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segunda-feira, 13 de abril de 2020

4569) Moraes Moreira, 1947-2020 (13.4.2020)




(Moraes Moreira, por Romero Cavalcanti)


Todo mundo tem um show inesquecível de Moraes Moreira. Eu lembrei do meu agora. (Em tempo: a expressão retórica “todo mundo” não inclui quem não está incluído; em termos dialéticos, é um sub-total homogêneo que ajuda a formar um total heterogêneo.)

Foi numa noite de verão em João Pessoa, na Praia do Jacaré – que pra quem não sabe é uma praia de rio, fica nos fundos da Capital, sem nada a ver com o Oceano Atlântico. Entramos pela noite (era um show de fim-de-tarde, num sábado ou domingo), ouvindo quando era pra ouvir, pulando quando era pra pular.

Saímos quase por último. Todo mundo pegando seus carros pra voltar pra cidade. Noite fechada cheia de estrelas, e a gente de calção, as esposas de canga, “à milanesa” de tanto punhado de areia jogado pra cima. Quando chegamos no matagal onde tinha ficado o carro (éramos umas seis pessoas), cadê que o carro saía? Acelerava, subia a poeira de areia branca, e o carro se enterrava mais ainda.

Nisso passa, a dez metros dali, no asfalto, uma camionete com uns dez maloqueiros em pé na carroceria. “Eeeei!  Ajuda aquiiii!”. Camionete pára, manobra, aponta os faróis. Descem correndo os maloqueiros, uns caras troncudos, bermuda, camisa amarrada na cabeça. Pega daqui, pega dali, um, dois, agooora!  Vrrruuuum!... O carro joga uma nuvem de areia e sai, fica esquentando motor. Os caras sobem na camionete, ninguém enxergou o rosto de ninguém. “Valeeeeu!...”

Pensei depois: pois é. Se fosse um show de Leonard Cohen, a gente ainda estava lá, no escuro, dentro do carro, chorando a morte da bezerra.

Música não é somente a arte de combinar notas musicais, é um indutor de frequências vibratórias que vão além das cordas do violão. Em lugares mais civilizados pode até ser outra coisa, mas no mundo onde eu cresci sempre funcionou como uma argamassa psicológica, um catalisador emocional, um agregador de momentos. Uma coisa secundária sem a qual a coisa-primeira não existiria.

Moraes teve três momentos na carreira, bem diferentes uns dos outros. Minha visão é incompleta, porque houve um período, nos últimos 20 anos, em que deixei de acompanhar, ou seja, deixei de comprar (ou pelo menos ouvir de A a Z) o “disco novo”. Não só dele.

O começo de tudo foram os Novos Baianos, um grupo com quem eu curiosamente impliquei no começo, porque me parecia abrasileirado demais. O Tropicalismo era excitante por ser uma abertura cosmopolita para o rock beatledylaniano, para a música eletrônica, para a poesia de vanguarda, para o mundo do design gráfico moderno, para a ficção científica (Gilberto Gil, principalmente), para a contracultura lisérgico-californiana...

E de repente lá vem aquela porção de paraíbas (ninguém tinha tanta aparência de “banda paraibana” quanto os Novos Baianos), tomando cachaça, tocando samba e jogando futebol! Era um plebeísmo, uma heresia, uma decepção. Um retrocesso, para quem já tinha tirado um visto rumo a Carnaby Street.

A decepção durou até eu começar a ouvir os discos e perceber que aquele era um tipo de música que eu continuava gostando – e que alguns amigos roqueiros, que eram da igrejinha do “Ou Isso Ou Aquilo”, passaram a considerar anátema. As canções de Moraes, Galvão, Pepeu Gomes, eram de um Brasil profundo pré-tropicalista; eram, num sentido adolescente e hedonista, produto da “república invisível” da MPB, como Greil Marcus viu nos Basement Tapes de Bob Dylan a existência de uma Old, Weird America. Só que, no presente caso, uma república descalça, buscando desesperadamente a alegria (como disseram os velhos baianos depois: “O samba é pai do prazer, o samba é filho da dor”).

Foi nessa época que os Novos Baianos produziram um show que tem para mim o melhor título de show de todos os tempos: O Desembarque Dos Bichos Após O Dilúvio. Bastava ver a foto.

(O segundo melhor nome-de-show é um show paraibano capitaneado por Pedro Osmar e o grupo Jaguaribe Carne, nos anos 1970: Músicos Desempregados Exibem Material Liberado Pela Censura.)

A segunda fase de Moraes, pós-NB, foi o sucesso desmedido de suas parcerias com Capinam, Fausto Nilo, Abel Silva, Fred Góes e outros poetas – o Moraes do afoxé, dos frevos eletrizantes, dos anos 1980-90 em que a Música Fonográfica Brasileira construiu uma torre-de-marfim e encheu com ela cantores e músicos e compositores e bandas que nunca tinham visto tanto dinheiro. (E depois nunca mais viram de novo – mas é outra história.)

Moraes foi um dos primeiros (como Caetano Veloso) a promover publicamente uma aliança musical entre o carnaval da Bahia e o carnaval de Pernambuco, mesmo tendo que suportar “as setas e balistas” dos talibãs de ambos os lados.

Nesta fase, aos meus ouvidos, ele  brotou de vez como compositor. Eu vejo nele um desses caras que são melodistas natos, que criam uma melodia como Picasso desenhava num guardanapo de restaurante. O muito reduzido ao essencial, o difícil sem esforço aparente.

Moraes é um melodista de gênio como Paul McCartney, o que é uma forma muito peculiar de ser original, visto que toda melodia vem de outras. “As notas são apenas sete,” como disse certa vez um rabugento Rogério Duprat, cansado de explicar o óbvio.

E alguém pega uns versos manuscritos numa folha de caderno, bota em cima da mesa, pega o violão, bota em cima da coxa, começa a dedilhar, e extrai dali uma melodia que parecia ter existido desde sempre, como uma máscara de ouro egípcia que o arqueólogo revela aos poucos, passando uma vassourinha.

O pop brasileiro, como o pop africano, é uma música para fruição coletiva. Engraçado que o jazz era assim também, cem anos atrás: a gente vê jazz no cinema norte-americano da época e eram uns músicos fazendo improvisos altamente complexos e os casais dançando uma gafieira braba na frente do palco. Só modernamente é que o jazz virou uma coisa para se ouvir na poltrona, de perna cruzada e tomando vinho francês.

A música de Moraes teve a vertente do afoxé baiano, um conjunto de levadas e de cadências primordiais que a indústria traduziu via violão Ovation e teclado Yamaha, que eram naquele tempo o estado-da-arte, sim senhor.

Moraes puxou para si o frevo de guitarra eletrificada. Puxou a vertente do samba carioca, embora os baianos digam que o samba carioca nasceu lá na Bahia, “porque os hospitais públicos do Rio estavam em greve”.

E teve esta fase mais recente dele, a fase cordelesca, uma coisa que para mim foi, como alguma melodia dele, surpreendente de início e inevitável depois de bem observada. A poética das canções de Moraes, graças aos seus parceiros mais constantes, era uma poética de redondilha maior e menor, do verso de sete e de cinco sílabas que tanta gente já definiu como sendo a respiração natural da fala brasileira.

Quando ele me pediu um texto para acompanhar seu álbum mais recente, Ser Tão (2018), escrevi a certa altura: “Ser Tão não chega a ser uma novidade na obra desse compositor tão litorâneo e ensolarado, tão urbano e beira-mar. O sertão que ele busca é como um lençol aquífero acessível a quem se dispõe a ir um pouco mais fundo. Há um subterrâneo de sertão por baixo de toda a cidade-Brasil. Há uma memória de sertão juntando histórias, lendas, melodias, ritmos e personagens.”

Ao ver os primeiros versos cordelescos de Moraes (ilustrados por Romero Cavalcanti) me lembrei que ele também tinha essa vertente de um sertão distante. Um sertão vagaroso, que vem a pé, custa a chegar. Chegou de vez na obra de Moraes depois dos sessenta anos.

Foram na métrica cordelesca os versos recentes que ele deixou, falando cordelescamente do presente, do instante, do tempo fugaz que tudo carrega ao fugir rumo ao passado:

Eu temo o coronavirus
e zelo por minha vida
mas tenho medo de tiros
também de bala perdida,
a nossa fé é vacina
o professor que me ensina
será minha própria lida.

Assombra-me a Pandemia
que agora domina o mundo
mas tenho uma garantia
não sou nenhum vagabundo,
porque todo cidadão
merece mais atenção
o sentimento é profundo.

Os versos completos, aqui:



(foto: Garapa)








quarta-feira, 27 de setembro de 2017

4272) Guido Araújo 1933-2017 (27.9.2017)



Tive muitos “pais adotivos” ao longo da juventude; em geral eram professores que me botavam embaixo da asa com o nobre propósito de incutir um pouco de juízo na eterna bagunça que era a minha cabeça. Um deles foi Guido Araújo, o criador da Jornada de Curta-Metragem da Bahia.

Acho que conheci Guido em 1973, quando fui participar da Jornada em Salvador. Era a “II Jornada Nordestina de Curta-Metragem”, e eu fui com José Umbelino Brasil e Romero Azevedo, representando a Federação Nordeste de Cineclubes, que naquela época estava sob a nossa responsabilíssima gestão.

Viramos a noite no ônibus da São Geraldo, amanhecemos indo direto para o Corredor da Vitória, onde ficava a sede da Jornada: o ICBA, ou Instituto Goethe. Fomos direto fazer o credenciamento. Guido nos recebeu, passou as informações básicas e anotou um endereço no papel:

-- Vocês vão ficar hospedados neste endereço, nos Barris. É a pensão da mãe de Glauber Rocha.

(ÁUDIO: três cineclubistas desmaiando.)

Ficamos voltando à Jornada todos os anos, e em 1977 eu resolvi me mudar com armas e bagagens para Salvador; era no tempo que eu estava casado com Lili (Arly Arnaud) e ela ia estudar teatro na UFBA. Guido prometeu emprego, e o saudoso Luís Orlando fez a costura para nossa ida.

Guido ensinava cinema na UFBA e era presidente vitalício do Clube de Cinema da Bahia, a entidade que organizava a Jornada. O Clube de Cinema funcionava em salas cedidas pelo ICBA e tinha verbas para pagar dois ou três funcionários (eu fiquei sendo o “ou três”).

Quem não viveu aquela época não pode imaginar o que era; dias atrás estive comentando com Bené Fonteles o que foi o ICBA durante a ditadura. Por ser um instituto cultural alemão, até mesmo a censura da ditadura ficava a uma prudente distância do torvelinho de festivais, shows, recitais, lançamentos, cursos, assembléias e manifestações artísticas e políticas que rolava lá dentro.

O diretor do ICBA era Roland Schaffner; ele e Guido tinham em comum a preocupação obsessiva com detalhes, e a neurose de fazer com que todas as coisas dessem certo. E funcionavam bem em conjunto. Se tenho alguma fé na humanidade, deve-se em grande parte ao fato de ter trabalhado quatro anos num instituto de alemães e baianos, dois povos tão alienígenas entre si, e ver os dois convivendo em harmonia e trabalhando com eficiência.

Guido fez da Jornada um canal de defesa do cinema brasileiro tanto no lado estético quanto no lado administrativo: se não me engano, a ABD (Associação Brasileira de Documentaristas) foi criada lá, nas reuniões paralelas da Jornada.

Ano passado, Jorge Alfredo estava filmando uma série de TV sobre ele, “O Senhor das Jornadas”, e me chamou para participar de uma rodada de conversas que iam promover com Guido na Bahia. Não pude ir; tinha compromisso que não podia remarcar.

O perfil de Guido como cineasta era de documentarista ao estilo do Cinema Novo, e muitas vezes o vi impaciente ou incomodado com o que ele chamava “as maluquices dessa rapaziada do super-8”; mas a Jornada sempre esteve aberta para a rapaziada e alguns dos clássicos mais irreverentes desse formato foram exibidos lá.

Na Jornada eram freqüentes os arranca-rabo entre Guido e os cineastas que iam para lá na expectativa de mais um festival com boca-livre e uísque de graça no frigobar. Guido cortava tudo: era café da manhã, ticket de refeição, e mais nada. Os cineastas se desesperavam: “É o stalinismo!”. Ele dizia: “Isso aqui é um evento de trabalho. Todo mundo pode beber, mas cada um pague o seu.”









segunda-feira, 8 de agosto de 2016

4144) Eu me lembro 9 - Bahia (8.8.2016)




(pátio do ICBA)

Eu me lembro de um dia, no Corredor da Vitória, em que dois carros se cruzaram, indo em direções opostas, e os motoristas pararam para conversar durante um minuto, enquanto as duas filas de carros esperavam atrás deles, sem dar uma buzinada sequer.

Eu me lembro das batidas de fruta do Diolino, no Rio Vermelho.

Eu me lembro de um histórico comício pela redemocratização com Ulysses Guimarães, no Terreiro de Jesus, com a PM dando prensa.

Eu me lembro de uma noite estar tomando cerveja com uma turma e alguém vir nos chamar para assistir “o enterro da cabeça de Corisco”.

Eu me lembro de ir ver um show de Moraes Moreira e a abertura do show era com um tal de Djavan, que eu nunca tinha ouvido falar, mas quando começou eu reconheci umas dez canções que eu não sabia de quem eram.

Eu me lembro de estar várias vezes no Canela ao anoitecer, com sacolas de supermercado, e o ônibus do Engenho Velho de Federação passar com gente pendurada na porta e mesmo assim eu conseguir entrar.

Eu me lembro do angu incubado que eu ia comer toda semana na Cantina da Lua.

Eu me lembro de quando começou pela primeira vez a tocar reggae com-força nas festas do Restaurante Universitário e da Escola de Teatro.

Eu me lembro de um campinho de pelada que tinha no caminho da Rodoviária e que tinha um enorme toco de árvore bem no meio.

Eu me lembro da feijoada na casa de Maria Edna, feita com feijão mulatinho e uns temperos preternaturais, e que eu já comia chorando de saudade.

Eu me lembro das temporadas do “Oxente gente, cordel” no Vila Velha, quando a gente ficava se aprontando no camarim e perguntando o tempo todo à bilheteria se já tinha vendido mais ingressos do que o número de atores da peça (éramos uns quinze).

Eu me lembro de um show certa vez no jardim do ICBA, quando de repente um cara branco, de meia idade, saltou lá para a frente e dançou como se o mundo fosse se acabar, e no fim do show descobrimos que ele era grego.

Eu me lembro de pedir um suco no balcão de uma lanchonete num domingo de tarde e um dos balconistas, encostados num rádio ligado, dizer: “Espera terminar o primeiro tempo”, e eu esperei.

Eu me lembro do Congresso da UNE, onde a multidão votava erguendo na mão a credencial vermelha, e uns espertos erguiam um maço de Hollywood.

Eu me lembro dos atentados do Homem do Canivete, atacando as mulheres de calças justas em plena rua, e eu acabei fazendo um samba.

Eu me lembro da primeira vez em que entrei numa padaria, pedi cinco pães, e o cara perguntou: “Vara ou cacetinho?”.

Eu me lembro do Beco, ao lado do Teatro Castro Alves, onde tinha um bar cujas mesas eram máquinas de costura.

Eu me lembro de passar tardes inteiras estudando cinema na biblioteca Walter da Silveira, perto da Praça da Sé.

Eu me lembro das empresas de Ônibus Vibemsa e Vidusa (“a Duran”).

Eu me lembro de ir com Homero de Carvalho filmar as catadoras de lixo no lixão, e aquele cheiro ficou nas minhas narinas por uma semana.

Eu me lembro das famosas “coletivas musicais” do final dos anos 1970, quando a regra era “duas músicas pra cada um”, e reclamavam que minhas letras eram quilométricas.

Eu me lembro de uma vez estar cantando com violão na calçada do elevador Lacerda, para divulgar uma peça, e João Paulo, ex-artilheiro do Treze, ia passando e parou pra me dar um abraço.

Eu me lembro das doses de cachaça com açúcar e canela na borda do copo, no Quintal do Raso da Catarina, o bar do Franco.

Eu me lembro do caixa de um banco onde fui descontar um cheque nominal e ele observou que estava faltando o “Neto”no meu nome (“Tecnicamente, este cheque é para seu avô”), mas me pagou assim mesmo. Valeu!






quinta-feira, 11 de novembro de 2010

2398) Drummond: Rio e Bahia (11.11.2010)



A “Lanterna Mágica” que Carlos Drummond inseriu no seu primeiro livro, Alguma Poesia, que está completando 80 anos, mostra pequenos flashes de cidades por onde o poeta passou, a maioria delas em Minas. Os dois últimos fragmentos, no entanto, são sobre o Rio e a Bahia. No fragmento VII, “Rio de Janeiro”, vemos algo das primeiras impressões do poeta sobre a então Capital Federal. Desde 1922 Drummond já publicava em periódicos cariocas, através de Álvaro Moreyra, mas não tenho ideia de quando viajou ao Rio pela primeira vez. (Ele só se transferiria para lá em definitivo em 1934, para ser chefe de gabinete de Gustavo Capanema, nomeado Ministro da Educação e Saúde Pública).

No poema, existe algo do “Noturno” que Mário de Andrade dedicou a BH, e que começava com “Maravilha de milhares de brilhos vidrilhos...” Drummond abre com “Fios nervos riscos faíscas”, também uma aliteração de sons reproduzindo uma multiplicação de impressões sensoriais. O linguajar com que ele entrou em contato em terras cariocas parece estar sendo registrado em “Passou a boa! Peço a palavra!”. Drummond, ao seu modo ensimesmado e reticente, registra em voz baixa as impressões sobre a capital: “Fútil nas sorveterias. / Pedante nas livrarias / Nas praias nu nu nu nu nu. / Tu tu tu tu tu no meu coração.” Este último verso é o elástico sentimental puxando o poeta de volta, não se sabe se o “tu” se refere à esposa (Drummond casou com Dolores em 1925) ou à terra natal.

“Mas tantos assassinatos, meu Deus. / E tantos adultérios também. / E tantos, tantíssimos contos-do-vigário... / (Este povo quer me passar a perna)”. Não devemos esquecer que Drummond é contemporâneo da lenda urbana sobre o mineiro que, chegando ao Rio, ficou tão deslumbrado com os bondes que acabou comprando um deles a um sujeito que estava encostado num poste, palitando os dentes. A estranheza dos recém-chegados ao Rio quanto aos assassinatos, adultérios e contos-do-vigário (para não falar na onipresente nudez) não é menor hoje do que oitenta anos atrás. A rigor, mesmo tornando-se intensamente integrado à vida carioca no meio século que se seguiu, Drummond nunca deixou de ser o rapaz que escreveu estes versos.

O último fragmento da “Lanterna Mágica”, o de número VIII, intitula-se “Bahia”, e diz, singelamente, modernistamente: “É preciso fazer um poema sobre a Bahia... / Mas eu nunca fui lá.” Drummond era meio eremita, e convictamente sedentário. Viajou pouquíssimo. Sou tentado a ver nessa Bahia mitológica (pensem no que seria a imagem nacional da Bahia em 1930) uma espécie de Pasárgada de Manuel Bandeira, ou o país de “luxo, calma e volúpia” de Baudelaire. Uma Bahia tropical, de praias cheias de morenas sensuais? Também poderia ser o oposto: uma Bahia colonial e barroca, parecida com Minas, uma Bahia de catedrais, santos e claustros, de ruas antigas, estreitas e tortas, uma nova Minas austera e litúrgica, em que o poeta se sentisse em casa. Nunca saberemos.