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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

3415) A Ordem e o Caos (6.2.2014)




As grandes batalhas cósmicas nos romances de Fantasia eram batalhas morais entre o Bem e o Mal.  Variam os sistemas éticos, mas a guerra é essa.  

Aqui, torna-se mais claro um equívoco que muitos moralistas, muitos autores e muitos leitores praticavam, e ainda praticam.  Dizem eles que a luta do Cosmos é para o Bem destruir o Mal.  Está errado.  O Mal faz parte da estrutura atômica e molecular do Bem. Deve se submeter ao Bem, e não a si próprio.  

O Bem não precisa destruir o Mal, aliás nenhum dos dois pode destruir o outro.  Eles têm um equilíbrio como o de cavaleiro e cavalo. O Bem doma o Mal.

Já outras fantasias mostram a batalha entre a Ordem e o Caos. Um trecho do Universo onde exista apenas Ordem (se isso é fisicamente possível!) é um espaço morto, e onde houver apenas Caos, idem idem.  

O mundo é um equilíbrio dinâmico constante entre milhões de sistemas físicos, químicos, biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, etc., interagindo, competindo, cooperando e se influenciando sem parar.  Um sistema estagnado, onde nada acontece, precisa de uma injeção de Caos para voltar à vida.  Um sistema totalmente aleatório, browniano, precisa produzir padrões de estabilidade e de Ordem, para se alimentar deles, captar sua energia, e reinvesti-la de novo.  É assim que as formas físicas crescem.

O Senhor dos Anéis é um misto dos dois. Uma história cheia de discussões morais, claro, onde J. R. R. Tolkien, embora não faça uma alegoria religiosa tão explícita quanto a que seu amigo C. S. Lewis fez na série Crônicas de Narnia, conta uma história de fundo moral. 

Tolkien dá a ela um interessante volteio narrativo: para destruir o símbolo do Mal, é preciso ir de encontro ao Mal, ir à borda do motor ígneo de sua energia, seu núcleo radioativo, a montanha-vulcão de Mordor.  É preciso ir ao coração das trevas. 

Essa luta é também uma luta entre a Ordem e o Caos. De posse do Anel de Poder, Sauron, o Homogêneo, transformará o Universo num “continuum” indiferenciado multidimensional com um buraco-negro no centro. Ele e seu Anel sugarão todo o Poder para esse centro-vórtice onde tudo colapsa em ausência, estendendo atrás de si um manto de entropia exponencialmente maior. 

O Mal é uma monocultura hegemônica. O Bem é feito de pequenas coisas sem objetivos maiores e com necessidades específicas. Hobbits, anões, ents, humanos, elfos, gigantes, cavalos, elefantes, árvores, frutas, as águas dos rios e assim por diante.  

O Bem é a cosmodiversidade. O Mal (Sauron) parece desejar uma Singularidade de pixels cinzentos, parece desejar uma Ordem superior, mas acaba criando o Caos por superconcentração.






quinta-feira, 28 de novembro de 2013

3355) "O Pescador de Ilusões" (28.11.2013)





Revi este filme antigo de Terry Gilliam, que talvez seja o filme menos “Terry Gilliam” de toda sua obra. O diretor é conhecido pelas suas superproduções com direção de arte fantástica e barroca, enredos mirabolantes, verdadeiras “extravaganzas” como Brazil, o Filme ou As aventuras do Barão de Munchausen. Sua obra tem um pé na ficção científica, outro no gótico, e elastecendo a metáfora posso dizer que tem outros pés espalhados pelo steampunk, o surrealismo, o macabro, a magia-de-palco do século 19. Gilliam surgiu no grupo cômico Monty Python, mas embora seus filmes compartilhem com o MP um tom burlesco, satírico, exagerado, não são filmes de humor. Seus filmes não são engraçados. Pelo contrário – são cheios de situações que têm potencial cômico mas uma poderosa força gravitacional os arrasta o tempo inteiro para o território da angústia e do pesadelo.

The Fisher King conta a história de dois homens cujas vidas foram destruídas, e depois ligadas, por uma brincadeira de mau gosto de um deles. Jack Lucas (Jeff Bridges) faz um locutor de rádio que um dia, para parecer cínico e “blasé”, sugere a um ouvinte (com quem conversa pelo telefone, durante a transmissão) que vá a um bar de “yuppies” e fuzile todo mundo. Mal sabe ele que o sujeito vai fazer isso mesmo. A chacina arruína a carreira radiofônica de Jack.

Anos depois, ele, numa tremenda pindaíba, acaba conhecendo um morador de rua, Parry (Robin Williams) e descobre que Parry caiu na miséria depois que perdeu a esposa, morta justamente na chacina que ele involuntariamente ordenou. Daí em diante, começa uma história fantasiosa, tortuosa (o roteiro é cheio de três passos para a frente e dois para trás), às vezes sentimentalóide, mas geralmente simpática, em que esses dois sujeitos tentam reequilibrar suas vidas.

O “rei pescador” do título é, na lenda do Rei Artur, um rei ferido que busca sem sucesso o Santo Graal e acaba encontrando-o por acaso quando diz estar com sede e um maluco qualquer lhe oferece água numa taça. O maluco não sabia que taça era aquela: queria apenas dar a água. O Graal é a água, a empatia, a caridade, o desejo de ajudar alguém sem pedir nada em troca. É o contrário do gesto cruel de Jack, que deflagra a chacina (uma crueldade gratuita tão comum nos “humoristas” de hoje e nas redes sociais). O filme contrapõe estes dois gestos, o impulso da maldade-pela-maldade, só para se divertir, e o impulso da solidariedade desinteressada. São dois impulsos igualmente fortes no ser humano, e eu diria que a luta entre os dois é pelo menos tão importante quanto a disputa de duas facções políticas por cargos administrativos.


domingo, 24 de fevereiro de 2013

3118) O Convertido (24.2.2013)






Todos nós conhecemos o tipo. Pode ser o sujeito farrista e raparigueiro que um belo dia descobre a Bíblia e o culto de domingo à noite.  Pode ser o rapaz de boa família burguesa que a certa altura descobre os livros de Marx e Che Guevara e fica rodando pela cidade atrás de companheiros para fundar uma célula subversiva e tomar lições de tiro ao alvo. Pode ser o pai de família discreto e moralista que na meia-idade começa a sair com uns rapazes exuberantes e em breve separa da mulher, vai morar com um deles, e passa a soltar a franga como quem quer tirar décadas de atraso. Pode ser o oposicionista implacável que sempre castigou com seu látego verbal todos os sucessivos governos mas de repente deixa-se cooptar por um deles e agora vive bordando elogios e mensagens de otimismo à mera menção do nome do caudilho da vez.  Pode ser o beberrão incontinente que depois de anos de vexame descobre uma terapia qualquer, cura-se e passa ser o arauto da temperança e da sobriedade, pra quem até um carro a álcool é um passaporte para o inferno.

Os exemplos são tantos que acabam convergindo todos para uma coisa só. O Convertido é simplesmente um radical que só sabe ser radical; sente tal volúpia na própria radicalidade que pouco importa em nome de quem ou do quê ela esteja sendo praticada. Depois que esgota um lado do problema, ele arregaça as mangas e começa a se dedicar ao outro.

A questão mais interessante é, para mim, a facilidade com que o cara se converte, a absoluta sinceridade com que o faz, e a felicidade esfuziante que experimenta com essa mudança. Na verdade, o Convertido é um sujeito que nunca havia se dado o trabalho de prestar atenção no lado oposto. Fez sua primeira escolha muito cedo na vida, ou talvez seja melhor dizer que a escolha foi feita por ele, e ele a aceitou, porque, como todo jovem, estava pensando noutra coisa. O tempo o fez roer essa outra coisa até os ossos. Instalou-se um vazio nele, e em volta dele.  

Um belo dia, sucedeu algo que o fez pela primeira vez prestar atenção naquelas pessoas a quem detestava ou desprezava, com quem se recusava a dialogar, e cujos argumentos desconhecia. Esses novos argumentos preencheram aquele vazio, fizeram-no abrir os olhos para um milhão de coisas novas que o invadiram por um flanco desguarnecido. A ficha caiu. Aliás, era um tal cair de fichas uma atrás da outra que o sujeito acabou se convertendo justamente àquelas idéias que se esforçara para ignorar, com as quais nunca debatera, aquelas idéias que nunca examinara, aquelas idéias para as quais ele sempre fechara os olhos e os ouvidos – vai ver porque sabia que era daquilo mesmo que estava precisando.



sábado, 12 de novembro de 2011

2712) Pior do que o mal (12.11.2011)




Na cozinha de um restaurante, um sujeito não conserta direito a mangueira de um bujão de gás, que dias depois explode, matando algumas pessoas. Na estrada, um motorista se distrai tentando trocar o CD que estava ouvindo, bate de frente com outro carro, e morrem duas famílias. Num campo de batalha, uma ordem pelo rádio é mal compreendida e um batalhão se desloca para leste ao invés de oeste, sendo dizimado pela artilharia inimiga. Dois homens fazem uma piada de mau gosto na porta de um bar; um transeunte pensa que estão rindo dele e inicia uma briga que, muitos tiros depois, deixa alguns mortos.

Goethe afirmou certa vez que os mal-entendidos e as negligências causam mais danos ao mundo do que a maldade humana. A gente tem uma tendência a ver o Mal como um jorro íntegro e maciço de ruindade, algo que existe apenas para ofender, matar, destruir, corromper, vilificar. O Mal é uma força que tem a intenção, o orgulho e a vaidade de ser má. Faz a maldade com a dedicação circunspecta de quem cumpre uma missão inadiável, com a euforia de quem está fazendo o que mais gosta, com a brutalidade de quem só tem uma ação que justifique sua existência e precisa cumpri-la integralmente o mais depressa possível.

Este será o Mal grandioso, o Mal montanha, o Mal cordilheira. Mas pelo que se vê existe uma forma mais minúscula e mais insidiosa, uma espécie de varejo do Mal, em que nada é grandioso, nem mesmo as intenções, mas dá passagem ao Mal de qualquer forma (o Mal compreendido aqui como a fonte da infelicidade e da destruição humana). Há um poema de Brecht que diz: “Escapei dos tigres, alimentei os percevejos”. Esse Mal-percevejo habita nosso cotidiano. Mesmo quando escapamos aos tanques de guerra, aos genocídios étnicos, aos serial killers, existe uma maldadezinha mixuruca e tacanha destinada a empobrecer nossa vida, roê-la pelas beiradas, como uma cárie capaz de deteriorar tudo em pequena escala.

Pior, muitas vezes, do que o Mal grandioso, é o Mal insetóide, minúsculo, fervilhante, que se exprime pelo mal-entendido, pela má vontade, pela coisa mal feita; pelo erro de cálculo, pela imprevidência, pelo descuido, pelo esquecimento relapso, pela desatenção, pela omissão, pelo vacilo, pela bobeira. Razão tinham os primitivos que acreditavam na existência de um Demônio Chefe mas também na existência de mil demoniozinhos menores, que quebram a telha, deixam o gás aberto, furam o pneu, desencapam o fio, travam o fecho, e produzem com certo esforço na mente humana aquele “branco” de dois ou três segundos de duração que é tudo de que o Mal precisa para fazer explodir sua catástrofe repentina.

sábado, 7 de agosto de 2010

2314) O certo e o errado (7.8.2010)



O fato de que “2 + 2 = 4” exprime a tendência da Natureza a apresentar padrões e relações invariáveis. As quantidades são objetivas; o número é subjetivo. É a mente humana quem cria esse signo em comum entre dois pássaros, duas palavras ou dois dias. O número é uma abstração para ordenar coisas concretas. Quando começamos a conceber níveis mais rarefeitos, como a raiz de menos 2, é que entramos no terreno dos números que não pertencem à Natureza, mas apenas à Cultura. Números que já são mera linguagem, não exprimem coisas. É como a passagem da pintura figurativa para a pintura abstrata.

Já o Bem e o Mal, o Certo e o Errado... Jorge Luís Borges contou um episódio que ilustra bem este conceitos tão elusivos. Num clube chique de Buenos Aires um homem, numa noite de jogatina, perdeu tudo quanto tinha. No dia seguinte, recusou-se a pagar a dívida, alegando que não podia jogar a família na miséria por causa de uma noite de loucura. Borges comenta com sarcasmo a reação horrorizada dos outros cavalheiros portenhos, que passaram a tratar esse indivíduo “como se fosse um leproso”. Para eles, a palavra dada e o compromisso assumido num contexto entre “gentlemen” eram mais importantes do que o destino da pobre família, porque “não observar as dívidas de honra seria cair no anarquismo”.

Existe uma certa lógica no comportamento desses cavalheiros, se quisermos levar em conta apenas as relações matemáticas envolvidas na questão. Um jogo envolve sempre uma disputa entre habilidades matemáticas em que, como se trata de um processo quantitativo, é sempre possível refinar os números até alcançar um desempate. Se os amigos de Borges jogavam roleta, estão disputando a capacidade de prever o comportamento de um elemento aleatório. Se jogavam baralho, estão disputando quem é capaz de realizar combinações mais bem sucedidas com elementos (as cartas) recebidos aleatoriamente. A fascinação matemática que tais atividades despertam em pessoas com esse tipo de mentalidade é enorme. Tão enorme que em muitos momentos deixam em segundo plano coisa como família, filhos, posses, etc.

O Bem e o Mal não são leis da natureza, são construções artificiais inventadas pelos seres humanos. Mas acabaram se revelando úteis, tão úteis quanto os números. O Bem e o Mal não existem num mundo sem seres humanos. Fomos nós que criamos esses conceitos, como criamos os conceitos de Norte e Sul como direções. (Eles existiam apenas como polos magnéticos da Terra; usá-los para orientar-se é criação humana, é Cultura).

O que é mais importante, honrar uma dívida de jogo e mandar a própria família para a miséria, ou dizer “não pago, e pronto”? A resposta a um problema como este define duas formas de cultura bem diferentes. Não chegarei ao ponto de dizer que uma está certa e a outra errada, porque se aderirmos cegamente a qualquer uma das duas vamos ter problemas. Mas são um Norte e um Sul, para quem quiser ver.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

2038) O excesso e a sabedoria (19.9.2009)





(ilustração de William Blake)

No espaço de poucos dias esbarrei em duas frases que, por vias transversas, diziam aproximadamente a mesma coisa. 

Uma delas, de Abraham Lincoln, era citada de passagem num artigo e dizia que “uma pessoa sem vícios também é, em geral, uma pessoa de muito poucas virtudes”. 

A outra, citada por Affonso Romano de Sant’Anna numa coluna no jornal Rascunho, é do escritor alemão Ludwig Borne: “Os bons e os maus escritores têm todas as coisas em comum. O mau se encontra inteiramente no bom, este último possui algo a mais. O bom segue o mesmo caminho que o mau, mas ele vai um pouco mais longe”.

Não é muito raro a gente ler um livro de um autor até então desconhecido, gostar, mas ficar com uma certa insatisfação. O livro é legal, o cara escreve bem, a história é interessantezinha, não há nenhum defeito evidente, mas... Falta alguma coisa. Já me ocorreu ler um livro assim, fechá-lo, ficar pensando, e concluir: “Falta grandeza”. 

É uma palavra meio bombástica, mas a sensação é essa. Falta grandeza de vistas, grandeza de espírito e de horizontes. Não estou me referindo a romances épicos com milhares de figurantes. 

O Processo, de Kafka, tem grandeza: a grandeza de imaginar o mundo absurdo que funciona sob regras impecavelmente absurdas. 

Dom Casmurro de Machado tem grandeza: uma grandeza “para dentro”, de contar uma história minimalista, com personagens que se contam nos dedos de uma mão, mas ir a profundezas onde poucos tinham ido antes e poucos foram depois.

Ludwig Borne vê o talento literário como uma medida da entrega total do escritor ao que está escrevendo. Não é artesanato, minúcia, exatidão. É excesso, dedicação, transbordamento de tudo que o escritor é e tem, derramando-se sobre o ato de escrever. 

Como o que cada pessoa é e tem é, necessariamente, único e irrepetível, não há perigo de que suas obras se pareçam. E quanto maior essa entrega e esse transbordamento, maior a originalidade e o caráter pessoal da cada obra, visto que cada autor é único.

Do modo como o vejo, esse conselho de Borne não significa que todo mundo tenha que escrever de maneira barroca ou exagerada como Rabelais ou Guimarães Rosa. Cada pessoa tem seu perfil, cada escritor tem sua combinação única de qualidades. Mas não se torna um grande escritor economizando-as, e sim colocando todas elas a serviço de cada frase que põe no papel, mobilizando suas reservas emocionais e intelectuais (pois uma complementa a outra), seus recursos de técnica aprendida e assimilada, sua memória cultural. Sua grandeza, enfim. 

Grandeza que não se mede em escala de amplitude, mas de intensidade, de verdade vivida a fundo. William Blake afirmou que “o caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria”. O caminho é doloroso, e o palácio às vezes nem é tão grande assim, nem palácio é: chega mesmo a ser um quarto-e-sala, mas é um quarto-e-sala pessoal, cuja chave só um indivíduo tem, e que sem sua chegada permaneceria fechado para sempre.




terça-feira, 25 de agosto de 2009

1218) A ética dos descrentes (7.2.2007)




O que pensadores religiosos de hoje questionam (como no livro Em que crêem os que não crêem, de Umberto Eco e Carlo Martini) é a dificuldade de estabelecer valores universais fundados na mera experiência humana. 

Ciência e Religião têm, entre tantas coisas em comum, a busca pelo Absoluto. A exigência de um ponto de referência inquestionável, que servisse de referência para todos os outros valores, foi, ali pelo século 17, um paradigma comum à ciência e à religião. 

Monoteísmo e física newtoniana têm um perfil muito semelhante. Existe um Centro. Existe um valor fixo, arbitrariamente estabelecido pela fé científica ou pela fé religiosa.

Quando Einstein estilhaçou o conceito físico do tempo absoluto, espaço absoluto, e todo o resto, criou um vácuo a mais entre ciência e religião. 

A física de hoje não reconhece o Absoluto, reconhece apenas “constantes”, certas grandezas inexplicáveis e inevitáveis na Natureza (a velocidade da luz, a massa do elétron, etc.). 

Essas constantes, cujo valor matemático precisa sempre ser levado em conta, são as vigas fundamentais da Natureza; todo o resto muda, elas não. São o que a Ciência de hoje tem de mais parecido com o antigo senso do Absoluto.

Ecos da mentalidade monoteísta ainda permanecem. A Teoria do Big Bang, segundo a qual o Universo estava todo concentrado num ponto, o qual explodiu, dando origem às atuais galáxias, exprime essa necessidade básica do pensamento monoteísta: a de que a Realidade tem um Centro, e pode ser visualizada como um círculo ou uma esfera. 

Quem acredita no Absoluto tem, quase sempre, uma visão geométrica das coisas. Seu Absoluto geralmente é regido por algum tipo de simetria. Círculo e esfera são formas básicas, intuitivamente atrativas; mas nada nos garante que o Universo não tem a forma, por exemplo, de uma folha de papel pautado ou de uma ampulheta.

Cosmologia à parte, esta necessidade de um Centro se dá também no plano moral. Mesmo quando julgamos as ações humanas tendo em conta que “cada caso é um caso”, essas avaliações não podem partir do zero. 

Os pensadores laicos, que não crêem no Absoluto metafísico, tentam colocar em seu lugar algumas constantes humanas de comportamento e de moral, às quais possam se apegar para elaborar leis e códigos. 

Não se pode reinventar a Ética, a Moral e o Direito a cada novo problema que surge, mas podem-se empregar constantes que não sejam mutuamente contraditórias. Verdades que se apóiam como aqueles muros onde as pedras não são unidas por argamassa, mas se fixam umas às outras devido ao peso de cada uma.

É possível criar uma Moral sem Deus, assim como já foi possível ter um Deus e atribuir-lhe uma Moral sanguinária ou colonialista (como no tempo em que, para a Igreja, os índios da América não tinham alma, e podiam ser mortos impunemente). 

As “constantes” morais dos não-cristãos refletem a sociedade que as cria. O teste de sua validade é o que acontece com a sociedade que as adota.






sábado, 22 de agosto de 2009

1212) A crença de quem não crê (31.1.2007)



A Editora Record publicou em 1999 um debate, travado nas páginas da revista “Liberal”, entre intelectuais italianos sobre a questão da fé e da ética entre religiosos e leigos. O principal debate foi travado entre o escritor Umberto Eco e o Cardeal Carlo Maria Martini, sendo que na segunda parte do livro aparecem contribuições de filósofos, jornalistas e políticos. Tanto Eco quanto Martini defendem com erudição e clareza seus pontos de vista. Entre os demais, gostei dos argumentos do jornalista Eugenio Scalfari e do ex-secretário do Partido Socialista, Claudio Martelli. O livro tem como título Em que crêem os que não crêem?.

A principal diferença entre o pensamento religioso e o pensamento laico é que o primeiro exprime a necessidade de um Centro geométrico, e o segundo se contenta com um ambiente conceitual sem forma definida. As religiões monoteístas (cristianismo, Islã, judaísmo) exprimem esta concentração de valor num único ponto de referência dogmático, inquestionável, e neste sentido assemelham-se aos regimes políticos centralizadores, autocráticos (quando não são explicitamente autoritários e ditatoriais). As religiões politeístas parecem certas democracias parlamentares, onde a toda hora quem está mandando é um grupo diferente, de acordo com as flutuações de poder e de influência.

Passamos de um estado primitivo onde havia um grande número de deuses para a fase do Cristianismo em que tudo se concentrou num Deus uno (ou trino, nessas ambigüidades geométricas que fazem a alegria dos metafísicos). Com o Iluminismo, a Revolução Francesa, a separação entre igreja e Estado, e assim por diante, foi quebrado esse centralismo espiritual e retornamos a uma multiplicidade de valores que agora não mais se exprime por uma proliferação de divindades antropomórficas, mas por uma proliferação de crenças não-espirituais.

É esta proliferação que é questionada pelo Cardeal Martini em seu debate com Eco: essas pessoas que não crêem mais em Deus têm valores morais e éticos, mas de onde lhes vêm estes valores? Eles não podem ser totalmente relativos ao momento, senão teríamos que admitir que em tais e tais circunstâncias seria legítimo agredir, saquear, matar e fazer mal a outras pessoas. O debate entre os pensadores italianos retoma a frase crucial de Dostoiévski: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Para os monoteístas, é preciso que haja um Centro, um Absoluto, um dedo que risca o limite entre o que podemos e o que não podemos fazer, ou, mais precisamente, uma escala de valores que vai desde o absolutamente obrigatório ao absolutamente proibido, com todos os estágios intermédios entre um e outro. E isto só pode vir de Deus.

A principal crítica feita pelos não-crentes é que, não existindo um Deus que “inspire” os Papas e outros líderes, as escolhas morais e éticas destes são subjetivas, historicamente condicionadas, politicamente interessadas – tanto quanto as dos cientistas ateus.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

1082) Húbris (3.9.2006)


(Aristóteles)

Volta e meia a gente encontra por aí a palavra “húbris” (substantivo masculino, mesma forma no singular e no plural), principalmente em análises de tragédias teatrais, ou de acontecimentos políticos. O sentido moderno de “húbris” é arrogância, excesso de auto-confiança, desprezo pelos demais, que leva o indivíduo a auto-glorificar-se e a humilhar os derrotados. Nas tragédias clássicas, húbris é aquela pose de superioridade orgulhosa que alguém ostenta quando está “por cima”, e que, por obra e graça do dramaturgo, será devidamente castigada com as tragédias e catástrofes do terceiro ato.

Pessoas cujo sucesso lhes sobe à cabeça e passam a achar-se acima do Bem e do Mal estão acometidas de húbris. Países que ganham uma guerra e impõem castigos humilhantes aos povos vencidos estão indo pelo mesmo caminho. Políticos que se deslumbram com uma posição de Poder e acham que o Poder lhes pertence passam muitas vezes a ser exemplos vivos de húbris, perseguindo adversários, metendo a mão na grana de forma acintosa, adotando uma pose imperial e tratando todo mundo a pontapés.

Aristóteles assim definiu o conceito de húbris: “Húbris consiste em dizeres ou fazeres coisas que causam vergonha à tua vítima, não porque algo possa vir a te acontecer, nem porque algo te aconteceu, mas apenas para tua própria satisfação. Húbris não é um acerto de contas por injúrias passadas: a isto chama-se vingança. Quanto ao prazer envolvido na prática de húbris, sua razão é esta: os indivíduos pensam que tratar mal os demais aumenta a sua própria superioridade”.

Pois é, eu gostaria de ver Aristóteles, vestido naquele lençol branco que parece ter sido sua indumentária oficial, sentando-se de binóculo em punho na Tribuna de Honra do Estádio (por exemplo) Santiago Bernabeu, para assistir à exibição do Real Madrid com seu elenco de galácticos. Jogadores que já ganharam todos os títulos coletivos e todas as honrarias individuais que o futebol pode proporcionar, jogadores de gênio que têm consciência da própria genialidade, que sabem o que fizeram e do que são (ou já foram) capazes, adulados por uma multidão de assessores e empresários, seduzidos pelas beldades da moda. Tudo conspira para que, nessas circunstâncias, eles se reclinem na languidez dos domesticados, e percam a agressividade criativa indispensável para jogar, para pintar, para escrever, para atuar. Uns conseguem. Outros não. C’est la vie.

Aqui no Brasil criamos um conceito tropical e festivo de húbris. Não basta ganhar: é preciso golear, e depois tripudiar sobre o adversário vencido. Vitórias de 1x0 ou 2x1 nos parecem insuficientes para “o melhor futebol do mundo”; só gostamos de 4 pra cima. E depois do placar garantido, é a hora de pedalar, de dar chapéu, de passar a bola por entre as pernas, de trocar 25 ou 30 passes diante do adversário exausto, de fazer embaixadinhas dentro da área. Cuidado. Os deuses do futebol, sentados ao lado de Aristóteles, tudo vêem, e nada esquecem.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

0807) A ética de Dom Quixote (19.10.2005)



(desenho de Picasso)

Dom Quixote é doido. Quanto a isto, parece haver consenso na aldeia da Mancha. Ele acredita em dragões, em gigantes, em feiticeiros tenebrosos capazes de transformar num passe de mágica um exército de guerreiros num rebanho de ovelhas, e vice-versa. Ora, todo mundo sabe que tais coisas não existem. O mundo não é assim, nunca foi assim; e o próprio Dom Quixote nunca viu tais coisas acontecerem em carne-e-osso à sua frente. Ele só encheu a cabeça com essas idéias malucas por causa das novelas de cavalaria que vivia lendo. Neste aspecto, um leitor de agora se identifica plenamente com o pragmatismo dos habitantes da aldeia e de Sancho Pança.

Tem um outro lado do fidalgo, no entanto, que nos deixa incomodados quando começamos a mangar dele. Apesar de visivelmente “de cabeça feita” pelos romances de cavalaria, Dom Quixote expressa uma porção de valores éticos que, em princípio, não têm nada de malucos. Pelo contrário. O seu nível ético é infinitamente superior ao dos indivíduos que o cercam. Ele acredita na Beleza, na Verdade, na Liberdade, na Honra. Ele acha que a função de um homem rico e poderoso (como acredita ser) é proteger a virtude da donzelas, socorrer pessoas em perigo, evitar que os mais fortes pilhem e espoliem os mais fracos, defender os honestos contra os desonestos e os pacíficos contra os violentos.

O choque-de-realidade que Dom Quixote sofre o tempo todo ao longo de suas aventuras não é apenas o de constatar que não existem gigantes, é o de constatar que não existem moças virtuosas ou homens honestos. O mundo inteiro parece mergulhado numa teia de falcatruas, de negócios escusos, de egoísmos. O fidalgo não é apenas um sujeito que quer implantar o mundo da fantasia sobre o mundo da realidade: ele quer implantar o mundo da honra sobre o mundo da lei-de-Gérson, das maracutaias, dos interesses mesquinhos com que se depara a toda hora.

Daí o uso moderno do termo “quixotesco”, que mostra o quanto nossos tempos modernos entendem a essência ética do Dom Quixote. Nunca chamamos “quixotesco” a um sujeito que julga estar contactando magos, avistando elfos ou sendo abduzido por extraterrestres. Quando vemos um cara no meio da rua brigando contra adversários invisíveis, chamamo-lo de maluco, e o remetemos de imediato pra João Ribeiro. Mas chamamos de “quixotesco” um sujeito que tenta viver de acordo com um plano ético elevado demais para caber a maioria das pessoas que vemos aparecendo na TV. Ser quixotesco é enfrentar inimigos poderosos e reais, é travar batalhas perdidas contra conglomerados financeiros ou megacorporações multinacionais, é achar que é possível travar uma guerra-de-um-homem-só contra a mistura de cinismo niilista, resignação apática e cumplicidade esperta que mantém de pé essa Coisa aí. Que Coisa é esta? Ora, meu caro leitor, eu posso estar ficando doido, mas não acho que seja um gigante. Visto daqui, parece mais com um Moinho de Moer Gente.




quinta-feira, 17 de julho de 2008

0448) Deus e o gueto de Varsóvia (26.8.2004)




(a guerra no Gueto de Varsóvia)

Comentei nesta coluna o livro de Zvi Kolitz Yossel Rakover dirige-se a Deus, onde um judeu do gueto de Varsóvia registra seus últimos pensamentos antes de ser morto pelas tropas nazistas. Publicado em Buenos Aires em 1946, o texto curto de Kolitz conheceu uma imensa popularidade. 

A criação do Estado de Israel em 1948 acendeu, principalmente, na Europa, uma imensa discussão sobre o Holocausto e sobre aspectos da cultura e da fé judaica. A edição brasileira (Ed. Perspectiva, São Paulo, 2003) traz o texto original, um longo ensaio de Paul Badde sobre o autor, e um texto de Emmanuel Levina, “Amar mais a Torá que Deus”, de 1955.

No conto de Kolitz, Yossel Rakover está cercado pelos nazistas num sobrado do gueto, combatendo as tropas alemãs com o auxílio de coquetéis Molotov. Ao perceber que só lhe restam algumas horas de vida, ele escreve esse documento, onde pede contas a Deus pelos fatos terríveis que estão acontecendo. E afirma que, por mais que Deus abandone seu povo, ele continuará a amá-Lo, e a amar a sua Lei. É um documento emocionante, onde um indivíduo sozinho, ferido, encurralado, fica de pé e interpela Deus, pedindo-lhe uma explicação por ter abandonado o seu povo.

A história de Rakover me trouxe à memória um conto clássico de ficção científica: “Pois sou um Povo Ciumento” (“For I am a Jealous People”), de Lester del Rey (1954). 

A história se passa no interior dos EUA, quando a Terra está sofrendo uma invasão alienígena. Os invasores são ferozes, impiedosos, destroem tudo. O protagonista é um sujeito profundamente religioso que ajuda a população da cidade a combater, se entrincheirar, bater em retirada quando é preciso. Durante todo o tempo ele se indaga como é possível que Deus, que é tão bondoso, permita algo assim.

A certa altura, ele retorna durante a noite à cidade, que já está ocupada pelos alienígenas. Ele percebe que um grupo deles encaminha-se para a igreja local, e vai atrás. Consegue entrar na igreja às escondidas, e de lá observa espantado que os extraterrestres estão diante do altar, fazendo uma espécie de ritual. E de repente, surge ali uma Luz quase insuportável. 

Transido de horror e de deslumbramento, ele tem a revelação: é Deus que está se manifestando ali. Deus surge e se revela como nunca se havia revelado naquela igreja. E nesse instante ele entende que está acontecendo. Deus existe, sim, mas o Seu povo não somos nós, os terrestres. Deus fêz uma Aliança com aquele povo de outro planeta, e o autorizou a invadir a Terra e nos exterminar.

Não revelarei aqui o final da história (que envolve um desfecho teológico, não militar). Mas para mim existe um parentesco muito próximo entre essa aventura de FC e textos como o de Zvi Kolitz. 

Diante da vitória de uma abominação aparentemente permitida por Deus, muitos deixam de crer em tudo. Outros afirmam que é preciso crer em algo, e crer numa Lei de Deus acima do próprio Deus me parece de uma ousadia comovente.






0447) Yossel Rakover e Deus (25.8.2004)




“Nas ruínas do gueto de Varsóvia encontrou-se, enterrada sob montanhas de pedras calcinadas e restos humanos, uma pequena garrafa. Ela guardava o seguinte testamento, escrito por um judeu chamado Yossel Rakover algumas horas antes do aniquilamento do gueto.” 

Assim começa um dos mais inquietantes documentos literários judeus, Yossel Rakover dirige-se a Deus, publicado em setembro de 1946 no Ídiche Zeitung, diário israelita de Buenos Aires. 

Seu autor, Zvi Kolitz, nasceu em 1919 num vilarejo da Lituânia, de onde fugiu às perseguições anti-semitas em 1937, com a mãe e os irmãos. Vagueou pela Europa durante a Guerra, e depois de 1945 foi para a Argentina, onde participou do movimento pela criação do Estado de Israel, e escreveu este conto.

O texto (SP, Ed. Perspectiva, 2003) é atribuído a um judeu fictício durante a II Guerra: 

“Escrevo estas linhas no gueto de Varsóvia em chamas. A casa em que me encontro é uma das últimas que ainda não queima. Há algumas horas estamos sob um contínuo bombardeio de artilharia...” 

Sabendo que a morte é iminente, Rakover dirige-se a Deus, e pede-lhe contas sobre que está acontecendo. É um documento religioso impressionante, apesar de ser uma história fictícia. Rakover lembra os tormentos sofridos por Jó, no Antigo Testamento, mas afirma: 

“Mas não lhe peço, como Job, para que me esclareça sobre os meus pecados, para dessa forma eu saber por que mereci isso. Porque maiores e melhores do que eu estão firmemente convencidos de que não se trata mais, atualmente, de castigo por faltas cometidas. Aconteceu alguma coisa absolutamente peculiar e isso chama-se ´Hastores Ponim´: Deus velou a Sua face.”

Por que motivo Deus permite que isto aconteça? É uma das perguntas mais antigas do mundo, mas no contexto dos massacres da Europa nazista ela ganhou um novo significado. Rakover não pede piedade, não pede um milagre, não pede pela própria vida. Afirma seu orgulho em pertencer a um povo humilhado e perseguido, e lembra as palavras de um rabino: “Não existe nada mais inteiro do que um coração despedaçado”. 

Ele admite não entender a vontade de Deus, mas afirma: 

“Creio no Deus de Israel, mesmo que ele tenha feito de tudo para que eu não acredite Nele. Creio em Suas leis, mesmo que eu não possa encontrar justificativa para os Seus atos. Eu O amo. Mas amo ainda mais a Sua Torá. Mesmo que eu tenha estado iludido com Ele, continuarei a observar a Sua lei.”

Crer que a lei de Deus está acima de Deus é, para mim, um salto filosófico de primeira grandeza. É crer que existe uma Ordem superior no universo, e que, se Deus às vezes é insondável e ininteligível, essa Ordem não o é. E é só por acreditar nela que Rakover, em seu desespero final, recusa-se a afastar-se de Deus: 

“Isto não te valerá de nada! Fizeste de tudo para fazer-me duvidar de Ti, para que eu não creia em Ti. Mas morro exatamente como vivi, com uma fé inquebrantável.”








terça-feira, 24 de junho de 2008

424) Che Guevara e a arte de matar (29.7.2004)


(capa de Nadir, de Ricardo Soares)

Uma das maiores contradições de quem quer fazer o Bem é a aparente impossibilidade de fazer um Bem que seja puro, sem nenhuma dosezinha de Mal. Parece que não existe esta fórmula. Um ditado antigo diz: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra.” Um jagunço sertanejo costumava dizer: “Eu detesto brigar. Quando um cara me chama pra briga eu mato ele bem rapidinho, só pra não ter que brigar.” Tudo isto me vem à mente ao ver o Diário da Motocicleta de Walter Salles e pensar no que terá transformado aquele rapaz idealista do filme no Che Guevara que liderou guerras de guerrilhas em Cuba e outros países, e que certamente matou muita gente pelo meio o caminho.

Será que não tem outro jeito? Será que contra um inimigo armado é obrigatório usar armas, será que contra um inimigo desleal é preciso ser desleal, será que contra um inimigo que não recua diante de nenhuma sordidez é preciso não recuar também diante de nenhuma sordidez? Só assim, em igualdade de condições, teremos alguma chance de derrotá-lo? Lembro de uma frase de Sartre em algum do volumes de Situations (cito de memória): “Quando enfrentamos um inimigo numa luta de vida ou morte, quando uma barreira de fogo o separa de nós, é preciso considerá-lo como a própria encarnação do Mal, senão não teremos chance de derrotá-lo”. Essa retórica guerrilheira foi largamente capitalizada pela direita, principalmente nos EUA, onde ser marxista era sinônimo de ser comedor-de-criancinhas.

Esta ética cruel, no entanto, não tem nada a ver com esquerda ou direita, com capitalismo ou comunismo. A guerra tem uma ética (ou anti-ética) própria que prescinde de ideologias. Todo ato intencional de matar é um assassinato, não importa se se trata de legítima defesa, de um carrasco executando um condenado em nome do Estado, ou de um soldado matando um inimigo em nome da Liberdade e da Democracia. Quem vai à guerra é para matar. É a ética do crime, a ética da briga de rua. Recordo a descrição impecável de Ricardo Soares em seu romance Nadir (Campina Grande, 1975): “Pirajibe sempre imaginara que um dia haveria de enfrentar o João Cláudio. Seu último sucesso, numa briga, remontava aos quinze anos. Depois é que aprendeu, em teoria, que, ao enfrentar um homem, deveria colocar o medo de matar ou de ferir gravemente de lado. Brigar pra valer. Nada de avaliar conseqüências, pois isto, já sendo um medo, derrotá-lo-ia de saída. Foi o que procurou pensar quando enfrentou João Cláudio. Sabia que ele era ágil, feroz e criminoso. Fez-se criminoso, feroz e ágil.”

Será mesmo preciso igualar-se ao inimigo, para ter alguma chance de derrotá-lo? Será que só é possível chegar a Poder e manter o Poder fazendo o jogo sujo do Poder? Brecht dizia que para mudar o mundo a gente não devia recusar-se nem mesmo a se aliar ao carrasco. O problema é que tem cada vez mais gente se aliando aos carrascos, e o mundo não muda nem a pau.

sábado, 15 de março de 2008

0258) Da Terra Média ao Sertão (17.1.2004)




(ilustrações: Poty / J. R. R. Tolkien)

A trilogia O Senhor dos Anéis foi trazida para o cinema por Peter Jackson com a fidelidade possível quando se trata se adaptar um livro tão imenso – na edição de bolso que possuo, ele ultrapassa as 1.500 páginas.

A comunidade internacional de fãs de J. R. R. Tolkien teve um papel importante nisto, pressionando diretor, roteiristas e produtores, e impedindo as catástrofes dramatúrgicas típicas das adaptações dos clássicos feitas em Hollywood. Assim, grande parte da substância do livro acabou tendo um equivalente aceitável na tela.

Tolkien era um sujeito introvertido, ascético. Teve uma terrível experiência nas trincheiras durante a I Guerra Mundial, quando perdeu vários amigos. O Senhor dos Anéis foi escrito entre 1936 e 1949, durante a II Guerra, portanto.

É comovente (e educativo) nos dias de hoje, ver Tolkien afirmar que o manuscrito inteiro foi duas vezes datilografado por ele próprio, porque mesmo sendo professor em Oxford não podia pagar um datilógrafo.

Era um conservador, apaixonado pela Idade Média, sobre a qual falava aos seus alunos com entusiasmo; conta-se que costumava encerrar essas descrições dizendo: “E aí veio a Renascença, e estragou tudo.”

Era profundamente católico, misoginista como muitos britânicos de sua geração, detestava a tecnologia e a modernização.

O “Condado” (Shire) onde vivem os hobbits é sua utopia pessoal, uma visão idealizada de uma Inglaterra rural, pacífica mas resoluta, amante do sossego e dos livros, mas capaz de ganhar uma guerra se ameaçada de invasão.

O Senhor dos Anéis, apesar de ser aquele catatau, é apenas a ponta do iceberg ficcional de Tolkien, que imaginou uma história-do-mundo completa, desenhou mapas, criou genealogias, idiomas e alfabetos.

Tolkien fundou o que podemos chamar de “ficção catalográfica”, onde o autor inventa todos os detalhes de um mundo. Ele inventou primeiro o idioma dos elfos, e ao imaginar sua História começou a inventar as narrativas que hoje conhecemos. Neste aspecto, sua obra tem uma coerência e um mapeamento interno muito maior que a obra de Guimarães Rosa.

Rosa era meticuloso ao pesquisar, e totalmente intuitivo e instintivo ao escrever. Seus arquivos guardam uma quantidade impressionante de material, mas ele não lhes deu a coerência catalográfica que existe na obra de Tolkien.

Extrovertido, vaidoso, bem-humorado, cosmopolita, Guimarães Rosa era em muitos aspectos o avesso de Tolkien.

Seus heróis (Riobaldo, Diadorim, Augusto Matraga) são tomados muitas vezes por uma alegre ferocidade, uma euforia-de-batalha que está ausente nos heróis dos “Anéis”.

Por outro lado, o romance de Tolkien é otimista (dos nove membros da Irmandade do Anel, apenas Boromir morre), enquanto que o Grande Sertão é no fundo a história de um fracasso, ou de uma vitória de Pirro: no final, Riobaldo é feliz no jogo (na guerra) e infeliz no amor.

Tolkien era um homem triste que sonhava com finais felizes, e Rosa um homem alegre que temia o Final.



0257) Frodo e Riobaldo (16.1.2004)





(Elijah Wood como Frodo)

Na coluna de ontem, comparei o perfil do Riobaldo de Grande Sertão: Veredas com o de Aragorn em O Senhor dos Anéis. Chamo isto de “recorrência arquetípica”. Todo autor, ao recriar um tipo clássico de personagem (no caso, o Guerreiro Heróico) dá-lhe (mesmo sem perceber) traços que pertencem a uma tradição literária. 

Aragorn e Riobaldo são grandes guerreiros, merecedores do posto mais alto do Poder, mas cheios de dúvidas e de hesitações. A literatura está cheia de riobaldos, mas nenhum como o de Rosa, e de aragorns, mas nenhum como o de Tolkien.

Há outro herói no Senhor dos Anéis, contudo, que tem muitos traços em comum com Riobaldo: é Frodo Baggins (na tradução brasileira, “Frodo Bolseiro”). 

Se Aragorn é o Herói Guerreiro a quem cabe derrotar os exércitos do Mal e unificar sob um poder central os clãs rivais, Frodo é, como Riobaldo, o sujeito pacífico sem vocação para herói mas que, é jogado pela circunstâncias no meio de uma batalha, e vira guerreiro a contragosto. 

É, assim como Riobaldo, um herói problemático, pouco à vontade com este papel (Riobaldo: “Sou de ser e executar, não me ajusto de produzir ordens”). E, como Riobaldo, é também um herói atormentado pela presença do Diabo.

Riobaldo, embora se torne grande guerreiro, foi criado para uma vida pacífica, e entrou na jagunçagem por acaso. Muito apegado aos livros, é contratado para ser professor e secretário de Zé Bebelo, o capitão das tropas que perseguiam os jagunços. Ao ver o primeiro combate de verdade, desgosta-se daquilo e abandona o patrão. 

Uma série de acasos o faz entrar em contato com o bando de jagunços de Joca Ramiro, entre os quais reconhece o “Reinaldo”, ou Diadorim, um menino que conhecera anos antes. E é por essa amizade, depois transformada em amor, que Riobaldo se junta ao grupo, e de intelectual vira guerreiro.

Riobaldo vai à encruzilhada das Veredas Mortas para fazer um pacto com o Diabo. O Diabo não aparece, mas o jagunço volta de lá transformado, mais seguro, mais ambicioso, e pela primeira vez disposto a tornar-se líder do bando. 

Nos “Anéis”, Frodo, tendo colocado o Anel, entra em contato direto com Sauron, o Senhor das Trevas, fica daí em diante sob a mira deste, e acaba oferecendo-se a contragosto para destruir o Anel e fazer desmoronar o império do Mal. 

Tanto Frodo quanto Riobaldo são heróis contaminados por esse contato com o Mal. Frodo diz, após o fim da aventura: “Estou ferido, Sam, ferido, e nunca vou me curar.” Riobaldo, na encruzilhada: “Nunca em minha vida eu não tinha sentido a solidão duma friagem assim. E se aquele gelado inteiriço não me largasse mais.” Cada frase poderia ter sido dita pelo outro.

Note-se também que ambos exorcizam o Mal virando “escritores”: Riobaldo constrói oralmente sua epopéia, ditando-a a um interlocutor invisível (implicitamente o próprio Guimarães Rosa); Frodo é o cronista que passa para o papel a Guerra dos Anéis, finalizando o manuscrito iniciado por Bilbo.






0256) Aragorn e Riobaldo (15.1.2004)




(Viggo Mortensen, como Aragorn)

Já me referi nesta coluna aos pontos em comum entre a obra de Tolkien e o Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. 

Em ambos se descreve uma batalha épica do Bem contra o Mal, onde as tropas do Bem são conduzidas por um herói problemático, cheio de dúvidas e hesitações. 

O herói do Grande Sertão é Riobaldo, um jagunço a quem cabe liderar o bando na jornada de vingança ao seu líder, Joca Ramiro, assassinado à traição por um dos seus sub-chefes, Hermógenes. 

Joca Ramiro tem a estatura épica e o caráter íntegro de um rei medieval (Riobaldo o chama de “par-de-França”). Com sua morte, os jagunços ficam divididos em bandos menores, cada qual comandado por um sub-chefe: Medeiro Vaz, João Goanhá, Titão Passos, Sô Candelário, etc.

Riobaldo é o melhor atirador do grupo, o jagunço mais frio no gatilho, o de melhor pontaria, talento que o torna respeitado e lhe vale apelidos honrosos: “Tatarana”, “Urutu-Branco”. Ele junta-se por fim ao grupo de Medeiro Vaz que, à morte, oferece-lhe a chefia. Ele recusa. 

É um típico herói-em-dúvida, herói moderno, diferente dos heróis mitológicos que em nenhum momento questionam a própria coragem, as próprias motivações. Riobaldo pergunta-se: “Por que estou fazendo isto tudo? Por que fazer isto? E por que logo eu?” 

Crivado de dúvidas, ele recorre ao pacto com o Diabo, na encruzilhada das Veredas Mortas, para a qual vai descrente, e de onde retorna sem ter certeza se encontrou mesmo o Diabo ou não. 

Mas a partir desse episódio ele parece mudado, imbuído de uma autoridade que não parecera ter até então. Sob seu comando os bandos dispersos de jagunços são unificados, e encurralam os “hermógenes” ou os “judas”, como chamam aos inimigos, até derrotá-los na batalha final do Paredão.

Em O Senhor dos Anéis, Aragorn é o legítimo herdeiro do trono, por ser filho de Isildur, o rei que decepou a mão de Sauron, o Senhor das Trevas, tomando dele o Anel do Poder. 

Aragorn, órfão, é criado pelos elfos, que somente na idade adulta vêm a saber de sua linhagem. Ele torna-se um “Ranger”, patrulha as fronteiras da Terra Média, e adquire não só experiência de batalhas e de privações como passa a conhecer profundamente o território e o povo. Ele poderia repetir a frase de Riobaldo: “Assim conheço as províncias do Estado, não há onde eu não tenha aparecido.” 

Sabe que é destinado a ser rei, e que para isso terá que unificar os diferentes reinos que se opõem a Sauron (Gondor, Rohan, etc.). Mas sabe também que seu pai, Isildur, cedeu à tentação do Anel e em vez de destruí-lo ficou com ele. 

Como Riobaldo, ele não questiona a própria bravura ou sua competência como guerreiro, mas, até ser arrastado pelos acontecimentos, hesita diante da missão que lhe cabe. Ambos pertencem a uma estirpe de heróis (como o Paul Atreides de Duna) que enfrentam a Morte sem medo, mas que hesitam diante do Poder, por saberem que nenhum Poder é conquistado com mãos limpas, por melhores que sejam as intenções do Herói.






0255) Tolkien e Guimarães Rosa (14.1.2004)




Uma vez, conversando com amigos estrangeiros, perguntaram-me quem era o maior escritor brasileiro; respondi que era Guimarães Rosa. Ninguém tinha ouvido falar nele; quiseram saber que tipo de escritor era. Eu disse: “Imagine os romances de J. R. R. Tolkien escritos por James Joyce.” 

Riram porque pensaram que era piada, mas não era, era um mero exagero. A crítica literária brasileira, especialmente a que sofreu influência do Concretismo paulistano, sempre compara Rosa com Joyce; nunca vi ninguém compará-lo com Tolkien. E no entanto a obra dos dois tem imensas semelhanças, que me voltam à mente ao assistir o terceiro episódio da magnífica trilogia O Senhor dos Anéis de Peter Jackson.

Tanto Rosa quanto Tolkien imaginaram uma região mítica, fundada em suas vivências pessoais e em suas fantasias metafísicas. 

O Sertão de Rosa é, para usar uma linguagem meio pedante, semanticamente realista (porque tudo ali é observado, é anotado em caderneta, é pesquisado junto aos mais-velhos: usos, costumes, lugares, plantas, bichos) mas sintaticamente mágico, porque os acontecimentos e os destinos dos personagens parecem orquestrados por potestades invisíveis. 

Esse sertão que na superfície é tão mineiro, tão geográfico, tem uma escala épica que o transforma no campo de batalha entre as forças de Deus e as do Diabo.

Quanto a Tolkien, criou a Terra Média (Middle Earth), supostamente uma era remota no passado do nosso planeta, povoada por reis, guerreiros, e raças fantásticas (elfos, anões, orcs, trolls, etc.), que foram varridas da Terra depois que o Homem tornou-se o seu dono. 

À primeira vista, o mundo de Tolkien é totalmente fantástico, mas basta ler uma biografia sua (especialmente a de Humphrey Carpenter) para ver como seu processo criativo era realista. 

Tolkien compunha para seus reis árvores genealógicas inteiras, que se estendiam por milênios. Os elfos têm uma linguagem completa, toda inventada por ele (e falada pelos atores em trechos dos filmes). Seu cuidado ao descrever as aventuras de Frodo o fazia calcular desde a fase da lua em determinada noite até quanto tempo alguém levaria para ir a pé ou a cavalo de um lugar para outro (aspecto em que autores de romances não-fantásticos, como Walter Scott, muitas vezes se fazem de doidos).

Apesar das evidentes diferenças entre Grande Sertão: Veredas e O Senhor dos Anéis, ambos têm um sopro épico semelhante, ambos são a epopéia de um grupo pequeno de guerreiros do Bem enfrentando um grupo impiedoso de guerreiros do Mal. 

Os “orcs” da Terra Média e os “hermógenes” que Riobaldo enfrenta nas batalhas sertanejas são personificações do Mal que um herói hesitante e problemático precisa derrotar. 

Há muitos paralelos de detalhes que podem ser traçados entre as duas obras, mas mais importante do que isto é o espírito de nobre maniqueísmo medieval que os dois autores compartilhavam. O Bem existe. O Mal também. E é preciso pegar em armas para combater o Mal.






sexta-feira, 7 de março de 2008

0020) A Besta Loura Calibã (15.4.2003)



No folheto 79 do Romance da Pedra do Reino Ariano Suassuna encena um diálogo entre Adalberto Coura, um jovem intelectual de esquerda, entusiasmado, idealista, e Arésio Garcia-Barreto, um revoltado cínico, individualista, cruel. Os dois falam sobre uma Revolução Brasileira que nos libertasse da exploração econômica e cultural estrangeira. A existência desta exploração, e a necessidade de acabar com ela, é o único ponto em que os dois concordam; discordam quanto ao resto.

Arésio acredita que os latino-americanos são o povo indicado para se opor “à sacrílega, subalterna e desumana Cruzada industrial dos Americanos, herdeiros da brutalidade fanática e puritana dos Nórdicos, do egoísmo e do apego ao dinheiro dos anglo-saxões.” Ele acredita, no entanto, que isso só pode se dar através da luta armada, e não tem ilusões altruístas. Para ele, tudo se resume a uma luta pelo Poder, e se é de o Poder ir parar nas mãos dos gringos, melhor que pare nas nossas.

Arésio diz: “Esses Povos de comerciantes, os mais tristes do mundo, nascidos e criados entre o frio, o escuro e a severa infelicidade dos ideais puritanos, querem impingir suas receitas de vida a nós, Povos morenos, criados ao Sol!” A disparidade entre a visão-do-mundo dos brasileiros e a dos puritanos da América do Norte é um tema recorrente na obra de Suassuna, e é curioso que na atual Guerra do Iraque este tema tenha ressurgido com tanta força em nossa imprensa.

Adalberto chama os povos anglo-saxões, a civilização dos puritanos e mercadores, de “a Besta Loura Calibã”. E isto me recorda um ensaio de G. K. Chesterton, o escritor católico a quem Bernard Shaw chamou “o mais francês dos britânicos”. Ao comentar as raízes puritanas do pensamento do próprio Shaw, de quem era amigo, Chesterton definia o Puritano como aquele indivíduo que se propõe a considerar Deus ou o Bem com a mais feroz concentração do intelecto. O Puritano se recusa a permitir qualquer interferência entre sua mente e seu Deus – interferência até mesmo de si próprio, sob a forma de qualquer atitude que dependa do mundo material.

Para Chesterton, o Puritano prefere adorar a Deus num estábulo do que numa Catedral, pela simples razão de que uma Catedral é bela. Para ele, deve-se louvar a Deus apenas com a mente: é um erro louvá-lo com emoções, com atitudes físicas (como o canto e a dança), ou com o nosso instinto de beleza. Daí advém a tragédia dos Puritanos, que tanta influência têm na sociedade norte-americana, e que agora retornam ao Poder, na administração Bush. Seu mundo é um mundo implacável onde o Bem é um conceito abstrato que tem de ser imposto ao mundo concreto, quer ele queira, quer não.

A Besta Loura Calibã vê a si própria como o agente do Bem. Seu propósito é trazer ao mundo o reino do Bem, do que é Certo, do que é Justo. O Mal é tudo que se opõe a isto, e o Mal precisa ser varrido da Terra a ferro e fogo. O Puritano é o tipo do médico capaz de tratar uma virose com cirurgia.