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domingo, 2 de setembro de 2018

4382) Bertsolaris (2.9.2018)




Já escrevi aqui no blog sobre os Bertsolaris, os repentistas em verso do país basco, na Espanha. É uma tradição que em alguns pontos se assemelha muito à do repente nordestino.

Os “bertsolaris improvisados” equivalem ao nosso repente, com ou sem acompanhamento musical; os chamados “bertsos escritos” equivalem ao nosso folheto de cordel. Apesar do idioma basco ser algo quase alienígena, sua cultura oral se organiza em gêneros não muito diferente dos nossos, como é sugerido por esta tabela:


Os bertsos, ou versos (no sentido que usamos para “estrofe”), fazem parte da vida cotidiana e podem ser improvisados a qualquer momento, se ocorrer a alguém um tema e um bom verso. Em áreas de alta voltagem poética, como o Vale do Pajeú, no meio da uma conversa desabrocha um mote que mal é anunciado e alguém já se dispõe a glosar. Faz parte da cultura local. Isto significa que na platéia daqueles ginásios lotados há um bom número de pessoas que sabem como se faz um verso, distinguem entre clichê e novidade, e tanto sabem reconhecer um verso bom quanto sabem fazê-lo. Não se trata de uma platéia de especialistas, mas de público e artistas estarem mergulhdos na mesma cultura viva, e exigente.

Este clip aí abaixo é de um festival de poesia improvisada num ginásio, para 17 mil pessoas. Sorteiam-se temas para improvisos; um detalhe que eles enfatizam, é que o verso tem que ser feito obrigatoriamente do ponto de vista de um personagem específico. “Na mesma competição posso ser Obama, depois uma bicicleta velha, depois um pescador, depois um jogador do Athletic de Bilbao, um amante abandonado, etc.” diz um poeta.


É um verso improvisado a capella, não há acompanhamento, e a melodia é uma coisa que me parece meio canto gregoriano.

O formato mais frequente é o de duas quadras justapostas, rimas geralmente XAXA-XBXB. Algumas vezes as duas últimas linhas são repetidas, para encerrar.  Os versos têm geralmente oito sílabas.

Seus festivais têm algo dos nossos congressos de violeiros, multidões na expectativa de ouvir o surgimento de grandes versos. Em outros momentos, o que se tem é a tensão crispada de uma mesa-de-glosas no sertão. Um poeta explica assim o melhor método para improvisar (e eu concordo inteiramente): prepara-se primeiro uma chave-de-ouro eficaz, um verso final com peso. E depois a pessoa vem ao começo e sai improvisando, compondo o resto de modo a desembocar nesse final. A “queda do verso”, antes de repetir o mote, como se diz entre violeiros.

Um exemplo de “tema” como eles empregam: um cantor, Mendiluze, fará um órfão, que nunca teve problema com esta condição e que quando adulto se tornou riquíssimo. Hoje, os criados trouxeram a sua presença um homem (que vai ser interpretado pelo outro cantor, Egaña) que alega ser seu irmão gêmeo. Os dois improvisam um diálogo em versos cada qual do ponto de vista do seu personagem. Cada um diz duas quadras, alternadamente.

Pode ser uma dimensão enriquecedora para bons improvisadores. De certo modo, uma certa herança teatral: é um repente dialogado através de máscaras momentâneas. Não são apenas versos. Há um mínimo de dramaturgia implícita, os versos criam uma cenazinha, um entremez relâmpago.

Em outras competições eles sorteiam, como no Nordeste, um tema específico e um tipo-de-estrofe específico, e o cantador deve improvisar dentro desses limites.

Aqui mais um clip, Antoni Egaña cantando sozinho:


“Você é um jornalista, sentado à mesa na redação para escrever seu último artigo”. O cantador dá alguns passos até o microfone, concentra-se e canta suas estrofes quando as sente prontas na mente. O festival parece mais com uma mesa-de-glosas contemporâneas do que com os congressos de violeiros. A ausência da música instrumental é notável, porque o ginásio inteiro prende a respiração enquanto o poeta pensa.

É como as mesas de glosas que tenho visto em algumas cidades, principalmente na região de Tabira e de São José do Egito (PE). Eu acho aquilo O Mais Silencioso Espetáculo da Terra, porque são cinco ou seis pessoas sentadas numa mesa, pensando, e uma multidão olhando a gota de suor na testa deles, e prendendo a respiração a cada instante a mais de demora. E de repente, um verdadeiro grito de gol, com a linha final do verso.

Aqui, mesa de glosa em Tabira (PE):


Esses temas dos bertsolaris sugerindo diálogos são uma certa teatralização do ato de improvisar, porque exigem contexto, exigem personagem, exigem uma mentalidade especial dizendo aquelas palavras. Parece inclusive com alguns tipos de exercícios de improviso, entre atores, em que se sorteiam alguns elementos, como local, pessoas, algum acontecimento, para que eles improvisem na situação descrita.

Tira um pouco do universo da música, para a qual a cantoria tem perdido grandes improvisadores, que agora gravam forró ou canção romântica ou repertório regional. As mesas-de-glosa estão mais próximas dos bertsolaris do que de um festival de violeiros. É o verso puro, cantado a capella, de um lado; e a estrofe complexa onde é preciso encaixar a idéia produzida pelo tema dado alguns segundos atrás.

Uma cantora famosa de bertsolaris, Maialen Lujanbio:


Nas mesas de glosa, os improvisos são feitos pela ordem. Um mote é sorteado, anunciado a todos, deixado em destaque num telão ou num notebook ou num quatro de parede, bem visível para os improvisadores e para o público. O primeiro poeta na ponta da mesa faz seu verso, e somente depois dese se desincumbir será a vez do número 2 mostrar seu verso, e assim por diante. No segundo sorteio, começa-se pelo poeta 2, para proover rodízio de posições.

Outra mesa de glosa em Tabira (PE):


Há teorizações de todos os tipos sobre as vantagens e desvantagens da mesa de glosas. Dois pontos me parecem corretos: ser o último da fila tem a vantagem de dar mais tempo para pensar, para estar com o verso pronto na ponta da língua. E tem a desvantagem de ver os colegas que o antecederam usar as melhores possibilidades de rimas. Como todos são obrigados a rimar com as palavras do mote, às vezes a palavra tem pouco repertório de rimas, e repetir uma rima já usada por um colega é considerado um pecado venial em muitos círculos poéticos.

Se o mote for, por exemplo, “abrindo a janela eu vejo / mil olhos no firmamento”.  Talvez minha primeira idéia seja dizer alguma coisa sobre os astros e findar com a Lua que é feita de queijo. Mas pela escassez de rimas é bem possível que antes de mim alguém lembre da rima “queijo” e refaça o mesmo raciocínio. Se ele recitar uma glosa assim, aí vou ter que começar tudo de novo, e às pressas, para ter verso pronto quando minha vez chegar.


E às vezes o poeta sabe que o verso que ele pensou é muito melhor do que aquele que o precedeu, e que se o verso agradar, o público perdoará e esquecerá depressa a repetição. 







domingo, 9 de março de 2008

0139) “Bertsolaris”: os repentistas bascos (31.8.2003)



Os “bertsolaris” são os repentistas do País Basco, aquele de quem a gente só ouve falar quando os guerrilheiros do ETA fazem um atentado a bomba. 

O ETA luta pela independência dessa nação que tem sua própria língua, sua tradição cultural e sua história, mas que foi cortada em duas, ficando 25% no sul da França e 75% no norte da Espanha. O idioma basco, ou “euskara”, é uma raridade linguística. É diferente de todos; ninguém sabe ainda sua origem. 

Os 2 milhões de bascos são extremamente afeiçoados a essa língua e à terra natal. Há séculos sonham em ter seu próprio Estado e governo, mas não está fácil. E tome carro-bomba.

Uma das tradições deste povo tão tradicionalista são os seus repentistas, chamados de “bertsolaris”. Minha ignorância do idioma basco dispensa comentários, mas como eles chamam suas estrofes de “bertso”, imagino que “bertsolari” signifique algo como “versejador”. 

Tal como nossos cantadores, os “bertsolaris” improvisam versos em estrofes de forma fixa, atendendo a pedidos da platéia, e fazendo desafios entre si (sem o acompanhamento de instrumentos). Ao que parece, o “bertso” não é improvisado espontaneamente, de acordo com a vontade do próprio poeta, como acontece com frequência entre os violeiros nordestinos. É preciso que alguém da platéia proponha um tema, uma provocação, e a partir dela os repentistas fazem suas estrofes.

Entre as estrofes típicas dos bertsolaris, o “zortziko mayor” é uma estrofe de 8 linhas onde as linhas pares têm a mesma rima. Seria, na notação adotada no Brasil, uma estrofe com rimas aBcBdBeB. Os versos ímpares têm 10 sílabas, e os pares têm 8. 

Já o “zortzyko menor” segue o mesmo esquema de rimas, mas seus versos têm respectivamente 7 e 6 sílabas. 

Também existem o “hamarreko mayor” e o “hamarreko menor”, que são as mesmas estrofes anteriores ampliadas para 10 linhas. 

Um hábito típico dos poetas é, ao ouvir o pedido da platéia, imaginar rapidamente uma resposta à altura, que será o desfecho, as duas linhas finais, e vir improvisando a estrofe desde o começo, até fechá-la com essas duas linhas de maior impacto. É o que no Nordeste os cantadores chamam “a queda do verso”, as últimas linhas improvisadas antes de se repetir o mote dado pela platéia. (O mote, como o usamos, não é usado entre os bascos).

Os bascos têm também o seu equivalente ao cordel, o que eles chamam de “bertso paperak”, ou “verso de papel”. São folhas soltas onde alguns improvisos famosos são reproduzidos e passados adiante; não parecem tanto com nossos folhetos, e sim com os nossos “poemas” impressos num só lado de uma folha de papel jornal. 

Os “paperak” surgiram no período das guerras carlistas (1839-1876); quanto ao “bertso” improvisado, sua história vem desde o ano 1800. Os “bertsolaris” de hoje se enfrentam em festivais que arrastam milhares de espectadores. Existem hoje cerca de 100 escolas de “bertso” no País Basco, com um total de 800 alunos. Dá até inveja!