Há uma história sobre um rapaz distraído que quando foi à Alemanha lhe pediram que levasse uma encomenda para uma tal de Dona Erda. Um mês depois, ele bateu à porta do chalé e perguntou por Dona Osta. Nossa memória é vulnerável a esses pequenos atos falhos, que segundo algumas teorias são todos propositais. Embora não sejam propriamente nossos. São das criaturas trancafiadas que existem em nós, invisíveis para nós, e que somos nós. Toda vez que a gente erra, um desses avatares está querendo nos dizer alguma coisa.
O Padre Massote, diretor e professor da escola de cinema da
UCMG, era jesuíta, muito falador, discorria muito bem sobre tudo, porque lia
muito e adorava cinema. Pertencia, a certa distância, àquela corrente mista de
cineclubismo e igreja católica que no Nordeste teve também um papel tão
importante. Massote exibiu para nós,
seus alunos, Un Chien Andalou e L’Âge d’Or, dizendo: “Vocês têm que ver isso,
porque Buñuel é um dos maiores do mundo, apesar do infantilismo ateu dele. Mas
não amarra a chuteira de Antonioni”.
Uma vez ele estava falando, provavelmente sobre economia de
linguagem, sobre sintetizar uma cena inteira numa imagem, e disse: “Você pode
dizer tudo em uma simples frase. Drummond fez um poema para a cidade de Nova
Friburgo que diz apenas: ‘Um cravo na lapela’”. Anos depois me caiu sob os
olhos esse poema. O poema diz, na verdade: “Esqueci um ramo de flores no
sobretudo”. É Nova Friburgo também. A memória emotiva de Massote não lhe
faltou, nem a visual, porque ele apenas reduziu o que lembrava; e o que disse
está essencialmente certo, poeticamente certo.
Quantas vezes já me pediram para contar a história de um
filme que eu vi dez anos atrás e eu contei, mas pintando um filme novo por cima
do que eu não lembrava? Era uma mentira? Talvez, mas não pelo prazer de mentir,
e sim pela vertigem de inventar, e nem quem dela é capaz pode definir o
mistério que tem.

