime, sofrendo um corte profundo no pescoço. Pessoas correram para ajudá-lo, e um homem careca, que passava pelo local, ajoelhou-se junto dele e exerceu pressão sobre o ferimento, contendo a hemorragia. O homem disse: “Meu nome é John. Fique tranquilo, o senhor vai ficar bem.” O homem chamado John parecia seguro do que fazia, controlando por completo a situação, dando instruções às pessoas em volta, até que chegaram os paramédicos e socorreram o idoso, que escapou com vida. O homem careca era o ator John Malkovich, que estava de passagem pela cidade com uma peça de teatro. 
 
2
No seu tempo de estudante em Madrid, Luis Buñuel tentou certa vez, por passatempo, com seus amigos, hipnotizar uma mulher num bordel que frequentava. Conseguiu, mas no mesmo instante vieram avisá-lo de que outra mulher, Rafaela, tinha adormecido bruscamente na cozinha. Dom Luis foi despertá-la, mas daí em diante criou-se um vínculo psíquico entre os dois. Bastava que ele passasse pela rua, caminhando na calçada diante do bordel, para que Rafaela, sem ter noção da proximidade dele, entrasse em transe. E mais de uma vez ele apostou com os colegas que podia chamá-la telepaticamente: sentavam na mesa de um café, Buñuel pensava nela com intensidade, e minutos depois Rafaela aparecia, desorientada, sem saber onde estava. 
 
3
O cineasta Orson Welles nasceu na cidade de Kenosha (Wisconsin), mas foi concebido no Rio de Janeiro, onde seus pais estavam em viagem de férias – o que talvez explique o interesse especial que sempre teve pelo Brasil. Era um garoto precoce, e quando tinha um ano e meio de idade um médico da família entrou no seu quarto e o viu de pé, dentro do berço, dizendo com toda seriedade: “O desejo de tomar medicamentos é uma das principais características que distingue o ser humano dos animais.” 
 
4
O escritor Julio Cortázar estava passando por Connaught Place, em Nova Délhi, quando foi cercado por pequenos engraxates, um dos quais rapidamente passou a tirar seus sapatos de camurça. Intimidado e um tanto compadecido, ele se resignou com a perspectiva de ver seus caros sapatos marrons serem mortalmente besuntados por uma graxa qualquer, e aceitou ser descalçado e enfiar os pés com meias em dois suportes de papelão. Qual não foi sua surpresa ao ver o pequeno lustrabotas abrir sua caixa de material e tirar dali uma inesperada, múltipla, policrômica, interminável e maravilhosa série de frasquinhos cheios de pós coloridos, de onde começou a misturar pós de cor marrom, sépia, amarelo, branco, negro... Enquanto com um palito os misturava dentro de um pedaço de gaze, seus olhos iam e vinham do sapato ao pó, do pó aos frasquinhos, até que tudo se encerrou com o gesto de turista torpe: pagar, única comunicação possível entre estes dois mundos. 
 
5
Em 1941, durante a guerra contra o Eixo, os estrategistas da propaganda britânica passaram a usar o chamado “V da Vitória”, o popular gesto com dois dedos erguidos, induzindo nas multidões um senso de confiança e otimismo. O primeiro-ministro Winston Churchill ajudou a popularizar o gesto, inclusive conjugando-o com o seu hábito de segurar o charuto entre os dedos. A BBC de Londres percebeu também que no código Morse a letra “V” é representada por três pontos e um traço ( “ . . . – “), e que esses sinais reproduzem, por coincidência, as notas iniciais da Quinta Sinfonia de Beethoven. (A coincidência envolve também o fato de que “Quinta” é representada com um “V” em algarismos romanos.) E as transmissões da BBC relativas ao noticiário da guerra passaram a ser introduzidas por estas notas musicais, o equivalente sonoro ao gesto visível. 
 
6
Henri Langlois, o famoso curador da Cinemathèque Française, teve em 1972 a idéia de fazer uma exposição de material relativo ao cinema, o Museu do Cinema. A exposição foi um sucesso, mas ele não se deu o trabalho de expor o material dentro de mostruários envidraçados e trancados. Isso fez com que poucos dias depois da abertura sumissem da exposição o casaco de couro de James Dean e o vestido que Marilyn Monroe usou em O Pecado Mora Ao Lado. Questionado a respeito pelo seu amigo Jean Rouch, ele respondeu: “Pouco importa se roubaram o vestido, eu tenho outros cinco e, se acabarem, peço a Pierre Cardin para fabricar outro igual. O museu é um museu do imaginário.” 
 
7
O escritor Conan Doyle, depois de ficar célebre com o espantoso sucesso editorial das aventuras de Sherlock Holmes, deparou-se com todo tipo de situação criada pelos seus fãs. Certa vez, estava tomando parte num campeonato amador de bilhar, esporte que curtia bastante, e ao entrar no salão das competições um funcionário lhe entregou um pequeno pacote deixado por um fã. Ao abri-lo, Doyle encontrou um pedaço de giz verde, do tipo que se usa para passar na ponta do taco. Pôs o giz no bolso e passou a usá-lo daí em diante; virou uma espécie de giz de estimação, possivelmente porque lhe dava sorte. Até um dia em que, meses depois, esfregando o giz na ponta do taco, o pedacinho se quebrou e revelou que era oco, e trazia lá dentro um papelzinho dobrado. Doyle abriu o papel e leu: “De Arsène Lupin para Sherlock Holmes”. 
 
8
Maria Luiza era uma jovem tímida e muito religiosa, que chegou a fazer estudos preparatórios para se tornar freira, mas acabou desistindo. Durante esse período de crise vocacional, hospedou-se na casa de um irmão seu, em outra cidade.  Certa tarde ficou sozinha cuidando do bebê do casal. Tinha que dar-lhe uma mamadeira na hora exata, mas os relógios da casa estavam desencontrados. O que fazer? Resolveu telefonar para algum lugar, mesmo desconhecido, e perguntar as horas. Viu no catálogo um nome que julgou ser de alguma instituição religiosa, ligou, um rapaz atendeu. Ela perguntou as horas, ele respondeu mas estranhou – “a senhorita não tem relógio?!...” Era uma pensão para jovens estudantes; os dois entabularam uma conversa, simpatizaram um com o outro, conheceram-se, casaram-se, ficaram juntos até o fim da vida. A moça era “Iza”, irmã de João Guimarães Rosa, que divertia-se contando este episódio a sua filha Vilma. 
 
 





sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

5130) As grandes ilusões: a guerra (6.12.2024)



 
O websaite Belas Artes À La Carte está exibindo há algum tempo um clássico que eu nunca tinha visto: La Grande Illusion (1937) de Jean Renoir. 
 
O diretor, que era filho do pintor Auguste Renoir, é um dos grandes mestres de sua geração de cineastas. Alguns filmes dele tornam-se melhores a cada revisão, como A Regra do Jogo (1939), O Crime de Monsieur Lange (1936), A Carruagem de Ouro (1952). 
 
A Grande Ilusão é um filme de guerra que deixou uma marca considerável no gênero. Roger Ebert observou que elementos do filme de Renoir foram copiados em Fugindo do Inferno (os prisioneiros escondendo a terra da escavação do túnel) e em Casablanca (os franceses cantando a Marselhesa, desafiadoramente, na cara dos oficiais alemães). 



(Pierre Fresnay, como o oficial francês, e Erich von Stroheim, como o alemão) 


O filme compartilha, com certa nostalgia e perplexidade, aquela noção antiga de que a guerra é uma espécie de esporte entre cavalheiros. É uma das noções mais contraditórias e absurdas que existem, no meu entender das coisas (que é um entender muito pessimista, reconheço). 
 
A I Guerra Mundial, época em que A Grande Ilusão está ambientado, era uma dessas guerras que herdaram o espírito esportivo e cavalheiresco da época medieval. Uma época em que duques, barões, príncipes, viscondes se encontravam num banquete, comiam, bebiam, cantavam juntos, faziam ameaças mútuas repletas de gargalhadas – e no dia seguinte vestiam a armadura e destroçavam-se uns aos outros. 



O primeiro episódio desse tipo que me desconcertou, em plena adolescência, foi um capítulo de Conan Doyle, “De como os Trinta de Josselin enfrentaram os Trinta de Ploermel”, em seu magnífico O Escudeiro Heróico (“Sir Nigel”, 1906). 
 
O livro é ambientado durante a Guerra dos Cem Anos. Nesse trecho, Doyle descreve os desafios entre os cavaleiros aquartelados nesses dois castelos (os ingleses em Ploermel, os franceses em Josselin). 
 
Acontece que, justo nesse momento, os reis da Inglaterra e da França acertam uma trégua provisória.  A partir dessa data é proibido guerrear.  Decepcionados, os cavaleiros se reúnem para beber juntos (mais ou menos no clima entre oficiais alemães e prisioneiros franceses do A Grande Ilusão), mas começam as provocações de parte a parte e eles resolvem driblar a trégua promovendo um “mero” torneio de armas, com 30 guerreiros de cada lado. 
 
Ou seja – não será um ato de guerra, será um torneio esportivo. 



(O Combate dos Trinta)
 

O encontro se torna uma verdadeira carnificina. Doyle se baseou num episódio histórico, o “Combate dos Trinta”, ocorrido em 26 de março de 1351, quando os nobres guerreiros dos dois países, segundo um cronista da época, “comportaram-se tão valentemente como se fossem os próprios Roldão e Oliveiros” – o que mostra o quanto a valentia da literatura de cordel já vem de longe. 
 
Diz Conan Doyle em 1906, na introdução de Sir Nigel, defendendo esta mistura surrealista de brutalidade guerreira e refinamento aristocrático: 
 
Sei que alguns destes incidentes podem parecer repulsivos e brutais ao leitor moderno. É inútil, contudo, desenhar o Século Vinte dizendo que é o Catorze. Aquela foi uma época mais severa, e os códigos de moral, especialmente no que tange à crueldade, eram muito diferentes. Não há no presente texto nenhum incidente que não tenha confirmação nos fatos concretos. O encanto da Cavalaria reside na superfície da vida, mas por baixo dela havia uma população semi-selvagem, feroz e animalesca, pouco afeita à piedade e à misericórdia. Era uma Inglaterra crua, rude, cheia de paixões elementares, e redimida apenas por virtudes elementares. E foi como tal que me dispus a retratá-la. (trad. BT) 
 
Mais de cinco séculos transcorrem entre a guerra descrita por Conan Doyle (século 14) e a guerra descrita por Jean Renoir (a I Guerra Mundial). Durante todo esse período, não sei se aumentou ou diminuiu o controle da ética sobre a necessidade de matar e destruir. Toda guerra tem “códigos de conduta”: em tais circunstâncias o conflito deve ser suspenso; tais e tais armas não podem ser usadas; tais e tais comportamentos não serão tolerados; os conflitos devem ocorrer dentro de regras aceitas de parte a parte; e assim por diante. 
 
Pelo que me lembro (não tenho mais o livro) Johann Huizinga explora com detalhes este tema no capítulo “O Jogo e a Guerra” do clássico Homo Ludens (1938). 
 
Uma cena de A Grande Ilusão é bem típica desse conceito cavalheiresco de guerra. Os prisioneiros (oficiais franceses) estão preparando uma comprida corda para fugir pelo muro. Aproximam-se os alemães encarregados da revista. O francês agarra a longuíssima corda e a pendura do lado de fora da janela. O oficial alemão pergunta: “Dá sua palavra de honra de que aqui nesta cela não há nenhum instrumento de fuga?”, o francês diz: “Sim” – com um leve sorriso. Ele está sendo honesto – o instrumento de fuga não está na cela, está pendurado do lado de fora. 
 
Esse conceito da guerra como um esporte entre cavalheiros é, pelo que se percebe, a “grande ilusão” mencionada no título. 




Nos conflitos recentes entre Israel e o grupo libanês Hezbollah, o Mossad e o Exército israelense (segundo o New York Times) foram os responsáveis pela explosão de milhares de pagers (ou bips) e de walkie-talkies, meios de comunicação um tanto antiquados que o Hezbollah usava para evitar o rastreamento via celular, internet, etc. 
 
O Alto Comissário das Nações Unidas Para os Direitos Humanos, Volker Turk, declarou à imprensa: 
 
Usar milhares de indivíduos simultaneamente como alvos, sejam eles civis ou membros de grupos armados, sem ter uma idéia de quem está de posse dos aparelhos manipulados, nem de sua localização ou do seu entorno no momento do ataque, viola as leis internacionais dos direitos humanos, e, na medida em que se aplica, a legislação humanitária internacional. 
 
Ou seja: mesmo que não estejamos mais na Idade Média com seus salamaleques cavalheirescos, a guerra não é um vale-tudo. A guerra tem limites. 
 
La Grande Illusion lembra em muitos momentos outro filme clássico de Jean Renoir: La Règle du Jeu, uma história em que ele compara o comportamento amoroso de patrões e empregados, num fim-de-semana festivo numa mansão. Aristocratas daquele tempo se divertiam caçando perdizes ou caçando raposas. Na caçada esportiva, havia regras, e não há como não pensar que a guerra para eles não era uma atividade muito diferente. 
 
No fim das contas, a grande ilusão de todos é tentar manter a guerra – a matança deliberada de pessoas –  como uma espécie de jogo, com regras, como se fosse um passatempo, ou no máximo como aqueles duelos de espada onde bastava um arranhão para que “a honra estivesse satisfeita”. 
 





sábado, 12 de agosto de 2023

4971) O começo Mike Tyson (12.8.2023)




(Gardner Dozois)
 
Gardner Dozois, editor da Asimov’s Science Fiction, uma revista que recebia centenas de contos por semana, tinha uma receita infalível para filtrar este material.  Dizia ele:
 
Leio a primeira página do conto, e depois a última.  A primeira página tem que me dar vontade de continuar lendo sem parar.  A última precisa me dar vontade de voltar atrás e saber o que aconteceu para resultar naquele desfecho. 
 
Quando se tratava de um romance (completava ele), fazia o mesmo com o primeiro e o último capítulo.
 
Isto não é um critério absoluto de julgamento literário, porque alguns textos começam de mansinho e vão nos envolvendo.  Outros terminam bem, mas de maneira indireta, alusiva, sem desfechos bombásticos.  Mas para quem precisa definir um critério urgente de interesse, serve perfeitamente.  Um bom começo é meio caminho andado. 



Já tive o hábito de chamar esse tipo de abertura de conto “O Começo Mike Tyson”. Mike Tyson foi o campeão mundial dos pesos-pesados nos anos 1980-1990, e era famoso por ganhar as lutas logo no primeiro assalto. A gente ia assistir a luta num bar, e quando emendava as mesas, sentava e pedia a primeira cerveja... a luta já tinha acabado. Ele partia pra cima e resolvia o problema, às vezes, em questão de dois ou três minutos.



(Machado de Assis, por Abel Costa)
 

No conto (ou romance), às vezes nem precisa ser um parágrafo inteiro, porque a primeira frase pega o leitor pelo braço e o conduz. Machado de Assis é um mestre nessas frases de abertura que em poucas palavras impõem uma situação, jogam o leitor de súbito no meio de um acontecimento.  Como em “O relógio de ouro”:
 
“Agora contarei a história do relógio de ouro. Era um grande cronômetro, inteiramente novo, preso a uma elegante cadeia”. 
 
Em “Fulano”, ele arrasta o leitor:
 
“Venha o leitor comigo assistir à abertura do testamento do meu amigo Fulano Beltrão.  Conheceu-o?  Era um homem de cerca de sessenta anos...” 
 
Em “A carteira”, começa ele:
 
“...De repente Honório olhou para o chão e viu uma carteira.  Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes”. 
 
Outras frases de abertura provocam espanto, como em “História comum”:
 
“Caí na copa do chapéu de um homem que passava...” 
 
O autor não tarda a revelar que quem conta a história é um alfinete.

 
Começos bruscos convêm a histórias de mistério e suspense, como na aventura de Sherlock Holmes “A granja da abadia”, contada por Conan Doyle:
 
“Numa fria e nevoenta manhã de inverno, em 97, acordei com uma batida no ombro.  Era Holmes. A vela que ele segurava brilhava no rosto ansioso e fiquei imediatamente sabendo que acontecera alguma coisa.  – Venha, Watson, venha!  O jogo começou!  Nem uma palavra!   Vista-se e venha!”  
 
É a técnica de começar a história in media res, já no meio dos acontecimentos, sem deixar ao leitor tempo para respirar, como faz Rubem Fonseca na abertura de “Desempenho”:
 
“Consigo agarrar Rubão, encurralando-o de encontro às cordas.  O filho da puta tem base, agarra-se comigo, encosta o rosto no meu rosto para impedir que eu dê cabeçadas na cara dele”. 
 
É a descrição de uma luta, que o autor torna vívida através do uso de palavrões, que exprimem a agressividade animal da cena, e do uso do jargão dos lutadores (“de encontro às cordas”, “tem base”). 
 
Fonseca é mestre nos inícios coloquiais, em que logo na primeira frase nos deparamos com uma história de narrador pouco confiável, como “Gazela”:
 
“O senhor talvez pense que eu estou bêbado, mas não estou bêbado porra nenhuma.  É esta história que me deixa tonto, nunca contei nada para ninguém; na verdade, quem me parece bêbado é o senhor”. 
 
Outra técnica tradicional das aberturas é anunciar o caráter extraordinário da história a ser contada, e fisgar o leitor logo na primeira linha.



Como faz Conan Doyle, em “O caçador de besouros”:
 
“—Uma experiência curiosa? disse o doutor. – Sim, meus amigos, aconteceu-me curiosíssima experiência.  Espero nunca ter outra, porque seria contra todas as leis da probabilidade que dois acontecimentos semelhantes se passassem numa só vida de um homem.  Podem vocês acreditar-me ou não, mas a coisa aconteceu exatamente tal como a conto”.
 
Criar uma aura de mistério ou anunciar uma revelação espantosa serve a autores que lidam com o fantástico, como Guy de Maupassant na abertura de “Quem sabe?”:
 
“Meu Deus!  Meu Deus!  Vou afinal escrever o que me aconteceu!  Mas será  que conseguirei?  Terei coragem?  Aquilo é tão estranho, tão inexplicável, tão incompreensível, tão louco!” 
 
O tom desesperado, quase histérico de Maupassant é herdeiro direto de autores como Edgar Allan Poe, que manipularam com a mesma mestria o conto alucinatório.  Poe começa assim “O coração denunciador”: 
 
“É verdade! Tenho sido e sou nervoso, muito nervoso, terrivelmente nervoso!  Mas, por que ireis dizer que sou louco?  A enfermidade me aguçou os sentidos, não os destruiu, não os entorpeceu.” 
 
Ou em “O gato preto”:
 
“Para a muito estranha embora muito familiar narrativa que estou a escrever, não espero nem solicito crédito.  Louco, em verdade, seria eu para esperá-lo, num caso em que meus próprios sentidos rejeitam seu próprio testemunho.  Contudo, louco não sou e com certeza não estou sonhando”. 

 
Muitos autores escolhem começar assim um conto.  Anunciar um mistério, uma dúvida, uma situação enigmática e inquietante, e contar com a curiosidade do leitor pra mantê-lo preso até o final.  Isto pode ser feito como Conan Doyle em “Os três Garridebs”, com a revelação parcial de detalhes:
 
“Podia ter sido uma comédia como podia ter sido uma tragédia.  A um homem custou a perda da razão, a mim me custou um pouco de sangue e a um terceiro lhe custou as penas da lei.  Entretanto, sempre houve um elemento de comédia.  O leitor que julgue por si mesmo”.
 
Claro que nem sempre é preciso recorrer ao suspense ou a situações violentas.  Basta o mistério, como Machado começa “Entre santos”:
 
“Quando eu era capelão de S. Francisco de Paula (contava um padre velho) aconteceu-me uma aventura extraordinária”. 
 
Em “Idéias de canário” ele começa assim:
 
“Um homem dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo, referiu a alguns amigos um caso tão extraordinário que ninguém lhe deu crédito.  Alguns chegam a supor que Macedo virou o juízo.  Eis aqui o resumo da narração”. 
 
E seu conto clássico “Missa do Galo” principia:
 
“Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta”. 
 
Esta frase inicial dá o tom de todo o conto, em que a personagem feminina nos é revelada pelo narrador ingênuo, sem que ele entenda os fatos que está narrando.
 


(Uma versão ligeiramente diferente deste artigo foi publicada na revista Língua Portuguesa (Ed. Segmento, São Paulo) em dezembro de 2008.)





domingo, 12 de fevereiro de 2023

4912) O detetive Fernando Pessoa (12.2.2023)

 

("Fernando Pessoa", por Almada Negreiros)


Fernando Pessoa era um grafomaníaco, pessoa com a mania de escrever compulsivamente. Alguns o fazem de forma caótica, e não produzem senão coisas sem criatividade, sem propósito e sem método. Não era o caso do poeta português. Dele, pode-se dizer que qualquer rabisco rende alguma idéia. 
 
Conta-se que à sua morte, em 1935, descobriu-se em sua residência o famoso “baú” que teria mais de 25 mil páginas com todos os tipos de texto: poemas, peças teatrais, correspondência, anotações, ficção... 
 
Nesta última categoria pode-se incluir talvez o famoso e notável Livro do Desassossego, compilado postumamente e atribuído ao heterônimo “Bernardo Soares”. É uma espécie de diário ficcional cheio de reflexões curiosas e melancólicas sobre a vida, a literatura e tudo o mais. 
 
Fernando Pessoa é um caso à parte na literatura, pelo talento exuberante, pelo rigor do pensamento, pelas idiossincrasias psicológicas que dão a tudo que escreve uma posição única na observação e análise dos fatos. Muitos o consideram, com razão, um dos maiores poetas da nossa língua, e um dos maiores poetas do século 20 em qualquer idioma. Mas me atrevo a dizer que não se tem a medida exata de seu talento se não se der atenção igual à sua obra em prosa, que é mais de reflexão e análise do que de ficção.
 
Do meio dessa jângal de manuscritos, os pesquisadores separaram uma boa quantidade de contos (completos ou em fragmento), dos mais diversos tipos. Alguns são contos policiais deixados incompletos. 
 
Nos seus depoimentos Pessoa reafirma o seu gosto pela literatura policial, citando nominalmente autores como Conan Doyle, Arthur Morrison (o criador do detetive Martin Hewitt) e Edgar Wallace.
 
Há diferentes edições dos textos considerados policiais de Pessoa, mas vou me limitar a duas, que tenho há anos.



As Obras em Prosa (Ed. Nova Aguilar, Petrópolis, 1986, 734 págs., “Biblioteca Luso-Brasileira”), se dividem nas seguintes partes: “O Eu Profundo”, “Os Outros Eus”, “Idéias Estéticas”, “Idéias Filosóficas”, “Idéias Políticas”, “Teoria e Prática do Comércio” e “Ficção”.
 
Esta última, a que ora nos interessa, está assim composta:
 
CONTOS DE RACIOCÍNIO:
“O banqueiro anarquista”, “A janela estreita” (fragmento), “O roubo da Quinta das Vinhas”, “A carta mágica”, “A arte de raciocinar”, “Um paranóico com juízo”.
 
CONTO FILOSÓFICO DE PERO BOTELHO:
“O vencedor do tempo”
 
Note-se que termos como “conto policial” ou “detetve” não aparecem. Nesta mesma compilação, vê-se uma lista de títulos (contos completos e fragmentos) sob esta última rubrica, assim:
 
CONTOS DE PERO BOTELHO:
O Vencedor do Tempo (Prof. Serzedas)
A Morte do Dr. Cerdeira (Dr. Cerdeira)
A Experiência do Dr. Lacroix (Dr. Lacroix)
O Prior de Buarcos (Pe. João (José) Maria)
Quaresma, Decifrador (Dr. Abílio Quaresma), (Vários)
O Eremita da Serra Negra (O Eremita)
?No Hotel Cecil, em dia de chuva (O pessimista)
?Uma Tarde Cristã (O jesuíta Eusébio Vareiro)
?O Profeta da Rua da Glória (O judeu Salomão, Barjara)
 
Copio do jeito que está no livro. Como a obra de Pessoa (me parece) está toda em domínio público, talvez uma busca paciente por esses títulos e nomes resulte em alguma coisa. Boa sorte!
 
Para mim, o mais importante de tudo é a menção ao “Dr. Abílio Quaresma”, ou “Quaresma, Decifrador”, nome que influenciou Ariano Suassuna na criação de seu personagem “Quaderna, o Decifrador”, o protagonista do Romance da Pedra do Reino. 


O Dr. Quaresma aparece com maior destaque no outro título que possuo: A Alma do Assassino – segundo o Dr. Quaresma, Horizonte Editora, São Paulo, 1988(?).
 
O livro tem uma ótima introdução, “A Novela Policial”, de Luiz Roberto Benati. E inclui quatro contos, visivelmente fragmentários, em que Quaresma aparece. São estes que irei comentar a seguir. 
 
A Alma do Assassino reúne quatro fragmentos de contos. É interessante notar que Fernando Pessoa se interessava mais pelo processo de raciocínio do que pela narração das história em si. Suas anotações para contos constam principalmente das explicações de alguém sobre um crime, e das explicações de Quaresma de como o crime foi cometido e quem é o culpado. 
 
Não se vê muita coisa da trama, a não ser o que é comentado na mecânica dedutiva. Pessoa escrevia isso e talvez se desse por satisfeito. 



“A Janela Estreita” narra somente uma reunião, entre o Dr. Abílio Quaresma, o chefe de polícia Guedes e o Tio Porco, discutindo processos dedutivos e fazendo menções muito superficiais ao crime que estão investigando, e que envolve um ourives e o seu filho desonesto. 
 
“O Roubo na Quinta das Vinhas” é mais detalhado, tem algumas cenas, descrições de ambientes, diálogos. Um cofre foi arrombado à meia-noite, numa casa onde várias pessoas estavam hospedadas. As suspeitas recaem sobre o jardineiro. Conversando com o engenheiro Augusto Claro, para quem o homem é inocente, Quaresma explica como deve ter se dado a mecânica do crime, e quem é o verdadeiro ladrão. 
 
“A Carta Mágica” é um enigma de “quarto fechado” ou de “crime impossível”. No caso, o desaparecimento de uma carta comprometedora, num aposento hermeticamente fechado. Ouvindo o relato do chefe de polícia Guedes, Quaresma rapidamente indica como o roubo deve ter se produzido, e quem provavelmente o executou. 
 
“O Caso Vargas” não dá indicação do enredo. Consta de várias páginas de monólogo explicativo do Dr. Quaresma, onde ele, com o raciocínio analítico bem característico de Fernando Pessoa, discorre sobre os “três tipos de raciocínio abstrato”, as “três espécies de crimes”, os “quatro tipos mórbidos do homem”, e assim por diante. 
 
Todos estes fragmentos recebem notas e comentários dos editores da obra de Pessoa, explicando o contexto de cada um, sem o quê não seria possível acompanhar as narrativas. 
 
Num texto de 1914 (Obras em Prosa, pág. 69) ele afirma:
 
Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que ainda resta de intelectual na humanidade é a leitura de romances policiais. Entre o número áureo e reduzido das horas felizes que a Vida deixa que eu passe, conto por do melhor ano aquelas em que a leitura de Conan Doyle ou de Arthur Morrison me pega na consciência ao colo. 
 
Um volume de um desses autores, um cigarro de 45 ao pacote, a idéia de uma chávena de café – trindade cujo ser-uma é o conjugar a felicidade para mim – resume-se nisto a minha felicidade. Seria pouco para muitos, a verdade é que não pode aspirar a muito mais uma criatura com sentimentos intelectuais e estéticos no meio europeu atual. 
 
Talvez seja para os senhores como que causa de pasmo, não o eu ter estes por meus autores prediletos – e de quarto de cama, mas o eu confessar que nesta conta pessoal assim os tenho. 


("Fernando Pessoa", por João Beja)
 












sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

4900) As aventuras de Enola Holmes (6.1.2023)



Vi recentemente os dois filmes da série “Enola Holmes”, com as aventuras de uma hipotética irmã adolescente de Sherlock Holmes, de quem se conhece apenas, no cânone criado por Conan Doyle, o irmão mais velho, Mycroft. 

É uma espécie de fanfic de garotas, e em se tratando de Holmes o termo “fanfic” é curiosamente apropriado. Diz-se que as primeiras “fan fictions” escritas a sério surgiram justamente na época de Doyle. Quando ele “matou” o detetive no conto “O Problema Final” (dezembro de 1893), os leitores ficaram indignados. Doyle passou a se dedicar a romances históricos e de ficção científica, que ele considerava mais sérios (e que em geral são excelentes). Recusou-se a prosseguir com as aventuras do detetive. O que fizeram os fãs? Começaram a escrever novas aventuras, por conta própria, usando os elementos inventados por Doyle. 

Enola Holmes se beneficia de algumas restrições: é uma história para jovens, é uma comédia, é uma “fan fiction”. Digo que se beneficia porque em filmes desse tipo o realismo vai para o espaço antes mesmo do espectador comprar a entrada na bilheteria. Há uma série de “obrigações” das quais a autora já se livra por antecipação. 

Numa comédia, acreditamos (sem discutir) em situações inverossímeis, coincidências de arrancar os cabelos, soluções improvisadas para resolver perrengues da história... desde que o resultado seja engraçado, provoque risadas, divirta. A história não tem intenção de ser levada a sério nestes aspectos. Claro que não se pode abusar – e em geral o limite entre o sucesso e o fracasso é a intuição do diretor, de saber quando pode forçar um pouco, e quando não deve. 

Enola Holmes está cheia daquelas “lutas mortais” que sabemos inofensivas, porque os simpáticos personagens não podem morrer. Força um pouco a barra nas coincidências-resolvedoras-de-problemas: a toda hora alguém perde um papelzinho no chão na hora em que a detetive está passando. Força na solução miraculosa de criptogramas, de que nem o Sherlock local (Henry Cavill) escapa. Não importa. Não é na verossimilhança dedutiva que o sentido do filme repousa, e sim no fluxo ininterrupto e divertido de peripécias e surpresas. 

Isto projeta Enola Holmes num patamar um tanto mais leve e menos realista do que outro filme holmesiano igualmente simpático, O Enigma da Pirâmide (“Young Sherlock Holmes”, 1985, Barry Levinson), dirigido a um público semelhante, mas com um tipo de desfecho trágico que a série Enola Holmes dificilmente vai arriscar.

A série usa um truque narrativo arriscado, que é o da “quebra da quarta parede”, quando um ator olha para a câmera e diz algo dirigido à platéia. No presente caso, acho que funciona bem. O cinema de vanguarda do século passado usou isso para desassossegar as platéias bovinas e obedientes dos anos 1960. Jean-Luc Godard fez desse recurso uma de suas “assinaturas” típicas. Era uma provocação, uma alfinetada. 

Não é o caso, aqui. Enola comenta o tempo todo as peripécias, dirigindo-se ao público: “Calma, vou explicar...”, “Ih, as coisas não saíram como eu pensava...” etc. Ela o faz na velha tradição teatral das farsas e dos vaudevilles, onde se consolidou o divertido recurso do “à parte”: 

 

O Marquês de Chantilly e a Duquesa de Petigateau estão paquerando no caramanchão.

MARQUÊS

Ah, Mademoiselle, um dia ainda vos confessarei as cenas que me vêm à mente quando estou na vossa companhia!...

DUQUESA

Oh... caro Marquês... mal posso esperar por esse momento!  (à parte:) A esta altura eu já estou achando as minhas cenas mais interessantes do que as dele.

O traço essencial do “à parte” é que a frase, mesmo pronunciada em voz alta, não é escutada pelo personagem que está a centímetros de distância. Há um pequeno rasgão no real: naquele instante, a atriz reconhece brechtianamente a existência de uma platéia que está vendo tudo – e dirige-se a ela, numa voz que não é escutada pelo ator que continua apenas “personagem”.

O “à parte” de Enola não é o mesmo “à parte” de Anna Karina nos filmes de Godard. É uma licença narrativa que figura nos estatutos universais da comédia, onde, por definição, o realismo só vai até um certo ponto. Pode virar um cacoete, quando dá muito certo, e artistas como Dercy Gonçalves, Renato Aragão, Jorge Dória e outros ficaram famosos por comentários dirigidos ao público. 

(O “à parte” se confunde às vezes com o “caco”, que é um mero enxerto de falas do ator no texto propriamente dito, sem necessariamente quebrar a “quarta parede”. Muitas vezes é improvisado na hora, e quando dá certo é repetido nas encenações seguintes.) 

Outro aspecto interessante de Enola Holmes é o fato de apostar com força no desenho de “casal de protagonistas equilibrado”, que podemos simplificar na fórmula “mulheres inteligentes com iniciativa, e homens mais tímidos e retraídos, que aceitam sem problema o papel de coadjuvantes”. Não é nada novo, e basta ver o cinema norte-americano dos anos 1940 para reencontrar Katherine Hepburn / Cary Grant. Ou basta lembrar dos papéis de Neo e Trinity em Matrix, ou (na literatura) de Hari Seldon e Dors Venabili no Prelúdio à Fundação de Isaac Asimov.


Neste filme para adolescentes, o casal jovem (Millie Bobby Brown e Louis Partridge) segura bem o que o pessoal chama de-boca-torta “o espírito Malhação”, sem que isso atrapalhe demais o restante da narrativa. Que não pode ter só romancezinho, precisa ter um leve suspense, e tem; precisa de uma reconstituição de época baseada em mais coisas do que cartolas e cabriolés, e tem; precisa de humor e sátira, que neste caso acabam contribuindo positivamente para o romancezinho em si. 

Sherlock Holmes é o meu personagem literário preferido, desde os dez anos, e por isso mesmo procuro ser magnânimo quando avalio as barbaridades que o cinema costuma praticar com ele. Minha única exigência é que se mantenham as características básicas do personagem, e que ele seja tratado com respeito – este, para mim, foi o grande ponto fraco do Xangô de Baker Street de Jô Soares, que achincalha o detetive.


O Sherlock destes filmes (Henry Cavill) leva mais jeito para Superman do que para detetive; mas pelo menos o personagem é tratado com naturalidade, sem se transformar numa série de cacoetes sartoriais.

Enola Holmes tem ainda como qualidade positiva a afinação entre roteiro e montagem, numa narrativa rápida que muitas vezes resume em poucos planos velozes uma ação complexa que não havia necessidade de mostrar em detalhe. E na forma descontraída como manipula o tempo narrativo, puxando para a frente, para trás, re-exibindo cenas para esclarecer detalhes.

O cinema de hoje em dia abusa da montagem picotada, que a torto e a direito deixa planos na tela por menos de um segundo. Diz-se que é porque o público de menos de vinte anos só assiste um filme se for assim – se as tomadas demorarem muito tempo na tela eles adormecem. Não sei. Tudo é possível. Por mim, todo “filme para jovens” poderia ter o ritmo narrativo e o senso de timing destes dois dirigidos por Harry Bradbeer e escritos por Jack Thorne.

 




 




quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

4893) Leituras 2022 - 2 (15.12.2022)




POLICIAL
“O Homem do Terno Marrom” (1924; L&PM Pocket, trad. Petrúcia Finkler) e “The Mousetrap” (1952), de Agatha Christie

Reler um livro depois de mais de cinquenta anos equivale a ler pela primeira vez. O Homem do Terno Marrom pertence a uma linha menos famosa na obra de Agatha Christie: aventuras movimentadas e com algum mistério criminal, cujos protagonistas são jovens. Os mais conhecidos são o casal Tommy & Tuppence Beresford (que aliás envelhece ao longo das décadas), mas neste romance há a aventura única de Anne Bedingfield, uma moça sozinha e expedita. Um crime que ela casualmente testemunha no metrô de Londres a envolve numa conspiração internacional cheia de peripécias, onde há um clima de aventura juvenil e até de comédia, mas os personagens morrem de verdade. Não darei spoiler de um detalhe importante, apenas direi que ele de certo modo prenuncia o clássico The Murder of Roger Ackroyd (1926). Agatha está visivelmente tentando transportar para a página escrita um pouco das emoções e da excitação de seriados de cinema como Os Perigos de Paulina (1914, com Pearl White). No texto (caps. 1 e 19) ela cita Os Perigos de Pamela – não sei se é outro seriado, ou apenas uma referência camuflada. 
 
Li o texto da peça The Mousetrap depois de ver o filme See How They Run (2022), de Tom George, uma comédia policial que transcorre no palco e nos bastidores da montagem desse texto. É a peça em cartaz há mais tempo no mundo inteiro; transcorre numa pousada num lugar remoto, isolada pela nevasca, com hóspedes que não se conhecem uns aos outros (ou talvez sim), e que têm, todos eles, episódios suspeitos no passado. De certo modo, é um ensaio para Ten Little Niggers ou And Then There Were None, um dos melhores romances da Dama do Crime. E para milhares de outras narrativas em que é essencial, acima de tudo, um ambiente fechado e isolado do mundo (numa montanha, numa ilha, num local com comunicações cortadas) onde crimes são praticados e resolvidos sem interferência do mundo externo. Para quem se interessar, aqui há uma filmagem completa da peça (câmera parada, no meio da platéia, plano único, mesmo ângulo; sem legendas):
https://www.youtube.com/watch?v=F_3ZSoRV7aE&t=552s&ab_channel=CraigJohnson
 


 
FANTÁSTICO
“The lost and the lurking” (1981), de Manly Wade Wellman

Um dos meus personagens preferidos no chamado “folk horror” é o cantador de viola Silver John, ou John The Balladeer, que viaja pelas montanhas dos EUA enfrentando seres sobrenaturais, feiticeiros, assombrações. Neste romance ele vai parar num vilarejo onde as pessoas parecem sujeitas a um encantamento coletivo, centrado num culto satânico cuja sede é a mansão de uma mulher que o próprio John confessa ser a mais bonita que ele já viu.
 
Wellman nasceu em Angola e passou boa parte da infância na África, o que o levou a criar um estilo de fantasia bem pessoal. Em geral seus contos são superiores aos romances, que dão a impressão de estar sendo “esticados”; mas o personagem é sempre fascinante, uma espécie de Woody Guthrie com traquejo pra enfrentar o sobrenatural. Silver John é um cara simples, do povo, mas daquele povo “com uma certa leitura” que me lembra muito o ambiente do cordel e da cantoria de viola no Nordeste. Assim como os sertanejos nordestinos leem o “Lunário Perpétuo” e eventualmente o “Verdadeiro Livro de São Cipriano”, os montanheses dos EUA têm algum conhecimento das obras de Cornélio Agripa ou Alberto Magno. Mergulhado na cultura folk local, Silver John é bom entendedor de amuletos, sinais cabalísticos, lugares com boa ou má energia, e toda a “sabedoria oculta” que a literatura fantástica usa como se fosse uma Ciência paralela (e que funcionasse). 
 




AUTORA CONTEMPORÂNEA
“O Lugar” (Ed. Fósforo, 1983, trad. Marília Garcia), e “La Honte (1997), de Annie Ernaux

Para que serve o Prêmio Nobel? Uma resposta possível: para leitores desinformados descobrirem uma autora com quem rapidamente se identificam. Annie Ernaux só não era totalmente anônima no Brasil porque a jovem Editora Fósforo (S. Paulo) já estava traduzindo e publicando seus livros fininhos, densos, aqueles livros onde em cada parágrafo cai uma ficha. São textos autobiográficos, mas em vez de circularem apenas em torno do umbigo afetivo de quem escreve, alargam-se na observação dos contextos, dos confrontos sociais, dos comportamentos padronizados que dão às sociedades conservadoras uma permanente ilusão de estabilidade até o próximo terremoto. 

“O Lugar” começa com a narração da morte do pai e da memória que ela guarda do pai, um camponês que se tornou operário de fábrica e depois pequeno comerciante. É a penosa e nem sempre bem sucedida ascensão social dos que sabem que por definição jamais deixarão de ser pobres, e que mesmo que um dia se tornem milionários carregarão a pobreza gravada na pele em caracteres indeléveis. 

“La Honte” (a Vergonha), um livro confessadamente mais doloroso de escrever, tenta reconstituir o dia em que o pai de Annie brigou com a esposa e tentou matá-la. “Meu pai tentou matar minha mãe” é um começo difícil para qualquer livro; embora depois o episódio tenha sido superficialmente superado, ele se espalha em constatações de inadequação social, ressentimentos, incompatibilidade de sonhos, tudo isto pesando na cabeça de uma garota de doze anos que “é a única da família a ter a chance de estudar numa boa escola” – onde, aliás, praticamente todos a tratam com desdém, por ser quem é e por vir de onde vem. Mais comentários aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/11/4884-vergonha-de-annie-ernaux-18112022.html
 


 
AUTORA NACIONAL
“Vestígios – Mortes nem um Pouco Naturais” (Bandeirola, 2018), de Sandra Abrano

O que chamamos de “romance policial” nem sempre (e às vezes quase nunca) se prende ao funcionamento da polícia e das atividades correlatas à investigação policial. A literatura em inglês tem o termo police procedural para designar os romances que mostram de forma verossímil os “procedimentos policiais” de investigação. Aqui, alguns poucos autores transitaram nesse terreno: José Louzeiro, Rubem Fonseca e outros.  Sandra Abrano avança com segurança, em Vestígios, por um terreno pouco explorado (talvez por estar cheio de minas subterrâneas): os procedimentos da polícia brasileira, principalmente das chamadas polícias secretas, no tempo da ditadura militar.

É um tipo de romance policial-político, onde o crime é visto como uma instituição coletiva. Não é o crime clássico, onde um indivíduo sozinho arquiteta e executa o delito. É o crime transformado em profissão legalizada e lucrativa, uma prática sabida e tolerada pelas autoridades, um “mal menor” com o qual muitas sociedades se conformam porque temem reprimi-lo e desencadear, assim, represálias imprevisíveis. O poder corrompe, e o poder não-fiscalizado corrompe absolutamente, ainda mais quando se tem a certeza da impunidade, e da cobertura de gente graúda. 

Sandra Abrano (“disclaimer”: a autora editou e edita livros meus pelo selo Bandeirola) aborda, numa narrativa de tragédias familiares e luta diária pela sobrevivência, o tema clássico da polícia criminosa, mostrando o que acontece com esses indivíduos quando algum surto democrático (como o que o Brasil experimentou a partir do final do século 20) desmantela seus grupos, organizações, folhas de pagamento, burocracias. Para onde vai esse pessoal? Raymond Chandler retratou a corrupção policial na Califórnia e recebia cartas dizendo: “eu conheço todos esses homens que o senhor descreve”. De certa forma, todos nós os conhecemos.





CLÁSSICOS
“Os Refugiados” (1893), de Conan Doyle (Melhoramentos, trad. Agenor Soares de Moura)

Um dos melhores romances históricos de Doyle, e um dos seus típicos livros com duas partes muito diferentes entre si. Na primeira, o oficial De Catinat, na corte de Luís XIV, sofre perseguições por ser huguenote (protestante) e se envolve nas intrigas da corte. Quando o rei promulga o Édito de Fontainebleau, que joga os huguenotes na ilegalidade, ele foge com a família num navio que vai para a América. Chegando lá, as perseguições continuam, e eles acabam tendo que atravessar uma parte selvagem do continente, perseguidos pelos índios. Doyle era um pesquisador dedicado, e algumas das suas fontes surgem como coadjuvantes na história, que é de ação constante, com ótimos personagens, diálogos vívidos. Há cenas notáveis, como a do despertar matinal do rei (que chega a ser cômica, pela pompa envolvida) e no final o cerco dos índios à casa onde De Catinat está refugiado. 
 
Li esse livro quando era garoto e reli agora com o mesmo prazer. É enorme o contraste de ambientes entre a primeira parte (a corte do Rei Sol) e a última (a selva da imprecisa fronteira, na época, entre o que hoje são o Canadá e os EUA). Há uma parte intermediária, a viagem de navio, que serve de ponte entre as duas e é também cheia de lances mirabolantes, conspirações, tentativas de morte, fugas, perseguições.  Doyle tinha faro para história de aventuras, e no cânone de Sherlock Holmes há blocos narrativos impecáveis, como a violência na colônia mórmon em Um Estudo em Vermelho, os conflitos no sindicato dos mineiros em O Vale do Terror, ou a perseguição final de barcos no Tâmisa em O Signo dos Quatro. Para falar em linguagem de hoje, The Refugees daria uma série de TV com duas ótimas temporadas de cinco ou seis episódios.
 
 (continua)
 
Primeira parte:





terça-feira, 30 de agosto de 2022

4858) "Nope", o horror nas alturas (30.8.2022)




Está em cartaz por aí o filme Não, Não Olhe (“Nope”, 2022) de Jordan Peele, uma mistura de horror e ficção científica, do mesmo diretor do ótimo Corra! (“Get Out”, 2017).
 
Corra! é aquela história do rapaz negro que começa a namorar uma garota branca. Ela é rica, linda, e parece muito apaixonada por ele. Convida-o então para aquele momento mais temível na carreira de um namorado: um fim de semana na casa dos pais dela, “para que vocês se conheçam melhor...”  O rapaz preferiria, talvez, ser esfolado vivo por lagostas gigantes, mas a garota é tão legal e tão bonitinha que ele vai.
 
Não vou me deter nesse filme aí, basta dizer que as lagostas teriam sido preferíveis.
 
O ótimo ator Daniel Kaluuya volta neste filme. Ele é “O. J.”, e faz parte de uma família de adestradores de cavalos. O pai morreu em circunstâncias charles-forteanas: uma moeda caiu do céu e perfurou-lhe o crânio. Esse fato inicial dá o tom do filme. Coisas improváveis acontecem. E não são improváveis na vida real, que derrapa no bizarro o tempo todo. São improváveis no cinema de Hollywood, a mais invulnerável das bolhas narrativas.

 
No rancho que “O.J.” mora, com sua irmã Emerald (Keke Palmer), os cavalos começam a desaparecer. O mesmo parece estar acontecendo no rancho vizinho, onde são encenados espetáculos ao vivo de cowboys. O. J. e Emerald chegam à conclusão de que se trata de um OVNI que abduz os cavalos, e pedem auxílio a alguns malucos. Para destruir o OVNI e salvar a Humanidade? Não, apenas isto: filmá-lo e vender as imagens por uma grana interplanetária.
 
O filme tem um orçamento até respeitável (custou 68 milhões e rendeu o dobro, até agora), mas é um filme “B” em muitos sentidos, mas principalmente no fato de ligar um foda-se para as convenções de sucesso.
 
Procurarei não dar muitos spoilers, afinal o filme mal estreou. Prefiro falar sobre alguns temas que correm ao longo dele.
 
O filme tem um conceito interessante sobre os alienígenas. Começa com um mero disco voador, bem convencional, sendo avistado nos céus, mas evolui depois para uma forma orgânica e bem realizada, que em certos momentos lembra os seres submarinos de O Segredo do Abismo (1989) de James Cameron.
 
E tem um precedente ilustre: o conto de Conan Doyle, “O Horror nas Alturas” (“The Horror of the Heights”, 1922, em Tales of Terror and Mystery), onde ele postula a existência de monstros aéreos, gelatinosos e meio transparentes, que esvoaçam quase invisíveis nas camadas mais elevadas da atmosfera. O conto é das primeiras décadas da aviação, e Doyle, bom escritor de ficção científica, rapidamente se volta para esses novos campos inexplorados.


Diz ele a certa altura:
 
Um explorador pode descer em nosso planeta mil vezes seguidas e nunca avistar com um tigre. E contudo os tigres existem, e se ele se deparar com um deles na selva, pode ser devorado. Existem selvas na atmosfera superior, e elas são habitadas por criaturas piores que os tigres.


(Daniel Kaluuya, em "Corra!")
 
O racismo era o tema principal do filme Corra!, onde um rapaz negro, ao ser atraído para dentro de uma família de brancos, descobre que eles querem destruí-lo e metaforicamente “devorá-lo”. Ele reage com violência e consegue se safar, mediante uma verdadeira carnificina. Em Nope, o mesmo ator (Daniel Kaluuya) é ameaçado pela criatura alienígena, que tenta devorá-lo fisicamente; ele e seus amigos reagem com violência contra a criatura.
 
No primeiro filme, o tema racial está claramente colocado, o tempo inteiro. Em Nope, não: é como se os personagens fossem “pessoas”, apenas, pois o alienígena está à apenas procura de criaturas vivas – ele mostra aliás uma certa preferência pela carne dos cavalos. O monstro não distingue raças; aos olhos dele, somos todos iguais. Os negros (O. J. e Emerald) estão ali representando a raça humana.
 
Falei acima que é um “filme B”, e é preciso qualificar isto um pouco. No tempo em que os cinemas dos EUA tinham programação dupla, o filme “A” era aquele em cujo sucesso se apostava mais; o “B” era o contrapeso, o complemento da programação.
 
Nem sempre o filme “A” era o mais caro e o “B” mais barato. Era um pouco como o Lado A e o Lado B dos discos “compactos”, que traziam uma canção de cada lado. Nos discos, apostava-se no sucesso do Lado A e no Lado B colocava-se uma canção menor, guardando as melhores para o Lado A de novo disco a ser lançado no mês que vem.
 
Daí surgiu essa idéia – que me atrai – de que filme B, por esse conceito, é o filme que não se propõe a ser um enorme sucesso, que quer apenas se pagar e encaminhar o próximo. O filme A é aquele onde se espera ganhar bastante dinheiro, então se gasta mais grana; e já que se gasta mais grana a necessidade de retorno vai aumentando, em efeito cascata.
 
Expectativa de sucesso é uma desgraça, no cinema de Hollywood. Significa que todos os executivos num raio de quilômetros vão querer assistir as primeiras versões do filme pré-editado e dar palpite: “Muda a trilha sonora... Corta vinte minutos... Tira essa atriz e refilma as cenas dela... Bota uns números musicais pra alegrar...”  É o verdadeiro horror nas alturas.
 
Não, Não Olhe tem algo de Bacurau (Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, 2019), em sua ambientação meio desértica, remota, longe dos centros urbanos, com pessoas de poucos recursos tentando enfrentar uma ameaça externa que (um detalhe simbólico nos dois filmes) corta sua eletricidade e sua conexão, ou seja, começa por eliminar “virtualmente” as pessoas. Depois disso, elas se tornam apenas “carne viva” em fuga, tentando se esconder. Ou reagir.
 
Tem algo também de Repo Man (Alex Cox, 1984), com a presença de um alienígena misterioso fazendo estragos e da reação meio desorientada de um grupo de pessoas comuns. Os protagonistas não são os cientistas atômicos e os generais do Exército de tantos “filmes de monstros da FC”. São gente comum, jovem, que ouve rock, que tem algum conhecimento prático de tecnologia e algumas noções meio fantasiosas sobre vida extraterrestre, uma mistura de cultura de almanaque com teoria da conspiração.
 
O filme é sobre isso, não é uma simples exibição de efeitos especiais (que aliás são bastante razoáveis). A todo instante aparecem algumas situações bizarras que são típicas do cinema autoral, e que no caso de um “Filme A” teriam que ser submetidas as uma verdadeira bateria de interrogatórios de executivos de estúdio, que são, por definição, a espécie alienígena mais antropófaga e robotizada.
 
“O estranho, o bizarro, o inesperado” – esse era o mantra do seriado Acredite... Se Quiser, sucesso de muitos anos na TV, inclusive no Brasil. O Believe It Or Not de Robert L. Ripley surgiu nos jornais impressos em 1919, o mesmo ano do clássico The Book of the Damned de Charles Fort, que explorava este mesmo território.

São idéias fantasiosas, lúdicas, que não pretendem convencer ninguém, e nesse aspecto essencial diferem das atuais teorias terraplanistas, sempre evangelizadoras em benefício próprio. A fascinação pelo que é bizarro e inexplicável nada tem de ciência: é narrativa em estado puro, narrativa imaginativa popularesca. O caldo nutriente de onde surgiu a ficção científica de cem anos atrás.