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sexta-feira, 27 de junho de 2025

5187) Esse artista é meu (27.6.2025)




 
É uma discussão que ferve por aí desde o tempo de Adão e Eva: por que motivo nos sentimos incomodados quando um artista que admiramos passa a ser admirado / consumido / incensado por gente “que não tem nada a ver”? 
 
(Primeira digressão: escrevi “desde o tempo de Adão e Eva” mas tecnicamente eu deveria jogar essa referência para o momento da primeira obra de arte registrada no Livro do Gênesis, coisa que não consigo situar... Qual seria?) 
 
Há distorções que são óbvias e chegam a ser caricaturais. Lembro muito bem da cara de dignidade ofendida de um amigo meu, comunista, setentão, nordestino, me mostrando no smartphone uma passeata de bolsonaristas cantando “Pra Não Dizer Que Não Falei De Flores” de Geraldo Vandré, a Marselhesa esquerdista de nossa mocidade. 
 
Um incômodo mais sutil é o que acomete o pequeno fã-clube de algum artista de real talento que durante alguns anos só se vê reconhecido por esse núcleo fiel. Eles compram e divulgam seus livros, ou comparecem aos seus shows, peças, filmes. Vão aos poucos se solidificando num grupo onde todos são devotos e especialistas. Trocam informações entre si, reúnem-se para conversar sobre o artista, estão confortavelmente instalados numa comunidade que os aproxima e aconchega. 



(Os Ramones no metrô, foto de Bob Gruen)

 
E então alguma combinação de circunstâncias faz com que o “seu” artista seja revelado a esse ogro de mil cabeças, estúpido, insaciável, chamado O Grande Público. O escritor que vendia 20 mil livros passa a vender 700 mil. A banda de garagem que tocava em pequenos clubes agora está nos Lollapalooza e outros festivais, com turnê marcada na Europa. Ou seja, venderam a alma – não ao Diabo, com quem até Robert Johnson se entendia; mas ao Capitalismo, que é muito pior, porque existe. 
 
E de uma hora para outra os conhecedores-a-fundo e apoiadores-sinceros daquele Artista se veem atropelados por uma multidão de neófitos que ouviram cantar o galo mas não sabem onde, o que não os impede de ter opiniões exageradas e ruidosas sobre a afinação do galo e o giro da rosa-dos-ventos. E não adianta alguém dizer: “Eu acompanho esse artista há dez anos.” A resposta vai ser: “E daí?”.  
 
Penso nisso de vez em quando quando os meus Artistas obscuros são descobertos pela imprensa cultural ou, pior ainda, pela televisão. Ou, ainda pior, por influênceres que se baseiam em seus seis meses de experiência para emitir julgamentos definitivos sobre algum assunto em que eu queimo as pestanas desde quando tinha apenas o dobro da idade deles. 
 
A relação artística pode ser reduzida, de início, a um triângulo: Autor / Obra / Leitor (vou chamar só “leitor”, para simplificar).  Nunca é um triângulo equilátero, há sempre alguma dupla de pontos mais próxima, mas não importa: a área delimitada por estes três é o início de toda apreciação estética. 
 
Quando um quarto ponto se mete... essa área ganha outro tamanho, outra direção, outro significado. E aquele território que eu imaginava estar sob meu controle de repente não está mais. O playground aumentou de tamanho mas está cheio de gente esquisita que eu não conheço. (“Eu”, no caso, não tem que ser necessariamente a minha pessoa; é o grupo-de-consenso do qual eu faço parte.) 



(Bob Dtlan no estúdio, foto de Daniel Kramer)

 
Quando Bob Dylan se afastou da canção de protesto, aderindo à guitarra elétrica e ao rock, mais do que a repulsa ao estilo pop o que se viu foi a fúria dos que achavam que tinham um artista sob sua jurisdição: “Você vai fazer o que nós gostamos; você é nosso.” E Dylan (camaleônico, escorregadio, elusivo) não estava interessado nisso. 
 
Um artista tem sucesso sólido e permanente quando sabe (e consegue) conciliar a convivência entre o “núcleo duro” de seus fãs primeiros e fiéis, e essa vasta periferia dos que chegaram muito depois mas são muitíssimos mais. 
 
A psicologia do fã-raiz tende a ser ditatorial, se lhe derem muita corda. Não é apenas o fã bobinho das bandas pop. Os fãs intelectuais podem ser igualmente emocionais e possessivos. Quando Umberto Eco estourou vendendo milhões de cópias de O Nome da Rosa surgiram (na Europa, principalmente) protestos furibundos de semiólogos que se julgavam traídos porque seu ídolo estava agora “escrevendo romances comerciais para ficar rico”. 



(Kathy Bates, em Misery de Rob Reiner) 

 
Claro que nada se compara ao fã-medusa, aquele que tenta petrificar o Artista amado. Sua encarnação mais górgona é Annie Wilkes, a personagem interpretada por Kathy Bates no filme Misery (Rob Reiner, 1990), baseado no livro de Stephen King. Ela não apenas sente-se dona do Artista: sente-se patroa. Sente-se capacitada a dizer-lhe o que deve escrever, e de que modo. É o caso extremo em que o rival não são os outros fãs, mas o próprio Artista, quando teima em ser ele mesmo e fazer somente o que quer. 




Um caso igualmente extremo, mas mais sutil do que o da história de Stephen King, é o do conto “Queremos Tanto a Glenda”, de Julio Cortázar, na coletânea do mesmo nome (creio que no Brasil saiu como Orientação dos Gatos, Nova Fronteira, 1981). 
 
Nele, Cortázar põe em cena uma nova versão, silenciosamente maligna, do Clube da Serpente, o círculo de intelectuais expatriados que, em O Jogo da Amarelinha (1960) devora e discute exaustivamente a obra teórica de um tal Morelli, sem saber que se trata de um velhinho obscuro que mora não muito longe deles. 
 
Neste conto, porém, trata-se de um grupo de admiradores da atriz de cinema Glenda Garson (uma homenagem explícita a Glenda Jackson). O grupo surge espontaneamente, porque começam a avistar-se uns aos outros no cinema antes e após as sessões, reconhecer-se, cumprimentar-se, sair depois do filme para um café ou um trago. E assim forma-se “a aliança, aquilo que depois todos chamamos de o núcleo e os mais jovens o clube” (trad. BT). 
 
(Nova digressão: O inesgotável Kurt Vonnegut propôs em seu romance Cat’s Cradle (1963) os conceitos de wampeter e de karass. Um wampeter é um ser que se torna o foco de atenção e devoção fanática de um grupo de pessoas, o karass. Essas pessoas giram em órbita ao redor dele (órbitas espirituais, claro). Exemplos de wampeter podem ser uma idéia, um livro, o Santo Graal...) 




Pois bem, no conto de Cortázar, o karass que se reúne em torno da imagem de Glenda Garson percorre todos os caminhos previsíveis dos fãs com um objetivo em comum: os encontros casuais, depois os encontros combinados, as visitas recíprocas, as infindáveis discussões sobre os incontáveis detalhes... Até que as discussões chegam a um ponto crucial. 
 
Somente pouco a pouco, a princípio com um sentimento de culpa, alguns se atreveram a deslizar críticas parciais, o desconcerto ou a decepção frente a uma sequência menos feliz, as quedas no convencional ou no previsível. (...) Começávamos a sentir que nosso carinho por Glenda ia mais além do mero território artístico e que somente ela se salvava do que imperfeitamente faziam os demais. (...) De repente os erros, as carências, nos pareceram insuportáveis; não podíamos aceitar que Nunca Se Sabe Por Quê terminasse assim, ou que O Fogo da Neve incluísse a infame sequência do jogo de pôquer (na qual Glenda não atuava, mas que de alguma maneira a maculava como um vômito, esse gesto de Nancy Philips e a chegada inadmissível do filho arrependido). 
 
Esses cinéfilos radicais dedicam-se, então a aperfeiçoar as obras em que sua musa atuou, para que em torno dela não existisse nada que não fosse a perfeição. São pessoas de recursos, isso não se discute. Um deles “havia sido sócio de Howard Hughes no negócio das minas de estanho em Pichincha”, de modo que dinheiro, jatinhos e tecnologia não são problema. Outro dispõe de “um computador” (o conto é de 1980). 
 
E eles põem mãos à obra. Localizam todas as cópias (numa época em que o cinema era 100% em celulóide) dos filmes de Glenda, extraem as cenas que lhes desagradam, refilmam (provavelmente com dublês) outras cenas de acordo com seus critérios... Ninguém (quase ninguém) percebe o deep fake que está sendo elaborado. 
 
A memória brinca com seus depositários e os faz aceitar suas próprias permutações e variantes, talvez a própria Glenda não tivesse percebido a mudança, e sim, porque isto todos nós percebemos, a maravilha de uma perfeita coincidência com uma recordação lavada de escórias, exatamente idêntica ao desejo. 
 
Glenda se aposenta das telas, o que parece coroar o esforço do fã-clube: sua obra agora está redonda, esférica, perfeita. Mas um dia a atriz resolve voltar a filmar, e isto é uma ameaça. A obra atingiu a perfeição: fazer um filme novo, agora, seria submeter-se aos erros, às influências da mediocridade alheia. O que fazer, então? E o narrador conclui: 
 
Quando Diana pousou a mão no braço de Irazusta e disse: “Sim, é a única coisa que nos resta a fazer”, falava por todos sem necessidade de nos consultar. (...) Saímos separados, cada um conduzindo seu desejo de esquecer até que estivesse tudo consumado, e sabendo que não seria assim, que ainda nos restaria abrir o jornal em certa manhã e ler a notícia, as estúpidas frases de consternação profissional. 
 
Ninguém é mais cruel do que um fã, ninguém é tão capaz de destruir a carne-e-osso do ser amado para manter intacta a imagem idealizada que tem dele. 
 
H. G. Wells tem uma crudelíssima parábola, “A Pérola do Amor” (1925; incluído na coletânea “O País dos Cegos e Outras Histórias”, Alfaguara, 2014, trad. BT) em que um príncipe indiano perde a jovem e linda esposa, por quem era apaixonadíssimo. Decidido a manter viva sua lembrança, ele gasta seus tesouros na construção de um palácio perfeito, chamado A Pérola do Amor. O corpo da princesa, num sarcófago de alabastro, é colocado bem no centro, e em volta dele começam a ser erigidas paredes, colunas, ornamentos arquitetônicos, com os materiais mais raros. 
 
Mas o príncipe não fica satisfeito. Embora todos digam que se trata do mais belo palácio já construído, ele todo dia acha um defeito aqui, outro acolá. O palácio está quase perfeito e ele não tem sossego. Um dia, ele pára por um longo tempo, olhando aquela maravilha, e por fim estende o braço e aponta com o dedo o sarcófago onde repousa a princesa, dizendo apenas: “Tirem essa coisa daí”. 




 
 
 





domingo, 6 de junho de 2021

4711) O que é "fansplaining" (6.6.2021)



Os dicionários urbanos dos anos mais recentes registraram uma palavra de origem inglesa que logo se fixou no uso geral: mansplaining. É formada por “man” (homem) e “explain” (explicar).
 
Refere-se ao hábito (irritante, de fato) dos homens que se sentem no dever de explicar um assunto difícil a uma mulher, mesmo quando ela notoriamente entende daquilo tão bem quanto eles, ou melhor.
 
Não importa se a mulher tem 55 anos e é doutora em teatro elisabetano, e o homem tem 30 e acabou de ler uma peça de Shakespeare pela primeira vez. O simples fato de ela ter mencionado o dramaturgo no meio de um bate-papo no jantar da casa de alguém é o bastante para o cidadão passar a explicar a ela que nem tudo que se atribui a Shakespeare deve ser levado ao pé da letra, porque é bem provável que um tal de Francis Bacon tenha escrito aquelas peças, porque sobre Bacon sabe-se muita coisa, enquanto que Shakespeare era um sujeito anônimo, com poucas referências biográficas, então a lógica nos leva a admitir que ele deve ter servido de testa-de-ferro para que os textos de Bacon fossem encenados, porque---
 
E por aí vai, até ele recitar de memória um artigo que leu na Superinteressante.
 
Todo homem (inclusive eu) já incorreu nesse tipo de descortesia, cuja raiz está na suposição de que os homens sabem de tudo e as mulheres não sabem de nada. O mansplaining é um tipo específico de paternalismo. Pode se dar de forma agressiva, humilhante, mas muitas vezes se dá com trajes de boa vontade, de solicitude, uma atitude meio paternal por parte de um intelectual grisalho e estabelecido, que se dispõe a contradizer e esclarecer uma senhorita mais jovem, mostrar os pontos onde ela está errada, ensinar-lhe o caminho certo, a realidade das coisas.
 
Só não faça como aquele sujeito que depois de uma sessão como essa, sobre um tema científico qualquer, aconselhou a jovem: “Para entender melhor, leia o livro da Doutora Fulana de Tal”, e ela respondeu: “Eu sou a Doutora Fulana de Tal”.
 
Nos últimos tempos surgiu um termo derivado: fansplaining. É quando um fã de uma coisa qualquer (banda de rock, série de TV, gênero literário, etc.) julga-se o grande conhecedor de todos os meandros e todos os detalhes daquele assunto, mas movido por um espírito de generosidade se dispõe a dar explicações de 45 minutos sobre qualquer detalhe que por acaso alguém mencione erradamente no meio da conversa.


– Pois é... Existe uma mania de dizer que a obra dos Beatles é apolítica, que só fala de amor e de bobagens psicodélicas. Eles esquecem uma música como “Revolution”, onde Lennon dizia claramente que ---
 
– Sim, mas a qual “Revolution” você se refere? Não deve ser “Revolution 9”, que é uma colagem de sons.
 
– Não, é a outra, o lado B do compacto de “Hey Jude”.
 
– Sim, mas é esta gravação do compacto, ou a que foi chamada “Revolution 1” e saiu no “Álbum Branco”?
 
– É a mesma música.
 
– Perdão, não é. São gravações diferentes de uma mesma idéia, com diferentes mixagens, alterações na letra... Uma foi gravada entre maio e junho de 1968, e a outra em julho.
 
O fã é uma mistura de aluno CDF e de concorrente a programas como O Céu é o Limite. Decora vorazmente livros e mais livros sobre um assunto, na esperança de que alguém pergunte de repente no meio de uma conversa: “Quem foi mesmo o ator que fez o papel de Calígula em O Manto Sagrado, alguém sabe?...”  e ele vai pigarrear discretamente e dizer em tom casual: “Ora, ora, não terá sido Jay Robinson?...”


Demonstrar conhecimento factual é mais importante para o verdadeiro nerd do que defender uma opinião subjetiva, mas ele não recua diante desta outra possibilidade. Como ele sabe milhares de fichas técnicas de cor, acha que isso o capacita a ter poder de veto sobre as opiniões alheias. Mesmo sobre as do artista cuja obra está em discussão.


O escritor Neil Gaiman está agora às voltas com esse problema, porque sua série de quadrinhos The Sandman está para ser adaptada numa série de TV, e ele está aguentando o fansplaining de alguns admiradores sobre o que a série pode e não pode fazer, sobre as características raciais ou de gênero dos personagens que ele próprio criou, sobre o desenvolvimento dos argumentos, etc. e tal.
 
Gaiman se dá o trabalho de passar parte do dia nas redes sociais explicando que quis dizer isso e não aquilo quando escreveu as histórias, que criou os personagens deste ou daquele jeito... No fundo, ele sabe que é impossível criar uma obra, vê-la sendo lida por centenas de milhares de pessoas, e esperar que essas leituras sejam todas parecidas com a dele. Não é assim que funciona.
 
O autor não pode impor uma leitura única sobre a obra que escreveu, mas se ele que é o autor não pode, por que um fã poderia?
 
A função da obra é produzir (voluntariamente ou não) uma multiplicidade de leituras divergentes, convergentes, discordantes, contraditórias, complementares, mutuamente reveladoras... É assim que a criação literária (e artística em geral) se impregna na cultura de seu tempo e permanece viva.
 
Para isso ela precisa de leitores, de críticos e de fãs. Críticos e fãs são dois conjuntos que hoje em dia se interseccionam cada vez mais, numa época em que milhões de fãs produzem blogs (como é o meu caso com o Mundo Fantasmo), podcasts, canais do YouTube, etc., para divulgar suas opiniões.
 
Uma obra sobre a qual todo mundo esteja de acordo é uma obra que nunca será checada, relida, reavaliada, discutida, questionada, atacada, defendida, mantida viva e acesa na memória das pessoas, 100 ou 200 anos depois de aparecer.
 
O autor desencadeia esse processo. Ele tem todo o direito de discordar de algumas interpretações do seu texto, mas não pode sonhar em ter todas elas sob controle.
 
Por isso eu admiro a cara de pau, a singeleza e a tranquilidade de Gabriel Garcia Márquez quando se refere às discussões dos críticos de Cem Anos de Solidão:
 
Todo bom romance é uma adivinhação do mundo. Os críticos assumiram, por sua conta e risco, a grave responsabilidade de decifrá-los, e é preciso esperar que o façam. Não me refiro, é claro, às incontáveis alusões de caráter privado que há no meu livro, e que somente meus amigos íntimos podem descobrir: que cada data corresponde ao aniversário de alguém, que uma personagem tem o mesmo temperamento da minha mulher, que os nomes que alguém pretende pôr nos filhos são os nomes dos meus filhos... e mais mil coisas que é impossível descobrir pela simples leitura do romance. O que me alarma, por outro lado, é que ninguém tenha assinalado uma só das 42 contradições que eu mesmo descobri depois de publicar o livro, nem os seis erros graves que me foram indicados pelo tradutor italiano, e que não vou corrigir nas futuras edições, nem nas outras traduções, porque não seria uma atitude honesta.
 
(entrevista a Armando Durán, Revista Nacional de Cultura, Caracas, setembro de 1968)
 


 




terça-feira, 18 de julho de 2017

4253) Como descobri que não sou fã de nada (18.7.2017)




Não foi propriamente assim que aconteceu. Estou apenas traçando uma versão mais aerodinâmica, para simplificar o relato.

Eu estava num evento ligado a Bob Dylan, abertura de uma exposição em São Paulo dedicada ao bardo de Minnesotta. Teve DJ, teve som ao vivo, teve um coquetel. Eu conversava numa roda de conhecidos, e de repente me vi diante de uma moça simpática, jovem, que falava de um jeito que eu achei bem interessante. O diálogo era a respeito de alguma outra coisa, mas a certa altura ela perguntou:

– E você, é fã de Dylan?

– Claro – eu respondi.

– Diga sua música preferida. Não!... Ninguém tem uma só, todo mundo tem muitas. – Eu já achei inteligente essa ressalva, e me animei todo. – Diga uma que você gosta.

Puxei de uma cartola qualquer um coelho aleatório.

– “Desolation Row”.

Os olhos dela se iluminaram.

– Que maravilha! Eu também. Deixe ver... você gosta mais das versões antigas tipo Royal Albert Hall e Dublin, ou das mais recentes, tipo Locarno, Oslo...?

Comigo não tem tempo ruim, de modo que eu dei um gole da bebida e respondi, na cara de pau:

– Eu acho que eu gosto da versão original, do disco.

Ela me olhou com um misto de dó, magnanimidade e irrisão. E disse:

– Ah. Então você não é um fã. Você é um ouvinte casual.

O país das artes é vizinho do país das religiões, e o trânsito através de suas fronteiras, em ambas as direções, é intenso. Às vezes a gente pensa que está num deles, e quando vê, todo mundo em volta está falando o idioma do outro.

O fã não é alguém que se limita a gostar, é alguém que desenvolve um culto voraz. Camões dizia, erradamente ao meu ver, que “transforma-se o amador na coisa amada”. Eu acho que o amador, e o fã nada mais é que isto, transforma o mundo na coisa amada. Pra onde ele se vira, só enxerga aquilo.

O fã transforma a coisa amada num labirinto fractal onde cada detalhe se subdivide e se supermultiplica em um milhão de outros. Não basta ser fã de (vá lá) Camões. É preciso rastrear todas as versões que o soneto de Jacó e Labão já teve, é preciso saber na ponta da língua todos os endereços onde o poeta pendurou seu casaco, é preciso colecionar memorabilia, é preciso ter uma coleção de perguntas de algibeira para dinamitar as pretensões dos incautos.

Lembro do saudoso crítico de cinema André Setaro, de Salvador, meu parceiro etílico e meu contemporâneo, que assinava críticas na Tribuna da Bahia quando eu fazia o mesmo, com mais rapidez e menos perspicácia, no Jornal da Bahia.

Um dia entro eu num daqueles velhos cinemas nos arredores do Pelourinho para assistir, se não me engano, Trama Macabra, o derradeiro filme de Hitchcock, quando esbarro com Setaro. Cruzei a cortina e encontrei-o de pé, junto àquele tradicional balcão de metro e meio de altura que protegia a fila mais afastada da tela. Conversamos ali enquanto iam sendo exibidos o Canal 100 e os trailers. Quando surgiu a ponteira indicativa do filme, falei:

– É o filme agora. Bora sentar?

Ele me olhou com cara de fã ofendido e disse apenas:

– Filme de Hitchcock assiste-se de pé, em sinal de respeito.

E fê-lo. Talvez só o tenha feito porque sentei poucas filas à frente e o fiquei vigiando com o rabo do olho, e ele então não teve outro jeito senão manter a pose; mas fê-lo, ora que diabo.

O fã se confunde muitas vezes com o colecionador, porque uma coisa conduz à outra com a mesma fluidez com que ser noivo conduz a ser marido. O colecionador é um cara que casou com uma missão, e muitas vezes essa missão nem é um ser específico, com cara na foto e nome no cartório; é um mero conceito abstrato.

Meu pai tinha um amigo que colecionava qualquer exemplar de qualquer periódico, desde que fosse o “ano 1, número 1”. De tudo que saía em Campina, Seu Nilo comprava um exemplar e remetia para esse cidadão, cujo nome minha incúria não guardou para a posteridade. E se considerarmos o índice de mortalidade infantil das publicações brasileiras, as literárias em especial, penso nas raridades valiosíssimas que ele terá amealhado no correr das décadas.

Porque existe um mercado subterrâneo para alimentar o fã-colecionador. Algum tempo atrás eu estava bebendo no Amarelinho da Cinelândia, numa mesa grande onde havia um ou dois amigos e outros caras que conheci na hora. Passou uma garota lindinha, meio hippie, distribuindo filipetas de shows de rock que ia haver no Teatro Odisséia e no Circo Voador. Um cara ao meu lado chamou a garota e pediu uma filipeta de cada e pôs na mesa, junto do pacotinho de amendoim. Estranhei um pouco porque o cara tinha jeitão de quem gosta de ver shows de Dona Ivone Lara, não do Macaco Bong.

– Você vai ver esses shows? – perguntei.

Ele deu um gole do chope, leu com atenção todas as filipetas, e guardou no bolso da jaqueta, enquanto respondia:

– Eu não vejo os shows, eu coleciono isso.

– Você é fã de rock?

– Eu mesmo não – disse. – Mas conheço fã de rock. No ano passado eu vendi uma filipeta dessa, do primeiro show dos Paralamas do Sucesso, por cinco mil reais.

Como disse um economista amador, demanda gera oferta e oferta gera demanda. Um rabisco a carvão feito por Van Gogh, cujo valor estético roça o zero, é vendido por milhões de dólares para um fã que vai... expô-lo no Metropolitan? Não, trancá-lo num cofre, junto com a certeza de possuí-lo.

Diante disso, nós, “ouvintes casuais” (não, não esqueci, moça, continua encravado, e doendo) temos apenas que nos recolher à carapaça da nossa ignorância e prosseguir rastejando no chão desse oceano de possibilidades. Por mais que a gente pense que ama Luís Buñuel ou The Incredible String Band ou Ellery Queen sempre vai aparecer à nossa frente um indivíduo blasé perguntando se a gente sabe a marca de talharim que o ídolo preferia.

Um rapaz estava numa festa na mansão da família de um amigo de faculdade. Lá pelas tantas, começou a conversar com a avó do amigo, uma senhora setentona, simpática, boa de papo. Depois de alguns minutos, a senhora suspirou e disse:

– Mas o que é isso, o senhor tão jovem, a festa cheia de gente jovem, e eu aqui lhe incomodando... Vá circular, se divertir.

– Qual nada – acudiu ele de imediato. – Estou gostando muito de conversar com a senhora.

– Ninguém da família conversa comigo – confidenciou ela. – Eles dizem que eu sou doida.

– Não é possível. A senhora, tão lúcida, tão inteligente. Por que eles dizem isso?

– Porque eu gosto muito de pão-de-ló.

O moço se surpreendeu:

– Pão-de-ló? Mas isso não tem nada de mais. Eu também adoro pão-de-ló.

Os olhos da madame chamejaram e ela cravou no braço dele cinco dedos de ferro:

– Então vamos lá em cima no meu quarto. Eu tenho vinte e cinco malas cheias de pão-de-ló.

Ela era uma fã.








domingo, 27 de setembro de 2015

3930) Ser fã (27.9.2015)




Era um coquetel de lançamento. A certa altura fui à longa mesa coberta de toalhas brancas para devolver ao garçom um morto e receber um vivo. 

Um cara que eu conhecia de vista aproximou-se. Brindamos, lustramos algumas frases polidas encontradas nos bolsos, e daí a pouco ele me veio com essa: “Estou até lhe devendo um pedido de desculpas. Uma vez fiz um mau juízo do seu caráter.”  

Era um cara corajoso, porque na minha terra dizer isso é motivo para execução sem reza. Ainda bem que a barbárie da metrópole me civilizou.

“Mas, por que?!”, exclamei, misturando surpresa e bom humor. Ele disse: “Um amigo nosso me mostrou uma crônica sua em que você escarnece de Borges. Ora, escarnecer do maior escritor do século XX é uma coisa inadmissível, não acha?”  

“Eu, escarneci de Borges?”. Meu espanto não tinha limites. Eu faço piadas até com a minha falecida mãe, quanto mais com Jorge Luís Borges.

“Devo ter dito alguma ironia,” falei, “mas não houve intenção de ofender, eu sou um grande fã de Borges.”  Pensei que isso era o bastante, mas ele voltou à carga: “Não, você não é fã de Borges. Você é um leitor casual. Se fosse fã estava vestido como eu.”  

Só então reparei que, sob o casaco de couro, ele estava usando uma camiseta com a imagem do autor do “Aleph”, uma daquelas fotos dele sentado, com as mãos pousadas sobre o castão da bengala.

Alguém já disse que um fanático é um sujeito que não muda de opinião nem de assunto. O impulso de ser fã – de ter uma admiração incondicional e permanente por algo ou alguém – não está somente em quem gosta de “Star Trek” ou do “Senhor dos Anéis”. Existe também entre os admiradores da arte erudita. 

Basta ver as cerimônias que os fãs de James Joyce realizam todo ano no “Bloomsday”, 16 de junho, o famoso dia em que transcorrem os acontecimentos do livro “Ulisses”. No mundo inteiro o pessoal se fantasia, se reúne em pubs, toma cerveja Guiness, recita e canta coisas relativas a Joyce e à Irlanda. Muitos são eruditos, PhDs, críticos vetustos, autores premiados; mas nesse dia adolescem todos, todos se tornam tão fãs quanto um guri fantasiado com os óculos e a vassoura de Harry Potter.

Já escrevi aqui sobre um depoimento de Antonio Cândido confessando as brincadeiras de fãs que eles e seus colegas, jovens, faziam tendo por tema os romances de Eça de Queiroz. Temos uma tendência a achar que a instituição do “fandom” foi criada por Hollywood, a qual apenas a industrializou e reexportou. 

Fãs, nesse sentido, já eram os estudantes paulistanos que em 1886 foram aplaudir Sarah Bernhardt no Teatro São José, e desatrelaram os cavalos de sua charrete, puxando-a eles mesmos até o Grande Hotel, com a diva dentro.



sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

2750) O leitor fã (27.12.2011)



O fã é um produto típico de certa cultura de massas do nosso tempo, que requer não apenas o envolvimento afetivo com as obras de arte, mas uma dedicação emotiva em tempo integral. O fã é alguém cuja vida tem como centro seu ídolo, que pode ser um jogador de futebol, uma atriz de cinema, uma banda de rock, uma modelo. O leitor fã é o que transfere esse fanatismo (fã vem de “fanático”) para a literatura. O sujeito pode ser fã de um autor (os fãs de Stephen King), de um gênero (policial, ficção científica, etc.), de um personagem (Sherlock Holmes), de uma série de obras de autores variados (“Perry Rhodan”, etc.).

O que caracteriza o leitor fã é que ele se comporta diante do objeto de seu fanatismo como os fãs de Marilyn Monroe ou de Carlos Gardel se comportam diante dos seus ídolos. Qualquer farrapo de informação é importante, qualquer foto saída na imprensa merece ser recortada e pregada no álbum. O leitor fã faz listas de livros que precisa ler, listas de livros já lidos, listas de livros que precisa comprar, listas de livros que precisa perguntar aos amigos se vale a pena comprar. Costuma juntar-se a outros em clubes, onde a única conversa é sobre aqueles livros, e onde os membros debatem livros, comentam livros, trocam livros, compram livros usados uns aos outros.

Essa atividade frenética acaba atraindo o leitor, de forma quase imperceptível, para uma zona fronteiriça e nebulosa que, quando começa a se clarear de novo, revela ao incauto que ele cruzou um limite. Deixou de ser leitor e agora é somente fã. Um leitor é alguém que lê, que decifra palavras, que toma decisões interpretativas sobre cada frase, cada parágrafo, cada bloco de texto. O leitor recria em sua mente o mundo criado pelo livro e é forçado a tomar juízos de valor. O leitor fã, muitas vezes, torna-se fã para evitar essas tomadas de posição. Ele não quer ser inquietado por informações novas, desconcertantes, que ponham em xeque seus instrumentos de interpretação. Ele não quer novas experiências literárias. Quer o aconchego do eterno “um pouco mais daquilo mesmo”. O leitor fã abre mão do esforço de pensar, e lê apenas para lembrar, para refestelar-se no que já conhece.

Por isto o mercado cultua os fãs e alimenta sua obsessão de comprar todas as edições de um livro, todos os livros-de-fofocas sobre um autor, todos os livros de listas de um gênero. É o consumidor ideal, porque não compra mais com a intenção de ler. Quando o leitor fã abre os olhos, vê que não passa de um colecionador de livros que não lerá. Já não se distingue do cara que compra as meias de nylon de Evita Perón ou um travesseiro usado por John Lennon.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

2583) A badalação das celebridades (15.6.2011)



Semana passada a Seleção Brasileira se reuniu para dois amistosos, e o Globo do dia 3 anunciou no caderno de esportes: “Histeria por Neymar inaugura nova era na seleção brasileira”, comentando no corpo da matéria: “Natalle, Julliana, Noamy e Loyse, todas entre 15 e 17 anos, chegaram cedo, por volta das 9h, ao Hotel Castro, onde a seleção está hospedada em Goiânia. Barradas pelos seguranças, ficaram na porta, máquina fotográfica em punho, esperando Neymar”. É gozado como a imprensa adora a badalação juvenil. E pensando bem, também para um time de futebol é menos arriscado ser cercado por uma multidão de peruazinhas saltitantes do que por brutamontes de soco-inglês nos dedos reclamando que o time fez corpo mole.

A “nova era da Seleção” me lembra os tempos saudosos da Beatlemania, os quatro cabeludos correndo pela estação do trem, perseguidos por dez milhões de inglesinhas histéricas emitindo juntas um som equivalente ao de um milhão de turbinas de jatos da BOAC. Tudo muito divertido quando se tem vinte e poucos anos. Mas acabou cansando. George Harrison disse: “Me recuso a continuar subindo num palco para tocar música e não conseguir escutar o que estou tocando. I Feel Fine no show de ontem ficou horrível”. E Paul: “Oi, e tocamos I Feel Fine ontem?”. Em 1965 eles acabaram sua “nova era” do rock, trancaram-se num estúdio e se tornaram Os Beatles, pra valer.

É engraçado. No dia 7 de junho o mesmo Globo fez uma matéria sobre os 80 anos de Cauby Peixoto, “famoso no passado pelas estratégias de marketing de seu empresário Di Veras, que arranjava moças para desmaiarem diante do cantor (‘Só uma desmaiou de fato’, diz Cauby hoje) e rasgarem roupas já preparadas para este fim”. Não tenho dúvida de que as “macacas de auditório” de Cauby também inauguraram uma nova era na música brasileira.

E assim, meio serendipiciamente, esbarrei nesta página (http://tinyurl.com/3tu8q95) que comenta a histeria coreografada das fãs de Frank Sinatra após 1943, quando ele contratou o publicitário George Evans para planejar o tumulto das fãs. Evans dava 5 dólares a cada garota e as instruía cuidadosamente sobre o tipo de grito que deveriam emitir, e em que momento (sempre quando a canção subia de volume, nunca nos trechos mais intimistas). Treinava algumas garotas para gemerem em uníssono, e outras para desmaiarem nos corredores do teatro ou onde quer que houvessem fotógrafos por perto. .

Como se vê, a era Neymar não é tão nova assim. É velha a arte de manipular a libido de mocinhas saturadas de hormônios eufóricos. No mundo pop, sucesso é sinônimo de fotos autografadas e mocinhas gritando. O modelo do mundo pop é a herança maldita do século 20. Aguardem o noticiário da Flip ou das demais festas literárias. A imprensa mostrará escritores autografando a blusa de jovenzinhas incapazes de ler mais de 140 caracteres, e anunciará que isto inaugura “uma nova era para a literatura brasileira”.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

2352) Obscuridade (21.9.2010)




Os artistas sonham com a fama, em parte, por uma questão banal de carência afetiva (querem ser elogiados, aplaudidos, paparicados) e em parte porque acreditam que ela lhes proporciona onipotência, superpoderes. Como se dissessem: “De agora em diante, vou fazer somente o que eu quero, e do jeito que eu quero”. 

Lamento informar que, daqui de onde vejo os famosos, não é bem assim. A fama multiplica as oportunidades, mas essa própria multiplicação subdivide o tempo e a energia do famoso. 

Uma vez vi uma entrevista da empresária de Caetano Veloso explicando a alguém que teve um pedido recusado: “Caetano recebe vinte pedidos por dia para shows ou participações em eventos. Não pode aceitar todos”. 

Numa entrevista à revista Wired, George Lucas explicou por que não costuma surfar na Internet: “Meu trabalho exige que eu me reúna com grupos que somam cerca de 250 pessoas por dia, todos os dias, e quando tenho algum tempo livre eu o dedico a minha família”.

Quando o sujeito fica famoso começa a ser chamado para coisas que sempre teve vontade de fazer, mas também para centenas de coisas que não lhe interessam nem um pouco, e que querem apenas contar com um famoso a mais em sua galeria de fotos e em sua “área VIP”. 

Essa industrialização da fama para qualquer um e a qualquer preço é uma das forças mais massacrantes que a estupidez humana botou em movimento através da imprensa. Para os carentes que citei nas primeiras linhas, é o Paraíso. São paparicados porque são famosos, e são famosos porque são paparicados. Para um sujeito que quer continuar trabalhando a sério, a fama traz mais atrapalhos do que soluções.

Poucas leituras serão tão depressivas quanto as cartas de Robert Heinlein sobre o assédio dos fãs, em seu volume póstumo de correspondência, Grumbles from the Grave. No auge da fama, Heinlein não escrevia mais literatura, porque tinha de viajar o tempo inteiro para dar palestras, participar de convenções, etc., e o tempo que podia dedicar à escrita era para responder dezenas de cartas de leitores todo dia. Para não falar nas centenas de visitantes implorando uma ou duas horas de papo. 

Aos 74 anos, doente, cortou os laços com o mundo exterior, e em poucos anos escreveu Friday (1982), Job (1984), The Cat Who Walks Through Walls (1985) e To Sail Beyond the Sunset (1987). Talvez não sejam seus melhores livros, mas, dane-se, são os livros que ele queria escrever e ninguém deixava.

Virginia Woolf, autora do célebre Um quarto só para si, disse: 

“Enquanto a fama bloqueia e constringe, a obscuridade envolve uma pessoa como se fosse uma névoa; a obscuridade é escura, ampla, e livre; a obscuridade permite que a mente trace seu caminho sem encontrar obstáculos. Sobre o indivíduo obscuro pousa a impregnação suave das trevas. Ninguém sabe onde ele vai nem de onde está vindo. Ele pode ir em busca da verdade e pode proclamá-la; ele é o único que é de fato livre; o único que é verdadeiro, o único que experimenta a paz”.










domingo, 27 de junho de 2010

2199) Três histórias de fãs (26.3.2010)



A primeira história diz respeito a Spider Robinson, norte-americano, autor de histórias de ficção científica ambientadas num bar chamado Callahan’s, nome do seu proprietário. É um bar frequentado por alienígenas, viajantes no Tempo, etc., e ali se contam histórias divertidas. Robinson conta que certa vez estava com a esposa numa convenção de FC, e um grupo de fãs os convidou para jantar. Como estavam sem um centavo, aceitaram. Entraram num carro. Rumaram para o subúrbio, pegaram a estrada. O tempo passando, e tome estrada. Robinson e a mulher impacientes; e os fãs piscando uns para os outros e dando risadas. Uma hora e meia depois, pararam num restaurante, chamado, é claro, “Callahan’s”. Diz Robinson que não apenas a comida era horrível, mas descobriram que os fãs também não tinham grana para pagar o jantar.

Um cantor profissional me contou que chegou na cidade onde ia fazer um show à noite, e no aeroporto foi recebido por um sujeito que disse ser da produção local, encarregado de levá-lo para o hotel. Ele guardou a bagagem e o violão no carro do sujeito, e os dois seguiram. No meio do caminho o cara perguntou se o artista se incomodava de passar antes num local onde ele precisava pegar alguma coisa. “Tudo bem”, disse ele. Daí a pouco desceram numa casa onde estava rolando o maior churrasco, e o motorista anunciou: “Aqui está ele!”. O cantor teve que descer, sentar, fingir que bebia, até conseguir ligar para o verdadeiro produtor local ir buscá-lo; mas antes teve que pegar o violão e cantar algum dos seus grandes sucessos.

Affonso Romano de Sant’Anna narra o episódio ocorrido com Michel Foucault, em sua vinda ao Rio de Janeiro em 1973. Foucault veio fazer conferências na PUC-RJ, com cobrança de ingresso. No primeiro dia, ele e Affonso foram abordados por estudantes de filosofia que se queixaram de não poder comprar ingresso. O filósofo se dispôs a falar de graça para eles em outro horário. Depois, contou a Affonso que os estudantes o levaram para uma cobertura em Ipanema, onde ficou bastante claro que eram muito mais bem-de-vida que o próprio filósofo.

Nem todo fã apronta situações desse tipo, é claro. Mas acontece tanto que dá o que pensar nessa relação meio canibalesca que o fã mantém com seu ídolo. Os jovens leitores que levaram Spider Robinson para aquela roubada estavam querendo não só homenageá-lo, mas querendo que ele achasse graça na piadinha deles. O pessoal do churrasco e os ouvintes de Foucault certamente eram admiradores sinceros de suas vítimas (não aprontariam aquilo com qualquer um), mas narcisistas, acima de tudo. Fizeram aquilo para sair dizendo coisas como “Fulano cantou no meu churrasco”, “Foucault esteve lá em casa semana passada...” O fã é capaz de extremos de altruísmo e de extremos de egoísmo, porque existe no seu Ego uma fome voraz que só o ídolo sacia. Quanto mais importante a gente se torna para um fã, mais cuidado precisa ter com ele.

terça-feira, 6 de abril de 2010

1872) Colecionando autógrafos (10.3.2009)



O que leva uma pessoa a colecionar autógrafos? Em princípio é para dar a si mesma a ilusão de que conhece aqueles “famosos”, ou melhor, de que eles a conhecem. E de fato, um autógrafo com dedicatória é prova de que pelo menos uma vez, por um breve minuto, essas duas pessoas estiveram frente a frente, em carne e osso, no mesmo zero cartesiano do Espaço e do Tempo, e o Famoso olhou nos olhos do Anônimo, sorriu, pegou a caneta e escreveu: “Para Zezim das Couves, um grande abraço e votos de profunda simpatia de Ronaldo Fenômeno...” É o quanto basta para Zezim das Couves calar a boca de meia dúzia de implicantes.

Se for assim (pergunta minha cabeça lógica) de que adianta o mero nome rabiscado, sem dedicatória que identifique a circunstância? O nome rabiscado poderia tê-lo sido a qualquer momento, em qualquer lugar a mil quilômetros de Zezim. O autógrafo pode ter sido achado por Zezim na rua, pode ter sido surrupiado ao verdadeiro dono, pode ser sido comprado... Mas mesmo assim, Zezim não se importa. Consulta seu caderno de registros e diz: “Já tenho duzentos e trinta e sete”.

Pois é. Começam assim as grandes caminhadas da vida: o colecionador-em-botão pega o autógrafo de Nélida Piñon, pega o de Xuxa, e se vangloria: “Já tenho dois!”. Parece que a partir de certo ponto (e um ponto muito próximo do princípio) a coleção de autógrafos cede ao peso do critério quantitativo. Pouca importam as figuras ali representadas. O que conta mesmo, como em toda competição, é ter um a mais que o competidor mais próximo.

É neste ponto que me assalta uma dúvida mais do que legítima. Se o que vale mesmo é ter uma enorme quantidade de autógrafos, bem que Zezim poderia abordar quaisquer pessoas na rua e pedir-lhos. Ou, pelo menos, pedi-los a todos com quem se relacionasse no dia-a-dia; o porteiro do prédio, o taxista, a garçonete, a caixa do Banco, a balconista... “Como é seu nome?... Waldereyde, você poderia assinar aqui pra mim?” Mas algo me diz (ou diz a Zezim) que não vale. O autógrafo tem que ser de alguém famoso, tem que ser de uma celebridade, tem que ser de alguém que está num degrau acima de nós, nunca no mesmo ou num abaixo.

O autógrafo como prova de um encontro pessoal com a Celebridade só tem rival num curioso hábito da cultura roqueira dos anos 1960-70. Entre algumas “groupies” (tietes; garotas que viviam azarando os cantores, os músicos da banda, os técnicos, os contrarregras, ou seja, quem quer que estivesse envolvido com o show, e tivesse espaço vago na cama) havia o costume de, depois de transar com as Celebridades, fazer um modelo de gesso das suas, bem, das suas partes íntimas, e guardá-lo como lembrança. As garotas eram chamadas de “plaster casters” (algo como “as engessadoras”) e viviam comparar suas coleções de troféus. (O filme The Bang Sisters, de Bob Dolman, com Goldie Hawn e Susan Sarandon, conta a vida madura de duas dessas ex-groupies).

sábado, 26 de julho de 2008

0462) O Cinema Subterrâneo (11.9.2004)




O que é um cinéfilo? A resposta mais instintiva é dizer que é um sujeito que aprecia filmes-de-arte. Concordo, mas não é bem isto. Cinéfilo é um sujeito que ama o cinema, o fenômeno cinematográfico em toda sua extensão. 

Se ele é da minha geração pra cima, por exemplo, o amor que tem pelos filmes estende-se à sua lembrança dos cinemas como eram antigamente. 

Os tubos de ferro chumbados ao chão, à frente da janelinha da bilheteria, para ajudar a organizar a fila. 

Os displays de cartazes e fotos, embutidos na parede, protegidos por vidro, iluminados por fluorescentes. 

O som profundo do gongo, anunciando o apagar gradual das luzes e a abertura das cortinas para início da sessão (ritual que hoje, no Rio, se mantém no Cine Odeon-BR). 

O vendedor de balas e chicletes caminhando por entre as filas com sua caixa semicircular pendurada ao pescoço. 

O “pshhh...” coletivo ao aparecer na tela o “urubu” da Condor Films. A lua cheia, redonda, que se transformava no logotipo retangular da PelMex.

O cinéfilo não ama apenas as elucubrações de Bergman ou a grotesqueria de David Lynch: ele ama com fervor fetichista toda a parafernália de objetos, rituais e emoções que cercam o ato de ver um filme. 

Daí, não é de admirar que a polícia parisiense tenha descoberto dias atrás o que a imprensa chamou com bom humor de “o verdadeiro cinema underground”. Num dos incontáveis subterrâneos de Paris, no 16ème “arrondissement”, policiais descobriram uma vasta caverna que aparentemente era usada como sala de exibição de filmes, na área por baixo do Palais de Chaillot (perto da Torre Eiffel).

Os subterrâneos de Paris são vastos. Há um passeio turístico que percorre um trecho bem limitado, onde ficam algumas catacumbas históricas. Alguns saites fornecem visões interessantíssimas sobre este mundo de galerias, esgotos, verdadeiros labirintos de cuja existência a maioria das pessoas nem suspeita. 

Os policiais fizeram a descoberta enquanto patrulhavam um trecho dos mais de 200 km de galerias subterrâneas da capital. Na caverna, dezoito metros abaixo do chão, havia luz elétrica, três linhas telefônicas, circuito fechado de TV, e uma sala de exibição com 400 m2, equipamento completo de projeção, e uma boa quantidade de filmes, que iam de clássicos do “film noir” até títulos recentes. A um canto, uma espécie de bar, com bebidas. 

Ao retornarem três dias depois, com técnicos que iriam descobrir a origem do “gato” elétrico que iluminava o local, descobriram que a luz e os telefones tinham sido cortados, e havia um bilhete no chão: “Não tentem nos encontrar”. 

Nada contra o DVD, o “home theater”, os filmes baixados pela Internet. Mas é tão poético a gente descobrir que na cidade que nos deu Godard e Truffaut existe um grupo de inconformistas que, como os cristãos primitivos, recolhe-se ao fundo das catacumbas para apreciar sua ração diária de fotogramas.






sexta-feira, 16 de maio de 2008

0394) Os fãs escritores (24.6.2004)


No começo diziam que o uso de computadores e o hábito de viajar na Internet iriam tornar os nossos jovens ainda mais iletrados do que são. Essa infundada lenda parece ter origem no fato curioso de que as pessoas que nunca chegaram perto de um computador pensam que um computador é movido a matemática. Para eles, um computador é uma calculadora eletrônica onde também é possível jogar joguinhos como come-come, batalha-naval e paciência. O que estes bem-intencionados leigos ignoram é que os computadores de hoje são máquinas movidas a texto, e que nunca, jamais, em tempo algum, os nossos jovens (não falo os da Paraíba, falo os do Planeta Terra) produziram tanta quantidade de texto. Escreve-se hoje, graças aos computadores e à Internet, muito mais do que se escrevia há poucas décadas.

Um subproduto interessante dessa frenética atividade é o que se chama de “fan fiction”, a ficção produzida pelos fãs de heróis ou séries da cultura de massas. Talvez tenha começado com as revistas de pulp fiction dos anos 30-40, onde os fãs de ficção cienífica sempre foram um tantinho-de-nada mais espertos e mais diligentes do que os demais. Foi se propagando para séries específicas, como Star Trek e Star Wars, e hoje abarca tudo que faz parte da cultura de massas: livros, cinema, TV, quadrinhos, jogos.

É tudo muito simples. Existe no mercado um número de limitado de histórias de, digamos, Sherlock Holmes. Depois de ler tudo que há para ler, os fãs do velho Sherlock começam a escrever suas próprias histórias tendo o detetive como protagonista. Neste caso não há problema porque a obra de Conan Doyle já caiu em domínio público. Mas no caso de heróis cuja imagem é protegida por direitos autorais, isto significa que os fãs não podem publicar profisionalmente suas histórias. Durante anos eles se resignaram a mimeografar e xerocar seus textos, passando-os de mão em mão, usando o Correio. Aí de repente surgiu a Internet. Saites e homepages começaram a pipocar por toda parte.

Uma pequena mas eficaz porta de entrada, para quem quiser arriscar um olho nesse universo, é o saite Fan Fiction (http://www.fanfiction.net/). São milhares de historinhas, curtas, longas, bobas, espertas, mal-feitas, razoáveis, tendo como protagonistas os heróis de universos como Senhor dos Anéis, Indiana Jones, o Mochileiro das Galáxias, Bridget Jones, e muito mais. É curioso observar que neste saite há 464 colaborações na rubrica “Shakespeare”, 102 em “Jane Austen”, 35 em “H. G. Wells”, 64 em “Charles Dickens”, 1.269 em “a Bíblia”, 106 para “Homero”. Claro que não se compara às 131.376 colaborações sobre “Harry Potter”, mas vocês queriam o quê? Não se exija dessa ficção amadorística a qualidade dos artistas que a inspiram. É fundo de quintal. É futebol de pelada. A grande literatura não brota do nada. Brota de um caldo literário espesso, temperado, variado, e que ferva na panela de pressão de uma sociedade cheia de opções.

segunda-feira, 31 de março de 2008

0332) Morte e vida em tela quente (13.4.2004)




(Spalding Gray)

Triste de quem é famoso; triste de quem um dia sonhou em viver em cima de um pedestal, sendo adorado e invejado pela plebe. 

É impressionante a maneira como certas pessoas querem subir socialmente (ou seja, distanciar-se da plebe) cortejando a plebe, pavoneando-se diante da plebe, transformando-se na encarnação das fantasias da plebe. Não vou citar exemplos (faltariam papel e tinta para tanto nas oficinas deste jornal), mas todos nós sabemos que muita gente é capaz de tudo “para aparecer”. 

Andy Warhol (ele próprio um subproduto típico dessa indústria do auto-espetáculo) dizia que no futuro todo mundo seria famoso por 15 minutos. Pois digo eu que no futuro todo mundo brigará pelo direito de ser humilhado publicamente durante 15 minutos.

É como os “estilitas” (atenção: não é “estilistas”), aqueles santos medievais que viviam encarapitados numa coluna, à vista de toda a população. Faziam-no por delírio masoquista, mas nós, modernos, o fazemos por delírio exibicionista. 

Os “reality shows” que enchem de câmaras a casa de uma família são o ápice desse processo. Ficam eles lá, se desincumbindo de suas tarefas e fazendo suas caras-e-bocas... e nós cá, olhando para aquele troço com a mesma expectativa de quem olha para um aquário. Quantas vezes passei uma hora inteira, no meio de uma tarde, acompanhando na MTV o cotidiano de Ozzy Osbourne! Por que? Provavelmente porque ver aquilo era mais interessante do que viver minha própria vida.

Quem se isola no alto do pedestal da mídia descobre, depois, que não é fácil descer. Corre o risco de ser estraçalhado por uma multidão sequiosa por relíquias. Enchemos o mundo de colecionadores de nós mesmos, e pagamos um preço. 

Uma das histórias mais melancólicas que já vi na imprensa foi de como Xuxa certa vez pediu à direção de um shopping que todas as lojas fossem abertas certo dia, de madrugada, para que ela pudesse “fazer compras no shopping”, como todo mundo. Claro que todas as lojas concordaram em fazer essa horinha-extra. No shopping-fantasma, deserto de gente de verdade, Xuxa e sua “entourage” passearam durante horas, comeram pipoca, fizeram compras...

Algumas semanas atrás, suicidou-se nos EUA o escritor e ator Spalding Gray, autor de monólogos confessionais e cheios de ironia. Num artigo no “Village Voice”, David Sweet comentou, referindo-se às pessoas famosas, que vêem sua vida transformada num espetáculo permanente: 

“Se você está se afogando e é famoso, as pessoas ficarão vendo você se afogar. Ficaremos imaginando qual daquelas outras pessoas foi contratada para salvar sua vida na hora H, ou ficaremos imaginando se tudo aquilo foi ensaiado. E se você morrer, pensaremos: ´Puxa vida, eu estava lá, quando ele morreu.´ Só há uma coisa que não faremos: ajudar.” 

A vida-espetáculo é cruel. Porque quando o ídolo morre, os fiéis batem palmas e pedem, sem uma lágrima, sem um suspiro: “O próximo!”






quarta-feira, 26 de março de 2008

0292) Debruçado sobre Abbey Road (26.2.2004)




(Turistas em Abbey Road, 30.5.2005. A foto dos Beatles foi tirada de lá para cá, do ponto onde há um automóvel)

Tem gente que gosta de assistir ao “Big Brother” da Globo. Eu assisti do começo ao fim o primeiro, o que foi ganho por Kléber Bambam. E olhe, até que me diverti bastante. O primeiro ainda tinha (como direi?) um certo frescor, uma certa ingenuidade. Ninguém sabia como era, e a coisa foi meio na base do improviso. Hoje, todo mundo “tá ixperto”: já ensaiou, já praticou, já bolou estratégias. Já deve haver até curso-preparatório-para-candidatos-ao-Big-Brother. 

Dá pena aquele bando de marmanjos e de popozudas, todo mundo jovem, musculoso, saudável, cheio de energia, sendo infantilizado em público, fazendo umas “provas” idiotas – catar bolas de plástico numa piscina, ficar 3 dias segurando um abacaxi... E tem uns tais “jantares a fantasia” que... Pelo amor de Deus. 

É tudo uma pose desgraçada, umas caras-e-bocas insuportáveis. No fim de tudo, o mais espertalhão ganha 500 paus, os outros viram arroz-de-festa, e as mulheres fazem fotos de arte-ginecológica para revistas masculinas.

Eu não quero bancar o intelectual pentelho, esnobe. Sou muito popularesco, e ao contrário de alguns amigos meus não acho que a TV deva se dedicar a exegeses sobre a obra de Proust ou a encenações do “Rei Lear” na Sessão da Tarde. 

TV é TV: é quermesse, é rádio-com-auditório. Tem quem queira ver “Big Brother” 24 horas por dia. Cada um vê o que lhe interessa. 

Eu, por exemplo, tenho um passatempo totalmente idiota: a webcam de Abbey Road. Uma câmara (como aquelas de segurança em shopping ou condomínio) cuja imagem é transmitida por um saite de Internet. Se você fôr para https://www.abbeyroad.com/crossing  vai ver a imagem, nesse momento exato, da faixa de pedestres atravessada pelos Beatles na capa do disco “Abbey Road”, em frente ao estúdio. São 24 horas por dia! Maravilha.

Agora mesmo, no instante em que escrevo, são 2:50 da madrugada (horário de verão) aqui no Rio, portanto devem ser 4:50 em Londres. A câmara pega a rua em diagonal do canto inferior esquerdo ao superior direito, e a famosa faixa passa à altura do meio da imagem. Está uma noite chuvosa, asfalto molhado, trânsito escasso. 

Há um carro parado há horas do lado direito; ruas e calçadas estão vazias. Agorinha mesmo passou uma espécie de van azul, compridona, seguida por dois automóveis. Alguns minutos antes passaram a pé dois caras conversando, um de casaco claro, outro de escuro. Agora, passou uma van branca. Parece chato, né? De dia é mais movimentado, juro.

Distrair-se é poder fazer associações de idéias com o que nos é mostrado. Não me acho nem mais nem menos idiota, debruçando-me sobre uma rua deserta, do que quem assiste o “Big Brother” ou qualquer outra coisa. Só vemos nas coisas, amiguinhos, o que já temos dentro de nós. Essa rua deserta pode ser para alguém a madeleine de Proust, o aleph de Borges, a pedra-no-caminho de Drummond, o ponto-ômega de Teilhard de Chardin... Eita, passou um ônibus de dois andares!






sexta-feira, 7 de março de 2008

0042) O fã (10.5.2003)



Fanáticos por alguma coisa sempre existiram, mas só nos dois últimos séculos passaram a se expandir para fora dos dois laboratórios-de-frankenstein onde foram inventados, a Religião e a Política. 

Fanático quer dizer fã, sujeito obcecado por algo, e cuja energia vital é instantaneamente mobilizada pela idéia desse algo.

O fã é uma alma que executa movimentos de rotação e translação em torno do seu Ídolo, do qual recebe luz e calor.

Não se deve confundir o fã com o admirador. Admirador sou eu, é você, somos todos nós que admiramos centenas de coisas diferentes mas não estamos dispostos a muito sacrifício por elas.

Sou um admirador de vários times de futebol, que me dão tristezas e alegrias, mas jamais sairia de casa para me acorrentar aos portões da sede do clube, em protesto contra uma série de derrotas. Quem faz isso é fã.

Existe uma insanidade benigna em pessoas capazes de atos assim: torcedores do Treze, beatlemaníacos, militantes de um partido político, evangélicos recém-convertidos, devotos de um santo, jovens apaixonados por estrelas do cinema.

Não sei se foi a indústria fonográfica ou se foram os estúdios de cinema quem teve primeiro a idéia de criar fãs no universo profano da cultura de massa. É possível que tenha sido o pessoal de Hollywood, por volta dos anos 1920-30. Cada uma destas indústrias vive cevando yuppies cuja única função é descobrir novas maneiras de aumentar as vendas, de hipnotizar os consumidores, produzir neles uma fome ou sede específica que só poderia ser saciada de uma maneira.

O marketing engendrou os fãs, e os fãs engendraram os fã-clubes, que são entidades opostas às entidades assistenciais do tipo “Alcoólicos Anônimos”: um fã-clube é uma associação de viciados que se reúnem para estimular e aperfeiçoar o vício que compartilham.

Mocinhas pobres de bairro operário fazem milagres com suas mesadas para comprar revistas coloridas e brigar para ver quem tem mais fotos diferentes de Tom Cruise ou de Marcelo Anthony. Rapazes do sertão nordestino vestem camisas do Barcelona e anotam num caderninho quantos gols Kluivert e Saviola já fizeram na temporada. São fãs.

O fã é o maior exemplo dessa elusiva emoção a que os poetas chamam de Amor. O fã é alguém que ama com abandono total e sem esperança nenhuma. Ama sem ser amado, ama sabendo que o objeto de sua paixão jamais tomará conhecimento sequer de sua existência. Ama com fidelidade e submissão, sem exigir resposta, perdoando tudo; ama com o que Drummond chamava “amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão.”

Ama com fervor missionário, e sai pelo mundo catequizando os incréus, confrontando os céticos, atraindo os recalcitrantes, localizando na multidão um mero simpatizante e investindo nele com cachoeiras de eloquência, brindes, presentes, até fazê-lo render-se, e apaixonar-se também.

O fã é um zumbi feliz. Ele tem um objetivo na vida, e eu morro de inveja de quem tem isso.