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sábado, 30 de julho de 2011

2622) “Meia Noite em Paris” (30.7.2011)



Woody Allen, um adúltero notório, acaba de trair sua esposa Nova York com a sedutora Paris, dando-lhe em seu belo filme Meia Noite em Paris um tratamento visual que lembra, a cada instante, uma tela de Van Gogh, ou de Utrillo, ou de Renoir. Ninguém ama tanto Paris quanto os norte-americanos, com a intensidade do amor que brota entre temperamentos conflitantes. Gil Pender é mais um da série de alter-egos que Allen (hoje com 75 anos) vem desenvolvendo desde que admitiu estar velho demais para fazer protagonistas engraçados e românticos. Acho que ele escolhe o ator (Kenneth Branagh, John Cusack, Josh Brolin, etc.; agora, é Owen Wilson) e o instrui para imitar meticulosamente os trejeitos, maneirismos e modo de falar de “Woody Allen”, aquele ator-personagem de quarenta anos atrás. Muitas vezes funciona.

Eu poderia tentar provar que Woody Allen se inspirou no brasileiro Malba Tahan para conceber esta história, em que um escritor norte-americano visita Paris e dá um jeito de voltar aos anos 1920 para conviver, durante a madrugada, com escritores e artistas daquele período. Em Sob o Olhar de Deus, de Tahan, o protagonista Célio Musafir tem um sonho em que visita o Paraíso, que, ao invés da infinita biblioteca postulada por Jorge Luís Borges, é uma espécie de clube, onde Musafir fica circulando, tomando uns drinques (não lembro bem o quê, mas como se trata do Paraíso deve ser refresco de groselha) e conversando com Charles Dickens, Mark Twain, Voltaire, Oscar Wilde e outros. Bobagem minha defender essa tese; qual o artista ou escritor que não já sonhou que se encontrava com seus ídolos e estes o tratavam de igual para igual? É divertido ver Gertrude Stein usando o termo “ficção científica” ou Man Ray ouvindo com atenção a descrição de Gil sobre o que lhe aconteceu e dizendo: “Ah, sim, você saiu de um universo e entrou em outro. E daí? Normalíssimo”.

O elemento fantástico do filme vem direto da série Além da Imaginação, onde a todo instante havia um trem, um automóvel, um elevador ou uma esquina conduzindo os personagens para um universo paralelo que os deslumbrava e lhes fornecia ensinamentos sobre o sentido da vida. Em outro seriado como Ilha da Fantasia, havia episódios em que surgiram personagens da história e da literatura para contracenar com os visitantes da ilha. Neste filme, Allen começa com uma premissa saudosista e nostálgica (“o passado era melhor”) e no final dá-lhe uma engenhosa dobradura crítica, voltando-a contra si mesma, com delicadeza e carinho. O filme é uma guinada imprevista na filmografia de Allen, que nos últimos filmes parecia acomodado a ser um reiterativo cronista conjugal. Midnight in Paris traz de volta uma mistura de lirismo e fantástico que ele explorou poucas vezes, mas sempre bem. O caráter cotidiano e reconhecível dos seus personagens ressalta melhor de encontro a um pano-de-fundo fantástico, como um pedaço de fotografia numa colagem de Braque.

sábado, 28 de maio de 2011

2568) A arte da subitização (28.5.2011)



A gente mostra uma foto dos Beatles a um sujeito que nunca ouviu falar deles e pergunta: “Quantas pessoas tem aí?”. O cara olha e responde em um segundo: “Quatro”. Mas se a gente mostrar uma foto de uma orquestra sinfônica e fizer a mesma pergunta, ele vai ter que sair contando: “Um... dois... três...”, até chegar ao total. O que ele fez no primeiro caso foi o que os psicólogos chamam de subitização: saber instantaneamente a quantidade de elementos de um conjunto sem ter de contá-los um a um. Dizem que o limiar médio do ser humano é quatro, e que à medida que essa quantidade vai aumentando, aumenta também a nossa dificuldade de “enxergar” o total, sendo preciso fazer a contagem.

Em seu conto “Funes, o Memorioso”, Borges tem uma visão hiperbólica do que seria essa função mental num homem dotado de memória absoluta. Diz ele: “Nós, de uma olhadela, percebemos três copos em cima de uma mesa; Funes percebia todos os rebentos e cachos e frutos que comporia uma parreira”. No filme Rain Man, há uma cena em que alguém derrama uma caixa de palitos no chão e o autista interpretado por Dustin Hoffmann percebe de uma só olhada que são 246.

A palavra significa “apreensão súbita ou imediata”. Muitas pessoas desenvolvem a capacidade de fazer tais cálculos através do processo chamado de “agrupamento e contagem”. Por exemplo, se mostramos uma foto com nove pessoas amontoadas ao acaso é mais difícil perceber quantas são do que se elas estiverem divididas em três grupos com três pessoas cada um. Neste último caso, bastam duas subitizações rápidas e sucessivas para sabermos que cada grupo tem três, e que o total é de nove.

Dizem que quando Henry Thoreau trabalhava numa fábrica de lápis ele sempre identificava a quantidade exata de lápis numa caixa sem contá-los. Já vi um depoimento de que algumas pessoas eram capazes de contar 38 ovelhas num rebanho, com uma só olhada à distância. Beremiz Samir, o personagem de O Homem que Calculava de Malba Tahan, levava essa capacidade a extremos surrealistas. Ao ver uma cáfila de camelos e ser perguntado quantos eram, ele dizia algo como: “São 484... Perdão, são 121, eu tinha contado as pernas deles”.

O hábito de contar folhetos de cordel me fez desenvolver um método de subitização baseado no número cinco. Quando a gente tem que saber o total de uma pilha com centenas de folhetos é mais fácil sair pegando de cinco em cinco (o olho calcula e o dedo separa num segundo), e ir contando: “1, 2, 3, 4, 5, 6....” No final basta multiplicar por cinco o total.

Um exemplo curioso diz respeito à capacidade de contar dos corvos (aves mais inteligentes do que a média). Três caçadores entram num local fechado, dois saem; os corvos olham e ficam à distância. Quatro entram, três saem: idem. O limite dos corvos é alcançado quando entram seis caçadores e saem cinco; os corvos pensam que o local está vazio e voam até lá. O limite de sua capacidade de subitização (ou de contagem) é cinco.

sábado, 27 de março de 2010

1831) A conta do restaurante (21.1.2009)



(Malba Tahan, caracterizado como Beremiz)

Circula pela web um email com um problema que já fez meu cérebro consumir muito fosfato na adolescência, até que o encontrei explicado de forma cabal no clássico O Homem que Calculava, de Malba Tahan. Três amigos almoçam num restaurante. A conta dá 30 reais e cada um paga 10 ao garçom. Quando este leva o dinheiro ao caixa, o gerente diz que aqueles são antigos clientes, e vai cobrar apenas 25 reais em vez de trinta. Devolve ao garçom o troco sob a forma de cinco notas de um real. O garçom volta à mesa e, espertalhão, embolsa 2 reais para si, anuncia aos clientes que o gerente devolveu 3 reais, e cada um dos três recebe uma nota de um real. A questão é: Cada cliente pagou 10 e recebeu um. Portanto, cada um pagou 9 reais, e os três em conjunto pagaram 27,00. O garçom ficou com mais dois reais, o que perfaz 29. Para onde foi R$ 1 real que ficou faltando?

Este é um problema útil na vida real, porque nos força a prestar atenção ao que está sendo discutido, e não tomarmos falsos atalhos, que irão nos afastar da resposta certa. Formular o problema, já dizia Sherlock Holmes, é meio caminho andado para resolvê-lo. A maioria dos problemas não resolvidos consiste em problemas tão mal formulados que seria quase impossível encontrar as conclusões certas a partir de premissas contraditórias.

Neste caso, se bem me lembro da explicação de Malba Tahan, as condições do problema foram mudadas no meio do caminho. No momento em que o garçom chega com os 30 reais e o gerente diz que só vai cobrar 25, e devolve um troco de cinco, a tal despesa de trinta reais vai para o espaço. Só existem, concretamente, os 25 que o gerente aceitou, e os 5 que estão na mão do garçom. O garçom fica com dois para si, e devolve 1 real a cada cliente. A soma total de dinheiro passa a ser: 25 no caixa, 3 com os clientes e 2 com o garçom. Alguém perguntará: “Mas se cada um deles pagou 10 e recebeu 1 de troco, então os três em conjunto pagaram 27!”. De fato: pagaram 27 reais, sendo que destes 25 ficaram com o restaurante, e dois com o garçom.

O erro da primeira conta, ao que parece, está em somar as parcelas erradas. Por exemplo: quando somamos os 27 reais pagos pelos clientes e os 2 que estão com o garçom, estamos somando alguns reais duas vezes, pois se o gerente só aceitou 25, então os 2 que sobram já estão na mão do garçom e não podem ser considerados duas vezes. No livro de Malba Tahan, ele faz a contraprova com uma série de despesas parecidas, mas com valores muito diferentes, e mostra que esse “um real que ficou faltando” pode chegar a ser uma soma enorme, equivalente ao valor do jantar inteiro.

Dois conselhos. Examine bem a formulação de um problema para ver se não tem armadilhas involuntárias. E cuidado, muito cuidado, com os problemas que trazem armadilhas voluntárias embutidas: orçamentos, balanços fiscais, prestações de contas. Em caso de dúvida, chamem Beremiz Samir, “o Homem que Calculava”.

segunda-feira, 8 de março de 2010

1761) A magia dos números (31.10.2008)



Sempre fui um mau aluno em matemática, mas, curiosamente, sempre gostei de brincar com números. Vezes sem conta, quando era adolescente, eu me sentava numa poltrona com lápis e papel, rabiscando números ao acaso, fazendo cálculos sem objetivo, tentando “fazer descobertas matemáticas”, inspirado por livros como O Homem que Calculava de Malba Tahan. Acabava descobrindo algumas coisas. Para que serviam? Para nada, provavelmente, e com certeza já eram coisas conhecidas desde os gregos. Mas o prazer de descobrir uma coisa sozinho era justificativa suficiente.

Por exemplo: alguém deve lembrar um joguinho com palitos de fósforos dispostos em quatro filas com 1, 3, 5 e 7 palitos, onde cada jogador tira um certo número de palitos, alternadamente, e ganha quem deixar o derradeiro palito para ser tirado pelo oponente (este jogo aparece em O Ano Passado em Marienbad de Alain Resnais). Eu pensava: por que esses números? O que têm eles de especial? Somei-os e deu 16. Ora, 16 é o quadrado de 4, que está ausente da lista (sendo uma quantidade par de números, não aparece um “número do meio”), mas seria justamente o termo mediano da lista, aparecendo entre o 3 e o 5.

Portanto, criei uma regra hipotética: “A soma de uma quantidade ‘n’ de números ímpares sucessivos é o quadrado do termo intermediário dessa série, ainda que este termo esteja apenas subentendido”. Vamos fazer um teste aumentando a série para 1, 3, 5, 7, e 9. Qual a soma deles? É 25. Ou seja, o quadrado de 5, termo intermediário (desta vez visível) da série. Nova experiência com 1, 3, 5, 7, 9 e 11. Qual é a soma disto? É 36, que é o quadrado de 6, termo intermediário da série, oculto entre o 5 e o 7.

Por que acontece assim? Acho que porque o termo intermediário é sempre igual à quantidade de termos considerados. Somar 1, 3, 5, e 7 equivale a somar 4, 4, 4 e 4, porque se a gente prestar atenção vai ver (vide o episódio de Gauss, já comentado aqui em “A arte de olhar diferente”, 14.10.2003) que a soma dos termos extremos (1+7, 3+5, etc.) é sempre a mesma. Se a gente se fixar no meio da série vai ver que os números crescem para a direita e diminuem para a esquerda sempre na mesma proporção, ou seja, isto nivela a série justamente nesse termo do meio.

Para que serve isto? Não sei, mas tudo que tem lógica serve para alguma coisa. Quando Tales de Mileto ou Anaximandro de Alexandria ou algum outro sujeito antigo descobriu essa regrinha acima, coisa que certamente aconteceu, não sabia que utilidade poderia ter, mas certamente anotou, como eu anotei. E é possível que mil anos depois esse negócio tenha servido a alguém que estava calculando o peso de uma catedral gótica ou a pressão do gás de uma caldeira.

Descobertas matemáticas, desde as mais bobas até as mais complicadas, são respostas para perguntas que ninguém nunca precisou fazer, mas quando vem a fazê-las um dia descobre com alívio que a resposta já estava pronta, à sua espera.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

1694) Plágios e variantes (16.8.2008)



(Malba Tahan)

Em 1948, o Ellery Queen’s Mystery Magazine publicou um conto do francês Maurice Level, “L’Encaisseur” (1920), sob o título “The Debt Collector”. Nele, um tal Ravenot, cobrador de um banco, é um funcionário honestíssimo e exemplar. Um dia, depois de executar várias dívidas vultosas, desaparece com 200 mil francos. Hospeda-se sob nome falso num hotel de subúrbio, vai até o escritório de um advogado e lhe entrega um envelope lacrado (com o dinheiro dentro) dizendo tratar-se de documentos de família. Anuncia que está indo para uma viagem, voltará dentro de alguns anos, e o envelope deve ser-lhe entregue sem qualquer identificação, bastando que ele diga chamar-se Henri Duverger.

O plano de Ravenot é simples. No dia seguinte ele se entrega à polícia, confessa o roubo, e diz que por sua vez foi assaltado, ficando sem o dinheiro. Ravenot tem 35 anos. Como tem bons antecedentes, pega cinco anos de prisão. Sai de lá com quarenta de idade e 200 mil francos para se estabelecer na vida. O problema é que quando está se encaminhando para o escritório do advogado, começa a fantasiar mentalmente como será sua chegada, sua entrada, o diálogo, até o momento em que diz: “Eu sou... eu sou...” E aí dá-lhe um branco. Ele não lembra mais o nome falso que usou.

Ravenot passa alguns dias em crise. Uma noite, desce até o rio Sena para molhar o rosto na água fria, e reavivar a memória. Escorrega, cai na água, e ao ser arrastado pela correnteza, começa a gritar em desespero: “Socorro! Meu nome é Duverger! Socorro!” Mas os Contos de Moral e Exemplo não perdoam, e ele afunda nas água do Sena.

É um conto minúsculo e perfeito, e o editor Ellery Queen o considera “provavelmente uma das histórias mais plagiadas da literatura moderna”. A tentação de reescrever uma história assim é quase irresistível. Queen diz ter ouvido em programas de rádio dos EUA pelo menos duas versões do conto de Level, sem menção ao nome do autor, e uma terceira versão, também radiofônica, num programa de rádio-teatro de primeira linha, em que o nome secreto é mudado de “Duverger” para “Heart’s Desire”.

Nosso Malba Tahan também fez sua variante. Um peregrino que vai a Meca confia todas as suas riquezas à guarda de um ulemá (espécie de juiz muçulmano), para lhe serem devolvidas na volta mediante uma senha, uma simples frase. Na volta de Meca é assaltado, vendido como escravo, e passa anos sofrendo tantas provações que quando regressa seu rosto está mudado, os cabelos embranquecidos, e ele não lembra mais qual foi a senha que deixou para reaver seus pertences. Sofre com isto durante meses, passando fome, vagando pela cidade sem um tostão, até que não resiste mais e vai ao ulemá. Quando começa a explicar o que aconteceu, o ulemá lhe diz: “Fique tranqüilo, já o reconheci por causa desse tique nervoso que você tem”. O final de Malba Tahan é menos trágico; mas é mais engenhoso, mais irônico, mais satisfatório.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

1377) O Bosque de Birnam (12.8.2007)



Macbeth é um nobre escocês que certa noite hospeda o rei em seu castelo. Quando o rei está dormindo, Macbeth entra no quarto, corta-lhe a garganta e assume o trono da Escócia, de espada em punho, olhando em redor com aquela cara de “Que foi que viu? Vai encarar?!” Como dizia Dom Pedro Dinis Quaderna, uma maneira muito européia e fidalga de tornar-se rei.

Preocupado, Macbeth vai se consultar com as feiticeiras locais, e elas lhe dizem que, entre outros sinais, ele só será derrubado do trono “quanto o bosque de Birnam chegar a Dunsinane”, que é o castelo onde ele mora. É um pouco como dizer – quando a Floresta da Tijuca chegar ao Palácio do Catete. Macbeth sente firmeza e começa a praticar os maiores despautérios, até que os outros nobres mobilizam as tropas e marcham contra seu castelo. Ao passarem por Birnam, eles, sem sequer saberem da profecia, cortam os galhos das árvores e os empunham, para disfarçar o número de seus soldados. Macbeth recebe o alarma, vai até a muralha de Dunsinane, e o que vê no horizonte? O bosque de Birnam marchando na direção do seu castelo.

É vezo das profecias parecerem impossíveis e depois se concretizarem graças a um pulo-do-gato qualquer. Há um livro notável e pouco conhecido de Malba Tahan intitulado Sob o Olhar de Deus, que em sua primeira edição tinha o título “O Aviso da Morte”, mais descritivo do seu conteúdo. Célio Musafir, um escritor de sucesso, recebe uma noite a visita da Morte, que faz um pacto com ele: quando chegar a hora de levá-lo embora, lhe dará um aviso. Aliviado com esta promessa, Musafir passa a viajar, ter aventuras, fazer caçadas, escalar montanhas, etc., confiante de que a Morte cumprirá a palavra. Anos depois ela volta a lhe aparecer e diz que está na hora. Ele reclama que não recebeu aviso nenhum. E a Morte diz: “Meu amigo! E aquelas avalanches na montanha, e aquele tigre que quase o alcançou, e aquele seu barco que naufragou, etc. – isso não foi aviso suficiente de que eu estava chegando perto?!”

Compreensivelmente, ele diz que não entendeu assim. Quer um aviso claro, inconfundível; e a Morte diz: “Então tá bom. Escolha o aviso”. Ele pensa um pouco e diz: “Quero que o aviso seja esta cena: uma mulher de preto, sentada num piano, à luz de velas, tocando a Marcha Fúnebre de Chopin”. A Morte aceita: “Tá legal. Quando chegar sua hora, você verá exatamente isso”. E desaparece.

Musafir respira aliviado e pensa: “Bom, tudo que eu tenho a fazer daqui em diante é deixar de ir a concertos de piano”. E vai à janela, para fechá-la e ir dormir. Quando chega lá, vê do lado oposto da rua que na mansão em frente está havendo uma festa: pela janela ele vê a sala da mansão, e bem ali, no meio, adivinhem o quê. Ele vacila, cambaleia, leva a mão ao coração e (a frase final é uma citação de Dante) “caiu como um corpo morto cai”. Bem feito. Ele, um homem culto, leitor dos clássicos, deveria saber que o bosque de Birnam sempre chega a Dunsinane.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

1333) A fábula e a anedota (21.6.2007)


(Malba Tahan)

Um corvo estava pousado num galho, com um pedaço de queijo no bico. Uma raposa faminta parou embaixo e ficou de olho no queijo. Aí disse em voz alta: “Ouvi dizer que os corvos têm uma voz tão melodiosa! Como tenho vontade de ouvir o canto mavioso de uma dessas aves!” Envaidecido, o corvo abriu o bico e começou a crocitar. O queijo caiu, a raposa o abocanhou e foi-se embora, muito satisfeita. Moral da história: um vaidoso é sempre uma presa fácil para um adulador.

Um guarda-noturno viu um bêbado agachado junto de um poste de iluminação, procurando algo. Foi perguntar o que havia, e o bêbado disse: “Estou procurando minha chave, que caiu quando eu estava abrindo a porta”, e apontou para uma casa a certa distância. O guarda ponderou: “OK, mas se a chave caiu lá, por que você veio procurar aqui?” “Ora,” disse o bêbado, “vim procurar onde está mais claro, porque naquele escuro de lá eu não vou achar nunca.”

Tenho certeza de que o leitor entendeu ambas as historietas, e percebeu também a principal diferença entre elas, e que para mim é uma das diferenças cruciais entre a Fábula e a Anedota. A diferença é que a Fábula (no modelo clássico de Esopo, La Fontaine, etc.) se conclui com uma “moral da história”, um pequeno aforismo que sintetiza e explica o significado da historieta; e a anedota não. Poderíamos concluir a anedota do bêbado e do guarda dizendo algo como: “Moral da história: Diante de um problema, certos indivíduos preferem procurar respostas onde lhes é mais cômodo procurar, e não onde a resposta provavelmente está” – algo assim. Mas não. A anedota, mesmo quando tem um fundo filosófico (e esta me parece exemplar, digna de figurar em qualquer tratado metafísico) deixa as conclusões a nosso cargo.

Comparei certa vez os contos de Malba Tahan aos contos de Kafka, e observei que uma diferença entre os dois é que Malba Tahan sempre conclui suas historietas árabes com uma “moral da história”, o que muitas vezes as enfraquece literariamente; e Kafka, sabiamente, nunca explicou suas historietas, que são meio absurdas, meio vagas, meio grotescas, e pelo fato de não se fecharem num significado imposto acabam funcionando como geradores permanentes de significados múltiplos, de acordo com nosso estado mental durante a leitura.

Borges dizia de Nathaniel Hawthorne o mesmo que digo de Malba Tahan – que sua preocupação didática e moralizante empobrecia as interessantes fábulas que contava, as quais seriam mais ricamente interpretadas sem essa “interpretação final” que ele se achava na obrigação moral de acrescentar. Parábolas em-aberto, como os “koan” dos monges budistas funcionam melhor para mentes já preparadas, mais aptas a destrinchar significados. Talvez fosse interessante ver se as anedotas ganhariam ou perderiam se fossem concluídas com essas pequeninas explicações. Poderiam ajudar este ou aquele ouvinte, mas a verdade é que a anedota, inclusive a de fundo filosófico, sobreviveu sem isso até hoje.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

0620) Zilka Salaberry (15.3.2005)



Morreu Zilka Salaberry, a Dona Benta do “Sítio do Picapau Amarelo”. Para mim é o caso típico da atriz de um papel só, embora eu saiba muito bem que Dona Zilka teve uma carreira longa e variada. Paciência. Anos e mais anos interpretando a matriarca do Sítio fixaram sua imagem de maneira indelével na minha (acredito que na de nós todos) memória afetiva.

Cresci devorando os livros infantis de Monteiro Lobato. Alguns deles, como Historia do Mundo para as Crianças, Emília no país da gramática, Serões de Dona Benta ou O Picapau Amarelo, não li menos de cem vezes. Por que? Acho que porque eu era meio burrinho e acabava me esquecendo, porque a releitura sempre me deu tanto prazer quanto a leitura inicial.

Nunca me dei bem com a literatura adulta de Lobato, que mesmo assim tem alguns contos bons. Mas o linguajar era pomposo, o que nos mostra que as crianças de 1930 eram mais contemporâneas nossas do que os adultos. Lobato e Malba Tahan formataram minha cabeça e a de mais de uma geração. Graças a eles dois, dezenas de milhões de brasileiros como eu escaparam da burrice. Um país que tem dois escritores como estes não pode dar errado.

Voltando a Dona Benta, é admirável que Lobato tenha escolhido uma avó, e não um avô, como o símbolo da sabedoria. Talvez eu tenha me deixado contaminar com facilidade porque sou de uma família onde as mulheres idosas sempre foram chegadas tanto aos livros quanto às lições de sapiência, ao saber “só de experiências feito”. Minha mãe, minha avó Clotilde, minha tia Adiza, foram algumas das principais Donas Bentas que supervisionaram meu crescimento e a formação do meu caráter. Isto me tornou um adepto de certas formas de matriarcado, porque sendo homem eu entendia muito bem os rompantes de autoritarismo e de rispidez dos homens, sabia de sua falibilidade como líderes. As mulheres, mais compassivas, mais serenas, tinham uma autoridade que se baseava menos no individualismo e mais numa rede interligada de responsabilidades.

É notável que Monteiro Lobato, num livro como A Reforma da Natureza, faça com que ao final da II Guerra Mundial os líderes da Europa, engalfinhando-se em contradições e disputas, resolvam convocar Dona Benta e Tia Nastácia para servir como “árbitras” das questões internacionais. Dona Benta, muito bem informada sobre política, aceita imediatamente e parte para a Europa. Aos oito anos de idade eu achava isto uma coisa meio surrealista, e ao mesmo tempo extremamente lógica. Afinal, Hitler, Mussolini e o Rei Carol da Romênia tinham comprovado sua incompetência para gerir o mundo, e nada mais natural do que convocar para conserta-lo as pessoas cujo sistema de administração tinha produzido uma comunidade organizada e pacífica.

Dona Benta é o símbolo de uma autoridade baseada na experiência e na credibilidade, mas disposta a acreditar no novo, no imprevisto e no improvável – haja vista a disposição com que ela se deixa arrastar nas aventuras das crianças, seja visitando a Grécia antiga, seja indo parar na Terra do Faz de Conta.

sábado, 8 de março de 2008

0118) O x do problema (7.8.2003)



Meu encontro com a Álgebra se deu por volta dos nove ou dez anos, quando eu estudava no Alfredo Dantas. 

Ela veio a mim pelas mãos e pela voz de Prof. Rubens Lima do Monte, que ainda enxergo como se fosse hoje. Era magro, andava sempre de terno branco e gravata, tinha uma cabeça triangular, com a testa larga, o cabelo escuro e liso penteado impecavelmente para trás, óculos, um bigodinho fino. 

Suas aulas eram temidas, porque ele levava a Matemática tão a sério quanto Pitágoras; nunca o vi sorrir. Em compensação, eram assistidas com total atenção, porque ele era um excelente explicador, e usava uma varinha para apontar o quadro-negro, o que lhe dava um ar de cientista nuclear de filme americano.

Naquele dia ele fêz a chamada, mandou um bode expiatório qualquer apagar o quadro, mas não iniciou a aula, como de costume, escrevendo algo e perguntando a nós o que era aquilo. Com o quadro pronto, ele começou a falar do homem pré-histórico, das culturas primitivas, e de como tinha surgido a idéia de número. 

Falou durante cinco, dez, quinze minutos. E nada de escrever no quadro, mas aposto que ninguém sentiu falta, todo mundo ali, hipnotizado. E ele a falar dos números, das frações, das operações básicas... 

Com meia hora de aula, foi no quadro e escreveu: “x”. Com um simples toque da varinha, ele nos autorizou a representar com aquele “x” qualquer coisa que a gente quisesse.

Eu já tinha lido Malba Tahan àquela altura da vida, mas as proezas do “homem que calculava” se misturavam a gênios da garrafa, tapetes mágicos e outros portentos. Álgebra nos livros era uma coisa, mas era outra coisa naquela manhã ensolarada, tendo às nossas costas as altas vidraças que davam para a rua Marquês do Herval e que enchiam de luz a sala, fazendo aquela letrinha branca brilhar no centro do quadro-negro. 

Acho que isto facilitou meu contato com a poesia quando, mais tarde, vi Drummond falando da pedra no meio do caminho, que eu tentei em vão decifrar, até concluir por conta própria que aquilo devia ser uma grandeza algébrica.

Essa álgebra de substituições se expande para além das letras e dos números, e entra no reino das imagens e das representações verbais. 

Uma serpente pode ser o Demônio, um triângulo pode ser Deus, uma rosa pode ser a Vida Eterna, um coração pode ser “Eu te amo”, uma foice-e-martelo pode ser uma Revolução. Um relógio mole pode ser a percepção de um Tempo que é o tempo da Mente. 

Uma mulher pintada de frente e de perfil ao mesmo tempo pode ser uma tentativa de colocar dois tempos num só espaço. 

Um mictório público pode ser uma Fonte, e então esta Fonte pode ser uma obra de arte. 

Uma nota de dinheiro falso pode valer como dinheiro verdadeiro, se as duas partes da negociação assim combinarem. 

Uma obra de arte é como um cheque: depende de quem a assina e de quanto lastro dispõe. Pontinhos perfurados numa página, lidos com as pontas dos dedos, podem estar dizendo: “Isto aqui pode ser qualquer coisa.”