terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

3746) Nossos bilionários (25.2.2015)



(ilustração: www.nationofchange.org)

Os dados são de 2013-2014, mas os números absolutos não importam muito. Vi-os no saite da revista Exame (http://tinyurl.com/oyuvsk6), com dados da consultoria Wealth Insight.  Outras fontes dão outros números, por diferença de metodologia. Uma fortuna inclui ações e outros papéis (e seu valor momentâneo), participação em lucros, contratos vigentes, valor de propriedades imobiliárias, etc. 

Mas, resumindo: a matéria diz que o Brasil ganharia 17 mil milionários em 2014, 8,9% a mais em relação a 2013, que era de 194.300 milionários. A estimativa é de que com mais cinco anos, em 2018, haja no país um total de 407 mil milionários. (Como esses cálculos são estrangeiros, imagino que o critério seja o dólar, ou seja, milionário é quem tem mais de um milhão de dólares, ou 2 milhões e meio no câmbio atual, mais ou menos). E os bilionários?  Cito: “Em 2012, o país tinha 49 bilionários com uma fortuna combinada de US$ 300 bilhões. Neste ano, o país ganhou um bilionário, mas o total acumulado entre eles caiu 13,7%, para 259 bilhões de dólares. Eike [Batista] é responsável por aproximadamente metade desta queda.”

Não acho, como os anarquistas barbudos, que toda propriedade é um roubo. Vai ver que uma boa fatia desse dinheiro é dinheiro justo, de quem (pra usar o jargão vigente) aqueceu a economia, gerou empregos, botou produtos nas prateleiras, pagou seus impostos.  Muitos herdaram suas fortunas, e, como já disse um aristocrata inglês, “quem herda dinheiro roubado não roubou”.

Precisamos de uma revista misturando a Forbes e a Nature, para estudar cientificamente os bilionários e milionários. Dinheiro transforma a gente. Eu mesmo, quando estou com a conta bancária cheia de zeros, fico com 10 metros de altura e 900 anos de vida pela frente.  Só não saio voando porque os bolsos estão pesados.  E esses caras? Em que pensam? Que tipo de olhar eles dirigem para os pobres? (Não falo dos famintos do Sudão ou da Nigéria: falo de mim e dos meus leitores.) São indivíduos soturnos, misantrópicos, de cérebro lagartiforme, faturando fortunas a golpes de ambição e de perfídia?  São hedonistas construindo palacetes submarinos, satélites-de-lazer, bordéis repletos de andróides e ginóides?  São capitalistas truculentos à velha moda, esmagando a concorrência, jogando dez mil famílias na miséria enquanto cuidam da catarata do seu rotweiler? Mistério.

Bilionários e milionários, sejam eles xeiques sauditas, executivos de Manhattan ou playboys latino-americanos, são uma nova espécie criada em nosso tempo, e estudá-los pode lançar luz sobre o rombo no casco do nosso Titanic, mesmo que já seja tarde demais para consertá-lo.




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

3745) Oliver Sacks (24.2.2015)



Oliver Sacks, neurologista e escritor, ficou famoso ao ser interpretado por Robin Williams no filme Tempo de Despertar, onde ele faz o médico que trata de um paciente (Robert de Niro) que está há anos em estado vegetativo.  O médico inventa uma complicada terapia para trazê-lo de volta à consciência, e consegue.  Depois, médico e paciente percebem que o tratamento funciona, mas não por muito tempo, e este se vê condenado a mergulhar de novo nas trevas. Lembra muito a situação do clássico de FC “Flowers for Algernon”, de Daniel Keyes (1959).

Sacks, de 81 anos, publicou recentemente no New York Times uma carta anunciando que está com câncer de fígado, em fase terminal, e tem apenas algumas semanas de vida. (Aqui, a carta, traduzida: http://tinyurl.com/k9xvcex). Os leitores brasileiros hão de lembrar livros como O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, Um Antropólogo em Marte e muitos outros em que ele descreve casos clínicos recolhidos de sua longa carreira médica. Sacks dedicou sua vida ao estudo do cérebro humano e da mente humana, e ler um dos seus livros abre os nossos olhos para a fragilidade de conceitos como consciência, percepção, personalidade, etc. 

Diz ele, em sua carta: “É só minha a decisão de como viver os meses que me restam. Tenho que viver da forma mais rica, profunda e produtiva que conseguir. (...) Repentinamente me sinto possuidor de um foco muito claro, e de perspectiva. Não há mais tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não vou mais assistir o jornal na TV todas as noites. Não vou mais prestar atenção para política ou para argumentos sobre aquecimento global. Não se trata de indiferença, mas de desapego – ainda me importo muito com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com o crescimento da desigualdade, mas estas coisas não estão mais na minha alçada; pertencem ao futuro.”

Diante de situações assim a gente percebe que o mundo se divide em O Mundo e o Meu Mundo. Há uma área imensa do mundo que ignora a nossa existência, que vai ficar para sempre invulnerável às nossas ações. Como se fosse outro planeta, e não o planeta onde vivemos. Mas há outro, o Meu Mundo, onde a nossa vida conta, nossas ações produzem resultados, nossa presença chama a atenção, nossa ausência deixará um vazio. Quando somos jovens cheios de sonhos, de atrevimento, de esperança, achamos que um dia o Meu Mundo se confundirá totalmente com o outro. Quando estamos na porta, nos preparando para ir embora, é hora de esquecer o que está fora do nosso alcance, e de reconhecer que o Meu Mundo é pequeno, mas é tudo que a gente tem.




domingo, 22 de fevereiro de 2015

3744) O livro sem E (22.2.2015)



A palavra “contrainte” (em francês; “constraint” em inglês) significa “restrição arbitrária que um autor se auto-impõe”, e tem produzido obras curiosas na literatura.  O sujeito pode dizer, por exemplo: “vou escrever uma história onde tudo acontece de trás para diante”, uma história onde o tempo corre ao contrário. Isto foi feito, com relativo êxito, por Philip K Dick (Counter-Clock World), Fritz Leiber (“The Man Who Never Grew Young”) e outros.  Em geral, contudo, a “contrainte” não se prende ao tema, mas à forma, a um detalhe técnico qualquer.

Já escrevi sobre o romance de Georges Perec La Disparition, onde ele não usa a letra “E”.  Não foi o primeiro a fazê-lo. Provavelmente essa honra cabe ao romance Gadsby (1939) de Ernest Vincent Wright, um autor obscuro que morreu logo após o lançamento do livro. Um artigo de Mark Juddery (aqui: http://tinyurl.com/bhyzlfw) comenta essa verdadeira anomalia literária, como foi considerado na época, e anota o detalhe de que Wright, para se manter fiel ao compromisso, amarrou com cordão a tecla da letra E de sua máquina de escrever, para não usá-la por distração. Não sei se o recurso poderia ser usado num teclado de computador, mas este tem a vantagem da busca. Toda vez que tentei fazer algo assim, uma rápida busca pela letra em questão acaba nos mostrando todas as vezes em que a empregamos por descuido.

É uma história de amor, mas Wright nunca usa, por exemplo, a palavra “love”, e a substitui por circunlóquios (“strong liking”, “throbbing palpitation”).  Wright foi mais rigoroso do que Perec: ele evita o uso de abreviaturas como “Mr.”, porque “Mister” contém a letra proibida (Perec abreviou algumas palavras que continham “E”).  Wright também praticou primeiro algumas das façanhas mais divertidas do livro de Perec: pegar frases famosas e parafraseá-las omitindo a letra proibida. Uma frase como “a thing of beauty is a joy forever” do poeta Keats (“uma coisa bela é uma alegria eterna”) ele recria como “a charming thing is a joy always”, que é quase a mesma coisa.

Proezas desse tipo se parecem àqueles filmes feitos num único plano-sequência, sem cortes, ou àquelas peças de piano tocadas apenas nas teclas pretas. O objeto não é o mesmo dos jogos comuns, das músicas comuns. No caso dos lipogramas (textos que omitem uma ou mais letras), trata-se de um exercício intelectual onde o objetivo estético, embora presente, retrocede para segundo plano.  O objetivo não é só o de produzir uma obra de arte, mas de testar os limites de esforço e de engenhosidade que alguém pode atingir na feitura de uma obra de arte. Metade obra, metade exercício.




sábado, 21 de fevereiro de 2015

3743) Dicionário Aldebarã IX (21.2.2015)



(ilustração: Arzach, Moebius)

O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta, e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.

“Skensoul”: a sensação de não conseguir lembrar a identidade, o nome, o rosto de uma pessoa, mas lembrar com precisão todo o complexo de emoções que em nossa memória está associado a ela.  

“Campertuis”: a atitude de alguém que está fazendo várias coisas ao mesmo tempo, como tomar café da manhã, assistir TV e falar ao celular simultaneamente. 

“Amboure”: a sensação inexplicável de que todos os nossos problemas se resolverão ao mesmo tempo graças a um único fato que não imaginamos qual seja. 

“Talwin”: a sensação incômoda de ver uma pessoa carregando um objeto que parece ser mais pesado do que ela.

“Ustahan”: o dia convencional de jejum que se segue às datas festivas com ceias que reúnem toda a família.  

“Oldavires”: aplica-se a todas as pessoas que dão pouca atenção ao ambiente que as cerca e estão o tempo inteiro atravancando a passagem com seus veículos, etc.  

“Semajy”: pessoas extremamente cerimoniosas que passam horas para dizer ou pedir algo que a essa altura já ficou óbvio para todo mundo. 

“Bargle”: a fala ininteligível dos bebês, e também os significados intencionais que a família fica ansiosamente lhe atribuindo.

“Icterah”: a sensação de inebriação e de expectativa misturada com receio de quem embarca numa empreitada de grande porte.  

“Daiobill”: a falsa sensação de anoitecer produzida por uma chuva que escurece o céu durante o dia. 

“Endivar”: as pequenas mudanças no comportamento de alguém muito próximo que nos indicam que algo está acontecendo, embora a gente não possa adivinhar o que é.  

“Abofrin”: nossa tendência a imaginar que se uma sequência de fatos até agora assumiu uma forma, os próximos fatos também estarão sujeitos a ela.

“Ambiloon”: o lado bom e oculto de toda pessoa antipática, ou o lado negativo e oculto de toda pessoa simpática.  

“Todills”: qualquer solução repentina para um problema, que aparece como que caída do céu.  

“Nostres”: banhos de mar coletivos, noturnos, na época em que o sol forte do verão torna as praias inacessíveis.  

“Lequirum”: pequenas gavetas sob a mesa de jantar onde as pessoas da casa guardam seus talheres especiais, copos, etc.  

“Mausbaq”: rebatedores de luz pintados com tinta prateada e colocados à cabeceira da cama, para refletir a luz do teto e facilitar a leitura de quem está deitado.



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

3742) Um problema de xadrez (20.2.2015)



(As brancas jogam, e dão mate em dois lances)

Quem não é aficionado de xadrez pensa que um problema de xadrez é a mesma coisa que uma partida de xadrez, mas não é.  Uma partida é um jogo entre adversários. Como em qualquer jogo, parte de uma situação inicial sempre a mesma, e vai refletindo a disputa de forças que passa a acontecer.  Um problema de xadrez é outra coisa.  É uma situação imaginária, proposta numa revista ou jornal. Envolve poucas peças, e o desafio: “As brancas dão xeque-mate em três lances”, ou “as pretas deixam o jogo empatado com dois lances”, coisas assim.

A graça do problema é você saber, pelo enunciado, que existe, sim, uma combinação de jogadas que conduz ao resultado anunciado.  Fogo é encontrar, porque às vezes é preciso um raciocínio meio não-convencional para achar a resposta.  No problema, aliás, isso é até mais fácil de acontecer, porque não houve toda uma partida cheia de peripécias e de intenções não-alcançadas, para chegar até ali.  Numa partida de verdade é mais fácil ficar preso à narrativa que aquele momento do jogo está propondo.  Num problema, não: chega-se emocionalmente zerado ao que na verdade é um desfecho.

Nos romances de Raymond Chandler, um dos hobbies do detetive Philip Marlowe é o xadrez, mas não me lembro de nenhuma história em que Marlowe dispute uma partida com quem quer que seja.  Ele volta para casa à noite (mora sozinho), toma banho, ouve música no rádio, prepara comida, come, depois pega o tabuleiro e arma um problema, ou reconstitui uma partida inteira entre dois mestres do passado, como um pianista que volta a tocar um Noturno para não se esquecer.

Um problema é uma pequena obra de ficção enxadrística.  Como no romance, imaginamos a existência de uma imensa teia de narrativas prévias, não-contadas, que desaguam naquele texto que começamos pelo “Capítulo 1”.  Um romance é uma história que vai acontecer, e um problema de xadrez é uma história de que não vimos o começo mas vamos ter que adivinhar seu possível fim.  Teoricamente seria possível prolongar indefinidamente aquela partida, mas a certeza da existência de uma solução radical, uma guilhotina instantânea, leva o jogador a não descansar enquanto não a encontra.

Jogar xadrez é um duelo intelectual, uma relação densa e aguerrida entre duas mentes.  Um problema de xadrez é o contrário disso: é um prazer solitário.  Uma minipartida abstrata entre o cara que publicou o problema no jornal, e o cara que vai tentar resolvê-lo.  Parece muito com a literatura, e parece mais ainda com a literatura policial.  É um detalhe sutil de Chandler, fazendo uma homenagem discreta aos grandes mestres do romance detetivesco.




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

3741) A Sexta Profecia (19.2.2015)



(Abbey Bookshop, em Paris)

Almério mandou o calhamaço de 600 páginas, romance ainda por cima, pra uma editora carioca. Depois de roer unhas uma semana, ligou para o editor, Diogo Montalvão. “E aí, Dr. Montalvão, o que o sr. achou?”  O editor disse: “Meu querido, eu tenho uma fila de leitura, por ordem de chegada. O seu acabou de chegar. Ou você pensa que é o único brasileiro que quer viver sem trabalhar?”   “Foi o sr. quem me pediu, o sr. mesmo disse que eu podia mandar.”  “Foi pedido, foi recebido, será lido, será avaliado.”  “E se alguém me fizer uma oferta  muito boa por ele?  Pelo que eu vejo o senhor nem passou os olhos pelo livro.”  “Acertou.  Ele foi para a prateleira de espera. Eu tenho um vazamento financeiro nas minhas empresas, preciso tratar. Quando normalizar tudo, eu volto a cuidar da editora.”  “Então o senhor não vive da editora, tem mais de uma atividade.”  “Isso mesmo.  Ter várias atividades é também uma forma honrosa de viver sem trabalhar, concorda?  Mas se a Gallimard ou a Penguin lhe fizerem uma proposta irrecusável eu cedo a vez. Basta me avisar, e desejo sucesso.”

Almério já desligou com o plano armado.  A prima em Paris fazia Letras, e o marido francês dela trabalhava nessa editora.  Ele pediria pro cara lhe mandar um email banal indagando sobre o manuscrito. O livro dele era uma fantasia heróica: Cavaleiros da Sexta Profecia, por Almério Patrício. Mostraria o email: “Olhe aqui, Dr. Montalvão, a Gallimard está me sondando...”  Isso poderia motivar o velho, certo?  Ninguém mais ficaria sabendo, o assunto morria ali mesmo.

De fato a prima conseguiu, e o marido dela até se interessou pelo livro. “Pensei que a Gallimard era uma editora para intelectuais,” disse Almério.  O francês disse que toda pessoa capaz de ler e entender um livro é um intelectual, e que fantasia heróica sempre vende, mas é muito repetitivo, é preciso procurar algo com um gume de novidade, de diferença.  Ele mandou.

Quando recebeu da Gallimard a confirmação de interesse e a informação de que já tinham até um tradutor, Almério ligou para Montalvão. “A Gallimard quer meu livro, Dr. Montalvão. E eu devo isso ao sr., por absurdo que pareça.” “Você nasceu de quina pra lua, rapaz, porque eu acabei de liquidar a editora, o vazamento era nela.  Fechando isso eu respiro. Teu livro é bom, então? Mas vejam só, talvez tivesse sido minha tábua de salvação. Você ia ser meu Paulo Coelho.”  A editora de Montalvão sumiu do mundo, Almério publicou em Paris, ganhou dois prêmios e já vendeu os direitos para o cinema e os quadrinhos.  À imprensa, já admitiu que tem uma idéia bastante clara para o próximo livro, Cavaleiros da Quinta Profecia.




3740) O susto e o suspense (18.2.2015)



Existe filme de susto e filme de suspense.  São sensações diferentes: a queda que machuca o joelho, e o mergulho numa montanha russa.  Uma das nossas primeiras descobertas na linguagem do cinema é a diferença entre estas duas.  Não são duas ideologias estéticas; são dois tipos de recursos que os diretores hábeis usam alternadamente, conforme lhes convém.  Os dois não são antagônicos, a não ser no sentido de que não podem ser usados simultaneamente.  Sabendo a hora de usar cada um, o diretor faz sua fama.

Alguns sustos de Hitchcock: uma cena no antigão A Dama Oculta (1938), em que pessoas buscando a dama desaparecida num vagão de carga de trem fazem surgir de repente uma imagem em display (de papelão pintado), em tamanho natural, de um mágico.   Ou a irrupção súbita das aves ameaçadoras, depois que a casa toda foi trancada, através da chaminé (Os Pássaros).  O susto é aquele corte brusco, uma cena calma, que vai fluindo de maneira aparentemente natural, e de repente... BAM!  Uma coisa acontece, e faz 500 pessoas darem um pulo ao mesmo tempo, na sala de projeção.

Hitchcock costumava dizer que o susto é quando a platéia, um segundo antes, não sabe o que vai acontecer; e que o suspense é quando ela sabe o que pode ocorrer (ou está a ponto de ocorrer) mas o personagem não.  Duas pessoas conversam tranquilamente numa mesa de restaurante sem saber que há uma bomba-relógio ligada, embaixo dela: mas o público sabe, e é o fato de saber que gera o suspense.  Note-se que não basta haver a mera possibilidade de uma bomba, um tiro, um ataque: é preciso que o diretor mostre com clareza que isso está, sim, para acontecer.

Todo diretor (ou roteirista) precisa saber explorar a ignorância-do-espectador e a onisciência-do-espectador.  Em certos casos, a gente obtém um efeito mais forte sobre a platéia mantendo-a “no escuro”, desinformada, sem saber algo crucial.  No segundo caso, o efeito é obtido ao contrário: dando ao espectador uma informação importante sobre a trama ou sobre uma cena específica, informação que o personagem não tem.  O espectador, na sua relativa onisciência (ele “sabe tudo” a respeito daquele detalhe, o personagem não) entra numa atividade mental mais intensa e mais prazerosa, comparando o que os personagens estão fazendo e dizendo, na tela, com o que fariam ou diriam se soubesse o que ele, espectador, já sabe.

No susto, puxamos o público, de repente, para dentro da cena, e ele tem a emoção passiva de deixar-se levar.  No suspense, damos a ele a emoção ativa de saber tudo  - mas sem poder gritar pra quem está na tela: “cuidado, ele está escondido atrás da porta!”.




3739) Trailer (17.2.2015)



(ilustração: Supranav Dash)

A mulher loura atravessa o banheiro envolta numa toalha azul-turmalina.  Um texto em itálico começa a correr horizontalmente na tela, à altura das legendas: “Quando a humanidade inteira pareceu ter enlouquecido e o mundo começou a se acabar, ela conheceu o seu primeiro tempo de paz, o primeiro oásis de sua vida”.  Imagens da cidade, um porto nórdico ou eslavo, com longos armazéns de peixe se enfileirando no cais do porto.  Uma voz de policial, fatigado de tantas horas-extras:

“Há mais de meio século esta cidade agarra-se à vida, quando já devia ter virado cidade fantasma.  Foi sendo engolida por portos maiores e evitada pelas rotas comerciais mais rentáveis.  Não morreu porque três ou quatro quadrilhas étnicas dominam sua economia e seus três poderes.  Jogo, contrabando, cabarés, drogas aqui e ali, armas aqui e ali, mas de um modo geral, por ser uma cidade turística, é uma criminalidade do lazer e do prazer, onde a violência só acontece quando necessária.”  

A câmera avança por um corredor, um braço percute numa porta com os nós dos dedos.  A textura dessa imagem é meio quadrinhos, meio videogame de muitos polígonos.  A mulher que abre a porta, no entanto, é de uma perfeição digital onde é possível reconhecer cada poro do seu rosto e dar-lhe um nome e um apelido.  Ela diz ao doutor que ele é muito bem vindo, e é uma honra receber uma visita tão ilustre.  Ela está visivelmente nervosa.  O cenário ao fundo continua poligonal.  Sentam-se os dois na sala de visitas, diante de uma mesinha de chá, com bule, xícaras, etc.  Ela tem as mãos pousadas no colo.  Ele usa terno e tem a cabeça de um abutre, com o bico bem aberto.

Vem a seguir um desfile rápido dos nomes do elenco, acompanhados por uma música triste-alegre de circo ou de teatro de revista .  Câmara mostra bandinha semelhante na rua, faz panorâmica e mostra o letreiro luminoso de um teatro anunciando a banda em cartaz: Dêutero Blue.  Uma mulher ruiva diz à câmera: “Num jogo onde todo mundo está mentindo, nenhuma arma é mais mortal do que a verdade!”  Revólveres cuspindo fogo.  Carrão perseguindo pedestre numa viela, quicando latas de lixo e espantando os gatos.  Um homem de sobretudo segura uma moeda em cada mão e mostra as duas: “Somente uma delas é verdadeira.  Qual? A que a gente tem em maior quantidade.”  Um aguaceiro à noite, um jazz de vigésimo andar.  Na calçada passa um casal semi-encharcado, caminhando sem pressa embaixo de um guarda-chuva, aos cochichos.  Uma voz diz: “Todas estas imagens são autênticas, e o nosso trabalho foi somente criar novo áudio e fazer a edição final.”  Fim do trailer.





3738) Maratona Casablanca (15.2.2015)



Tenho amigos cinéfilos na Paraíba que costumam programar maratonas cinematográficas na casa de um deles. O detalhe é que são maratonas de um filme só, o mesmo filme rodando em sessões contínuas desde a chegada do primeiro conviva até a partida do último.  A duração disso depende da quantidade de presentes, além de outros fatores, mas não é extraordinário que vá das oito da noite às seis da manhã.

Esqueci de dizer que o local é ideal para isso, numa granja a 20km do centro da cidade, uma espécie de anfiteatro ou concha-acústica coberta, com capacidade para 36 poltronas, uma boa projeção, ótimo áudio, e no degrau de cima da arquibancada expande-se uma área servida por um barzinho acarpetado e discreto. Tanto é possível ficar sentado, vendo qualquer trecho do filme, quanto ir para aquela área, e geralmente isso acontece da segunda projeção em diante.

Na noite mais recente que eu fui o filme era Casablanca, que eu acho simpático mas, numa distribuição de senhas por ordem de importância, ele só ia ser atendido quinta-feira que vem.  Foi até melhor, porque depois de ver a primeira sessão integralmente (nisso eu nunca transigi, companheiros, meus princípios éticos continuam os mesmos: “Filme começado a ver é filme visto até o fim!”) tirei algumas horas conversando com meu clínico geral, com um amigo de minha filha mais velha e com dois ex-colegas de trabalho. 

Engraçado que toda vez na cena da Marselhesa a gente suspendia a conversa.  Era como se aquele nosso cinema fosse uma embaixada, um território diplomático, e a gente tivesse a obrigação etiquetal de respeitar o hino alheio.  Uma Marselhesa de filme B americano!  Grande prédio.

Fui olhar de novo a platéia às 3:15. Havia dois ou três casais de dedos fortemente entrelaçados, soprando o pó da sua Paris.  Alguns nerds silenciosos manipulando câmeras de celular, gravadores, cronômetros.  Tini copos com Pascoal, o dono da casa.  “Sempre sonhei com isso,” disse eu. “O Restaurante de Alice, né?” disse ele.  Uma piada antiga de quando o filme de Arthur Penn passou em Campina. Lá embaixo, na tela, a gigantesca mulher das nossas vidas embarcava, reprimindo um soluço.  Graças a Deus o nosso personagem estava de chapéu e sobretudo. Imagina uma despedida como essa, e o cara de camiseta e bermuda. Seria o juízo final.

“O filme bom,” estava dizendo Pascoal, “é aquele que a gente revê achando que desta vez, pode vir a acontecer uma coisa diferente. Que pode ter acontecido algo diferente naqueles dias em que imprimiram tantos metros de películas, aquelas noites em que se gravaram às pressas aqueles diálogos que estavam sendo lidos pela primeira e última vez.”




sábado, 14 de fevereiro de 2015

3737) Erro de leitura (14.2.2015)



(ilustração: Debbie Millman)

Falo aqui de vez em quando sobre certos erros ou distrações que acabam nos dando idéias criativas.  Interferências do Acaso, produzindo uma idéia que nunca teria nos ocorrido pelos canais costumeiros.  São muitos os exemplos de coisas que interpretamos erradamente e que equivalem a um ato de criação.  É claro que nem todo erro nos dá uma boa idéia, mas o importante é ficar atento ao processo.  Muita coisa boa já surgiu dele, e o exemplo que cito sempre é “O Evangelho segundo Jesus Cristo” de José Saramago. O livro surgiu depois que ele leu erradamente, ao passar por uma banca de revistas, algumas palavras isoladas, que pareciam formar esse título.  Não era; mas o título lhe pareceu interessante, e o livro todo surgiu daí.

Eu estava assistindo um documentário e no fim apareceu um letreiro, todo em letras caixa alta (maiúsculas), dando informações sobre as pessoas abordadas no documentário.  Dizia que elas estavam “produzindo um ovo”, e que “o lucro com a venda do ovo” seria empregado nisso e naquilo... Prestando mais atenção, percebi que a palavra não era OVO, era DVD.  Um caso parecido foi o do cartaz de uma peça, que li à distância; o título era FREUD (havia um retrato dele) mas eu li FREVO, porque o traçado das letras era muito parecido. (Caberá uma analogia entre o frevo como dança instintiva e o modo como o inconsciente se manifesta?) 

No interior do Nordeste vi uma placa na beira da estrada anunciando o HOTEL PAN DRAMA, título que achei original até perceber que era apenas “PANORAMA”.  Quem também não escapou da minha ficção miópica foi o livro de Laurentino Gomes, “1808” que de longe imaginei ser intitulado “ISOS” e fui olhar de perto para saber que diabo era aquilo.  Mas não é só comigo: meu amigo Pedro Ribeiro comentou um dos meus artigos sobre este tema, “O erro poético”, dizendo que no primeiro relance imaginou ter lido “O perro erótico”, o que não deixa de ser um tema pedindo para ser mais bem desenvolvido. (Alguma alusão inconsciente a “El Perro Andaluz” de Luís Buñuel, será?)

Não é só a vista, é também o ouvido.  Alguém me disse que passou no Largo da Carioca e viu um camelô oferecendo aos brados um “computador do Al Gore”, o que o fez dar meia-volta para checar e descobrir que era “Dual Core”.  Na  Paraíba, a polícia rodoviária executou durante anos a “Operação Manzuá”, nome de uma armadilha para pegar peixes, na qual o peixe entra mas não consegue sair; já vi gente explicando, com a maior segurança, que se tratava da “Operação Mãos ao Ar”. E assim vamos nós, treslendo, tresouvindo, errando e inventando, usando o Acaso como trampolim para o Inesperado, pois “a vida só presta reinventada”.