segunda-feira, 12 de junho de 2023

4951) Meu livro de 2023: "Não Ficções" (12.6.2023)



Tempos atrás eu estava trocando idéias com minha editora Sandra Abrano, da Bandeirola, e ela falou de sua vontade de publicar textos de não-ficção: artigos, ensaios, crítica, etc.  Me perguntou (retoricamente) se eu "por acaso não teria algum material".  Me toquei que nunca fiz uma coletânea dos muitos artigos que já publiquei sobre FC e literatura fantástica, artigos hoje inacessíveis, porque saíram nos fanzines de meus companheiros de trincheira intergaláctica: o Somnium, o Megalon, o Hiperespaço, o Universo Fantástico, o Borduna e Feitiçaria...
 
Conversa vai e vem, surge agora este livrinho que estamos lançando, sob o título auto-explicativo de Não Ficções, e com o subtítulo mais explicativo ainda de: A Literatura, a Ficção Científica, os Escritores e Seus Escritos
 
Como tenho feito nos últimos anos, será um livro em financiamento coletivo via Catarse, na base do pague agora e receba daqui a alguns meses. O lançamento fica mais interessante ainda porque é em dupla com o livro de George Amaral, Um Estranho Tão Familiar – Teorias e Reflexões sobre o Estranhamento na Ficção. Onde ele examina os processos de estranhamento literário e narrativo, uma das raízes (a meu ver) do famoso sense of wonder despertado pela FC, a sensação de maravilhamento que se tem ao ver uma coisa com um olhar diferente.




No meu livro, reuni textos publicados em jornais, revistas, fanzines, websaites, bem como prefácios e apresentações de livros alheios. Além dos fanzines, há textos saídos no Jornal do Brasil (RJ), Jornal da Tarde (SP) e outros.
 
Aproveitei para colocar artigos variados, tentando não me limitar à ficção científica.
 
Falo de poesia, por exemplo, no texto “A visão cósmica em Drummond e Augusto dos Anjos” (Jornal da Tarde, 1998). Sugiro ao leitor que leia, em sequência os poemas “As Cismas do Destino” de Augusto e “A Máquina do Mundo” de Drummond, para ver suas semelhanças estruturais e filosóficas, como se o texto do poeta mineiro fosse uma “resposta” ao de Augusto.






Falo da cultura popular nordestina, a literatura de cordel e a literatura oral que brota em torno dela; e da ciência popular preservada em obras como o Lunário Perpétuo, o clássico almanaque astronômico e astrológico do interior nordestino. Falo nisso a propósito de que? A propósito de um dos meus personagens favoritos, o cantador de viola John The Balladeer, cujo universo descrevo no texto “A folk fantasy de Manly Wade Wellman” (Megalon, 1999).


E falo da ficção científica na Literatura de Cordel, examinando folhetos como “História do Homem que Subiu em Aeroplano Até a Lua”, cuja autoria é atribuída tanto a João Martins de Athayde quanto a Leandro Gomes de Barros. O folheto foi publicado em Recife no ano de 1923, antes até de Hugo Gernsback, nos EUA, carimbar com o nome de Science Fiction as aventuras interplanetárias que estava publicando.


Alguns artigos vão relatando as descobertas literárias de que participei com meus amigos do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica). Autores brasileiros, obscuros, que estávamos na verdade re-descobrindo, porque um livro que conseguiu ser publicado por editora não é propriamente obscuro.
 
É o caso de meu artigo de 1993 sobre “A Rainha do Ignoto”, romance cearense, misto de ficção científica e fantasia, publicado em 1899, e que me foi revelado por Carlos Emílio Corrêa Lima. É o caso do texto de 1995 sobre “Statira e Zoroastes”, uma fantasia utópica (um país governado por mulheres) publicado em 1826 por Lucas José d’Alvarenga.  




A maioria destes artigos vem de uma época em que eu estava muito dedicado à pesquisa da literatura fantástica e FC no Brasil, ia às bibliotecas, passava pente-fino nos sebos, mantinha correspondência constante com outros abnegados.
 
Acho importante destacar o texto que publiquei em 1995 sobre “As aventuras de Dick Peter”, o detetive criado por Jeronymo Monteiro, sob o pseudônimo de “Ronnie Wells”. Jeronymo foi um fã infatigável da literatura popular, e a série Dick Peter, que começou como programa de rádio, evoluiu para abarcar livros de aventuras policiais e de ficção científica. Numa história ele está combatendo gangsters em Nova York, no outro está encontrando sobreviventes da Atlântida no interior do Brasil.



Tenho alguns artigos literários publicados fora do Brasil, mas resolvi incluir apenas um, como exemplo, porque o tenho como uma pequena façanha. Publiquei em The New York Review of Science Fiction (março de 1997) um artigo intitulado “From Borges’s Being to Perec’s Nothingness”. Trata-se de um lipograma, um texto em inglês com mais de 600 palavras onde a letra “A” não aparece nem uma vez. É uma homenagem a Perec, o rei do lipograma, e a Borges, porque refere-se o tempo todo ao livro de Borges cujo título é justamente A Letra Proibida.



O estudo da pulp fiction norte-americana me atraiu durante vários anos, e produziu vários dos artigos recolhidos neste volume. Um dos mais curiosos é “O Efeito Hoen” (Megalon, 2001). Em novembro de 1948, um fã chamado Richard Hoen enviou uma carta ao editor da revista Astounding SF afirmando ter gostado muito do número de novembro de 1949 da revista, inclusive citando o artista da capa e os títulos e autores de vários contos. O editor, John W. Campbell, decidiu levar a brincadeira a sério, e teve um ano para encomendar a cada autor um conto exatamente com aquele título. Não conseguiu 100%, mas em novembro de 1949 ali estava a revista “prevista” um ano antes, na qual Isaac Asimov, Robert Heinlein, A. E. Van Vogt e outros escreviam os contos imaginados pelo leitor.



A pulp fiction pode ter tido critérios literários pouco exigentes, mas é um exemplo histórico de literatura imaginativa produzida sob alta pressão. Era possível sobreviver escrevendo contos policiais ou de FC, nos anos da Depressão, mas era preciso escrever o dia inteiro, todo dia, sem descanso nem domingo. Comentei The Pulp Jungle, do prolífico Frank Gruber, que é um memorial dessa época, contando dezenas de fofocas e episódios pitorescos da comunidade dos escritores, mas também fornecendo números, estatísticas do mercado, e dando uma descrição pragmática desse tipo de literatura, pelos olhos de um profissional cínico e calejado. Meu texto saiu no fanzine Somnium (SP), em 2006.



Coletâneas como esta são de interesse de um público reduzido, talvez, público de algumas centenas de pessoas. O fato de termos hoje a opção do financiamento coletivo torna possível uma primeira tiragem de livros pré-vendidos, que serve como impulso inicial para que o livro se torne conhecido e procurado. É diferente de quando a editora imprimia 1.000 ou 2.000 exemplares, guardava num galpão na Zona Oeste, e ficava esperando que alguém tivesse interesse.
 
O projeto através do Catarse é o lançamento da linha “Bandeirola Ensaio e Crítica” da Editora Bandeirola, e, como já falei acima, estou nesta estréia ao lado de George Amaral, com seu Um Estranho Tão Familiar: Teorias e reflexões sobre o estranhamento na ficção, que não li ainda, mas já está na fileira de leituras no futuro próximo. Já publiquei um livro de temática próxima (Freud e o Estranho: Contos Fantásticos do Inconsciente, Casa da Palavra, 2007). Há vários processos de estranhamento na literatura fantástica e de FC.




George é psicanalista, mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Eu e ele somos os “premiados” com a chance de inaugurar uma série de ensaios que a Bandeirola já está encomendando ou negociando com pesquisadores da FC e literatura fantástica.
 
Aqui, o link com mais detalhes sobre os livros, e as diversas opções de apoio:
 
catarse.me/insolita
 
 






sexta-feira, 9 de junho de 2023

4950) O escritor enquanto Deus (9.6.2023)



(Ernest Hemingway)
 

Uma idéia que tento sempre passar (em cursos, oficinas, etc.), para quem quer fazer literatura de ficção, é o fato de que o escritor é o Deus de sua história. Não um Deus onipotente, onisciente e onipresente, mas em todo caso um Deus como aqueles da mitologia, com o poder de fazer as coisas acontecerem de acordo com a sua vontade. Inclusive de acordo com as suas venetas, com os seus impulsos.
 
Todo mundo sabe disso, concordo, mas uma coisa é saber, e outra coisa é descobrir por conta própria. 
 
Minha descoberta se deu, em grande parte, numa noite décadas atrás, no período paleozóico conhecido como “a Era da Olivetti Mecânica”. Eu tinha acabado um trabalho que me consumiu uns dois meses, trabalho remunerado, “para fora”, ou seja, uma coisa estritamente profissional. Entreguei, tive uma reunião matinal que entrou pela tarde, e o projeto foi aprovado integralmente, com aperto de mãos e promessa de depósito em breve. Voltei para casa aliviado e triunfante.
 
De noite resolvi dedicar-me aos meus projetos pessoais, ou seja, à primeira idéia genial que me viesse à cabeça, coisa que acontecia quando eu estava, como naquela noite, com uma cerveja aberta à frente, uma lauda em branco no rolo da máquina, e um cigarro Galaxy aceso entre os dedos (era no tempo em que eu fumava essa desgraça). 
 
Comecei a bolar um conto meio ao acaso, um conto mezzo Rubem Fonseca mezzo Luiz Vilela. 

Rio de Janeiro, época contemporânea. Um cara sai para beber à noite, e reencontra por acaso um amigo de juventude, lá da Paraíba, que não via há mais de vinte anos. Abraços, euforia, risadas, os dois começam a beber juntos, entram naquele estágio de “e Fulano, que fim levou?”, “tem visto Sicrana, como vai ela?”, “e tua família, todos bem?” – porque é assim o ser humano, passa dez anos sem nem se lembrar de alguém, mas na primeira chance quer saber da vida. 
 
Os caras começam a beber no Largo do Machado, depois vão até a Lapa, porque o Nova Capela nunca fecha, de lá vão para um subúrbio, porque não estão bêbados, e o que está ao volante (a história é contada do ponto de vista dele) é experiente. Mas vão para um subúrbio, num bar no meio do matagal, e lá enchem a cara com seriedade. Ao saírem do bar o amigo puxa um assunto antigo, uma discussão que os dois tiveram anos atrás. 
 
Isso não é hora para lembrar disso, defende-se o dono do carro. Não vamos estragar uma noite tão bacana. Você já estragou, naquele dia, diz o amigo, ligeiramente trôpego. Me chamou de pobre e de unha-de-fome. Que é isso, retruca o primeiro. Não me lembro de nada disso. Fiz só uma comparação entre você e seu irmão. Tá vendo como lembra? Diz o outro, em voz pastosa e triunfante. Seu filho da puta. 
 
Para encurtar a história, os dois se enraivecem, brigam, se esmurram, o dono do carro puxa um revólver, alucinado de raiva (acaba de perder um dente da frente, afrouxado por um soco) e dá dois tiros no amigo. Apavora-se. Olha em redor. Bar fechado, matagal, luzes distantes. Ninguém viu. Ele pega o carro e some. 
 
A história vinha sendo contada do ponto de vista dele, mas agora o carro segue um caminho de terra, chega à BR e desaparece ao longe; e a narrativa permanece no local do crime, um parágrafo final descreve o corpo do outro, a vida se esvaindo aos poucos, a poça de sangue aumentando, e ele caído ali, na escuridão, no meio do mato, nos fundos de um terreno baldio que servia de estacionamento. Carros passando ao longe e ele desaparecendo aos poucos. 
 
Fui dormir satisfeito, ou bêbado, o que é a mesma coisa. No outro dia fui pra rua resolver vários assuntos, tive uma tarde atarefada, mas de noite (estava sozinho em casa, minha mulher estava viajando) abri outra cerveja e fui reler o conto. 
 
Fiquei com pena dos caras!  Achei sacanagem – dois amigos se reencontram, tudo bem que no passado houve um desentendimento, se chatearam um com o outro, mas amizade tem que ser como água, que você mexe, agita, tira um pedaço, e ela volta pro formato de antes. Pra que isso? Fiquei com pena do defunto esfriando no matagal. Fiquei com pena do outro, cantando pneu nas curvas da rodovia, o revólver ainda quente guardado no bolso, a ponta da língua tentando manter o dente no lugar. 
 
Amassei a última página, voltei para o teclado e para a história. Sim, eles saem. Eles discutem, mas não tem murro. Era pobre, não era, isso e aquilo, aí o cara do carro puxa o revólver. Nesse instante o outro diz: “Mas Fulano, que história é essa? Tu anda armado agora?”  O cara está furibundo e diz: “Isso aqui é o Rio de Janeiro, seu merda, aqui a pessoa tem que se cuidar, não é aquela bosta da Paraíba onde vocês dormem de janela aberta.” O outro está bêbado mas tem amor próprio, ergue o dedo no ar e diz: “Não insulte a Paraíba, filho ingrato, porque até Lampião tinha medo, só passava por lá pra cortar caminho pro Juazeiro.”
 
Os dois começam a rir. O primeiro abre o tambor do revólver e mostra: “Essa porra está sem bala, eu morro de medo de um acidente”. Se abraçam rindo, mangando um do outro, e vão à procura de um bar aberto, mesmo porque já passa das quatro e meia da madrugada.
 
Ficou melhor o conto? Ficou pior? Não sei, porque foi um dos muitos que numa tarde de verão e impaciência eu rasguei em quatro e enchi com eles um saco de lixo, daqueles de plástico azul. Mas nesse episódio eu me senti não um Deus, mas dois – porque soube que tinha o poder de matar, e o poder de trazer de volta à vida. 
 
Então, quando eu sento para escrever alguma coisa, eu procuro invocar de dentro de mim esse poder, porque não existe coisa mais perigosa neste mundo do que um poder que o indivíduo tem e não utiliza. Esse poder se rebela, ele incha, estoura as costuras da alma, e acaba desequilibrando a vida do sujeito, como um cachorro que a gente compra, bota dentro de casa e deixa crescer sem domesticar. 
 
Tenho inclusive a impressão (não posso mais checar, joguei o conto fora) que os tais amigos eram escritores, e a certa altura um dos dois, nem lembro qual, dizia ao outro: “Não tem sentido você sentar pra contar uma história onde só acontece o banal, aquilo que acontece todo dia na vida de todo dia, ou então, pior ainda, acontece o extraordinário conforme-as-expectativas, o fantástico self-service, a tentativa pálida de reescrever um livro alheio que a gente leu e gostou. O poder-de-fazer-acontecer não deve ser estragado, malbaratado, jogado aos porcos. Faça acontecer coisas que lhe deixem o olho brilhando, a respiração acelerada, a boca seca, o coração batendo e dizendo: caralho, velho, não acredito que isso está acontecendo na tua história!...” 
 
Foi isso que um dos amigos disse pro outro, ou melhor, teria dito, porque na verdade não teve conto nem nada, isso foi só uma coisa que eu estava pensando no sofá da sala, meia hora atrás. 




quarta-feira, 7 de junho de 2023

4949) Contracapa de Midjourney (6.6.2023)



(Joan Miró: A Fazenda)


&   o choro é livre – e a gargalhada também

 

&  uma multidão com texto e com ensaio seria capaz de muita coisa

 

&  a força da gravidade é uma mistura de ação presencial e wi-fi

 

&  o espelho: tem sempre esse fantasma pronto, à minha espera

 

&  podem fazer o que quiserem com meu boneco de cera; não ficou parecido

 

&  você só sabe a honestidade de alguém se lhe fizer uma proposta irrecusável

 

&  uma foto preserva um segundo do passado e afunda o resto nas trevas do esquecimento

 

&  tem gente que sempre repete as frases que diz, como se quisesse deixá-las em negrito 

 

&  entre outras variantes clássicas, tem se projetado ultimamente o conceito de “a boçalidade do Mal” 

 

&  nada como o silêncio luminoso das noites do sertão 

 

&  tem gente que lava o rosto e joga a água fora sem nem agradecer a ela 

 

&  classificar as coisas assim é como dizer que os biscoitos se dividem em redondos e quadrados – e só 

 

&  certos filmes antigos têm o encanto dos navios naufragados, das catedrais em ruínas 

 

&  o bom enxadrista é o que consegue usar as peças do adversário para fazer sua jogada 

 

&  nos fuzilamentos vendam-se os olhos dos prisioneiros para proteção dos executores 

 

&  a paz não pode destruir a guerra, mas pode diluí-la 

 

&  certos textos parecem radioativos, basta ler aquilo e o pensamento fica envenenado 

 

&  o bom cineasta filma um pavão em preto-e-branco e ninguém percebe esse detalhe 

 

&  o futebol hoje é assim: “Autoriza o árbitro!” – e “Desautoriza o juiz do VAR...” 

 

&  onde subiu prédio sofreu pedreiro 

 

&  o Tempo não é algo que se desloca; ele vibra, ele estremece 

 

&  liberdade hoje em dia é feito um colírio que a gente leva no bolso e pinga umas gotas quando sente falta 

 

&  uma pedra no meio do caminho incomoda menos do que uma pedra no sapato 

 

&  a elevação dos oceanos talvez liberte, talvez sufoque a população dos aquários 

 

&  a pena é mais poderosa do que a espada, porque pode desenhar uma balança em que ela tem mais peso 

 

&  todo jatinho de empresários é um Cavalo de Tróia

 

&  em vez de proibir alguma coisa, deviam ridicularizar; seria mais eficaz 

 

&  ensinar não é iluminar, é acender 

 

&  um Deus não é onipresente se o seu castigo vai mais longe que o seu perdão 

 

&  ser honesto não é uma fraqueza, embora muitos só sejam honestos porque lhes falta a força de não sê-lo 

 

&  ela tinha a nobreza das pessoas feias que só podem contar consigo mesmas 

 

&  um homem vai ser fuzilado mas pede para esperarem o nascer da lua cheia 

 

&  não, o Romance não está morto, apenas num estado agudo de catalepsia mental 

 

&  todo mundo tem um olho que enxerga melhor do que o outro 

 

 

 


sábado, 3 de junho de 2023

4948) Democracia e linguagem (3.6.2023)





Na cabeça de muita gente, democracia é um regime onde eu tenho a liberdade de fazer o que me dá na telha sem que nenhuma autoridade interfira. Ou, como dizia impagavelmente Millôr Fernandes, “ditadura é quando você manda em mim, e democracia é quando eu mando em você”.
 
Nem vou entrar no campo minado da política, mas tento às vezes aplicar esse conceito abstrato, “democracia”, ao uso da língua e da linguagem oral, até porque não mexo com outra coisa o dia inteiro, o ano inteiro. A linguagem é a água onde eu sou peixe.
 
Sou escrevedor de profissão, e inúmeras vezes fui obrigado a negociar com revisores de jornais, revistas, editoras de livros, editoras de enciclopédias, editorias de websaites e de publicações on-line, porque certas coisas que eu havia escrito não passam no crivo gramatical e ortográfico da publicação.
 
Em geral, o revisor passa o trator por cima do meu texto, arranca tudo que lhe parece erva-daninha e planta em cima suas flores de estilo. Só vejo o resultado quando abro o livro impresso. (E de vez em quando, ao constatar a mudança que foi feita, preciso ficar dois dias de cama, com bolsa-de-gelo sobre a testa.)
 
Outras vezes, recebo as provas, antes do livro ser impresso. Em geral, concordo com 90% das mudanças feitas pelo revisor, porque são apenas maneiras diversas de dizer ou escrever, algo que (como se diz em Campina ) “não inflói nem contribói”, então eu deixo passar. Outras vezes são correções (que acabo aceitando) de coisas que eu escrevo do meu jeito. A palavra “idéias”, por exemplo – não há quem me faça escrever “ideias”. Já me pediram explicações, e dei-as.




Mas não brigo por causa disso! Quer corrigir, corrija. Às vezes, contudo, o que parece “erro” é necessário. No texto literário, principalmente. Imaginemos o seguinte diálogo:
 
– Oi, Zé. Tu é o caba que faz amplificador?
– Não, isso é Dóda, lá das Malvina. Tu já falasse com ele aqui.
 
Passando nas mãos de um revisor cauteloso, este pequeno fragmento de campinensês pode ficar horrorosamente assim:
 
– Oi, Zé. Tu és o cabra que faz amplificadores?
– Não, esse é Dóda, lá das Malvinas. Tu já falaste com ele aqui.
 
Ou seja, esses esparadrapos gramaticais desconsertaram o texto e desconcertarão o leitor.
 
Oswal de Andrade bradou pela “contribuição milionária de todos os erros”. Eu concordo, mas salientando que esse “erros” terá que vir entre aspas, forçosamente, porque não se trata de erros e sim de ruídos. Todos nós emitimos ruídos (no sentido de “distorções, interferências, modificações não-intencionais em algo que tem uma forma padrão”) quando falamos nossa linguagem pessoal.
 
E aqui vem um termo importante: existe a linguagem social e existe a linguagem pessoal. E a democracia da linguagem precisa atentar para as duas, porque o equilíbrio harmônico precisa dessa tensão permanente entre “o jeito que todo mundo fala” e “o jeito que eu falo”. Um não pode jamais cancelar o outro.
 
Se eu quiser, eu posso inventar uma linguagem que só eu conheça. Ninguém pode me proibir. Aliás, historicamente, há milhares de indivíduos que tentaram criar um idioma artificial – consultem Babel e Anti-Babel, de Paulo Rónai, um delicioso resumo dessas excentricidades. Homens (é engraçado, não tem nenhuma mulher) que dedicaram a vida a inventar uma língua sem defeitos.




Aí surge o “pobrema”. (Olha aí, um bom exemplo de distorção intencional – “pobrema” é uma forma particularizada da palavra-coletiva “problema”, pronunciada num tom de auto-ironia, bom-humor, descontração.)
 
Se eu invento uma linguagem minha, ainda que seja um pequeno glossário, como vou me comunicar?!  Acho que todo mundo conhece uma variante do conto popular em que um garoto é maltratado por um padre (que exige ser chamado de “papa-hóstia”) e depois de várias lições vocabulares ateia fogo a um chumaço de algodão no rabo do gato e grita:
 
– Acuda, seu papa-hóstia, dos braços da folgazona! Venha ver o mata-rato, com clareiamundo norabo; se não acudir com abundância, leva o demo a traficância!
 
A história completa, junto com uma divertida versão inglesa, está comentada aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2016/10/4175-acuda-seu-papa-hostia-31102016.html
 
Eu posso decidir chamar qualquer coisa por qualquer nome, mas se começar a usar esses nomes fora de casa vou ter que me explicar – e ensinar aos outros. E quem sabe possa até ter a sorte de muitas pessoas, que inventaram uma palavra e a palavra “pegou”. Ouvindo Rita Lee estes dias, pus-me a pensar em qual teria sido o primeiro grupo social em que a palavra “auê” pegou e começou a ser usada, com a multiplicidade de sentidos que tem hoje (rolo, confusão, celebração, algazarra...).




Já conversei sobre a questão da “linguagem neutra”, reivindicada por vários grupos sociais, para quebrar o binarismo sufocante de idiomas como os latinos que (de certa forma) sexualizam tudo. Já vi muitas crianças quebrando a cabeça e perguntando aos pais: “Por que é que árvore é mulher e mato é homem, pé é homem mas mão é mulher, faca é mulher mas garfo é homem, chão é homem mas parede é mulher?...”
 
Essa formulação homem-mulher está mal feita, mas é o primeiro recurso comparativo de centenas de milhões de pais sofredores, tias, avós, que se veem obrigados a avalizar os despautérios do idioma, e a sugerir lógica onde ela não existe.
 
A linguagem neutra é sociologicamente necessária, porque exprime um protesto.  Toda linguagem que exprime um protesto sofre repressão e angaria simpatias, pelo menos a minha. Os fundamentos gramaticais são questionáveis, mas dane-se, os fundamentos gramaticais de “pobrema” também são. A linguagem neutra, que tantas vezes soa incômoda, deslocada, contraditória, exprime a posição emocional e existencial de quem se sente, no mundo, incômode, deslocade, contraditórie. (Não sei se é assim – valha como exemplo.)
 
Vai colar? Não vai colar? Dirá o tempo, que mesmo assim nunca diz a última palavra, pois ambos, tempo e palavras, existem justamente em função de sua renovação constante, pela pressão de quem precisa.
 
Eu não uso linguagem neutra porque de idiossincrasias já me bastam as minhas, que são muitas; mas não por ser contra ela. Dou a maior força. Para que ser contra uma deformação da língua no sentido de mais expressividade? (Haveria problema com ela – e aqui fala o escritor de FC – se numa sociedade futura a linguagem neutra, ou alguma equivalente, fosse imposta por um Estado totalitário, ou por uma Inteligência Artificial politicamente-correta e roboticamente bem-intencionada, hipótese que já brota no horizonte.) 
 
Por força de trabalhos simultâneos, que fazem o meu dia passar rápido, tenho lido muito dois dos meus autores preferidos, Ariano Suassuna e Guimarães Rosa. São dois modelos de linguajar idiossincrático. Ariano tinha um exemplo muito bom para isso. Na opinião dele, a língua escrita precisava estabelecer uma versão-oficial das palavras, mas a língua falada ficava a cargo de cada um. Dizia: 
 
Vejam essa cadeira aqui. Quando eu escrevo essa palavra, escrevo “cadeira”, e todo mundo me entende. É a versão coletiva da palavra, serve para todos. Mas quando eu falo, eu pronuncio “cadêra”, porque sou paraibano. É a minha, ou a nossa, versão da palavra, em nossa comunicação oral. E se algum falante do português disser que não entende a pronúncia “cadêra”, bom, aí é muita má vontade, não é não?...
 
E agora voltamos à palavra “democracia”, um conceito mais escorregadio do que muçu ensaboado. É a conjugação (nem sempre fácil, como toda relação conjugal) entre a conveniência coletiva e o interesse pessoal. Uma palavra precisa ter uma forma “oficial”, sancionada pelos gramáticos, lexicógrafos, etimólogos e acadêmicos, e ao mesmo tempo admitir muitas variantes, usadas por grupos específicos, e até por indivíduos isolados.
 
A linguagem precisa de uma forma básica, essencial, consensual, coletiva. Essa base é fornecida pela "norma culta". Mas ela não é uma camisa-de-força, e sim um mero núcleo para que a nuvem de linguagens parciais possa fervilhar ao seu redor.
 
A linguagem precisa da contribuição constante de pessoas, grupos formais e informais. Precisa (por exemplo) de gírias, regionalismos, bairrismos, jargões profissionais ou comportamentais, modismos passageiros. Precisa também de toda a inventividade e força comunicativa da poesia, da prosa, do teatro, da oratória, das telecomunicações. Precisa tirar dos eruditos a carteirada da erudição, e dos incultos o trauma da incultura, e permitir que se exprimam como lhes der na telha. Alguma coisa boa acaba se incorporando. 
 
O indivíduo propõe o novo. O coletivo decide o que vai permanecer.
 
 


 







terça-feira, 30 de maio de 2023

4947) "Editando a Editora": Maria Amélia Mello (30.5.2023)


 
Terminando de ler o livrinho bem cuidado e simpático da coleção “Editando o Editor”, da EdUsp. É uma coleção voltada para depoimentos autobiográficos de editores brasileiros, traçando sua trajetória, sua formação, e a sua atividade como editor de livros.
 
Em seu décimo número, a coleção mudou de nome para “Editando a Editora”... porque coube às autoras Marisa Midori Deaecto e Carolina Bednarek Sobral entrevistar a primeira mulher dessa seleção majoritariamente masculina.
 
Maria Amélia Mello é minha editora, e amiga desde que pus os pés para morar no Rio de Janeiro. Ou até antes disso, porque antes de alugar casa aqui pela primeira vez me lembro de ir visitar o Centro de Cultura Alternativa que ela dirigiu na RioArte (ela fala disso no livro), e de deixar ali meus cordeizinhos e provavelmente meu livro Sai do Meio Que Lá Vem o Filósofo (1980).  



(Maria Amélia Mello) 
 
Somos da mesma geração e não é de admirar tantas coincidências de filmes, músicas, leituras (ponha Cortázar, Campos de Carvalho...). Ela observa que desta geração em diante os cargos editoriais começaram a ser ocupados por pessoas que, como ela, vinham da área do Jornalismo. Comenta o susto que teve ao descobrir o quanto Frida Kahlo era famosa, e que o olho de um editor precisa se estender a todos os campos além das “Letras”:
 
Esta história demonstra que o editor tem que ser ousado, mas também muito atento, fazer as sinapses, as conexões entre tudo que está acontecendo na área cultural. (...) Quando entrei na [editora] Civilização [Brasileira], em 1978, havia pouco diálogo entre as áreas, os livros “apareciam” na minha mesa e ninguém sabia de onde saíam. Os editores vinham da Sociologia, História, Letras. Mas na década de 1990, na época de Frida Kahlo, havia muitos jornalistas migrando para o editorial. E jornalista é assim, tem agilidade, faz pauta, sabe quem pode escrever sobre um determinado tema, vai atrás de uma informação. Coisas que faltavam no mercado, para o qual a entrada dos jornalistas trouxe um novo fôlego. E uma curiosidade: a entrada de mulheres como editoras, em cargos de comando. (p. 123-124)
 
Eu sou principalmente um literato (poeta, contista, romancista) mas já trabalhei em jornal, estudei fugazmente num curso de Ciências Sociais, e sempre achei que o mercado editorial deveria servir a todos estes senhores. A Literatura é vista por uns como uma aristocracia do espírito, por outros como a prima pobre cuja fama se esgota na noite do coquetel. O(a) editor(a) tem que ter essa visão de perceber as diferentes frequências-de-onda de um livro de poesia e um tratado sociológico, de uma antologia de contos e uma biografia, de um romance e um livro de história do cinema. Não se pode tratar tudo isto com os mesmos modelos estatísticos, como se fossem creme dental ou cerveja.
 
Acho o olho jornalístico tão importante quanto o olho científico, o olho entretenimento, o olho show-business e muitos outros, porque em toda área existe a possibilidade de descobrir um livro novo, um livro bom, um livro que vai trazer uma nova voz, um novo enfoque. Não existe só a alta literatura. Existe o livro de boa qualidade, que não vai ser best-seller, mas que vende.
 
A presença de mulheres no mercado editorial é muito um fenômeno da nossa geração. Há muitas editoras (mulheres) que publicaram livros meus, e nesse “publicar” está incluído ler, avaliar, sugerir, mexer, questionar, fazer alertas, propor, dar forma final, divulgar. 

Posso estar esquecendo alguém, mas já tive livros meus editados por Andréa Mota (Pirata), Maria Emilia Bender (Brasiliense), Vivian Wyler (Rocco), Valéria Gauz (Biblioteca Nacional), Bia Bracher (34), Martha Ribas (Casa da Palavra), Clotilde Tavares (Engenho e Arte), Maria Amélia Mello (José Olympio), Renata Nakano (Casa da Palavra), Fernanda Cardoso (Casa da Palavra), Inez Koury (Bagaço), Lucinda Azevedo (Imeph), Sandra Abrano (Bandeirola)... Minha gratidão a todas, pela paciência e clarividência. 
 
Isto sem falar nas que me guiaram em mil outros trabalhos, como redator e tradutor. Algumas, em casas editoriais gigantes, outras em editoras da sala-de-visitas; não importa. 

E não se pense que não tive (e tenho) excelentes editores, talvez até mais numerosos. Far-lhes-ei a devida vênia no melhor momento.  São meus parceiros, eles e elas. Sempre que um leitor argumenta algo comigo nos termos de "Ah, mas o livro é seu", respondo: "O que é meu é o texto; o livro foi a editora que fez". O processo é sempre o mesmo: “isto aqui é bom, vale a pena gastar dinheiro para imprimir cópias numa gráfica e tentar vendê-las ao povo”. 

Existe um “olhar feminino”, um “radar feminino” na escolha e publicação de livros? É bem capaz, mas não me arrisco a defini-lo. Minha teoria básica é de que no plano literário tudo que um homem é capaz de pensar uma mulher também pode, e vice-versa. Para além disso, entram as histórias pessoais, as sensibilidades individuais, as leituras e experiências – que são sempre únicas, são só da pessoa. 



O bom é quando vem a encomenda, como no dia em que Maria Amélia me mandou um email pedindo um livro sobre Ariano Suassuna, que escrevi em dois meses. O ABC de Ariano Suassuna (José Olympio, 2007) não é um estudo aprofundado sobre o criador de Quaderna, mas me parece uma boa introdução ao universo variado e intenso que ele criou. 
 
Diz a editora:
 
Este “novo” editor participa das pautas, das vendas, do marketing, da divulgação, ou seja, de todo o processo. Nós fazemos, muitas vezes, até o preço do livro, pois quanto mais falamos em letras mais nos preocupamos com números. Esse diálogo é saudável, pois assim é possível encontrar o melhor momento para publicar um livro, lançando mão de ferramentas de outras áreas. Existe também a relação com sites, blogs, tecnologias, como as de printing on demand, que vêm ganhando espaço. Tudo para acertar mais nas escolhas, enxugar custos, evitar estoques e focar melhor. (p. 172-173) 
 
Eu tenho a sorte de poder publicar constantemente (um amigo meu diz que eu tenho mais títulos publicados do que exemplares vendidos). E sempre vejo no editor um parceiro de criação. O editor é o primeiro leitor de um livro, e mesmo que uma sugestão dele não seja aceita pelo autor, ela revela uma maneira-de-ler-aquilo para a qual o autor precisa estar atento. 
 
No fim das contas, o trabalho criativo de um editor é como o do antologista, função que exerço de vez em quando. É ficar atento para as coisas boas que aparecem ao longo das leituras, da vivência, das conversas. Perceber a qualidade e a novidade que há em cada uma, o toque diferente, relevante. Anotar muito, fazendo aproximações por diferentes associações de idéias (“isto aqui dá certo junto com aquilo”). Redescobrir coisas boas esquecidas; revelar coisas boas que acabaram de surgir. Compor, com obras alheias, uma vitrine capaz de revelar uma visão própria. 
 
Editar um livro é tratá-lo com mão de jardineiro para que ele floresça. (p. 172) 
 
 







sábado, 27 de maio de 2023

4946) Os virunduns e os mondegreens (27.5.2023)




Sérgio Rodrigues, jardineiro do idioma, publicou há pouco tempo um artigo (“Scooby-Doo dos sete mares”) sobre a importância do “virundum”, uma criação cultural que, tal como o futebol, não teve origem no Brasil mas foi devidamente digerida e reinventada. 
 
O “virundum” é o equivalente brasileiro do “mondegreen” norte-americano: a interpretação distorcida de um verso de música popular, gerando uma frase levemente absurda e em geral muito engraçada.
 
Já comentei aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2009/06/1100-mondegreens-na-mpb-2492006.html
 
Li o artigo com certo atraso, porque não assino a Folha de São Paulo, e para ler os textos dos meus articulistas preferidos dependo sempre de uma alma caridosa que os copie e pregue nas paredes comunitárias de uma rede social qualquer. Viva o dazibao controlvê. 
 
Sérgio defende a importância do virundum como uma fonte inesgotável de prazer dadaísta e alegria poética: 
 
Sim, na terra em que brotou o clássico indiscutível "trocando de biquíni sem parar" (por "tocando B.B. King sem parar", verso da canção "Noite do Prazer", da banda Brylho), a produção de virundums é tão vasta quanto variada.
 
Há quem aprecie a precisão onomástica de "Meu filho Válter Gomes dos Santos/ que é o nome mais bonito" ("Pais e filhos", Legião Urbana) e quem prefira o clima lisérgico de "Ao sair do avião/ Judy pisou num ímã" ("Açaí", Djavan).
 
Os exemplos citados são muitos, e os vários que eu não conhecia romperam minha casca espessa de mau-humor matinal, e me fizeram soltar a gargalhada de quem reencontra o prazer de estar-no-mundo.
 
O “virundum”, registra Sérgio, foi criado pela turma do Pasquim para ironizar o “Ouviram do...” que inicia o nosso hino pátrio. É muito comum a gente ouvir uma música à distância, num rádio ou TV, nm ambiente ruidoso, e entender mal certos versos. Os psicólogos estudam há muito esse processo em que identificamos os sons mais pelo contexto do que pela escuta em si. Ao ouvir mal o que outra pessoa diz, nossa mente pensa algo como “se ele está falando de tal-e-tal assunto, essa palavra que não entendi deve ser X ou Y”. Vamos preenchendo com a opção mais lógica.
 
Quando estamos em país estrangeiro, conversando em outra língua, esse processo é turbinado o dia inteiro.
 
O que há de interessante na arte do virundum é que ela começou com erros involuntários e se transformou numa distorção proposital. Uma guerrilha poética dadaísta. Pessoas portadoras do gene neurótico do trocadilho dedicam-se a inventar por conta própria essas torções num versinho inocente e disponível. E na primeira oportunidade, numa roda de violão ou numa platéia de show, mandam seu virundum a plenos pulmões.
 
Por que?
 
Eu penso que um dos processos essenciais – na invenção poética; na criação artística em geral; mais amplamente ainda, no uso coletivo da linguagem; e quem sabe até no universo mais micro-amplo das sinapses neuroniais – é a possibilidade de dar sentidos diferentes ao mesmo conjunto de estímulos.

Os psicólogos usam como exemplo básico desta processo a imagem do cubo transparente, cujas quinas podem ser vistas mais próximas ou mais afastados do nosso olho, por uma decisão e um esforço consciente de nossa parte.


Claro que é importante haver algumas coisas que só podem ser lidas de uma única maneira, irredutivelmente. Isto é muito útil quando precisamos ter certeza absoluta sobre algo. A Ciência busca isso o tempo todo, num universo repleto de dados contraditórios, fugazes, heterogêneos, em-mudança-constante. A gente precisa poder de vez em quando se apegar a algo com um suspiro de alívio, de olhos fechados, cheios de confiança.

Mas justamente pelo fato de nossa percepção do Universo – e da Linguagem – ser assim, é importante sabermos lidar com as formas ambíguas, indefinidas, contraditórias, mutáveis, estatisticamente imprevisíveis. Porque o mundo é feito basicamente delas.
 
Como usar isso literariamente?


 
Isaac Asimov dizia que seus contos policiais da série “Black Widowers” se baseavam geralmente num detalhe: na história há algo que pode ser visto de duas maneiras, todo mundo vê do jeito errado, e seu detetive, Henry O Garçom, vê do jeito certo. 
 
Ser capaz de ouvir uma frase de duas maneiras é um exercício de imaginação, um exercício de uma função mental que nos obriga a atribuir um sentido, ou um segundo sentido, a alguma coisa. Como a pareidolia, que nos faz ver rostos humanos em formas aleatórias. 



(foto: Jeroen Schipper)
 
Vou recorrer ao meu lugar-comum de sempre, o Surrealismo. Salvador Dali empregava o método que ele chamava de “paranóia crítica” em seus quadros, criando imagens que podiam ser vistas de diferentes maneiras. 
 
Diz Dali em La Femme Visible, 1930 (citado em Maurice Nadeau, Histoire du Surréalisme, 1945, trad. BT):
 
Trata-se de especular com ardor sobre essa propriedade do devir ininterrupto de todo objeto sobre o qual se exerce a atividade paranóica, também chamada ‘atividade ultra-confusional’, que tem sua origem na idéia obsessiva. Esse devir ininterrupto permite ao paranóico, que o testemunha, considerar as próprias imagens do mundo exterior como instáveis e transitórias, para não dizer suspeitas, e ele tem o preocupante poder de permitir aos outros que verifiquem a realidade de sua impressão. 
 
O paranóico é alguém que impõe um excesso de interpretação a fatos banais. Às vezes bastam uma buzina de carro na rua e o barulho do elevador para ele imaginar que agentes da CIA ou da KGB estão se encaminhando para sua porta. 
 
Dali usa a consciência de que os fatos em si estão em mudança incessante (“devir ininterrupto”) e que cabe ao artista impor seu olhar, seu desejo, sua interpretação sobre esse torvelinho em perpétuo movimento. Apontar para uma nuvem e dizer: “Aquilo é um navio a vela”. 



(Salvador Dalí, “Slave Market with Disappearing Bust of Voltaire”, 1940; no Dali Museum, St. Petersburg, Florida)


É apenas a prática deliberada do processo que nos faz (como já me aconteceu) ver na parede um lambe-lambe da banda “Sorriso Maroto” e ler, de relance, “Sobrado Mardito”. 
 
Esse processo criativo, imaginativo, tem a mesma origem que o virundun, o mondegreen: a leitura errônea, proposital, de uma realidade que todos veem de um jeito e que o poeta, esse corruptor de rotinas linguísticas, consegue ver de um modo distorcido, novo, inesperado, hilário, surrealista.
 
 





quarta-feira, 24 de maio de 2023

4945) Cinco começos Bulwer-Lytton (24.5.2023)


O Prêmio Bulwer-Lytton é concedido anualmente a quem apresentar o pior começo de romance, o mais mal-escrito possível. Criar começos assim acabou se transformando num passatempo para escritores, uma espécie de demonstração prática de "como não escrever". 


1

“Never Say I Don’t Know”, de Barbara Scanlan.

“Em todo o Hemisfério Ocidental (e por que não dizer, também no Oriental) milhões de mulheres suspiravam à noite ao serem assaltadas não por assaltantes propriamente ditos, mas pela fantasia de um dia viverem a vida de Tabatha Westinghouse, e de estarem em seu lugar quando ela percorria em seu Rolls Royce (no banco traseiro, evidentemente) as avenidas mais chiques de Paris e Londres, duas cidades onde ela provavelmente não poderia caminhar na calçada sem ser abordada de forma álacre e incrédula justamente por essas mulheres que acompanhavam religiosamente sua vida pelas colunas sociais dos tablóides sensacionalistas dos dois hemisférios, sem saberem, distanciadas que estão, que nem toda vida de mulher de milionário é o mar de rosas ou o colchão de plumas que é descrito nos tablóides, mas que uma vida como esta, como mostraremos a partir das próximas páginas, é composta também, em grande parte, de momentos, dias e anos de renúncia, de angústia, de tensão, e por que não dizer do sonho de se tornar novamente aquela menina camponesa que saltitava alegremente nos prados da fazenda onde foi criada, antes de se tornar a adolescente que lia tablóides e em seguida, num golpe do Destino que também não nos furtaremos de narrar, em Tábatha Westinghouse, a esposa e futura única herdeira do império de Benjamin Westinghouse, o maior fabricante de fraldas geriátricas de todos os hemisférios.”


2

“Tough Guy At Large”, de Skip Driscoll

"Ele estava sentado no chão, apoiando as costas na parede. Arfava. O sangue lhe escorria pelo queixo, pelo pescoço, empapava a gravata de seiscentos dólares. “Vamos”, disse eu, só para dizer alguma coisa, “diga alguma coisa”. Ele mexeu a boca, mexeu, mexeu, cuspiu um dente e rosnou: “Diga a Morello que ele me matou de graça, porque não vou entregar ninguém.” “Não matamos você ainda”, ripostei de pronto. “Você vai morrer bem devagarinho, enquanto entrega todo mundo.” Ele olhou para a mesa. Havia uma automática sobre a mesa. A três metros. Ele não poderia dar um salto de três metros do lugar onde estava, mas mesmo assim fiquei de olho. Ele era guarda-costas de um mobster, e um sujeito não se torna guarda-costas de mobster sendo bobo. Pelo menos é o que acontece na maioria dos casos."



3

“Saudação ao Crepúsculo”, de Anastácio Dalemberte.

"Longas são as noites de primavera quando a atmosfera inteira parece se impregnar do perfume das flores recém-desabrochadas, que, tímidas, abrem-se para o mundo cheias de delicada expectativa de todos os seres que veem na vida um cumular de sensações extasiantes, e se preparam para toda uma existência consistindo apenas no dar perfume e receber adoração. Sim, nessas noites de primavera tudo é possível! Todos os desejos parecem maduros a ponto de serem concretizados, os sonhos transpõem o limiar do real, e todo esse frêmito de nova vida que ressurge está vibrando ao diapasão – não, não recuemos diante desta palavra sagrada – ao diapasão do Amor." 


4

“O x”, de Pietro Barbieri

"A página. A página branca, retangular. Fita-me com seu vazio. Incita-me com sua disponibilidade. Provoca-me com a sua nitidez. Tudo é possível diante da página em branco. E ao mesmo tempo tudo é impossível. Qualquer começo é impossível, no feixe de virtualidades que se superpõem e que mutuamente se cancelam. A página tudo aceita, e ao mesmo tempo tudo proíbe. A página é um reflexo desta minha existência, destes meus 27 anos dedicados mais a ler que a viver, e talvez por isto mesmo ela me lance o desafio, o desafio esfíngico, de me propor mudamente: É isto que queres –  escrever? Por que não vais viver, tu que viveste tão pouco? E no mesmo impulso eu sinto a resposta brotar de dentro de mim: Não, não quero viver, porque viver é um ato filosoficamente gratuito, como já foi demonstrado à saciedade por outros filósofos; eu quero escrever, para provar que escrever me justifica. Página, estás prestando atenção?! " 


5

“Guerra nos Planetas” de J. Wilson Perdigão

"O sistema solar de 47-XFK-38 estava em polvorosa com a notícia, divulgada minutos antes pelos principais meios de comunicação, de que uma Frota Estelar composta de onze torpedeiros, doze naves logísticas, doze naves-mães e vinte e cinco espaçonaves leves de tiro rápido próprias para se locomoverem com rapidez e agilidade numa atmosfera semelhante à da Terra estava se aproximando. As intenções eram visivelmente hostis, visto que foi rapidamente confirmado pelos observadores nos telescópios que era uma frota Remulana, país com que o sistema solar estava em guerra há vários anos, e bastou isso para que soasse em todos os planetas o sinal de alarme e os soldados conscritos que estavam de sobreaviso para qualquer emergência fossem rapidamente arregimentados para pilotar a frota de defesa. A galáxia se preparava para contemplar uma batalha nunca jamais vista! " 

 

 (Ilustrações produzidas com o software de Inteligência Artificial "Bing".