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quinta-feira, 17 de abril de 2014

3475) Bilac e o Brasil (17.4.2014)



O Brasil se vê como uma cultura periférica em relação à Europa e EUA, assim como o Nordeste em relação ao Rio e São Paulo.  Existe o fervilhar endêmico de sentimentos nativistas, separatistas, rebeldes, etc., mas o fato deles terem alvo certo comprova a existência do fenômeno.  Isso é errado?  É feio?  É não, rapaz, é a vida.  Na cidade-de-esmeralda distante tudo parece maior, melhor, mais bonito e mais bem feito do que na cidade-de-taipa que nos rodeia. Ouvimos as músicas dela, lemos os livros, sonhamos em conhecê-la. Uns vão tentar a vida lá, alguns dão com os burros nágua, outros descobrem que o tesouro estava enterrado no pé do sicômoro onde cochilavam...  É a vida.

No ensaio O alexandrino Olavo Bilac (1965) Virginius da Gama e Melo passa um pente fino na obra do poeta da Via Láctea. Virginius (para quem não conhece, um dos grandes intelectuais boêmios que a Paraíba produziu), faz um passeio amplo pela métrica, rima e temática bilaqueana, e a certa altura toca num ponto interessante. Cadê o Brasil na obra de Bilac?

Parece uma pergunta ociosa. Por que diabos um poeta brasileiro é obrigado a escrever sobre o Brasil? A pergunta procede, contudo. Bilac defensor do serviço militar obrigatório, fez letra de hino, fez poema ufanista (“Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste! / Criança, não verás país nenhum como este!”). Mas... Diz Virginius: “Basta a verificação dos seus temas principais, temas obtidos ora da mitologia e da história greco-romana, ora do cristianismo primitivo e medievo, além duma evidente inspiração francesa. Há numa visão panorâmica quase o levantamento total dos grandes episódios criadores e informadores dessa cultura latina (...)”.

Folhear os livros de Bilac é passear em Cartago, em Atenas, em Roma; é esbarrar em Xenócrates, em Frinéia, em Cleópatra.  Um épico como “O Caçador de Esmeraldas”, sobre Fernão Dias Paes Leme, é exceção, e mal se distingue do épico dedicado à Escola de Sagres (“Sagres”, que Ariano Suassuna, num ensaio notável, sugere ter influenciado o Mensagem de Fernando Pessoa, publicado pouco depois).  A inspiração de Bilac, diz Virginius, não lhe vinha da vida e sim da literatura: “Era ele, entretanto, pessoalmente, um patriota sincero, e muita fé no nacionalismo fez. Acontecia apenas que, de certo modo, passara sua sensibilidade a existir apenas literariamente. (...) O descritivo estereotipado de Bilac, as paisagens referidas nos seus elementos universal e historicamente comprovados, situam o poeta, nesse campo, numa categoria puramente intelectual, onde as imagens são produto do eruditismo, e não da sensibilidade”.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

2639) Drummond: “Jardim da Praça da Liberdade” (19.8.2011)



Os poetas parnasianos viviam uma versão chapa-branca do Brasil, envoltos num ufanismo cuja melhor tradução é o famoso verso de Olavo Bilac, primor de patriotismo histérico: “Pátria, latejo em ti!”. A gente manga dessas coisas (eu, pelo menos) mas precisa reconhecer que são fases necessárias para a formação de um conceito de nação. A primeira coisa que o colonizador incute no juízo do colonizado é que aquilo ali não presta, é inferior, que não vale a pena defender aquelas matas atlânticas ou jazidas de diamantes; mas quando a maré política se inverte é preciso reverter essa lavagem cerebral. A literatura e os demais discursos verbais nos fornecem argumentos e justificativas para que a gente sinta tais e tais coisas. Hoje em dia, por exemplo, a defesa do meio ambiente é uma questão de tal importância que mesmo os argumentos idiotas em seu favor são males menores, pois ajudam muita gente a dar atenção ao problema. No tempo dos parnasianos, a República foi na verdade a verdadeira Independência, um abrir-os-olhos para a existência de um Brasil administrado pelos brasileiros. O ufanismo pomposo e grandiloquente de Bilac era melhor do que o complexo de viralata dos 400 anos anteriores.

O modernismo introduziu a ironia na poesia brasileira, a capacidade de ver-se com olho crítico mas sem complexo de inferioridade. Até então, nossos poetas viviam num internato católico; de 1922 em diante, foram soltos na rua e ganharam emprego de motoboys, com uma única instrução: “Te vira”. No livro Alguma Poesia, Drummond contempla o “Jardim da Praça da Liberdade”, aquela paisagem ao mesmo tempo parnasiana (pela superfície bucólica que tenta aparentar) e modernista, por ser um artificialismo que denuncia a si próprio (“Bonito demais. Sem humanidade. Literário demais.”). Ele ironiza o paisagismo ingênuo (“rosas geométricas”, “jardim tão pouco brasileiro”, “a terra não sofreu para dar essas flores”) e expõe o contraste entre a sugestão de natureza presente em qualquer jardim e o círculo de ferro do conservadorismo em perpétua sentinela (“jardineiros oficiais”, a “moldura das Secretarias compenetradas”, a “prefeitura vigilante”).

Para quem não conhece, a Praça da Liberdade fica diante do palácio do governo mineiro, cercada pelos prédios austeros da secretarias. Agora, tudo está sendo transferido para o novo Centro Administrativo, a meio caminho do aeroporto de Confins. Para mim, que morei e estudei ali ao lado, era o lugar de passeio de fim de tarde entre gramados e palmeiras, num oásis de natureza artificial cercado por um cinturão do Poder político (e, na época, da ditadura militar). As ironias de Drummond para com essa praça (que ele certamente amava tanto quanto eu) exprimem esse novo patriotismo cheio de auto-crítica. Um patriotismo século 20, mesmo que já no século 21 grande parte dos brasileiros ainda esteja encalhada no complexo de viralata ou no orgasmo perpétuo do ufanismo nacionalista.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

2488) “O Retrato de Dorian Gray” (24.2.2011)



As sincronicidades são as rimas da vida real. Estão para ela assim como a simetria está para as artes visuais. No cinema temos dois tipos de rima. Podemos cortar entre imagens parecidas com idéias diferentes: em Viridiana, Buñuel corta de uma coroa de espinhos para um disco tocando na vitrola; em 2001 Kubrick corta de um osso flutuando no ar para uma nave flutuando no espaço. Ou podemos cortar entre imagens diferentes com idéias parecidas: Hitchcock corta de um casal na cama para um trem entrando num túnel.

Costumo ler livros e ver filmes sem planejamento, mas sem dúvida existe um impulso subterrâneo me levando a procurar obras que, quando justapostas, produzem uma fagulha. A fagulha do presente caso foi produzida pelo fato de, enquanto estou relendo O Médico e o Monstro de R. L. Stevenson ter assistido o DVD de O Retrato de Dorian Gray de Albert Lewin, adaptando o livro de Oscar Wilde. Estes dois textos são clássicos do romance fantástico vitoriano e são, por assim dizer, duas variações sobre o mesmo tema. Algo que poderia ser expresso no antigo slogan da série O Sombra, de Maxwell Grant: “Quem sabe o Mal que se oculta no coração do homem? O Sombra sabe”.

Em ambos os casos, um respeitável cidadão britânico mantém uma fachada de indivíduo exemplar enquanto se dedica a prazeres indescritíveis e crimes imperdoáveis. No livro de Stevenson, ele o consegue através de uma poção que o transforma fisicamente em outra pessoa, um corpo físico que corresponde a uma parte de sua mente onde habitam os “baixos instintos”. No de Wilde, essa divisão é simbólica: Dorian Gray pratica os piores excessos e ao longo dos anos permanece jovem e belo como sempre, ao passo que é seu retrato quem envelhece e decai. Há certamente outras obras com perfil semelhante, mas eu diria que, principalmente no mundo de língua inglesa, estas duas novelas tão curtas criaram o padrão para as histórias de dualidade entre virtude aparente e pecado oculto.

Somos tentados a dizer que isso é a cara da Londres vitoriana, mas os exemplos contemporâneos mostram que a coisa vai mais longe. Talvez os mais conhecidos sejam Psicopata Americano (livro de Bret Easton Ellis, filme de Mary Harron) e Clube da Luta (livro de Chuck Palahniuck, filme de David Fincher). Em ambos, um sujeito extremamente comum e enquadrado no mundo corporativo desenvolve uma segunda personalidade agressiva, sádica e impossível de controlar, um “monstro do Id”, instinto puro, auto-gratificação pura. Nestas obras ficamos sabendo em detalhe quais os atos escabrosos praticados pelos modernos Dr. Jekyll e Dorian Gray, atos que a discrição da época não permitia aos escritores mostrar de maneira gráfica, explícita. Ainda somos vitorianos. Mesmo na mais permissiva das sociedades, ainda existe espaço para a cisão da personalidade entre um “cidadão acima de qualquer suspeita” e um monstro – ou, como disse Olavo Bilac, “um demônio que ruge e um deus que chora”.

domingo, 25 de abril de 2010

1956) “Dualismo” de Olavo Bilac (16.6.2009)



Aprendi de cor este soneto de Bilac ainda na infância. Meu pai arrancou uma página de revista em que ele vinha impresso, com uma foto do poeta ao lado, emoldurou-o e pendurou-o na parede da sala. Vez em quando, ao longo dos anos, eu parava e relia. Entranhou-se na minha memória como água na esponja. Um dia, em plena senilidade, terei esquecido meu nome mas serei capaz de balbuciar: “Não és bom nem és mau – és triste e humano, / vives ansiando em maldições e preces / como se a arder no coração tivesse / o tumulto e o clamor de um largo oceano”.

Neste primeiro quarteto, Bilac parece apaziguar os remorsos de um amigo, ou os seus próprios. Já começa nesta primeira estrofe (com bom/mau, maldições/preces) o magnífico jogo de antíteses que será mantido até o fim. Bilac sugere que o que fazemos depende menos de uma escolha ética nossa do que do tumulto mental que nos arrasta pela vida afora. O segundo quarteto diz: “Pobre, no bem como no mal padeces / e rolando num vórtice vesano / oscilas entre a crença e o desengano / entre esperanças e desinteresses”. Surge a única palavra obscura do texto, “vesano”, derivado de “vesânia”, loucura. E o poeta repisa o caráter dilacerado da alma humana, com mais uma trinca de dualidades no 1o., 3o. e 4o. versos.

O soneto cresce a partir do primeiro terceto: “Capaz de horrores e de ações sublimes / não ficas das virtudes satisfeito / nem te arrependes, infeliz, dos crimes”. É um traço curioso de uma certa mentalidade torturada ocidental, homens que “não crêem em deus mas têm medo do inferno”, que vivem equilibrados num fio e podem praticar a qualquer momento os atos mais aterradores ou mais altruístas. E ele conclui: “E, no perpétuo ideal que te devora / residem juntamente no teu peito / um demônio que ruge e um Deus que chora”.

Não vou enumerar os polos opostos restantes que fazem desse poema um dos mais típicos desta fase de Bilac (como “Inania Verba”, já comentado nesta coluna) em que ele escolhe com rara habilidade símbolos que se traduzem em palavras que guardam simetria formal, sonora, etc. Este verso final, uma das “chaves de ouro” mais belas de Bilac, exprime o dilema de um poeta fortemente emotivo e reprimido. É um verso nietzschiano, e o filósofo talvez perguntasse, com arrogância: “E o que é mais digno: rugir, ou chorar?”. O Deus que chora é o mesmo que nunca fica satisfeito com as virtudes que cultiva; o demônio que ruge é o que não se arrepende dos próprios crimes. O primeiro deles é o Bilac público, sempre polido, cuidadoso, cioso de sua imagem. O segundo talvez seja o que Bilac poderia ter sido em outras circunstâncias. Diz-se que o poeta tinha um laivo homossexual enrustido, mas as imagens femininas em sua poesia são as mais eróticas de sua época. Não me parece mera retórica: Bilac tinha fixação erótica no corpo feminino. Era um sensualista que, em outra época, talvez fosse um grande conquistador de moças e rapazes. Mais um dualismo.

quarta-feira, 24 de março de 2010

1820) Olavo Bilac e João Cabral (8.1.2009)




À primeira vista, não podem haver dois poetas mais dessemelhantes. Quem lê um e logo em seguida pega um livro do outro precisa passar por alguns minutos de adaptação mental, como aqueles mergulhadores que têm de voltar à tona aos poucos, de tão grande que é a diferença de pressão. 

O mundo de Bilac nos lembra uma imensa galeria do Louvre cheios de quadros históricos e de langorosos nus femininos, pintados por Courbet, Degas, William Bouguereau, Alma-Tadema. São figuras da mitologia, episódios épicos ou bíblicos, virgens diáfanas envoltas em tules e musselinas, bosque sombrios, pássaros canoros, ameias e torreões de castelos, casais pré-rafaelitas enlaçados nos transportes da paixão. 

Já o mundo de Cabral nos arrebata para um deserto árido e cheio de arestas, povoado por cabras e retirantes; mangues pegajosos, cidades rústicas que mal se distinguem das colinas pedregosas que as cercam. Seu mundo lembra, até pelo exame permanente do traço, da forma, da dinâmica abstrata dos processos, a fase de gravuras geometrizantes de Max Ernst, ou as xilogravuras de cortes brutais de Segall, Scliar ou Darel.

E, mesmo assim, poucos poetas defenderam com tanta eloquência, em tribunas opostas e até antagônicas, os mesmos princípios estéticos. 

Tanto Bilac quanto Cabral são os poetas da construção, do perfeccionismo, do intelecto avassalador apropriando-se das mais ínfimas tarefas da criação poética. 

Os dois divergem no temperamento pessoal e nos assuntos que abordaram, mas o modo de empunhar a poesia é o mesmo.

É costume contrapor a obra de Bilac à de Castro Alves, pois os dois foram os mais populares e festejados poetas brasileiros do século 19. 

Castro Alves é inspiração torrencial, transbordante, indisciplinada, produzindo poemas gigantescos e tonitruantes crivados de pequenos defeitos. Diz-se que era um bom improvisador de versos, e de fato tinha as qualidades e os defeitos de qualquer repentista. O surgimento de Bilac enxugou a poesia brasileira desses excessos. Cabral foi ainda mais longe, e reduziu a poesia a osso, viga, concreto, medula.

Em sua famosa “Profissão de Fé”, Bilac invoca como modelos de poeta o Ourives (que ele prefere) e o Escultor. Já Cabral elegeu o Engenheiro e o Arquiteto. 

Por diferentes que sejam, todos trazem em si o traço que une os dois poetas: o propósito de construir, em vez de apenas “parir” o poema. Com a mente lúcida e a mão minuciosa. Reescrevendo dezenas de vezes até achar a palavra certa, a sílaba tônica ou átona na posição exata, a simetria quase imperceptível de consoantes em pontos opostos da linha. Ritmo, sonoridade, evocação sensorial de imagens, tudo isto é pesado e medido, com balança de precisão, lupa e bisturi. 

Que profissões simbólicas serão invocadas como modelo pelos poetas construtivistas do futuro? Engenheiro de software? Webdesigner? DJ? Programador de mosaicos verbais logarítmicos com variáveis randômicas? As possibilidades, como sempre, são infinitas.




sábado, 13 de março de 2010

1787) As palavras encantadas (30.11.2008)




(Machado, por Cláudio de Oliveira)


Guimarães Rosa dizia que as palavras tinham “canto e plumagem” como os pássaros; Olavo Bilac escutava na língua portuguesa instrumentos contraditórios: “tuba de alto clangor, lira singela”. Palavras têm um encantamento próprio e quanto mais mistério guardam mais poder sugerem. Pablo Neruda conta num poema como descobriu a palavra “orégano” e saiu a gritá-la pelas ruas, fazendo com que os leões se ajoelhassem com temor e espanto. Toda palavra é mágica quando a ouvimos pela primeira vez e não sabemos o que quer dizer. Muita tinta da USP já correu para nos tranquilizar a respeito de tutaméias e nonadas.

A FC tem suas palavras misteriosas. O romance de Robert Heinlein Um Estranho numa Terra Estranha conta a história de um marciano que, na Terra, usa a torto e a direito o verbo “grokkar” (“to grokk”), que não se explica a não ser pelo contexto. Grokkar exprime o ato em que sujeito e objeto se fundem numa única entidade mental. É um “comprender” que produz identificação total entre aquele que compreende e aquilo que é comprendido. É muito mais que isto, claro. A cada passo o marciano põe-se a grokkar de forma diferente. Quando beija as mulheres terrestres, todas se apaixonam pelo seu beijo. Por que? Porque ele grokka enquanto está beijando.

Na última linha do romance de A. E. Van Vogt As Casas de Armas, um alienígena, após uma complicada trama de enfrentamento com os terrestres, afirma sobre eles: “Essa é a raça que irá dominar o sevagram!” O romance se encerra com esta palavra misteriosa, que traz consigo doses maciças de estranheza e promessa. Foi descoberto depois ser um termo em Hindi para “vilarejo”, mas seu uso, fazendo encerrar um romance com uma incógnita algébrica, teve um tremendo impacto literário quando a história foi publicada (abril de 1943).

A palavra encantada pode ser simplesmente uma palavra velha num contexto novo. O conto de Machado de Assis “Caso da Vara” mostra um seminarista que foge do colégio contra a vontade do pai. E o texto diz a certa altura: “O pai ficou furioso e quis quebrar tudo; bradou que não, senhor, que o peralta havia de ir para o seminário, ou então metia-o no Aljube ou na presiganga”. Já pensou que ameaça mais terrível? Tenho certeza de que quando li este conto pelas primeira vez, aos dez anos, grokkei de imediato que tanto o Aljube quanto a presiganga deveriam ser sádicas punições da época.

Por razões mágicas, nunca as busquei num dicionário ou enciclopédia. Não quis me sujeitar ao anticlímax de que o Aljube fosse uma mera casa de correção (espécie de Febem) e a presiganga, talvez, um colar de ferro com correntes, que se aferrolhava ao pescoço dos escravos. Melhor nunca ficar sabendo, e deixar que as palavras valham pelo seu som e, mais ainda, pelo contexto de ameaça terrível que as envolve. Quando ameaçarem alguém, amigos, esqueçam o feijão-com-arroz. Engrossem o tom da voz e disparem uma palavra desconhecida. Faz muito mais efeito.




sábado, 30 de maio de 2009

1055) Delenda Cartago (3.8.2006)


(ruínas de Cartago)

“Delenda Cartago!” é uma frase latina que significa “Cartago deve ser destruída!”, ou, mais modernamente, “Deletem Cartago!” Era uma frase de Catão, político romano que defendia a destruição da cidade africana devido à ameaça econômica e bélica que ela representava para Roma. A campanha surgiu durante as Guerras Púnicas, três guerras sucessivas ocorridas ao longo de um século, até que o exército romano sitiou a cidade, invadiu-a, degolou todo mundo, incendiou, e depois espalhou sal sobre as ruínas. Naquele tempo não tinha esse negócio de ONU ou Convenção de Genebra para atrapalhar uma guerra.

“Delenda Cartago” é também o título de um dos poemas épicos mais belos da língua portuguesa, escrito por Olavo Bilac: “Fulge e dardeja o sol nos amplos horizontes do céu da África...” Bilac descreve em alexandrinos cinemascópicos o cerco, e reproduz alguns dos mitos que cercam essa batalha tão famosa quanto a do Cerco de Tróia: a de que quando os arcos dos defensores tinham suas cordas partidas de tanto disparar flechas, as mulheres cartaginesas cortavam seus longos cabelos para fabricar novas cordas e defender a cidade. Vocês gostam daqueles filmes épicos-históricos de David Lean, Eisenstein, Ridley Scott? Leiam Bilac.

A frase de Catão ficou na História, contudo, como um dos “bordões” mais famosos da política. “Bordão”, na gíria dos redatores de TV, é aquela frase que um personagem repete o tempo inteiro, e que se torna sua marca registrada: o professor Raimundo dizendo “E o salário, ó...”, ou Didi Mocó dizendo “É muita cafusão, eu tô muito cafuso...” O bordão do político romano era na verdade uma frase mais longa: “Ceterum censeo Carthaginem esse delendam”, algo como “olha, eu não sei não, mas por mim, essa tal de Cartago deveria ser passada-no-rodo o quanto antes”. Ele a repetia ao fim de todos os seus discursos, mesmo que o tema deles fosse o custo de vida ou a vitória do Flamengo na Copa do Brasil.

Catão mostrou o quanto é importante a repetição de uma ordem até que ela seja obedecida. Catão maltratou, martelou, massacrou os ouvidos do Senado romano durante anos com essa frase. Cravou-a como um prego no juízo de cada um dos seus concidadãos. Transformou-a num clichê da época, num lugar-comum, num bordão repetido por todos. Conseguiu impô-la como verdade, como mandamento, como Uma Lei da Natureza. E Cartago foi destruída.

Foi uma batalha de um homem só, e uma batalha heróica (não discutirei aqui se Cartago era boa ou ruim, se merecia ou não o ferro, o fogo e o sal). Ela ficou como exemplo para os atuais Senhores da Guerra, e seus bordões. “O Iraque deve ser invadido”, dizem uns. “Israel deve ser destruído”, bradam outros. Para nós, que somos neutros nessas guerras, são bordões insensatos. Para eles, que cresceram com esse “loop” girando eternamente em suas consciência, é algo que não lhes ocorre discutir. É uma Lei da Natureza. Precisa ser obedecida.

terça-feira, 31 de março de 2009

0936) A impotência da fala (17.3.2006)




(Augusto & Bilac)

Reza a lenda que Olavo Bilac, então nos píncaros da glória, esnobou Augusto dos Anjos, a quem sequer conhecia, quando circulou a notícia da morte do poeta paraibano. Ouvindo alguém lamentar o falecimento do autor do Eu, Bilac perguntou quem era ele. O interlocutor recitou-lhe um soneto de Augusto, e Bilac, dando de ombros, jogou sua pá-de-cal: “Se o que escrevia era isso, não se perdeu grande coisa”.

Parece difícil conceber dois poetas mais diferentes, mas ninguém é tão diferente que não-pegue-nem-uma-letra. Augusto era da geração pós-Bilac, e ávido leitor de poesia. Pelo menos um tema (e um tema íntimo, delicado) era comum aos dois: o tema da impotência da fala, da incapacidade de exprimir os pensamentos e sentimentos mais intensos. 

Um dos poemas mais famosos do Rei dos Parnasianos é o soneto “Inania Verba”: 

Ah! Quem há de exprimir, alma impotente e escrava 
o que a boca não diz, o que a mão não escreve? (...) 
O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava; 
a Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve... 

O jogo de polaridades e antíteses, um dos fortes de Bilac, poucas vezes foi tão belo quanto aqui. 

E ele próprio talvez lesse com perplexidade mas com respeito versos como os de Augusto em “A Idéia”, a qual vem, 

...tísica, tênue, mínima, raquítica; 
quebra a força centrípeta que a amarra 
mas de repente, e quase morta, esbarra 
no mulambo da língua paralítica!

Bilac era um czar da expressão, um mestre consumado da arte de dizer. Imagino uma cena em que ele e Augusto pudessem ter se encontrado, não sei se num café elegante (mas Augusto não os freqüentava), ou talvez no terraço da casa de um amigo comum. 

Num momento de descontração e cordialidade, talvez se pusessem a recitar. Bilac diria os versos de “Remorso”: 

Choro, neste começo de velhice, 
mártir da hipocrisia e da virtude, 
por timidez o que sofrer não pude 
e por pudor os versos que não disse!

Em Bilac, o travamento é moral e afetivo, é um travamento das emoções – o que condiz com o que se conta do poeta, ou que era um homossexual não-assumido, ou que amou sem esperanças, a vida inteira, a irmã de um amigo: 

E as palavras de fé que nunca foram ditas? 
E as confissões de amor que morrem na garganta?

Já o bloqueio de Augusto dos Anjos é um bloqueio conceitual, um bloqueio do intelecto, uma incapacidade de verbalizar visões que vão além das possibilidades da linguagem. O “Martírio do Artista” a lidar com a “arte ingrata”: 

Para falar, puxa e repuxa a língua 
e não lhe vem à boca uma palavra! 

Para Augusto, a complexidade do mundo material está além da capacidade de expressão da linguagem individual e coletiva. 

E este destino não é só do Homem. O próprio Universo material fracassa em sua auto-realização: é a “Natureza que parou chorando / no rudimentarismo do Desejo!” (“O Lamento das Coisas”), é a “sonoridade potencial dos seres / estrangulada dentro da matéria!” (“Monólogo de uma Sombra”).





quinta-feira, 27 de novembro de 2008

0648) Bilac e Leandro (16.4.2005)




Gosto de coincidências numéricas, até porque são as únicas indiscutíveis, as únicas que não dependem de uma projeção de nosso ponto de vista sobre os fatos. A cristalina frieza dos números que se encaixam uns nos outros faz um “clic”, e o resto é conosco. Revisando um texto recente sobre poesia, percebi uma coincidência singular: tanto Olavo Bilac quanto Leandro Gomes de Barros nasceram em 1865 e morreram em 1918. Isto faz com que dois dos maiores poetas brasileiros tenham existido precisamente no mesmo nicho cronológico, e por si só já bastaria para que algum estudante de Letras, entre as centenas que se formam anualmente em nossas faculdades, escolhesse como tema de sua futura tese de Mestrado algo como: “Bilac e Leandro: o Brasil Oficial e o Brasil Real através da Poesia”.

Bilac foi eleito em vida “O Príncipe dos Poetas Brasileiros”, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, e participou de campanhas cívicas como a Abolição da Escravatura e a instituição do Serviço Militar obrigatório. Vivia, portanto, no Brasil oficial. Leandro era um caboclo rude que saiu do sertão da Paraíba e fixou-se no Recife; não sei se algum dia terá sequer conhecido o Rio. Carlos Drummond (num texto reproduzido no livro de Irani Medeiros No Reino da Poesia Sertaneja, João Pessoa, Editora Idéia) compara a poesia dos dois, observa que a de Bilac “correspondia a uma zona limitada de bem-estar social, bebia inspiração européia”; e diz que se alguém merecia o epíteto de príncipe era Leandro e sua poesia “pobre de ritmos, isenta de lavores musicais, sem apoio livresco”.

Não creio que o texto de Leandro fosse tão pobre assim, embora certamente o fosse se comparado à riqueza de nuances que um artesão como Bilac sabia extrair do decassílabo e do alexandrino. Bilac foi o maior artífice de um gênero, de um conjunto de preferências culturais que ele soube enfeixar com harmonia e refinar com perfeição. Quando um gênero cai de moda, é natural que o mestre daquilo mergulhe no esquecimento. Talvez daqui a 50 ou 100 anos surja no Brasil um novo surto de Parnasianismo e ele volte a ser o maior poeta brasileiro, e será a vez de Drummond e Cabral ficarem hibernando nas prateleiras.

Bilac celebrou como ninguém o amor romântico e o erotismo do corpo feminino; Leandro passou a vida descendo a ripa nas esposas, nas sogras e no casamento. Bilac mergulhou fundo na História clássica, na mitologia grega, nas grandes jornadas épicas dos conquistadores e desbravadores; Leandro estendeu-se no campo da sátira, da crônica cotidiana de costumes, da saga dos valentões e cangaceiros, e dos contos de aventura e encantamento. Um estudo minucioso das semelhanças e diferenças entre os dois poderia nos dar uma idéia desse complicado sistema de espelhos em que um poeta olha para o mundo à sua volta e produz textos que não apenas reflitam esse mundo mas também o enriqueçam. Pouco lembrados hoje em dia, Bilac e Leandro ainda explicam bem nosso país.