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quinta-feira, 23 de junho de 2011

2590) Drummond: Sweet Home (23.6.2011)



(Drummond, por Thiago Neumman)

Carlos Drummond era um personagem contraditório e surpreendente, meio caretão por um lado, meio devasso por outro. Visto do Norte-por-Noroeste era um burocrata sério, visto do Sul-Sudoeste era um garoto travesso e chapliniano. Tinha duas colheres de cristão, e uma e meia de comunista. Foi moderno quando ser moderno era ser exposto à galhofa, e retornou ao soneto quando ser moderno era uma garantia de paparicação. Era um funcionário público acomodado? Era um desconstrutor de idéias herdadas sem muita reflexão? Gostava do quê? De transgressões molecas ou de aconchego familiar?

É nessa refração de possibilidades que fica mais interessante olhar “Sweet Home”, poemazinho do livro Alguma Poesia de 1930. É um texto que lê diferente para olhos diferentes, descrevendo a tranquilidade e o conforto doméstico que os poetas de vários idiomas atribuem aos burgueses:

“Quebra luz, aconchego. / Teu braço morno me envolvendo. / a fumaça do meu cachimbo subindo. // Como estou bem nesta poltrona de humorista inglês”. Esta última frase é deliciosa, sugerida pelo cachimbo (que Drummond não fumava – estarei errado?). E que lembra o soneto de Mário Quintana, “Que bom ficar”, em A rua dos cataventos (1940), que se encerra com este terceto saboroso: “Sair assim (tudo esquecer talvez!) / e ir andando, pela névoa lenta, / com a displicência de um fantasma inglês...”

Esses inglesismo, esse burguesismo tão começo-de-século, é satirizado por Drummond no contexto de um mundo que vai ficando moderno e, quem sabe, ameaçando algum sossego antigo: “O jornal conta história, mentiras… / Ora, afinal, a vida é um bruto romance / e nós vivemos folhetins sem o saber”. O burguês quer aventuras, mas as prefere no folhetim semanal que lhe vem por baixo da porta, pelas mãos do jornaleiro. O burguês quer aventura sem perigo, emoção sob controle, novidades que já conheça. O que ele gosta, gosta mesmo, vem em seguida: “Mas surge o imenso chá com torradas, / chá de minha burguesia contente. / Ó gozo de minha poltrona! / Ó doçura de folhetim! / Ó bocejo de felicidade!”.

Todo este poema é como uma daquelas imagens em que podemos ver duas coisas diferentes por uma simples mudança na maneira de olhar. O mesmo desenho mostra uma mulher ao espelho ou uma caveira. Outro mostra uma jovem ou uma velha; etc. O poema de Drummond mostra para mim o tédio insuportável, o ramerrão de uma vidinha sem graça, e ao mesmo tempo a felicidade e o aconchego de uma vida sem sobressaltos, sem desconfortos, sem questionamentos, a vida que o mundo burguês promete (e em muitos casos garante) a quem jogar o seu jogo. Não sei se estou sendo muito ousado em supor que Drummond, tanto quanto eu, via essa vidinha com menosprezo e com nostalgia. Tudo em seu intelecto a repudiava por medíocre, mas algo em sua estrutura mental se conformava a ela como os humoristas ingleses se conformavam ao imperialismo, ao colonialismo e ao fardo do homem branco.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

1088) Mario Quintana (10.9.2006)




Nas comemorações do centenário do poeta gaúcho, a Nova Aguilar lançou sua Poesia Completa num só volume, coordenado por Tânia Franco Carvalhal. Comprei-o numa promoção pela pechincha de R$ 105,00. Como são quinze livros num só, saiu cada um por R$ 7,00, com a vantagem adicional da portabilidade, e da circunstância de que eu não tinha nenhum livro de Quintana, grave omissão da qual me penitencio em público.

Quintana é um poeta múltiplo e simples, capaz de sonetos impecáveis, divertidos epigramas em prosa, versos líricos de grande intensidade emotiva (através da contenção, e não do derramamento), tiradas filosóficas cheias de originalidade e profundeza. A onda do poeminha curto, tão cultivada pelos autores jovens nos anos 1970-80, foi em grande parte atribuída à influência de Oswald de Andrade, Paulo Leminski, etc. Não acho que se deveria omitir Quintana desse panteão. 

Sua poesia era menos polêmica, era discreta; mas era onipresente. Todo mundo lia e entendia Quintana, todo mundo percebia por trás de sua aparente ingenuidade infantil e do seu humorismo de ocasião uma mente complexa e sutil. Quintana tinha a perigosa ironia dos delicados, dos que se sabem incapazes de dar um soco em quem quer que seja e precisam cultivar outros métodos. Era incapaz de matar uma mosca, mas se uma mosca o importunasse ele certamente saberia afugentá-la com um simples adjetivo.

Ah, quem me dera, ante o espetáculo do mundo, 
sem mais hesitações e sem maior fadiga, 
esse instantâneo olhar, incisivo e profundo, 
com que julga a mulher as ‘toilettes’ da amiga! 

Pois era exatamente isto que ele tinha. Tinha o olho ingênuo e sábio de um Marc Chagall. Ou, mais brasileiramente, o olho e a mão de cartunistas como Appe ou Borjalo. A mesma economia de meios, a mesma precisão cirúrgica no traço, a mesma percepção instintiva dos pequenos absurdos poéticos do cotidiano.

Seus livros eram recolhas heterogêneas de versos, poemas em prosa, anotações fugidias, piadas, memórias. Não tinham jeito de livro de poemas; pareciam ser a transcrição “ipsis litteris” de seus cadernos de anotações (e um deles, justamente, chama-se “Caderno H”). 

Quintana era um desses ensimesmados que não têm medo da obviedade, porque mesmo quando escrevem um lugar-comum dão-nos a impressão de que chegaram a ele por esforço próprio, por uma lenta encadeação de idéias, como um sujeito que inventasse uma nova maneira de demonstrar que dois mais dois são quatro. “Se alguém acha que estás escrevendo muito bem”, diz ele, “desconfia. O crime perfeito não deixa vestígios”.

Há uma pequena fábula de Quintana em que um mendigo acha no lixo a lâmpada de Aladim, mas acaba preferindo levar consigo uma chaleira sem tampa, que lhe parece mais útil. Há um poema em que ele homenageia Ray Bradbury dizendo ser ele “a nossa segunda vovozinha velha / que nos vai desfiando suas histórias à beira do abismo”. Tudo que ele escreve parece um auto-retrato dele e um retrato nosso.