sábado, 12 de março de 2022

4802) Creio em Deus porque é absurdo (12.3.2022)




Eu discuto política, religião, futebol... discuto qualquer coisa. O que eu não discuto são os gestos totalizadores da vontade. Eu não discuto o que é questão de fé pessoal.
 
Um gesto totalizador da vontade é quando decidimos professar uma crença absoluta, um amor absoluto, uma obediência absoluta ao que quer que seja. É um gesto “totalizador” por causa desse caráter pessoal, “de foro íntimo”, incondicional, que nos faz crer numa religião, numa doutrina política. E que, num plano mais restrito, nos faz amar uma pessoa. Ou, num plano mais superficial, torcer por um time de futebol, ser fã de um artista...
 
Por que não discuto? Porque discutir significa tentar ver algo pelo lado de fora, e quando uma pessoa executa esse gesto (crer num Deus, ter uma ideologia, etc.) é como se não existisse mais a possibilidade de um “lá fora”. Aquela crença permeia tudo, impregna tudo. Ela explica e justifica, ou explica e condena, cada gota dágua, cada grão de areia.
 
Não discuto porque discutir significa tentar decompor essa crença em seus elementos: os argumentos que a justificam, as provas (mesmo provas meramente verbais, meramente retóricas) que a confirmam. Para quem tem fé absoluta em alguma coisa, essa fé é indivisível como um número primo. Não é composta de fatores que podem ser isolados, e depois analisados separadamente. Não há fatores. Não há argumentos. É algo totalizante.
 
Há uma famosa frase da tradição religiosa, “credo quia absurdum”, que vem sendo discutida há séculos pelos exegetas. Não entrarei aqui nos labirintos latinos e teológicos, mas comentarei a frase como ela é, hoje, percebida em português, pelas pessoas de hoje.
 
Por muito tempo imaginei que essa frase, uma justificativa frequente da fé religiosa, queria dizer algo como “Eu acredito nisso, mesmo que isso pareça absurdo.” O que do meu ponto de vista, aos quinze ou vinte anos, fazia sentido. Eu também acreditava em coisas que pareciam absurdas aos adultos da época. Não me era difícil ficar alternadamente tanto na posição dos que creem quanto na posição dos que ficam atônitos.
 
Depois, fui direto às fontes e me explicaram que não é bem assim. É o contrário: “Eu acredito nisso, justamente porque é absurdo”. É por ser absurdo que eu creio. Se fosse uma coisa lógica, eu não precisaria acreditar: bastaria prová-la com dois ou três silogismos.
 
E é engraçado, porque esse argumento aparentemente contraditório me pareceu mais forte do que o anterior. Porque ele se refere a outro tipo de crença. É a crença dos iluminados, dos que um dia são fulminados por um raio de compreensão e esse raio não se extingue dentro deles.
 
Há os que são convertidos a uma causa pela razão, pela lógica, pelos argumentos, pela força da persuasão alheia. E há os que vêm cavalgando pela Estrada de Damasco e são fulminados pelo relâmpago da Fé.


(“A Conversão de São Paulo”, Nicolas-Bernard Lepicie, 1767)
 
Como explicar isso? Não sei, só sei que é assim. E é porque é assim (dizem os crentes) que eu creio. Ninguém precisou me convencer. Ninguém me fez escalar degrau por degrau, lição por lição, apostila por apostila, até um dia chegar no alto da montanha. Eu vinha andando na rua, de repente houve um clarão e eu estava no alto da montanha, “e a Verdade se desvelou para sempre diante dos meus olhos”.
 
Vai se discutir o quê com uma pessoa como essa?
 
A fé filosófica ou religiosa não se distingue muito, nesse aspecto, de outras revelações que podemos comprovar de forma experimental, em laboratório. As descobertas científicas brotam às vezes do Inconsciente (olha aí, já é uma tentativa de decompor o relâmpago).
 
Alguns exemplos são clássicos. O cientista passa meses ou anos pesquisando uma coisa, sem resultado, e um belo dia está fumando charuto numa poltrona ou subindo no ônibus, e zapt! – a resposta brota prontinha em sua mente, armada da cabeça aos pés como a deusa Palas-Atena.
 
Em casos assim, é possível mostrar que houve uma pré-elaboração dessa idéia, ela não “caiu do céu”. Não é maluquice presumir que as faculdades analíticas da mente possam ficar “rodando” como aplicativos, fora da consciência, enquanto o cientista almoça, bota os filhos pra dormir, dá aula, joga xadrez com os colegas, troca afagos com a consorte.
 
O programa está rodando, caladinho, à sorrelfa, está checando caminhos, experimentando outras variáveis. Um belo dia, zapt! – aparece uma resposta, o cientista tem um sobressalto, e voilà!...
 
Um livro muito útil a respeito desse processos é The Psychology of Invention in the Mathematical Field (1943), de Jacques Hadamard.



Voltando à fé religiosa: talvez não seja despropositado imaginar que esse é um domínio onde iluminações desse tipo possam acontecer com maior frequência, até porque não precisam ser demonstradas mediante cálculos matemáticos ou experiências de laboratório, como ocorreu com as iluminações de Isaac Newton, Einstein, Descartes, Poincaré, Kékulé e tantos outros.
 
Os raios da fé religiosa dificilmente desabam no senador da república ou na verdureira da quitanda, que têm outras preocupações. Desabam em mentes já envolvidas com questões religiosas ou existenciais mal resolvidas, desabam em pessoas que passam noites em claro, com o juízo bouleversado, tentando fazer sentido das experiências de sua vida. Essas pessoas são pára-raios prontinhos para atrair o relâmpago da fé. (Que, sempre é bom lembrar, não cai do céu – cristaliza-se no inconsciente, e com tal força que emerge, de baixo para cima.)
 
Quando o crente diz “acredito justamente pelo fato de ser algo absurdo, inacreditável”, está dizendo, por um lado, que o que pudesse haver de análise, exame, avaliação, já foi feito pelos aplicativos do seu Inconsciente, nos quais ele instintivamente confia.
 
Por outro lado, está dizendo que essa crença não é o resultado de uma operação lógica, mas um gesto da Vontade. Acredito porque decidi acreditar. Acredito porque tudo que me mobiliza intelectualmente e emocionalmente me disse que acreditasse “sem discutir”.
 
Não é muito diferente de muitos exemplos do “amor romântico”, essa outra divindade onisciente, onipotente e onipresente em nossa cultura. Claro que a maioria dos apaixonados encontra laudas e laudas laudatórias para se justificar: ela é linda, é inteligente, é carinhosa, tem caráter, tem bom coração, tem rosto formoso, corpo bacana, é de boa família, se veste bem, gosta dos Beatles, torce pelo meu time... Argumentos nunca faltam, e mesmo que faltassem à donzela todas essas qualidades aí, o romeu acharia outras, igualmente importantes.
 
A raiz do fenômeno pode ser investigada melhor naqueles casos “quia absurdum”, em que o desafortunado se rói de paixão e ele mesmo comenta: “não sei que diabo está acontecendo comigo, isso não pode dar certo nunca.”  Ou (como cantavam os Beatles), “I don’t like you but I love you; I don’t want you, but I need you” (“You’ve Really Got a Hold On Me”, de Smokey Robinson).
 
– Mas John Lennon, essa mulher é muito feia!  
– É feia mesmo que eu gosto.



(foto: Susan Wood)
 
Um crente religioso sincero passa por um processo semelhante. Crer em Deus é uma iluminação totalizadora, que nem sempre brota da Vontade, no sentido da intenção original (veja-se o caso de São Paulo, o típico perseguidor que se converte à fé dos perseguidos), mas é encampada por ela no momento em que o intelecto orgulhoso abaixa a cabeça diante de uma certeza que seus raciocínios nem sonham em abarcar.
 
Como discutir com alguém assim? Como tentar convencê-lo de que o Deus dele não existe, de que o ideal político dele é falacioso ou historicamente datado?
 
Notem que estou me referindo aos sinceros, e não aos bilhões de zumbis que aceitam aquele credo como teriam aceitado outro qualquer, desde que lhes fosse imposto nas mesmas circunstâncias da vida e por meios semelhantes.
 
“Acredito porque é absurdo”, porque diante do absurdo só existem duas reações possíveis: a rejeição prudente ou a aceitação total.








quarta-feira, 9 de março de 2022

4801) Os assassinatos políticos (9.3.2022)



 
(Gabriel Garcia Márquez)
 
Escrevi dias atrás sobre o assassinato do primeiro ministro da Suécia, Olof Palme, ocorrido em 1986. Até hoje não se sabe com certeza quem foi o homem que o alvejou após a última sessão de um filme, por volta das 23:30, quando ele se dirigia com a esposa para o metrô.
 
Palme estava sem a proteção de seguranças. Era um dia comum de inverno, ruas nevadas e com poucos transeuntes. Um homem o seguiu por alguns metros. Quando o casal parou numa esquina, o cara chegou mais perto e disparou um tiro de revólver em cada um. A esposa foi ferida de raspão; Palme morreu minutos depois.
 
Aqui, sobre a série:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/02/4797-o-assassinato-de-olof-palme-2422022.html
 
A série Assassinato de Olof Palme (Netflix) reconstitui ficcionalmente o caso, denunciando um suspeito. Um detalhe que chama a atenção desde o início é que havia poucas pessoas em volta, os depoimentos às vezes se contradiziam, e tudo parecia beneficiar o criminoso.
 
Alguém pode pensar: "O melhor momento para um crime como esse, então, é tarde da noite, rua quase deserta, pouca gente em volta..."
 
Nem sempre. Me veio logo à lembrança outro assassinato político famoso e não explicado de forma 100% satisfatória. 

Esse crime foi testemunhado de perto por Gabriel Garcia Márquez, que o reconta em suas memórias (Vivir Para Contarla, Bogotá, Editorial Norma, 2002). Infelizmente o livro de Márquez não tem subdivisão em capítulos, mas os textos que vou citar estão da página 330 em diante (não tenho em mãos a tradução brasileira).
 
A Colômbia vivia em 1948 uma campanha presidencial num momento de extrema tensão e violência política. Márquez lembra uma tourada, em Bogotá, em que o toureiro demorou tanto a liquidar o touro que a torcida desceu das arquibancadas e esquartejou vivo o animal.



(Jorge Eliécer Gaitán, 1903-1948)
 
Um dos protagonistas políticos mais importantes era Jorge Eliécer Gaitán, líder da oposição de esquerda, que fazia discursos inflamados contra os opressores, as elites, a violência do governo, etc.  No dia 9 de abril de 1948, ele saiu em grupo para almoçar num restaurante no centro de Bogotá, a pé, cercado por meia dúzia de amigos e correligionários.
 
Garcia Márquez tinha nessa época 21 anos e era estudante; estava almoçando a três quadras dali, na pensão onde morava, quando alguém entrou correndo e gritou:
 
– Agora o país se fudeu mesmo! Acabam de matar Gaitán, em frente a "El Gato Negro".


(Garcia Márquez jovem)
 
Márquez saiu voando. No local do crime, homens agachavam-se, tiravam o lenço e o encharcavam na poça de sangue, para guardar como souvenir. O agressor havia se refugiado numa farmácia, cujo dono correu as portas, mas a multidão já fazia de tudo para botá-las abaixo. E Márquez, olhando tudo, recorda:
 
Um homem alto e muito senhor de si, com traje cinza impecável, como se estivesse indo para um casamento, os incitava com gritos bem calculados. (trad. BT)
 
GGM tem olho de jornalista e descreve o momento em que o dono da farmácia, apavorado, entregou à polícia o fugitivo.
 
Tinha o cabelo revolto, uma barba de dois dias e uma palidez mortal, com os olhos sobressaltados pelo terror. Seu traje era de pano marrom, de um tipo muito usado, com listras verticais; a gola já estava rasgada pela multidão. Foi uma aparição instantânea e eterna, porque os engraxates o arrancaram das mãos dos guardas a golpes de caixotes e o derrubaram a pontapés. Nos primeiros sopapos já havia perdido um pé de sapato.


(O crime foi mais ou menos aqui, na 
esquina de Av. Jiménez com Carrera 7)
 
O criminoso foi depois identificado como Juan Roa Sierra, um indivíduo insignificante do ponto de vista político, um “pawn in their game” da estirpe de Lee Harvey Oswald. O homem de cinza, sempre próximo, começou a gritar: “Ao palácio!... Ao palácio!...”  O corpo ensanguentado do pistoleiro foi arrastado rua afora, e ficou exposto diante do Palácio Presidencial. Diz o escritor:
 
O cadáver desfigurado a golpes ia deixando pedaços de roupa e do corpo nas pedras do calçamento. (...) Ali deixaram o que sobrou do cadáver, sem outra roupa senão os farrapos da cueca, o sapato esquerdo e duas gravatas inexplicáveis ao pescoço.
 
Para mim, são esses pequenos detalhes absurdos que conferem verossimilhança a um relato.  Conheço o estilo de Garcia Márquez o bastante, e creio que, para ele, inventar um detalhe assim seria um clichê banal, mas vê-lo no mundo real e registrá-lo é pura literatura de não ficção. (A segunda gravata é ligeiramente plausível, se imaginarmos que um dos linchadores achou mais prático tirar a própria gravata e usá-la para arrastar o corpo do linchado pelo pescoço.)

E ele relata:
 
Permaneci no lugar do crime uns dez minutos mais, surpreendido pela rapidez com que as versões das testemunhas iam mudando de forma e de conteúdo  até perder qualquer semelhança com a realidade.
 
Márquez faz um relato cheio de citações. Pessoas presenciaram o instante em que um correligionário do grupo de Gaitán, Plínio Mendoza Neira, o tomou pelo braço, quando caminhavam de volta do restaurante, para fazer-lhe um pedido, e viu quando o candidato ergueu o braço diante do rosto, num reflexo instintivo de defesa, antes de receber os três tiros na cabeça que o abateram.
 
E o escritor conclui:
 
Cinquenta anos depois, permanece nítida na minha memória a imagem do homem que parecia instigar o populacho em frente à farmácia, e não vi referências a ele em nenhum dos incontáveis testemunhos que li sobre aquele dia. Eu o vi muito de perto, elegantemente vestido, uma pele de alabastro e um controle milimétrico de cada gesto que executava. Tanto me chamou a atenção que fiquei de olho nele até que o recolheram num automóvel novinho em folha, com a mesma rapidez com que estava sendo levado embora o corpo do assassino; e desde então parece que ele foi apagado da memória histórica. Inclusive da minha, até muitos anos depois, em meus tempos de jornalista, quando me assaltou de súbito a noção de que aquele homem havia dado um jeito para que matassem um falso assassino, a fim de proteger o verdadeiro.
 
No crime de Olof Palme, a polícia sueca montou maquetes com bonequinhos, reconstituindo os passos da meia dúzia de pessoas que estavam naquele pedaço de quarteirão quase deserto. Nem isso lhe valeu. Já na morte de Gaitán, a polícia da Colômbia chegou ao local do crime segundos depois, mas o tumulto era tal que até hoje ninguém conseguiu deslindar as pistas. E o fato de que o possível criminoso foi linchado sem demora serve como uma espécie de “vire a página”, em muitos casos assim.
 
Além do mais, se é de fato um crime planejado por uma equipe, e não o gesto impulsivo de um maluco, não faltarão bodes expiatórios, indivíduos suspeitos que terão sido mandados para o local pelos “chefes” sem saber exatamente o que se espera deles, testemunhas com história pronta que rapidamente oferecerão seu despiste às autoridades.
 
Fico imaginando o quanto essa lembrança do “Homem de Cinza” deve ter incomodado Garcia Márquez durante a vida inteira. Por ironia, ele teria sido o único a ver o instigador direto do crime e a desconfiar dele, e nem o fato de ter se tornado um dos escritores mais famosos do mundo fez com que alguém um dia lhe desse ouvidos.
 
 







domingo, 6 de março de 2022

4800) Cinco fugas da prisão (6.3.2022)



1
Em 1956, vinte prisioneiros de uma ala especial da antiga prisão estadual de Hortendorf (em Klagenfurt, Áustria), conseguiram abrir por baixo de suas celas um túnel que se alongou por mais de cem metros na direção da floresta vizinha. Na noite da fuga, o nervosismo e o alvoroço levaram os fugitivos a derrubar algumas das escoras que mantinham o túnel de pé, e o terreno, já enfraquecido pelos meses de escavação constante, cedeu no interior do túnel, desmoronando na galeria de esgotos que ficava por baixo, e cuja cobertura de pedra elas tinham sido incapazes de perfurar. Todo o piso daquela ala afundou mais de dez metros no subsolo, rachando o terreno, fazendo desabar a torre de vigilância mais próxima, e com isto provocando um circuito na cerca eletrificada e um incêndio que consumiu duas alas maiores antes de ser apagado pelos bombeiros. Dos vinte fugitivos que estavam no túnel, dezessete morreram soterrados, mas durante o caos e o pandemônio do incêndio cerca de duzentos outros conseguiram fugir.
 
2
Em maio de 1844, na prisão da Santé, em Paris, o frade franciscano Jacques Beaurevert, autorizado pelo capelão da cadeia, foi admitido ao calabouço onde se achava trancafiado o notório ladrão Paul Riennes, cuja execução estava marcada para a semana seguinte. Ali, ouviu-lhe a confissão, absolveu-o e retirou-se murmurando bênçãos aos guardas que o conduziram de volta à rua. Duas horas depois, na ronda em que era servido o rústico bandejão dos presos, qual não foi a surpresa dos carcereiros quando descobriram, envergando o uniforme listrado de detento, o próprio frade de quem haviam se despedido pouco antes. Foi dado o alarma, inutilmente, e sob pesado interrogatório o frade explicou que havia sido hipnotizado – palavras que os oficiais da Santé desconheciam, mesmo já estando em circulação pelo menos desde 1620 o termo “hypnotique” para designar algo capaz de causar o sono, mas no idioma inglês o Dr. James Braid introduzira, apenas um ano antes, o termo “hypnotism”, para indicar “um tipo de transe induzido”. As autoridades concluíram que a história estava muito mal contada, e o fato oficial é que “Paul Riennes” foi executado na hora prevista, e sepultado às pressas.
 
3
A prisão federal de segurança máxima de Umlazi (África do Sul) mantém um corpo permanente de 85 guardas que se revezam em turnos, na vigilância de 64 prisioneiros. Revistas são feitas diariamente nas celas, em horários aleatórios. Comportamentos suspeitos fazem com que os guardas obriguem os prisioneiros a mudar de cela inesperadamente. Sensores sismológicos estão instalados em todas as paredes, e são semanalmente checados pelos guardas. As cercas são eletrificadas, com equipes de três guardas em cada torre, e há câmeras de monitoramento 24h, controladas por meio de duas centrais independentes, com patrulhas sempre a postos. Revistas médicas minuciosas são feitas nos presos, todos os meses, em datas e horários imprevisíveis. Um prêmio em dinheiro está permanentemente oferecido a quem ajudar na captura de algum preso foragido. E ainda assim, nas duas primeiras décadas deste século nada menos de dezoito guardas conseguiram fugir da prisão, fato que deixa as autoridades compreensivelmente perplexas.
 
4
Em 1735, o notório pirata Giancarlo Mezza Gamba, após uma incursão mal sucedida, caiu prisioneiro da fragata inglesa “Sparrow Song”, em cujo porão foi trancafiado, depois de ter correntes amarradas à cintura, e grilhões atados aos pés. Com 22 homens na tripulação para vigiá-lo, sendo três em guarda permanente no alçapão que dava acesso ao porão, imaginou-se que estariam em segurança durante os dois dias de viagem de volta a Portsmouth, onde o bucaneiro seria entregue às autoridades. Um dia e meio apenas foi bastante para que ele (deduziu-se depois, a partir das declarações dos sobreviventes) conseguisse apossar-se de uma haste metálica arrancada de um baú, e com ela escavar as ranhuras entre as tábuas do fundo, afrouxando-as, arrancando-as dos pregos; contou também com a tempestuosa noite final da véspera de sua planejada chegada a Portsmouth, para fazer com que parte inferior da fragata cedesse parcialmente, fizesse água, fosse ao fundo em pleno clamor da tormenta com trovões e relâmpagos, sendo que Mezza Gamba conseguiu, mesmo acorrentado, escapar para o meio das ondas, agarrar-se a um barril vazio e assim boiar durante vários dias até dar na costa irlandesa, onde foi reconhecido por um grupo de patriotas, dos quais tornou-se instantaneamente um herói ao explicar como conseguira afundar a fragata do capitão “Hook” Mulvaney, notório perseguidor daqueles patriotas rebeldes.  
 
5
Em Austin (Texas), em maio de 1995, um professor de matemática, apelidado pelos seus alunos The Human Computer, apostou com o editor de um programa de TV local que seria capaz de fugir de uma prisão de segurança máxima. Foi-lhe oferecido um prêmio de 10 mil dólares caso ele conseguisse, com a condição de que cada hora por ele efetivamente passada dentro da prisão diminuiria 1 dólar do total do prêmio. Quando se completou um ano, a emissora de TV consultou o professor para saber se ele queria dar a aposta por encerrada e receber o saldo remanescente do prêmio, que a esta altura tinha minguado para cerca 1.240 dólares, mas, teimoso que era, ele insistiu em continuar. O professor continua preso, e teve que vender seu apartamento para pagar a dívida dos 26 anos passados em sua cela.
 
 
 
 
 








quinta-feira, 3 de março de 2022

4799) Os Revenantes, os fantasmas modernos (3.3.2022)




Escrevo de vez em quando sobre fantasmas, não porque acredite neles, mas justamente porque, não acreditando, fico incrível com a persistência desse visionarismo cultural em todos os tempos, em todas as culturas.
 
Na literatura de ficção, a história de fantasmas (ghost story), mesmo sendo tão sujeita a repetições e uso de fórmulas, oferece infinitas possibilidades dramatúrgicas. (Uso “dramaturgia” no sentido mais amplo de “criação de narrativas”; não necessariamente para o teatro.)
 
A principal limitação para a história de fantasmas, pelo meu juízo, é o fato de que a raiz da maioria delas é uma raiz meramente religiosa: a crença de que cada pessoa tem uma alma imortal e que, depois da morte do corpo, essa alma pode ser avistada pelos vivos, comunicar-se com eles, influir no seu comportamento.
 
Nada contra a hipótese religiosa, que é sempre uma fonte suculenta de inspiração. Mas eu tenho interesse especial por histórias de fantasmas onde a “aparição” não é a alma de um penitente em busca de consolo ou vingança, e sim – por exemplo – o resultado de uma fissura entre dois universos paralelos, fazendo com que pessoas de um sejam vistas no outro.
 
Seria uma hipótese mais científica, digamos, embora em termos rigorosamente científicos a existência de universos paralelos esteja tão longe de ser comprovada quanto a da alma imortal.
 
Uma variante que tem se desenvolvido nos anos mais recentes (embora com precedentes históricos um tanto antigões) é a dos revenantes, os retornados, os-que-voltaram. Pessoas oficialmente mortas que, de modo inexplicável, voltam à vida, mantendo características físicas e psicológicas que tinham antes, mantendo a memória de sua vida anterior, e tentando reintegrar-se ao mundo onde foram dados como falecidos.


O exemplo mais atual é o filme francês Les Revenants (2010) de Robin Campillo, que já foi ampliado para série de TV.  Ao ver esse filme, com seus defuntos que voltam à vida intactos, barbeados, limpos, de roupa limpa, mas amnésicos, me veio à mente a trilogia Southern Reach (2014) de Jeff VanderMeer. Comentei aqui essas duas obras:
 
 
Parecem-se um pouco com o clássico de ficção científica Solaris – livro de Stanislaw Lem (1961) e filme de Andrei Tarkovsky (1972).
 
Ali, também, pessoas mortas parecem voltar à vida meio desorientadas, sem lembrar onde estiveram, e sem saber direito o que estão fazendo ali. O protagonista deduz que elas são corpos formados por neutrinos, por influência do planeta Solaris, onde eles se encontram. O planeta acessa as lembranças mais profundas dos astronautas e as “esculpe” em matéria, dando-lhes vida.


No caso mais doloroso, é a esposa do cientista, que se suicidou porque o marido lhe dava pouca atenção. Ela volta agora, linda, jovem, carinhosa, sem saber o que lhe aconteceu, querendo afagos, e o cientista roendo-se em culpa, duplicada agora por esse retorno impossível mas real.
 
Na tradição mística oriental fala-se no conceito de tulpa. Uma tulpa, segundo os tibetanos, é uma réplica de um ser humano produzida pelo pensamento, uma projeção mental que se materializa em carne e osso. Um dos mais entusiasmados investigadores do Oculto, Colin Wilson, em Mysteries (Parte III, cap. 2) fala de pessoas que imaginaram criaturas assim, conseguiram materializá-las, mas depois perderam o controle sobre elas, tendo muito dificuldade para fazê-las desaparecer.



É nessa direção que a série Twin Peaks de David Lynch explora não apenas o reaparecimento de pessoas tidas como mortas mas também a multiplicação de réplicas de uma pessoa específica, como o Agente Cooper (Kyle MacLachlan).


Usos recentes do tema têm sido marcantes nas séries de TV. Katla  (série islandesa, uma temporada, 2021) mostra um povoado próximo a um vulcão em erupção contínua, e o reaparecimento não apenas de pessoas oficialmente mortas e sepultadas, mas de réplicas idênticas a pessoas vivas da região, que de uma hora para outra precisam encarar “clones” de si mesmas, que reivindicam para si os mesmos direitos.


Na literatura brasileira não é difícil encontrar exemplos, como o recente conto de Cristhiano Aguiar, “Lázaro” (em Gótico Nordestino, Alfaguara, 2022), em que os médicos tentam meio às pressas explicar por que razão pessoas mortas de Covid-19 começam a ressuscitar e retornar para a sociedade, que os chama de “lázaros”.

 
Roberto de Sousa Causo, em O Par – Uma Novela Amazônica (São Paulo: Humanitas, 2008), descreve uma Amazônia num futuro próximo, visitada por naves alienígenas e ocupada por forças militares. Um fenômeno estranho, deflagrado pela proximidade dos extraterrestres, faz com que no corpo de alguns indivíduos brotem “caroços” de rápido crescimento que acabam se desprendendo e se transformando em pessoas. No caso do protagonista, a falecida esposa, que passa a fazer-lhe companhia na mata.
 
Estão longe os tempos góticos quando os fantasmas eram silhuetas etéreas, ectoplásmicas, nuvens de brilho luminoso e lunar, produzindo gemidos distantes.
 
Os revenantes, os fantasmas modernos, são feitos de carne e osso, são feitos à imagem e semelhança de si mesmos. Os do filme francês surgem em casa intactos, de roupa limpa e passada (por quem?), corpos inteiros após anos de sepultura (como?).
 
E são materiais, mesmo que não sejam uma escultura de neutrinos como as aparições de Solaris. É como se no tempo de hoje, tempo do hiperrealismo nas fotos, dos vídeos de um milhão de pixels, dos clipezinhos em 5G, da tela-plana digital mostrando rugas e espinhas do âncora, precisássemos de fantasmas à altura desse excesso de realidade.
 
Fantasmas que acabam sendo uma espécie de deep-fake em três dimensões, e mais: com os arquivos de memória do defunto, porque esses revenantes conversam, voltam aos seus quartos, perguntam pela camisa tal, ou pelo livro que estavam lendo, abraçam seus cônjuges que os aceitam com um misto de desejo, saudade, repulsa e desespero.
 
Os fantasmas parecem vir de uma Matrix superposta a este mundo, e causam medo, não porque sejam agressivos ou ameaçadores, longe disso. Causam medo porque diante deles sabemos como são frágeis os nossos conceitos para definir o que é real, e o que não é.  


 
("Les Revenants", 2015)
 





domingo, 27 de fevereiro de 2022

4798) "O Rio e a Morte": um revólver em cada cinto (27.2.2022)




Os violentos precisam da violência alheia, para justificar a sua. Claro que eles mesmos podem dar início às hostilidades; mas... se o contexto é minimamente civilizado, sempre é prudente poder alegar legítima defesa. É um dos pretextos mais nobres para estourar os miolos de alguém.
 
É o princípio básico do western americano. Nos famosos duelos na rua vazia, com dois pistoleiros caminhando devagar um na direção do outro, a regra é clara. Quem sacar primeiro é o agressor, portanto perde a razão. A razão passa a ficar do lado de quem, em legítima defesa, saca depois. O segredo, portanto, é ser mais rápido no gatilho – sacar depois, e atirar primeiro.
 
Eu entendi isso aos dez anos de idade, vendo faroeste nas matinais do Babilônia, comendo castanha confeitada, batendo com os pés no chão e gritando, e todo mundo fazendo a mesma coisa.


No livro A Linguagem Secreta do Cinema (Ed. Nova Fronteira, 2006), Jean-Claude Carrière faz uma análise minuciosa (pág. 97 e seguintes) desse clichê do duelo dos pistoleiros, mostrando o emaranhado de improbabilidades que ele envolve. É preciso que um saque primeiro, e que o outro atire primeiro. Uma decisão que às vezes depende de um fotograma.
 
Luís Buñuel, o grande parceiro de Carrière, era um aficionado das armas de fogo, e diz-se que o hábito do tiro ao alvo contribuiu para aumentar na velhice a surdez que já o incomodava desde cedo. Gostava de atirar. Não tinha preconceito contra as armas. Seus filmes surrealistas gostam de provocar o público com cenas de tiroteios gratuitos e fuzilamentos descontraídos.
 
Esse mesmo Buñuel se confessou, mais de uma vez, estarrecido com a propensão dos mexicanos para a violência armada e o assassinato por bobagens. Ele foi morar no México com mais de 40 anos, e viveu ali até o fim da vida.
 
Seu filme mais voltado para esse tema é O Rio e a Morte (“El Rio y La Muerte”, 1954). Não é um dos seus melhores filmes dessa fase, mas é um filme que ajuda a rastrear essa tendência do México a ser um dos países mais violentos do mundo.
 
El Rio y la Muerte fala de um povoado à beira de um rio largo e vagaroso. Uma enchente do rio destruiu a vila. Ela foi reconstruída na margem oposta, mas o cemitério permaneceu lá. Agora, a cidade vive dividida entre uma rixa sangrenta entre as duas famílias principais. Quando morre alguém nas “vendettas” familiares, o assassino cruza o rio a nado e se refugia no mato (os Anguianos) ou numa montanha próxima (os Menchaca). E depois da fuga o morto faz a mesma travessia do rio, de canoa, para ser sepultado.


É uma geografia simbólica interessante, essa que coloca a vida normal do vilarejo numa margem, e na outra o local onde os mortos são enterrados e seus matadores se escondem.
 
O filme está aqui, no YouTube (em espanhol, sem legendas):
https://www.youtube.com/watch?v=P5550SYIM2Q&t=347s
 
Há poucas imagens típicas de Buñuel no filme. Um foragido abre a carta da noiva usando um facão. Depois de marcar com ela um encontro clandestino, à noite, ele chega. Os dois se abraçam. Corta para um galo cantando, cercado de galinhas. O casal entra no mato...
 
A maior parte do filme, a parte do meio,  ocorre num flashback. Gerardo Anguiano, filho de um homem morto pela guerra de famílias, é um médico jovem que mora na capital, e não quer se envolver com vinganças, o que decepciona sua mãe, cujo marido foi assassinado. É curioso que nesse vilarejo as mulheres são grandes incentivadoras do machismo, e obrigam maridos e filhos a andar armados. A mãe de Gerardo, D. Mercedes, ao discutir com um amigo da família, desabafa: “Você sempre foi um covarde, como todos da sua família. Se não tem a honra de se defender, vá para casa e vista uma saia.”


Gerardo tem um problema de saúde, está em tratamento num “pulmão de aço”, e ali recebe a visita do seu inimigo Rômulo Menchaca, que vem provocá-lo a um duelo quando for ao vilarejo. Menchaca se irrita com o pacifismo do outro e o esbofeteia. Depois pede desculpas por bater num homem indefeso, mas o desafio ao duelo fica de pé.
 
O filme é quase didático na sua mensagem anti-armamentista, o que desagradava Buñuel: “É meu único filme que defende uma tese moral, algo que me deixa incomodado.” No livro em que discutiu sua obra com os jornalistas José de la Colina e Tomás Pérez Turrent (Objects of Desire, na tradução inglesa), ele comenta, no capítulo 15:
 
Eu queria acima de tudo ter a chance de mostrar uma tradição autêntica do litoral da região de Guerrero: quando alguém é assassinado, o caixão é levado de casa em casa da família do morto, onde todos bebem. Depois levam para a frente da casa do assassino, que já fugiu, e os parentes do morto gritam: “Apareça, filho dessa, filho daquela! Venha pagar pelo seu crime!...”
 
Há uma cultura da morte “por dá cá aquela palha”, o que aparece na sequência inicial, num batizado, quando dois compadres bebem e juram amizade, um deles diz uma piada boba, e o outro o mata com uma facada no estômago. Nas suas memórias (Meu Último Suspiro, Ed. Nova Fronteira, 1982, trad. Rita Braga), Buñuel explica:
 
Essa atitude “viril”, e consequentemente a situação da mulher no México, tem uma origem espanhola que é inútil negar. O machismo procede de um sentimento muito forte e vaidoso da dignidade do homem. É extremamente melindroso, suscetível, e não há nada mais perigoso do que um mexicano que nos olha calmamente e nos diz, com voz suave, porque, por exemplo, recusamos beber com ele uma décima tequila, uma frase sempre perigosa: “ – Me está usted ofendiendo. (O senhor está me ofendendo)” Em situações como essa é melhor beber o último copo.  (pág. 292)
 
Há um culto à honra, sempre fragilíssima; às vinganças longamente amadurecidas e anunciadas; à violência estapafúrdia e grotesca. Um diálogo do filme diz:
 
– Me lembro quando Pablo Codina entrou a cavalo no velório de Anselmo Lepe, cortou a cabeça do morto, amarrou-a e levou-a para a cantina. 
– Sim, mas a família do morto foi à cantina e esfolou Codina.
 
O filme tem um desfecho meio forçado. Os dois desafetos (um de terno e gravata, o outro com roupa de vaqueiro), depois de vários encontros e escaramuças, se abraçam e selam a paz. Um final tão forçado quando o de La Hija del Engano (1951), onde o diretor parece mais uma vez se curvar à tradição latino-americana do final melodramático, lacrimoso e feliz, onde “o importante é a família ficar unida”.
 
O México brutal de Buñuel nos anos 1950 é o mesmo México contemporâneo de Roberto Bolaño com 2666 ou de Cormac McCarthy e os Irmãos Coen com Onde os Fracos Não Têm Vez. Uma civilização onde se porta o revólver com a mesma inocência com que um sertanejo porta a peixeira.
 
Nos velhos tempos do surrealismo parisiense, circulava entre a turma de Buñuel e André Breton o dito de que “o ato surrealista mais simples seria empunhar um revólver e sair pela rua disparando a esmo, abatendo pessoas”. Parece que alguns anos de México e de vida real curaram o diretor espanhol desse impulso juvenil.   
 

 
 
 
 







quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

4797) O assassinato de Olof Palme (24.2.2022)



Perto da meia-noite de 28 de fevereiro de 1986, o primeiro-ministro da Suécia, Olof Palme, foi atacado a tiros numa rua de Estocolmo, quando saía do cinema com a esposa. Era inverno, havia pouca gente na rua, alguns transeuntes pararam e tentaram socorrê-lo. A esposa de Palme estava ferida com um tiro de raspão nas costas. Os dois foram levados para o hospital, onde Palme morreu pouco depois.
 
Matar um primeiro-ministro no meio da rua parece uma coisa arriscada, mas o fato é que até hoje o culpado pelo assassinato de Palme não foi oficialmente descoberto, embora a polícia fizesse algumas prisões (logo tornadas sem efeito) e explorasse várias linhas de investigação, que nunca deram em nada.
 
Uma dessas linhas é a que foi encampada pela série em exibição na Netflix, Assassinato do Primeiro Ministro (“The Unlikely Murderer”, 2021), dirigido por Wilhelm Behrman e Niklas Rockström. São cinco episódios baseados no livro do jornalista sueco Thomas Pettersson, que tem uma teoria bastante nítida (embora questionável) sobre quem é o assassino de Palme.


(Robert Gustaffson, como Stig Engstrom)

 
A série propõe a hipótese de que o criminoso é o homem que durante todo o inquérito foi chamado “o Homem da Skandia”, nome da empresa onde trabalhava. Stig Engstrom estava no local do crime, e foi uma das primeiras pessoas a prestar socorro ao primeiro-ministro. Diz ele que tentou perseguir o assassino e chamar a polícia, e que por esse motivo foi avistado, correndo, por algumas testemunhas, que o teriam confundido com o criminoso. Um dos principais “nós cegos” da investigação reside juntamente na dificuldade em deslindar o depoimento de Engstrom dos depoimentos alheios.
 
A série mostra o crime acontecendo logo nos minutos iniciais, e assume o risco de afirmar, sem sombra de dúvida, que Stig Engstrom matou o ministro. Essa teoria é minuciosamente apresentada e argumentada ao longo dos cinco capítulos desta série “fechada”. A polícia sueca, em 2020, afirmou oficialmente que Engstrom era o suspeito mais provável. O problema é que ele morreu em 2000, numa morte que pode ter sido acidente ou suicídio.
 
Filmar crimes reais não-resolvidos é diferente de filmar crimes reais que tiveram desfecho. Mais do que nunca temos a consciência de que o que vemos na tela é uma mistura de reconstituição de fatos ocorridos e visualização de fatos que ninguém pode provar que aconteceram.
 
Por que a polícia não solveu o crime?


(Mikael Persbrandt, como o chefe de investigação Hans Holmer)


Principalmente pela desorganização e falta de “cancha” da polícia sueca para solver um caso onde as pressões políticas e populares (da mídia, inclusive) eram enormes. Jogo de interesses, narcisismo, briga pelo poder, policiais sabotando-se mutuamente em busca de holofotes e promoção pessoal.
 
Podemos chamar de “política policial” ao jogo de poder entre os encarregados das investigações criminais, e isso muitas vezes está ausente na literatura policial clássica. Mesmo em romances do chamado “police procedural”, os investigadores são muitas vezes mostrados como um corpo homogêneo, onde as dissensões são apenas quanto à interpretação das pistas, etc., mas sem nenhuma motivação visível em termos de luta pelo poder dentro da própria estrutura policial.
 
Não é o que se vê na série, que mostra a polícia como um ninho de cobras, num retrato crítico só inferior ao modo como retrata “o Homem da Skandia”, um indivíduo patético, mesquinho, em busca de posições de poder, ressentido com tudo e com todos, o que o levou (diz a série) a descarregar num adversário político as frustrações de uma vida inteira. Nem a polícia o levou a sério. Somente Pettersson, um repórter que pegou o bonde andando anos depois.
 
A literatura policial, desde o seu começo, usa muito o Jornalista em contraposição ao Detetive, oficial ou particular. Um clássico de 1907, O Mistério do Quarto Amarelo, de Gaston Leroux, mostra o repórter Rouletabille metendo o bedelho na investigação de um crime, onde acaba por achar a solução.
 
Um policial da Scotland Yard ou um detetive particular da Califórnia investigam crimes, respectivamente, por ordem dos seus superiores ou por incumbência de um cliente. O jornalista representa um tipo diferente de empreitada. Seu objetivo não é punir o criminoso, é revelar sua identidade, noticiar “o que de fato aconteceu”. O fato de não ser um funcionário público faz com que ele trabalhe com menos recursos (equipes, laboratório, poder de prisão, etc.), mas por outro lado lhe dá mais agilidade. Pettersson (pelo menos o Pettersson mostrado na série que ele próprio roteirizou) consegue atravessar o emaranhado de pistas falsas e detalhes irrelevantes e chegar à “solução” do crime.
 
A série é muito bem escrita e dirigida, e o ator que faz o papel do “Homem da Skandia” é excelente em sua criação do típico “Tiozão do Pavê”: titubeante, vítima de bullying-adulto pelos colegas, implicante, arrogante, viciado em pequenas mentiras, ansioso por notoriedade. Existe uma tensão visível entre ele e a esposa (interpretada por Eva Melander), num daqueles casamentos bergmanianos feitos de meias palavras e perguntas não respondidas. Com o passar dos dias e dos anos ela vai cada vez mais se convencendo de que alguma coisa não está batendo bem no comportamento do marido, cujas fraquezas ela conhece melhor do que ninguém.



 
 
 







segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

4796) Para que obedecer às regras? (21.2.2022)




O que seria o mundo, sem regras? Um paraíso. O que seria o mundo, sem regras? Um inferno.
 
Estou dizendo “uma regra” no sentido de: “Uma lei, uma ordem, uma determinação estabelecida por uma instância superior, com o objetivo de equilibrar, harmonizar ou padronizar diferentes comportamentos coletivos”.  
 
Regras foram feitas para serem obedecidas, mas sem muito fanatismo. E podem ser desobedecidas, mas nos limites do bom senso.
 
Penso nisso quando lembro uma história que alguém me contou, de quando estava numa cidade da Suíça. Era madrugada. Rua deserta, silêncio total, e um pedestre veio pela calçada, a única pessoa à vista, parou na esquina e ficou esperando durante quase um minuto até o sinal de trânsito ficar verde para o pedestre. Então, atravessou.
 
Isso é certo? É errado?
 
As regras de trânsito me parecem um bom exemplo de regras de comportamento coletivo. Precisamos delas para controlar o caos que é o deslocamento de veículos e de multidões, ao mesmo tempo, em espaços restritos. Quando todo mundo quer passar com o carro ao mesmo tempo e todo pedestre quer atravessar ao mesmo tempo, há mortes, acidentes, tudo que não presta.
 
Alguma regra de trânsito teve que ser inventada, para que as pessoas não fossem mortas por colisões de bigas, charretes, carruagens, tílburis, cabriolés, automóveis.
 
Não é vergonhoso obedecer a uma regra coletiva; isso não faz de nós robôs nem zumbis. Não é vergonhoso desobedecê-la, quando achamos que ela é desnecessária ou insignificante em certo momento.


Por “insignificante” entenda-se a situação do pedestre suíço, citado acima. O semáforo está ali para proteger tanto os pedestres quanto os carros, alternando suas passagens. Já que não vinha carro nenhum, era insignificante o risco, e o cara podia atravessar sem perigo para ninguém.
 
Por que não o fez? Porque é um europeu burro, bitolado, massificado por um Estado totalitário? Não. Talvez fosse apenas um cara com alma de boêmio e olhos de poeta. Estava sem pressa. Parou porque quis. Esperou porque achou bom. E ficou conversando mentalmente com as luzinhas do semáforo, coitadas, que estavam piscando suas cores inúteis na madrugada gelada de Zurique.
 
Eu vejo mais propósito nessa atitude dele do que na minha, quando atravesso correndo a Avenida Presidente Vargas às três da tarde, cruzando seis pistas de carros que passam por mim a toda velocidade, espremendo buzinas e gritando palavrões – simplesmente porque tenho preguiça de ir até a esquina, aguardar um minuto e atravessar na respectiva abbeyroad.
 
Acontece algo parecido – por um exemplo, entre muitos – com as regras do futebol.
 
Existem para definir limites, proibições, obrigatoriedades, e com isso impor uma grade de regularidades e equivalências no interior de uma disputa. “Regularidades” para que os dois adversário saibam que toda vez que acontecer “X”, vai ser marcado “Y”; “equivalências” no sentido de que as regras valem para todo mundo, sem privilégios.
 
O que acontece é que jogadores de futebol passam o jogo inteiro forçando os limites da regra. São como pedestres teimosos, que atravessam a rua dando drible nos carros, ou como motoristas impacientes que furam o sinal vermelho porque têm medo de assalto, ou ciclistas que invadem o espaço dos pedestres para se defender dos carros, ou pais que estacionam em fila dupla diante de uma escola “só por um instantinho, não dá pra descer...”  Enfim, todo mundo que viola a regra tem excelentes motivações pessoais para isso.


Toda esta lenga-lenga é para abordar um assunto bem diferente: as regras literárias. Existem regras na literatura?
 
Em princípio, não. Existem regras na gramática, na ortografia. As regras servem para organizar o uso das conjunções e preposições, da conjugação dos verbos, da grafia das palavras, etc. e tal. Mas isto são regras da linguagem, não da literatura.
 
Na literatura o que temos não são regras – as quais, por definição, são fixadas por grupos de especialistas designados pela sociedade. O que temos na literatura são procedimentos consagrados, habituais, costumeiros. Modos de organizar os textos para que o leitor os leia e os entenda com mais facilidade. Não têm a ver com a arte literária. Servem praticamente para qualquer texto.
 
Em muitos manuscritos antigos não há separação de palavras, por exemplo. Era o modo de escrever daqueles tempos.
 
Aspalavrasapareciamtodasemendadasumasnasoutrasetodomundoliasemdificuldade. Até que alguém teve a brilhante idéia do espaço em branco. (Acho que no tempo do papiro e do pergaminho eles procuravam economizar ao máximo a superfície onde escreviam.)
 
Os sinais de pontuação, a divisão do texto em parágrafos e em capítulos, o uso de letras maiúsculas para indicar palavras especiais (começo de frase, nome próprio, etc.), tudo isso foi se construindo ao longo de séculos, mas não são regras, são costumes. Usa quem quer.
 
Tudo isto, no entanto, não pertence propriamente ao domínio da arte literária, e sim da técnica de publicação de textos. São universos que se interpenetram, se interseccionam, mas cada um tem seu próprio regulamento.


A teoria da literatura é cheia de “regras”, mas essas pseudo-regras são arbitrárias, são consensos estéticos a que alguns grupos de pessoas chegam, combinam entre si, e passam a ensinar às outras. As “regras” narrativas que valiam para os folhetins franceses na época de Alexandre Dumas não são necessariamente as mesmas que valiam para a literatura policial norte-americana no tempo de Dashiell Hammett, nem as que valiam para o romance histórico alemão da época de Thomas Mann, ou a que valia para o conto brasileiro em seu florescimento na década de 1970.
 
São regras? Não: são formas de dizer, de falar, de contar, de exprimir, de sugerir através de palavras. Formas diferentes de construir personagens, de reproduzir o que se passa na mente deles, de narrar acontecimentos, de dialogar com o leitor.
 
Todo mundo conhece aquelas famosas listas: “Doze Conselhos da Escrita por Philip Roth”, ou “Seis Maneiras Infalíveis de Contar uma História, por Barbara Cartland”, ou “Os Dez Mandamentos do Escritor, por Balzac” ou por quem quer que seja. São regras universais? Não, são dicas, são conselhos onde um autor diz: “Olha, isto aqui funciona comigo, talvez funcione com você”.
 
Por outro lado, quando essas “regras” viram modismo, maneirismo, rotina, logo aparece uma nova geração de autores e autoras bradando que “daqui pra frente vai ser diferente” e instituem uma vanguarda, uma renovação, seja lá o que for. O que é ótimo; isto é a respiração normal da literatura. Novas vozes, novos olhares, novas maneiras de pensar e de dizer.
 
Não há regras? Ao contrário: há milhões de regras, propostas por milhões de autores. Você escolhe as regras que quer seguir, deixa as outras de lado. E se quiser, você propõe novas regras que por acaso estejam faltando.
 



sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

4795) Dinheiro demais é veneno (18.2.2022)


 
Dois documentários em exibição no Netflix são tão parecidos que poderiam ser vistos como os dois episódios iniciais de uma série. São filmes diferentes, porém, feito por pessoas diferentes e abordando dois assuntos distintos.
 
O primeiro é The Tinder Swindler (Felicity Morris, 2022), sobre um picareta que se fingia de milionário no Tinder para arranjar namoradas ricas e engalobar o dinheiro delas.
 
O segundo é Fyre: The Greatest Party that Never Happened (Chris Smith, 2019), sobre um festival de música pop numa ilha distante, onde nada deu certo. Prejuízos milionários foram causados a um monte de gente, e o organizador de tudo acabou na cadeia.
 
Esses dois filmes poderiam ser vistos e pensados em conjunto com uma porção de outros que venho comentando esporadicamente aqui no blog: The Corporation (Mark Achbar & Jennifer Abbott, 2003), TrabalhoInterno (“Inside Job”, Charles Ferguson, 2010), Capitalismo, UmaHistória de Amor (Michael Moore, 2009), MarginCall – O Dia Antes do Fim (“Margin Call”, J. C. Chandor, 2011)...  E chega, né?  São muitos, e aconselho todos estes.

Minha mãe dizia, do alto de sua sabedoria caririzeira, que “tudo demais é veneno”. Isso vale para o dinheiro, também. O mundo neo-liberal de hoje (ao qual nosso país está atrelado) está bêbado de dinheiro, envenenado de dinheiro, e esse dinheiro nem é tão volumoso assim – ele apenas está concentrado numa lasquinha mínima da população. E isso permite a ocorrência de todos os absurdos descritos nos filmes acima.
 
Para ser justo, afirmo também que livro demais é veneno, café demais é veneno, cerveja demais é veneno, tudo demais é veneno.


 
James Joyce, num dos melhores contos de Dublinenses (“After the Race”, 1914), afirmou com lucidez profética: “Rapid motion through space elates one; so does notoriety; so does the possession of money.”
 
Joyce estava escrevendo no contexto da febre nascente do automobilismo, e das primeiras corridas de carros, aquelas baratinhas tossideiras e sacolejantes do começo do século passado. O movimento rápido através do espaço deixa uma pessoa inebriada; o mesmo acontece com a fama; o mesmo acontece com a posse de muito dinheiro.
 
Imagine as três coisas juntas.


Simon Leviev era um rapaz pobre de Israel, que ainda adolescente migrou para os Estados Unidos. Desde cedo começou a dar pequenos golpes. Quando entrou para o Tinder, o aplicativo de encontros, começou a se dar bem. Apresentava-se como filho de um bilionário dos diamantes em Israel. Logo no primeiro encontro, levava as mulheres para restaurantes de luxo onde o maître e os garçons o tratavam com atenção e familiaridade. Dirigia carros caríssimos, pagava passagens de avião – era aquele tipo do cara que diz para a namorada: “Londres está muito chata, hoje. Vamos jantar em Roma?...”



As mulheres caíam com gosto na conversa dele, que era bonitão e descolado. Aí começavam os problemas. “Sou um homem visado, perseguido por inimigos”, explicava ele, porque o ambiente dos diamantes envolve bilhões, interesses políticos, interesses escusos. “Estou sendo seguido... estão grampeando meu celular...”
 
Além do romance amoroso, as pretendentes estavam vivendo um romance de aventuras e se dispunham a tudo para ajudar um cara tão bacana, tão resoluto, perseguido por capangas, precisando de guarda-costas. Não há como não lembrar A Identidade Bourne, em que uma moça se mete numa intriga internacional porque simpatizou com Matt Damon.
 
E começavam os pedidos: “Bloquearam meu cartão de crédito... Você pode me emprestar 20 mil dólares? Te pago segunda-feira”. O resto está no Netflix.


(Billy McFarland)
 
O “Fyre Festival” é outra história envolvendo muita grana e muita cara de pau. O protagonista neste caso é Billy McFarland, um investidor jovem que botou alguns milhões no bolso com projetos bem sucedidos na área de cartões de crédito, passou a circular nas “altas rodas” e a sonhar “com coisas que o morro não tem”.
 
Billy gabava-se de que sua empresa, Fyre Media, tinha valor de mercado de 90 milhões; as autoridades descobriram depois que ela tinha um faturamento de 60 mil dólares.
 
De qualquer modo, Billy circulava com cantores, atletas, modelos, socialites... Diga-se dele o que se quiser, mas tinha um carisma irresistível. Pessoas que foram arrastadas para um buraco financeiro insolúvel diziam: “Eu sempre acreditei nele, ele passava uma alegria, uma auto-confiança enorme, sempre dizia, vamos acreditar, vai dar certo sim, vamos conseguir o que ninguém conseguiu...”
 
O festival de música ia ter lugar numa ilha remota das Bahamas. A divulgação maciça incluiu um filme promocional com modelos lindas e caríssimas do mundo inteiro, e começou poucos meses antes. Tudo maravilha, embora o pessoal da técnica dissesse que teria sido necessária uma antecedência de um ano para produzir aquilo num local sem muita estrutura. (Sem água potável; sem eletricidade; sem internet – pra começo de conversa).
 
Movido a carisma, otimismo e cartões de crédito, Billy vivia de jatinho pra cima e pra baixo, arrumando 30 mil dólares aqui, 50 mil acolá, enquanto centenas de trabalhadores montavam palcos, tendas, vilas, som, luz, o escambau. E no dia do Festival, com gente do mundo inteiro desembarcando no aeroporto (depois de pagar com antecedência) tinha sido montado, quando muito, um terço da estrutura necessária.
 
O resto está no Netflix.  


 
O dinheiro embriaga, principalmente quando em vez de ser contado em moedas de ouro é contado em zeros eletrônicos. A velocidade embriaga, a velocidade dos jatinhos, do café da manhã em Oslo, o almoço em Amsterdam, o jantar em Paris. A fama embriaga: o selfie tirado com atrizes californianas, modelos russas, magnatas alemães, príncipes sauditas.
 
Não é nenhuma novidade do mundo internético. Joyce fazia seus rapazes dublinenses perderem rios de dinheiro numa mesa de jogo com pessoas de quatro ou cinco países; Machado de Assis contava o mesmo, em escala mais modesta, com seus playboys da Rua do Ouvidor, filhinhos de fazendeiros ricos ou de políticos (“Vinte anos! Vinte anos!”, 1884); Berilo Neves, em Século XXI, fazia suas socialites da Confeitaria Colombo encomendarem compras na Lua e marcarem chás-das-cinco em Saturno.
 
A única novidade, talvez, é que as pessoas que pensam assim nunca tiveram tanto dinheiro, nunca tiveram tanta liberdade, nunca tiveram tanto poder.