O sol de Baltimore, nesta tarde de outono e céu azul,
brilha como se por trás de uma redoma, lançando muito pouco calor sobre a rua. Caminho
devagar, olhando as fachadas, até localizar o número 203. É uma casa de esquina
com tijolos marrons, dois andares, uma lucarna projetando-se para fora lá no
alto, onde deve ser o sótão. Subo os degraus da entrada, toco a campainha. Sou
recebido por uma curadora metódica, trajando uniforme. De iPad em punho, ela
checa meu agendamento, pede meu login e senha, indica-me a escada.
Olho em torno. Mobília de época: móveis pequenos,
reluzentes, nenhuma toalha de mesinha fora do lugar. Vou subindo para o sótão, onde
ele fez seu gabinete de escrita. Do segundo andar para o sótão a escada é meio
desconjuntada, insegura, e com o teto muito baixo. Imagino com que esforço os
visitantes idosos que vieram antes de mim conseguiram subir. No sótão, o teto é
inclinado, mal permitindo a uma pessoa de estatura normal ficar com o corpo
ereto.
(Amity Street 203 / Google View)
Ele está sentado numa cadeira junto à lucarna. No
parapeito largo da janela há um corvo empalhado, sobre um pedestal de madeira. Numa
mesinha próxima, uma bandeja com chá.
Ele se ergue, aprumado, cavalheiresco, estende-me a mão com a pose de um
gentleman que perderá os ossos antes
de perder as boas maneiras. Indica-me uma cadeira próxima, serve chá para nós
dois. As mãos tremem ligeiramente, mas não hesitam.
Trocamos amabilidades; ele ergue uma sobrancelha diante
do meu sotaque, mas estou me esforçando para falar de forma compassada,
separando bem as palavras, mesmo que isso me dê um ar artificial. A voz dele é
profunda, melodiosa, e passa-me pela cabeça a idéia de que em outros tempos
poderia ter sido um locutor de rádio. Mas não: é o teatro, o teatro que ele
nunca praticou, mas tem no sangue. Ou talvez tenha praticado a vida inteira –
autor, ator e personagem.
BT – Mr. Poe, o
senhor produziu uma quantidade espantosa de textos em sua curta existência. Na
minha biblioteca, o volume dos seus “Contos e Poemas Reunidos” tem 1.026
páginas, e o de “Ensaios e Resenhas” tem 1.472. Como vê essa produção, hoje?
Preferiria ter escrito menos? Mais, talvez?
POE – Sou um escritor
profissional. Não penso em termos da obra acumulada, penso apenas no texto que
produzo naquele momento. Vivo em função do presente, não da posteridade. Não
tenho do que me queixar. Tive uma vida difícil, cheia de conflitos familiares,
decepções pessoais, penúria financeira; mas não a vejo como uma vida diversa da
maioria das pessoas da minha época. E, embora muitos possam me considerar um
incompreendido, fui um editor respeitado, meus contos e poemas foram recebidos
com admiração. Muitos contemporâneos meus, homens e mulheres de talento, não
alcançaram certos patamares de sucesso que eu conheci.
BT – Pessoas de
talento, concordo; mas sem a sua fagulha de genialidade.
POE – Sempre achei que os maiores gênios, os mais brilhantes
intelectos que a humanidade produziu, não devem ser procurados nas academias ou
nos salões científicos, e sim no manicômio ou na prisão. Terão sido gênios, mas
em seu século foram tidos como incoerentes ou insanos. O vigor de uma
inteligência excepcional não garante que nos comunicaremos com nossos
contemporâneos. Sem ter um semelhante com quem dialogar, um indivíduo desse
tipo prega no deserto e amedronta até os que mais o querem. Nossas sociedades
se organizaram de forma a reconhecer o talento individual e empregá-lo em seu
benefício, mas o “gênio”, pelo seu caráter de incontrolável rebeldia, terá sido
na maioria das vezes vítima de incompreensão, perseguições e castigos.
(Poe, by Court Jones)
BT – O senhor é
tido, hoje, como um dos criadores, ou precursores, de três tipos muito
populares de literatura: a narrativa de mistério detetivesco, a ficção
científica e o conto de horror. Não sei se, na época em que escrevia, essas
distinções eram assim tão claras.
POE – Não eram. Como editor,
descobri cedo o quanto é útil produzir no leitor algum tipo de expectativa
prévia. Algumas vezes usei o termo “contos de raciocínio”, pois este me parece
um filão pouco explorado da literatura. A literatura do meu tempo era
fervilhante de sentimentos, de emoções ora nostálgicas ora assombrosas, e eu
também as explorei, ao meu modo. Mas minhas histórias sobre a importância do
raciocínio, da interpretação correta de fatos e aspectos da realidade constituem,
para mim, um gênero legítimo dentro da literatura. Contos tão diversos quanto como
“O Escaravelho de Ouro”, “Descida no Maelstrom”, “Tu És o Homem” e “A Queda da
Casa de Usher” abordam esse tema: o raciocínio aplicado a situações limite.
BT – Ainda hoje os
apreciadores da literatura policial discutem sobre a importância do detetive
raciocinador nessas narrativas.
POE – Considero um erro, ou pelo menos uma
limitação desnecessária, apor o rótulo “policial” a essa literatura, que nem
sempre envolve polícia ou criminosos. O raciocínio é uma das luzes que o
Criador nos deu, e não é privilégio de policiais. (ergue-se, caminha pelo sótão enquanto com as mãos ilustra a cena que
descreve) Tenho em minha casa uma gata que aprendeu sozinha a abrir a porta
para sair, pulando para agarrar-se ao ferrolho, movendo-o com a pata,
impulsionando a porta para abri-la, e depois pulando para o chão e saindo. Os
animais têm sua forma de raciocínio; mais rudimentar que a nossa, por certo,
mas real. Pude utilizá-la na justificativa para os crimes da Rua Morgue, onde
um animal com instinto imitativo mata uma pessoa sem saber o que está fazendo.
(Detém-se diante de uma gravura na parede, mostrando um gato preto em
pose imperial, sobre uma almofada.) Quem
tem animais domésticos, sejam cães ou gatos, sabe dos seus lampejos
extraordinários de inteligência na resolução de problemas práticos. No homem,
esses lampejos podem ser fonte infinita de inspiração literária, para além da
mera investigação criminal. Isto que chamam hoje de “detetive” não se distancia
muito de um médico que em dez minutos de conversa com um doente reúne elementos
suficientes para deduzir o mal que o aflige, ou de um relojoeiro, que abre o nosso
relógio e rapidamente descobre a razão do seu defeito. É o raciocínio aplicado
aos dados da vida concreta.
BT – Esta sua
tendência de pensamento nunca entrou em conflito com a sua fascinação pelos aspectos
sombrios, inconscientes e indecifráveis da mente humana, e do Universo?
POE – Nosso espírito tem marés
que avançam e recuam, como as dos oceanos. Não nego que em vida tive fases de
exaltação e fases depressivas, bem como fases de auto-confiança no intelecto e
fases de pavor diante de aspectos inexplicáveis de nossa existência. Falei que
o terror não vem da Alemanha, vem da alma, tentando exprimir essa percepção de
que esse medo reside em nós e não podemos fugir dele. Podemos entendê-lo, interpretá-lo,
e neste caso a mente raciocinadora nos ajuda, se não a eliminar o terror, a
colocá-lo em palavras. Não deixa de ser um triunfo parcial.
BT – A palavra nos
dá uma sensação de poder, diante da realidade...
Ele volta a sentar. Estende o braço e acaricia a penugem
do corvo empalhado, com ar distraído.
POE – Sim... Quando me referi ainda
agora à inteligência dos animais, não mencionei o corvo, que é rapidíssimo na
solução de problemas, usa instrumentos agarrados com o bico, e demonstra ter
uma clareza de pensamento que nos assusta. Por isso o elegi como protagonista
de um dos meus poemas. Ele é, sim, o espírito da noite, o anjo ou demônio que
negreja. Mas ele se exprime através da palavra, de uma única palavra: “Nevermore”. O que esta palavra significa
fica a cargo do raciocínio do narrador, e este, a cada passo, dá a ela um
sentido diferente em relação a sua própria vida. Talvez sejamos como o corvo.
Talvez toda a literatura da espécie humana seja essa palavra, que um dia será
lida por uma espécie superior à nossa, tal como o homem é superior ao corvo. E
essa espécies de seres superiores dará, ao que escrevemos, sentidos que nos
escapam.
BT – Esta sua
valoração da inteligência nos animais poderia se estender, talvez, até as
máquinas?
POE – Em princípio, nada
impede que isto ocorra, se imaginarmos a inteligência como um processo
combinatório definido por uma mecânica de possibilidades e escolhas, uma
faculdade meramente acessória do Espírito, e sem a transcendência deste. O
senhor deve lembrar o meu artigo sobre o Turco Enxadrista. Recusei-me a crer
numa máquina capaz de jogar xadrez, nas condições daquela época. Pareceu-me
mais plausível, pela navalha de Occam, que se tratasse de um mero truque: um
homem oculto no gabinete de madeira. Nada impede, porém, que em condições
técnicas mais avançadas isso possa ser obtido. O xadrez pode ser reduzido a
combinações matemáticas, e os exemplos da calculadora de Pascal ou da máquina
de Charles Babbage poderiam ser direcionados para operações tão complexas
quanto as que o jogo requer.
BT – E quanto a
operações mais complexas ainda? A criação de textos ficcionais, por exemplo?
POE – Em primeiro lugar, devo
insistir na distinção entre a mente humana, onde brilha o Espírito, e uma
máquina, por mais poderosa que seja. Com esta ressalva, não vejo por que seria
impossível criar um mecanismo capaz de gravar em sua memória um número
extraordinário de combinações numéricas, e depois atribuir a esses elementos as
mesmas funções das nossas palavras e dos fragmentos do nosso discurso. É uma
operação análoga à que descrevi em “O Escaravelho de ouro”, só que com palavras
e frases no lugar de letras, portanto em outro patamar de complexidade –
imenso, mas não inatingível.
BT – A criação de
frases seria um processo meramente estatístico?
POE – Não apenas isso, mas
esse aspecto é essencial para a criação de filtros de probabilidade. No xadrez,
em cada momento há centenas de jogadas possíveis, permitidas pelas regras; mas
o intelecto do jogador descarta de pronto todas as jogadas inócuas,
contraproducentes, irrelevantes, e se concentra naquelas que têm maior peso para
a disputa travada no tabuleiro naquele instante. Num criptograma, estabelecemos
regras de probabilidade para as letras, sendo a letra “E” a mais frequente em
nosso idioma inglês; e regras específicas, como a de haver sempre uma letra “U”
após a letra “Q”, etc. Esse cálculo pode ser ampliado para pequenas frases.
“Céu azul”, “céu nublado”, “céu chuvoso” são combinações frequentes; “céu
cavalo” “céu xícara”, “céu assoalho” não fazem sentido e podem ser descartadas.
As regras gramaticais eliminariam automaticamente bilhões de respostas
possíveis, e o avanço seguinte da máquina se daria num repertório de escolhas
bem mais reduzido.
BT – Pode-se criar
textos literários dessa maneira? Prosa, poesia?
POE – É discutível, mas é uma
questão em aberto. Assim como não há mistério concebido pela mente humana que
outra mente humana não possa esclarecer, também não existe prodígio concebido
pela imaginação humana que o engenho humano não possa tornar realidade. Faço
apenas a ressalva de que a um processo 100% mecânico de criação de textos
faltariam duas condições essenciais à literatura humana: alma e corpo.
Entre os bilhões de
combinações de palavras que nossa mente analítica pode formar, é o Espírito
quem decide as mais elevadas, as mais nobres, as mais carregadas de verdade
humana.
E há também o nosso corpo, de
quem nossa linguagem tanto depende. Criamos literatura com o corpo, tanto
quanto com a mente. Alguém incapaz de escutar conceberia um poema como “The
Bells”? A audição e a visão são essenciais a tudo que produzi. Muitos efeitos
de contos como “A Tale of the Ragged Mountains”, “The Sphinx”, “The Oval
Portrait”, “A Descent of the Maelstrom” dependem essencialmente do modo como
nossos olhos enxergam. Por outro lado, efeitos sonoros e percepção auditiva são
essenciais em ”The Tell-Tale Heart”, “The Fall of the House of Usher” etc. Pergunto: uma máquina combinatória, sem
corpo, poderia espontaneamente produzir histórias desse teor?
O senhor deve recordar as
críticas do Chevalier Dupin aos
procedimentos da polícia parisiense, no episódio do orangotango. Ele ironizava
o chefe de polícia dizendo-o “esperto demais para ser profundo” e que sua
inteligência tinha apenas cabeça, e não corpo. E no caso da carta furtada, o
ministro D. tinha qualidades de poeta e de matemático, porque se tivesse apenas
estas últimas estaria às mãos da polícia, que tem esse tipo de raciocínio.
Uma máquina-escritora, sem a
inspiração divina do Espírito, e sem um corpo (incluo aqui todos os poderes de
observação empática de outros seres humanos, como no caso dos jogadores de whist), não poderia ter a fagulha
poética, criadora. Seria um mero mecanismo re-arranjador de frases previsíveis.
O smartphone me dá um aviso vibratório e inicia a
contagem regressiva de dez minutos. Ergo-me, despeço-me dele, desejo-lhe um dia
produtivo de trabalho, pois não me escapou à vista, no outro extremo do sótão,
a bancada coberta de folhas garatujadas, os tinteiros cheios, os porta-penas,
os mata-borrões. O contrato me impede de questioná-lo a respeito do que está
escrevendo, porque poderia produzir uma alteração no algoritmo. Nosso último
aperto de mãos me recompensa com um olhar cálido, cheio de companheirismo.
POE – Fico muito grato pela
sua visita. Há tão poucas pessoas que me procuram hoje em dia. Brasil, não é
mesmo?... Que surpreendente. Bem, leve consigo minhas melhores lembranças aos
meus leitores de Buenos Aires.
BT – Tem pelo menos dois, lá, e o admiram muito.
A escada íngreme e a funcionária atenciosa me conduzem de
volta àquela rua pacata, àquele trecho de cidade sub species aeternitatis, àquela grama que não cresce, àquele sol
que não aquece, ao céu daquele corvo que não crocita nunca mais.
(Nota necessária: esta série de "Entrevistas Transcendentais" é composta por textos imaginários. Eu não entrevistei essas pessoas.)
Augusto dos Anjos:
Philip K. Dick:
Agatha Christie:
Julio Cortázar:
Alfred Hitchcock: