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segunda-feira, 10 de março de 2008

0196) O fim do Marco Marciano (6.11.2003)














Quem se dá o trabalho de ler esta coluna provavelmente conhece algumas das minhas músicas gravadas por aí. Uma das minhas preferidas é “O Marco Marciano”, uma parceria com Lenine gravada por ele no CD O dia em que faremos contato (BMG, 1997). A letra é uma tentativa de reproduzir em clima de ficção científica a tradição dos “Marcos e Obras” dos poetas de cordel nordestinos. Os Marcos são fortalezas inexpugnáveis inventadas pelos poetas, usando todos os recursos descritivos ao seu dispor. Eles imaginam castelos cercados por fossos intransponíveis onde nadam piranhas e jacarés ferozes; muralhas de pedra e de aço; torreões munidos com canhões gigantescos; milhares de soldados armados até os dentes, prontos para resistir a qualquer invasão.

Os mais famosos Marcos estão transcritos no livro Marcos e Obras, de Átila Almeida e José Alves Sobrinho, em co-edição da Universidade Federal da Paraíba (Campus II) e Universidade Regional do Nordeste, de 1981. É um livro de valor inestimável, por transcrever (com ortografia original) os textos de 14 destes poemas, folhetos raríssimos que só umas poucas bibliotecas brasileiras possuem. O mais antigo é de 1907, o mais recente de 1947.

Inspirado nestes textos, o meu Marco em parceria com Lenine tem como ponto de partida as misteriosas imagens captadas em 1976 pela nave norte-americana Viking 1, ao sobrevoar e fotografar a superfície de Marte, pesquisando possíveis locais de aterrissagem para a futura Viking 2. Fotos feitas na região marciana conhecida como Cydonia causaram sensação, quando divulgadas pela Nasa. As fotos mostram uma colina ou elevação natural que, com iluminação lateral fazendo um jogo de sombra e luz, lembra um rosto humano. Pior ainda: lembra o rosto dos macacos do filme O Planeta dos Macacos!

As fotos ficaram famosas no mundo inteiro, e era de fato tentador imaginar naquela região um “Vale dos Reis” marciano: nas formações rochosas em volta o pessoal mais animado começou a ver “praças”, “pirâmides”, “rodovias”... Acusaram a Nasa de estar escondendo fotos ainda mais reveladoras – o que me parece um contra-senso. Se a Nasa, notoriamente com falta de verbas, descobrisse sinais de uma civilização marciana extinta, teria todos os motivos para tornar essa descoberta pública e convencer o Congresso a liberar mais uns bilhõezinhos. Fotos feitas em 2001, contudo, fizeram os marcianólogos abaixar a crista. Com câmaras de mais resolução, e melhor tratamento de software, as novas fotos mostram que a aparência humana do “rosto” era ilusão de ótica. Quem quiser tirar a prova pode dar uma olhada em:

http://www.msss.com/mars_images/moc/extended_may2001/face/index.html.

A discussão cessou, ninguém fala mais no “Rosto em Marte”. (É claro que eu tomei as devidas providências para interferir nas câmaras. Não ia deixar os americanos fazerem com meu Marco o que fizeram com o Afeganistão e o Iraque.)

0182) A pegadinha de Orson Welles (21.10.2003)




Em 30 de outubro de 1938, grande parte da população dos EUA acreditou piamente que seu país estava sendo invadido por marcianos hostis, decididos a exterminar a raça humana. 

Foi o famoso episódio da “Guerra dos Mundos” encenado por Orson Welles num programa de rádio em Nova York, o “Mercury Theatre”, que ia ao ar todo domingo à noite. Durante cerca de uma hora, os atores encenavam uma história, muitas vezes adaptações de obras literárias. Para o programa de Halloween dessa noite, Orson mandou ao ar uma adaptação de um livro de ficção científica de seu quase-xará H. G. Wells.

Os marcianos do livro de Wells saem passando o rodo no exército americano e invadindo cidades, até que começam a morrer de um em um, derrotados pelas bactérias terrestres, diante das quais são mais inofensivos do que um índio que nunca teve contato com brancos. 

A história hoje é clichê, mas era novidade quando o livro saiu: em 1898, época de descobertas científicas e astronômicas que colocaram na boca do povo a possibilidade de existência de vida em outros planetas. 

Quarenta anos depois, quando Orson Welles fêz seu rádio-teatro, invasores alienígenas já eram moeda corrente no imaginário popular. O mundo era um delírio militarista, a II Guerra estava na porta, e todo mundo acreditou. Houve pânico, corre-corre, multidões nas ruas, frenética atividade os bombeiros e da polícia por todo o país. 

Ninguém morreu, mas o país não falou noutra coisa durante algum tempo. Orson Welles, com 24 anos, virou o menino-prodígio de Hollywood e três anos depois faria o Cidadão Kane.

O truque foi apresentar a “Guerra dos Mundos” como se fosse um noticiário radiofônico. A abertura do programa avisava que era uma encenação, mas a partir daí tudo reproduzia um típico noticiário da emissora. Era como a gente ver hoje, na CNN, imagens de “Breaking News” de uma invasão alienígena, produzida em estúdio, mas mandada ao ar como se fosse real. Todo mundo acreditou. 

Esta é uma interessante quebra de tabu linguístico: fazer um texto de ficção e apresentá-lo como uma informação real.

O roteirista do programa de Welles era Howard Koch, que escrevia toda semana um roteiro de 60 páginas adaptando histórias indicadas por Orson. Koch também acabou em Hollywood, onde foi co-roteirista em Casablanca

Em seu livro The Panic Broadcast, ele diz que pouco tempo depois de Welles uma rádio peruana traduziu o roteiro para o espanhol e repetiu a “pegadinha” em Lima. Houve pânico, mas quando depois foi revelada a verdade, a população depredou e incendiou a rádio. 

As pessoas não apenas se irritam, quando percebem que foram feitas de bobas, mas sentem um abalozinho mental quando percebem que leram erradamente um conjunto de informações que à primeira vista era familiar. Quando percebem que foram induzidas propositalmente a essa leitura errada, que foram manipuladas, a reação é imprevisível.