Mostrando postagens com marcador música folk. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador música folk. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

4492) A Canção Fantástica: "O Buraco Sem Fundo" (9.8.2019)



A gente fala tanto em literatura fantástica em forma de romances e de contos, mas vejo pouca gente discutindo a poesia fantástica e, menos ainda, a canção fantástica.

Porque o fantástico não decorre da prosa: decorre da narrativa, e onde quer que exista a possibilidade de uma poesia narrativa, existe a possibilidade de uma poesia fantástica.

Eu próprio comento isso aqui de vez em quando, e quem quiser pode consultar artigos neste blog a propósito de clássicos como “A Balada do Velho Marinheiro”, “O Barco Ébrio”, “A Atlântida” de Amílcar Quintella Jr. e tantos outros.

Uma das minhas bandas preferidas neste gênero é The Handsome Family, de quem ouvi falar pela primeira vez através do crítico Greil Marcus, um dos melhores estudiosos da canção popular norte-americana. E não me refiro à música pop que toca no rádio, e sim àquela canção folk meio soturna, meio sombria, meio transgressora, do que ele próprio chama, no título de um livro, The Invisible Republic.

Chamar The Handsome Family de “banda” é até meio derrisório, porque trata-se apenas de um casal que compõe e canta em conjunto. São do Illinois e atualmente vivem em Albuquerque, a cidade tornada famosa pelo seriado Breaking Bad. Eles são Brett e Rennie Sparks: ele toca violão e teclados, ela toca baixo e banjo. Ele tem uma voz poderosa de barítono que lembra bastante a de Johnny Cash. Ela, ao que se diz, escreve a maioria das letras, que flutua entre aqueles gêneros de “Southern Gothic” ou “surrealismo rural”.

Muita gente talvez lembre desta canção, “Far From Any Road”, que serviu de tema à primeira temporada da série de TV True Detective:


A grande maioria das canções do duo tem esse clima meio terrorífico, meio sobrenatural, cinzelado com precisão por versos curtos que nunca dizem tudo mas sugerem muita coisa, às vezes com uma narrativa inteira condensada em uma ou duas linhas, como nas canções de Leonard Cohen ou Tom Waits.

Uma das minhas preferidas é esta, “The Bottomless Hole”, do álbum Singing Bones (2003):


O BURACO SEM FUNDO (tradução: BT)

Meu nome eu não recordo, mas eu vim do Ohio;
eu tinha mulher e filhos, um carro com bons pneus...
O que me tirou de casa e me levou ao fundo da terra
foi um buraco largo e escuro, que descobri atrás do celeiro.

Nós o enchíamos com todo lixo que se pode imaginar:
restos de cozinha, vacas mortas, tratores enguiçados,
mas eu nunca ouvia aquilo bater no chão lá dentro
e comecei a temer que o buraco não tivesse fundo.

Eu ia para trás do celeiro, ficava olhando o buraco,
ficava assim noite adentro, sem sossegar o juízo...
E um dia peguei cordas e uma velha banheira enferrujada,
e improvisei uma carroça para entrar lá no buraco.

Minha esposa me ajudou, foi me dando mais e mais corda
enquanto eu descia para longe da superfície
a última corda foi retesada e eu não chegara ao fim,
estava ali pendurado, balançando sobre o abismo.

Então eu puxei a faca, disse adeus a minha mulher,
cortei as cordas e me deixei cair no buraco escuro;
e ainda estou assim, caindo, caindo nesse poço maldito
mas enquanto não chegar lá embaixo, não acredito que não tenha fundo.

É uma canção naquele estilo das baladas country com música monótona e ritmo compassado. Tem um pouco do espírito dos tall tales do folclore norte-americano, aquelas histórias mentirosas, de coisas absurdas contadas ao pé da fogueira para provocar o riso.

E ao mesmo tempo tem o clima obsessivo de tantos contos de terror em que um indivíduo se deixar arrebatar por uma idéia fixa e acaba se destruindo na tentativa de confirmá-la, ou de desmenti-la.

É um “fantástico rural” mas sem o tom brincalhão e irônico de tantas canções rurais. É uma parábola de Kafka em paisagem de faroeste, e a voz grave e sisuda do cantor, o arranjo minimalista, a melodia monocórdia, tudo isto contribui para o senso de tragédia inevitável e do insólito aceito como uma coisa inexplicável a mais numa vida sem sentido.










quarta-feira, 25 de abril de 2018

4340) Dez álbuns: 3 - "For Little Ones" (25.4.2018)




(Vou dar continuidade ao desafio que me foi feito via Facebook por Toinho Castro e Mario Bag: postar dez discos que a gente ouviu até a agulha furar o vinil, e continua ouvindo até hoje.)

Este é sem dúvida um dos álbuns que mais escutei durante minha vida inteira, e ele tem além disso uma peculiaridade interessante: é um dos raríssimos álbuns cujas letras eu já sabia quase de cor antes de ouvir pela primeira vez.

Em 1970 eu estudava em Belo Horizonte e mantinha uma correspondência cerrada com os irmãos Jakson (“Son”) e Marcos Agra, meus colegas do Cineclube de Campina Grande. Son era um desses caras que quando se tornam fãs de algo tornam-se verdadeiros missionários, tentando batizar e converter todo mundo.

Ele descobriu esse LP do bardo escocês Donovan, For Little Ones, e sua vida dividiu-se em antes e depois. (Nada de mais: com ele, isso acontecia todo mês.) Copiou à mão todas as letras e mandou para mim, ameaçando-me de ferro em brasa e chumbo derretido se na minhas férias em Campina eu não ouvisse o disco e concordasse com ele.

Concordei. O que fazer? O disco de Donovan é, ao que se diz, um disco de canções infantis (“Para os Pequeninos”). Ao que parece, foi lançado em álbum duplo com outro título, A Gift From a Flower to a Garden, que conheço pouco. Mas são canções infantis para crianças britânicas, que são um universo totalmente diferente do mundo infantil brasileiro. São canções de melodias nostálgicas, belas, recursivas. Versos de grande beleza poética escandidos por uma voz de dicção perfeita (dava para entender quase tudo que era cantado!). Um violão dedilhado que passei anos tentando imitar, e floreios magníficos de uma flauta.

As letras falam de uma viúva na praia esperando a volta de um marinheiro, de um músico ambulante que anda com um macaquinho dançarino, de uma cigana que passa por uma vila e a deixa enfeitiçada, de um maturalista que volta da praia com os bolsos cheios de conchas. São pequenas vinhetas, com imagens visuais fortes, que têm de fato um clima infantil, no sentido de que sugerem um mundo meio de fantasia, de encantamento, a partir de paisagens e personagens reais.

Aqui, links para algumas dessas canções:

“Widow With Shawl (A Portrait)”:

“The Enchanted Gypsy”:

“Epistle to Derroll”:

“The Lullaby of Spring”:

The “Starfish-on-the-Toast”:

Donovan tem discos até melhores do que este, como Mellow Yellow, um disco pop, londrino, moderno; ou Celtic Rock, com banda mais pesada. Ele é um excelente cantor, mas teve o azar de ser contemporâneo de Bob Dylan e ser sugerido pela imprensa como “o Dylan britânico”. Os dylanmaníacos, para quem Dylan não é um cantor e sim uma entidade acima do Bem e do Mal, veem Donovan como “aquele inglês chato” que apareceu no hotel de Dylan durante a turnê londrina.

For Little Ones faz uma ponte muito interessante entre o rock britânico e a literatura infantil britânica, uma das melhores do mundo, ou pelo menos uma das mais influentes. Ser criança na Inglaterra, um país invernal e reprimido, não devia ser fácil naquela época. As escolas inglesas eram um pesadelo a que muita gente não conseguia sobreviver psiquicamente. Basta ler os relatos autobiográficos de dezenas de autores (Roald Dahl, George Orwell em Books vs. Cigarettes, e tantos outros). Uma instituição onde o bullying (de chicote em punho) era oficializado.

Em Revolution In The Head (1994), Ian MacDonald observa que um dos discos mais importantes dos Beatles, o compacto contendo “Penny Lane” / “Strawberry Fields Forever” (1966), mostra McCartney e Lennon recorrendo (cada um ao seu modo) às lembranças de infância (que brotariam novamente em várias faixas de Sgt. Pepper’s (1967). Diz ele (p. 172-173):

Este segundo aspecto da canção [SFF] inaugura para todos os efeitos o espírito “pop-pastoral” inglês, explorado no final dos anos 1960 por grupos como Pink Floyd, Traffic, Family e Fairport Convention.

“Pastoral”, no caso, não tem conotação religiosa, e sim de evocação a uma vida rural idílica, junto à natureza; um paraíso no campo, longe das multidões enlouquecedoras, longe da frieza e do cinismo da vida urbana. Seria algo parecido com o nosso Arcadismo poético. Ou, mais modernamente, com o espírito “eu quero uma casa no campo”.

Mais significativo, no entanto, era o ponto de vista infantil adotado pela canção – porque o verdadeiro tema da psicodelia inglesa não era nem o amor nem as drogas, mas uma nostalgia pela visão inocente das crianças.

Rapazes que aos dez anos frequentavam a escola de terno e gravata descobriam-se de repente com o direito de tirar a roupa e dançar na grama de um parque, ao sol do verão. A tradicional família britânica via nisso uma ameaça permanente de suruba, porque ao que parece as famílias tradicionais não pensam noutra coisa. Ouso dizer, pelos muitos relatos de época que já li, que as surubas ou mesmo as trepadinhas dois-a-dois eram relativamente poucas. Nudez para essa turma era uma espécie de libertação angelical.

O próprio MacDonald lembra outras bandas que conseguiram reproduzir musicalmente esse universo meio Alice in Wonderland da psicodelia inglesa, entre elas a Incredible String Band, cuja coletânea dupla Relics eu talvez acabe incluindo e comentando nesta lista.

Donovan era um bardo tão inimitável quanto Bob Dylan, e a única coisa que os dois tinham em comum era a riqueza poética e a conexão prfunda com a música folk onde bebiam. Dylan era sem dúvida um poeta com territórios poéticos mais variados; mas Donovan, na sua faixa mais estreita, era igualmente imbatível.
















terça-feira, 11 de março de 2014

3443) "Inside Llewyn Davis" (11.3.2014)



É um daqueles filmes dos irmãos Coen onde um artista desnorteado e sincero vive a dar com a cara nas portas do mundo (Barton Fink), ou uma daquelas tertúlias etnológicas pela música rural norte-americana (E aí, meu irmão, cadê você?).  Um daqueles filmes cheios de piscadelas para aficionados e ao mesmo tempo daquelas terríveis rodovias enxergadas através do parabrisa de um carro à noite, quando sentimos que naquele momento tudo aquilo é real e mesmo sendo um filme qualquer coisa pode acontecer.

Llewyn Davis é um cantor de música folk que percorre os bares do Greenwich Village num daqueles momentos mágicos do espírito, a New York de 1961, semelhante à Londres de 1890, à Paris de 1925, ao Rio de Janeiro de 1958. Um foco cultural aceso numa cidade capaz de lhe ser receptiva. O Village abrigou poetas beatniks, teóricos da contracultura, cineastas de vanguarda, mas os cantores de protesto ou de tradição étnica (aqueles irlandeses de suéter, que conseguem fazer uma consoante ter sonoridade interna equivalente à de uma vogal) também são a cara daquela época.  Ficou Bob Dylan como o mais famoso, mas basta ler as Crônicas dele próprio: ele lembra músicos dos bares daquele tempo que talvez não tenham nem verbete na Wikipedia.  Samuel R. Delany também conta em suas memórias que por pouco não recitou poesias num bar na mesma noite em que um tal de Bob Dylan ia cantar. Esses filmes de época são sempre pedaços da biografia de alguém, estão ligados à vida pessoal de alguém. 

Llewyn Davis é talentoso, é bom sujeito, mas vive metendo os pés pelas mãos e dando com os burros nágua. Curiosamente, este filme me lembrou o Não Estou Lá que estilhaçou a biografia de Bob Dylan em vários personagens específicos.  Llewyn Davis é um daqueles Dylans iniciais, parelho ao negrinho que se diz chamar Woody Guthrie e ao personagem cowboy-de-sapatos de Christian Bale. Minha teoria é de que existe mesmo um arquétipo chamado O Bardo, e cada um desses caras traz algumas canções dele. Somos heterônimos dele, mas na verdade é ele quem escreve tanto a obra do poetinha romântico quando a do profeta apocalíptico. Uma espécie de Mega-Fernando-Pessoa, que escreve tudo, e tem alguns bilhões de heterônimos.

Cada verso da gente foi escrito pelo Bardo, usando o rudimentar instrumento que é nosso estilo pessoal, nossa nitidez e limitação. O Bardo precisa de vários transmissores para chegar aos humanos. Todos os poemas de qualquer poeta são do Bardo, que por consequência é o próprio Llewyn Davis. Uns vão em busca do Hall of Fame, mas aí tem um que consegue entrar na Marinha Mercante e consegue enfim descobrir quem é.


domingo, 16 de setembro de 2012

2978) Tempestade de Dylan (16.9.2012)




O novo disco de Bob Dylan, Tempest está chegando às lojas (ou melhor, já pode ser ripado livremente). O Bardo aproveitou a ocasião para dar mais uma entrevista à revista Rolling Stone, na qual solta o verbo sobre os críticos com uma irritação que há um bom tempo não demonstrava (“all those motherfuckers can rot in hell”). Bem, como é tempo de política, ele deve estar se dirigindo aos críticos republicanos.

Já escutei uma faixa no YouTube, “Duquesne Whistle”, que mais uma vez não é rock, começa como uma daquelas cantigas “honey pie” dos anos 1930, com uma bateriazinha básica, guitarra slide, órgão de apoio... Tem um clima de botecos clandestinos da Lei Seca, ainda com um glitter e um charme dos anos 1920, mas já com um cheiro de fumaça, poeira e pólvora da Depressão dos 30. Não é rock, como aliás não têm sido os últimos álbuns de Dylan. É uma raiz melódica do rock, uma raiz mais remota que o blues, ainda que menos poderosa. Curiosamente, uma raiz que Dylan compartilha com os Beatles, cuja música entre 1967 e 1969 bebeu nessa fonte “antiquada”, graças principalmente a Paul McCartney, cujo pai tinha sido músico de banda nesse período.

Dylan retoma na entrevista a discussão sobre os versos que andou “pedindo emprestado” a outros autores em letras de canções recentes. Os casos mais notórios são o livro Confessions of a Yakuza de Junichi Saga e os poemas de Henry Timrod (1828-1867), dos quais Dylan teria usado frases inteiras. Diz ele:

“No folk e no jazz a citação é uma tradição rica e enriquecedora. Alguém aí já ouviu falar em Henry Timrod? Quem de vocês leu os livros dele ultimamente? E quem foi que o trouxe à evidência agora? Quem fez vocês se interessarem por ele? Perguntem aos descendentes dele o que acham dessa discussão. E se vocês pensam que é fácil citá-lo, e que isso pode lhes ser útil, vão em frente e vejam o que conseguem. Estou trabalhando dentro da minha arte, dentro das regras e das limitações dela. Existe aí gente autorizada que pode explicar isso melhor do que eu. Chama-se ‘escrever canções’. Tem a ver com melodia e ritmo, e depois disso vale tudo. Tudo que você usa fica sendo seu. Todos nós fazemos isso”.

E antes que qualquer zé-mané se meta a copiar versos alheios, faço eu minha advertência final: você só tem direito de copiar 10% do que usa, e seus 90% têm que ser melhores do que o material alheio que você vier a usar. É justamente o caso de Dylan. Ele usa o alheio, mas num contexto tal que o alheio fica valorizado e enriquecido pelo novo contexto. No caso de Junichi Saga, pelo menos, ele afirmou sentir-se honrado por ter frases suas citadas por Dylan.


sábado, 14 de julho de 2012

2923) Woody Guthrie, 100 anos (14.7.2012)








O Brasil comemora o centenário de Luiz Gonzaga, e fico imaginando que tipo de comemorações estará havendo nos EUA pelo centenário do Luiz Gonzaga deles, o grande Woody Guthrie.  Assim como Gonzaga, foi um cara que viajou seu país de ponta a ponta, cantando a vida das pessoas simples nos campos de trabalho, nos sítios, nas praças, nas estações de rádio, nos comícios, nas festas.  Gonzaga inventou o baião sintetizando elementos rítmicos, melódicos, instrumentais, poéticos.  Guthrie trabalhou dentro da canção folclórica de origem irlandesa ou escocesa, da música country tradicional, do forrozinho hillbilly que eles dançam até hoje, de um ou outro elemento negro do blues, das baladas em compasso ¾, e daquelas quilométricas canções narrativas em estrofes fechadas, que a canção em língua inglesa tanto aprecia. (E nós também – vide “Triste Partida”.)

Guthrie é menos conhecido pelas canções do que por ter sido o “poeta andarilho” que serviu de modelo a uma geração inteira de “trovadores hippies”: Bob Dylan, Phil Ochs, “Ramblin” Jack Elliott, etc.; e ter sido interpretado por David Carradine (o ator da série “Kung Fu”) no filme Esta terra é minha terra (1976), inspirado em sua autobiografia Bound for Glory (1943).  Acho que há poucos CDs de Guthrie lançados no Brasil.  Nos tempos do vinil era ainda mais difícil encontrar alguma obra sua, e o que me salvou foram alguns elepês da biblioteca da ACBEU, na Vitória, no tempo em que eu morava em Salvador.

Ele foi o menestrel ambulante da América no tempo da Grande Depressão, pegando carona em trens, dormindo nos acampamentos dos sem-terra, metendo-se em agitações políticas.  No filme dylaniano Não estou lá, de Todd Haynes, seu nome é dado a um adolescente negro, fluente ao violão. Sua carreira de trovador brotou num ambiente idêntico ao de As Vinhas da Ira (livro de John Steinbeck, filme de John Ford).  Esquerdista por natureza, Guthrie escreveu em seu violão: “Esta máquina mata fascistas”, mas suas canções não são incendiárias, nem falam de revolução.  Em sua grande maioria são celebrações da vida simples das pessoas do interior (tal como em Luiz Gonzaga) e reafirmações da fé democrática fundamental dos norte-americanos.

Guthrie nasceu em 14 de julho de 1912 e morreu aos 55 anos, de uma doença nervosa degenerativa. Seu filho Arlo Guthrie é um dos grandes nomes do folk rock.  Sua obra continua a ser gravada e reverenciada, canções como “This land is your land”, “Pastures of Plenty”, “I ain’t got no home”, e seus numerosos “talkin’ blues”, aquele estilo de monólogo semi-cantarolado enquanto se rasqueia o violão, usado por Dylan, Arlo e tantos outros.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

1583) Janis e Joan (9.4.2008)



Foram as grandes damas do rock e da música folk, para a minha geração. Eram diferentíssimas entre si, foram contemporâneas, e até hoje não sei se chegaram a se encontrar pessoalmente. Em geral, quem era doido por uma delas olhava a outra com desconfiança, mas para mim, aos dezoito anos, eram as minhas Musas. Eu colocava seus elepês alternadamente, ouvia-os com a mesma paixão, acreditava, com a mesma intensidade, no que cada uma dizia. Quando cantavam seus males de amor, eu fantasiava que as estava recolhendo sob o meu braço protetor, e dando-lhes carradas daquele carinho de que tanto precisavam.

Janis Joplin era aquela contradição viva, uma branca que cantava como uma negra, rasgando a alma em tiras em cima do palco. Ela se queixava: “Faço amor com 20 mil pessoas durante três horas e depois volto para o hotel para dormir sozinha”. Era gordinha, branquela, sardenta, desajeitada. Tomava todas, provava de tudo. Não seria em hipótese alguma a garota que a gente gostaria de apresentar como namorada: “Papai, mamãe, esta aqui é Fulana...” Janis tinha aquele jeito escrachado e irreverente que ressurgiu anos depois em Cássia Eller, um jeito de bicho-do-mato difícil de domesticar. Ria alto, chamava nomes, escandalizava, cuspia no chão, coçava a mera hipótese de um saco. Cantava qualquer coisa, e quando cantava a música renascia, surgia pela primeira vez. Morreu de overdose aos 27 anos.

Joan Baez era o contrário disso, mas no mesmo patamar de intensidade. Tinha uma voz de soprano, cristalina, hipnótica. Quando começava a cantar, calavam-se, como nas lendas medievais, os pássaros nas árvores, as fontes nas colinas. O que tinha Janis de dionisíaca tinha ela de apolínea, sempre de branco, os cabelos negros muito longos e lisos, o perfil clássico de estátua grega. Era de ascendência mexicana, cantava em várias línguas. No primeiro LP seu que possuí, ela cantava “Muié Rendeira” e a “Bachiana no. 5” de Villa-Lobos. Era tímida, reservada, enigmática. Na música brasileira, seu jeito lembra o de Ná Ozetti. Preservava sua vida pessoal. Mas quem quiser a prova do estrago que Bob Dylan fez no seu coração, ouça “Diamonds and Rust”, composta para ele.

Falo das duas no passado, mas Baez ainda está viva, aos 67 anos, uma bela senhora cujos cabelos agora estão brancos e curtos. A voz, pelo que vi num especial de TV, continua a mesma. O mundo segue a ordem natural das coisas. Os dionisíacos queimam depressa, como uma lâmpada supervoltada. Os apolíneos queimam devagar como uma vela, cujo corpo diminui de tamanho mas a chama permanece a mesma. O olhar de Joan Baez revela hoje uma maturidade que parece sempre ter tido, e da qual ela precisa para aceitar o fato de que o mundo em que vive agora é o oposto do que sonhou um dia. Janis, neste mundo de hoje, seria muito mais feliz do que ela, mas explodiu cedo, o que para nós talvez não faça diferença, porque a luz que emitiu não dá sinais de arrefecer.

sábado, 8 de março de 2008

0102) Quem foi Harry Smith? (19.7.2003)




Numa entrevista aos 53 anos, ele afirmava nunca ter pago impostos, nunca ter votado, nunca ter tirado carteira de motorista, nunca ter servido ao exército. Vestia apenas roupas jogadas fora, e estava com o aluguel sempre atrasado. Dizia que sua vida sexual limitava-se à masturbação. 

Durante uma época de sua vida, inventou uma dieta à base de apenas manteiga e açúcar, e quase morreu de fome. Perdeu todos os dentes porque se recusava a ir ao dentista. Pedia dinheiro emprestado a todo mundo, e nunca pagava.

Parece o retrato perfeito de um doido ou de um vagabundo, mas o nome de Harry Smith (1923-1991) aparece nos lugares mais imprevistos, e sempre cercado de admiração. 

Tendo se interessado por antropologia na adolescência, estudou na Universidade de Washington, e dedicou-se desde cedo a gravar em fita magnética canções e rituais indígenas, além de compilar vocabulários e reunir objetos de artesanato. Colecionou colchas de retalhos dos índios Seminole, ovos de Páscoa ucranianos, e gabava-se de ter a maior coleção de aviões de papel do mundo (que depois doou ao Museu Aéreo e Espacial do Instituto Smithsonian). 

Era um especialista em “figuras de cordel”, uma arte de fazer complexas figuras esticando uma peça de barbante entre os dedos. Dizia ele ser esta a única arte presente no mundo inteiro, além da música.

Por falar em música, também foi colecionador de discos em 78 rpm, que comprava pelo país afora, a preço de banana, quando a Grande Depressão quebrou milhares de lojas e gravadoras. 

Usando sua coleção, compilou e lançou em 1953 a impressionante Anthology of American Folk Music, seis LPs reunindo um total de 84 canções praticamente esquecidas, que ajudaram a decolar o movimento da música “folk” norte-americana dos anos 60, com Bob Dylan, Joan Baez, Pete Seeger e outros. Era a memória musical e cultural de uma América que a América urbana ignorava. Em 1991, Smith recebeu um Prêmio Grammy por sua contribuição à música americana.

Como sobrevivia? Não se sabe, mas por muitos anos viveu de descolar verbas para fazer cinema. Não o cinema de Hollywood, mas complexos curta-metragens de animação com técnicas desenvolvidas por ele mesmo. Seus filmes eram objeto de culto, provocavam espanto nos festivais, e são citados em qualquer estudo sobre o cinema “underground” ou de animação nos EUA. 

Era estudioso da Cabala e do Ocultismo, e um tremendo inventor de histórias; dizia às vezes ser filho de Aleister Crowley com a Princesa Anastasia da Rússia.

Seu livro de entrevistas Think of the Self Speaking mostra a maneira impressionante como sua mente percorria sem parar os caminhos mais tortuosos. No espaço de dois parágrafos ele passa por jazz, poesia beatnik, literatura clássica, drogas, rituais indígenas, episódios autobiográficos inacreditáveis, gozações com o repórter. 

Era um sujeito que pensava o tempo todo. Dizia ser mentalmente insano, e dizia também que sempre tinha razão. É bem capaz.