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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

0830) Canções de depressão (13.11.2005)




“Como?!” exclamará o leitor. “Será possível que exista um gênero musical como este?” Claro que existe, amigo. Qualquer letrista sabe que nele cabem sub-gêneros importantes da MPB, como a música de “dor de corno” ou “dor de cotovelo”, a música “de fossa”, e assim por diante.

Pode até não parecer, em tempos frívolos e álacres como os de hoje, regados a cerveja gratuita e publicidade efervescente; mas houve um tempo em que os grandes sucessos de nossa música eram nesse tom, cheio de olheiras empapuçadas, cheirando a cigarro, uísque, fim-de-noite.

O historiador Rui Castro defende a tese de que uma das boas coisas da Bossa Nova foi acabar com o reinado da música deprê que dominava a MPB nos anos 1950. Quem não se lembra de Maysa, com aqueles enormes olhos gateados, plenos de angústia existencialista, entoando: “Meu mundo caiu, e me fez ficar assim...” ou “Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor”?

Era uma década maníaco-depressiva. De dia, as pessoas tostavam ao sol de Copacabana a epiderme disponibilizada pelo advento do biquíni; de noite, enchiam-se uísque e conhaque, e fumavam furiosamente até que o nascer do sol fechasse o piano-bar.

Sim, a canção de depressão é parte vital de nossa cultura.

Compositoras como Dolores Duran e Suely Costa cantaram como ninguém a terrível beleza e a terrível lucidez da solidão. Cantoras como Waleska e Márcia deram suas vozes ao primeiro sentimento que brota num ser humano: o de saber que é somente um.

Não se pense, contudo, que só as mulheres passam por isto. Tito Madi compôs o irretocável hino da fossa: “A noite está tão fria... chove lá fora!” que Milton Nascimento, um PhD em solidão, transformou numa tomografia computadorizada da própria alma no disco “Milagre dos Peixes ao Vivo”.

Adelino Moreira aconselhava, com a voz de Nelson Gonçalves: “Faça como eu, acostume-se à derrota; pois a vitória não pertence ao infeliz”; e o inimitável Silvinho já rasgou o peito por sobre a pátria, gritando: “Esta noite, eu queria que o mundo acabasse, e para o inferno o Senhor me mandasse, para pagar todos pecados meus!”

Outros compositores eram mais comedidos; basta pensar na enorme delicadeza e sobriedade de Edu Lobo & Torquato Neto: “Adeus, vou pra não voltar... E onde quer que eu vá, sei que vou sozinho...”

O gênero não é exclusivamente brasileiro; qualquer admirador do “blues” sabe que este não tem outro tema senão o abismo da depressão, principalmente para quem “wakes up in the morning” com a sensação quaderniana de que o mundo é um Cárcere e que nós todos somos Párias Degredados cumprindo uma obscura Sentença.

John Lennon produziu neste espírito a obra-prima “Yer Blues”: “I am lonely, wanna die, if I ain’t dead already, girl you know the reason why...” A canção de depressão é aquele ponto em que a alma do artista toca com o pé no fundo do poço e toma impulso de volta, na obstinada esperança de ver de novo a luz do dia, e de voltar a respirar.






quinta-feira, 10 de abril de 2008

0361) Dolores Duran (16.5.2004)




Tito Madi afirmou certa vez que a música de Dolores Duran e a dele próprio eram uma ponte entre a canção romântica de Francisco Alves e a canção da bossa-nova. 

De fato, era tipicamente da bossa-nova a delicadeza verbal e a visualidade das imagens que a gente encontra nas melhores letras de Dolores, como em “Estrada do Sol”, parceria com Tom Jobim: “É de manhã, vem o sol, mas os pingos da chuva que ontem caiu ainda estão a brilhar...” 

A simplicidade com que materializava emoções está destilada nos versos de sua clássica “A noite do meu bem”: “Quero a paz de crianças dormindo, o abandono de flores se abrindo... Quero a alegria de um barco voltando, quero ternura de mãos se encontrando...”

Viveu 29 anos apenas, dedicados à música. Cantora profissional desde cedo, foi “crooner” de orquestra, excursionou pelo mundo. O único CD seu que possuo é da série “2 em 1” e reúne dois elepês intitulados Dolores Duran canta para você dançar, 1 e 2. Dolores canta em inglês (“Only You”), italiano (“Nel blu dipinto di blu”), espanhol (“Que murmuren”), francês (“Viens”). 

Cantou em nordestinense também, pois viveu em plena apoteose do baião, gravando músicas de Luiz Vieira (“Na asa do vento”) e Chico Anysio (“A fia de Chico Brito”).

Sua especialidade, no entanto, eram as músicas de solidão: “Ai, a rua escura, o vento frio... Esta saudade, este vazio... Esta vontade de chorar...” (“Ternura antiga”, parceria com o pianista Ribamar). 

Seu tempo foi um tempo de boates, cigarro, uísque, madrugadas ao pé do piano, boemia pesada num Rio que era feudo masculino. Era baixinha, tinha rosto redondo, feições miúdas. Deve ter experimentado a melancolia que recai sobre as mulheres sem beleza e os homens sem audácia. Escreveu versos que não envelhecerão: “Eu quero qualquer coisa verdadeira: um amor, uma saudade, uma lágrima, um amigo... Ai, a solidão vai acabar comigo” (“Solidão”)

Sem o melodrama bombástico em que tantas vezes se transformam as canções de dor-de-cotovelo, Dolores sabia organizar em palavras nítidas o tumulto mental dos apaixonados: “A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer, briga pensando que não vai sofrer, que não faz mal se tudo terminar...” (“Castigo”). 

Dizem os amigos que, longe de ser a pessoa depressiva que suas músicas sugerem, era alegre, bem-humorada, mas seu romantismo era de um realismo a toda prova: “Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar: há um adeus em cada gesto, em cada olhar...” (“Fim de caso”).

Nasceu no subúrbio do Irajá, chamava-se Adiléa da Silva Rocha. Morreu em 1959, de parada cardíaca, depois de chegar de uma farra às 7 da manhã. Provavelmente subiu ao céu e, ao bater na porta, continuava com a esperança de que alguém a abrisse dizendo: “Entre, meu bem, por favor... Não deixe o mundo mau lhe levar outra vez. Me abrace, simplesmente: não fale, não lembre, não chore, meu bem.” (“Por causa de você”)