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segunda-feira, 10 de março de 2008

0197) A união dos contrários (7.11.2003)




(ilustração: Bernard Lietaer, em The Future of Money)

O símbolo oriental do Yin-Yang, que resume o pensamento Taoísta, é um círculo cortado verticalmente por uma linha em forma de S, que o divide em duas formas de tamanho igual e posição invertida, como duas gotas dágua encaixadas uma à outra.

Uma dessas gotas é branca, a outra é preta; na parte mais volumosa da gota branca há um pequeno círculo preto, e na parte correspondente da gota preta há um círculo branco. São formas simétricas, e cada uma traz dentro de si a semente do seu oposto.

Faz lembrar aquele velho preceito do Materialismo Dialético de meus tempos de estudante, de que em qualquer luta de opostos cada um deles traz em si a semente do seu contrário, a qual em determinadas condições pode ganhar força, ampliar-se, fazê-lo “virar a casaca” (era esse o termo). Algo parecido com o que referi na coluna “Os campos magnéticos” (15 de outubro).

Em seu poema “Os Dois Vigários”, Carlos Drummond compara as vidas de Padre Júlio (devasso, fornicador, desbocado) e Padre Olímpio (humilde, angustiado, auto-flagelante). Quanto mais um se entrega à devassidão e à blasfêmia, mais o outro se penitencia: “um pecava, outro pagava”. Numa noite, dois raios matam os dois vigários, que são enterrados juntos:

(...) iguaizinhos se tornaram:
onde o vício, onde a virtude,
ninguém mais o demarcava.
Enterrados lado a lado
irmanados confundidos
juliolímpio em terra neutra
uma flor nasce monótona
que não se sabe até hoje
(cinquenta anos se passaram)
se é de compaixão divina
ou divina indiferença.

Fim de papo.

Teria Drummond lido o conto “Os Teólogos” de Jorge Luís Borges (no livro O Aleph)? Nele, dois teólogos medievais cultivam uma longa rivalidade. Aureliano, o brilhante e famoso, inveja o talento de João de Panonia, o modesto e obscuro. Defendem a mesma igreja, as mesmas idéias; combatem as mesmas heresias; mas o tempo inteiro parecem dois repentistas rivais tentando superar um ao outro enquanto debatem sobre um tema aparentemente neutro.

Uma indiscrição involuntária de Aureliano leva João a morrer na fogueira; nesse dia, os dois se vêem pessoalmente pela única vez. Anos depois, um raio incendeia a cabana de Aureliano, que morre também entre as chamas. No céu (diz Borges), “Aureliano soube que, para a insondável divindade, ele e João de Panonia (o ortodoxo e o herege, o aborrecedor e o aborrecido, o acusador e a vítima) formavam uma só pessoa.”

Podemos ignorar a limpidez destas alegorias? O poema de Drummond vem (em Lição de Coisas) ao lado do poema “O padre e a moça”, onde amor e pecado se justificam mutuamente, “quando o homem é apenas homem / por si mesmo limitado, / em si mesmo refletido”. Cada um de nós é essa síntese de contrários; é, no verso primoroso de Olavo Bilac, “um demônio que ruge e um deus que chora”.

Todas estas obras são esforços para que possamos olhar de frente a Criatura Bifronte que forjamos à nossa imagem e semelhança, e admitir que para nós, também, Deus e o Diabo formam uma só pessoa.






sábado, 8 de março de 2008

0108) O segredo do I-Ching (26.7.2003)




Já li e manuseei muito a edição de Richard Wilhelm (Editora Pensamento) do I-Ching, o livro chinês das transmutações. Ele e o Tao Te King – o Livro do Caminho Perfeito de Lao Tsé são duas portas para a mais plausível descrição religiosa do universo em que vivemos. 

Isto não faz de mim um taoísta. Taoísta é quem acredita nessas coisas, e eu tenho dificuldade de acreditar seja no que fôr, eu apenas comparo teorias e acho que umas são mais plausíveis, mais eficazes do que as outras.

A maioria das religiões tem deuses demasiado antropomórficos, contaminados de emoções humanas. Deuses que se enfurecem conosco, que nos amam com filhos, que nos condenam a torturas horrorosas, que nos perdoam sem explicação, que perdem o controle por dá cá aquela palha... Deuses humanos, demasiado humanos. 

Em vez dessa relação folhetinesca, melodramática, o I-Ching, através dos seus 64 hexagramas, reproduz uma seqüência de fluxos, de movimentos que me parecem corresponder a ciclos secretos do Universo, da natureza viva, da existência humana. Como? Não sei, é pura intuição (e esse álibi de “pura intuição” é, quem sabe, uma confissão velada de fé).

Eu gostaria de ver um filme de animação em que os 64 hexagramas de sucedessem na tela, para ver ali o que vejo quando os examino um por um: as linhas partidas que sobem, linhas inteiras que descem, ou vice-versa, movimentos de expansão e contração, ciclos de madurez e definhamento, ciclos de força atuante e de recolhimento contemplativo. As formas das forças que regem o mundo, que fazem o mundo ser tudo o que é.

Joguei o I-Ching algumas vezes, mas deixei de fazê-lo porque senti que estava a incomodá-lo com perguntas fúteis – “será que vou esquecer a letra das músicas, no show de amanhã?...” Também comecei a perceber que o livro continha 64 respostas que se aplicavam a qualquer situação, e que eu podia muito bem, quando precisasse de assessoria sobrenatural, abrir numa página qualquer um livro de Drummond ou de Emily Dickinson, ler, aceitar esse conselho do Acaso.

Disseram-me um dia que as moedas com que se joga o I-Ching devem estar carregadas de nossa energia. Tomei uma decisão, e guardei num bolsinho de dentro da carteira três moedas de 10 centavos. Resolvi que as levaria comigo, junto ao corpo, durante dez anos, e que depois as usaria para jogar o I-Ching. 

Passaram-se 5 ou 6 anos, e um dia eu me vi num país estrangeiro, numa situação complicada onde precisava urgentemente dar uns telefonemas. E as únicas moedas ao meu alcance eram as do I-Ching. Fui, voltei, hesitei, maldisse minha estupidez, e acabei usando meus pobres centavos brasileiros para me tirar daquela roubada. 

Findas as ligações, resolvido o problema, olhei para o céu, e vi numa nuvem metafórica o velho Confúcio olhando para mim com o polegar erguido, piscando o olho, e dizendo: “E aí, serviu ou não serviu?” Pense num povo prático, esses chineses.