terça-feira, 12 de agosto de 2008

0509) O mistério do esporte (5.11.2004)



Eu entendo de beisebol mais ou menos o mesmo-tanto que Fernando Henrique Cardoso entende de futebol, ou seja, bulufas. A única coisa que eu sei é que quando aquele sujeito arremessa a bola o outro tem que acertá-la com o bastão e mandá-la o mais longe possível; e que alguém tem que correr atrás e segurá-la antes que ela toque no chão. E morreu aí. Não sei para que serve isso, e nem sequer distingo um time do outro, porque os uniformes me parecem sempre iguais. Mas existe uma coisa mágica no esporte que faz com que até mesmo um esporte-em-japonês como este tenha seus momentos de beleza acessíveis a um desinformado como eu.

Por exemplo: o Boston Red Sox acabou de ser campeão norte-americano (ou campeão da “World Series”, como eles modestamente se intitulam). A última vez que este time tinha ganho o título foi em 1918, ou seja, 86 anos atrás. Pelo que vi na imprensa americana via Internet, foi um carnaval que botou no bolso o do Corinthians quando ganhou o Campeonato Paulista em 1977 (jejum de 22 anos) ou do Botafogo ao ser campeão carioca em 1989 (jejum de 21 anos). Os dois principais jornais de Boston puseram na rua edições especiais comemorando o feito. O Boston Globe fez uma tiragem de 1 milhão de cópias (quando o normal numa quinta-feira é de 525 mil) com uma foto de meia página e a manchete gigantesca: “YES!!!”. O Boston Herald, cuja tiragem é de 300 mil, tirou três edições num total de 750 mil, com outra foto enorme e a manchete: “AMÉM!”.

Pelo que entendi da contagem de pontos e das tabelas que vi, os Red Sox tinham derrotado nas semifinais seus arqui-inimigos, os New York Yankees, por 4x3, numa melhor de sete jogos em que chegaram a estar perdendo por 3x0. E na melhor-de-sete final, contra os Saint Louis Cardinals, arrasaram por 4x0. Foram oito vitórias seguidas, várias delas, segundo os comentaristas, cheias de lances cruciais, daqueles em que se o jogador errar o “tiro” o time perde o jogo e o título. Em Boston tem nego bebo até hoje, dançando em cima dos muros. E eu aqui no Brasil, me emocionando com um resultado num jogo que não entendo!

Esporte é esporte. No dia 20 de dezembro de 2000, Palmeiras e Vasco decidiram no Palestra Itália a Copa Mercosul. Primeiro tempo, Palmeiras 3x0. No segundo, o Vasco virou para 4x3 e foi campeão, com Romário fazendo o quarto gol aos 48 minutos. Na tarde seguinte, eu tinha uma reunião na Editora Sette Letras, com meu editor, Jorge Viveiros de Castro. Chegando lá, encontrei-o conversando com o poeta Armando Freitas Filho. Conversa vai, conversa vem, acabamos falando de futebol, perguntamos quem torcia por quem. Descobrimos que Armando era tricolor, Jorge botafoguense e eu flamenguista. Houve um silêncio implícito, carregado de cautela, cumplicidade e respeito. E então um de nós disse: “Bem, já que estamos em família... Que ninguém nos ouça, mas o Vasco ontem, hem? Botou pra f...!” É o mistério do esporte.

0508) Deus e o Diabo (4.11.2004)



A maioria dos meus leitores vai dizer que o mundo está perdido e o Juízo Final está batendo na porta, e quem sou eu para discordar? A imprensa noticia que a Marinha Real Britânica acaba de garantir a um dos seus marujos liberdade de crença para que possa realizar a bordo, quando em serviço, os seus rituais religiosos. Até aí nada de mais. Se o sujeito é muçulmano, precisa rezar cinco vezes por dia, voltado para Meca. Se é judeu, não pode comer tais ou tais coisas e tem que guardar o sábado; e assim por diante. A liberdade religiosa é um direito garantido em qualquer democracia esclarecida do nosso tempo.

O problema é que o tal marinheiro é Satanista. Chris Cranmer, de 24 anos, serve na fragata Cumberland, e pertence à chamada Igreja de Satã, fundada por um tal de Anton LaVey nos EUA. Ele solicitou ao capitão do navio autorização para praticar seu culto (que o jornal não descreve em detalhes) e para, em caso de morte em serviço, receber um funeral não-cristão. Depois de se aconselhar com o capelão do navio, o Capitão achou por bem conceder o pedido, por achar que os soldados têm o direito de professar a religião que bem entenderem, desde que isto não interfira com seus deveres.

Está aí um bom teste para a democracia, meus camaradas. Faz-me lembrar as velhas discussões dos anos 1970, quando muita gente aqui no Brasil pedia a legalização dos Partidos Comunistas. O argumento do Governo, ou melhor, da ditadura militar, era de que a doutrina comunista pregava a derrubada das “democracias burguesas” através da violência, e a instauração de uma Ditadura do Proletariado. Legalizar um partido comunista implicaria em colocar em perigo a existência de todos os demais partidos. A liberdade política, portanto, não era um Bem absoluto.

Será a liberdade de fé religiosa um Bem absoluto, como a decisão da Marinha britânica parece admitir? Será que somos tão respeitadores da liberdade de crença que temos a obrigação de permitir o culto aberto ao Demônio? Para mim, que sou agnóstico, esta é uma questão meramente retórica, mas para as pessoas de temperamento religioso é um problema de tirar o sono. Será que autorizar o culto do Diabo não corresponde ao que na linguagem popular chamamos de “dar asa a cobra”, conceder de mão-beijada um benefício extra a um adversário traiçoeiro e cruel?

O saite da CNN fez uma pesquisa com mais de 18 mil leitores perguntando se a adoração ao demônio deveria ser tratada pelas Forças Armadas do mesmo modo que as religiões oficiais; 58% disseram que não e 42% que sim. Numa época de guerra aparente (porque as razões reais são econômicas) entre o Fundamentalismo Protestante dos EUA e o Fundamentalismo Muçulmano, será isto uma indicação de que religiões voltadas para Deus estão sendo cada vez mais cooptadas pelas forças das Trevas e da Destruição? Que Deus e o Diabo, no contexto do Capitalismo Militarista, estão cada vez mais próximos um do outro?

0507) O Modelo e o Produto (3.11.2004)




(Walter Benjamin)

Discute-se por aí a pobreza criativa da indústria cultural, mas nem sempre as críticas são dirigidas para o alvo certo. Há um texto de Walter Benjamin, “A Obra de Arte na Época de Sua Reprodutibilidade Técnica”, que coloca os aspectos principais dessa questão. Se bem me lembro, Benjamin compara a pintura (onde uma tela a óleo é única, irrepetível) e a fotografia (onde de um mesmo negativo é possível tirar milhões de cópias idênticas). Ou seja: na pintura, o Modelo (a obra de arte) e o Produto (o objeto comercializado) são um e o mesmo. Na fotografia, o Modelo é o negativo e o Produto são as cópias.

No caso da literatura, uso sempre a distinção entre o Texto e o Livro. O Texto é o Modelo, é uma obra de arte literária redigida a mão por Dostoiévski ou num computador por William Gibson. O Livro é o Produto, um objeto industrializado cuja função é tornar o texto acessível a muita gente, de uma maneira tal que renda alguma grana para o criador do Modelo e os fabricantes do Produto.

O problema com a indústria cultural não é o fato de ela pegar um Modelo (um texto original de Rubem Fonseca, de Garcia Márquez, de Umberto Eco) e usá-lo como ponto de partida para a fabricação industrial de milhões de livros. É quando a indústria cultural começa a perceber que o Modelo também pode ser considerado um Produto. É um raciocínio inevitável num sistema habituado a máquinas que fabricam máquinas, a dinheiro que gera dinheiro. “Por que então,” alguém deve se perguntar de vez em quando, “já que produzimos livros em grande escala, não descobrir uma maneira de produzir Modelos em grande escala, jeitos-de-escrever em grande escala?”

É assim que nascem, por exemplo, os chamados “gêneros literários”. Um gênero é um conjunto de modelos parecidíssimos entre si, tão parecidos que podem ser considerados Produtos industriais. O romance de terror, o romance policial, o romance de ficção científica, o romance de amor, o romance pornográfico... São alguns dos gêneros mais populares, e em todos eles a gente vê que existe uma aderência a certos princípios básicos, a um certo número de fórmulas. Daí o desprezo dos escritores eruditos pelos gêneros, pela literatura popular. Eles sentem que ali não se trata mais da industrialização do livro (objeto de papel), mas da industrialização do texto literário.

Se a gente ler 200 romances de espionagem, vai perceber que existe uma meia-dúzia de fórmulas utilizadas por todos eles. Essas fórmulas seriam, então, os verdadeiros Modelos. Os textos produzidos pelos escritores não seriam mais os Modelos, e sim um estágio intermediário entre o Modelo e o Produto. Na arte erudita, o artista é criador e proprietário do Modelo que usa; na arte de massas, ele aceita utilizar um Modelo que pertence à comunidade, ou seja, ao mercado editorial. É contra essa perda de autonomia que alguns críticos e escritores protestam. Não contra a impressão de milhares de exemplares de um livro qualquer.



0506) Um navio com velas tatuadas (2.11.2004)



“Uma praia onde os cachorros ladram para navios com velas tatuadas”, diz uma canção de Bob Dylan. Tatuagens são uma das nossas formas de martirizar o próprio corpo, transformá-lo em superfície, em suporte, em papel onde se escrevem mensagens. A auto-mutilação, por exemplo (ver “Limbo: a guerra ao corpo”, 6.9.2003), é apenas uma forma radical dessa atitude de considerar o corpo algo que pode sofrer intervenções para ganhar mais significado.

O que é a maquilagem, por exemplo, senão uma forma branda dessa mania de escrever e pintar coisas sobre si mesmo? Há milhares de anos que o uso de cremes coloridos facilmente removíveis é usado como um equivalente mais “light”, mais suavizado, do uso de cortes e cicatrizes rituais que definem papéis sociais ou religiosos. A maquilagem é o território de mensagens efêmeras; a tatuagem é um gesto radical, um recado que dura para sempre.

É essa permanência cruel da tatuagem que, penso eu, a deixa tão em moda entre os jovens. Toda vez que uma moda pega, podem ir atrás que ela corresponde a uma vontade oculta no juízo desses milhões de pessoas. Fico besta quando vejo um monte de rapazes e moças de vinte anos enchendo os braços, o peito e as costas com dragões chineses, galeões espanhóis ou guitarras heavy-metal. Fico pensando: “E daqui a 40, a 50 anos?” Eles não estão nem aí. O jeito é filosofar um pouco e achar que num mundo onde tudo é descartável, etc. e tal, os jovens se fascinam com a possibilidade de alguma coisa durar para sempre. Gostam das decisões irreversíveis. Sentem-se mais radicais, mais decisivos, mais importantes. Tatuar-se é um gesto que “tem atitude”.

Uma cena impressionante no filme O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, feito em Recife por Paulo Caldas e Marcelo Luna, é quando vemos o músico Garnizé fazendo-se tatuar um rosto de Che Guevara ao lado dos rostos já tatuados de Martin Luther King e Malcolm X, enquanto explica a importância desses heróis para a luta social do hip-hop pernambucano. A tela é coberta por uma superfície uniforme de pele morena, que a agulha elétrica corrói, injetando tinta por cima do esboço, recriando a imagem de Guevara com a boina e o cabelo ao vento. É uma cena que dá significado literal à expressão “sentir na própria pele”; e é um manifesto político capaz de fazer ruborizar um militante que se limita a botar na camisa um “button” do candidato. (Aliás, amiguinhos, é “button”, que se escreve; “bottom” quer dizer “bunda”.)

O gesto radical de tatuar para sempre a própria pele pode parecer exagerado a alguns. Mas se nossas mentes fossem tão visíveis quanto nossos corpos, veríamos que elas não passam de uma superfície riscada por milhões de cicatrizes, impressa com milhões de mensagens e comandos que vão muito mais fundo do que a tinta vai na epiderme. Tatuar-se é trazer para fora o que somos por dentro: um muro onde o Governo afixa placas e a vida cobre de grafittis.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

0505) O Amor e a Fé (31.10.2004)


(Bermini - estátua de Ludovica Albertoni)

Um dos textos cruciais da nossa literatura é o Cântico dos Cânticos de Salomão. Digo “cruciais” ao pé da letra, no sentido de cruzamento, encruzilhada, ponto onde dois caminhos divergentes se tocam por um segundo. Esses caminhos são a comunhão afetiva com outro ser humano e a comunhão mística com Deus – ou seja, o Amor e a Fé. Desde a infância eu relia fascinado (sob o casto pretexto de “estar lendo a Bíblia”) aqueles versos onde o poeta sai descrevendo sua Amada, fala dos cabelos, dos olhos, do pescoço, dos peitos... Ai de mim, depois dos peitos o texto dava uma guinada de 90 graus, mudava de assunto. Mas versos assim ainda ecoam como uma sextilha de cantador inspirado: “Eu disse: subirei à palmeira, e colherei os seus frutos; e os teus peitos serão como dois cachos de uvas; e o cheiro de tua boca como o dos pomos...”

Estes versos me vêm à mente quando leio agora, numa antologia de poesia espanhola do Século de Ouro, estes belos tercetos finais de um sonetista anônimo, onde o “Tu” a quem se dirige é o próprio Deus: “Muéveme, al fin, tu amor, y en tal manera, / que aunque no hubiera cielo, yo te amara, / y aunque no hubiera infierno, te temiera. // No me tienes que dar por que te quiera; / pues aunque lo que espero no esperara, / lo mismo que te quiero te quisiera.”

Os grandes poetas místicos são justamente estes, que usam para se dirigir a Deus a mesma retórica de intensa paixão dos grandes poetas eróticos. E por que isto? Porque, por mais afastadas que pareçam, não existem duas condições psicológicas mais assemelhadas do que o amor por uma mulher e a fé em Deus. São os dois exemplos mais cabais do caso em que Desejo é convertido em Certeza por um simples gesto da Vontade. Esta certeza muitas vezes dá com os burros nágua: a paixão não é correspondida, como a de Dante por Beatriz. Mas ainda assim o poeta dá um jeito de escrever um catatau de milhares de versos provando que Deus permitiu sua entrada no Paraíso e que lá estava Beatriz à sua espera.

Certeza é certeza, e não existe certeza maior do que a de um apaixonado, seja ele o poeta Neruda cantando os atributos físicos de sua musa, seja San Juan de la Cruz desmanchando-se em estrofes de ardor pelo seu Amado. Nada garante a um apaixonado que seu amor é correspondido ou mesmo que tem razão de ser, e nada garante ao místico que Deus existe de fato. Isto, no entanto, não abala essa Certeza Absoluta, que não tem outro aval que o de si própria. Nossos poetas religiosos modernos (penso em Jorge de Lima, em Murilo Mendes) já não se dirigem a Deus em termos diretamente eróticos. A modernidade trouxe consigo essa cisão entre corpo e alma. Mas os poetas místicos católicos ficarão para sempre como o melhor exemplo de uma poesia movida a Fé, e de uma Fé movida pelos mesmos motores hormonais que movem o Amor: a Certeza do próprio desejo físico, o mais intenso (e aqui pra nós, o menos dispendioso) dos estimulantes químicos.

0504) O goleiro (30.10.2004)



Não sou a pessoa mais indicada para comentar evolução de esquemas táticos no futebol. Eu nunca sei quando um time está jogando com 3-5-2 ou com 4-3-3. Para mim é sempre um amontoado de crioulos carecas correndo e se esbarrando. Mas se tem uma coisa em que o futebol evoluiu nitidamente nestes 40 anos em que o acompanho foi no papel desempenhado pelo goleiro. O goleiro é hoje um jogador muito mais participante do que era décadas atrás.

Antigamente os goleiros eram meio ingênuos. O paradigma da época era de que o goleiro deveria segurar com as mãos todas as bolas chutadas contra o seu gol. Um goleiro que largava a bola (“queimava”, “arrotava”) era visto com desdém. Os goleiros de hoje, não. Eles só tentam agarrar “na boa”. Qualquer bola duvidosa é espalmada para cima ou para os lados, e o desdém de hoje se limita aos goleiros que espalmam a bola de volta para o interior da área, à disposição dos atacantes. Um outro aspecto, conseqüência deste, é que a primeira preocupação do goleiro é simplesmente a de cortar a trajetória do chute. Com as mãos, com os antebraços, com o corpo, e principalmente com os pés. Nos anos 1960, um goleiro defendia com os pés no máximo uma vez por partida; hoje em dia, é o tempo inteiro. Na verdade, muitos goleiros, principalmente goleiros volumosos como Dida e Júlio César, jogam-se diante do atacante, confiando que a bola vai bater em qualquer parte do corpo deles e ser desviada. Em geral, é o que acontece.

Uma outra evolução foi possibilitada pelas mudanças na regra. Antigamente, o goleiro podia ficar com a bola o tempo que quisesse. A torcida adversária arrancava os cabelos de ódio quando o goleiro do time que estava em vantagem ficava batendo bola pra lá e pra cá dentro da área, pra lá e pra cá, batendo a bola no chão e pegando de volta, perseguido pelos atacantes, negaceando, fingindo que ia, voltando, batendo a bola... O goleiro era proibido de dar tantos passos (não lembro quantos) com a bola nas mãos, sem batê-la; mas desde que batesse com a bola no chão (muitos goleiros levavam isso ao pé da letra, abaixando-se e tocando no chão com a bola, sem soltá-la), podia ficar com ela a tarde inteira.

A regra mudou: o goleiro tem seis segundos para livrar-se da bola, quando a tem nas mãos. E foi proibida outra aberração, que era a “bola atrasada”. Hoje em dia, só se pode atrasar a bola para o goleiro com a cabeça, o peito, etc.; bola atrasada com o pé tem que se recebida por ele com o pé. É um detalhe sutil, mas que fez um bem imenso ao esporte. Vocês não fazem idéia do que era a praga da bola atrasada, antigamente. Os jornalistas reclamam do “anti-jogo” de hoje, com razão, mas pelo menos neste aspecto houve uma evolução. O goleiro hoje é um jogador a mais. Adianta-se, sai da área, troca passes como se fosse um líbero, chega até a ir tentar um gol de cabeça na área adversária, quando o time está perdendo. Raramente consegue. Mas tá aí uma coisa que melhorou no futebol.

0503) O poema incompreensível (29.10.2004)


(Dylan Thomas)

Volta e meia, folheando um livro ou uma revista literária, eu me deparo com esse evento traumático para um sujeito que se auto-intitula poeta ou crítico literário: o poema incompreensível. Quando isso acontece, ressurgem da tumba todos os meus terrores de cineclubista adolescente, quando me encaminhava para ver um dos chamados “filmes herméticos”, como Oito e Meio de Fellini ou Cidadão Kane de Welles. Hoje estes filmes são convencionais, mas, 40 anos atrás, e para garotos que mal tinham sido apresentados aos livros de cinestética do Padre Guido Logger, eram motivo para pesadelos antecipados.

Hoje em dia quem me deixa assim é o poema. Abro um livro ao acaso e começo a ler. “Obstáculos. Crisântemos do porém. / Na aba inimiga, mefisto ulula. A prévia / de um sol quase quando. // Avisas. Olhas. Cai do falível a vastidão que expulsa. / Lâminas sem placa, e o polegar de Van Gogh.” Não, amigo, não estou sendo injusto com nenhum poeta. Isso aí é uma paródia, porque não quero me expor a vinganças por mangar em público dos poemas de Seu Ninguém. Quando me deparo com textos assim, corto o mal pela raiz: largo o livro e vou tocar violão. A esta altura do campeonato, não me sinto mais na obrigação de ler algo que não faz sentido para mim – embora admita a possibilidade de que faça sentido para outras pessoas. Cada escritor tem seu público. Ninguém escreve para todo mundo. E cada sujeito que escreve toma uma decisão, ao botar aquelas frases no papel, sobre que tipo de audiência está tentando atingir.

Sou contra o poema difícil? De jeito nenhum. Vejam por exemplo o caso de Dylan Thomas. Não conheço poeta mais obscuro do que esse rapaz. Abrir caminho ao longo de um poema de Dylan Thomas é como cavar sem lanterna numa mina de carvão. O que nos salva (e nos garante a emoção poética) é que a cada duas ou três linhas brota uma imagem tão poderosa, uma frase de sonoridade tão encantatória, que parece por alguns minutos iluminar, esclarecer e dar sentido, não só a tudo que foi dito antes mas a tudo que virá a ser dito um dia por quem quer que seja. Esses relâmpagos poéticos, de que a poesia de Thomas está cheia, nos dão confiança de que existe um caminho lá dentro, existe “produção de sentido” no concatenar daquelas frases, e de que devemos ter paciência com a treva, porque de tantos em tantos passos esses vislumbres de luz irão se repetindo.

Reconheço que o nome, a griffe “Dylan Thomas” pesa, infunde credibilidade, nos sussurra ao ouvido que alguma recompensa futura está à nossa espera. Mas ocorre também com poetas anônimos, desde que o verso em si traga relâmpago, não importa a assinatura. Inúmeros poemas de Drummond, principalmente do Drummond tardio, são poemas meramente desculpáveis; e já guardei por anos uma revista ou jornal porque tinha um poema brilhante de um cara que até hoje não sei quem é. O poema incompreensível é uma piada que não me fez rir. Passo adiante, e espero a próxima.

0502) Artista grande, arte pequena (28.10.2004)




Quando um artista que trabalha numa forma de arte tida como mais elevada usa uma forma considerada mais popular, a primeira coisa que ele faz é diminuir seu próprio nível de exigência. E é aí que dá com os burros nágua. 

É o caso de compositores de MPB que recebem a encomenda de produzir um forró ou um sambão; de diretores de cinema-de-arte ou de teatro quando vão fazer seu primeiro trabalho na TV; de poetas eruditos a quem se encomenda uma letra de música. 

Eles acham que estão descendo um degrau. E se apequenam, seja porque se desprezam por fazerem aquela concessão (muitas vezes motivada por dinheiro), seja porque acham que até então vinham trabalhando para um público sofisticado e agora estarão se dirigindo para um público meio burrinho, que engole qualquer coisa. Aí, ficam burrinhos também.

Raymond Chandler foi um grande escritor que só escreveu romances policiais. Tivesse escrito histórias sem assassinatos, e com um protagonista que em vez de detetive particular fosse professor universitário ou executivo, teria sido muito mais respeitado. Foi ele quem disse, numa carta de 1949 para seu editor Hamish Hamilton:

"Acho que as pessoas realmente competentes obterão um sucesso razoável em quaisquer circunstâncias. Shakespeare se sairia bem em qualquer época, porque se recusaria a ficar segregado num recanto. Ele se apoderaria dos falsos deuses e os recriaria a seu modo, ele adotaria as fórmulas em voga e faria com elas coisas que indivíduos menores julgariam ser impossíveis. Se fosse vivo hoje, ele sem dúvida iria escrever e dirigir filmes, peças, sabe Deus o que mais. Em vez de dizer ´Este meio de expressão não presta´, ele se apossaria do meio de expressão e faria com que prestasse.”

É uma passagem claramente autobiográfica, porque não há melhor descrição do que esta para o que Chandler fez com o romance policial. Pena que a própria inovação dele tenha sido tão imitada, parafraseada, plagiada, parodiada (o “Ed Mort” de Veríssimo, por exemplo) que também seja hoje, meio século depois, um clichê quase inviável. Paciência. 

Ainda assim, grandes artistas podem pegar as formas narrativas mais desvalorizadas, mais vulgarizadas, e fazer bons livros, bons filmes no interior delas.

Basta pensar no que Ang Lee fez com os filmes de artes marciais em O Tigre e o Dragão, no que Sergio Leone fez com o faroeste italiano (que ajudou a criar) em Era uma Vez no Oeste, no que Rubem Fonseca fez com o romance policial americano em A Grande Arte, ou no que Chico Buarque faz com a canção de amor. 

Não existem fórmulas mais desgastadas do que estas, mas sempre aparece alguém com talento bastante, e dedicação bastante, para enxergar as possibilidades do modelo e fazer o modelo render o máximo. 

E pra falar a verdade, um grande artista deveria transbordar quando derrama seu talento num receptáculo pequeno. O que não pode é o cara achar que é maior do que o veículo que está usando, e desaparecer dentro dele.







0501) O verbo “tradar” (27.10.2004)


(Michel de Notredame)

O verbo “tradar”, inventado por mim, tem conexões mórficas, semânticas e etimológicas com outros verbos de sentido aparentado, como “trazer” e “trasladar”, com os quais partilha a idéia de algo que está sendo transportado de um local para outro. Só que no caso do verbo tradar não se trata de um transporte ao longo do espaço, e sim do Tempo. Tradar significa ter acesso a visões do futuro, mesmo que se trate de um acesso breve, um mero vislumbre de algo incompreensível ou inexplicável.

É um verbo transitivo, que pede sempre um complemento substantivo. Dizemos, portanto, que “ultimamente Fulano está tradando muitas visões”. Tradar é o que os profetas e adivinhos fazem desde que o mundo é mundo. Não me refiro à captação de banalidades do cotidiano, como saber quem vai ganhar as eleições ou se o bicho de amanhã vai ser macaco ou borboleta, mas à captação de macrovisões de conteúdo significativo para um indivíduo ou para a Humanidade.

Um dos grandes tradadores de todos os tempos foi, por exemplo, o apóstolo São João, que num belo dia sentiu-se arremessado à Ilha de Patmos e produziu um dos textos alucinatórios mais impressionantes de todos os tempos: o Livro das Revelações, ou Apocalipse. O profeta bíblico Ezequiel é outro, e suas visões de rodas girando dentro de rodas, das quais brotavam faces de animais e asas de anjos, é um dos mais belos textos surrealistas da literatura – permitam-me esquecer por um instante a dimensão místico-religiosa de tais textos, e vê-los momentaneamente como literatura em si, pura evocação de imagens simbólicas.

O que dizer então dos poemas místico-visionários de William Blake, de Jorge de Lima, de Arthur Rimbaud? Em certos momentos chegamos a vacilar diante da intensidade visual e da ressonância arquetípica das imagens destes poetas, e hesitamos entre a atitude pragmática (tudo é mera imaginação criadora dos autores) e a atitude iniciática: a que tipo de comunicação supra-mental estavam eles tendo acesso?

Não se pense que podem-se tradar apenas imagens de cunho místico. Há uma espécie de cosmovisão sócio-planetária que prescinde da dimensão religiosa. Temos nesse caso as vastas imagens panorâmicas do futuro que geraram a poesia de Walt Whitman, do “Álvaro de Campos” de Fernando Pessoa, e do panteísmo-materialista do nosso Augusto dos Anjos. Todos nós, que através da prática da escrita desenvolvemos essa “Visão Interior”, somos capazes de captar instantâneos fugazes do Futuro em nossas telas mentais. Os mais afortunados (ou os mais competentes) conseguem transformar essas visões em poemas, em contos, em documentos literários como o assombroso Eureka de Edgar Allan Poe, onde o delirante autor descreve sua teoria sobre a formação e a dinâmica interna do Universo, usando até mesmo fatos astronômicos que em sua época não haviam sido descobertos. Todos podemos ser profetas. Eu trado, tu tradas, ele trada; nós tradamos, vós tradais, eles tradam.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

0500) O concerto mais longo do mundo (26.10.2004)



(o saite do concerto)

O concerto mais longo do mundo está acontecendo há mais de três anos numa igreja abandonada da cidade alemã de Halberstadt, e se tudo correr bem deverá se encerrar dentro de mais 636 anos. Se vocês acham que a música de Philip Glass é monótona e repetitiva, deviam ouvir esta. Em julho passado, os técnicos encarregados de manipular o órgão especialmente criado para esta performance fizeram a última mudança, adicionando mais duas notas ao Sol Sustenido, Ré e Sol Sustenido que vinham sendo emitidos continuamente desde fevereiro de 2003.

Quando eu disser o nome do compositor todo mundo vai matar a charada. Sim, é ele mesmo, John Cage, o compositor de vanguarda que entre outras aparentes excentricidades tem uma peça intitulada “4 minutos e 33 segundos de silêncio”, a qual consiste exatamente nisto. Cage, falecido em 1992, havia escrito esta nova peça com o título “Organ2 / ASLSP” (“Órgão ao quadrado: tão devagar quanto possível”). A expressão “tão devagar quanto possível” é aberta a interpretações, claro. O grupo de musicólogos que decidiu homenagear o compositor acabou fixando em 639 anos a duração total por ser esta a idade do antigo órgão da igreja de Halberstadt. A execução, portanto, deverá ser concluída por volta do ano 2640. O início da peça musical constou de um ano e meio de silêncio, e as primeiras notas só começaram a ser tocadas em fevereiro de 2003. A próxima mudança prevista é para março de 2006, quando duas das notas atuais pararão de ser tocadas.

Diante de uma obra desse tipo, o sujeito só pode mesmo é espernear ou filosofar. Espernear significa dizer que há crianças morrendo no Haiti e no Sudão, ou, se isto não comove mais ninguém, que há músicos desempregados na própria Alemanha, e os 246 mil dólares que são o custo total do concerto poderiam ter uma “contrapartida social” mais palpável.

Filosofar significa encolher os ombros. Gasta-se mil vezes mais por aí com coisas muito mais irrelevantes. Um concerto como este equivale, em escala, a uma catedral gótica, como a de Colônia, que levou 632 anos para ficar pronta. Ou a Bíblia, que levou milênios desde o primeiro rascunho do Pentateuco até a Vulgata de São Jerônimo. Na era do consumo voraz e do efêmero obrigatório, é reconfortante sentir a nossa mente elastecer-se a ponto de abranger a simples idéia de um tal concerto, de uma música que leva 600 anos para ser tocada. Mais do que um concerto de música, o “Organ2 / ASLSP” é um breque filosófico neste tobogã de nossa cultura rumo ao Presente Infinitesimal.

Por outro lado, diz a imprensa que cerca de 10 mil turistas visitaram a cidade entre abril e setembro de 2003, quando as três primeiras notas já estavam sendo tocadas. Vamos colocar então uma média de 20 mil turistas por ano, o que nos daria ao fim do concerto 12 milhões, 780 mil espectadores. Meu amigo! É mais gente do que o da última excursão do U-2. Quem foi que disse que John Cage não é pop?!