sábado, 30 de junho de 2012
2910) Hora do recreio (30.6.2012)
(esculturas: William Bally, 1831)
A pior aula é a de matemática, pra não falar da de geografia, se bem que a unanimidade é a de desenho. O engraçado é que cada um de nós, mesmo detestando todas, detesta mais uma do que as outras. Às vezes discutimos tanto isto que perdemos minutos preciosos em que poderíamos brincar no pátio, jogar bola na quadra ou no ginásio, zoar na lanchonete. Vida de aluno interno é todo dia a mesma coisa, a mesma coisa, é de enlouquecer. Ainda sirenes tocando toda noite. Um de nós disse um dia, “nós somos um loop de imagens, eu tenho a impressão que todo dia eu digo isso de novo”, e rimos, e depois outro disse, “não, eu acho que nossos pais nos botaram aqui pra se ver livres de nós, eles têm a esperança que a gente se suicide”, e rimos, e outro disse, “nós não somos estudantes, somos espiões estrangeiros, e na verdade estamos num campo de concentração, eles nos deram uma droga pra gente pensar que tem 10 anos de idade e está no colégio”, e houve uma risadaria geral, na mesma hora cada um de nós pegou uma arma, uma régua (metralhadora), uma bola-de-papel (granada), e começamos a guerra, “morre, espião!”. Estamos em guerra (as explosões, os sinos). Nossos pais, na visita semanal, nos dizem que apesar do sofrimento e das baixas estamos ganhando, mas as despesas estão cada vez maiores e é melhor continuarmos aqui do que ir lá para fora. Sobem nuvens grossas de fumaça preta. Temos mais raiva da guerra do que das aulas. O bom mesmo são os recreios: uma vez na manhã, outra depois do almoço, outra no meio da tarde. É tanta coisa boa que ficamos ansiosos porque não podemos ter tudo ao mesmo tempo, os snacks e os refris da lanchonete, o corredor de fliperamas, as armas do play, os wargames do lan-room, e nós nos empurramos, nos acotovelamos, brigamos por uma cadeira, por um monitor, por uma bola, por uma posição no time. Se fosse só isso! Mas temos as aulas, a obrigação de estudar história, ética pública, bases constitucionais, metodologia das ciências, “para quando houver paz”, bradam os professores. Um dia um de nós quis saber por que motivo não havia meninas no colégio, e alguém disse, “porque eles estão nos treinando para ser homossexuais”, e nós rimos, e outro disse, “não, porque eles vão nos mandar para morrer na guerra e deixar a população com um homem para cada dez mulheres”, e todo mundo achou graça. Oba! Recreio de novo. Não está chovendo mas nos mandaram para o ginásio, nunca vimos o ginásio tão cheio, tão apertado, a gente mal consegue respirar, ainda bem que daqueles tubos lá no alto estão saindo jatos de vapor, estamos pensando agora que deve ser alguma coisa para que a gente consiga respirar melhor.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
2909) Antonio Silvino (29.6.2012)
Uma foto tem circulado nas redes sociais, mostrando dois
homens de terno, frente a frente. São eles o presidente-ditador Getúlio Vargas
e o ex-cangaceiro Antonio Silvino, que recebera indulto após 23 anos de cadeia,
por bom comportamento (havia sido condenado a 239 anos). Diferentemente de
Lampião, que em vinte anos de cangaço nunca foi preso, Silvino cumpriu pena,
alfabetizou-se na prisão, converteu-se ao protestantismo e trabalhou em vários tipos de artesanato até
receber o indulto de Vargas. São duas histórias diferentes, dois finais
diferentes. Lampião, que era 23 anos
mais novo, morreu numa emboscada na gruta de Angicos em 1938. Silvino, aprisionado em 1914 (antes mesmo de
Lampião entrar para o cangaço) morreu em 1944, na casa de uma prima, em Campina
Grande. (Quando eu era menino, várias vezes me mostraram a vilazinha humilde
onde ele findou seus dias, em frente à Praça Félix Araújo, esquina com a
Arrojado Lisboa).
A carreira de Silvino está documentada nos folhetos de
Francisco das Chagas Batista, que cobrem suas aventuras até 1912. Uma ótima avaliação deles está em Memória
de Lutas de Ruth Brito Lemos Terra (Global, 1983), onde ela compara a
abordagem de Chagas Batista, mais documental, com a de Leandro Gomes de Barros,
mais fantasiosa e romantizada. Tal como Lampião, Silvino foi exaltado por
poetas e escritores como um guerreiro nobre e ético. Em As Infâncias de
Quaderna, de Ariano Suassuna, é ele quem resgata o menino Quaderna, raptado
por ciganos, e o devolve à família; em Menino de Engenho, José Lins do Rego
reconstitui uma visita do cangaceiro ao coronel José Paulino, que o recebe à
mesa, com todas as honras.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
2908) O Quarto do Pânico (28.6.2012)
Recebi
(não, desta vez não é piada) uma circular eletrônica enaltecendo a utilidade do
Quarto do Pânico, e me propondo uma avaliação sem compromisso. Para quem não
sabe, o nome desse produto vem do filme com Jodie Foster, em que ela e a
filhinha se trancam nesse cômodo para escapar de ladrões que invadem sua
casa. Por causa do filme, o nome pegou,
o que aliás não acho muito bom em termos de marketing – deviam chamar de
“Quarto Salva Vidas”, “Quarto de Segurança”, algo com um astral mais
positivo. O tal cômodo é um aposento
blindado, no interior da casa, onde os moradores podem se refugiar e se trancar
por dentro na hipótese de um assalto. O
quarto tem blindagem para resistir até a armas de fogo pesadas. Tem energia com “No Break”, independente do
resto da casa. Tem câmaras que
monitoram as partes internas e externas da casa, para que a família, ao se
esconder ali, possa ver o que está acontecendo à sua volta. Tem linhas de comunicação (rádio, celular,
etc.) com várias alternativas para pedidos de socorro à polícia, aos vizinhos
ou a uma empresa de segurança previamente contratada. Tem oxigênio, água, comida, tudo que as pessoas possam precisar
para passar um tempo razoavelmente longo até que os assaltantes desistam ou o
socorro apareça.
A
instalação (é cara, viu?) geralmente aproveita um espaço já existente (closet,
banheiro, etc.) que não perde a utilidade no dia-a-dia normal, mas fica
acessível para que as pessoas cheguem rapidamente a ele, se fechem por dentro,
e acionem o socorro. O Quarto do Pânico é a versão contemporâneo dos abrigos
nucleares dos anos 1950-60, quando, principalmente nos EUA, havia o pânico de
uma guerra atômica. Muita gente cavou porões e os equipou com ar condicionado,
água, mantimentos, gerador de eletricidade, etc., para se esconder em caso de
guerra. Devia haver condições suficientes para que a família esperasse a queda
dos níveis de radioatividade lá fora (meses? anos? não sei). Bob Dylan fez uma canção famosa ironizando
esse medo, “Let Me Die In My Footsteps”.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
2907) Um pequeno tesouro (27.6.2012)
Era tia-avó da minha esposa, e morava
sozinha num casarão, numa capital nordestina cujo nome não preciso revelar.
Quando tive que deixar São Paulo e passar uma semana lá, para trabalhar numa
auditoria, minha mulher telefonou-lhe sem me consultar e as duas resolveram que
eu me hospedaria na casa dela (a tia aproveitaria para me conhecer e, segundo
minha mulher, “dar a nota”). Ficar na casa de uma pessoa de 70 anos não estava
nos meus planos. Não que pretendesse cair na farra. Mas depois de um dia duro
de trabalho, discutindo, argumentando, a única coisa que me interessa é tomar um
banho, e depois dois uísques, sozinho, em silêncio, na beira da piscina do
hotel. Mas esposa é esposa, e lá fui eu.
Dona Frederica me surpreendeu,
não apenas por aparentar bem menos idade, mas porque na primeira noite em que
voltei encontrei-a escutando música diante de uma garrafa de Dimple e um balde
de gelo. Sentei ao lado e enveredamos numa longa cadeia de associação de idéias
envolvendo boleros cubanos, orquestras tropicais e a arte da dança de salão,
que ela me confessou não praticar há vinte anos, desde a morte do marido. Na
segunda noite lá estava o Dimple, e desta vez conversamos sobre horóscopo, tipos
psicológicos; ela contou “causos” saborosamente escabrosos ocorridos com amigas
de juventude. Na terceira noite, Dimple e cinema (ela adorava musicais da
Metro).
terça-feira, 26 de junho de 2012
2906) "Blade Runner" 30 anos (26.6.2012)
Uma coisa fascinante no capitalismo é a capacidade que ele
tem de nos fazer comprar a mesma coisa mais de uma vez. Ele cria em nós,
primeiro, uma fascinação inesgotável por um produto; depois, nos ensina a fazer
minúsculas, sutilíssimas distinções entre aspectos deste produto; em seguida,
oferece-nos versões quase idênticas do produto, mas com diferenças suficientes
para que digamos: “Quero todas duas!”. Ou todas três, ou trinta.
Blade Runner (1982), foi um fracasso de bilheteria nos
EUA, onde custou cerca de 28 milhões de dólares e rendeu 27. (Rendeu um pouco mais
no mercado externo, mas em termos da contabilidade dos estúdios, que precisam
de retorno rápido, isso não pesou muito.) Ao completar 30 anos, foi preparada
uma caixa especial, custando cerca de 50 dólares, com nada menos de dez horas
de cenas extras, e três versões integrais do filme.
Ao todo, existem cinco versões. Primeiro houve a versão
original, exibida nos cinemas, e a versão internacional, que é quase a mesma,
com a adição de algumas cenas de violência. Em 1992, o diretor Ridley Scott
produziu a “Versão do Diretor” (“Director’s Cut”), removendo a narração em
“off” e modificando algumas cenas, mas ainda assim não ficou satisfeito (ele é
considerado um perfeccionista capaz de enlouquecer qualquer equipe), e em 2007
ele concluiu o chamado “Final Cut”, onde modificou tudo que achou necessário
(inclusive chamando a atriz Joanna Cassidy para refazer, 25 anos depois, cenas
que tinham sido feitas por uma dublê). E
existe uma quinta versão chamada “Work print”, que seria uma primeira edição do
material filmado, com muitas cenas que foram excluídas depois. (Ao que parece,
a caixa inclui as versões 1, 4 e 5.)
A cultura de massas é considerada o reino do descartável, do
superficial. Supõe-se que o espectador
vê um filme, dá tchau e vai ver o próximo. Pertence ao mundo acadêmico essa
disposição para examinar e comparar diferentes versões de uma obra. Quantas
teses não já foram escritas comparando a versão em folhetim e a versão em livro
de alguma obra de Dostoiévsky ou Dickens? Mas a tendência das últimas décadas é
a de estimular a produção dessas versões, em primeiro lugar para vender as
duas, é claro, mas com um efeito colateral: a criação de uma faixa crescente do
público cada vez mais atenta a detalhes e a variantes. Isto é resultado do
videocassete e do DVD, que pela primeira vez deram ao espectador comum a
possibilidade de rever uma cena quantas vezes quisesse, parando, voltando,
vendo de novo – uma experiência de espectador totalmente diferente da
experiência passiva, meramente receptiva, do espectador tradicional do cinema.
domingo, 24 de junho de 2012
2905) "Tango de volta" (24.6.2012)
(Julio Cortázar)
Julio
Cortázar foi um constante experimentador de formas narrativas, na estrutura
aleatória e ziguezagueante de O Jogo da Amarelinha, na mescla de narrativa
literária e notícias de jornal de Livro de Manuel, nos “almanaques” de
estrutura verbo-visual como A Volta ao Dia em 80 Mundos. Mas no interior de seus contos ele sempre
estava testando novas maneiras de contar a história. Uma de suas experimentações mais constantes é
com o ponto de vista narrativo. Um conto narra uma história que acontece, mas,
quem está contando a história?
“Tango
de volta” é um dos contos de Queremos tanto a Glenda (1980, publicado no
Brasil como Orientação dos gatos). É um conto narrado na 1ª. pessoa, e o
narrador, como é de hábito em Cortázar, principia com um longo parágrafo
aparentemente caótico em que salta de um ponto para outro entre informações
desencontradas, referindo-se a pessoas como se imaginasse que já as conhecemos,
comparando fragmentos de informações como se já as tivesse fornecido antes. A
esse longo parágrafo segue-se outro que começa, paradoxalmente: “Como sou muito
convencional, prefiro pegar desde o começo...”. Segue-se uma história em que
uma argentina, Matilde, abandonou o marido no México e voltou a Buenos Aires, de
onde forjou um atestado de óbito para dizer que era viúva, casou com um homem
rico, teve um filho, e agora vê o primeiro marido rondando sua casa, namorando
sua empregada Flora, tentando se infiltrar lá dentro.
O
leitor prevê mais uma das bem urdidas histórias de crime de Cortázar. (É engraçado,
nunca vi nenhuma delas nas antologias de contos policiais. Rotularam o rapaz de
“autor fantástico” e pronto, morreu aí.) Tudo é narrado numa “falsa 3ª. pessoa”
do ponto de vista de Matilde, a esposa, e depois de duas páginas já esquecemos
que tudo começara com um “eu”. O conto vai até um desfecho violento, e no
último parágrafo sabemos quem é o narrador: é o médico ou enfermeiro que chegou
à casa logo após o crime, e a história é extraída da empregada, Flora, levando-o
a reconstituir tudo que se passou. Acontece que tirando o primeiro e o último
parágrafo tudo se passa dentro da mente de Matilde. Pegando os fragmentos de
fatos fornecidos por Flora, o narrador romanceia por conta própria o que teria
se passado na mente da mulher, seus medos, suas culpas, sua paranóia. É um
narrador não-confiável, porque, embora os fatos provavelmente sejam aqueles, o
texto está cheio de conjeturas e adivinhações do que Matilde teria sentido e
pensado, e que ele não poderia conhecer. É mais uma das muitas experiências de
Cortázar sobre um”eu” narrador que nunca é o “eu” narrador da literatura
convencional.
sábado, 23 de junho de 2012
2904) O roubo digital (23.6.2012)
Um artigo de Stuart P. Green no New York Times (http://nyti.ms/KmnlTw) aborda a questão do
download não-autorizado de músicas, filmes e livros do ponto de vista do tipo
de transgressão que isso constitui. Para
Green, não se trata de furto ou roubo, e esta é a questão crucial. É um problema de nomenclatura, nada mais, mas
dentro do nosso sistema jurídico, e do nosso sistema informal de valores e
conceitos, o nome com que tratamos uma ação influencia e direciona nosso exame
e nossas decisões futuras. Se já
começamos uma discussão dizendo que a ação tal ou tal é um roubo, vai ser
difícil propor, depois, uma maneira de legalizar ou organizar o modo como isso vai
ser feito, já que é um “roubo”, uma palavra condenada de antemão.
Dois aspectos são importantes: 1) ao contrário do roubo, o
download não priva o proprietário original de um objeto único que ele possuía e
não possui mais; trata-se apenas do ato de copiar o objeto e levar a cópia para
si; 2) são poucas as pessoas, entre as que fazem essas cópias, que se dariam o
trabalho (ou teriam o dinheiro) de comprar o objeto original que o
“proprietário” supostamente está oferecendo à venda. Se as cópias se multiplicam gratuitamente,
deve existir alguma maneira de usar essa multiplicação para gerar um pequeno
resíduo de renda que, acumulado e multiplicado por milhões ou bilhões, crie um
bolo a ser repartido entre os produtores dos objetos culturais. Ao invés de cobrar 20 reais por disco e vender
milhares, cobrar 1 centavo e vender milhões.
Ou cobrar um imposto único e redistribuí-lo, proporcionalmente à
contribuição de cada produtor cultural.
Nosso conceito de comércio cultural (livros, filmes, discos)
foi criado em torno da idéia de que: 1) é caro e trabalhoso copiar uma obra; 2)
quem tem essa despesa e esse trabalho precisa ser recompensado por isso; 3)
essa recompensa geralmente se dá através do direito de explorar comercialmente
essas cópias escassas e preciosas. No
momento em que o item 1 perdeu o sentido, o resto começa a perder o sentido
também. Precisamos agora achar um novo
conceito de comércio, baseado na idéia de que é facílimo e gratuito reproduzir
cópias de livros, filmes e músicas. Há um
oceano de cópias sendo trocadas, oferecidas e aproveitadas gratuitamente, e não
adianta considerar isso um roubo, porque daqui a alguns anos vamos chegar a uma
sociedade onde, como a Itaguaí de O Alienista de Machado de Assis, 99% da
população estará presa e somente 1% nas
ruas. Quando a vida real, avaliada por
um conceito, mostra 1% de regra e 99% de exceção, um dos dois precisa ser
substituído. É mais sensato substituir o conceito.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
2903) Zédantas (22.6.2012)
Estou
lendo Zédantas segundo a letra I, publicado pelo Memorial Luiz Gonzaga
(Recife, 2010), com a longa entrevista da D. Iolanda Dantas, viúva do grande
parceiro do Rei do Baião.
Zédantas (ele gostava que seu nome fosse escrito assim) é autor de dezenas de canções eternas da música nordestina, como “A Volta da Asa Branca”, “Sabiá”, “Vem Morena”, “Forró de Mané Vito”, “Imbalança”, “Xote das Meninas”, “Acauã”, “Noites Brasileiras”,”Siri jogando bola”, “Derramaro o gai”, “ABC do Sertão”, “Samarica parteira”, “Riacho do Navio”... bem, são dezenas.
Era sertanejo de Carnaíba (PE), e o Riacho do Navio cortava a fazenda de seu pai. Estudou medicina e clinicou no Rio de Janeiro, mas nunca deixou de pensar no sertão o tempo inteiro. Era extrovertido, contador de piadas, imitador de tipos, além de elegante e vaidoso – tinha mais de cem gravatinhas-borboleta.
No Rio, foi muito amigo de Péricles (criador do “Amigo da Onça”), e de políticos como José Aparecido e José Joffily (que lhe deu de presente um violão). Era considerado “a alma da festa” onde chegava, com suas piadas e suas músicas.
Zédantas (ele gostava que seu nome fosse escrito assim) é autor de dezenas de canções eternas da música nordestina, como “A Volta da Asa Branca”, “Sabiá”, “Vem Morena”, “Forró de Mané Vito”, “Imbalança”, “Xote das Meninas”, “Acauã”, “Noites Brasileiras”,”Siri jogando bola”, “Derramaro o gai”, “ABC do Sertão”, “Samarica parteira”, “Riacho do Navio”... bem, são dezenas.
Era sertanejo de Carnaíba (PE), e o Riacho do Navio cortava a fazenda de seu pai. Estudou medicina e clinicou no Rio de Janeiro, mas nunca deixou de pensar no sertão o tempo inteiro. Era extrovertido, contador de piadas, imitador de tipos, além de elegante e vaidoso – tinha mais de cem gravatinhas-borboleta.
No Rio, foi muito amigo de Péricles (criador do “Amigo da Onça”), e de políticos como José Aparecido e José Joffily (que lhe deu de presente um violão). Era considerado “a alma da festa” onde chegava, com suas piadas e suas músicas.
Quando
viajava a Pernambuco, levava um gravador de rolo de 14 kg e trazia de volta
para o Rio dezenas de fitas com cantorias, aboios, toadas e forrós, que usava
como base para suas composições em seu apartamento na Av. Pasteur, onde
acordava cedinho e ficava compondo, olhando a Baía da Guanabara.
Tocava bem o violão, e o piano com dois dedos, mas tocava de ouvido e a esposa, que tinha estudado, passava as melodias para a partitura, para que ele não as esquecesse.
O sucesso do baião o colocou em contato com políticos influentes; “Algodão”, p. ex., foi composta por sugestão do então Ministro da Agricultura, João Cleofas (PE). Uma canção gravada por Marlene, “Piririm”, marca sua única parceria com o outro grande parceiro de Gonzaga, Humberto Teixeira. “Vozes da Seca” foi feito em resposta à campanha popular “Ajuda teu irmão”, para as vítimas da seca de 1953 no Nordeste.
Tocava bem o violão, e o piano com dois dedos, mas tocava de ouvido e a esposa, que tinha estudado, passava as melodias para a partitura, para que ele não as esquecesse.
O sucesso do baião o colocou em contato com políticos influentes; “Algodão”, p. ex., foi composta por sugestão do então Ministro da Agricultura, João Cleofas (PE). Uma canção gravada por Marlene, “Piririm”, marca sua única parceria com o outro grande parceiro de Gonzaga, Humberto Teixeira. “Vozes da Seca” foi feito em resposta à campanha popular “Ajuda teu irmão”, para as vítimas da seca de 1953 no Nordeste.
Era médico
obstetra, e por causa de dores nas costas tomou muitos remédios à base de
cortisona (um medicamento novo na época), que prejudicaram sua saúde.
Sofreu um ferimento no tendão de Aquiles em 1961, quando passava uns dias no sítio de Luiz Gonzaga em Miguel Pereira (RJ). Fez uma cirurgia que não resolveu o problema, e morreu um ano depois de insuficiência renal, no Hospital dos Servidores do Rio, no mesmo quarto onde tinha morrido José Lins do Rego.
Foi enterrado no Recife, e seu último pedido foi ser sepultado “com uma cruz de madeira num pé de mororó e um bode lambendo a cruz”. Compositor de imenso talento, e sertanejo até o talo.
Sofreu um ferimento no tendão de Aquiles em 1961, quando passava uns dias no sítio de Luiz Gonzaga em Miguel Pereira (RJ). Fez uma cirurgia que não resolveu o problema, e morreu um ano depois de insuficiência renal, no Hospital dos Servidores do Rio, no mesmo quarto onde tinha morrido José Lins do Rego.
Foi enterrado no Recife, e seu último pedido foi ser sepultado “com uma cruz de madeira num pé de mororó e um bode lambendo a cruz”. Compositor de imenso talento, e sertanejo até o talo.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
2902) O Manifesto Krashnavik (21.6.2012)
“Este manifesto é escrito em
nome de Istvar Morisev, tecelão de ofício, aldeão de nascimento, alfabetizado
aos 71 anos, famoso por seu livro de memórias aos 75, rico aos 80, morto e
reconciliado com o mundo aos 90.
Em nome da luz do verde das
encostas de Krashnavik na derradeira tarde do seu tempo de paz, quando um
regimento inteiro de ‘kalliks’ em retirada devastou o vale, ateando fogo às
cabanas depois de saqueá-las e martirizar seus moradores.
Em nome da bacia de porcelana em
que uma criança era banhada quando foi atropelada por um corcel de guerra
pesando trezentas libras e coberto de armadura em couro, bacia que escapou
milagrosamente intacta a esse perigo, tendo a criança, por outro lado, não
resistido.
Em nome do oficial que deteve o
sabre que se erguia sobre o pescoço curvado daquele homem de bigode negro que
tinha sido dado como morto por entre as ruínas fumegantes de sua casa, e mandou
acorrentá-lo.
Em nome dos vizinhos de Morisev
a quem coube sepultar sua família e guardar como relíquia a bacia de porcelana
que pertencera aos seus avós.
Em nome das marretas de ferro
com que ele foi obrigado a quebrar pedras durante anos, longe do vale de
Krashnavik, crendo que cada dia seria o seu último.
Em nome da chuva que o
refrescou, do sol que o aqueceu, da comida insípida que o manteve vivo, das
mulheres que nunca teve, do sono que o trazia de volta à existência, das trinta
e oito voltas que o mundo deu em torno do sol e que um dia lhe trouxeram a
liberdade.
Em nome do sargento subornado que
uma madrugada o libertou às escondidas, dando-lhe sem explicações um cavalo,
uma sacola de mantimentos e um papel com um nome e um endereço.
Em nome de Olenka, a professora
de álgebra que, depois de anos de busca, assim o libertou e o acolheu em sua
casa num subúrbio de Varna, e nos anos seguintes tornou-se sua filha adotiva,
mestra e secretária.
Em nome do artesão anônimo que
gravou a história da família Morisev na bacia de porcelana que Olenka comprara
num antiquário, e cujas inscrições releu para ele, ao longo de muitas noites,
fazendo-o chorar pela perda do filho e pela salvação da história.
Em nome dos dias de estudo e das
noites em claro à luz de lâmpadas fracas, desenhando letras negras em papel
branco e repetindo palavras em voz alta.
Em nome do livro em que contou
sua história, a dos seus antepassados, e imaginou, descreveu e celebrou as
muitas vidas que poderiam ter sido do seu filho atropelado pelos cavalos dos
“kalliks”.
Em nome da arte da palavra, que
não muda o mundo mas lhe dá feição e sentido, e é capaz de modificar o passado,
eternizar o presente e multiplicar o futuro.”
quarta-feira, 20 de junho de 2012
2901) Tempo real (20.6.2012)
(ilustração: Gio MacCluskey)
"Tempo real". Esta é uma expressão curiosa, surgida, pelo que me consta,
com a Internet. Antes dela tínhamos
milhões de coisas acontecendo em tempo real mas não nos sentíamos obrigados a
dar um nome a isto.
“Em tempo real”, na linguagem de hoje, significa um
fenômeno qualquer em que transmissão e recepção sejam simultâneos, ou seja, a
coisa acontece num lugar e é vista em outro no mesmo momento.
(Se bem que nada é simultâneo, de acordo com
a Física. Há sempre um intervalo, mas em termos da percepção humana é uma
fração de segundo tão pequena que para efeitos práticos pode ser ignorada. Para
tais grandezas, físicos e matemáticos usam o adjetivo “desprezível”, que sempre
me pareceu meio insultuoso.)
Em tempo real significa aquela noite inesquecível em que o
U-2 fez um show demolidor num estádio na Califórnia, e eu assisti o show em meu
PCzinho no Rio de Janeiro, sentado na minha cadeira giratória, indo buscar
cerveja na geladeira.
Alguém pode argumentar que se o show tivesse ocorrido na
véspera e eu o estivesse vendo 24 horas depois (ou 240 horas depois, etc.)
minha impressão de ineditismo seria a mesma, e não discuto.
Aí é que entram as sutilezas do Espírito do
Tempo. O prodigioso não é que a gente
esteja vendo aquilo em tempo real, mas que SAIBA que está vendo em tempo real.
O prodigioso não é a simples transmissão da informação, mas o pequeno triunfo
psicológico que ela nos proporciona, aquela sensação de momentânea onipotência,
a sensação de estarmos (a Humanidade inteira, ou pelo menos uma parte
importante dela) envoltos num casulo telepático em que tudo nos acontece ao
mesmo tempo aqui e agora. Isto é
precioso.
Talvez tenhamos sentido algo assim quando nos deparamos pela
primeira vez com o telégrafo; com o rádio; com o telefone; com a televisão; mas
isto nunca ocorreu com tanta intensidade. Quando estou num chat, tipo
frase-vai, frase-vem, com algum amigo que está na Europa ou na Ásia penso:
“Ora, isto não é mais extraordinário do que um telefonema”.
Mas telefonemas são
uma comunicação um-a-um, e a Internet nos proporciona isto multiplicado por
multidões incalculáveis. E reparem bem na poesia do nome. Todo tempo é real, não é mesmo? Quando leio
uma peça de Ésquilo, foi real o momento em que foi escrita, é real o momento da
leitura, bem como é real o intervalo de 2.500 anos que nos separa. Hoje, porém, temos um real simultâneo, e não
um real esgarçado no tempo.
Como se o fato de outros seres humanos estarem
pensando na mesma coisa no mesmo instante tornasse essa coisa mais espessa,
mais socialmente verdadeira, mais humanamente real. E, em última análise, é isso mesmo que acontece.
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