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terça-feira, 7 de março de 2017

4214) Canções de feira (7.3.2017)




(ilustração: Feira de Campina, de Irene Medeiros) 

São aberturas-de-canção tão parecidas que mesmo vindo de lugares tão distantes e vozes tão diferentes não tinha como não perceber a reiteração de um motif, de uma daquelas maneiras-de-dizer ou “gestos verbais” cristalizados por milênios de uso.

Bob Dylan cantava, em “Girl From the North Country”:

If you’re traveling to the North country fair
Where the wind hits heavy on the border line;
Remember me to one who lives there.
She once was a true love of mine.

Dylan com Johnny Cash (1969):

Eu ouvia essa canção do álbum Nashville Skyline (1969), onde a voz de Dylan fazia dueto com o barítono imponente de John Cash, mas Dylan já a havia gravado num álbum anterior, The Freewheelin’ Bob Dylan (1963).

Dylan solo (1963?):

Eu sempre traduzia essa primeira linha assim: “Se você está viajando para a feira do país do Norte...”. Depois me ocorreu que também pode ser: “Se você está viajando para o belo país do Norte...”, com “fair” sendo usado como em My Fair Lady, e posposto ao substantivo, ao estilo clássico.

Minha leitura estava contaminada, certamente, pela canção Scarborough Fair, balada tradicional adaptada por Simon e Garfunkel em 1966, e grande sucesso da época:

Are you going to Scarborough Fair
(parsley, sage, rosemary and thyme)?
Remember me to one who lives there;
She once was a true love of mine.


(Digressão: Essa repetição literal nos versos 3 e 4 não é plágio É o resíduo íntegro de linhas que passam intactas de geração em geração de poetas, tal como ocorre em nosso Romanceiro Ibérico, onde às vezes é possível rastrear um único verso (uma descrição, comparação, declaração de amor) que pula de romance em romance, de poema em poema, ao longo dos séculos e dos países.)

O ponto intressante aí é que na canção de Simon & Garfunkel existe, sim, a menção clara de que o poeta se dirige a alguém que está indo para uma feira, e lhe faz um pedido:

Você está Indo para a Feira de Scarborough
(salsa, salva, alecrim e tomilho)?
Dê lembranças minhas a alguém que mora ali;
ela já foi um grande amor meu .

Essa segunda linha indica justamente as ervas e temperos que se espera comprar nessa feira; é como se por aqui a gente dissesse: “coentro, cebolinha, pimenta-do-reino e cominho”.

Pode me chamar de abestado, mas eu marejei os olhos quando em 1976 me bateu nas mãos o álbum Nas barrancas do Rio Gavião, primeiro disco de Elomar, e eu me deparei pela primeira vez com este clássico, “O Pedido”:

Já que tu vai lá pra feira,
traga de lá para mim
água da fulô que cheira
um novelo e um carrim...


São milênios de vida rural em que a feira é o grande atrator dos produtos, dos projetos, das esperanças, das curiosidades de milhões de pessoas que vivem no semi-isolamento dos pequenos sítios e pequenos povoados. A gente tem a mania de dizer: “Nordestino não pode ouvir alguém falar que vai pra uma cidade grande, faz logo uma encomenda.” Não somos somente nós; aposto que no Cambodja, na Armênia, em Honduras  e na Calábria não é muito diferente.

E pouco me importa se a Elomar não é muito simpática a música popular dos Estados Unidos. As coisas que Bob Dylan e Elomar cantam já estavam sendo cantadas antes mesmo de Colombo descobrir a América.

A “ida para a feira” é uma mini-migração recorrente na memória das sociedades rurais; a feira ocorre sempre num lugarejo maior do que o lugar de origem dos feirantes. É lá que acontecem as coisas:

Se não chover, amanhã vou passear;
comprar farinha lá na feira do Pilar...

Na canção de Armando Nunes e J. Portella, “Moça de Feira” (1957), Luiz Gonzaga conta a história de uma velha sabida lá do Pilar, que bota a filha, bem bonitinha, pra vender farinha aos feirantes A moça é tão bonita que a mãe engana com facilidade os matutos, hipnotizados por ela:

Os olhos dela tem veneno da serpente
e é mais quente do que o sol de Quixadá...
Farinha crua, tá azeda, tá mofada,
mas os caba não vê nada; nem o troco quer contar.



O orgulho pela feira imbatível, onde “não falta nada”, bateu no teto com o clássico de Onildo Almeida, outra gravação de Luiz Gonzaga, “Feira de Caruaru” (1957):

Na feira de Caruaru tem tudo pra gente ver;
de tudo que há no mundo nela tem pra vender...



Inspiração fundamental para outros clássicos, outras “batidas no teto” como a “Feira de Mangaio” (1977) de Sivuca e Glorinha Gadelha:

Fumo de rolo, arreio de cangalha
eu tenho pra vender, quem quer comprar?
Bolo de milho, broa e cocada
eu tenho pra vender, quem quer comprar?



A ida para a feira é o grande momento na vida dessas populações. A poesia de cordel e a cantoria de viola não existiriam sem essas idas e vindas, esses fluxos constantes que convergem para a feira carregados de produtos e regressam, horas ou dias depois, carregados de aquisições.

Johan Huizinga, em Homo Ludens (1938), lembra o papel das feiras como espaço de mistura de comunidades, tribos, clãs, que se enfrentam poeticamente, cada um louvando sua região, seus produtos, a beleza de suas mulheres, a coragem dos seus guerreiros, a esperteza dos seus mentirosos. Torneios poéticos que já eram antigos na Ásia e na África antes de começarem a ressurgir na América.

E para quem quiser ter uma idéia do ambiente humano desses mercados, nada melhor do que Dedé Monteiro recitando seu clássico “Depois que a Feira Termina”:










terça-feira, 13 de dezembro de 2016

4190) Algumas palavras sobre Gonzagão (13.12.2016)




Brincando, brincando, são 104 anos de nascimento de Luiz Gonzaga, e o pessoal não deixa de comemorar, lembrar, fazer homenagens. Que são sempre poucas, para a importância que teve o Rei do Baião como artista e como personalidade pública.

Anotei aqui algumas impressões sobre ele, alguns detalhes que sempre me vêm à mente quando o ouço cantando, quando o vejo dando entrevistas ou conversando nos palcos. Ou quando faço uma avaliação da importância que ele teve para a música.

Tecnologia
A invenção do baião no Rio de Janeiro foi (já escrevi sobre isso) um momento crucial na história da apropriação da tecnologia urbana pelos artistas populares nordestinos. Gonzaga e Humberto Teixeira tomaram de assalto um patamar tecnológico (gravadoras, rádios cariocas) que até então estava com porta trancada e segurança na frente. Com poucas exceções, e em fixas resttitas. Foi algo parecido com o que Leandro Gomes de Barros fez em 1895 quando se apropriou da tecnologia gráfica e começou a imprimir os poemas que antes eram recitados de memória ou copiados à mão. Foi parecido com Linduarte Noronha e sua equipe fazendo Aruanda no menos provável dos Estados onde pudesse aparecer um modo novo de fazer cinema brasileiro.

A ode à tecnologia está presente, principalmente, na canção “Respeita Januário”, onde ele reafirma orgulhoso o sua  conquista do poder high-tech da capital (a “sanfonona” de 120 baixos) e ao mesmo tempo o orgulho do artista popular: “Eu não sei pra que tanto baixo, porque espiando bem ele só toca em dois. Januário não. O fole de Januário só tem 8 baixos, mas ele toca em todos 8”. Tem toda uma teoria da Estética nessa música.

Respeita Januário:



Largueza
Gonzagão tinha um sorriso largo, franco, que iluminava o rosto em forma de lua. Sorriso de quem não tem medo. Mesmo já velho, abatido pela doença e pelos desgostos, sem poder andar direito, cantar direito, quando ele via algo ou alguém que o alegrava o sorrisão voltava inteiro. Não só o sorriso: o coração era largo, brigava mas perdoava, todo mundo cabia ali dentro. (O bolso era largo também.)  O sorriso parecia o abrir de uma sanfona. A voz era larga. Voz de quem já cantou muitas noites em cima de um caminhão, numa praça, e tinha que cantar mais alto do que a sanfona, porque não tinha microfone.

Boiadeiro:



Política
Poucos artistas se misturaram tanto com a política, não no sentido da militância, mas na convivência misturada que caracteriza o artista nordestino evoluindo entre coronéis, deputados, fazendeiros, prefeitos, vereadores , “homens por nós escolhidos para as rédeas do poder”. Qual o nordestino que nunca pediu um favor a um cidadão desses?  No tempo das vacas magras, quando passou o tsunami do primeiro sucesso, Gonzagão botou o trio no carro e saiu de Brasil afora, de cidadezinha em cidadezinha. Riscava na frente da Prefeitura, descia, avisava: “Diga ao prefeito que Luiz Gonzaga está aqui e queria humildemente uns minutinhos de atenção dele”. Descolava hotel, refeição, gasolina e cachê para aquela noite.

O povo de Exu lembra os longos esforços dele para a construção da estrada que ligou o município às cidades em volta. Gonzagão foi lobista, “lobista do povo”, como ele mesmo se apressaria a acrescentar. A convivência com políticos está no início mesmo de sua carreira. Ele contava que na época em que passava a noite tocando “In the Mood” na sanfona, na zona do Rio, um grupo de estudantes cearenses, tendo à frente o futuro ministro Armando Falcão, ficavam lá da mesa lhe pedindo para tocar as coisas do Nordeste. Esse toma-lá-dá-cá nunca mais parou.

Vozes da Seca:



Oralidade
Quem melhor do que Gonzagão cultivou, em cima do palco, a arte do monólogo entremeado às canções? Eram cinco minutos de conversa e uma música, oito minutos de conversa e outra música. Herdeiro da imensa informalidade dos forrós de candeeiro, para ele não tinha essa coisa do roteiro-de-ferro do show business. Ele aprendia tudo e botava no bolso para usar quando lhe desse na telha.

Muita conversa; e ao se juntar com parceiros igualmente loquazes como Zé Dantas, que era um tesouro de cultura oral, produzia canções-não-canções como “Sá Marica parteira”, que na verdade não tem nada a ver com a canção do show business (letra + melodia + arranjo), é um interminável monólogo puxado pelo resfolêgo da sanfona, cheio de efeitos sonoros de-boca (“piriri, piriri, piriri...”, “nheeeééém-pááá!”), sem primeira e segunda parte, sem refrão, um misto de teatro de palco e anedota radiofônica. Eita caminho largo para a música brasileira, caminho largo onde tão pouca gente já passou!

Samarica Parteira:



Gonzagão foi contraditório como todos os grandes artistas populares que saem da pobreza, chegam à riqueza, e insistem em continuar segurando ambas as pontas de um cordão tão comprido. Contraditório como quem, mesmo amado e endeusado por milhões, ainda se dirige a certas figuras com o tratamento respeitoso de “Seu Dotô”.  Contraditório ao assinar composições que só eram suas pelas beiradas, graças à adição de um riff de teclado, de um refrão concebido na hora de gravar, mas que o fazia com o coração aberto de quem sabia que aquilo ali, num sentido artístico bem profundo, era tudo seu.

Numa entrevista antiga, o repórter lhe perguntava no final como ele via toda a sua trajetória, a vida, a obra, tudo que realizou. E ele já velhão, cansado, tranquilo, alargou o sorriso e disse:

-- Isso estava escrito. Deus quis, aconteceu. Foi bom pra mim.  É bom pro povo.

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

3718) Humberto Teixeira 100 anos (23.1.2015)



No dia 5 de janeiro passado foi comemorado o centenário de nascimento de Humberto Teixeira (1915-1979), o primeiro grande parceiro de Luiz Gonzaga, a quem coube criar o baião junto com o sanfoneiro do Exu.  

Humberto foi uma figura muito diferente de Gonzaga.  Trouxe para o baião o lado literário, urbano e culto, enquanto Gonzaga forneceu o talento telúrico. 

Nascido no Iguatu (CE), teve formação musical desde a infância, tocando flauta e bandolim.  

Ao contrário do que se imagina, não era apenas “o letrista de Gonzagão”. Também compunha melodias, e sem dúvida há muitas parcerias dos dois em que ele fez o principal da letra e da música, e Gonzaga contribuiu com arranjo, floreios, refrão, etc.  Em qualquer parceria musical existem diferentes proporções da participação de cada um, não é aquela coisa mecânica de “A faz a letra e B faz a música”.

Estudando em Fortaleza, Humberto participou de grupos musicais e chegou até a acompanhar filmes mudos ao vivo, como se fazia na época.  

Já no Rio, largou estudos de medicina e formou-se em Direito. Foi vendedor de óculos rayban, foi agente de restaurante, foi telefonista.  Enquanto isso, compunha por conta própria. 

Já tinha mais de 100 músicas editadas quando, através do seu cunhado Lauro Maia (também cearense e compositor), conheceu Gonzaga; a história da criação e do sucesso do baião já é conhecida de todos.

Humberto queixava-se da historiografia da MPB, que, passava direto das canções românticas dos anos 1940 para a Bossa Nova dos anos 1950 sem mencionar que nesse intervalo houve dez anos em que só tocava baião no Brasil. 

Foi deputado federal pelo Ceará, mas ele mesmo dizia: “Política é um negócio que você tem que usar de muitas éticas, e a minha ética é uma só”.  Trabalhou muito pela implantação dos direitos autorais e pela divulgação da música brasileira no exterior, criando caravanas que percorreram muitos países. 

A parceria com Gonzaga foi interrompida porque naquele tempo (vejam só) era proibido registrar músicas de parceiros que pertencessem a entidades arrecadadoras diferentes. Quando Gonzaga foi para a SBACEM, Humberto decidiu permanecer fiel à UBC e a dupla se desfez. 

Ainda assim, não saíram perdendo: Gonzaga engatou a parceria com Zédantas, e Humberto passou a assinar sozinho suas músicas, a começar pelo baião “Kalu”, gravado por Dalva de Oliveira, Yves Montand, Edith Piaf e mais umas 60 gravações mundo afora.  

Vale a pena procurar o filme O Homem Que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira e o livro Humberto Teixeira, voz e pensamento (Banco do Nordeste, Fortaleza, 2006) para conhecer melhor esse poeta que fez História.









sexta-feira, 24 de maio de 2013

3194) Troféu Gonzagão (24.5.2012)



(Antonio Barros & Cecéu)


Estive em Campina para assistir a cerimônia do V Troféu Gonzagão, que o pessoal chama “o Oscar do forró”. Os homenageados principais deste ano foram Sivuca (in memoriam), Genival Lacerda e a dupla Antonio Barros & Cecéu. Houve também a entrega de troféus para o cineasta Breno Silveira (Gonzaga – de pai pra filho), Chico César, Assis Ângelo, Fred Ozanam e Onaldo Rocha (autor de Baião em Crônicas). Durante mais de quatro horas, passaram pelo palco (acompanhados por uma firmíssima banda de apoio, com o maestro Adelson Viana) cantores como Alcimar Monteiro, Pinto do Acordeon, Fagner, Cezinha, Flávio José, Biliu de Campina, Josildo Sá, Trio Nordestino, Ton Oliveira, Capilé, Elba Ramalho... Lamento, a lista completa iria preencher sozinha esta coluna. O prêmio é uma iniciativa de Ajalmar Maia e Rilávia Cardoso, realização do Centro de Ortodontia Integrado e FIEP/SESI, com apoio dos governos estadual e municipal, UEPB, Sandálias Havaianas e Duraplast.

Essa ficha técnica aí em cima é importante para dar uma medida não apenas do evento em si, mas da força e vitalidade do forró pé-de-serra, cujo “estado terminal” vive sendo anunciado há muitos anos, tanto pelo pessimismo de alguns dos seus defensores quanto pelo otimismo de seus inimigos. Cada vez que o mundo dá uma volta aparecem manchetes dizendo que o forró está morrendo, mas na volta seguinte o forró aparece de novo, vivinho da silva. Me lembra a situação do cordel, descrita uma vez por Ariano Suassuna: “Aqui no Recife tinha um sujeito que dizia o tempo todo que o cordel tinha morrido. Quando ele morreu, escreveram um cordel em homenagem a ele”.

Não faltam talentos ao forró: milhares de músicos, compositores e cantores vivem dele. Não lhe faltam história nem tradição. Sua principal concorrente, a Lambada, se auto-intitula “forró eletrônico” – um duplo equívoco, pois nem é forró nem explora a fundo os recursos eletrônicos (que, aliás, qualquer gênero musical usa hoje em dia, com exceção talvez do Canto Gregoriano). Quais as maiores qualidades desse adversário? A Lambada é uma música alegre, sensual, boa de dançar? Pois o forró é tudo isso e muito mais.

O forró tem diante de si um grande futuro, pelo fato de ter um grande passado. Por mais que as tempestades do mercado fustiguem seus galhos e seu tronco, ele tem raízes  profundas que o fazem renascer depois de cada seca ou cada enchente. Hoje, no Nordeste, brotam fábricas de sanfona, escolas de fole-de-8-baixos, novos cantores e novas bandas rejuvenescendo o cancioneiro clássico e trazendo um repertório novo e atual. O mundo dá muitas voltas, e não tem verão tão longo que não desemboque num inverno.



sábado, 24 de novembro de 2012

3039) O samba e o baião (24.11.2012)



(Donga)


A industrialização musical cria modelos e processos. Tudo que não for feito de acordo com o processo e que não fique parecido com o modelo soa como coisa falsa, e muitas vezes é uma coisa mais verdadeira, “the real thing”. 

Crianças que tomam água de coco em caixinhas longa-vida tomam susto ao ver um coco de verdade ser aberto. 

Espectadores veem um grupo numa praça fazendo teatro de rua, e perguntam “onde está o teatro”. 

Algo parecido acontece na música. O disco criou um formato padrão de canção popular, imposto a ferro e fogo durante um século; e pensamos que só é canção se for assim.


Nos anos 1940, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira começaram a escrever baiões que eram gravados com grande sucesso. O sanfoneiro de Exu lembrou uma toada que ouvia desde a infância, um pedacinho melódico muito simples, com versinhos soltos e saudosos sobre uma ave que foge do sertão por causa da seca. Cantarolou esses farrapos de música para Humberto, e logo os dois deram uma formatada final na melodia, que o letrista cobriu com estrofes simétricas. 

“Asa Branca” é esse produto híbrido entre pedaços de cantiga anônima e elementos novos, eruditos. Um verso como “Quando o verde dos teus olhos se espalhar na plantação” não é verso da tradição oral, é verso feito de caneta por um leitor de José de Alencar.


Algo parecido ocorreu com “Pelo telefone”, o primeiro samba gravado em disco, em 1917, e assinado por Donga.  

Assinado é bem o termo, porque Donga fez um apanhado de refrões, chamadas e batuques que eram cantados nas festas da casa de Tia Ciata, na “Pequena África” do Rio de Janeiro. 

Em seu livro Feitiço Decente Carlos Sandroni analisa em detalhe essa colcha de retalhos de toadas, e o modo como ela foi alinhavada às pressas para se enquadrar nos limites de tempo de uma gravação fonográfica. “Pelo telefone” gerou numerosas polêmicas, não só de autoria, mas também quanto ao fato de ser ou não o primeiro samba gravado. (Esta discussão está no saite Cifrantiga: http://bit.ly/10dgwwO).


A criação musical popular é solta, mutante, indisciplinada. Na cultura oral, todo mundo mexe nas músicas, tira e põe versos, muda o que não gosta ou o que não lembra.  

Já a indústria cultural precisa de critérios nítidos: tamanho fixo e formato fixo para as obras, autoria inequívoca, registro, e depois do registro ninguém mexe mais. Voz no vinil, cifra na partitura, letra no livro: a indústria precisa disso para uniformizar seus produtos. 

Cultura oral e indústria sempre trabalharam com conceitos opostos. É curioso que agora a Cultura Digital começa a arrastar esses conceitos para longe da indústria e para perto da cultura oral antiga.







terça-feira, 6 de novembro de 2012

3023) "Gonzaga de pai pra filho" (6.11.2012)





O filme de Breno Silveira deve ter surpreendido quem esperava uma biografia linear de Luiz Gonzaga, sua vida de A a Z. O roteiro traça uma cronologia razoável da vida de Luiz, mas se concentra em sua relação com o filho Gonzaguinha. Pais ausentes, filhos carentes; um drama antigo, que ganha empatia ao envolver dois grandes artistas. Pai e filho foram o avesso um do outro: o migrante sertanejo que conviveu com políticos e coronéis, e o universitário de esquerda criado no morro. A sanfona e o violão, o forró e a MPB, e o fato de que a ascensão do filho coincidiu com o declínio do pai. Essa inversão das posições de poder deve ter ajudado (o filme sugere isso) esse reencontro (não sem aspereza de parte a parte) entre dois homens adultos, cada qual se julgando injustiçado pelo outro.

O filme funciona na razão direta da credibilidade dos atores. Chambinho do Acordeom talvez não reconstitua certos traços psicológicos de Gonzaga (ele parece ingênuo e juvenil demais, e tenho pra mim que Gonzaga era mais esperto, mais macaco-velho do que o que aparece no filme), mas sua simpatia, seu sorriso e seu carisma evocam sem esforço o Gonzaga desse período. Já Adélio Lima, que faz o Gonzaga idoso, tem uma composição mais profunda e mais complexa. É um homem amargo, irônico, vivido, castigado pela fama e pela incessante batalha. Julio Andrade, por sua vez, é um impressionante clone de Gonzaguinha, reconstituindo seu jeito desengonçado, tenso, nervoso, como uma corda de cavaquinho prestes a saltar.

O filme é um melodrama redondo e firme, comparável ao Dois filhos de Francisco do diretor. É a história da luta pelo sucesso e do valor cobrado pelo imposto do sucesso, que não é menor que o do fracasso.  A narrativa se torna meio confusa no aspecto fonográfico quando acompanha os primeiros anos do estouro nacional do baião, mas acho que só os cronologistas profissionais percebem. O enfoque adotado, de deixar a obra em segundo plano, faz os parceiros de Gonzaga terem uma passagem relâmpago pela tela, mas em compensação o casal Henrique e Dina (os pais adotivos de Gonzaguinha) tem sua importância reconhecida.

O problema de todo melodrama é a busca forçada da emoção. O filme poderia ser mais seco e mais calmo em vários momentos, mas há muitos outros em que o diretor parece achar o tom certo, que sugere uma emoção real. Não é fácil recriar em uma dúzia de cenas a complexidade de uma relação afetiva que se deu durante décadas. Exigir isto de um filme é um pouco como Gonzaguinha tentar trazer para uma fita cassete C-60 a história inteira dos seus pais. O resultado é honesto, simpático, apesar da tarefa impossível que se propõe.


sábado, 14 de julho de 2012

2923) Woody Guthrie, 100 anos (14.7.2012)








O Brasil comemora o centenário de Luiz Gonzaga, e fico imaginando que tipo de comemorações estará havendo nos EUA pelo centenário do Luiz Gonzaga deles, o grande Woody Guthrie.  Assim como Gonzaga, foi um cara que viajou seu país de ponta a ponta, cantando a vida das pessoas simples nos campos de trabalho, nos sítios, nas praças, nas estações de rádio, nos comícios, nas festas.  Gonzaga inventou o baião sintetizando elementos rítmicos, melódicos, instrumentais, poéticos.  Guthrie trabalhou dentro da canção folclórica de origem irlandesa ou escocesa, da música country tradicional, do forrozinho hillbilly que eles dançam até hoje, de um ou outro elemento negro do blues, das baladas em compasso ¾, e daquelas quilométricas canções narrativas em estrofes fechadas, que a canção em língua inglesa tanto aprecia. (E nós também – vide “Triste Partida”.)

Guthrie é menos conhecido pelas canções do que por ter sido o “poeta andarilho” que serviu de modelo a uma geração inteira de “trovadores hippies”: Bob Dylan, Phil Ochs, “Ramblin” Jack Elliott, etc.; e ter sido interpretado por David Carradine (o ator da série “Kung Fu”) no filme Esta terra é minha terra (1976), inspirado em sua autobiografia Bound for Glory (1943).  Acho que há poucos CDs de Guthrie lançados no Brasil.  Nos tempos do vinil era ainda mais difícil encontrar alguma obra sua, e o que me salvou foram alguns elepês da biblioteca da ACBEU, na Vitória, no tempo em que eu morava em Salvador.

Ele foi o menestrel ambulante da América no tempo da Grande Depressão, pegando carona em trens, dormindo nos acampamentos dos sem-terra, metendo-se em agitações políticas.  No filme dylaniano Não estou lá, de Todd Haynes, seu nome é dado a um adolescente negro, fluente ao violão. Sua carreira de trovador brotou num ambiente idêntico ao de As Vinhas da Ira (livro de John Steinbeck, filme de John Ford).  Esquerdista por natureza, Guthrie escreveu em seu violão: “Esta máquina mata fascistas”, mas suas canções não são incendiárias, nem falam de revolução.  Em sua grande maioria são celebrações da vida simples das pessoas do interior (tal como em Luiz Gonzaga) e reafirmações da fé democrática fundamental dos norte-americanos.

Guthrie nasceu em 14 de julho de 1912 e morreu aos 55 anos, de uma doença nervosa degenerativa. Seu filho Arlo Guthrie é um dos grandes nomes do folk rock.  Sua obra continua a ser gravada e reverenciada, canções como “This land is your land”, “Pastures of Plenty”, “I ain’t got no home”, e seus numerosos “talkin’ blues”, aquele estilo de monólogo semi-cantarolado enquanto se rasqueia o violão, usado por Dylan, Arlo e tantos outros.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

2903) Zédantas (22.6.2012)




Estou lendo Zédantas segundo a letra I, publicado pelo Memorial Luiz Gonzaga (Recife, 2010), com a longa entrevista da D. Iolanda Dantas, viúva do grande parceiro do Rei do Baião. 

Zédantas (ele gostava que seu nome fosse escrito assim) é autor de dezenas de canções eternas da música nordestina, como “A Volta da Asa Branca”, “Sabiá”, “Vem Morena”, “Forró de Mané Vito”, “Imbalança”, “Xote das Meninas”, “Acauã”, “Noites Brasileiras”,”Siri jogando bola”, “Derramaro o gai”, “ABC do Sertão”, “Samarica parteira”, “Riacho do Navio”... bem, são dezenas. 

Era sertanejo de Carnaíba (PE), e o Riacho do Navio cortava a fazenda de seu pai. Estudou medicina e clinicou no Rio de Janeiro, mas nunca deixou de pensar no sertão o tempo inteiro. Era extrovertido, contador de piadas, imitador de tipos, além de elegante e vaidoso – tinha mais de cem gravatinhas-borboleta. 

No Rio, foi muito amigo de Péricles (criador do “Amigo da Onça”), e de políticos como José Aparecido e José Joffily (que lhe deu de presente um violão).  Era considerado “a alma da festa” onde chegava, com suas piadas e suas músicas.

Quando viajava a Pernambuco, levava um gravador de rolo de 14 kg e trazia de volta para o Rio dezenas de fitas com cantorias, aboios, toadas e forrós, que usava como base para suas composições em seu apartamento na Av. Pasteur, onde acordava cedinho e ficava compondo, olhando a Baía da Guanabara. 

Tocava bem o violão, e o piano com dois dedos, mas tocava de ouvido e a esposa, que tinha estudado, passava as melodias para a partitura, para que ele não as esquecesse. 

O sucesso do baião o colocou em contato com políticos influentes; “Algodão”, p. ex., foi composta  por sugestão do então Ministro da Agricultura, João Cleofas (PE). Uma canção gravada por Marlene, “Piririm”, marca sua única parceria com o outro grande parceiro de Gonzaga, Humberto Teixeira. “Vozes da Seca” foi feito em resposta à campanha popular “Ajuda teu irmão”, para as vítimas da seca de 1953 no Nordeste.

Era médico obstetra, e por causa de dores nas costas tomou muitos remédios à base de cortisona (um medicamento novo na época), que prejudicaram sua saúde. 

Sofreu um ferimento no tendão de Aquiles em 1961, quando passava uns dias no sítio de Luiz Gonzaga em Miguel Pereira (RJ). Fez uma cirurgia que não resolveu o problema, e morreu um ano depois de insuficiência renal, no Hospital dos Servidores do Rio, no mesmo quarto onde tinha morrido José Lins do Rego. 

Foi enterrado no Recife, e seu último pedido foi ser sepultado “com uma cruz de madeira num pé de mororó e um bode lambendo a cruz”. Compositor de imenso talento, e sertanejo até o talo.






quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

2769) A palavra peneirar (18.1.2012)




Grande parte do nosso vocabulário se forma através de estágios sucessivos. No primeiro, usa-se uma palavra para fazer uma alusão direta a alguma coisa concreta e familiar a todos. No segundo, essa palavra é transposta para significar algo também concreto, mas completamente diferente, por um processo de semelhança, alusão, associação de idéias, etc. No terceiro, passa a designar uma noção abstrata que já não tem nada a ver com a coisa concreta original; ninguém seria capaz de traçar o percurso até a imagem que deu origem a tudo. Toda aquela rede de utilizações anteriores produziu um sentido genérico que justifica o uso, mas fica difícil entender como o significado “Z” veio do significado “A”.

Usarei o exemplo do verbo “peneirar”, tão nordestino. Ele indica os movimentos circulares que uma peneira faz nas mãos de uma cozinheira; este é o primeiro estágio. Num segundo estágio, passa a indicar qualquer movimento parecido, daí o uso feito por Luiz Gonzaga em “Marimbondo”: “O marimbondo vindo peneirando as asas / pra entrar em nossa casa / chega chuva pro sertão...”. A origem do verbo fica ainda mais clara na canção “Peneirou Gavião”, em que Jackson do Pandeiro compara diretamente os dois movimentos: “Peneirou, peneirou, peneirou gavião / nos ares para voar; / tu belisca mas não come, gavião / da massa que eu peneirar”. O gavião é um exemplo melhor que o marimbondo, porque se parece mais com uma peneira com aquele seu jeito de planar baixo, oscilando horizontalmente, sem subir nem descer.

Ora, daí a pouco qualquer movimento circular começa a ser açambarcado por esse verbo, por associação de idéias – como o dos quadris de uma mulher que dança ou se rebola. Em O Mundo Mágico de João Redondo, de Altimar Pimentel, vê-se uma fala assim: “ROSINHA - O que é seu tá guardado, meu fio. Eu me chamo Rosinha, né Quitéria não. Vamo, seu tocadô, qu'eu quero penerá uma coisinha! (A música recomeça e ela dança) Ai, ai, ai meu tempo!”.

O verbo acaba assumindo a conotação de “mulher rebolando, atraindo atenções masculinas”, como na canção “O mistério do fundo do olho” de Lula Queiroga: “Tô peneirando, peneirando / Bar da Mira, Burburinho / Pina de Copacabana / Galeria Joana Darc, peneirando / Essa menina tem classe / até quando me deixa sozinho”. E desse sentido erótico, provocativo, o verbo ganha um sentido semelhante mas abstrato, também como “oferecer-se de maneira explícita, não disfarçada”: “Fulano está há anos no PDT mas agora vive se peneirando para ir pro PSD”. Cada novo significado abre caminho para novas associações de idéias serem feitas, cada vez mais afastadas do sentido inicial.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

2482) “O Rei e o Baião” (17.2.2011)



Livros sobre a vida e obra de Luiz Gonzaga existem muitos; desde pesquisas acadêmicas até memórias na primeira pessoa, redigidas por ghost-writers. Me atrevo a dizer que nenhum desses livros até agora conseguiu ser tão bonito quanto O Rei e o Baião, editado por Bené Fonteles (Brasília: Fundação Athos Bulcão, 2010). Não que a substância, o texto do livro seja algo para se descartar, pelo contrário; mas a preciosa iconografia do livro é a primeira coisa que bate no olho da gente. É quase como fazer um passeio por um dos muitos Museus Luiz Gonzaga que existem no Brasil, com o do guerreiro José Nobre, em Campina Grande.

Começo pelas fotografias de Gustavo Moura retratando aspectos do Sertão e do Cariri: caatingas, várzeas, vaqueiros, meninos, tocadores de fole. Os paraibanos já conhecem o trabalho de Gustavo, mas neste livro, suas fotos, justapostas à história de Gonzagão, enriquecem o poder de evocação das paisagens descritas nos versos. O mesmo vale para as séries de belas xilogravuras de José Lourenço, João Pedro do Juazeiro, Francorli e Carmen, além de outros gravadores (que contribuem uma xilo cada um). Como já falei nesta coluna, o cordel é, como a música de Gonzaga, a junção ideal entre o oral e o escrito, o primitivo e o tecnológico. Folheto impresso é como disco prensado. É o modernismo abrindo uma brecha para a passagem do dilúvio do popular, e pense numa brecha que jamais se fecha de novo.

Os ensaios de análise e crítica dariam um excelente livro só de textos, e são assinados por Gilberto Gil, Bené Fonteles, Antonio Risério, Elba Braga Ramalho, Gilmar de Carvalho, Sulamita Vieira e Hermano Vianna. E Bené, o idealizador e realizador do livro, fecha o volume com uma farta e minuciosa (a maior que já vi) iconografia gonzagueana, posta em contexto e comentada: fotos de juventude, fotos da carreira, dezenas de capas de discos, anúncios e “reclames”.

Meus leitores sabem que sou um sujeito contraditório. Vivo defendendo, nesta coluna, o barateamento do livro, as edições populares, os livros de bolso, a pulp fiction, o cordel, e mais recentemente os livros eletrônicos e as publicações internéticas – todos os formatos gráficos que multiplicam o texto literário e o deixam acessível a quem só tem centavos no bolso. Por outro lado, encanto-me com facilidade pelo livro primor-gráfico, o livro obra-de-arte. Como conciliar isto? Não sei. É um dos paradoxos do Brasil, o fato de que nossa faixa de compradores de livros se mantém sempre proporcionalmente a mesma, mas o mercado de livros de luxo não para de crescer. O Rei e o Baião é um livro que deveria ser espalhado pelas bibliotecas do país. Além de, depois, receber edições eletrônicas, em PDF ou formato semelhante, que o tornem mais acessível, porque os ouvintes de Luiz Gonzaga merecem ver uma homenagem tão bonita. Como prévia para o centenário de Seu Luiz, no ano que vem, não poderia haver coisa melhor.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

2006) Assum preto ou anum preto (13.8.2009)



Posso estar dizendo uma besteira descomunal, mas irei em frente. Se for besteira mesmo, aparecerão dúzias de críticos e resmas de correções, o que pelo menos me impedirá de continuar repetindo a besteira velhice afora. A besteira se refere à canção clássica de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, “Assum Preto”, com seus versos inesquecíveis: “Tudo em volta é só beleza / céu de abril e a mata em flor / mas assum preto, cego dos olhos / não vendo a luz, ai, canta de dor...” Assum preto é o passarinho que não somente é trancado numa gaiola: furam-lhe os olhos para que ele cante de maneira mais sofrida, mais bela. Como não lembrar dos “bluesmen” cegos do Mississipi? Como não lembrar dos “castrati” da ópera italiana (a quem arrancavam algo talvez mais estimado do que os globos oculares)?

A história é esta. A besteira é: existe de fato um pássaro chamado “assum”, ou “assum preto”? Eu, pelo menos, nunca ouvi falar. Vou logo avisando que minha ignorância de assuntos da Natureza é de proporções enciclopédicas. Mas foi justamente nas enciclopédias que procurei essa nobre ave – e não a encontro. Não há menção de “assum” ou “assum preto” na Wikipedia online, bem como no meu “Dicionário Houaiss”.

Há, sim, menção (nessas e em várias outras fontes) a um pássaro chamado “anum preto”. Anum, sim, eu ouço falar desde pequeno, inclusive na expressão levemente ofensiva e brincalhona “bufa de anum”, que dirigimos a uma pessoa com intenção provocativa. Anum-preto (ou anu-preto) é um pássaro com cerca de 36 cm de comprimento, que vive em bandos, alimenta-se de insetos, e com um cheiro forte que atrai morcegos. O saite da Embrapa (http://www.faunacps.cnpm.embrapa.br/ave/anupreto.html) refere-se assim à sua voz: “O anu-preto possui mais de uma dúzia de vozes diferentes. Tem dois pios de alarme: a um certo grito todos os componentes do bando se empoleiram em pontos bem visíveis, examinando a situação; outro grito, emitido quando um gavião se aproxima, faz desaparecer num instante no matagal todo o grupo. Eles se divertem cavaqueando baixinho, de modo bem variado, causando às vezes a impressão de estar tentando imitar a voz de outra ave.”

Eis a questão: embora ninguém se refira a um possível hábito de se engaiolar e cegar o anum-preto, não será ele o mesmo pássaro a que se refere Humberto Teixeira em sua música? Minha teoria é que Humberto entregou a Luiz a letra manuscrita, em que se referia ao “anum preto”. Ora, em letra manuscrita um “n” muitas vezes pode ser confundido com dois “ss”. Já vi isto (e o vice-versa disto) acontecer mais de uma vez. Luiz, ou alguém que o acompanhava, leu “assum” em vez de “anum”. Humberto não quis, ou não conseguiu, corrigir o parceiro (isto acontece). Em vez de “Anum Preto”, a canção passou a chamar-se “Assum Preto”. E um pássaro fictício, inexistente nos dicionários e enciclopédias, enriquece hoje com seu canto a história da MPB. Será que foi isso, ou estarei “variando”?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

1633) Dominguinhos (6.6.2008)




Não pude assistir à festa do Prêmio TIM de Música, no Rio, que homenageou o sanfoneiro e compositor Dominguinhos. 

Pelo que vi na imprensa, foi uma festa belíssima. Espero que tenha sido tão bela quanto a que vi ontem no Teatro Tobias Barreto, em Aracaju, na abertura do VII Fórum Junino. O Fórum foi criado pela Prefeitura de Aracaju para acompanhar, com palestras, debates e projeções, as festas de São João, e discutir os caminhos que elas vêm tomando. 

Entre os já homenageados do Fórum estão Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Humberto Teixeira, Marinês, Carmélia Alves, Genival Lacerda, etc.

As palestras do Fórum abordam a vida e a obra do homenageado, mas também discutem as manifestações folclóricas do Estado, o mercado de shows e de discos, a distinção entre diferentes ritmos, a história discográfica da música regional, etc. Um tema recorrente nas discussões é o curioso fenômeno do “forró eletrônico”, com seus ritmos do interior paulista, suas coreografias de lambada, suas dançarinas seminuas e suas letras que só falam de sexo.

A abertura do VII Fórum (terça-feira, dia 3) teve um debate sobre a carreira de Dominguinhos, com a presença do Prof. Paulino da UFSE, de Anastácia (parceira de Dominguinhos em cerca de 200 canções), do compositor Climério e do cantor Silvério Pessoa. 

Dominguinhos lembrou episódios de sua carreira, recordou amigos e mestres, e divertiu a platéia com seu bom humor. Indagado sobre o seu notório medo de viajar de avião, ele confessou que muita gente já tentou dissuadi-lo, e que o próprio Luiz Gonzaga lhe disse certa vez: “Mas Dominguinhos, avião é uma coisa segura. Todo mundo viaja de avião: Sarney, Antonio Carlos Magalhães... O avião não cai com essas pestes, vai cair com a gente?!”

Indagado sobre as bandas de forró eletrônico, o mestre do forró tradicional foi generoso e diplomático: 

“Olhe, quando a bossa-nova começou, todo mundo que tocava sanfona teve que parar. Ninguém queria saber mais de forró. Todo sanfoneiro foi tocar órgão, piano... Ficamos eu, Chiquinho do Acordeon, Caçulinha, e mais meia dúzia. Agora começaram essas bandas a fazer sucesso. Só em Fortaleza, terra de Waldonys, tem umas mil bandas. Eu acho que eles ainda não acharam um nome para botar na música deles, por isso chamam de forró. Mas é até bom, porque por causa dessas bandas o povo começou a falar em forró de novo, a imprensa voltou a cobrir o forró... Então, os forrozeiros agradecem”.

Depois, Dominguinhos fez um show, e teve a certa altura a participação da Orquestra Sanfônica de Aracaju. Foi bonito ver Dominguinhos e mais de 20 sanfoneiros tocando “Só quero um xodó” e o teatro inteiro cantando a plenos pulmões. 

Numa cena assim a gente podia ver o poder multiplicador do gênio. Um grande artista não cria consumidores, cria discípulos e futuros mestres. O lema do VII Fórum diz: “O discípulo inovou a arte do mestre”. Essa é a diferença entre o artista que cria e o que se apropria.






sexta-feira, 4 de setembro de 2009

1248) Canção de Passarinho (14.3.2007)



Prefiro classificar a Música Popular Brasileira de acordo com os assuntos das letras, e não de acordo com os ritmos, até porque estes últimos são muito complicados. Até hoje não sei a diferença entre arrasta-pé e marcha-quadrilha, entre frevo-canção e marcha-rancho, entre mela-cueca e chacundun. Por outro lado, o assunto da letra é visível de imediato, como por exemplo o de hoje: Canção de Passarinho.

Acho que bastaria a obra de Luiz Gonzaga para preencher por inteiro este verbete, porque parece que o sanfoneiro de Exu tomou para si a tarefa de recensear todos os pássaros nordestinos. Começa, é claro, por “Asa Branca” e “Assum Preto”, dupla alvinegra recentemente comentada nesta coluna. Logo em seguida vem, na minha memória afetiva, o famoso “Sabiá”: “A todo mundo eu dou psiu, siu-siu-siu / perguntando por meu bem...” Este é o primeiro, mas existe outro mais remoto, que nem sei se é de Gonzaga, mas minha Tia Adiza cantava maviosamente tardes afora: “Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho / voou, voou, voou, voou... / E a menina que gostava tanto do bichinho / chorou, chorou, chorou, chorou // Sabiá fugiu do terreiro / foi cantar no abacateiro / e a menina diz a chorar: / Vem cá, sabiá, vem cá...”

Também é de Gonzaga a ominosa “Acauã” (“Acauã, acauã, vive cantando / durante o tempo do verão / no silêncio da tarde agourando / chamando a seca pro sertão”), a alegre “Pássaro carão” (“Pássaro carão cantou / anum chorou também / a chuva vem cair / no meu sertão...”), a melancólica “Vem-Vem” (“Vivo sempre escutando / a cantiga de vem-vem / quando ouço ele cantando / penso que é você que vem / fico de ôi no caminho / porém não chega ninguém”). Cada um desses pássaros, para o sertanejo, é um profeta instintivo de coisas que vão acontecer: seca, chuva, chegada de alguém.

Se a gente continuar em Gonzaga o dia amanhece. Podemos passar para Jackson do Pandeiro e “Casaca de Couro”, uma de suas canções mais belas (“Xô-xô-xô-xô, casaca de couro / cantando as duas na telha...”). E se estendermos o conceito de “passarinho” ao mais amplo de “ave”, temos Jackson com “O Canto da Ema” (“A ema gemeu / no tronco do juremá...”) e João do Vale com “Carcará”, dois clássicos em todos os sentidos. Xangai e Capinam fizeram juntos o belo “Qué qui tu tem, canário?”. Saindo do Nordeste, temos Chico Buarque com seu clássico “Sabiá” com Tom Jobim, além de “Passaredo”, um verdadeiro dicionário ornitológico marcado pelo refrão: “Bico calado / muito cuidado / o homem vem aí”). José Miguel Wisnik homenageou Gonzaga com seu híbrido “Anum Branco”. Saindo do Brasil, temos de cara os Beatles e a irretocável “Blackbird” de Paul MacCartney (“Blackbird singing in the dead of night, / take these broken wings and learn to fly...”). Todo mundo gosta de pássaro, bichinho que canta e que parece tão livre! Daí que compositores e cantores gostem de usá-lo como símbolo do que são, ou do que gostariam de ser.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

1243) Asa Branca é plágio? (8.3.2007)



O ”Jornal da Paraíba” publicou há alguns dias uma matéria sobre a autoria da canção “Asa Branca”, que Ivanildo Vila Nova já propôs como futuro hino do Nordeste Independente. O Dicionário Gonzagueano, de Assis Ângelo, recorda o boato, criado pelo compositor Carlos Imperial, de que os Beatles iriam gravar “Asa Branca”, e fala das preocupações de Gonzaga quanto à atribuição de autoria da música: “Desde que me conheço por gente... já cantava Asa Branca. Naquele tempo, lá no Nordeste, ninguém se preocupava em saber quem tinha uma música, nem sabia o que era folclore. Eu cantava a música dos outros e outros cantavam minhas músicas, sem preocupações com direitos autorais”. Gonzaga teria afirmado depois ao próprio Assis Ângelo, sobre a canção: “É do folclore, que adaptei com Humberto (Teixeira) e assinamos. Se a gente não fizesse isso, outros fariam”.

Já conversei com sujeitos mais velhos, entre eles alguns repentistas, que diziam: “Antes de Luiz Gonzaga gravar já se cantava aquela música... Cresci ouvindo.” Pelo que me toca, acho que “Asa Branca” tem um perfil típico de canção folclórica: uma melodiazinha de poucas notas (é a canção preferida de quem começa a aprender flauta doce), rima repetitiva em “ão”... O que Gonzaga e Humberto Teixeira devem ter feito é aumentar o número de estrofes. Versos como “Quando o verde dos teus olhos / se espalhar na plantação” são a cara das letras de Humberto Teixeira, aquele lirismo alencarino, visual, alegórico.

Gonzaga e Teixeira, talvez até para mostrar que poderiam ter composto “Asa Branca”, fizeram uma canção simétrica a ela, “Assum Preto”. São as mesmas estrofes, com outra letra e outra melodia (desta vez em tom menor). Já me diverti muito tocando violão em mesa de bar e cantando a melodia de “Asa Branca” com a letra de “Assum Preto” e vice-versa. Dá certinho, inclusive aquele interlúdio que faz “larará-larálará...” E a melodia de “Assum Preto” é muito mais bonita. Talvez para reafirmar mais ainda sua condição de autor que sabe criar, e que não se limita a colher algo que ouviu na infância, Gonzaga veio a compor depois, desta vez em parceria com Zé Dantas, “A Volta da Asa Branca”, que em termos de melodia e letra é muitíssimo superior às outras duas: “Já faz três noites que pro Norte relampeia / e a Asa Branca ouvindo o ronco do trovão...”

O uso de canções folclóricas anônimas como ponto de partida para uma canção reelaborada (com mais letra, mais música, mais formato) não é plágio, é um recurso vital da música popular. “Pelo Telefone”, o famoso “primeiro samba gravado”, é uma coletânea de versos-de-batucada que Donga recolheu, costurou e formatou. Bob Dylan usou como ponto de partida para suas melhores canções as baladas inglesas antigas: “A Hard Rain’s a-Gonna Fall”, por exemplo, tem sua estrutura de perguntas e respostas copiada da canção “Lord Randall”. A única obrigação de quem usa é transcender o material usado, escrever algo que lhe seja superior.

sábado, 28 de março de 2009

0927) Política literária (7.3.2006)




(Ernest Hemingway & Fidel Castro)


Política literária é tratar cada leitor como um político trata um eleitor. 

Dar-lhe atenção, quando abordado, mesmo que não disponha de muito tempo. 

Ouvir o que o leitor tem a dizer. 

Procurar dizer-lhe algo em que ele possa ficar pensando, e que lhe seja útil. 

Tratar a imprensa com atenção, mas sem promiscuidade. 

Não misturar relações profissionais com relações pessoais. 

Tratar bem os concorrentes de hoje, que podem ser os aliados de amanhã, e vice-versa. 

Saber que tudo que se diz em público pode vir a ser lembrado e repetido (e será, com certeza, se for algo inconveniente).

Existem escritores de gênio que são péssimos políticos, e somente a genialidade faz com que sejam lembrados hoje. Em geral, quem suaviza sua escalada é um grupo de pessoas mais próximas (família, agentes literários, editores, amigos) que se encarregam de aparar arestas, administrar o cotidiano do artista, cuidar de sua imagem (porque ele não cuida), e de um modo geral fazer com que ele se dedique a fazer a única coisa que faz bem: escrever.

Outros são excelentes políticos. Guimarães Rosa, Garcia Márquez, Arthur C. Clarke, Machado de Assis, Octavio Paz, Jorge Amado, são exemplos que me ocorrem assim meio ao acaso. Indivíduos equilibrados, afáveis, bem falantes, hábeis no trato com o homem da rua, com a imprensa, com os poderosos. 

Praticaram, ao longo de suas carreiras, a difícil arte de andar no convés de um navio, em plena tempestade, sem derramar uma gota sequer do seu coquetel. Alguns foram malhados pela crítica ou perseguidos por polemistas profissionais; mas nunca sofreram sequer um “knock-down”. 

Há escritores que são assim, mas cuja obra não têm muita densidade. Estes, tipicamente, atingem o auge da glória quando em vida, mas uma vez sumidos, sumido seu charme, sumido o vigor impositivo de sua presença, some a obra também.

Fico pensando em auto-sabotadores contumazes como Edgar Allan Poe, Arthur Rimbaud, Lima Barreto... Pode-se fazer qualquer elogio a eles, menos dizer que eram hábeis na administração da própria carreira. 

Foram perseguidos por uma combinação nefasta: temperamento impulsivo, vícios, egocentrismo, ambiente preconceituoso, conflitos familiares... Sobre eles parecia pairar uma maldição cuja fórmula dizia: “Não serás popular. Conquistarás poucos admiradores, e mesmo estes acabarás afastando de ti. Muitos te admirarão; mas na hora H, ninguém estará do teu lado”.

Ser político é uma dimensão inevitável de qualquer sujeito, mesmo um pedreiro ou um balconista. Não ocorre só na literatura. 

Outras atividades nos mostram parelhas de talentos com diferentes destinos: Pelé x Garrincha, Luiz Gonzaga x Jackson do Pandeiro, Paulo Coelho x Raul Seixas. 

A diferença entre o que acontece a uns e a outros não é uma diferença de talento, mas uma diferença de habilidade política, de capacidade para administrar a si próprio. Para o público não faz muita diferença, mas para eles, fez, e muito.





sexta-feira, 27 de março de 2009

0918) Canções de Estrada (24.2.2006)




(Easy Rider)

A Canção de Estrada é diferente da Canção de Migrante, na qual predomina a saudade da terra natal e a descoberta da nova cidade. Já a Canção de Estrada glorifica a estrada em si, o seu simbolismo de liberdade e disponibilidade. 

A estrada nos dá uma sensação juvenil de ser livre e ter toda a vida pela frente, e ao mesmo tempo a promessa de maturidade e experiência (vejam como é revelador este sinônimo: “Fulano tem muita estrada”).

Quem viveu na estrada, como Luiz Gonzaga, sabe registrar sua beleza, como em “Estrada do Canindé” (“Ai ai, que bom que é, uma estrada e uma cabocla, com a gente andando a pé...”) ou sua dureza, como em “Légua Tirana” (“Ô que estrada mais comprida, ô que légua tão tirana...”). 

E que beleza de “flash” da vida rural é o “Menino de Braçanã” de Luiz Vieira, recuperado há alguns anos por Zizi Possi: “Vou-me embora, vou sem medo nessa escuridão / quem anda com Deus não tem medo de assombração / e eu ando com Jesus Cristo no meu coração”.

A geração da Contracultura celebrou a estrada dos motoqueiros, com Dave Dudley (“Seis dias na estrada, mas esta noite eu vou dormir em casa”), com Bruce Springsteen (“A rodovia está atravancada de heróis em pedaços, num canto-do-cisne feito de motores”), Steppenwolf (“Gosto de fumaça e raios, o trovão do metal pesado, apostar corrida com o vento e a sensação que me envolve”). 

Era a viagem kamikaze de uma geração motorizada, que viu na estrada um outro tipo de droga, um outro tipo de vertigem, êxtase e auto-extinção. 

Bob Dylan, que também teve lá seus problemas como moto e asfalto, preferiu celebrar o lado filosófico (“Quantas estradas um homem deve trilhar, até poder ser considerado um homem?”).

Na MPB canta-se mais a estrada de modo abstrato, romântico, como em “Travessia”, “Nada Será Como Antes” ou “Fé Cega, Faca Amolada” do repertório de Milton Nascimento, ou na “Andança” interpretada por Beth Carvalho. 

Como exceção, “Mano a Mano”, ao que eu saiba a única parceria entre Chico Buarque e João Bosco, mostra a estrada dos caminhoneiros (“Eu e meu irmão / era porreta / carreta parelha a carreta / dançando na reta / meu irmão...”), os quais acabam brigando por causa de uma mulher que é descrita com nomes de cidades: “Mas ela era nova / viçosa, matriz / era diamantina / era imperatriz / era só uma menina / de três corações...” 

São numerosas as canções que celebram a estrada do ponto de vista do automóvel (“As curvas da estrada de Santos”, de Roberto, é o exemplo mais típico), mas, curiosamente, o caminhoneiro tem sido tema de poucas canções, se pensarmos na sua importância, até mesmo como circulador de informação musical no Brasil. Temos “O Caminhoneiro” de Roberto Carlos, “Ventania” de Vandré e mais algumas. 

Para um país tão vasto, com tanta circulação de gente e veículos, com tantas correntes migratórias, a Canção de Estrada continua sendo um gênero sub-utilizado na MPB, apesar das belas canções que já inspirou.





domingo, 14 de dezembro de 2008

0668) Grandes pequenas canções (10.5.2005)




Conversando, num grupo de amigos, sobre canções da MPB que marcaram época, falei: 

“Vejam o caso de Asa Branca, por exemplo. Não é uma grande canção, mas virou um símbolo, uma espécie de hino”. 

Foi o que bastou para que alguns se sentissem pessoalmente ofendidos. Como é que é -- “Asa Branca” não é uma grande canção? Senti o bafo das fogueiras da Inquisição, e apressei-me a fazer minha defesa.

Vejam bem: “Asa Branca” é de uma simplicidade musical franciscana. Baseia-se num tema folclórico, que Gonzagão apenas pegou e deu uma ajeitada. Muita gente idosa já me garantiu que conhecia aquela melodia muito antes de Gonzaga nascer. 

São uma meia dúzia de notas que se repetem em meia dúzia de versos, e não mais. Melodia de tal simplicidade que ainda hoje é a música preferida pelos jovens que se iniciam nos mistérios da flauta-doce ou da sanfona. Sem os versos de Humberto Teixeira, seria apenas um temazinho instrumental agradável.

O que fez “Asa Branca” foi uma combinação feliz de melodia acessível a todos, mas com uma ressonância atávica de profundas raízes no passado folclórico, somada a um poema vigoroso, de imagens simples e fortes, uma interpretação carismática, e acima de tudo, o momento histórico em que a música surgiu, e o impacto de novidade que trouxe a um mercado fonográfico estagnado e repetitivo.

Quando digo que não é “uma grande canção”, é porque ela está bem atrás de outras músicas do próprio Gonzaga, do ponto de vista musical e poético. Comparem a música de “Asa Branca” à música de “Que nem jiló” (“Se a gente lembra só por lembrar, o amor que um dia a gente perdeu...”) ou “Algodão” (“Bate a enxada no chão, limpa o pé do algodão...”). 

Estas são grandes canções do ponto de vista da técnica musical, canções que trazem em seu desenvolvimento melódico e harmônico uma proposta nova para a música nordestina.

“Asa Branca” é folclore puro, canção de estrofe única, sem sequer um refrão para intercalar. Nada tenho contra isto. Que conhece minhas composições sabe que este é meu modelo preferido de compor: canção de estrofe única, um bloco melódico que se repete recursivamente, mudando apenas a letra. É um formato clássico, tradicional, mas limitado. 

Se quiserem perceber a contribuição musical de Gonzaga, ouçam a sucessão de idéias melódicas em “Algodão”, vejam como cada fraseado parece emergir do anterior, novas idéias brotando a cada passo, sem se repetir.

Novidade musical, novidade poética, novidade na interpretação ou no arranjo, são elementos que isoladamente fazem boas canções. Quando estão todos presentes ao mesmo tempo, fazem grandes canções – do ponto de vista musical. Se esta grande canção vai se transformar numa obra importante ou não, é outra história. 

“A Volta da Asa Branca”, por exemplo, também é uma canção mais complexa, mais trabalhada e mais criativa do que “Asa Branca”. Com todo respeito a esta pequena canção, que a História transformou em grande Obra de Arte.