sábado, 16 de março de 2013

3135) A carta misteriosa (16.3.2013)






O carteiro enfiou a correspondência por baixo da porta da rua. Quando a recolhi, lá estava o pequeno envelope branco. O endereço era o meu, mas tinha como destinatária uma mulher cujo nome não reconheci. Olhei o remetente: outro nome feminino, num endereço do interior da Bahia. Devia ser uma carta para alguma ex-inquilina da casa, onde eu morava há pouco tempo. 

Fazer o quê? Perguntar por ela à proprietária da casa, que morava na mesma rua, uns 50 metros mais acima? Colocar num envelope maior e devolver à remetente? Meu pequeno minuto de hesitação foi neutralizado pela fórmula mágica: “Depois eu resolvo”. Havia coisas mais urgentes para responder entre as cartas recolhidas embaixo da porta.

Anos depois, andei lendo um dos meus “coffee-table books”, aquele livros grandes, de capa dura e papel “couché”, que a gente bota na mesa da sala para que algum visitante chique sinta alívio, percebendo que também ali, e não só na casa dele, os livros são usados como adereços de decoração. 

Ao folhear (era um álbum de fotos do Rio de Janeiro), cai-me aos pés um envelope branco, pequeno, fechado. Examinei-o com estranheza. Era uma caligrafia feminina (era mulher, a remetente), aparentemente alguém que se alfabetizou às custas de esforço e determinação. A caligrafia era cursiva, mas cada letra surgia solta das demais, cada letra era mais desenhada do que escrita, marcando fundo o papel. 

Uma carta de uma desconhecida para outra desconhecida. Vaga lembrança. O que diabo esta carta está fazendo aqui? Como veio parar aqui? Fiquei desconcertado, larguei a carta e o livro sobre a mesa. Depois eu resolvo.

Hoje, aqui está ela pela terceira vez. Numa pasta de arquivo-morto, onde acumulo rascunhos, manuscritos, fragmentos, versões datilografadas de poemas, contos e canções que nunca chegaram a lugar nenhum. E que espero ter tempo de queimar antes de morrer, para que a posteridade não mangue de mim. 

Que diabo quer essa mulher, que não me deixa em paz? A carta continua intacta, fechada em si mesma. Seu mistério permanece virgem; o respeito (ou a indiferença) foi maior que a curiosidade. Vinte anos se passaram, já saí daquela casa, mas carrego comigo esse pequeno erro que herdei. 

Quem sabe se Dona Fulana, até hoje, espera o carteiro com a resposta. Não, Dona Fulana, sua resposta não chega. Nem mesmo a pergunta chegou. Está no cemitério das canções que não levantaram voo, dos poemas que foram interrompidos pelo mero constrangimento de estar escrevendo besteira. Se a senhora fosse escritora profissional saberia que mandar uma única carta não adianta. É preciso escrever uma carta por dia, uma carta por hora, uma carta por minuto.





sexta-feira, 15 de março de 2013

3134) Contracapa de Kobo (15.3.2013)





&  quando ele abriu o guarda-chuva desabou lá de dentro o maior toró  &  dizem que para acabar todas as guerras bastaria desativar meia dúzia de preposições  &  plantei um botão e nasceu um cabide, plantei uma ratoeira e nasceu um Banco 24 Horas  &  um dia os livros deixarão de ser assinados e serão lidos como se come uma fruta, uma coisa que ninguém fez  &  estou organizando uma máfia do bem, para fazer boas ações às escondidas  &  não existe nada mais ofensivo do que ser considerado um cara inofensivo  &  um dia consiste em seis horas de treva, doze de luz, e seis de treva de novo  &  do jeito que a coisa vai, os shoppings vão começar a cobrar pedágio em escada rolante  &  um marca-passo para o cérebro não seria má idéia  &  confessionários com alçapões, cuja mola o padre aperta se o pecado é muito feio  &  um dia, não existirá na superfície da Terra outra coisa senão oceanos e cidades  &  uma câmara de vigilância em cada esquina, em cada portaria, em cada porta, em cada testa  &  não ganho nada em falar mal da velhice, uma vez que é para lá que estou indo  &  ter a humildade de um PhD que se dedica a estudar helmintos  &  quando a gente finalmente entende uma coisa, quer dizer que ela acabou  &  na dúvida, grite: “você não passa de um lamelibrânquio!”, e saia correndo  &  não é a outra volta do parafuso, é o último aperto do garrote vil  &  tem político tratando cartão de crédito como se fosse o controle remoto de Deus  &  melhor fechar essa janela e pintar outra paisagem pelo lado de dentro  &  a boa pergunta já mostra a direção da resposta  &  toda dança ou é uma sublimação do sexo ou é uma preparação para ele  &   se o mundo fosse um lugar justo, choveriam bigornas de vez em quando  &  este livro deveria se intitular “Melhores Momentos de um Naufrágio a Longo Prazo”  &  quando o telefone toca, tanto pode ser a ressurreição quanto a guilhotina  &  toda estatística é uma foto desfocada de uma situação  &  estoicismo não é apenas suportar a dor, é também menosprezar o prazer  &  a vida é um suicídio a prestações auto-renováveis  &  tem sujeito tão burro que uma lobotomia o deixaria mais inteligente  &  quem esquece o seu passado está condenado a nunca sair dele  &  a arte de criar passarinhos em gaiolas abertas  &  houve um tempo em que sacolejar em carruagem era o ponto alto do conforto  &  nunca é cedo demais para dormir até mais tarde  &  se eu tivesse um milhão de dólares, ficaria motivado apenas a ganhar o meu próximo milhão de dólares  &  enquanto a banda tocar é sinal que o navio ainda não afundou  &  o melhor lugar para se esconder da polícia é na cadeia  & 



quinta-feira, 14 de março de 2013

3133) Drummond: "Música" (14.3.2013)




Carlos Drummond de Andrade dedicou a seu amigo Pedro Nava este poemazinho de Alguma Poesia, seu livro de estréia em 1930.  É um poema de época, flash de um tempo em que as casas tinham um piano na sala, para que as moçoilas exibissem seus dotes às visitas, após a ceia. Fazia parte nos namoros daquele tempo esse momento ao piano, em que sensibilidade, refinamento, traquejo social e outras qualidades eram aferidas ao som de um Noturno ou de uma Polonaise. Machado, no “Memorial de Aires”, tem belas páginas em que o  Conselheiro Aires observa o namoro de dois jovens durante essas sessões pianísticas.

O poema de Drummond, “Música”, diz: “Uma coisa triste no fundo da sala. / Me disseram que era Chopin. / A mulher de braços redondos que nem coxas / martelava na dentadura dura / sob o lustre complacente.”  O traço mais notável aí é uma certa rudeza nos símiles – os braços parecem coxas, o teclado é comparado a uma dentadura. Isto já condiz com a inapetência do narrador para com essa música que desde o início ele considera “uma coisa triste”, sem sequer chamar de música.

E ele prossegue: “Eu considerei as contas que preciso pagar, / os passos que era preciso dar, / as dificuldades... / Enquadrei o Chopin na minha tristeza / e na dentadura amarela e preta / meus cuidados voaram como borboletas.”  Na obra de Drummond, a criação artística redime tudo, recupera tudo. O Chopin deste poeminha é primo legítimo das canções que ele enumera em “A música barata”: “Paloma, Violetera, Feuilles Mortes, / Saudades de Matão e de mais quem? / A música barata me visita / e me conduz / para um pobre nirvana à minha imagem”.  Como acontece com o protagonista de “A Náusea” de Sartre, que em plena crise de bad-trip existencialista deixa-se resgatar de volta para o mundo e a vida através de um blues cantado por uma negra; “Some of these days / you’ll miss me honey...”.

No começo de século em que viveram esses escritores a música barata surgia como uma possibilidade de enlevo, de êxtase acessível. Era a música capaz de arrancá-los da tristeza e da banalidade do cotidiano. Tempo em que a música era uma salvação caída do céu, e não esse martelar constante e onipresente do mundo de hoje. Pra onde a gente se vire, há uma superfície eletrônica produzindo música, e mesmo que toda essa música fosse a música de que gostamos, isto não seria uma versão requintada do inferno? Estar preso numa gaiola com um milhão de pássaros cantores? No tempo de Drummond, tanto o Chopin erudito quanto as valsinhas kitsch dos salões eram capazes de fazer as preocupações humanas partirem todas numa revoada de borboletas.

terça-feira, 12 de março de 2013

3132) Barrados no clube (13.2.2013)





(Sérgio Sampaio)



Groucho Marx, numa frase famosa, definiu num paradoxo a atitude dos marginais e rebeldes de todos os tempos: “Não quero entrar num clube que me aceite como sócio”. 

O paradoxo inicial se dá pelo fato de que o sujeito sugere que, se o clube o aceita, não pode prestar. Se o clube o aceita, não merece respeito, não é digno do seu interesse. Se o aceita, está abaixo dele, ou na melhor das hipóteses no mesmo nível dele... e nesse caso que diabo ele vai fazer num clube furreca como esse?!

Na verdade, os artistas marginais (e os marginais em geral) gostam de ser escorraçados, gostam do preconceito, gostam de ser vistos com desconfiança. 

Em seu livro sobre o marginalíssimo Sérgio Sampaio (Eu quero é botar meu bloco na rua, Ed. Língua Geral, 2009), Paulo Henriques Britto lembra que “a associação entre rock e a condição de outsider é um tema recorrente no período pós-tropicalista”, e cita a canção em inglês do disco londrino de Caetano que diz: 

“Você sente uma vaga sensação de orgulho quando lhe dizem: ‘Aqui você não pode entrar – cai fora’ – rock and roll é isso aí”. (“That’s what rock and roll is all about”).

Ser barrado na porta de alguma coisa dá a idéia de que você é considerado indigno, mas também sugere que você é considerado perigoso, é uma ameaça. 

Faz bem ao ego ser barrado. Ser perseguido produz medo, mas a adrenalina que combate esse medo é pensar que quem é perseguido é porque tem algum poder. É a fantasia compensatória de todos os “slans”, de todos os “precogs”, de todos os X-Men da FC: somos barrados porque somos uma ameaça. 

Quem é barrado é porque pode, se entrar, botar a perder o Paraíso Terrestre de alguém. Pode “desafinar o coro dos contentes”, como ameaçavam Torquato Neto e Macalé. Pode “estragar o piquenique” como garantia Paulo Leminski. Pode “invadir sua praia” como prometia ferozmente o Ultraje a Rigor.

Gilberto Gil, no “Rock do Segurança” (“O segurança me pediu o crachá / eu disse: Nada de crachá, meu chapa...”) é quem melhor cristaliza essa sensação de superioridade. O mendigo/ET barrado na porta da mansão é mais livre, mais louco, mais inteligente, mais perigoso e mais potencialmente feliz do que todos os burgueses trancafiados em sua Calle da la Providencia. 

Ser barrado quer dizer que você foi reconhecido, quer dizer que eles admitem o transtorno que você pode causar se cruzar aquela porta, como os Piratas do Tietê ou os Palhaços de Laerte. 

Ser barrado é a condecoração final para quem não quer entrar no Clube – quer ser mesmo é reconhecido como ameaça ao clube.  Até porque, como lembra Gil, “meu amigo – se eu quisesse eu entraria sem você me ver!”.










3131) "Quase Borges" (12.3.2013)




Nas suas derradeiras décadas de vida, Jorge Luís Borges viveu um tipo peculiar de celebridade. Cego, morava na companhia da mãe e de uma empregada, num apartamento confortável mas modesto. 

A TV argentina, imagino, não batia à sua porta toda semana para perguntar-lhe o que achava do hip-hop ou da crise entre judeus e palestinos. Quem o procurava eram poetas e jornalistas do mundo inteiro, que não acreditavam na própria sorte quando ele atendia pessoalmente ao telefone ou à porta, e concedia algumas horas de papo. 

Um desses felizardos foi o poeta Augusto de Campos, que em 1984 visitou o escritor e saiu de lá com anotações que redundaram num relato afetuoso e perceptivo, e na tradução de vários poemas de Borges. Tudo reunido agora em Quase Borges – 20 Transpoemas e uma Narrativa (Musa Rara / Ed. Terracota, São Paulo, 2013).

Augusto de Campos talvez seja nosso maior tradutor de poesia, e certamente um dos responsáveis pela elevação da qualidade e do rigor dessa arte entre nós. Até os que não gostam nem dele, nem de sua poesia, nem de suas posições teóricas tiram o chapéu para o modo como praticou e conceituou, para mais de uma geração, a impossível tarefa de traduzir poemas. 

Toda tradução é uma interferência, porque coloca no poema alheio coisas que não estavam lá na versão original. Toda tradução é perda, porque deixa de incluir coisas que lá estavam.  Toda tradução é distorção – troque uma vírgula, uma sílaba, uma palavra, e o poema já está dizendo outra coisa. 

Como traduzir sem ser infiel? Essa é a pedra filosofal que os tradutores procuram em vão. Um tradutor é um alquimista que muitas vezes transforma ouro em chumbo, quando seu objetivo (irônico, fantasioso, inatingível) é transformar ouro em ouro.

As grandes ousadias tradutórias de Augusto de Campos foram feitas com poetas ingleses, russos, provençais. Traduzir Borges é mais fácil, pela semelhança de cadências, sonoridades e vocabulário entre o espanhol e o português. O verso de Borges é clássico, sereno, rigorosamente rimado e metrificado. 

A tradução de Augusto procura a fidelidade ao que é dito, e admite também certas descontrações de rima, em benefício da harmonia conjunta dos versos: rimar “Homero” com “madeiro”, “coisa” com “duvidosa”, “cinza” com “pisa”. Liberdades que fariam hesitar um tradutor mais melindroso, mas que ele se permite em função da sonoridade e da naturalidade. 

A tradução, principalmente de poesia, é um jogo constante de perdas e ganhos. Augusto segue Borges de perto, e, quando interfere de modo mais rebuscado (veja-se sua solução no primeiro verso de “O Golem”) o faz preservando o tom e a intenção do original.







domingo, 10 de março de 2013

3130) Tourada (10.3.2013)





Erguem-se clarins luminosos e dourados vibrando em uníssono. Poeira cáustica como pimenta do reino. Cheiro de suor, de fumaça de cigarros, de cintos e botas de couro. As grades se erguem rangendo numa raiva de ferrugens descascadas, o peso de anos de remorso e sangue. E da escuridão brota a criatura, minotauro mutante regredido a pura fera, bufando embrutecido pelas narinas frementes, escarvando as lajes da passagem com cascos expectantes. Ele sente lá fora o bafo do mormaço ensolarado, escuta o rugido de triunfo carniceiro que o provoca; agita com raiva o pescoço, e arranca.

Massa compacta de carne, tonelada titânica, uma bala de canhão que dispara a si própria. Dois chifres sólidos como basalto, cada um deles com uma força de golpe equivalente à de um safanão de baleia azul. Por baixo deles, dois olhos miúdos de miúra enfurecido à procura de um alvo para sua última chifrada mortal. Até que ele enquadra o vulto esguio em trajes dourados, desdobrando à sua frente um borrão escarlate.

O que se segue é uma caçada, um intercurso, um balé, como um tubarão dando bote no anzol que se esquiva e negaceia. A mancha rubra da capa que se estende, se recolhe, drapeja, agita-se, roça com zombaria aquela cordilheira de músculos. O namoro entre a tempestade e o para-raios. O sol flameja cegante na espada desembainhada, uma labareda de luz pronta para fulminar.  Os gritos ficam mais ansiosos, ofensivos, como que cobrando um prazo. A lâmina. O animal. Os dois evoluem, dançam, cada qual submetido a um conjunto diferente de equações, trajetórias, impulsos, peso específico, massa inercial; pilotados em parte por si mesmos e em parte por uma inteligência esquizóide que os contrapõe um ao outro e a si mesma, como um só enxadrista que manipule as brancas e as pretas.

E de repente é como se essa mente malabarizasse não apenas os protagonistas, mas a areia, onde já esguicham os borrifos de sangue, as amuradas de madeira cobertas de cicatrizes das batalhas pretéritas, as arquibancadas repletas de figurantes de rosto indistinto vociferando em calculada desordem uma só Babel de palavrões e urros, e as cobertas de concreto, as cabines de TV, as torres dos refletores, o complexo oval de toda a arena, o bairro com uma imprevisível malha urbana, a cidade que pulsa em torno com a indiferença de um coração para com o corpo que mantém vivo.  A imagem se afasta cada vez mais, mal se vê agora o ponto cintilante da espada sanguinolenta erguida em triunfo. O menino sai clicando, desliga tudo, tira os goggles do rosto; num dos seus olhos pulsa e palpita uma besta maciça e cheia de fúria, no outro ergue-se um Zeus matador tendo na mão um raio hi-tech.



sábado, 9 de março de 2013

3129) Democracia eletrônica (9.3.2013)







Nada mais difícil do que implementar um sistema eletivo com base na opinião de todos. Os ingênuos acham que basta haver eleições para que haja, automaticamente, “democracia”, entendida aqui como a realização da vontade livre, espontânea e soberana da maioria do povo. Ledo engano, meus camaradas. E aqui está a Internet para mostrar os mecanismos que direcionam qualquer tipo de eleição. (Em tempo: não sou a favor das ditaduras. Apenas percebo que as eleições são um passo adiante, mas não são a solução do problema.)

Em 2012, o “rapper” Pitbull fez parte de uma campanha da rede de lojas Walmart. A loja que tivesse mais votos no “Curtir” do Facebook ganharia um show dele. Um jornalista de Boston lançou a campanha “Vamos exilar Pitbull”, pedindo votos para uma loja minúscula nos confins do Alasca. O saite Something Awful aderiu, e a loja, praticamente no meio do deserto, foi eleita. Pitbull teve espírito esportivo e foi fazer o show na neve, para algumas dezenas de gatos pingados. Sua vingança foi convidar publicamente o jornalista autor da idéia, que pra não dar uma de fraco teve que acompanhá-lo.

Sabotagem parecida (estou consultando o saite Cracker: http://bit.ly/VFgmho) ocorreu quando a cidade de Austin (Texas) decidiu mudar o nome do seu Departamento de Resíduos Sólidos (ou seja, do lixo). Pediu-se que a comunidade sugerisse nomes e votasse neles. O nome vencedor foi “Sociedade Fred Durst de Humanidades e Artes”, numa alusão ao polêmico vocalista da banda Limp Bizkit. Houve confusão, Durst disse que por ele tudo bem, mas a votação foi cancelada e o nome escolhido foi “Recuperação de Recursos de Austin”.

Em 2012, o Mountain Dew (refrigerante da Pepsi) lançou um concurso semelhante online para batizar uma nova linha de sabor. Houve uma imediata invasão de gozadores, através do popularíssimo saite 4chan, que sugeriram o nome “Hitler Não Fez Nada Errado” e despejaram uma cachoeira de votos online. O concurso foi cancelado.

Esses pequenos episódios mostram que qualquer votação é vulnerável a: 1) indicação de candidatos espúrios; 2) campanhas de voto anárquico. (Ou seja: tudo que for aberto ao público está aberto aos “trolls”, gozadores sempre dispostos a implantar a bagunça para se divertir). Campanhas políticas no Brasil já elegeram o rinoceronte Cacareco e o Bode Cheiroso de Jaboatão; ajudaram a eleger Clodovil, Enéas e Tiririca; reconduzem ao poder, há décadas, políticos não melhores do que estes e que são hoje Monstros Sagrados da República. O sistema eleitoral deve ser banido? Acho que não, mas poderia ser aperfeiçoado. Quanto mais abertura ele oferece, mais vulnerável fica a interferências que o deturpam.




sexta-feira, 8 de março de 2013

3128) Alvin Lee (8.3.2013)



(Alvin Lee em 1975)


Morreu dias atrás, numa cirurgia que não ficou bem esclarecida, aos 68 anos, o guitarrista Alvin Lee. Vi-o pela primeira vez no filme Woodstock, cantando (e estraçalhando com os dedos) “I’m going home by helicopter”.  Era um sujeito de cara engraçada, comprida, tocava de um jeito totalmente descontraído de quem não estava nem aí. Fazia uma coisa aqui, depois outra ali, abafava as cordas, jogava uma distorção, dedilhava nos bordões, depois vinha no pezinho do braço, testando sonoridades e escalas velocíssimas, mas – atenção – sem nunca perder o senso melódico. Tudo que fazia ao improvisar tinha uma intenção musical, não se resumia à simples rapidez acrobática.

Figura engraçada, Alvin Lee. No fim da apresentação de sua banda, o Ten Years After, em Woodstock, ovacionado pela galera, alguém se aproximou dele no palco e lhe entregou uma enorme melancia. Ele agradeceu, botou a melancia em cima do ombro, acenou para a galera, e saiu dali como se tivesse subido ao palco apenas para atender um pedido de um amigo: “Olha, sobe aí e faz 10 minutos de improviso que eu te dou uma melancia”.

Guitarra é um instrumento danado de difícil, mais difícil do que violão, porque mais cheio de recursos. (Claro que podemos dizer também: o violão é mais difícil, porque os recursos são mais limitados, é preciso criar sonoridades apenas com o que está ali.) Alvin Lee não tinha apenas a velocidade supersônica que, infelizmente, acabou se hipertrofiando no rock e deixando para trás a sonoridade. Lee é da escola dos que fazem um solo longuíssimo com a guitarra aberta em notas nítidas e cristalinas com 20% de eco e 15% de distorção, apenas o necessário para que os dedilhados velozes se alternem com longas sustentações de notas que se elevam gemendo, retorcem-se sobre si mesmas como espirais de DNA e por fim deixam-se tombar no chão sonoro, enquanto o músico dispara em outra saraivada de semicolcheias que passeiam por todos os trastes ao mesmo tempo.

A guitarra é uma deusa destrutiva, uma fêmea fatal que arranca tudo de seus sacerdotes. Nunca me interessei pelos guitarristas como pessoas; nunca li uma biografia de Eric Clapton, de Jimi Hendrix, de Jimmy Page, de B. B. King... Sou capaz de escutá-los durante horas a fio, mas dez páginas da vida deles me deixam bocejando. O que dizer então de Alvin Lee, sua mais recente vítima, cujos despojos ainda palpitam diante do altar? Que descanse em paz. A parte dele que foi entregue em sacrifício à Deusa ficará viva para sempre, o que é uma maneira melodramática de dizer que vai durar mais do que eu. Se for assim, beleza. Uma cerva gelada em homenagem a Alvin Lee.



quinta-feira, 7 de março de 2013

3127) Meu romance de estréia (7.3.2013)





Um dos blogs literários que costumo ler é o ótimo The Elegant Variation, de um californiano chamado Mark Sarvas.  Dicas interessantes, ótimas entrevistas, mil idéias sobre literatura.  Numa postagem recente, ele explica que como jurado de um concurso para “Romancista Estreante” teve que ler uma grande quantidade de romances de estréia de jovens autores.  Anotou alguns dos defeitos mais frequentes, que vêm abaixo.

1) Tentar incluir coisas demais. O autor quer, no seu primeiro livro, abordar e resolver todos os problemas e fenômenos sociais do mundo. Conselho: Tudo bem em ser ambicioso, mas não queira ser um Atlas logo na primeira tentativa. 2) Não incluir muitas coisas. Estamos vivendo a apoteose da microliteratura, focalizada em detalhes mínimos e quase sem eventos a relatar. Tem gente demais estreando com romances-de-uma-idéia-só. 3) Achar que basta uma voz narrativa excêntrica para segurar o leitor de um romance. Vozes assim são bem vindas, mas muitas vezes toda a energia do autor é gasta em tentar manter essa voz, esquecendo de produzir outras coisas interessantes (ou então confiando que a voz irá distrair o leitor dessas ausências).

4) São muito coloquiais. Livros que a todo instante fazem referências a minúcias do cotidiano, coisas que muito em breve ficarão datadas. Um romance não é um bate-papo de mesa de bar. 5) São formais em excesso. O defeito oposto: muitos livros parecem ter sido escritos em outra época, de tão cintura-dura, formais, anacrônicos. Ou, o que é pior, parecem estar obedecendo religiosamente, item por item, algum Manual de Como Escrever Romances. 6) Começam com força total mas vão definhando ao longo do trajeto. São como maratonistas que disparam na frente, ébrios de triunfo, apenas para serem ultrapassados, perto do fim da prova, por competidores que souberam dosar melhor suas energias. Muitos livros desabam de vez no final, ou então vão se desorientando e se perdendo como se o autor não soubesse mais o que fazer com sua história.

7) São demasiado reconhecíveis. A gente abre dez livros e reencontra ali os mesmos relacionamentos, as mesmas situações vividas pelas mesmas pessoas das mesmas classes sociais. 8) Eles não justificam a própria existência. Toni Morrison dizia que escrevia para preencher um espaço vazio nas estantes. Há alguns tipos de livros que deveriam estar sendo escritos, mas não sabemos quais são até o momento em que lemos um deles. Infelizmente (diz Mark Sarvas) muitos escritores escrevem por escrever, escrevem para ter um livro publicado, mas chega a parecer que o texto em si, aquilo que estão escrevendo, é uma peça menor nesse processo.



quarta-feira, 6 de março de 2013

3126) A mulher desaparecida (6.3.2013)




(by Gonul Koçak)


O episódio aconteceu na Islândia e desta vez não é invenção minha, aconteceu mesmo. 

Um grupo de turistas, de ônibus, percorria a região vulcânica de Eldgja, no sul do país.  A certa altura, quando o grupo, depois de um passeio a pé, retornou para o ônibus, alguém deu pela falta de uma passageira, que havia saído junto com os outros mas não voltara. Olharam em torno, examinaram a estrada, o motorista buzinou, e nada da mulher aparecer. 

Como a região é vulcânica, todos se preocuparam – ela poderia ter caído numa cratera, desmaiado devido aos gases, etc. O motorista pegou o microfone, e, no inglês previsivelmente carregado que se usa em qualquer país ocidental, explicou a todos do que se tratava, e deu uma breve descrição da mulher desaparecida: asiática, cerca de 1,60m de altura, falando bem inglês, vestindo roupa escura.

O serviço de emergência local foi acionado, e os demais passageiros do ônibus juntaram-se à busca pela mulher, percorrendo de novo os caminhos que tinham trilhado durante o dia. Cerca de 50 pessoas, ao todo, passaram a noite examinando aquela área, munidos de lanternas, aflitos porque com o passar do tempo aumentava a possibilidade de que algo mais grave tivesse acontecido.

A notícia (que colhi no saite Wanderlust, em: http://bit.ly/T1qqOp) informa apenas os fatos, mas posso usar a imaginação para dizer que entre os ansiosos buscadores havia uma senhora, também passageira da excursão, que a princípio estava tão preocupada quanto os demais, mas foi se tornando mais hesitante e dubitativa à medida que as horas se passavam. Enquanto todos iam aos poucos cedendo ao cansaço, ao pessimismo e já a uma certa resignação diante do inevitável, ela ficava mais inquieta, deixando transparecer um misto de angústia e confusão. 

E a certa altura, lá pelas 3 da madrugada,  chamou de lado alguns passageiros que vinham sentados em poltronas próximas, no ônibus, e fez um discreto interrogatório. Ao ouvir-lhes as respostas, soltou uma exclamação de desabafo, e abraçou-se com eles, nervosa: “Então sou eu!”.

Era ela, de fato. Durante o passeio tinha voltado ao ônibus para trocar a roupa escura que usava por outra mais quente, ou mais confortável; e no retorno sentara numa poltrona diferente (os assentos eram livres). Ninguém achou estranha sua presença, mas, curiosamente, alguns deram pela ausência da outra senhora que viera perto deles durante o trajeto. E ela, ao ouvir dizer que alguém estava faltando, não imaginou que pudesse ser ela própria, visto que estava ali.  

A literatura existencialista, por mais que se esforçasse, não conseguiu produzir uma parábola tão cristalina sobre os bugs embutidos no software da vida humana.