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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

3623) Malditos passaportes (6.10.2014)





No meu tempo de estudante dizíamos: “Os americanos vêm ao Brasil e ficam escandalizados em ver que nós somos obrigados a ter uma Carteira de Identidade.  Isso é coisa de prisioneiro. Lá nos EUA isso não existe.  Quando um cara precisa se identificar, apresenta a carteira de motorista. Isso mostra o quanto vivemos num Estado Policial.”  Verdade parcial, como toda verdade.  Para coisas mais oficiais do que um baculejo na calçada, nos EUA, eles requerem o Social Security Number, que parece ser uma espécie de CPF (o cartão não tem foto nem data de nascimento).



A tendência dos Estados é se tornarem mais policiais e controladores à medida que ficam mais ricos e complicados. A documentação das pessoas de cem anos atrás é irrisória se comparada à de hoje.  Lendo biografias vemos como os dados da vida civil dos biografados são cheios de lacunas, de inconsistências, de ausências inexplicáveis. 



Stefan Zweig, em seu livro O Mundo de Ontem (1942) dizia: “Nada deixa mais claro o imenso retrocesso que recaiu sobre o mundo depois da I Guerra Mundial do que as restrições sobre a liberdade de deslocamento do homem e a diminuição dos seus direitos civis. Antes de 1914 a Terra pertencia a todos. As pessoas iam para onde desejassem e ficavam o quanto quisessem. Não havia vistos nem autorizações de permanência, e sempre me dá prazer deslumbrar os mais jovens contando que antes de 1914 viajei da Europa para a Índia e para a América sem ter um passaporte e sem ter em qualquer momento visto um. Embarcava-se e desembarcava-se sem questionar e sem ser questionado: não era necessário preencher um único dos inúmeros formulários requeridos hoje em dia.”



Não há como não lembrar, diante disto, do poema de Maiakóvski (de 1929) sobre o passaporte soviético. Ele começa dizendo: “Às credenciais não lhes tenho respeito. / Que vão para o diabo todos os papéis!”.  Ele ridiculariza as reações do funcionário de fronteira que manuseia os passaportes: respeito diante do documento britânico, mesuras e salamaleques diante do americano (“pegam como se fosse uma gorjeta”), desprezo pelo passaporte polonês...  Mas quando pega o passaporte vermelho da URSS, “pegou-o como uma bomba, pegou-o como a um ouriço, como a uma navalha afiada...”


O poema de Maiakóvski é cheio do orgulho infantil de quem acreditava num Estado e perdoava, compreendendo seus problemas, sua “necessidade de também ser fera”.  Todo poeta sonha numa lua-de-mel com algum tipo de Revolução. Mas quem é adversário do governo ou do Estado vê maquiavelismo em qualquer inovação do setor burocracia-e-controle.  O aumento da segurança de uns é o aumento da opressão dos outros.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

3116) Antídoto contra o tédio (22.2.2013)






Os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, criadores do Concretismo paulistano com Décio Pignatari, costumavam mencionar em seus livros o mistério que cercava uma palavra do antigo idioma provençal. Era a palavra “noigandres”, que nenhum linguista conseguia entender o que era. Virou um pequeno enigma, tão fascinante que foi a palavra escolhida para dar nome à revista literária que os concretistas começaram a publicar em São Paulo em 1952. (E eu a citei ao chamar de “Campinoigandres” a cidade imaginária onde ocorrem alguns dos meus contos e meu romance A Máquina Voadora).

Quem quiser saber a história detalhada, leia aqui o ótimo artigo de Antonio Risério (http://bit.ly/YwwnlS); basta dizer que o provençalista Emil Lévy pesquisou a palavra e concluiu que seria uma forma abreviada de “d’enoi gandres”, onde “enoi” é uma forma aparentada ao termo francês “ennui”, tédio; e “gandres” viria de “gandir”, proteger. A expressão significaria, portanto, algo que protege contra o tédio. Um antídoto contra o tédio – para ser fiel ao amor concretista pelas assonâncias. E, por uma casualidade serendipícia, é uma boa descrição para a injeção de novidade e estranheza que o Concretismo aplicou em nossa poesia, em nossa crítica literária.

Isto sempre me trouxe à mente a famosa frase de Maiakóvski, que dizia: “É melhor morrer de vodka do que de tédio”. Melhor naufragar na tormenta do que apodrecer na calmaria. Maiakóvski, o futurista “de estatura quilométrica”, com sua camisa amarelo-berrante, dizendo: “A anatomia ficou maluca comigo: sou coração dos pés à cabeça”. E me lembra também o conto de Ray Bradbury, no livro homônimo, A Medicine for Melancholy (1959). É a história de uma linda mocinha londrina do século 18, que está definhando de fraqueza e nostalgia. A família coloca sua cama na calçada, em frente à casa, para pedir opiniões aos transeuntes. Um jovem lixeiro aconselha que ela passe a noite ali fora, porque a melancolia que ela sente só pode ser curada por um remédio: a lua. Seguem seu conselho, e durante a noite quem aparece não é a lua, é o próprio lixeiro, agora limpo e cheiroso, que se enfia entre os lençóis da moça e a cura da melancolia com o mais antigo dos remédios.

E não acho que exagero quando vejo na letra de Cazuza em “Todo Amor que Houver Nessa Vida” um pouco disso tudo: “Transformar o tédio em melodia... algum veneno antimonotonia... algum remédio que me dê alegria...”. Tudo que as pessoas buscam na vodka, na droga, no amor, na música, na poesia. A novidade, a estranheza, a intensidade, o furacão, a tempestade, a alucinação dos sentidos, a eletricidade na medula, o antídoto contra o tédio: noigandres.



sexta-feira, 25 de maio de 2012

2879) A pseudomorfose (25.5.2012)










(Pe. Antonio Vieira)

O jornal literário Rascunho, de Curitiba, publicou em abril uma entrevista de Alfredo Bosi, “Ler com a alma”(http://bit.ly/IKEary).  Ele examina a figura do Pe. Antonio Vieira (1608-1697), um desses personagens que ninguém encaixa numa categoria só.  Vieira, na sua ação política e na expressão ideológica, era um sujeito escorregadio, elusivo, que mordia e assoprava todo mundo no arriscado xadrez político do seu tempo. Se me perdoam a comparação plebéia, ele vivia dando o drible-da-vaca nas autoridades, tocando a bola para a direita e rodeando-as pela esquerda, com um volteio da frase.  Vieira foi um dos fundadores do nosso idioma, e fez pela prosa o que Camões fez pela poesia.  Ler Vieira é como fazer um passeio de asa-delta com um instrutor experiente.  A gente nunca pensaria aquilo sozinho, mas tendo a voz dele como guia fica com a sensação de ser capaz de pensar qualquer coisa.

A certa altura, Bosi comenta as análises de Otto Maria Carpeaux sobre Vieira, e diz: “Vieira queria que todos pagassem impostos, inclusive o terceiro Estado, e não tivessem os privilégios da nobreza e do clero; ele diz coisas muito fortes contra a desigualdade das contribuições. Finalmente, ele diz que o que vale no homem é o que ele faz, e não os seus ascendentes, sua linhagem. Parece uma idéia que só na Revolução Francesa vai ter seu momento tremendo, sua explosão. A idéia de que somos iguais, filhos do mesmo Adão, e pela teologia não deve haver nobres, não deve haver hierarquias. Então ele diz, num dos sermões, somos o que fazemos, não somos o nosso nome, mas a nossa ação. (...) Carpeaux chama isso de pseudomorfose. É como uma pessoa que tem forma muito conservadora, mas idéias revolucionárias, ou então uma pessoa que tem palavras muito revolucionárias na boca, mas ela tem toda uma ação conservadora. Isso é muito comum na nossa época, como é que uma pessoa tem uma forma que não convém ao seu conteúdo? E isso é a pseudomorfose”.

Maiakóvski, por exemplo, dizia que não pode haver idéia revolucionária sem forma revolucionária, e que as grandes transformações sociais exigem grandes transformações da linguagem poética. Mas talvez ele dissesse isto porque nele convergiram a Revolução Soviética (um dos maiores catalisadores de utopias do século 20) e o Formalismo Russo, um complexo movimento de vanguarda. Vieira não foi vanguarda literária no sentido de ruptura, como Maiakóvski, mas foi o ponto mais alto de uma tradição, o que no frigir dos ovos vale muito bem uma vanguarda. Sua linguagem e sua postura escorregadia foram instrumentos para colocar em xeque a própria cultura e civilização que produziram aquela linguagem.

terça-feira, 7 de junho de 2011

2576) O oral e o escrito (7.6.2011)




(ilustração de Alexeieff para Russian Fairy Tales)

No posfácio que escreveu para uma coletânea de contos de fadas russos, Roman Jakobson dá a certa altura um exemplo interessante de como uma literatura oral se forma na memória de um povo. Diz ele, a certa altura: 

“Aqui nós estamos diante de um dos aspectos mais peculiares da vida cultural russa, que a distingue claramente da cultura do Ocidente. Durante muitos séculos a literatura escrita da Rússia esteve quase totalmente dominada pela igreja: com toda a sua riqueza e suas formas refinadas, a antiga herança cultural russa é quase totalmente voltada para as vidas dos santos e dos devotos, lendas piedosas, preces, sermões, discursos eclesiásticos e crônicas ao estilo monástico. O mundo leigo da Velha Rússia, contudo, possuía uma ficção abundante, original, diversificada e altamente artística, mas o único meio para sua difusão era a transmissão oral. A idéia de usar a palavra escrita para a poesia secular era totalmente alheia à tradição russa, e os meios expressivos dessa poética eram inseparáveis das formas orais de execução e transmissão”.

Coisa semelhante a esta nunca aconteceu no Brasil, por exemplo. Aqui, a divisão entre literatura escrita e literatura oral não teve muito a ver com religião. Ela se deu muito mais por conta de critérios de classe social e de nacionalidade: os portugueses mantinham um vínculo com sua cultura escrita, enquanto os “brasileiros” de todos os matizes tinham um grau de alfabetização dos mais precários. 

Foram 400 anos disto. O que a situação na Rússia nos sugere é a coexistência em paralelo de uma enorme e sofisticada literatura religiosa escrita, e de uma enorme e sofisticada literatura leiga oral. Dois universos convivendo invisivelmente um com o outro.

Essa situação talvez ajude a entender dois aspectos peculiares da literatura russa. Um deles é a importância dada pelos estudiosos sérios da literatura às narrativas orais. O trabalho de Vladimir Propp (Morfologia do Conto, As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso) estabeleceu a estrutura básica dos contos maravilhosos, reduzindo-os a funções, personagens, etc., e demonstrou que esses contos são uma ilimitada recombinação de agentes e situações que recebem diferentes roupagens em diferentes culturas. 

A riqueza da literatura oral russa proporcionou a Propp e aos que o seguiram uma codificação notável dessas histórias. Histórias que no Brasil se reproduzem no Romanceiro Popular: as histórias de trancoso, os romances de origem ibérica e os folhetos de cordel.

Outro aspecto diz respeito ao grau extremamente musical, sonoro e experimentalista da poesia russa, desde poetas como Khliebnikov até Maiakóvski. 

Muito dessa poesia russa já foi traduzida aqui no Brasil, e os intrincados efeitos sonoros que ela cultiva mostram (à luz do que diz Jakobson) a existência de uma tradição oral rica e sofisticada. Nem tudo que é oral é primitivo. Nem tudo que é escrito é sofisticado.






quinta-feira, 15 de julho de 2010

2270) Trotsky fala de Maiakóvski (17.6.2010)




Uma antologia de Maiakóvski que comprei recentemente (Poemas 1913-1916, Ed. Visor, Madrid, 1993) traz, além da tradução espanhola de vários poemas (alguns dos quais nunca vi traduzidos em português) um prefácio de Leon Trotsky, que dá uma visão interessante e de época sobre o poeta da camisa amarela. 

O texto de Trotsky certamente não foi destinado a ser um prefácio; parece ser um trecho de uma obra maior, pelas referências que faz. Deve ser um capítulo numa análise mais longa da poesia russa daquele tempo. Suas opiniões são importantes porque Trotsky era o lado culto, cosmopolita, “artístico” da cúpula revolucionária soviética. O próprio Lênin não se comparava a ele em termos de cultura geral e literária. 

Lênin (a quem Maiakóvski dedicou numerosos elogios e pelo menos um grande poema) via com olhos atravessados o vanguardismo do poeta futurista; era um leitor dos poetas da velha guarda como Pushkin, e podemos imaginar que via Maiakóvski com os mesmos olhos com que a esquerda brasileira, nos anos 1960, via gente como Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Trotsky critica os poemas de Vladimir, mas o faz com conhecimento de causa e percepção. Diz ele: 

“Maiakóvski chegou [à Revolução] pelo caminho mais curto, o da boemia rebelde e perseguida. Para Maiakóvski, a revolução foi uma experiência verdadeira, real e profunda, porque caiu como raios e trovões cobre aquelas coisas que Maiakóvski odiava à sua maneira e com as quais não se reconciliou”. 

Mas ressalva: 

“Seus sentimentos subconscientes para com a cidade, a natureza, o mundo inteiro, não são os de um operário, mas os de um boêmio. (...) O tom cínico e impiedoso de muitas imagens, especialmente do seu primeiro período poético, denuncia as marcas visíveis do cabaré artístico, dos cafés literários e de tudo que isto significa”.

Trotsky procede a um desmonte completo do poema “150 Milhões”, uma glorificação da Revolução Soviética, no qual, entretanto, ele vê apenas equívocos e exageros, os exageros típicos de quem glorifica a Revolução num tom panfletário, caricatural, tão exagerado que acaba por denunciar a pouca identificação do autor para com ela. 

Diz Trotsky: “Em Maiakóvski, cada frase, cada expressão, cada imagem trata de ser o clímax, o máximo: por isso o conjunto não tem clímax. (...) Apesar de suas hipérboles trovejantes, encontra-se nessas imagens gratuitas e primitivas uma espécie de afetação, parecida com a que os adultos adotam com as crianças”.

Os numerosos exemplos citados por Trotsky corroboram essa crítica, mostrando que, para ele, o individualismo exacerbado do poeta o fazia falar com brilhantismo de si próprio mas perder-se em imagens mirabolantes ao tentar assumir um ponto de vista coletivo. 

Ainda assim, Trotsky elogia poemas como “A Nuvem de Calças”, e diz do poeta: 

“Muitas de suas imagens, frases e expressões entraram para a Literatura e permanecerão nela durante muito tempo, se não para sempre”.





segunda-feira, 12 de julho de 2010

2257) O destino de Maiakóvski (2.6.2010)



Vladimir Maiakóvski foi um paradoxo de calças. Tudo nele era extremo, e mais que isto, era extremo em direções opostas. Criticado pelos burocratas soviéticos por ser (segundo eles) ininteligível para as massas, foi o contrário do poeta intelectual, instalado em torre de marfim, compondo versos longe do barulho do tráfego. Entusiasta da Revolução (e mais tarde destroçado pelo descarrilamento desta), ele fez da poesia um instrumento de luta política – mas não só isto. Dizia: “Comigo a anatomia ficou maluca, sou coração dos pés à cabeça”. Era um emotivo, que acabou se matando por causa de desilusões amorosas (mas não só isto).

Maiakóvski foi endeusado nos anos 1960 quando a palavra Vanguarda era um “abre-te sésamo” e todo jovem queria ser vanguardista. Hoje, a palavra Vanguarda é anátema (e ser intelectual é um um pecado ou um esnobismo) e Maiakóvski acaba pagando por isso, porque imagina-se que sua poesia é de difícil entendimento. Não é. É uma poesia feita com um entusiasmo verbal sem precedentes, uma poesia que realiza aquilo que Guimarães Rosa queria para sua própria prosa quando dizia: “Meu lema é: a linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que, como escritor, devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. (...) O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas”.

Edward J. Brown, em sua minuciosa e reflexiva biografia literária Mayakovsky – A Poet in the Revolution (Princeton University, 1973) elogia “seus trocadilhos rimados, suas rimas quebradas com habilidade e espírito lúdico, suas ricas aliterações e assonâncias, seus neologismos felizes e bem-humorados, e o efeito declamatório de seus versos fortemente acentuados”. Seu precioso ensaio “Como fazer versos” é uma lição prática de poesia. Seu único defeito é o de todos os manuais: sua leitura não nos ensina a fazer versos, porque fazer versos não é algo que se aprenda teoricamente. É como um manual intitulado “Como nadar”. O sujeito pode lê-lo mil vezes, e de fato entender cada frase que ele diz. Mas continua sem saber nadar.

Maiakóvski falou de tudo, e falou reiteradamente de poesia. Um tema permanente em seus poemas é a importância da poesia, comparada a outros ofícios, a outras atividades humanas, comparada até mesmo à combustão solar em “A Extraordinária Aventura Vivida por Vladimir Maiakóvski no Verão na Datcha”, em que o Sol vem bater papo em sua sala de visitas, os dois queixam-se das dificuldades dos seus respectivos ofícios, e o Sol despede-se dizendo: “Somos amigos pra sempre, eu de você, você de mim. Vamos, poeta, cantar, luzir no lixo cinza do universo. Eu verterei o meu sol e você o seu, com seus versos” (tradução de Augusto de Campos).

quinta-feira, 8 de julho de 2010

2246) Maiakóvski: um poeta na estrada (20.5.2010)




Poesia no tempo de Maiakóvski era algo que não se concebe no Brasil de 2010. Poesia, para nós, é algo redigido no silêncio de um apartamento para ser publicado, na melhor das hipóteses, num volumezinho em tiragem de 200 exemplares ou um pouco mais. 

O grande momento é um lançamento-recital num bar, em que dizemos alguns poemas, autografamos livros para 30 ou 40 amigos, e o restante da edição é distribuído ou trocado com colegas que publicam seus versos no mesmíssimo sistema.

Talvez somente os cantadores de viola nordestinos tenham uma experiência poética semelhante à dos poetas russos nos anos 1920, nos anos posteriores à Revolução. 

Maiakóvski viajava o país inteiro fazendo recitais diante das platéias mais variadas, dizendo poemas em auditórios, escolas, pátios de fábrica, quartéis, teatros e cinemas. Discutindo, argumentando, batendo boca com o público. Numa carta de 1926 a sua namorada Lili Brik ele conta:

“Viajo como um louco... Recitei em Voronezh, Rostov e Taganrog. A seguir de novo em Rostov e Novocherskass.. E recitar não é fácil. Recito todos os dias. Por exemplo, sábado recitei em Novocherskass desde as 8:30 da noite até as 12:45... E às 8 da manhã seguinte, na Universidade. Às 10:30 li versos no quartel de um destacamento de cavalaria do Exército Vermelho. À 1:30 regressei a Rostov e recitei na Associação de Escritores Proletários. Terminei às 4:50, e às 5:30 recitei no clube da fábrica Lênin...”

Quem fazia isso não era o poeta laureado do regime, bancado pelo Kremlin. Era um simpatizante problemático, um mero “companheiro de jornada” dos comunistas, um poeta de artesanato difícil, criticado por Lênin por não ser tão facilmente assimilável quanto Pushkin; o poeta que disse: “Sem forma revolucionária não existe arte revolucionária”. 

Essa poesia dita difícil era burilada, refeita, reformatada, no embate diário com platéias exaltadas, cheias de entusiasmo e de perplexidade por um estado de coisas com que nunca tinham sonhado. 

Um poeta de hoje – eu, você, qualquer um – jamais poderá ter a mesma experiência poética que tinha alguém envolvido a esse ponto com o público, com as respostas e as críticas do público.

De outra carta a Lili Brik, em 1927: 

“A 25 falei em Karkhov, junto com S. Kirsanov. A 27 e 28 em Lugansk (Vorochilovgrado) e a 29 em Stalino. A 31 falo de novo em Karkhov. Na Criméia estarei a 4 de agosto e participarei de uma sessão em Sinferopol. A 5 falarei em Sebastopol e a 8 em Aluch. A 12 em Gurzuf e a 16 em Alupca. A 17 e 18 em Ialta. A 19 recitarei em Eupatorio e a 20 de novo em Sinferopol. A 22 em Livadio, num sanatório onde repousam 350 camponeses. A 23 estarei em Jaraks, e a 24 em Simeis. A 25, 30 e 31 de novo em Ialta. A 3 de dezembro no Cáucaso, em Piatigorsk...” 

Era outro tempo. Outro mundo. Em termos de importância e de repercussão social, a poesia desse tempo tinha apenas uma leve semelhança com o que chamamos de poesia hoje.





terça-feira, 6 de julho de 2010

2236) Maiakóvski e o Futuro (8.5.2010)



Vladimir Maiakóvski era obcecado com o futuro, e não só por fazer parte dos futuristas russos. Os futuristas eram poetas anárquicos, irreverentes, meio plebeus, que usavam linguagem das ruas, e se contrapunham ao simbolismo russo, feito de poetas intelectualizados, sofisticados, um tanto elitistas. O futurismo era uma coisa meio hip-hop para a época – a Rússia dos anos 1920. O maior poema de Maiakóvski nunca foi (penso eu) inteiramente traduzido em português. Seu título russo é “Pro eto” – nas variadas traduções, “Sobre isto”, “A respeito disto”, “About that”, etc. É um poema-livro em várias partes. A última parte, chamada “O Amor”, foi traduzida para o português por Ney Costa Santos, musicada por Caetano Veloso, e gravada por Gal Costa sob o título “O amor – sobre o poema de Vladimir Maiakóvski”, em seu álbum Fantasia, de 1981.

Neste trecho do poema, Maiakóvski se dirige aos cientistas do século XXX, porque prevê que sua amada será ressuscitada por eles no futuro: “Talvez quem sabe um dia / por uma alameda do zoológico / ela também chegará / ela que também amava os animais / entrará sorridente assim como está / na foto sobre a mesa / ela é tão bonita / que na certa / eles a resssuscitarão”.

Maiakóvski tinha duas idéias fixas: a do suicídio e a da ressurreição. Como se ele confiasse tanto no futuro que dissesse a si mesmo que podia meter uma bala na cabeça toda vez que tivesse uma desilusão amorosa: a Ciência o traria de volta. Ele diz: “O Século Trinta vencerá / o coração destroçado já / pelas mesquinharias / agora vamos alcançar / tudo o que não podemos amar na vida / com o estrelar das noites inumeráveis”.

Até aqui, a canção de Caetano tem uma melodia discreta, intimista. Mas quando começa o refrão, a música começa a galgar patamares sucessivos de modulação, de subida de tom, de um grito que parece querer alcançar cada vez mais longe, mais perto do Século Trinta: “Ressuscita-me! / Ainda que mais não seja / porque sou poeta / e ansiava o futuro. / Ressuscita-me! / Lutando contra as misérias / do cotidiano, / ressuscita-me por isso. / Ressuscita-me! / Quero acabar de viver o que me cabe / minha vida / para que não mais existam / amores servis...”

Como diz Fernando Peixoto, é “um poema sobre um amor trágico e desesperado... num clima quase permanente de alta tensão”. Maiakóvski não pensa em renascer por um milagre. Dizem que ele acreditava sinceramente que no futuro seria possível ressuscitar alguém. Para quê? O poema finaliza: “Ressuscita-me / para que a partir de hoje / a família se transforme / e o pai seja pelo menos o Universo / e a mãe seja no mínimo a Terra”. O que ecoa, invertidamente, no grito igualmente desesperado de Lennon em “Yer Blues”: “My father was of the sky / my mother was of the Earth / but I’m from the Universe / and you know what it’s worth”. Poetas de uma época em que o Futuro e o Universo estão mesmo no cerne de cada tragédia e de cada paixão.

domingo, 4 de julho de 2010

2228) Maiakóvski e a FC (29.4.2010)



A comemoração dos 80 anos da morte de Vladimir Maiakóvski tem trazido aos suplementos culturais em geral novas traduções e adaptações dos seus poemas. Suas peças de teatro também têm sido lembradas, tendo novas montagens no palco ou merecendo estudos críticos. Um aspecto pouco conhecido da obra do grande poeta é a sua ligação com a ficção científica. Os poetas futuristas russos flertaram com o Futuro, literalmente, em numerosas obras. Maiakóvski foi exposto à FC como qualquer garoto de sua época. Em seu texto autobiográfico Eu Mesmo, ele diz, falando de sua época de curso ginasial: “Leio Julio Verne. O fantástico em geral”.

Fantástico que teria influência em duas de suas peças principais. A primeira, O Percevejo (“Klop”), de 1929 (há uma tradução brasileira recente da Editora 34, São Paulo). Nela, a primeira parte descreve o casamento do burocrata Prysipkin e a destruição de sua casa por um incêndio. A segunda parte se passa no futuro, em 1979, quando escavações no local onde ficava a casa descobrem Prysipkin ainda vivo, congelado num bloco de gelo. A partir daí, seguem-se as costumeiras situações satíricas em que um personagem, como o Dorminhoco de Woody Allen, acorda num mundo futuro e dá origem a uma infinidade de mal-entendidos. No final, Prysipkin acaba sendo confundido com um inseto, o percevejo do título, e trancafiado num jardim zoológico.

A segunda peça futurista foi O Banheiro (“Banya”) de 1930, em que um cientista inventa uma máquina do tempo e precisa de financiamento do Estado soviético para finalizá-la, ao mesmo tempo em que é perseguido por uma espécie de espião industrial britânico que pretende roubar a idéia para a viagem no tempo. Quando a máquina é posta em funcionamento, traz para o presente uma “mulher fosforescente” vinda do futuro. Ela anuncia que o socialismo é triunfante e que levará para o futuro todos os que comungam do seu verdadeiro espírito; e quando a máquina parte, deixa para trás, no presente, todos os burocratas que tinham passado o tempo inteiro dificultando as coisas para o cientista.

Na Revolução Soviética, o futuro era real para esses artistas que viviam a construção de uma projeto de Utopia (que havia na cabeça deles), de construção da sociedade ideal, e ao mesmo tempo a tragédia de ver essa Utopia desfigurada pela violência, pela burocracia e pela visão tacanha dos políticos. O Percevejo salta de um 1929 corroído pela ganância dos burocratas ignorantes para um 1979 insuportavelmente asséptico, que para os críticos lembra Nós, o clássico da FC escrito em 1920 por Yevgêni Zamiátin. O livro de Zamiátin circulou clandestinamente até sua tradução em 1924 (a primeira edição oficial em russo só ocorreu em 1952). Sua descrição de um Estado totalitário e cerebralista influenciou o 1984 de George Orwell, e também o teatro de Maiakóvski, cujo entusiasmo pela Revolução não o impediu de perceber desde cedo o abismo stalinista para onde ela marchava.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

2220) Ler Maiakóvski (20.4.2010)




O mundo comemora os 80 anos da morte de Vladimir Maiakóvski, um dos maiores poetas que já existiram, ao menos pelo meu gosto. 

Conheci sua obra numa edição dos anos 1960, com traduções de Augusto & Haroldo de Campos e Boris Schnaidermann. A edição atual deste volume, Poemas, é da Ed. Perspectiva (São Paulo, 2002, Coleção Signos). Traz um bom número de poemas traduzidos, vários pequenos ensaios biográficos e críticos, e o texto completo de Eu Mesmo, um saboroso conjunto de fragmentos autobiográficos do poeta. É sua melhor coletânea de poemas traduzidos.

Depois, veio um volume que hoje é relativamente raro: Maiakóvski – Vida e Obra de Fernando Peixoto (José Álvaro Editor, 1969). Faz parte de uma inestimável coleção de capas amarelas, lançada nessa época, que também teve volumes sobre Sartre, Kafka, Brecht, Henry Miller... 

O livro de Fernando Peixoto, que é um homem de teatro, tem a vantagem de dar muito espaço ao trabalho de Maiakóvski no teatro e no cinema, onde ele foi muitíssimo atuante. E de dar traduções alternativas para inúmeras estrofes. 

Maiakóvski era um poeta complexo, fazia intrincados jogos de rimas, assonância, métrica, etc. Cada tradutor é forçado a puxar para um lado ou para outro, ao adaptar seus versos. Se o leitor não sabe russo (como eu), quanto mais traduções diferentes ler, mais tem uma idéia do que é o poema original, pois cada tradução o vê de um ângulo diferente.

O terceiro volume essencial para entender o poeta é A Poética de Maiakóvski de Boris Schnaidermann (também da Ed. Perspectiva, São Paulo). Schnaidermann faz uma detalhada e anotadíssima análise da obra do poeta, dando-lhe um contexto amplo e minucioso. E transcreve numerosos artigos do próprio Maiakóvski, entre eles a mesma versão de Eu Mesmo já referida acima, e uma versão completa do Como fazer versos?, o livrinho em que Maiakóvski explica seu modo de ver a poesia, suas técnicas, seus truques, seu processo de criação. É uma das melhores coisas já escritas sobre poesia por um poeta.

Se alguém pretende ser um poeta, a sério, irá ganhar muito não apenas lendo estes três livros, mas relendo-os a vida inteira, como tenho feito. 

Não que isto possa tornar a gente um grande poeta (no meu caso, por exemplo, não tornou – considero-me um poeta mediano, no contexto do meu Estado e da minha geração). Mas nos dá algo que pra mim é muito mais importante do que ser um Grande Poeta: ser capaz de entender um Grande Poeta. Em outros termos: ser um grande leitor de poesia. Porque nem todo mundo nasceu para escrever, não é verdade? Uns nascem para ser médicos, outros músicos, engenheiros, futebolistas, administradores, dentistas, o escambau. 

Nem todo mundo precisa ser Poeta. Mas todo mundo pode ser um Grande Leitor de Poesia. No momento de ler um poema de Maiakóvski, cada um de nós vive alguns minutos de ser Maiakóvski. E isto não tem preço.





quinta-feira, 30 de outubro de 2008

0625) A janela da poesia (20.3.2005)




(Ferreira Gullar)

Ferreira Gullar tem uma definição irretocável para uma das grandes angústias na vida de um poeta. Diz ele: “O grande problema do poeta é convencer a mulher de que, quando está debruçado na janela, fumando, olhando lá pra fora, ele está trabalhando”. 

E não é mesmo? A mulher de um cara como esse não precisa ser fã de Chico Buarque para cantarolar “Vai trabalhar, vagabundo” enquanto espana os móveis. Homem debruçado na janela só pode estar espiando os decotes que passam. E eu vos direi, no entanto, que é em momentos como esse que brotam as grandes idéias os grandes versos, as grandes inspirações.

O trabalho criativo é imprevisível. Maiakóvski, no seu essencial livrinho Como fazer versos, afirma, justificando seu hábito de anotar todas as idéias que lhe vêm à mente: 

"Gasto todo o meu tempo com estas preparações. Passo assim 10 a 18 horas por dia e estou quase sempre murmurando algo. É com essa concentração que se explica a famigerada distração dos poetas. O trabalho com estas preparações vai acompanhado em mim de semelhante tensão que em noventa por centro dos casos sei até o lugar em que, no decorrer de quinze anos de trabalho, vieram-me e receberam sua forma definitiva tais ou quais rimas, aliterações, imagens, etc.”

É exatamente assim que sucede comigo, e com muitos outros, tenho certeza. Comparando com o mundo informático, eu diria que a poesia é uma janela do Windows que nunca se desliga; fica minimizada num cantinho da mente, mas pronta para ser aberta, e o trabalho retomado, ao menor estímulo. Mesmo quando estamos conversando, trabalhando noutra coisa, comendo, namorando, aquela janelinha está ativada e pronta. 

Daí a famosa frase de Fernando Pessoa: “E quando estou pensando, estou sempre pensando noutra coisa”. A outra coisa é a janela da poesia.

Não devemos achar que o trabalho criativo é puramente mental, porque idéias que não são escritas são arquivos que não são salvos: basta o computador ser desligado (ou seja, uma noite de sono) para que tudo se evapore. Não adianta ter uma idéia genial: é preciso colocá-la no papel, brigar com ela, batalhar, cortar, reescrever, dar polimento, e isto às vezes leva anos. 

Tem poemas que eu comecei a escrever há mais de vinte anos, ainda não prestam, mas podem prestar um dia. Idéias novas surgem nos momentos mais inesperados. E o poeta (a mente criativa em geral; pode ser também um matemático, um cientista) é como um pára-raios. Tem que estar em alerta permanente, vigília permanente, porque nunca sabe quando os raios vão cair, só sabe que eles acabam caindo. 

Um poeta debruçado na janela é um pára-raios. Ele está trabalhando, sim, madame. Um pára-raios não trabalha apenas no momento em que recebe uma descarga, assim como um policial não trabalha apenas no momento em que evita um crime, ou um bombeiro não trabalha apenas quando escorrega por aquele poste vertical e entra no caminhão. Um pára-raios trabalha 24 horas por dia, e acha pouco.