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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

4283) O Halloween e o Saci-Pererê (1.11.2017)



Todo ano vai chegando essa época e recomeça a discussão. Chamo a essas coisas “o carrossel das discussões”, porque é um debate cíclico, que nunca se resolve, e que volta todo ano, de acordo com as rotações do calendário.

Uma vez publiquei alguma coisa nas redes sociais curtindo o Halloween e o pessoal me castigou um pouquinho. Como é que eu, um defensor da cultura popular brasileira, um estudioso do folclore, e paraibano ainda por cima, posso gostar de uma comemoração americanizada como essa?

Tem muita gente incomodada com isso, porque não se trata nem de decoração das lojas nos shoppings. São as nossas escolas, que estão promovendo festinhas de Halloween para as crianças, essas mesmas escolas que não se dão o trabalho de lhes ensinar o que são a mula-sem-cabeça, o saci-pererê, o boitatá.

De fato, estes nossos duendes deviam ser mais frequentados e discutidos. Não só eles – outros igualmente interessantes como o bradador, o pé de garrafa, o corpo seco, a mulher do chapéu grande, e outros que mesmo alguns defensores de nossas mais arraigadas tradições nunca ouviram falar.

O que irrita muitos adversários do Halloween é o fato de que ele (como outras coisas) denota aquele nosso complexo de inferioridade deslumbrada diante dos EUA, aquela nossa fascinação viralata diante de tudo que é moda em Manhattan e em Beverly Hills. Concordo. É uma demonstração de que nascemos para entregar de graça nosso ouro e pagar pela bijuteria alheia.

E se formos de fato para o vamos-ver, o Halloween que se comemora em nossas capitais está na mesma prateleira dos Pokemons e Digimons, das festas temáticas de Princesinhas Disney, dos Guardiões da Galáxia, das Tartarugas Ninjas e do Bob Esponja.

Varrer isso da cultura urbana brasileira de 2017? É mais fácil proibir o consumo de Coca-Cola e de uísque escocês no país.

Meu interesse pelo Halloween não tem nada a ver com Brasil ou com Estados Unidos, não tem a ver com as fronteiras políticas dos países ocidentais neste instável começo de século 21. Tem a ver com jazidas profundas, não com os loteamentos da superfície.

O Halloween me interessa justamente porque gosto de ler sobre essa área tão canhestramente classificada como folclore. É uma jazida, como já falei. É material icônico-narrativo com mil anos de idade. Uma cartografia de parte do nosso inconsciente coletivo que se revela através de monstros, duendes, bruxas, magos, demônios, vampiros.

Para mim, o Halloween (o meu Halloween) é vizinho-de-porta da Geografia dos Mitos Brasileiros de Câmara Cascudo, uma das minhas obras de cabeceira. Vizinho-de-porta das bruxas de Goya, do romance gótico europeu, das lendas judaicas do Golem e do Dybbuk, e das lendas árabes dos Djinns e dos Efrites.

É esta, para mim, a área semântica e simbólica dessa festa, e se ela virou uma comemoração pasteurizada e comercializada, sem nada de Brasil, reclamem de quem fez o mesmo com o Natal e o São João.

O Halloween me traz à mente o País de Outubro de Ray Bradbury e as histórias de assombrações de Almirante, e não estou nem aí para a decoração das vitrines do Shopping da Gávea. Halloween pode ser estrangeiro, mas para mim não é Walt Disney: é feito dos romances de Stephen King e dos quadrinhos de Neil Gaiman – os quais, neste sentido estrito, não são americanos nem ingleses, são afloramentos de uma correnteza subterrânea que vem desde a Babilônia e o Egito.

Deveríamos celebrar com o mesmo entusiasmo nosso monstruário luso-afro-tupiniquim?  Sem dúvida, e de vez em quando estou aqui dando uma assopradazinha nessas brasas para que não se apaguem.  Não vejo contradição entre o Halloween estrangeiro e os monstros do nosso “folclore”. São todos consanguíneos. Pertencem a uma cultura anterior ao Mayflower e a Pedro Álvares Cabral.










quarta-feira, 9 de março de 2016

4071) "Good Omens" (10.3.2016)



Produzir um romance escrito a quatro mãos por Neil Gaiman (o criador de Sandman) e Terry Pratchett (o criador de Discworld) é um pouco como conseguir uma turnê mundial de vários meses juntando duas grandes bandas de rock. A questão não é tanto se os dois têm talento, é como fazer para que as coisas que cada um sabe fazer melhor possam sobressair, e deixar impressão mais forte do que a impressão de tédio inevitavelmente produzida pelos longos períodos em que apenas uma faixa da audiência estará sendo satisfeita e subindo pelas paredes, e os 90% restantes do público estejam achando aquilo sem pé nem cabeça e perguntando: “Mas o que diabo isto está fazendo aqui, e com que função?”.

Este romance em parceria é uma recontação da história famosa de Damien (do filme Omen, a Profecia), o novo Anticristo, a quem cabia nascer na família de um cônsul norte-americano (deixando-o a um grau de acesso ao poder), protegido por um mastim infernal, e tornando-se o desencadeador do Armagedon. No romance picaresco de Gaiman/Pratchett, dá-se a obrigatória troca de bebês. Parece que nem a introdução dos clones no século 21 fez os roteiristas pararem de escrever sobre troca de bebês.  E o Anticristo vai parar numa família totalmente diferente.

O humor do livro, que envolve tudo quanto é categoria religiosa e hermético-oculta, é uma espécie de O Pêndulo de Foucault com material mais light mas com ambições dramatúrgicas mais amplas. Trata-se, afinal, do Fim dos Tempos, conduzido pelo Anticristo e pelos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Claro que há agentes do Bem e do Mal com variados motivos para sabotar o evento (“Não Vai Ter Armagedon!”). Por sorte, dois dos mais entusiasmados defensores da pecadora humanidade são um demônio (Crowley) e um anjo (Azirafale) que conviveram conosco tempo bastante para entenderem que a vida dos seres humanos de carne e osso é alguma coisa imensuravelmente mais complicada do que conceitos como o Bem e o Mal – vistos naqueles termos.

Li pouca coisa de Terry Pratchett, mas imagino que haja mais a mão dele do que a de Gaiman neste livro, cujos milhares de piadinhas satirizando a vida inglesa lembram muito a série Discworld. É uma forma leve de humor satírico e mordaz, como a série Mochileiro das Galáxias.  Foi também a estréia de Gaiman no romance, e certamente o ajudou a tentar a literatura. Nada de mau em ser roteirista de HQ, mas quando um escritor tem qualidades de romancista é sempre bom ver os resultados. Good Omens (1990) é divertido, mas Gaiman o superaria com facilidade depois, principalmente com Neverwhere, American Gods, Graveyard Book.








quarta-feira, 24 de junho de 2015

3849) Kazuo e a fantasia (25.6.2015)



(ilustração: Tim McDonagh)

O escritor Kazuo Ishiguro publicou o romance The Buried Giant, que tem elementos do gênero fantasia, mas não o chamou de “fantasia”. Caiu sobre ele a avalanche de críticas que cai sobre quem “fica em cima do muro”, na política-partidária que tenta há anos se impor no meio literário (“ou você assume que é um dos nossos e concorda conosco em tudo, ou assume que é um deles e jamais concordaremos com você em coisa alguma”). Problema que já acometeu Kurt Vonnegut Jr. (que ousou dizer que não era escritor de ficção científica) e outros. O New Statesman colocou lado a lado Ishiguro e Neil Gaiman para trocar idéias num diálogo que pode ser lido aqui: http://tinyurl.com/ob4zlzu.

Neil Gaiman é macaco velho neste mundo, mas Kazuo (que nunca li, aliás) parece meio inseguro (essa foi infame) diante das leis do fandom. Os fãs exigem que o autor não apenas cultive o gênero, mas faça propaganda dele, defendendo-o junto aos infiéis em geral, do jeito que um militante tem que defender seu Partido. Ishiguro sabe que existem fórmulas nos gêneros, e dá um divertido exemplo com os filmes de samurai japoneses:

“Quando cheguei à Grã-Bretanha aos cinco anos uma das coisas que me chocavam na cultura ocidental eram as cenas de lutas de espadas em filmes como Zorro. O que eu conhecia era a tradição dos samurais, onde toda habilidade e experiência converge para um único instante que separa ao vencedor e o perdedor, a vida e a morte. Toda a tradição samurai é a respeito disso: desde os mangá até filmes de arte como os de Kurosawa. É parte da magia e da tensão de uma luta, no que me diz respeito. Mas então eu via pessoas como Basil Rathbone como o xerife de Nottingham e Errol Flynn como Robin Hood e eles tinham longas conversas enquanto batiam com as espadas uma na outra, e a mão que não estava segurando a espada fazia uma espécie de gestos vagos no ar, e a idéia parecia ser a de conduzir o adversário até a beira de um precipício enquanto o distraía com um longo diálogo expositivo a respeito do enredo do filme. (...) Nos filmes de samurai, os dois oponentes se encaram durante um longo tempo, então acontece uma violência com a rapidez do relâmpago, e acabou.”

Os escritores sérios veem os gêneros literários de maneira diferente dos fãs (essa terrível mutação transgênica dos leitores, criada pela indústria das celebridades). Para um escritor, um gênero literário é uma caixa de ferramentas, um conjunto de fórmulas e truques à sua escolha. Para um fã, um gênero é um conjunto de rituais a serem cumpridos, um conjunto de dogmas a reverenciar, um conjunto de experiências gozosas que ele quer ver repetidas indefinidamente.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

3777) A literatura da fome (2.4.2015)



Contos de fadas não são contos onde fadas aparecem. Os contos populares ou folclóricos, como os que foram recolhidos pelos Irmãos Grimm na Alemanha, e entre nós por Câmara Cascudo, Sílvio Romero e muitos outros, podem ter alguns perfis que não têm nada a ver com o “feérico” ou com o propriamente maravilhoso. 

Numa entrevista conjunta com Neil Gaiman concedida à revista Locus (2002), Gene Wolfe fala sobre os livros de “bad boys”, histórias sobre garotos que aprontavam, como Tom Sawyer. Ele comenta: 

“Os garotos modernos não conseguem imaginar que houve um tempo em que a maioria dos garotos vivia perpetuamente faminta. Eles acordavam com fome e iam dormir com fome.”

Muita da ação incessante de algumas novelas picarescas se deve ao fato de que o pícaro está mesmo se acabando de fome, e por isto as histórias onde atua são tão animadas.  Devido à fome ele vai à luta, sofre golpes, aplica golpes, corre riscos, trai concorrentes, sacaneia quem o ajudou, tudo porque a fome assassina que sente toma precedência sobre tudo. 

Neil Gaiman, pegando a deixa de Wolfe, completou:

“’João e Maria’ (‘Hansel e Gretel’) conta a história de uma família durante uma grande fome coletiva, quando eles não tinham comida bastante para duas crianças e dois adultos, e lamentavelmente iam ter que se livrar das crianças. É a respeito de duas crianças esfomeadas na floresta que praticamente tropeçam nessa casa feita de pão de gengibre. A trilha que eles deixam é devorada por pássaros famintos, e eles mesmos não demoram a ser apanhados por uma mulher que vê neles uma refeição em potencial. É uma história sobre fome.”

Por isso que tantos milagres desses contos, inclusive os do cordel, têm a ver com comida. 

Em seu Diário da Guerra do Porco (1969) Bioy Casares fala de um personagem que dorme à noite na casa de outra pessoa, e diz que de manhã, “como nos contos de fada, havia uma mesa posta à sua espera”. 

A mesa posta por mãos invisíveis diante do aventureiro que entra sem licença num castelo ou mansão; a toalha mágica que basta ser sacudida e estendida para se cobrir instantaneamente de vinhos e vitualhas. A garrafa que nunca se esgota, o prato que magicamente se renova.  

Para encerrar as histórias havia até a fórmula tradicional: 

“E o príncipe casou com a princesa, deram uma festa maravilhosa, eu fui, e quando voltei trouxe uns doces e uns salgadinhos para vocês, mas quando fui atravessar o rio escorreguei numa pedra, e caiu tudo na água e o rio levou!”  

A comida é mágica, é sagrada, é trazida por um pássaro para uma torre ou derrubada por um gremlin nas águas do rio, mas é sempre uma coisa encantada em si.







sábado, 6 de setembro de 2014

3596) Neil Gaiman e a escrita (5.9.2014)





Me perguntaram numa entrevista dias atrás se eu achava Neil Gaiman o melhor escritor da fantasia urbana (ou do “macabro insólito”, não lembro bem que rótulo foi usado).  

Falei que ele era excelente – mas não existe “o melhor”, isso é um conceito esportivo, hierárquico, aritmético, que tem tudo a ver com o esporte mas nada tem com a arte, pois esta se baseia em impressões pessoais e coletivas que mudam o tempo inteiro, e se assemelha mais ao mercado de ações, onde o valor é expresso em quantidades numéricas (dinheiro) mas é medido em fantasias subjetivas grupais (avaliações do mercado).  

Quando terminei de explicar, a repórter estava olhando para o microfone como se ele tivesse acabado de brotar ali na mão dela, e nunca me fez a segunda pergunta.

Resposta: sim, Neil Gaiman é um bom autor (seu eventual parceiro Gene Wolfe é melhor ainda) mas a razão de citá-lo é que eu o sigo no Twitter (@neilhimself), então estou mais exposto a irrelevâncias como ficar sabendo da agenda de noites de autógrafos dele por países inacessíveis, mas também a bate-papos ocasionais. 

Não só ele, sigo algumas dezenas de autores, mas ele é um dos que mais postam, juntamente com Jonathan Carroll e William Gibson. (Mas em surtos. Às vezes somem por semanas a fio.)

Vantagens da cultura digital, substituindo os hollywoodianos “escritórios de divulgação”, que ficavam liberando diariamente factóides sobre os astros seus patrões. Hoje o patrão precisa matar hora numa conexão atrasada e fica trocando idéias com anônimos que lhe perguntam sobre seus livros.  

Perguntado, Gaiman diz que seu filme favorito seria um desses: “If, The Manuscript of Saragossa, e All That Jazz”.  Nunca vi O Manuscrito de Saragoça, adaptação de Wojcieh Jersy Has para o polêmico, misterioso, multiforme e necronômico livro de Jan Potocki (se alguém souber um link pro filme, favor informar.)

Os outros títulos citados por Gaiman eu já vi. 

If, filme inglês de Lindsay Anderson, é sobre a revolta dos estudantes de uma daquelas terríveis escolas-internatos para adolescentes britânicos, um capítulo à parte na história do sadomasoquismo ocidental.  Vi esse filme depois de ter visto Zéro de Conduite de Jean Vigo, um filme parecidíssimo e diferente. 

All that Jazz é aquele filme sobre o diretor de um musical (Roy Scheider) que está pra morrer do coração mas mete o pé na jaca e pipoca o motor e dirige um espetáculo complicado em todos os sentidos. 

O que têm esses dois filmes a ver com a obra de Gaiman, de Sandman a O Livro do Cemitério? Aparentemente nada, e possivelmente alguma coisa, que não está óbvia nos livros mas que pode ser mais bem iluminada em retrospecto.




quarta-feira, 23 de julho de 2014

3558) Escrever por dinheiro (23.7.2014)



O escritor Neil Gaiman conta que no início de sua carreira, ainda pouco conhecido, recebeu um telefonema de uma editora propondo-lhe trabalho. Queriam saber se ele estava disposto a escrever um livro sobre um artista de rock, uma espécie de biografia. Ele se entusiasmou com a idéia e começou de cara a propor temas: Velvet Underground, David Bowie, Elvis Costello... A editora o interrompeu e disse: “Calma, não é você quem escolhe. Me diga: você quer escrever um livro sobre Barry Manilow, sobre o Def Leppard ou sobre o Duran Duran?”.  Gaiman acabou topando escrever sobre o Duran Duran, que era uma banda relativamente nova, porque, diz ele, “para escrever sobre Barry Manilow eu teria que escutar pelo menos uns 40 discos de Barry Manilow”.  O livro foi escrito, e é Duran Duran: The First Four Years of the Fabulous Five (1984).

Escritores principiantes têm às vezes uma idéia meio maniqueísta sobre os conceitos de trabalho artístico e trabalho comercial. O trabalho artístico seria aquele que “vem de dentro”, como se costuma dizer. Uma idéia que o artista tem por uma mera idiossincrasia pessoal, uma inspiração, um impulso, uma veneta soberana do seu Ego.  E o trabalho comercial seria aquele que ele faz por dinheiro, pressionado por pessoas de moral escusa que percebem o momento financeiramente fragilizado que ele vive; um trabalho que não se distingue da prostituição, da venda de favores sexuais para pagar o aluguel, o condomínio e o seguro do carro.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra, pessoal. O que a vida real nos propõe são situações próximas do episódio relatado por Gaiman. Na minha experiência, recebo o tempo todo propostas como aquela. Nem somos totalmente livres para escolher, pois se trata se um projeto alheio para o qual estamos sendo convidados, nem somos obrigados a aceitar tudo – há sempre uma margem de múltipla escolha onde podemos escolher o que mais nos agrada, ou o que menos compromete a nossa reputação. E, no caso do artista freelancer, existe a possibilidade de dizer: “Ih, rapaz, não achei muito interessante. Chama outra pessoa, mas na próxima vez me fala de novo, pode ser que role.”

O escritor profissional não vive apenas de ter idéias geniais na calada da noite, vive do telefone que toca às três da tarde convidando-o para fazer algo em que ele nunca tinha pensado. O profissionalismo começa no momento de aceitar ou não, de ter a coragem de recusar quando o trabalho não convém, e a disposição para fazer o melhor possível depois que aceita. Até mesmo as garotas do “trottoir” têm a chance de escolher se querem entrar no carro daquele cara, ou se acham que é uma roubada.


quinta-feira, 17 de julho de 2014

3553) A entropia do futebol (17.7.2014)



Há um livro, se não me engano de Neil Gaiman, em que o mundo está passando por um aumento da entropia.  Entropia é a medida da desorganização do Universo, em que há uma dissipação da energia e todas as coisas vão ficando mais caóticas e indiferenciadas. Quando a gente deixa uma xícara de café em cima da mesa, ela se degrada, esfria sozinha, perde energia. No mundo descrito por Gaiman, as fitas cassete com música gravada (clássica, popular, etc.) se guardadas por mais de duas semanas sem ninguém mexer nelas, se degradam – transformam-se todas em The Best of Queen.

O que me lembra um clássico da FC: Ubik de Philip K. Dick.  No universo em que vive o protagonista, acontece algo semelhante. O universo está involuindo, está sofrendo um aumento de entropia que faz as coisas se tornarem progressivamente mais antigas, mais atrasadas. A história se passa no futuro mas à medida que a entropia aumenta o personagem anda na rua e as pessoas começam a aparecer com roupas dos anos 1940, os carros viram carros daquela época, e assim por diante. Quando ele toma o remédio chamado “Ubik”, uma espécie de tônico miraculoso, aí tudo bem: carros, roupa, arquitetura, anúncios nas ruas, tudo volta a pertencer à época em que a história acontece.

Posso estar sendo pessimista, mas acho que estamos passando por um período ubikiano no futebol.  Esta Copa mostrou grandes times campeões do mundo jogando um futebol muitíssimo abaixo do que praticavam pouco tempo atrás, inclusive o Brasil.  Há uma diferença ubikiana entre nossa Seleção da Copa das Confederações e a da Copa do Mundo. O que dizer da fortíssima Espanha, campeã mundial em 2010, que chegou no Brasil e virou saco de pancadas, como se fosse uma espécie de Íbis?  Os grandes craques como Cristiano Ronaldo, Messi, Iniesta, etc., todos estavam atuando na Copa como versões bizarras de si mesmos. E não me venham falar dos poucos times ou poucos craques que jogaram bem. São a exceção que confirma a regra. (Se eu fosse rico destinaria alguns milhões de dólares ao sujeito que inventou essa frase, um 171 filosófico que permite à gente afirmar qualquer coisa e escapar impune.)

Nosso futebol, em especial, está passando por uma degradação espontânea, uma entressafra sem fim, uma fase Ubik, e urge descobrir o tônico fantástico que nos trará de volta ao jogo bonito que poderíamos estar praticando em 2014. Esta regressão entrópica, da qual nem a Seleção Brasileira escapou, está fazendo com que mesmo algumas das melhores equipes do mundo pisem no gramado para praticar um futebol bumba-meu-boi digno dos melhores (piores) momentos de algumas peladas da Concacaf ou da Oceania.


sábado, 14 de abril de 2012

2844) Reescrever um livro (14.4.2012)



(Neil Gaiman, por Mizzy Chan)

Grande parte das carreiras literárias são resultado de uma experiência inesquecível de leitura que faz alguém pensar: “Quero escrever assim também”. Ninguém começa a escrever sem ter lido algo que o emocionou, que lhe deu uma nova maneira de pensar, de ver as coisas. Jean-Paul Sartre, na infância, copiava à mão romances de aventuras, trocando os nomes dos personagens e algumas peripécias, e os assinava com seu próprio nome. August Derleth era um fã tão ardoroso das histórias de Sherlock Holmes que inventou um detetive praticamente idêntico, mas para poder publicar as histórias trocou o nome do personagem para Solar Pons. Outras vezes, a motivação pode vir de um livro ruim. Diz-se que Fenimore Cooper trabalhava como marinheiro e um dia, numa daquelas longas esperas a que os marinheiros são submetidos, estava lendo um livro de aventuras. A certa altura jogou-o para um lado dizendo: “Que coisa idiota, até eu seria capaz de escrever um livro melhor do que este”. Os amigos riram dele, fizeram algumas apostas, e Cooper escreveu O Último dos Moicanos.

Neil Gaiman, o autor de Sandman, falou numa palestra sobre a impressão que lhe causou a leitura de O Senhor dos Anéis de Tolkien. Totalmente arrebatado pela obra, diz ele, “cheguei à conclusão de que O Senhor dos Anéis era, provavelmente, o melhor livro que poderia ser escrito, o que me colocou numa espécie de sinuca. Eu queria ser um escritor quando crescesse. Não, não é verdade: eu queria ser um escritor naquele momento exato. E eu queria escrever O Senhor dos Anéis. O problema é que ele já tinha sido escrito”. Esse tipo de entusiasmo é resolvido, hoje, pela existência do que chamamos “fan fiction”, histórias escritas pelos fãs utilizando o universo e os personagens de uma obra que admiram. Prolongamentos, extensões amadorísticas de uma obra profissional em sua origem. É uma atividade ironizada por muita gente, mas que acho positiva, porque ajuda o jovem fã a treinar sua mão dentro de um contexto dramatúrgico que ele já conhece bem e onde sabe se movimentar.

Depois da fan fiction, entretanto, pode surgir a literatura profissional. Neil Gaiman não reescreveu Lord of the Rings, em compensação criou a série Sandman de quadrinhos e uma porção de ótimos romances, como Neverwhere, American Gods, The Graveyard Book. Será que são tão bons e tão historicamente importantes quanto obra de Tolkien? Não importa: são os livros de Gaiman, os livros que ele tirou de sua própria imaginação e de sua memória afetiva, livros modernos ambientados em Londres, nos EUA, em cidadezinhas imaginárias... Livros que Tolkien não poderia ter escrito.

terça-feira, 25 de maio de 2010

2074) “The Graveyard Book” (31.10.2009)




Este livro de Neil Gaiman andou ganhando prêmios importantes (Hugo, Locus, Newbery) e se não me engano é o seu primeiro romance para “jovens adultos” (um termo inglês que acho preferível a “infanto-juvenil”) depois do ótimo Coraline, que resultou inclusive num bom filme.

The Graveyard Book, ambientado numa cidade inglesa qualquer, começa com a chacina noturna de uma família inteira: pai, mãe e filha pequena. Há um bebê de um ano e meio que, por distração do criminoso e conveniência do autor, sai do berço ao ouvir o barulho, caminha pela casa, vê a porta da frente aberta e sai caminhando na direção do cemitério que fica na esquina. Ali é acolhido pelos fantasmas dos mortos, que o protegem do assassino no momento em que este, precisando “terminar o serviço” segue o bebê até o Campo Santo. O garoto recebe o nome de Nobody Owens e daí em diante é criado pelos fantasmas.

Neil Gaiman é uma espécie de Stephen King com todas as qualidades deste e sem alguns dos defeitos (a morbidez excessiva, e alguns recursos de enredo muito “crus” herdados da pulp fiction). The Graveyard Book é a crônica do crescimento de Nobody Owens, ou “Bod” e das aventuras que ele vive no cemitério e fora dele.

Gaiman afirma ter se inspirado no Livro da Jângal de Kipling, a história de Mowgli, o menino criado na floresta pelos lobos. Isto não me ocorreu durante a leitura, mas, em retrospecto, dá para ver as semelhanças. Em Kipling, temos uma humanização dos animais, cujas emoções e valores morais são semelhantes aos nossos. No Graveyard Book todos os fantasmas são humanos, mas são de épocas diferentes: do tempo dos celtas, dos romanos, da Idade Média, etc.

O mundo de Neil Gaiman tem uma linha direta de diálogo com os contos de Ray Bradbury em obras como O País de Outubro e Uma Estranha Família. Não são propriamente histórias de terror, porque seu objetivo não é aterrorizar. São crônicas nostálgicas, humorísticas, ou emotivas, que têm lugar em ambientes ocupados por fantasmas, vampiros, ogres, lobisomens, etc. Como as obras de Bradbury, as de Neil Gaiman podem ser lidas tanto por garotos quanto por adultos, pela finura de sua observação, pela simplicidade e elegância do estilo, pela imaginação incessante que desencava surpresas a toda hora.

Outro paralelo que pode ser feito é com os filmes de Tim Burton, principalmente Edward Mãos de Tesoura, Beetlejuice, O Estranho Mundo de Jack e A Noiva Cadáver. Gaiman e Burton compartilham essa zona crepuscular da imaginação em que crianças convivem com medo mas sem traumas por entre esqueletos, vampiros, bruxas, lobisomens, fantasmas.

Ninguém é tão vulnerável ao terror quanto uma criança, para quem tudo é real e qualquer coisa é possível. Não há crianças cientistas, marxistas, agnósticas. Toda criança é um homem primitivo para quem um cemitério é um lugar tão fervilhante de vida quanto a rua por onde caminha, a escola onde estuda. Toda criança é uma casa mal assombrada.





quarta-feira, 12 de maio de 2010

2034) Censura e pedofilia (15.9.2009)



(desenho de Mike Diana)

A Censura da ditadura militar criou, na minha geração, a idéia meio difusa de que Censura é coisa do diabo, que toda censura é coisa ruim, é um valor negativo absoluto. Eu vario de opinião. Hoje, por exemplo, ando meio a favor de Censura sobre obras que divulguem o Nazismo, façam propaganda do Nazismo, incitem ao ódio racial. Sou a favor da existência da censura em casos especiais. Posso até vir a mudar de opinião, mas em princípio acho que esse pessoal tem que ser reprimido.

O escritor Neil Gaiman divulgou há algum tempo um documento contra a Censura que foi exercida contra o quadrinhista Mike Diana, por causa de sua HQ “Boiled Angels”. Diana foi acusado de pedofilia, e, segundo Gaiman, foi condenado a três anos de prisão (com recurso suspensivo), multa de 3 mil dólares, ficou proibido de permanecer no mesmo recinto que qualquer pessoa com menos de dezoito anos, teve que prestar mil horas de serviços comunitários, e foi proibido de desenhar temas obscenos. Além disso, a polícia local recebeu autorização para fazer buscas sem aviso prévio em sua casa, para verificar se ele estava produzindo material pedófilo. Foi neste ponto que Neil Gaiman (ele próprio afirma) decidiu que “assim também é demais também”. E fez um protesto público no seu blog.

Diz Neil Gaiman: “Se eu gosto ou não do que Mike Diana desenha é irrelevante. Mas, por que vale a pena defendê-lo? Porque a liberdade de escrever, de ler, de possuir material que vale a pena defender implica em ter que defender coisas que a gente não gosta e chega a achar desagradáveis, porque as leis são instrumentos sem sutileza que não distinguem entre o que eu gosto e o que não gosto, porque os juízes são humanos e têm seus preconceitos como qualquer humanos, além de estarem sempre disputando reeleições, e porque o que uma pessoa chama de obscenidade outra chama de arte”.

Note-se que, pelo que foi divulgado, o desenhista não seduziu menores nem violentou crianças, ele apenas escreveu e desenhou uma história. Vi alguns quadrinhos de Mike Diana na Internet e achei de mau gosto, mas, tirando o sexo explícito (gente nua, gente transando, etc.), não é nada mais agressivo do que se vê nos quadrinhos e até em algumas coisas da TV, como “South Park”. Comparado a muitos cidadãos respeitáveis (médicos, políticos, etc.), que um belo dia são descobertos violentando ou seduzindo crianças, o que Mike Diana fez foi uma espécie de exorcismo público dos seus próprios fantasmas. Parece que quando o cara tem uma “tendência” e pode se expressar publicamente sobre ela, isso já lhe basta, porque a “tendência” é na verdade uma fantasia puramente mental, que pode ser satisfeita por meios puramente mentais como a criação artística, sem precisar chegar às “vias de fato”. Quando o cara não pode confessar que gosta daquilo, ele reprime, esconde, sufoca, mas a coisa é muito forte, cresce, vira um Monstro, enquanto o Médico continua tocando sua vida de cidadão acima de qualquer suspeita.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

0708) As idéias de Neil Gaiman (25.6.2005)



Em seu blog pessoal, Neil Gaiman, autor de Coraline e de Deuses Americanos, comentou recentemente a pergunta que se faz aos escritores: “De onde você tira suas idéias?” Ele faz um interessante “balanço” das fórmulas preferidas por quem pratica a literatura fantástica, principalmente nos quadrinhos ou nas histórias infanto-juvenis. A mais famosa delas é “E se?...” (“What if...?”). E se um dia você acordasse e descobrisse que tinha asas? E se sua irmã virasse um rato? E se você descobrisse que seu professor estava planejando matar e comer um dos alunos da turma, mas você não soubesse qual deles? Outra pergunta eficaz é “Se ao menos...” (“If only...”). Se ao menos a vida real pudesse ser como um musical de Hollywood. Se ao menos eu pudesse diminuir até ficar do tamanho de um botão. Se ao menos eu tivesse um fantasma que viesse fazer meu dever-de-casa.

Outra pergunta que dá um bom ponto de partida, segundo Neil Gaiman, é “Fico imaginando...” (“I wonder...”). Fico imaginando o que será que ela faz quando está sozinha em casa. Outra muito boa é “Se continuar assim” (“If this goes on...”). Se continuar assim, daqui a pouco os telefones vão estar conversando uns com os outros e dispensando os intermediários, e também “Não seria interessante...?” (“Wouldn’t it be interesting...?”). Não seria interessante se o mundo tivesse sido um dia governado pelos gatos?

Perguntas assim são as que os escritores de FC se fazem constantemente. O escritor tradicional costuma começar com uma história ou com personagens. O escritor de ficção fantástica começa com uma idéia fora-do-comum; os personagens e a história vêm depois. São duas atitudes literárias completamente diversas: a primazia dos personagens e do estilo, e a primazia da história. Há pessoas capazes de saborear estes dois modos (eu me considero uma delas), mas por uma certa especialização mental que ocorre na juventude há pessoas que parecem totalmente incapazes de enxergar valor num dos dois.

Há leitores de Isaac Asimov que não suportam Machado de Assis: “Toda história do cara é igual, é só triângulo amoroso, adultério...” E vice-versa: “Esse Asimov escreve muito mal, os personagens mudam de nome mas são todos idênticos”. São os pontos extremos de uma escala de visão: um só enxerga o infravermelho, o outro só enxerga o ultravioleta. Se o livro não tiver nenhuma criatividade na freqüência de onda a que o leitor está acostumado, não adianta ser uma obra-prima em outras áreas, porque esse leitor específico nem vai perceber.

No caso de Neil Gaiman, que trabalha com quadrinhos, literatura infanto-juvenil e literatura fantástica, é inevitável que suas idéias iniciais tenham este cunho fantástico, meio absurdo. É o universo de Kafka, Lewis Carroll. Cada uma das idéias acima pode resultar num bom ou mau livro, mas alguns leitores sentem, instintivamente, que “a idéia é legal”, que tem tudo para resultar numa história diferente e que diga algo de novo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

0699) Deuses Americanos (15.6.2005)



Recomendo a quem gosta de literatura fantástica o romance de Neil Gaiman Deuses Americanos, lançado recentemente pela Conrad Editora. Gaiman é mais conhecido como roteirista da série de quadrinhos Sandman, mas de dez anos para cá tem publicados vários romances. Coraline, uma história de terror para crianças, é muito bom. Este American Gods também. A premissa do livro é que os antigos deuses e criaturas mitológicas européias se transportaram para a América do Norte durante a colonização, mas estão decadentes e sem poder. Eles andam pelas ruas, transformados em pessoas de carne e osso; têm uma enorme longevidade, mas podem morrer, tanto de morte-morrida quanto de morte-matada. E estão travando uma batalha feroz contra os Novos Deuses: os deuses da Mídia Ambiente, ou seja, da publicidade, do cinema, da TV, etc.

Gaiman é um escritor fluente e ótimo contador de histórias. Uma espécie de Stephen King sem a morbidez doentia que King muitas vezes tem, uma vontade de espremer até o fim o suco de terror e repulsa que uma cena pode fornecer. Gaiman oferece uma boa quantidade de imagens arrepiantes, mas concede apenas uma dúzia de linhas a elas, não mais, e segue em frente – o que me parece literariamente mais eficaz. O livro conta a história de Shadow, um sujeito que ao sair da prisão depois de uma pena leve por assalto vê sua vida familiar destruída e logo depois é contratado como guarda-costas de um sujeito que parece ter poderes sobrenaturais e está sendo perseguido por mafiosos igualmente estranhos.

A humanização dos deuses nórdicos, eslavos, africanos, etc. é um dos aspectos mais interessantes do livro, porque o autor consegue nos dar a idéia de que esses personagens têm poderes imensos e ao mesmo tempo são tão frágeis, complicados e indefesos quanto nós. Eles podem muita coisas que não podemos; mas não podem tudo. Eles também têm que “ir à luta”, têm que “batalhar pelo seu espaço”, etc. O mundo sobrenatural é tão competitivo quanto um escritório ou um mercado financeiro. Gaiman (que é inglês) tem um olho crítico muito arguto para certos aspectos da vida americana: os museus e atrações surrealistas de beira-de-estrada, a cidadezinha pacífica mas cheia de terrores sob a superfície ao estilo Twin Peaks, os golpes e falcatruas dos vigaristas profissionais. Tudo isto é misturado à narrativa sobrenatural com a mesma eficiência de um Tim Powers.

Cultura pop e mitologia milenar são duas galáxias em lenta colisão nos últimos cem anos da Literatura. São dois universos que à primeira vista não têm nada a ver um com o outro, mas que são gerados pelo mesmo impulso humano: o de fantasiar, criar um panteão imaginário de seres excepcionais, que nos servem de espelho, modelo, farol, alerta ou ameaça. O livro de Gaiman deveria interessar a quem gosta de ler sobre mitos. É o mesmo universo de Câmara Cascudo, Joseph Campbell, Miracea Eliade, J. G. Frazer, Umberto Eco (cultural medieval + cultura de massas).

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

0565) “Os Incríveis” (9.1.2005)



Assisti o desenho animado Os Incríveis, que recomendo a quem quer que tenha gostado de Toy Story e da série Pequenos espiões de Roberto Rodríguez, com Antonio Banderas. É uma mistura dos dois. Super-heróis correspondem ao perfil unidimensional da cultura de massas. Cada um é identificável por um superpoder: Fulano incendeia, Sicrano congela, Beltrano é super-veloz, Fulano tem visão de raio-X.... Fáceis de identificar e de catalogar, mais fáceis ainda de inventar.

Os Incríveis é para a galera de 8 ou 10 anos. Para a galera de 12 ou 15 anos, tem a série X-Men, que pega os mesmos personagens mas já projeta neles uma dose mais adolescente de violência, dramas psicológicos, um certo erotismo. Uma experiência recente e curiosa com esses personagens da Marvel Comics é a série em quadrinhos 1602, escrita por Neil Gaiman, mostrando o aparecimento de mutantes equivalentes aos X-Men, com os mesmos superpoderes, na Inglaterra elizabetana.

O que me levou a matutar: existem histórias de heróis com superpoderes escritas para adultos? Superpoderes físicos e mentais equivalentes aos dos X-Men? O que me vem logo à mente são clássicos da ficção científica como O Homem Invisível de H. G. Wells, ou o magnífico romance de Robert Silverberg sobre um telepata, Uma pequena morte (Dying Inside, Editora 34). Mas são, afinal de contas, histórias de ficção científica, onde os autores estão trabalhando dentro dos limites do gênero. Mesmo sendo grandes escritores, como é o caso, trabalham com um olho no texto e outro no contexto, nas regras não-escritas do gênero.

Na literatura fora das fronteiras de gêneros, encontram-se excelentes histórias de super-heróis. Lembro o formidável Grenouille criado por Patrick Suskind em O Perfume (Ed. Record), o sujeito que tinha o olfato mais sensível do mundo, capaz de distinguir milhões de cheiros a quilômetros de distância. Há O Passa-Paredes de Marcel Aymé, um sujeito capaz de atravessar paredes sólidas. Não sei se posso incluir nesta lista o protagonista de O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, um sujeito cujos orgasmos são tão intensos que atraem bombas V-2 e mísseis para o local onde ocorrem. Há o protagonista de Fermata, de Nicholson Baker (Cia. Das Letras): um sujeito capaz de imobilizar o tempo, deixando as pessoas “congeladas” como estátuas, situação da qual ele se serve para, digamos, divertir-se inocentemente com as senhoritas à disposição de suas fantasias. Há Funes, o Memorioso de Jorge Luís Borges, o ujeito que tem memória total e é capaz de recordar tudo que viu, sentiu e pensou em cada segundo de sua existência.

Pessoas com super-poderes fazem parte de nossas fantasias e de nossa cultura. O cinema e os quadrinhos geralmente se concentram nas possibilidades de espetáculo e ação física que sua condição acarreta. A literatura explora sua carga mítica, suas fraturas psíquicas, suas inesgotáveis conexões simbólicas.