quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

3097) O plágio poético - 3 (31.1.2013)






A facilidade de plagiar um poema, maior do que plagiar um filme (que custa uma fortuna) ou um romance (que dá um trabalhão) faz do plágio poético um crime difícil de registrar. Plagiar poemas é fácil, ainda mais agora. Eu posso ler na Internet, numa revista croata, a tradução em inglês de um poema feito por um autor italiano que mora na Holanda (a poesia é mais internacional do que a World Wide Web). Não me custa nada – se eu for um larápio, um calhordinha – copiar esse texto inglês, dar-lhe novo título, traduzi-lo (substituindo por outra coisa as partes que eu não entender), e – voilà! Um poema em português, inédito. Nem no Google você rastreia.

Talvez seja essa facilidade, que já existia na era pré-Internet, que inspirou Roberto Bolaño a criar um dos personagem mais divertidos de seu livro A Literatura Nazista nas Américas (1996). O livro é um conjunto de biografias de 30 literatos, simpatizantes do fascismo, do nazismo, de ideologias de extrema direita. Todos são imaginários, mas é difícil ler essas sinopses (cada uma vai de duas a dez páginas) sem pensar: “Conheci um Fulano que era exatamente assim”.

A certa altura Bolaño nos apresenta o haitiano Max Mirebalais, plagiador compulsivo. De origem humilde, ele começou a trabalhar num jornal local e, como assistente de colunista social, teve acesso um dia às festas nas mansões dos ricos. Diz Bolaño: “Assim que ele descobriu aquele mundo, quis pertencer a ele”. Decidiu fazê-lo através do ‘status’ de poeta, e começou plagiando Aimé Césaire. Ninguém percebeu, e ele passou a plagiar (e publicar) poemas de René Depestre. Todo mundo adorou, e ele atacou a obra de Anthony Phelps, Jean Dieudonné Garçon e muito outros.

A irresistível ascensão social de Max Mirebalais é tão fulminante (porque, ao que parece, ninguém lê poesia haitiana no Haiti, a menos que seja amigo do poeta) que ele vai morar na Europa, e precisa criar heterônimos. Diz Bolaño: “Foi assim que nasceu Max Le Gueule: a chave de ouro da arte do plagiador, uma salada dos poetas de Quebec, Tunísia, Argélia, Marrocos, Líbano, Camarões, Congo, República Centro-africana e Nigéria”.

Plagiar gente obscura é uma maneira fácil de sair da obscuridade, desde que o plagiador tenha acesso a canais de divulgação que são inacessíveis ao plagiado. E é em casos assim que o plágio deve ser punido: quando alguém copia e assina, de modo deliberado e mal-intencionado, a obra de alguém que não pode se defender desse ataque. Em casos assim, amigos, não existe papo de “compartilhamento” ou de que “a poesia é de todos”. Como dizem os nossos poetas, “todo o bem que eu desejo a gente ruim / é chibata, cacete e camburão”.



quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

3096) O plágio poético - 2 (30.1.2013)




(Tim Dooley)


Falei ontem sobre um poema de Christian Ward copiado de um poema de Tim Dooley, que por sua vez pretendia ser uma paráfrase (homenagem? citação?) do famoso poema de Pablo Neruda, “Walking around”. Dooley pode dizer que estava apenas parafraseando ou citando (ele indica Neruda no título). Mesmo assim, a maior parte do seu poema são frases de Neruda ao pé da letra. Pode-se argumentar a seu favor que ele reconheceu a presença de Neruda, não quis agir às escondidas. Muito bem, isso pode lhe dar pontos em honestidade, mas o conjunto não lhe dá pontos em poesia. 

Já o caso de Christian Ward me parece mais grave, pelo que li. Ele só admitiu ter plagiado Dooley depois de ser flagrado plagiando outra pessoa. Ward inscreveu no concurso para o Prêmio Hope Bourne o poema “The Deer at Exmoor”, que foi o vencedor. Essa vitória tornou seu poema conhecido e logo alguém, que tinha lido o poema de Helen Mort, mostrou que eram quase iguais. Ward afirmou pela imprensa: “Eu estava escrevendo um poema sobre minha infância em Exmoor e fui descuidado. Usei o poema de Helen Mort como modelo para o meu, mas me precipitei e acabei enviando um rascunho que não era inteiramente obra minha”.

Ora, idéias alheias todo mundo pega. O mínimo que pode fazer é deixar claro, em público, que recorreu àquelas fontes. Eu tenho um poema chamado “Blow-up” que dediquei a Michelangelo Antonioni, Julio Cortázar e César Leal. São as minhas referências para a criação daquele poema que, mesmo assim, me parece muito original, e meu (mas qualquer um dos citados, se o lesse, descobriria na hora de onde ele veio). Já citei/parafraseei Drummond, Cabral, Vila Nova, Dylan, Carlos Nejar, Pessoa, Leminski, Ginsberg... Não me orgulho nem me envergonho disso. São estudos, exercícios. Meus poemas podem não ser grande poesia, mas não são plágios, são reelaborações que eu defenderia em qualquer tribunal.

Você pode usar idéias, formas, estilos ou enredos alheios. A Arte é uma reciclagem permanente de formas e de idéias, tanto coletivas quanto pessoais. A única coisa que pode justificar esse uso é: 1) Você deve criar mais do que cita, ou seja, a parte sua, pessoal, original, deve ser maior, deve ter mais peso do que a parte referencial, feita a partir da obra alheia; 2) Você deve fazer isso de tal modo que se o autor citado ou imitado vir o que você fez, ao invés de reclamar, diga: “Puxa vida, esse cara é muito bom, vejam só o que ele fez a partir de uma idéia que eu tive”. Ou seja: “procurar fazer da cópia uma obra que o autor do original pudesse apreciar com prazer e aplaudir com orgulho”. Se não for assim, ou é picaretagem ou incompetência. (Continua amanhã)



terça-feira, 29 de janeiro de 2013

3095) O plágio poético - 1 (29.1.2013)







(Christian Ward)

Acusações de plágio na poesia são tão frequentes quanto, muitas vezes, equivocadas. Eu sempre tive o costume de fazer, em meus versos, alusões, citações, referências a versos alheios. Não aconselho a ninguém. Isso é cacoete, vício de quem leu demais os mesmos versos e só por isto começou a se sentir meio proprietário deles. Todo poeta principiante imita, cita, tenta reproduzir os efeitos que viu nos seus ídolos. É normal. O que não é normal é publicar esses exercícios como se fossem obra original.  O “poema referencial” tem que ter “originalidade extra”, algo que vai além da cópia ou da homenagem. Somente assim a publicação se justifica.

Há um caso de plágio recente na Inglaterra envolvendo o poeta Christian Ward, que teria plagiado um poema alheio. No meio da discussão Ward pediu desculpas pela imprensa e confessou que ter se apropriado de um poema de Tim Dooley, poeta e professor de literatura. Copiei o poema de Ward, “The Neighbour” e o de Dooley, “After Neruda”, para compará-los.

Amigos, os poemas são iguaizinhos, embora aqui e ali Ward tenha feito pequenas mudanças. Mas eis a primeira estrofe do poema original, de Dooley (http://bit.ly/Uk5na5): “Sometimes he’s tired of being a man. / The reflection he sees, in shopwindows / or the cinema screen, takes on a sad / substance, tired and withered: ash-stains / on a shiny piece of suit cloth.”  E eis a primeira estrofe do plágio, de Ward (http://bit.ly/SydZg0): “He often tells me he’s tired of being a man. / The reflection he sees in shop windows / or the cinema screen takes on a sad / substance, tired and withered: ash-stains / on a shiny piece of suit cloth.”  Não traduzo porque o espaço não dá, mas ninguém precisa saber inglês para ver que são praticamente idênticas, até as quebras de linha são as mesmas.  Pra mim é claro que Christian Ward leu o poema de Dooley, gostou e resolveu publicá-lo sob seu próprio nome, para ser elogiado.

Mas nem era preciso que Pablo Neruda fosse citado no título para que eu percebesse a semelhança do poema de Tim Dooley com “Walking around”, um dos meus poemas favoritos de Neruda, o que começa dizendo: “Sucede que me canso de ser hombre...”. Localizei uma tradução em inglês, feita por Robert Bly, para que as semelhanças ficassem mais visíveis. Eis Pablo Neruda: “It so happens I am sick of being a man. / And it happens that I walk into tailorshops and movie houses / dried up, waterproof, like a swan made of felt / steering my way in a water of wombs and ashes.” É apenas a primeira estrofe, mas é muito claro que Dooley quis fazer uma paráfrase de Neruda, e que Ward praticamente copiou o poema de Dooley. (Continua amanhã)



domingo, 27 de janeiro de 2013

3094) A Larica (27.1.2013)




(ilustração de Gustave Doré para Pantagruel, de Rabelais)




A Larica é uma entidade que se apossa – por meios ainda não reconhecidos pela ciência convencional – do corpo desprevenido de um ser humano, e passa a dominá-lo, em seu próprio e parasítico proveito, sempre que ele o permite. O principal sintoma de um indivíduo possuído pela Larica é uma fome inegociável. Se a mesa estiver vazia, o sujeito é capaz de roer a toalha.

Por que tem este nome? Ninguém sabe. Ouvi uma explicação dando conta de que em Cuba, ao que parece, existe uma expressão popular dizendo que: “En la vida del boémio existe la madrugada pobre, y existe la rica”. Não sei se as palavras são exatamente estas, mas La Rica passou a ser um sinônimo daquelas madrugadas insones em que uma mente doentiamente ativa fica impulsionando um corpo a noite inteira de um lado para o outro de um apartamento, fazendo-o esbarrar nos móveis, perder o rumo e ir parar na cozinha quando visava o banheiro, mas de qualquer maneira já que este lugar onde ao que parece eu estou agora é a cozinha, então deve haver uma geladeira, muito bem, eis geladeira. Tudo confere. O que tem dentro deste tupperware? Bora esquentar, e quando comer a gente descobre. 

A Larica funciona assim. Ela é uma entidade pouco nítida para mim que, agnosticamente, não dou a mínima para orixás ou elementais terrestres ou consciências semióticas. Só sei que funciona. O sabor do que se come em Larica é sagrado. Não venham me dizer que a coquilha-de-são-jaques é mais saborosa do que o macarrão-parafuso-com-carne-moída trazido de volta à vida neste instante, mediante ficção científica, cibernética, microondas e pensamento positivo.

Um pão de anteontem redunda na mais saborosa torrada que já chiou num grill. Há maravilhas inexploradas, toda uma fractal de sutilezas possíveis no mix entre o purê de batatas e o arroz. As frutas, então, são um universo à parte. Basta pensar na pletora de líquidos em que uma fruta pode ser mergulhada com proveito gastronômico e chegaremos a números galácticos. Não subestime as bolachas; qualquer substância achatada posta entre duas delas tem, por milagre estrutural, seu sabor enriquecido.

A Larica nos leva de volta à essência sagrada do ato da alimentação, tão banalizado pelos comerciantes de secos-e-molhados e tão aristocratizado pelos gurmês. Só sobreviveremos se destruirmos alguma coisa. Precisamos tirar de algum lugar a energia que nos mantém em movimento. Se um bicho come, ele está interagindo com o Universo num dos seus níveis mais primais, onde a frivolidade não tem vez. O bicho consome energia do Universo. O Universo a fornece, de olho nele. Está contabilizando. Um dia, vai pedir de volta. Algum problema?


sábado, 26 de janeiro de 2013

3093) O anjo e o átomo (26.1.2013)



(Salvador Dali, O anjo caído)



Eu nunca vi um anjo e nunca vi um átomo, mas, por alguma razão profunda, duvido “de graça” da existência do anjo e acredito “de graça” na existência do átomo.

A primeira proposição precisa ser qualificada para não gerar mal entendidos. Jamais duvido da existência do anjo como um produto da nossa cultura, um personagem, uma criatura composta de lendas e imagens. Um anjo existe tanto quanto um elfo, um vampiro, um saci. São personagens da cultura, têm sua função, ajudam a focalizar emoções, servem de símbolo, servem de comparação, ajudam a contar parábolas e histórias... 

Enfim, são personagens que se tornaram indispensáveis na nossa cultura, pelo menos a ocidental e cristã, pois não sei se os chineses, os ianomâmis ou os aborígines da Austrália têm criaturas equivalentes.

Já o átomo, comparado com o anjo, é uma coisa muito sem graça. Quando eu era menino ele era representado como um aglomerado de bolinhas de cores diferentes (o núcleo) rodeado, em órbitas, por outras bolinhas menores (os elétrons). Nunca deixou de me inquietar a noção de que “a menor partícula da matéria” podia ser dividida em partículas ainda menores. Essa contradição filosófica nunca me escapou. 

Em todo caso, um átomo não é feito de miçangas, e sim de vibrações localizadas de energia que se atraem e repelem, e que ao longo de bilhões de anos foram se combinando em padrões estáveis (os elementos químicos).

Por que motivo acredito no que acabei de escrever aí em cima? Eu nunca vi um átomo. Vi fotos com microscópio eletrônico, mostrando espaços negros pontilhados por manchinhas luminosas. Uma coisa inconvincente; eu próprio, se me dessem um bom software de animação, seria capaz de produzir átomos muito mais verossímeis. 

Os átomos são feitos de 99,9% de vazio e 0,1% de energia. E no entanto eu acredito que eles existem, sim, e que são mais ou menos como a Ciência os descreve. (É a própria Ciência que me adverte a colocar esse “mais ou menos”.)

Nós somos convencidos por provas, mas, mais do que por provas, somos convencidos pela Narrativa que se cria em torno de qualquer coisa. 

Se a gente não gosta da Narrativa, nem as provas mais arrasadoras são capazes de nos fazer mudar de opinião. 

Se a Narrativa é convincente, as provas são mera ilustração. 

A Narrativa religiosa do anjo não me convence (o Anjo como entidade espiritual); a Narrativa científica do átomo, sim. Desde a infância a gente vai examinando as Narrativas que recebe (da família, da escola, dos amigos, dos livros), vai se afastando de umas e se filiando a outras. E passa a viver no mundo dessa Narrativa. Eu vivo num mundo onde, se Anjos existem, são feitos de átomos.






sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

3092) "Miguel e os demônios" (25.1.2013)







Lourenço Mutarelli é mais um autor migrando das histórias em quadrinhos para a literatura. Traz consigo um enxugamento de estilo e alguns recursos típicos de quem escreve para a imagem. Miguel e os Demônios (2009) é um romance curto na linha áspera e sombria de Rubem Fonseca, João Antonio, Dalton Trevisan. Cito cada um destes nomes por motivos diferentes. De Fonseca ele tem o acompanhamento do cotidiano de um polícia civil, a percepção instintiva de detalhe bizarros do dia-a-dia. De João Antonio, uma certa ambientação sórdida nos desvãos do centro de São Paulo, por entre pivetes e travestis. De Trevisan, a secura e a precisão das frases e dos parágrafos, sempre muito curtos, desbastados ao máximo.

Mutarelli parece estar escrevendo para si mesmo, com a descontração de quem escreve para quadrinhos e nem tenta disfarçar essa origem. Aqui e acolá ele dá indicações como: “Durante a corrida o celular de Miguel não para de tocar. No visor lemos Rebeca”. Essas dicas de visualização são típicas de roteiro (HQ ou cinema), e num texto mais floreadamente literário pareceriam deslocadas. Mas em Mutarelli elas se encaixam bem com a economia das frases curtas, que às vezes trazem uma ação longa e complexa comprimida em menos de uma linha. Tudo é rápido, direto, e a habilidade de Mutarelli está em misturar o tempo inteiro, nessas rajadas de parágrafos magrinhos e frases curtas, indicações objetivas (o que poderia ser visto por um observador presente à cena) e subjetivas (o que o personagem está sentindo ou pensando, uma área a que só o autor tem acesso).

Miguel é um policial separado da esposa, e tem uma namorada manicure com duas filhas problemáticas e um ex-marido perturbado. Participa de chacinas de menores sentindo-se pouco à vontade. O pai é aposentado e doente, Miguel está voltando a fumar... É uma situação meio Stephen King, e King teria sem dúvida produzido com esses elementos um romance de 600 páginas. Miguel sente-se o tempo todo como uma caldeira a ponto de explodir, e sabe que a explosão não vai poupar nenhum deles.  É um romance de sexo, prostituição, traição e culpa, acompanhando o cotidiano insuportável de meia dúzia de pessoas e as explosões cegas de uma violência alimentada por superstições. Quando os personagens cometem atos que eles mesmos desprezam, o satanismo surge como uma explicação para tudo.  Uma espécie de Teoria da Conspiração individualizada. O personagem tem a compulsão de “pecar”, quer pecar, mas não pode admiti-lo, então precisa criar uma teoria a respeito de demônios que habitam dentro dele e que o obrigam a fazer aquilo de que ele gosta tanto.



quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

3091) A tragédia americana (24.1.2013)





Os EUA parecem estar escorregando para um dos períodos mais sombrios da sua História.  Até eu, que não tenho nada a ver com isso, perco o sono às vezes por causa deles. Agora, o país atingiu mais uma vez seu limite máximo de endividamento. Esse teto agora é de 16 trilhões de dólares; vão faltar zeros no mundo no dia em que essa dívida for cobrada. Barack Obama vive fazendo um vale-tudo junto ao Congresso, pedindo permissão para se endividar ainda mais. (É o mesmíssimo caso que já encarei tantas vezes: nossa turma bebia a noite inteira, e quando chegava a conta o dinheiro não dava pra pagar. O que a gente fazia? Pedia mais cerveja enquanto procurava uma solução.)

Militarmente o país está mais encrencado do que nunca, e o fato de ter saído do Iraque é um pálido consolo diante do gigantesco fracasso militar e político desse pesadelo auto-induzido. Nas tropas norteamericanas acontece um suicídio por dia; mais soldados morreram pela própria mão do que mortos pelo inimigo. Quem é o Inimigo, então? A tragédia recorrente da América é invadir um país primitivo alegando democratizá-lo a poder de fogo, sofrer uma derrota ridícula e sair do país deixando a situação pior do que estava quando entrou.

Além disso, periga se tornar um dos lugares mais paranóicos e reacionários do mundo.  O fundamentalismo religioso deles é diferente dos nossos evangélicos do Brasil, que só querem mesmo pegar o dinheiro dos bestas. Os de lá acreditam mesmo no que dizem. Pobre América de Walt Whitman, o poeta da fraternidade, da igualdade entre irmãos, da aventura de construir um grande sonho coletivo de uma civilização simples, voltada para o trabalho manual e o cultivo do espírito. É essa América (o sonho talvez impossível dessa América, dessa nova chance de utopia para um mundo cansado de impérios armados) que seduziu jovens do mundo inteiro, quando surgiu no século 20 como uma alternativa real para a Europa com seus colonialismos e totalitarismos, seu sistema rígido de classes e clãs, sua decadência.

Os EUA são a viga-mestra do mundo como o conhecemos, e está num declínio talvez irrecuperável (dizem os próprios norte-americanos). Lá dentro ainda resistem bolsões da Ilha da Fantasia, uma espécie de condomínio de luxo cercado por arame farpado, pitbulls e seguranças com metralhadoras. Um bunker suburbano a céu aberto, um céu que antes do 11 de setembro nunca trouxe más notícias. Vamos rezar pela América. No dia em que a viga-mestra partir e ela afundar, vai criar um redemoinho tão grande que nos puxará a todos consigo para dentro do ralo. Talvez só não desça a China, que é tão grande que vai ficar entalada nas bordas.



quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

3090) A poesia e a ciência (23.1.2013)





(Martins Jr.)


Ainda com relação à palestra recente de Ariano Suassuna sobre Augusto dos Anjos, na Paraíba: Ariano fez uma menção à “Escola do Recife”, que teve um papel importante na formação do poeta do Eu. A Escola do Recife foi um movimento nacionalista e cientificista do final do século 19, concentrado na Faculdade de Direito do Recife, que reuniu intelectuais como Tobias Barreto, Joaquim Nabuco, Sílvio Romero e muitos outros. Entre os ativistas do movimento junto à Faculdade estava Martins Júnior (José Isidoro Martins Jr.), intelectual e poeta, grande leitor de ciência e de filosofia, que publicou em 1883 um ensaio intitulado A Poesia Científica. (Ver trechos aqui, em sua página na Academia Brasileira de Letras: http://bit.ly/UoGGcz).

Há influência de Martins Jr. (1860-1904) sobre a obra de Augusto. Os dois têm muito a ver em estilo, em assunto, em visão do mundo. Na sua palestra, Ariano fez uma distinção entre o talento e o gênio. Disse ele que as teorias poéticas de Martins Júnior eram brilhantes, mas que sua poesia era fraca, porque ele tinha apenas talento.  Já Augusto, segundo Ariano, tinha gênio; foi ele quem produziu a “poesia científica” que Martins Júnior teorizou e não foi capaz de criar.

R. Magalhães Jr., em sua Poesia e Vida de Augusto dos Anjos, comenta no capítulo 11 que a morte inesperada de Martins Jr., aos 44 anos, ocorreu em agosto de 1904, causando grande comoção no Recife e na Faculdade de Direito, onde Augusto já estudava. Ele registra a influência, em Martins Jr., “do evolucionismo spenceriano, do transformismo darwínico, do monismo haeckelista e do realismo científico materialista”. Ou seja, praticamente a base filosófica de onde decolava a poesia de Augusto. 

Magalhães transcreve uma estrofe de um poema de Martins Jr., onde se pode ver a tentativa de algo que Augusto, mesmo bem mais jovem, realizaria de maneira mais madura, logo a seguir: “Como coisas senis, fossilizadas, negras, / amontoam-se além as bolorentas regras / da Bíblia, do Alcorão, do Avesta e Rig-Veda. / Trôpegos, sem valor, curvos, de queda em queda, / fogem, na treva espessa, Adon, Moloque, Siva, / Ormud, Vichnu, Ahriman, Baalath...”  Augusto também evocaria muitos desses nomes místicos.

Martins Jr. defendia uma poesia que incluísse “desde a lei astronômica da atração até o evolucionismo biológico e social”. Dizendo-se discípulo de Baudelaire e de Guerra Junqueiro, criticava a poesia de sua época, a que chamava “poesia chorona”. E afirmava: “Denomino a poesia, a fórmula poética do futuro, como eu a compreendo e como eu a quero, deste modo – cientificismo filosófico, ou poesia científico-filosófica”.



terça-feira, 22 de janeiro de 2013

3089) O jeito brasileiro (22.1.2013)




(foto: Graça Graúna)


Já vi muitos depoimentos de estrangeiros sobre nosso povo, em entrevistas, pesquisas, enquetes, o escambau. As críticas que nos fazem são sempre muito parecidas, todas sobre coisas que a gente já sabe, e que em certa medida são verdadeiras: o brasileiro é acomodado, não se mobiliza socialmente para protestar, é excessivamente informal e despreza os instrumentos de controle (leis, Constituição, regulamentos, etc.). Examinar esses defeitos pode até ser interessante, mas hoje quero examinar algumas qualidades que nos atribuem.

Dizem, por exemplo, que o brasileiro é acolhedor, hospitaleiro. Será que esses povos europeus não o são? Talvez o sejam, mas de uma maneira diferente. O europeu em geral (olha que bruta generalização!) recebe super bem um desconhecido, desde que ele traga algum tipo de apresentação ou recomendação. Desde que ele tenha uma noção razoável de quem é aquela pessoa. Em todas as minhas experiências foi assim. O brasileiro, por outro lado, tende a acolher bem as pessoas com quem simpatiza, independentemente de saber quem são. Os índios são assim, não é mesmo?  Nove vezes em dez, recebem de braços abertos até aqueles sujeitos barbudos, feridentos, armados de escopetas.

Outra coisa: o brasileiro tem fé, acredita que as coisas, por piores que estejam, vão melhorar. Amigos europeus já me disseram do seu espanto diante disso. Por quê?, pergunto. Quando vocês têm um problema acham que o mundo vai acabar? Eles dizem: "Não, quando nós temos um problema temos medo de que aquela situação não dê certo e tudo comece a piorar a partir dali". Já os brasileiros dizem “deixa como está pra ver como é que fica” – e vão pensar noutra coisa.

Para muitos, isto é surpreendente, considerando-se que grande parte das pessoas que se comportam assim vivem em condições econômicas e físicas que deixariam um europeu no pior dos desesperos.  Alguém diria que o brasileiro suporta isto com otimismo por ser estóico, mas o termo “estóico” me traz à mente a imagem de um sujeito durão, de dentes trincados, suportando uma dor física aguda, ou um prolongado sofrimento mental. O brasileiro é o contrário. Ele dá a impressão de dizer: “Eu estou vendo os problemas, mas eles não fazem parte de mim. Eles são reais mas eles não são eu, e não vejo motivo para martirizar minha mente e meu corpo porque há um milhão de problemas a serem resolvidos. Se eu estiver bem, íntegro e forte em minha mente e meu corpo, encaro qualquer problema. Não vou me acabrunhar, nem me abater, nem passar o dia com todos os músculos contraídos só porque existe um problema na minha vida. Vou ficar bem.” Ficar bem já é meio caminho andado para resolver o problema.




domingo, 20 de janeiro de 2013

3088) Qualidade artística (20.1.2013)






("Resta uma questãozinha fútil", Edward Gorey)


O que mede a qualidade de um livro? Como autor, tenho o hábito maquinal de ver as coisas do ponto de vista do autor. Para a maioria de nós, a perspectiva de ter um livro lido e gostado por multidões de pessoas é uma sugestão sem nenhum defeito. Eu sou um destes, de modo que preciso de vez em quando lembrar que antes de ser autor, e depois de deixar de sê-lo, eu fui, e espero ainda ser, um leitor. Ser autor tem suas vantagens óbvias, mas ser leitor tem inclusive certas liberdades que o autor nem sempre pode ter. Um grande autor, em muitos casos, é um prisioneiro do universo que criou: Tolkien, Lovecraft, todos os outros. Já um leitor pode viver em tantos universos quantos encontre.

Como podemos quantificar o quanto o público gosta, por exemplo, de “O Morro dos Ventos Uivantes”? É um melodrama vitoriano com meia dúzia de relâmpagos góticos, e não mais que isto, mas as pessoas teimosamente mantêm esse livro em catálogo. Recentemente, Jane Austen, autora que nunca foi muito editada no Brasil, teve uma verdadeira explosão, devida em grande parte ao cinema. Pois Emily Bronte era tão famosa quanto Jane Austen hoje.

Quantificar através das edições, da venda da exemplares? É o mais cru e menos artístico dos critérios. Através de prêmios, de honrarias? Através da presença da obra (livro, filme, ópera, quadro, etc.) nas listas dos melhores, consistentemente, ao longo das décadas? Quantificar importância em função da fortuna crítica, das quantidade de obras escritas a respeito? Um olhar imparcial perceberia a persistência daquela canção ou daquele conto, dentro da memória coletiva de milhões de pessoas, ao longo de centenas de anos. Que melhor cacife literário do que ter escrito os “Sete anos de pastor Jacó servia”, a Divina Comédia, “A Pata do Macaco”?

O foco não é numérico, é descritivo. Avaliar qualidade é tentar descrever o impacto daquela obra dentro da cultura. Se foi respeitada, se foi imitada, se foi parodiada, se foi polemizada... “Se foi premiada” ou se “ficou entre as dez melhores” é interessante, mas o foco não é nisso. O foco é no impacto total na sociedade, não apenas sobre a crítica. Muitas vezes o crítico é apanhado de surpresa por uma onda artística, e isso é normal, se a onda tem mérito sabe ser convincente, sabe suportar a rejeição inicial e ir se impondo aos poucos.

O mercado de arte e o conceito de qualidade artística se parecem com um mercado de ações. Vale zero hoje, pode valer milhões amanhã, se as apostas certas forem feitas no momento certo; e vice-versa. A arte é aquele objeto, e é a fantasia fabulatória que ele extrai de nós que o explicamos. Sem nós ele não existiria.