sábado, 9 de janeiro de 2016

4020) A Língua Portuguesa (10.1.2016)



Existe uma oposição, que acho equivocada, entre linguagem coloquial e norma culta. Oposição que no Brasil (talvez em outros lugares também) ganhou um viés de marca de classe. Ser de classe superior é ser capaz de usar uma linguagem culta, gramaticalmente impecável, para demonstrar estudo. Gramática, ortografia, pronúncia e vocabulário são crachás necessários na subida da pirâmide social. É bom, é ruim, é certo, é errado? Não sei, o debate está em aberto, sempre acho melhor saber das coisas do que ignorar. Não se organiza essas coisas por decreto, e o fato é que aqui funciona assim.

Vem daí esse sintoma linguístico das pessoas usarem palavras de fora da linguagem comum quando querem alegar superioridade social e moral sobre os outros. Quando um político precisa afirmar em público que é um homem honesto, estas palavras (tão humanas, tão honestas!) não lhe bastam. Dizer isso qualquer pé-rapado pode! Ele precisa dizer que é um “cidadão de reputação ilibada”, e com esse vocabulário acredita estar colocando em xeque pelo menos dois terços dos que o criticam. Falar assim é como dizer: “Eu estou de terno e gravata. E você? Jeans e havaianas? Rá-rá-rá.”

A história da língua brasileira é a história de uma progressiva desternoegravatização da fala, do abandono de uma língua engessada, protocolar, em favor de uma língua mais flexível, solta, aberta para novidades, capaz de reproduzir o sentimento e a personalidade do falante em cada momento. Me espanta saber que ainda hoje existe quem ache errado usar pronome oblíquo em começo de frase. E impressiona constatar que cem anos atrás Lima Barreto já escrevia como escrevemos hoje, e que as academias literárias de hoje estão repletas de seguidores de Coelho Neto - no que Coelho Neto, grande escritor, tinha de pior: a pompa ornamental da prosa.

Isto não quer dizer que todo mundo deva falar como os personagens de Adoniran Barbosa ou de Patativa do Assaré, mas que uma língua madura e saudável é capaz de acolher essas variantes sem que seu núcleo desmorone. E o núcleo da língua não é o juridiquês insuportável do editorialismo político e classista de nossa imprensa. O núcleo é Camões e é Machado, é o Padre Vieira e o cachaceiro Gregório de Matos, é Oswald de Andrade e seu aparente antípoda Fernando Pessoa. E são também (olha o pulo de susto!) os letristas da música popular, que muitas vezes dominam a gramática e o vernáculo melhor do que muitos medalhões. Melhor do que muitos beletristas que se dão ares mas não sobreviveriam na palavra impressa sem a proteção invisível da força-tarefa de revisores que caminha atrás deles, limpando os erros que deixam cair pelo caminho.







sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

4019) A Vida e os Tempos de Minotauro Bob (9.1.2016)



(ilustração: Alberto Russo)

Cap. 1 – De como Minotauro Bob explodiu na cena roqueira nordestina à frente de uma banda pegada-no-laço, sem ensaio, sem passagem de som, um mero agrupamento de quatro rapazes destreinados aos quais ele passou uma única instrução: “O tom de tudo é Sol Maior, e a levada é assim, ó”. 

Cap. 2 – De como a repercussão dos primeiros shows foi tamanha que convites para gigs começaram a pipocar nos dois celulares do hirsuto vocalista, e quando ele atendia um dizia para ligar pro empresário dele e dava o número do outro celular, o qual atendia com voz modificada. 

Cap. 3 – De como numa noite de verão o trânsito dos quarteirões em volta do Bar de Zeco, em Serra Redonda, foi bloqueado pela multidão que compareceu ao show de Minotauro Bob e a Banda Asterion, intitulado “O Som é Esse e a Porta é Por Ali”. 

Cap. 4 – De como isto foi apenas o começo de um torvelinho insone de rock ensurdecedor, microfonias, suor, acotovelamento, cerveja morna, pegação, camarins repletos de groupies disfarçadas de repórteres e de repórteres que viravam groupies, e comemorações pós-show mais ruidosas do que os shows propriamente ditos.

Cap. 5 – De como Minotauro Bob inaugurou o costume de, bebida a última cerveja do camarim, pular e cair sentado dentro da caixa de isopor cheia de gelo.

Cap. 5 – De como Minotauro Bob foi pêgo comendo bode guisado numa birosca-com-sinuca no bairro do Tombador e espinafrado por dois cabeludos para quem rock era religião e bode era comida de forrozeiro, e sem parar de mastigar ele pegou os dois e deu uma surra num usando o outro de chibata.

Cap. 6 – De como Minotauro Bob se apaixonou por Suze Leruá, astróloga, tatuadora, com lojinha na rua Índios Cariris, e os dois se envolveram num fetiche sexual zumbidor, pintando sereias por cima de caveiras da SS, transformando a cara de Bowie num cybercamaleão e por aí vai.

Cap. 7 – De como a banda foi contratada por engano para tocar num reveillon num resort tropical na Costa do Sauípe, e com 15 minutos de show os bacanas locais, uiscados até o talo, invadiram o palco de garrafas em punho para interromper uma suposta felação recíproca entre dois roadies bêbados.

Cap. 8 – De como o hospital e a prisão devem ter mexido no software de Minotauro Bob, porque na cadeia ele aprendeu a tocar violão, converteu-se à Psicanálise Quântica, escreveu um livro infantil (tudo isso em dois meses), casou com Suze no dia em que foi libertado, mudou o nome da banda para Rasante de Teco-Teco, emplacou uma música numa novela, ficou rico e está rico até hoje, o que mostra que o mundo pode ser mesmo sartreanamente absurdo, mas que Deus de vez em quando aparece para assinar o ponto.






4018) O poder do sonho (8.1.2016)



O físico John N. Bahcall disse certa vez: 

As descobertas mais importantes trazem respostas para perguntas que ainda não tínhamos condições de formular, e dizem respeito a objetos que não tínhamos como imaginar até então. 

Parece irônico, mas na Ciência a gente muitas vezes encontra a resposta antes de ter uma pergunta para ela. 

Quando Einstein propôs sua Teoria Especial da Relatividade, em 1905, faltava-lhe uma formulação matemática adequada (consta que ele não era um grande matemático; suas descobertas eram mais intuitivas do que formais). Então seu ex-professor Hermann Minkowski mostrou que esse arrazoado matemático já existia, independentemente das descobertas no campo da Física. Era, de certo modo, um raciocínio já pronto e clarificado, só que não tinha aplicação prática. 

Era uma resposta em busca de uma pergunta – que foi fornecida pela Física.

O trabalho criador do cientista (porque um cientista faz outros trabalhos que não são criadores) parece muito com o do artista; ele avança meio cegamente, guiado pela imaginação, associação de idéias, intuição, palpite, obsessão maníaca, o que for. Vai descobrindo coisas que não sabe o que são.  

Uma das melhores descrições desse impulso criador coletivo é de Nietzsche em A Gaia Ciência (1882; trad. Paulo César de Souza): 

Então vocês acham que as ciências teriam surgido e progredido, se os feiticeiros, alquimistas, astrólogos e bruxas não as tivessem precedido, como aqueles que tinham antes de criar, com suas promessas e miragens, sede, fome e gosto por potências escondidas e proibidas? Não veem que foi preciso prometer infinitamente mais do que era possível realizar, para que algo se realizasse no âmbito do conhecimento? 

 

– Talvez, da mesma forma como nos aparecem hoje os prelúdios e exercícios prévios da ciência, que não foram praticados e percebidos como tais, também a religião inteira se apresente como exercício e prelúdio para alguma época distante: ela poderá ter sido o meio singular de alguns indivíduos poderem fruir toda a autossuficiência de um deus e toda sua força de autorredenção. 

 

Sim – é lícito perguntar --, teria o ser humano aprendido, sem a escola e pré-história da religião, a sentir fome e sede de si e encontrar saciedade e plenitude em si? Foi preciso que Prometeu imaginasse antes haver roubado a luz e pagasse por isso – para finalmente descobrir que havia criado a luz, ao ansiar por ela, e que não apenas o ser humano, mas também a divindade fora obra de suas mãos e argila em suas mãos? Tudo apenas imagens do formador de imagens?  -- assim como a ilusão, o furto, o Cáucaso, o abutre e toda a trágica Prometeia dos homens do conhecimento? 




407) Cinco surpresas (7.1.2016)



Em plena crise institucional, com a imprensa pedindo sua cabeça e o embaixador norte-americano garantindo que não haveria intervenção, o Presidente da Ruritânia convoca uma reunião extraordinária com todo o seu Ministério. Ao tomarem assento no Salão Azul, ele percebe a presença de três ou quatro cavalheiros que nunca vira mais gordos. Chama o Ministro da Casa Civil, faz-lhe a pergunta, discretamente, e recebe como resposta: “São os novos Ministros que o senhor vai empossar amanhã”.

Ferdinando teve uma crise súbita de labirintite e saiu do escritório no meio da tarde. O celular da esposa dava desligado ou fora de área. Ao entrar em casa, ouviu ruídos, e depois um silêncio esquisito. Foi direto ao quarto, abriu a porta. A esposa estava nua, pulsos e tornozelos atados às colunas da cama. Ele teve um sobressalto de susto e ela gritou: “Primeiro de abril!!!”. Estavam em meados de setembro.

Flávio estava elaborando um documento jurídico qualquer, e precisou do Dicionário Latino, no qual não pegava desde o tempo da faculdade. Ao folhear o volume, caíram de dentro dele os dois ingressos para o show de Bob Dylan no Imperator, em 1991, os mesmos ingressos que anos antes ele procurara em vão nos bolsos, esbaforido, apavorado, diante dos olhos blasê da possível namorada que logo em seguida deu um muxoxo, pegou um táxi ali mesmo e sumiu para sempre.

Aos 17 anos, Fábio Luís ainda era obrigado pelos pais a ir a todos os lugares onde eles iam. Naquela noite foram ao aniversário de um tio, cinquentão e divorciado. Durante as intermináveis rodadas de pizza diante da TV e do “Fantástico”, o tio segredou ao seu ouvido: “Tá a fim de um fuminho? Bora lá no quintal”. Ele esperou alguns minutos depois do tio sumir e se esgueirou sem ninguém ver, por entre a escuridão cheia de goiabeiras. Encontrou o tio junto à parede de um depósito de lenha. Sussurrou: “E aí, cadê o bagulho?”. O outro o abraçou soluçando: “Não tem bagulho, tem amor, somente amor, para quem aceite ser amado.”

Sebastião foi arregimentado para botar sanfona em duas ou três faixas de um álbum da banda Asa Amarela. Tímido, foi apenas no último dia que ele criou coragem para mostrar ao líder do grupo, Arleysson Pantera, seu forrozinho inédito “Volta Meu Bem”. Foi tiro e queda, aprovação unânime, tudo a ver com o repertório, a banda aprendeu na manhã seguinte, a música foi gravada à tarde. Um mês depois, Sebastião viu na vitrine da loja o CD, e nem esperou que alguém lhe mandasse um, entrou e foi logo comprando, rasgando o celofane, inebriado pela felicidade de ver pela primeira vez seu nome como autor de uma música gravada profissionalmente num disco de verdade.





quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

4016) Livros do ano 6 (6.1.2016)



Neste balanço das leituras do ano constato que li pouca coisa dos meus gêneros preferidos, policial e ficção científica. Em colunas anteriores comentei, em outros contextos, alguns livros de FC/fantástico (A Guerra dos Mundos, High Rise, Ensaio sobre a Cegueira). Tenho que mencionar dois livros que não só li como traduzi, o segundo e o terceiro volumes da trilogia “Comando Sul” de Jeff VanderMeer, da Editora Intrínseca: Autoridade e Aceitação (este deve sair em 2016). VanderMeer criou um pesadelo tarkovskyano sobre um contato alienígena com a Terra, numa narrativa complexa, com diferentes pontos de vista de personagens inesquecíveis. É uma trama tão cheia de mistérios e de detalhes que pretendo reler os três livros como se fossem um só, daqui a algum tempo.

The Black Room de Colin Wilson (1971; lido em fevereiro) é um thriller de espionagem com base ligeiramente FC: técnicas de lavagem cerebral através do uso do “quarto negro”, uma câmara de privação dos sentidos. Como sempre, Wilson é melhor no romance policial do que na FC; este thriller tem algo de John Le Carré e seu final brusco obriga o leitor a deduzir tudo que vem depois. E terminei a leitura de The Strength to Dream: Literature and the Imagination (1962; lido em fevereiro), onde Wilson faz um balanço meticuloso de dezenas de autores mainstream cuja obra roçou pelo fantástico, além de autores fantásticos típicos como Lovecraft.

Fiz para a editora Aleph um posfácio para O Planeta dos Macacos (1963; lido em março), que me lembrou mais uma vez a necessidade de conhecer melhor a FC francesa, cujos autores se influenciam pela FC dos EUA com tanta independência, tanta antropofagia. Tenho o hábito de não deixar passar um ano sem ler um livro novo de Philip K. Dick: este ano foi a coletânea The turning wheel (1977; lido em março). Acho que Dick era mais pulp fiction nos contos e mais literariamente articulado nos romances. O lado bom dos contos é que ele podia dar rédea solta a algumas idéias completamente surreais, sem se preocupar muito.

Por fim, acabei lendo poucas HQs fantásticas no ano. Gostei bastante de O Perfura-Neve (1984; http://tinyurl.com/knyjsjw) de Lob, Rochette e Legrand, um épico de futuro apocalíptico em três partes, que mudou de estilo e grafismo ao longo da publicação seriada; Da Terra à Lua (2014) de Estêvão Ribeiro, fundindo duas narrativas clássicas de Verne e Wells; Quando Meu Pai se Encontrou com o ET Fazia um Dia Quente (2011) de Lourenço Mutarelli, um episódio absurdista e burroughsiano; e Uzumaki, a Espiral do Horror (1998-99) de Junji Ito, um horror com sombras de Poe e grafismo de tirar o sono.




terça-feira, 5 de janeiro de 2016

4015) Livros do ano 5 (5.1.2016)



Eu não vivo pesquisando a literatura sobre o Sertão e suas variantes (Cariri, Pajeú, etc.), mas ela não para de me chegar de todos os lados. Fala-se que basta ler Euclides da Cunha ou Guimarães Rosa para saber o que é o Sertão. Não basta. O ponto de vista de um autor é só o dele, por mais rica que seja sua experiência. Nenhum grande autor esgota um assunto; seus livros são o que se chama de “condições necessárias mas não suficientes”. O Sertão (qualquer tema, aliás) é um bufê self-service. Não adianta ficar se servindo de um prato só, por mais bem feito que seja.

Dou o exemplo curioso de dois irmãos escritores com a mesma origem e vivências semelhantes, com dois livros diferentíssimos e complementares que li este ano. Cariris Velhos (2008, http://tinyurl.com/n3sjqlm), de Pedro Nunes Filho, é uma obra de história cultural onde a memória da terra ganha discernimento e foco por meio da pesquisa sobre a colonização desta região da Paraíba. Já No Sertão Onde Eu Vivia (2014, http://tinyurl.com/lf8kguo) de Zelito Nunes é uma recolha de anedotas e episódios pitorescos onde brota o jeito de pensar sertanejo – caririzeiro, pajeuzeiro, etc., porque são tudo cores da mesma luz.

O Sertão, para um urbanóide como eu, é precedido pelas histórias que se contam sobre ele, e que são as roupas com que ele se traja para ser visto em público. Histórias como as assombrações de Maldito Sertão (2012, http://tinyurl.com/ntbp8nv) de Márcio Benjamin, as histórias de fantasmas, coisas ruins, feitiços, criaturas da noite. Ou como os encantamentos de O Monstro das Sete Bocas (2015, http://tinyurl.com/mefb9x7) de minha irmã Clotilde Tavares, onde se misturam lendas orais, enredos de cordel ou de Trancoso, numa cadeia de narrativas-dentro-de-narrativas, com personagens que viram narradores.

O lado cruel do Sertão se revela em livros como O Dragão (reedição de 1999, http://tinyurl.com/pgfeadc) de José Alcides Pinto, um apocalipse a prestação, contando a vida de um povoado lá no calcanhar das botas de Judas, fustigado pela seca, pelas enchentes, pelas epidemias, pela violência onipresente entre pessoas crestadas por um sol indiferente e alucinógeno. É o Sertão mitológico de Euclides e de Rosa, aquele onde “a luz assassinava demais”.

Para entendê-lo, pode ser útil a leitura da obra e da vida do inventor do cordel nordestino, em Leandro Gomes de Barros - Vida e Obra (2015, http://tinyurl.com/kpbag9b) de Arievaldo Vianna. Os cordéis de Leandro são o Sertão, mesmo quando ele fala dos Pares de França ou da carestia recifense. Para ver o Sertão é preciso ser capaz de olhar para a cidade com os olhos do Sertão, e vice-versa. (Continua)




sábado, 2 de janeiro de 2016

4014) Livros do ano 4 (3.1.2016)



O pessoal me cobra às vezes uma cobertura da literatura nacional, nesta Coluna Prestes. (Chamo-a assim porque é uma coluna que está sempre prestes a dizer alguma coisa importante, promessa eternamente adiada para um futuro ainda fora de foco.) Lamento informar (ou melhor, regozijo-me em informar) que não sinto a menor obrigação de vigiar daqui a literatura brasileira, ou paraibana, ou japonesa. Quando não estou sendo pago para ler algo (resenhas, traduções, prefácios, pesquisas, etc.) leio por prazer, e por prazer somente. Se um livro não me prende, pode ser do meu melhor amigo ou do autor mais célebre do cânone: volta pra estante, e pego outro. Sou um homem livre para decidir o que vou ler. É só nisso que sou livre; é certamente pouco; e para mim é o bastante.

O mundo está cheio de poetas que não gostam de ler poesia. Não é o meu caso. Minha dificuldade é que frequentemente não entendo os poemas, ou melhor, consigo acompanhar o que dizem, mas o texto não me produz novas sinapses. Não é culpa minha nem do poema, é que a experiência poética requer um mesmo diapasão, uma sintonia vibratória, que muita gente, aliás, não sente com o que eu próprio escrevo. Paciência; é do jogo.

Em todo caso, li (em alguns casos, reli) este ano, com prazer e proveito, livros como Por sobre as cabeças (João Andrade), 100 repentes memoráveis (Jomaci Dantas), Mini Sertão (Nonato Gurgel), Da preguiça como método de trabalho e Canções (Mario Quintana), Até nenhum lugar (Ademir Assunção), O mapa da tribo (Salgado Maranhão), Nômada e Experiências Extraordinárias (Rodrigo Garcia Lopes), Versos Pornográficos (Chico César), Outro (Augusto de Campos), Sonetos de Campos, Sonetos de Moraes e Critica Syllyrica (Glauco Mattoso), Cabeça de José (Patricia Galelli), Sociedade Vertical (Caco Pontes), Cavalo Alazão (Pedro Nunes Filho), Muito antes da meia noite (Cristiano Ramos), Compêndio para uso dos pássaros (Manoel de Barros), Pelos pelos (Alice Ruiz), Esculturas fluidas (João Paulo Parisio).

Na prosa, destaco entre outros títulos o romance de Maria Valéria Rezende, Quarenta dias, mergulho de uma professora paraibana nas ruas de uma Porto Alegre misteriosa e real (que me lembrou um pouco o clássico Noite, de Érico Verissimo), Enquanto Deus não está olhando de Débora Ferraz (uma João Pessoa sem nome e sem código de barras, mas reconhecível em cada descrição de bar, em cada detalhe da arquitetura, em cada rompante emocional e torção do diálogo de seus personagens),  e os contos compactos, às vezes elípticos, mas sempre minuciosamente burilados de Everardo Norões em Entre moscas. (Continua)




sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

4013) Livros do ano 3 (2.1.2016)



Uma das histórias mais antigas é a do jovem intelectual de província, cheios de sonhos literários (ou musicais, cinematográficos, etc.) que parte para a cidade grande e mergulha na vida boêmia, nas discussões estéticas e existenciais, e passa por experiências que, a depender de cada caso, o levarão à fama, ou às drogas, ou à fortuna, ou ao suicídio. Às vezes tudo isto junto.

Que melhor exemplo do que o Dylan Thomas de Portrait of the Artist as a Young Dog (1940, http://tinyurl.com/oqml4hj), que começa garoto, fotografando em contos curtos a vidinha interiorana do País de Gales, e no final já está jornalista e poeta, frequentando puteiros, e se preparando para seus voos internacionais futuros? Existe nele algo do Vivaldo de Numa terra estranha (1962, http://tinyurl.com/nrtkpar) em sua vida boêmia e meio sem rumo, e do (ator) Eric que foge para a França à procura de um ambiente menos asfixiante.

Paris foi um símbolo para uma geração inteira de norte-americanos, como James Campbell descreve em Paris Interzone (1994, http://tinyurl.com/o6ux4mb). O maior contingente era de escritores negros (como Baldwin), mais respeitados e mais bem tratados na Europa do que em casa. Paris recebia com civilidade tanto negros como homossexuais, e Baldwin sentiu-se duplamente em casa. E existia lá, ao mesmo tempo, um ambiente receptivo para uma certa literatura de vanguarda como a dos Textos para nada (1950-52, http://tinyurl.com/pbd2to9) de Samuel Beckett. O livro de Campbell dedica longos e proveitosos capítulos a editoras semiclandestinas como a Olympia Press, de Maurice Girodias, que publicava romances pornográficos e no meio deles lançou, além de Beckett, a primeira edição de Lolita de Nabokov.

Era uma França pós-Guerra, invadida e conquistada pela cultura pop norte-americana, o jazz, o romance policial, a ficção científica. Tudo isso convergiu para a obra de sujeitos fascinantes como Boris Vian, que ganhou de Françoise Renaudot a fotobiografia Il était une fois Boris Vian (1973, lido em julho). Vian escreveu romances policiais fingindo-se de autor negro dos EUA (Vou cuspir no seu túmulo, sob o nome de Vernon Sullivan), escreveu FC, foi membro do Collège de Pataphysique, foi trumpetista de jazz, grande compositor de cançonetas românticas ou satíricas. Sua vida e sua obra sintetizam essa época que, mais do que qualquer outra, gravou na memória do tempo a imagem de uma Paris libertária, igualitária, fraterna – mas somente nos cafés e nos bares onde cineastas, existencialistas, negros americanos, romancistas argelinos e músicos de jazz criaram uma república invisível das letras e das artes. (Continua)






quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

4012) Resoluções de Ano Novo (1.1.2016)



Inventar uma sopa que seja de carne e de feijão, em faixas alternadas. 

Descobrir onde foram parar todas as canetas Bic que perdi em 2015. 

Passar um telegrama para “Trupizupe, o Raio da Silibrina, Campina Grande, PB” e ver se chega. 

Ensinar os brinquedos da minha filha a se arrumarem sozinhos. 

Arranjar um clone para ir no meu lugar aos compromissos. 

Pintar “Guernica”. 

Comprar um armário que tenha uma porta secreta para o reino de Nárnia ou pelo menos para o cabaré da Nega Filomena. 

Juntar lençol, travesseiro, água mineral e livros, e passar cinco semanas num balão. 

Gravar um DVD toda vez que for a uma mesa de bar, vender e ficar rico. 

Arranjar um cachorro que saiba trazer meus chinelos e acender meu cachimbo. 

Tomar remédio para orelha grande. 

Comprar um ringue de boxe, botar na praça e cobrar dez reais por round, luvas incluídas. 

Remexer a casa toda, pra valer, até achar um objeto que, com sorte, eu vou reconhecer quando encontrar. 

Ter mais paciência com os outros. 

Pescar, logo na primeira tentativa, um peixe de 2,750 kg. 

Guardar um grão de arroz dentro de um diamante. 

Instalar na minha sala uma máquina de caldo de cana, um Banco 24 Horas e um telescópio. 

Vender meu cadáver, antecipadamente, a uma Faculdade de Medicina. 

Pegar o Expresso Transiberiano até a última estação e lá decidir se vale a pena voltar. 

Jogar uma partida de xadrez contra o computador e ganhar roubando. 

Localizar a cópia completa de “Sob o Céu Nordestino” que se perdeu em Paris após a morte de Walfredo Rodriguez. 

Pular toda noite o muro de alguma casa e abrir as gaiolas dos passarinhos. 

Atribuir uma letra do alfabeto a vinte e seis objetos aleatórios, e ir anotando as palavras que eles irão formando ao serem vistos no dia a dia. 

Cruzar a Paraíba a pé, da Ponta do Seixas à fronteira com o Ceará. 

Fazer um filme com uma cantoria em tempo real, sem cortes, em plano sequência, dure quantas horas durar. 

Zerar um videogame, não importa qual. 

Percorrer de moto todos os Estados brasileiros. 

Extrair a raiz quadrada da “Mona Lisa”, plantar o resultado no jardim e fazer um suco com a fruta que nascer. 

Montar num tubarão. 

Traduzir um livro meu para o inglês. 

Aprender a dançar tango para o caso de um dia alguém me chamar para ser ator num filme argentino. 

Tatuar no antebraço esquerdo que meu sangue é A-positivo e que sou alérgico a AAS. 

Publicar um poema de Adão Ventura com meu nome e ver quantos anos demora até alguém perceber. 

Assistir um filme no Cine Capitólio e outro no Cine Babilônia. 

Montar uma tapiocaria vendendo tapiocas em todos os sabores com que se vendem pizzas. 

Fazer o check-up que não fiz de novo no ano que passou.






quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

4011) Livros do ano 2 (31.12.2015)



Os dois últimos livros que li em 2015 não poderiam parecer mais diferentes um do outro, mas têm um inquietante detalhe em comum. O penúltimo foi a biografia Trotsky (1986) escrita por Paulo Leminski, e incluída no volume Vida (Ed. Sulina, 1990, ao lado das vidas de Cruz e Sousa, Bashô e Jesus Cristo). O outro, que estou prefaciando para uma reedição da Alfaguara para este ano, foi A Guerra dos Mundos (1898) de H. G. Wells. O que os dois têm em comum? O terror da fome.

Leminski evoca, com traços rápidos e vigorosos, a devastação produzida na Rússia pela I Guerra Mundial e pela Guerra Civil que se seguiu à Revolução de 1917. Além dos milhões mortos pela guerra, milhões morreram de inanição nas estepes da futura URSS. E Wells descreve o terrível mês subsequente ao desembarque devastador dos marcianos na Inglaterra. O terror de não ter o que comer, e as coisas que as pessoas roem com sofreguidão para não morrerem.

Quando a civilização colapsa, todo mundo continua precisando comer todo dia. Seguem-se saques, arrombamentos, assaltos, a maioria feita por pessoas que jamais colheriam sem autorização uma goiaba na goiabeira do vizinho. Mas a fome transforma todo mundo, primeiro em bandidos, depois em animais. Tal como acontece em Ensaio sobre a Cegueira (1995, lido em maio) de José Saramago, onde a fome é agravada pela cegueira. Saramago lembra Wells inclusive na ausência de nomes próprios nos seus personagens designados por detalhes (o médico, o clérigo, etc). E na lucidez sobre as coisas de que o ser humano é capaz.

Literatura fantástica? Não tanto quanto a terrível fome que devastou a Itália durante a campanha da FEB na II Guerra, descrita por Boris Schnaiderman em Guerra em Surdina (1964; lido em agosto). A fome dos pracinhas ilhados na neve, mas principalmente a fome da população local, e o modo discreto, tocante, como as jovens italianas se entregavam em troca de algumas latas de conservas, diante da família que fazia que não estava vendo. Uma área cinzenta separando sexo livre, estupro e prostituição, descrita de modo compassivo e honesto pelo autor.

Coisa do passado? Nem tanto, se pensarmos nos condôminos do High Rise (1975, lido em novembro), onde a fome e a sede levam aqueles profissionais liberais da Londres afluente do futuro à prostituição, ao crime, ao canibalismo. Se hoje há pessoas capazes de matar por um celular, o que não farão por um pedaço de comida, quando o possível colapso econômico futuro estancar a produção e comercialização de alimentos? Que pai conseguirá evitar a “necessidade de também ser fera”, quando somente as feras serão capazes de alimentar seus filhotes? (Continua)