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quarta-feira, 27 de março de 2013

3144) Ficção apostólica (27.3.2013)




(Chuck Palahniuk)


Os críticos literários inventam muitos termos interessantes, mas os rótulos inventados pelos meros escritores merecem atenção. 

Chuck Palahniuk, por exemplo, ao descrever seu romance Clube da Luta (que deu origem ao filme de David Fincher, com Brad Pitt e Edward Norton), disse que se trata de ficção apostólica. O que é isso? Ele explica: “Uma história onde um apóstolo, sobrevivente, conta a história do seu herói”.

O próprio Palahniuk dá O Grande Gatsby como exemplo desse tipo de livro.  Isso é o que? É um novo gênero literário? Uma nova classificação bibliográfica? Eu diria que não. É o modo como Palahniuk, ou Fulano, ou Sicrano, organiza algumas leituras suas. 

De fato, ele tem razão. Podemos considerar todas as histórias de Sherlock Holmes não apenas como ficção policial, mas ficção apostólica, devido ao narrador (não-confiável ao extremo) que é o Dr. Watson. Um modelo recolhido nos contos de Edgar Allan Poe sobre o Cavalheiro Dupin e seu anônimo narrador e amigo.

No Clube da Luta, conta-se a história do “herói” Tyler Durden; em Rant, Palahniuk traz dezenas de narradores para compor um mosaico da vida de “Rant” Casey. 

Alguém será capaz de narrar com isenção e objetividade os feitos do heróis a quem admira? Duvido. Toda vez que vemos grandeza em algo nosso impulso irresistível é de ampliar essa grandeza. O peso, a impressão, a presença, a influência que aquilo teve enquanto acontecia. Toda ficção apostólica tem algo de delírio de grandeza; um delírio sobre a grandeza alheia, no caso.

Ficção apostólica seriam talvez os Diálogos em que Platão preservou a figura de Sócrates, que sem ele talvez tivesse escorregado para um limbo onde provavelmente estão filósofos ainda mais lúcidos do que ele, mas que não dispuseram de um taquígrafo tão dedicado. 

Temos casos de não-ficção apostólica: a Vida do Dr. Johnson contada pelas anotações de James Boswell, e o Borges de Adolfo Bioy Casares, ambos baseados em décadas de anotações minuciosas, quase diárias, sobre todo tipo de conversa ou fofoca literária.

O ciclo de livros de Carlos Castañeda sobre o mago Don Juan tem esse aspecto apostólico, até pelo lado místico do personagem retratado. Essas histórias são ficção ou relato autêntico? Nunca se saberá, mas o aspecto apostólico (alguém entreviu um personagem complexo, e trouxe algo do que assimilou) está presente. 

Pode ser um narrador deslumbrado com um super-homem, como no Odd John de Stapledon. Pode ser um apóstolo perplexo como o Ismael de Moby Dick, para quem o herói, Ahab, é o maior mistério de todos. A ficção apostólica é sempre a de alguém que sobrou no fim para contar a história.





quarta-feira, 20 de março de 2013

3138) Clube da Barruada (20.3.2013)



Me desculpe quem tiver achado plebeu demais esse termo usado no título. Num dos clubes a que pertenço é assim que se designa colisão de veículos, quando são duas pessoas de verdade falando. Quando o cara se dirige a um público invisível ou indiferenciado, diz colisão de veículos. 

O termo completo em inglês é Party Crash, que poderia ser traduzido como “Festa da Barruada”, mas quem o está utilizando é Chuck Palahniuk, o mesmo cara que escreveu Clube da Luta, sua história mais conhecida.

Este livro é de 2007 e chama-se Rant. Numa época imprecisa, grupos de desocupados ou de aventureiros meio existencialistas passam a noite num incessante “pega” de automóveis. Cada grupo em seu carro, eles passam a noite inteira batendo uns nos outros, obedecendo a um complicado sistema de regras, penalidades e premiações simbólicas de variada natureza. Palahniuk aqui está usando parachoques como se fossem punhos, e tratando como iguais rosto humano e lataria.

A subcultura barruadeira dessa turma lembra a sensação de vício virtual produzida por algumas horas de jogar Grand Theft Auto (GTA), sacolejando por aquelas ruas tão verazes, capazes de seduzir e convencer o olho, se bem que não o corpo inteiro. 

A perseguição, em Rant, pode ter algo de Bullitt ou Operação França, pode ser algo galhofeiro e despropositado como qualquer invenção maluca dos irmãos Coen ou de Tarantino; pode mostrar a promiscuidade fria e entomológica de J. G. Ballard e de David Cronenberg no livro e no filme Crash.

Existe uma mini-humanidade completa no universos desses folguedos sobre quatro rodas, que lembram Halloween, galera que dá cavalo-de-pau na multidão.  A subcultura deles é constantemente alimentada por uma estação de rádio que descreve, com detalhes incômodos, os ferimentos sofridos pelas pessoas que acabam de sofrer acidente de carro em algum ponto da rodovia.  

Uma rádio que todos ligam, mas que, ao contrário do DJ negro em Vanishing Point de Richard Sarafian, age de forma impessoal e cuidadosamente planejada. Uma equivalente dos “Globocops” em geral, que mistura o sensacionalismo explícito dos tablóides populares e o ar sem-frescuras, direto-ao-ponto, da moça que recita as previsões da meteorologia.

Alguns personagens do livro poderiam ser chamados meteorólogos do trânsito urbano, e Palahniuk avisa que esse nicho da marginália ocupado por alguns milhares de “party crashers” surgiu de pesquisas sobre fluxo de trânsito, acidentes planejados que tornaram-se divertidos demais para que alguém os mantivesse sob controle por muito tempo.  Party Crash é apenas um dos cinco ou seis aspectos dignos de discussão em Rant.