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sexta-feira, 12 de agosto de 2022
4852) Contracapa de Pix (12.8.2022)
& tudo indica
que o próximo Dilúvio será de água sanitária
& quando a
Censura proibir os vagalumes, soltem pirilampos
& a gente se
vicia em celular porque celular nos obedece instantaneamente
& escrever
bons versos nunca avalizou o caráter de ninguém
& tudo que eu
como, depois da Covid, está em preto-e-branco
& queria ter a
calma de um tigre, capaz de furar um sinal vermelho sem diminuir o passo
& a
possibilidade de um dicionário trilingue continua à espera de um exame objetivo
& meu preço
nem é muito alto, mas só me vendo a quem adivinhar, com exatidão de dígitos
& coração de
leão pode ser uma boa coisa, mas eu preferiria pernas de guepardo
& é aquele
tipo de jogador que prefere sofrer um pênalti do que fazer um gol
& certos
poetas têm a atitude do portador de uma mensagem em código, da qual conhecem a urgência,
mas não o significado
& a mente é um
castelo sem corredores mas cheio de passagens secretas
& não sei se
aprendo clarineta ou se compro um telescópio
& o negócio
agora é afinar o coro dos descontentes
& tem certas
mulheres que são dotadas daquele olhar de cartão vermelho
& não há
felicidade espiritual que resista a uma dor de dente
& mesmo um
jornal velho que está embrulhando peixe tem alguma informação que a gente não
sabia
& é
interessante como as pessoas sem caráter geralmente sabem que são assim, e se
sentem muito bem, obrigado
& o que se vê
é o conflito entre a Vetusta Ciência de Formalizar o Espírito das Leis contra a
Nobre Arte de Ludibriar a Arbitragem
& acompanhar a
Política pela imprensa é como acompanhar futebol pelo rádio
& a Verdade,
sem beleza, é utilitária e rude; a Beleza, sem verdade, é frívola e
desnecessária
& como é que
uma imagem do tamanho de um selo é capaz de encher uma sala?
& o impulso de
Tânatos não é o de desejar a morte, mas de não dar importância a ela
& a verdade é que quando as pessoas que se preparam
para o pior começam a ficar impacientes porque o pior demora a acontecer
& quem tem
dinheiro nem lembra que ele existe, e quem não tem não pensa noutra coisa
& o segredo da
vida é saber entrar e saber sair, saber falar e saber ouvir, saber subir e
saber descer
& não quero
parecer pessimista, mas a verdade é que nós ainda somos felizes, e não sabemos
& ninguém é
obrigado a ler o que não gosta, o que não aprova, o que não entende; cada um só
lê o que consegue ler
& ninguém me
tira da cabeça que “C.E.O.” é apenas uma maneira esnobe de dizer “sinhô”
& tu te tornas eternamente responsável pelo que os
teus orientandos publicam
& qualquer
coisa neste mundo pode ser provada com o auxílio de um único exemplo
& a gente só
deixa de tratar os filhos como bebês indefesos quando eles começam a nos tratar
como velhinhos defasados
segunda-feira, 3 de janeiro de 2022
4780) Resoluções para 2022 (3.1.2022)
Tornar menos desfocadas as letras dos livros e as legendas dos filmes.
Anagramatizar em português um poema de Pablo Neruda, um
de Arthur Rimbaud e um de W. H. Auden.
Juntar todo meu dinheiro e montar uma agência de banco,
para viver de juros.
Já que estou sem aparelho de som na sala, comprar pelo menos uma luz
estroboscópica!
Beber como se não houvesse amanhã (e aí é que não vai
haver mesmo).
Escrever um romance onde todos os personagens masculinos
têm os nomes de ex-jogadores do Treze, e ver quantos anos leva até alguém
perceber.
Abrir o restante das caixas da mudança de dois anos
atrás.
Fotografar a parte inferior do meu rosto e imprimi-la em
uma dúzia de máscaras.
Enviar pedidos-de-desculpa telepáticos para todo mundo, e
dormir em paz.
Visitar os cinco Estados brasileiros que me falta
conhecer.
Caminhar dez voltas em torno do Maracanã toda vez que for dia de
jogo.
Doar minha biblioteca a dez instituições culturais
diferentes, e entregá-la a quem chegar primeiro.
Aprender a me portar como um cavalheiro.
Raspar a cabeça e tatuar um labirinto.
Trocar as cordas do violão (vamos e venhamos, dois anos é
demais).
Comemorar o centenário da Semana de Arte Moderna
repetindo seus eventos, e chamando-a de Semana de Arte Antiga.
Visitar livrarias discretamente e autografar cada
exemplar de livro meu que houver por lá.
Assistir a pelo menos uma peça no teatro, um show no bar,
um filme no cinema.
Mandar pintar um retrato meu a óleo, todo velho,
deformado, cheio de feridas, e escondê-lo no sótão.
Capturar os pássaros que pousarem na janela, escrever um
poema em suas asas, e soltá-los.
Aproveitar o carnaval para ler Mikhail Bakhtin.
Amarrar o boi no pé da cajarana (por via das dúvidas).
Passar as minhas noites fugindo do inferno, dançando no
escuro, subindo por onde se desce, cantando na chuva, brincando nos campos do
Senhor.
quarta-feira, 24 de novembro de 2021
4767) Contracapa de GoogleMeet (24.11.2021)
& o problema das sociedades que se sustentam com pão e circo é que geralmente o pão acaba primeiro
& no futuro todo mundo terá o direito de ser esquecido por 15 minutos
& a maior surpresa é quando uma coisa não acontece pela segunda vez
& existe num país uma quantidade fixa de fervor político; quando acontece de haver 90% de indiferença isso resulta em 10% de fanatismo
& quando alguém afirma que uma questão é “incontornável” é porque está cobrando pedágio nela
& “plus c’est la même chose, plus ça change”
& a vida está parecendo aqueles filmes onde o roteiro mostra uma coisa e os diálogos dizem outra
& o fim da civilização não virá em trajes de tragédia grega, mas de ópera-bufa albanesa
& que mundo estranho o nosso, capaz de imaginar mundos assim
& o problema das redações de jornais, atualmente, não é que o estagiário não sabe escrever, é que não tem mais ninguém ali para ensinar
& quando as exceções são maioria, tem alguma coisa errada com a regra
& quem já passou dos 70 sente cheiro de fumaça
& nada mais patético do que ser o último a acreditar nas próprias mentiras
& quem costuma praticar a autocrítica não precisa de modéstia
& nada estraga tanto o prazer de um voyeur quanto morar de frente para uma exibicionista
& muitos livros são contratados pela editora mediante a apresentação de uma sinopse geral e o primeiro capítulo; bem que poderiam ser publicados assim
& sopa, café, vinho e cama... contra o gelo deste inverno
& não é que um velho seja um cara mais sábio, ele é apenas um cara que já viu o mesmo filme dez vezes
& a vida seria simples se fosse beber e dormir, mas essa história de acordar já complica tudo
& a presença de certas pessoas emite a temperatura de um eclipse total do sol
& chamar alguém de “canalha” só tem sentido se for na presença do próprio
& certos livros são como frutas de cera: nunca envelhecem, e não dão prazer algum
& a lei é para todos, mas a aplicação dela é por amostragem
& é preocupante pensar que só saberemos o que estava acontecendo em 2021 quando lermos os livros de História publicados em 2050
& na verdade, a maior parte dos leitores dos livros de mistério não gostam de mistérios, gostam de soluções
& precisamos de um computador automático, onde bastaria manter uma tecla pressionada e o texto iria brotando
& a diferença entre um espirro e um orgasmo é meramente afetiva e sócio-cultural
& algumas estrelas estão tão distantes que sua luz se esvai entre o telescópio e o olho
& os mares se elevarão dez metros, mas a essa altura ninguém perceberá
& tem épocas em que nem precisa ser um pesadelo – a pessoa sonha que foi na pracinha e acorda suada e trêmula
& mais triste do que jogar pérolas aos porcos é jogar diamantes aos famintos
& uma nação pode ser desintegrada sem que seja necessário matar uma pessoa sequer
& às vezes a gente passa tanto tempo esperando um “sim” que até receber um “não” dá um certo alívio
terça-feira, 29 de dezembro de 2020
4658) Resoluções de Ano Novo (29.12.2020)
Parar de beber todo copo de veneno que botam na minha frente.
quinta-feira, 4 de junho de 2020
4586) Paulo Leminski comenta a atual conjuntura (4.6.2020)
(“Catatau”, 3ª. edição, Curitiba, Travessa
dos Editores, 2004)
“Sempre se consegue pôr
o que tenha que ser assim em palavras que a gente trazia aqui dentro, que não
se sabiam lá, isto é, hoje não me consigo fazer entender.” (p. 125)
“Só porque uma coisa
se assemelha a uma vizinha, o mais provável é que todas as demais coisas se
pareçam com ela ou é mais provável que as ditas coisas difiram muito dela?
Falamos de ambas as coisas, porém diferentes no modo de agir, iguais em tudo,
menos em todo o resto e, como se isso não bastasse, ainda por cima, simples
variantes de uma variedade maior: estamos falando de duas coisas diferentes
sobre o mesmo assunto.” (p. 141-142
“É assim que as coisas significam? Mas então
papai mentiu, mamãe corrigiu errado, vovô voou, titio avestruza a cabeça no
buraco do tatu.” (p. 200)
“De tanto fazer tudo
fazer tanto, fez-se como tanto faz.” (p. 127)
“Interrompemos nossa
programação para dar margem a um apelo. Babel, urgente. Precisa-se de um
poliglota, paga-se regiamente. Agora só falta batizar de Baltazar o rei desta
Babel, até os limites extremos de sua incompetência, quando será coroado,
prêmio de serviços inadiáveis, administrando fatalidades.” (145)
“Alta a sombra das
bandeiras sobre as covas rasas.” (p. 252)
“De qualquer forma, já
que eu não me salvo, vou dar o máximo de oportunismos ao meu desespero.” (p.
76)
“Fedo sangrando,
lacrimo, durmo, acordo e desmaio.” (p. 86)
“Mais carinho,
trata-se do mundo, uma máquina cuja peça principal é minha cabeça!” (p.
148-149)
“O futuro vem de fora.
Dentro está que é uma atualidade só.” (p. 244)
“Só continuar não
basta: outros verbos mais capazes, conspirar, infiltrar-se!” (p. 242)
“Mas advirta que a
tortura não deve chegar aos ossos, osso já não é gente.” (p. 129)
“O ladrão tirando
quase tudo, e deixando tudo no lugar.” (p. 251)
“Ao desertor, os
desertos!” (p. 173)
“Cartésio. Nosso homem
em Brasília. Dizer que fui quase cartuxo, o fantoche.” (p. 251)
“Não tem cara de quem
sabe o que diz, dirá assim só para não saltar a vez?” (p. 104)
“Atira e retira o
tiro?” (p. 178)
“Chancela e depois
cancela, isso cansa.” (p.148)
“O bicho de sete
cabeças tem o entendimento meio mal distribuído.” (p. 114)
“Cara que brisa de
Brasília baforou, nem quem me enfarofou.” (p. 131)
“A máscara está na cara, só não vê quem não
usa!” (p. 105)
“Para bem entender, meia palavra não é de
bosta nenhuma, bom entendedor faz o que bem entender.” (p. 132)
“Já, mas não ainda.”
(p. 252)
“O passado, mais perto
que o supunha” (p. 139)
“Vivemos procurando
soluções apocalípticas para questões da alçada do bom senso.” (p. 240)
“Chegou mais rápido
que uma coincidência.” (p. 254)
“Saber não basta,
carece corromper, comprometer e ameaçar o que existe. Para isso, parece que
esse mundo é bom.” (p. 87)
“Paz, pelo jeito,
ninguém aqui está querendo, não está vendo?” (p. 134)
“Quem for valente que se levante: ao vigilante
só se surpreende suprimindo-o.” (p. 136)
“O único subterfúgio é não se deixar envolver,
e procurar refúgio num desses labirintos que vêm vindo aí com cara de poucos
amigos: neste!” (p. 143)
“Adeus, capitão!
Partam sossegados, intercederei por vós lá no céu, e apontou para o alto, donde
em pleno gesto escorre o raio que o fulmina.” (p. 145)
“Ainda que me
pergunte: caiu em si e não voltou pra o convívio alheio?” (p. 87)
“Algum tanto estive
prestes, mediterrâneo entre um lugar comum e um posto avançado, a reanimar com
acenos de alimentos uns restos de entusiasmos desfeitados pela intervenção de
contratempos.” (p. 131)
“Como os vivos riem
forte dos mortos!” (p. 183)
“Posso querer ir aí e falar
isso, penso que sei mas falando substituo minha certeza pelos azares da
comunicação.” (p. 138)
“Uns catiripapos, e a
criatura fica parecida com a caricatura.” (p. 144)
“Por aqui, Alteza,
cuidado a viga, o vigia não tem mais onde pôr os olhos senão conosco, juro que
não conosco, pela luz que lá em cima nos alumiou, poupe-me o vexame, vê lá o
que faz, assim não ingrassaremos em Praga a tempo de desvendar a defenestração
impedir o trânsito e interromper a metamorfose, a ejaculação precoce e o
enterro prematuro”. (p. 160)
“Amanhã cedo, todos nós, amanhecendo, nos
conheceremos.” (p. 253)
quinta-feira, 6 de julho de 2017
4250) João Saldanha, 100 anos (6.7.2017)
Neste mês de julho comemora-se o centenário de nascimento de João Saldanha, jornalista, técnico do Botafogo no tempo em que o Botafogo era um dos melhores times do mundo, técnico da Seleção Brasileira.
Um personagem fascinante, que comecei a admirar ainda garoto, lendo suas crônicas na imprensa, e depois lendo o excelente Os Subterrâneos do Futebol, relato de sua vivência botafoguense, cheio de episódios pitorescos, mostrando como é o futebol fora de campo.
Saldanha foi um dos caras mais politicamente incorretos
do seu tempo, não porque fosse pior do que os outros, mas porque era o único
que dizia o que pensava, sem se importar com o que alguém achasse.
O meio do
futebol profissional é todo cheio de dedos, cheio de pose, de discurso
patriarcal moralista, quando diante do microfone. Som desligado,
ninguém distingue um jornalista de um cartola. João Saldanha rasgava, falava
tudo, e por isso ficou com fama de pior do que os outros, quando era apenas
mais verdadeiro.
Em alguma prateleira empoeirada, no sambaqui de papel em
cujo centro habito, devo ter ainda uma esfarelada pasta de plástico com dezenas
de recortes de suas crônicas publicadas no Jornal
do Brasil, que eu lia com o vagar e a aplicação de quem está estudando para um
mestrado.
Acho que ele e Paulo Francis foram os únicos cronistas de
quem guardei recortes. Não por achar aquilo um documento histórico, mas para
reler de vez em quando e não me esquecer de como se escreve. Se não fosse pela
leitura imunizadora dos dois, eu já poderia estar em alguma Academia.
Vi-o em carne e osso apenas uma vez, numa palestra dele
na Facha (Faculdade Hélio Alonso), no Rio. Alertado por algum amigo, fui lá na
faculdade (era perto de casa) num começo de noite e vi João perorando para 50
ou 60 universitários durante mais de duas horas.
Era um falador incansável, inesgotável e brilhante, da
estirpe de Darcy Ribeiro e Ariano Suassuna. Não tinha nhém-nhém-nhém, ia direto
ao ponto, mandava uma idéia forte, concreta e inquietante, e em vez de ficar
tagarelando em volta dela produzia logo outra; e outra; e mais outra.
Inquieto, desassossegado, teimoso, dos que não abrem nem
prum trem. Articulado, hábil com a linguagem, criativo, sem paciência para com
a retórica vazia e a pomposidade de tantos técnicos de futebol, de tantos
cronistas. Sorria pouco, mas transmitia uma impressionante energia de viver.
(“Alegria de viver” me parece um termo besteirolzinho demais, perto da impressão que
ele causava.)
No ambiente futebolístico carioca, João mantém uma
curiosa relação folclórica com Neném Prancha, figura ligada ao Botafogo e a
quem se atribui uma quantidade enorme de frases notáveis. Algumas delas,
diz-se, eram na verdade de Saldanha.
Neném Prancha (tinha esse nome por causa
dos pés enormes) foi o cara que dizia: “Se macumba ganhasse jogo, o campeonato
baiano só terminava empatado”, “Pênalte é tão importante que devia ser batido
pelo presidente do clube” e outras preciosidades.
Sendo Neném um personagem típico como Seu Lunga ou Zé Limeira,
acabaram lhe atribuindo coisas que ele provavelmente nunca disse. Não importa: vale
o que foi falado. Quem fica é a frase, a gente pede a conta e vai embora.
Tenho visto algumas notas na imprensa a respeito do centenário
de Saldanha, e parece que estão saindo algumas coletâneas de suas crônicas. Uma
dessas coletâneas é As 100 melhores
crônicas – comentadas – de João Saldanha, de Alexandre Mesquita, César
Oliveira e Marcelo Guimarães (LivrosDeFutebol, 2017).
Preciso reler, porque nas épocas mais recentes tenho recorrido,
naqueles momentos em que a cabeça está a zero e o texto avança com a velocidade
da hera na treliça, de um cacoete em que beletristas pátrios são useiros e
vezeiros, esses floreios caligráficos de uma prosa ornamental que consiste em
esticar na máxima medida possível uma idéia bem curtinha e bordá-la toda de
lantejoulas verbais e miçangas metafóricas com o intuito de disfarçar seu vazio
mais vazio do que um estômago vazio.
Vamos lembrar de João. Vida que segue.
domingo, 7 de junho de 2015
3834) A frase de Groucho (7.6.2015)
Groucho Marx foi um dos mais inteligentes e imprevisíveis cômicos do cinema norte-americano. Também do rádio, do teatro, e da TV, mas tudo que vi dele foi no cinema, em filmes absurdistas como Uma noite na Ópera, Uma noite em Casablanca, Animal Crackers, Duck Soup e vários outros. Os Irmãos Marx eram um grupo anárquico: Chico, o espertalhão; Harpo, o mudinho que transformava em qualquer coisa qualquer objeto que houvesse no cenário; e Groucho, o trocadilhista, insultador de senhoras e figurões, aprontador de pequenos esquetes improvisados. Um filme dos irmãos Marx é uma comédia romântica, ou aventura policial, ou outro gênero, desde que os irmãos (Groucho principalmente) não estejam na cena. No momento em que eles aparecem, subvertem o gênero. Fica o filme querendo ir numa direção e os Marx empurrando-o na direção da bagunça surrealista e irreverente.
Groucho tem um dito famoso: “Jamais entrarei para um
clube capaz de me aceitar como sócio”. É
uma das suas frases paradoxais, muito citada; diz-se que ele a enviou num
telegrama para um clube de Beverly Hills que o convidou para se associar. Como se dá com os grandes paradoxos de Oscar
Wilde ou de G. K. Chesterton, é uma frase que faz sentido imediato quando a
lemos, apesar da aparente contradição.
Dei uma pesquisada a respeito dela, para saber a data,
por causa de um conto de Monteiro Lobato que reli por acaso. O conto é “Um
homem de consciência”, em Cidades Mortas (1909), a história de João Teodoro,
um homem pacato e meio decepcionado com a decadência de sua cidadezinha,
Itaoca. Certo dia ele é nomeado delegado, bota os baús em cima de um burro e
vai embora, dizendo: “Terra em que João Teodoro chega a delegado eu não
moro”. É a mesma lógica grouchiana,
sendo que em 1919 o Marx bigodudo (então com 29 anos) mal estava iniciando sua
carreira artística.
sábado, 5 de outubro de 2013
3306) Unanimidade burra (2.10.2013)
Nelson Rodrigues é autor de frases brilhantes. Um dos
maiores fazedores de frases da nossa língua, juntamente com Millôr Fernandes,
Paulo Leminski, Guimarães Rosa, Glauco Mattoso, Otto Lara Resende...
Não apenas a frase sentenciosa, que exprime um conceito redondo, impactante: “Nem toda mulher gosta de apanhar, somente as normais”. Mas a frase-incompleta, que precisa vir apensa a um texto maior, mas dá-lhe um colorido e significado inconfundíveis: “o olho rútilo e o lábio trêmulo” é uma imagem rodriguiana que serve para descrever o personagem tomado por uma emoção incontrolável, seja a luxúria, a raiva, a cobiça.
Não apenas a frase sentenciosa, que exprime um conceito redondo, impactante: “Nem toda mulher gosta de apanhar, somente as normais”. Mas a frase-incompleta, que precisa vir apensa a um texto maior, mas dá-lhe um colorido e significado inconfundíveis: “o olho rútilo e o lábio trêmulo” é uma imagem rodriguiana que serve para descrever o personagem tomado por uma emoção incontrolável, seja a luxúria, a raiva, a cobiça.
Uma das frases mais desperdiçadas pelos que o citam, no
entanto é o famoso “toda unanimidade é burra”.
Eu diria que toda frase que tem o formato “todo x é y” é burra, mas esse tiro-no-pé tautológico me força a equacionar a coisa de outra forma.
Frases com o formato “todo x é y” não exprimem uma verdade científica (uma verdade exterior à mente que a enuncia, uma verdade verificável por terceiros), nem mesmo uma opinião definitiva do autor.
Frases assim são explosões, desabafos, e não é por lhes faltar um ponto de exclamação que são menos exclamativas. Podem até não ser verdade, mas são algo que o autor pensou por impaciência num certo instante e resolveu explodir.
Eu diria que toda frase que tem o formato “todo x é y” é burra, mas esse tiro-no-pé tautológico me força a equacionar a coisa de outra forma.
Frases com o formato “todo x é y” não exprimem uma verdade científica (uma verdade exterior à mente que a enuncia, uma verdade verificável por terceiros), nem mesmo uma opinião definitiva do autor.
Frases assim são explosões, desabafos, e não é por lhes faltar um ponto de exclamação que são menos exclamativas. Podem até não ser verdade, mas são algo que o autor pensou por impaciência num certo instante e resolveu explodir.
O problema com esse formato de frase é que esse é o modelo
preferido de enunciado para a afirmação de preconceitos: todo baiano é
preguiçoso, todo árabe é terrorista, todo russo joga bem xadrez...
Nelson disse sua frase (quanto quer de aposta?) porque era um insatisfeito em seu estado normal e um revoltado em momentos mais intensos. Gostava de ser do contra, de desafinar o coro dos contentes. Se dez pessoas juntas tivessem a mesma opinião ele via nisso um sinal de preguiça mental, de passividade, de obediência cega, de mentalidade admirável-gado-novo.
Nelson disse sua frase (quanto quer de aposta?) porque era um insatisfeito em seu estado normal e um revoltado em momentos mais intensos. Gostava de ser do contra, de desafinar o coro dos contentes. Se dez pessoas juntas tivessem a mesma opinião ele via nisso um sinal de preguiça mental, de passividade, de obediência cega, de mentalidade admirável-gado-novo.
Nelson era um ressentido cósmico, um existencialmente inadaptado, um Seu Lunga sem paciência para com a estupidez e a mesquinharia humanas. Na ditadura, ele, um conservador, via-se ilhado em redações aguerridamente esquerdistas e oposicionistas. Individualista até o tutano, não queria nenhum grupinho dizendo-lhe o que pensar.
Discordo muitas vezes de suas idéias, mas hoje, quando ele começa a virar unanimidade nacional, é preciso a todo custo defendê-lo da burrice alheia.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
2212) Ao vencedor, as batatas (10.4.2010)
(Quincas Borba, de Roberto Santos)
A frase famosa é de Machado de Assis, e como tantas grandes frases, pode ser interpretada de muitas maneiras.
Ao vencedor os louros do triunfo, por exemplo; todas as glórias e troféus subentendidos na possibilidade do triunfo.
Ou então: ao vencedor, um punhado de meras batatas, prosaicas batatas, para que ele aprenda que o bom da vitória é vencer, e não o prêmio da vitória.
Ou um mero fatalismo que (segundo Quincas Borba, inventor da frase) justifica a necessidade da guerra:
“Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas.”
É um lado nietzschiano do filósofo Quincas, e não admira que tanto ele quanto o autor de Zaratustra terminassem a vida de miolo mole. Essa filosofia parte do princípio de uma escassez de recursos a serem disputados por dois concorrentes. Dividi-los por igual não adiantaria a nenhum dos dois, porque ambos continuariam fracos e sub-alimentados.
Um provérbio meio equivalente à frase de Quincas Borba seria “farinha pouca, meu pirão primeiro”. É necessário, para ter acesso ao futuro (ou seja, a uma situação possível de batatas-em-abundância) exterminar o concorrente para que ele não roa metade dos nosso víveres, matando-nos a ambos de fome.
Há momentos em que a História parece justificar esse raciocínio. Vejam a espantosa evolução técnico-científico-industrial dos EUA durante os meros quatro anos que durou sua participação na II Guerra Mundial. O esforço de guerra produziu uma gigantesca mobilização de trabalho, capital e energia criativa, e inúmeras conquistas científicas (desde o radar à energia atômica) só foram alcançadas assim.
Quincas Borba veria nisto uma prova de sua argumentação. Se EUA e Alemanha tivessem ficado sentados no batente de casa, comendo sem pressa as batatinhas fritas da paz, talvez tivessem morrido de inanição mental nessa “vidinha besta” que exige pouco dos homens e dos países. Mas bastou uma guerra para que um dos dois fosse destruído e o outro desse um salto de Poder sem precedentes.
A teoria de Quincas Borba é menos uma alegoria da Humanidade em geral do que uma prefiguração do que viria a ser o Capitalismo no século em que Machado fechou os olhos.
O que há de bom no Capitalismo é essa energia criativa, essa pulsão de viver, de crescer e de criar, essa disputa de espaço, essa busca de ver quem é o melhor, quem faz mais, quem vai mais longe.
O que há de mau é que todo este conjunto de qualidades acaba sendo o seu único repertório moral.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
0815) Os memes de Machado de Assis (27.10.2005)
“Memes” são aqueles grãos de idéia que se instalam em nossa memória e parecem ter ali uma presença tão vívida que se mantêm à tona de nossa consciência. São aquelas coisas que ouvimos e que por alguma razão nos parecem interessantes, e ficam sempre “na ponta da língua”, prontas para serem passadas adiante na primeira conversa.
Provérbios, slogans, trocadilhos, clichês, lendas urbanas, preconceitos, fofocas, boatos...
Grande parte de nosso material bruto para conversa tem algo de meme, funciona como um meme. (Ver “Os memes”, 23.5.2003)
Os memes, como a gripe, propagam-se no boca-a-boca, ou melhor, no voz-a-voz.
Machado de Assis, um fazedor de frases como há poucos, tinha a noção clara de como estas coisas acontecem, e embora não se tenha detido a teorizar o processo, ilustrou-o de forma cabal em pelo menos dois escritos.
Um destes é “O Anel de Polícrates” (em Papéis Avulsos, 1882), um diálogo entre dois personagens, em que “A” explica para “Z” detalhes da vida de um intelectual, um tal de Xavier (inspirado em Artur de Oliveira, amigo de Machado que morreu tuberculoso aos 30 e poucos anos).
Xavier tem um dia uma idéia que lhe parece brilhante, e que se cristaliza numa frase: “A vida é como um cavalo xucro, ou manhoso; e quem não for bom cavaleiro, que o pareça”. Xavier profere a frase a um amigo, e nas semanas seguintes a reencontra na mesa ao lado num restaurante, numa roda de comensais num baile, num editorial de jornal, numa comédia no teatro, e por fim, suprema ironia, a ouve dos lábios moribundos do próprio amigo a quem a dissera pela primeira vez. Recomendo a leitura do conto, em que há muito mais que isto.
O outro texto é “Evolução”, em Relíquias de Casa Velha (1906), que começa de uma maneira bem machadiana: “Chamo-me Inácio; ele, Benedito”. Os dois se conhecem numa viagem de diligência a Vassouras; falam dos problemas viários do país, e Inácio comenta: “Eu comparo o Brasil a uma criança que está engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro”.
Daí em diante, Benedito irá se apropriando aos poucos da frase do outro. Dias depois a recorda a Inácio, dizendo; “Como o senhor dizia...” Os anos passam, os dois continuam amigos, Benedito entra para a política. Encontram-se por acaso em Paris, e a certa altura ele lembra a Inácio: “Lembra-se do que nós dizíamos na diligência de Vassouras? O Brasil, etc. etc.”
Corre mais um ano; Benedito torna-se deputado, redige seu discurso de estréia e o mostra a Inácio, que se depara a certa altura com isto: “E aqui repetirei o que, há alguns anos, dizia eu a um amigo, em viagem pelo interior: o Brasil, etc. etc.” Inácio fica boquiaberto e silencioso, e só lhe ocorre atribuir este fenômeno de mutação da paternidade de uma idéia a um efeito da Lei da Evolução, de Herbert Spencer.
O mundo das idéias e dos memes, amigos, sempre foi uma Internet “avant la lettre”. Nossos bisavós já copiavam e assinavam embaixo.
terça-feira, 11 de março de 2008
0213) Hamlet, let it be (26.11.2003)

(David Warner como Hamlet)
Como é do conhecimento geral, algumas das frases mais famosas da literatura e do cinema jamais foram pronunciadas da maneira como as conhecemos. Estudiosos da obra de Conan Doyle já demonstraram por a+b que Sherlock Holmes jamais pronunciou o bordão que ficou famoso: “Elementar, meu caro Watson”. A frase “Play it again, Sam”, atribuída ao personagem de Humphrey Bogart em “Casablanca”, também não aparece em momento algum do filme. São fragmentos emblemáticos de uma obra mas que já não pertencem à obra, e sim à lenda em torno dela. Quando milhões de pessoas no mundo inteiro citam uma frase que na verdade nunca foi dita pelo seu autor, estamos diante do surgimento de mais um mito da indústria cultural.
Um dos mitos mais curiosos nesse aspecto é o de uma imagem muito famosa, que vemos repetida o tempo inteiro em cartuns, cartazes, quadrinhos, filmes, sei lá o quê. É a imagem de um sujeito pensativo, todo de preto, empunhando uma caveira e murmurando: “To be or not to be... that is the question”. Todo mundo conhece o príncipe Hamlet, e todo mundo conhece esta que é talvez a citação mais famosa na obra de Shakespeare. É, contudo, uma imagem totalmente falsa, feita de uma conjunção entre dois momentos diferentes da peça. O solilóquio do “Ser ou não ser” aparece no Ato III, cena 1, quando Ofélia é deixada a sós num quarto do castelo onde Hamlet entra sem perceber de início sua presença. A caveira pertence ao Ato V, cena 1: é a cena do cemitério, quando Hamlet e Horácio vêem os dois coveiros remexendo nos túmulos, e Hamlet, tomando uma caveira nas mãos, reconhece nela a caveira do bufão da corte com quem brincara na infância, e pronuncia o célebre trecho “Alas! poor Yorick...”
A memória popular fundiu estes dois trechos num só, e o clichê resultante não correspondente à realidade da peça, uma vez que aquela fala e aquele gesto não ocorrem ao mesmo tempo. Curiosamente, aqui se produz, na mente coletiva, o mesmo fenômeno que se produz na mente individual quando num sonho, por exemplo, fundimos numa só imagem duas imagens ou duas realidades separadas. Nossa memória também costuma nos pregar estes truques, e não são poucas as vezes em que atribuímos a uma pessoa uma fala dita por outra, ou lembramos com riqueza de detalhes um acontecimento mas pensamos que ele teve lugar em outra cidade.
No caso da imagem do “Hamlet”, me parece que essa cena imaginária se dá por um processo que poderíamos chamar de enriquecimento de linguagem, ou mais pomposamente, de semiótica transgênica. (Danou-se, eu agora fui longe) É o que ocorre quando duas imagens são tão fortes que se atraem mutuamente, mesmo não estando ligadas em sua origem. É como se nossa mente escolhesse o gene mais forte de uma cena (o “ser ou não ser”) e o de outra (a caveira) e os unisse para criar uma imagem tão forte que, mesmo não tendo sido criada diretamente por Shakespeare, é hoje a sua herança mais popularmente lembrada.
Um dos mitos mais curiosos nesse aspecto é o de uma imagem muito famosa, que vemos repetida o tempo inteiro em cartuns, cartazes, quadrinhos, filmes, sei lá o quê. É a imagem de um sujeito pensativo, todo de preto, empunhando uma caveira e murmurando: “To be or not to be... that is the question”. Todo mundo conhece o príncipe Hamlet, e todo mundo conhece esta que é talvez a citação mais famosa na obra de Shakespeare. É, contudo, uma imagem totalmente falsa, feita de uma conjunção entre dois momentos diferentes da peça. O solilóquio do “Ser ou não ser” aparece no Ato III, cena 1, quando Ofélia é deixada a sós num quarto do castelo onde Hamlet entra sem perceber de início sua presença. A caveira pertence ao Ato V, cena 1: é a cena do cemitério, quando Hamlet e Horácio vêem os dois coveiros remexendo nos túmulos, e Hamlet, tomando uma caveira nas mãos, reconhece nela a caveira do bufão da corte com quem brincara na infância, e pronuncia o célebre trecho “Alas! poor Yorick...”
A memória popular fundiu estes dois trechos num só, e o clichê resultante não correspondente à realidade da peça, uma vez que aquela fala e aquele gesto não ocorrem ao mesmo tempo. Curiosamente, aqui se produz, na mente coletiva, o mesmo fenômeno que se produz na mente individual quando num sonho, por exemplo, fundimos numa só imagem duas imagens ou duas realidades separadas. Nossa memória também costuma nos pregar estes truques, e não são poucas as vezes em que atribuímos a uma pessoa uma fala dita por outra, ou lembramos com riqueza de detalhes um acontecimento mas pensamos que ele teve lugar em outra cidade.
No caso da imagem do “Hamlet”, me parece que essa cena imaginária se dá por um processo que poderíamos chamar de enriquecimento de linguagem, ou mais pomposamente, de semiótica transgênica. (Danou-se, eu agora fui longe) É o que ocorre quando duas imagens são tão fortes que se atraem mutuamente, mesmo não estando ligadas em sua origem. É como se nossa mente escolhesse o gene mais forte de uma cena (o “ser ou não ser”) e o de outra (a caveira) e os unisse para criar uma imagem tão forte que, mesmo não tendo sido criada diretamente por Shakespeare, é hoje a sua herança mais popularmente lembrada.
segunda-feira, 10 de março de 2008
0160) A arte de citar (25.9.2003)
(ilustração: Vita Wells)
Quando citamos uma frase, geralmente dizemos o seu autor, e mais nada: “É como dizia Shakespeare: o resto é silêncio”. Verdade. Mas talvez fosse mais certo dizer: “É como dizia o príncipe Hamlet, de Shakespeare: ...” Porque a frase é do dramaturgo, mas o contexto é do personagem.
Um dos erros mais comuns no leitor ingênuo ou desambientado com um texto de ficção (ou dramático) é o de julgar que todas opiniões ali expostas são as opiniões pessoais do autor. Se um personagem faz um discurso racista, por exemplo, esses leitores condenam o autor, afirmando que ele pensa daquela forma.
Nelson Rodrigues disse: “O dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.” Esta citação é de Bonitinha, mas ordinária, que nunca li. Mas quem diz isto no livro? Não sei. Pode ser o desabafo de um pretendente pobre, derrotado por um playboy de Copacabana que lhe arrebata a trêfega noivinha. Pode ser um pai de arma em punho convencendo o filho recalcitrante a casar com uma herdeira feia de dar pena. Pode ser uma quarentona, sofrida, realista, sussurrando ao ouvido de um banqueiro lúbrico e septuagenário.
A frase tem seu valor de origem, como frase em si, e tem os valores que lhe vão sendo superpostos por personagens, atores, por quem quer que as enriqueça repetindo-as.
Daria uma interessante pesquisa rastrear, por exemplo, todos os contextos em que a frase “viver é perigoso” é repetida em Grande Sertão: Veredas. Em alguns casos pode ser verdade, em outros não. Uns a dirão com temor, outros com exultação, outros com perplexidade. A cada ator que a diz, a frase se recria.
“O nazismo, intrinsecamente, é um fato moral, um despojar-se do velho homem, que está viciado, para vestir o novo.” (Jorge Luís Borges)Não estou inventando a frase, nem atribuindo-a falsamente a Borges. Ele a escreveu de fato, só que a pôs na boca de Otto Dietrich zur Linde, o carrasco nazista de seu conto “Deutsches Requiem”. Seria absurdo atribuir esta frase a Borges, que deixou sua visão do nazismo muito clara nesse conto e em “Anotação ao 23 de agosto de 1944” (em Outras Inquisições). Mas quando o caso não é assim tão nítido, quando do autor sabemos apenas o nome, podemos pensar que quem diz aquilo é ele, e não o personagem.
Um escritor inventa frases alheias com a mesma facilidade com que um desenhista desenha rostos alheios.
Nem todo desenho é um auto-retrato, e o mesmo vale para romance, conto, poema ou peça teatral. As ações e as falas dos personagens não precisam se parecer com as do autor. E aliás nem poderiam, já que os personagens precisam ser diferentes uns dos outros. Há escritores, mesmo grandes escritores, que não sabem construir personagens que não sejam parecidos com ele próprio. Outros parecem médiuns recebedores universais, e as frases que criam para seus personagens têm às vezes o poder de causar-lhe surpresa, ou repulsa, ou medo.
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