segunda-feira, 20 de junho de 2011

2587) A Guilda dos Ladrões de Livros (19.6.2011)



Há anos não era convocada uma reunião urgente da Guilda. Quando o mensageiro entregou-lhe o pergaminho, Hassan limitou-se a jogar uma capa sobre os ombros e partiu para a soturna casa de pedra, semi-abandonada, onde a Guilda promovia seus encontros mensais. Mesmo apressando-se, foi o sétimo a chegar, e o presidente Watanabe deu por abertos os trabalhos. Havia uma missão incompleta, disse ele, que respondia pela ausência dos três membros faltantes. Leterrier, o caolho de rosto vulpino e cabelos grisalhos; Arbogast, rosto quadrado, atlético, capaz de arrombar qualquer porta e escalar qualquer muralha; Ivanov, o silencioso russo de crânio liso e olhos cinzentos. Todos tinham ido na mesma missão, e nenhum voltara. Tiraram as sortes na sacola de veludo, e coube a Hassan a esfera vermelha da missão.

Com a planta baixa da Biblioteca no bolso do casaco, ele primeiro estudou e depois percorreu o minucioso labirinto de galerias pluviais, esgotos, área de serviço, corredores secundários, elevador de carga. Chegou por fim ao 11o. andar, à sala 11-F. Seus olhos acostumados a ver no escuro o conduziam a passos de feltro ao longo das silenciosas estantes, até achar a que buscava. Conferiu o selo na lombada, o código, o título. Por que motivo, pensou, os três mestres tinham fracassado? Por medida de segurança, antes de pôr o livro na mochila que trazia às costas, abriu-o, virou-o na direção do débil reflexo de luar que vinha da clarabóia, conferiu o título no alto da página, percorreu com os olhos algumas linhas:

“...na areia da praia, à luz cegante do sol de meio-dia, entrecruzavam-se rastros de pegadas que conduziam ao molhe, onde um navio a velas estava atracado. Suas velas traziam tatuagens de rostos humanos, e seus canhões eram retilíneas serpentes de bronze. Ele caminhou ao longo do molhe e saltou para o tombadilho. Não eram apenas as velas: nas tábuas do convés estavam entalhadas rostos humanos, ruga a ruga, pelo a pelo, por uma faca finíssima e infalível. Pisou com pudor naqueles rostos ao caminhar. Ergueu os olhos: as nuvens no céu também assumiam formas ovóides em que era possível discernir rostos expectantes de barbas brancas, de olhos brancos. Um gemido o fez olhar para baixo: o rosto sob o tacão de sua bota queixava-se de algo. Afastou-se. O que viera fazer ali? Viera buscar algo? O quê? O diário de bordo? Caminhou na direção do que lhe pareceu a torre de comando, mas as portas estavam pregadas com tábuas transversais em X. Mais um gemido: um homem com olho vazado, na parede do corredor, movia a boca como se quisesse dizer-lhe algo. Ergueu os olhos: no teto, outro homem de crânio liso mordia os lábios fazendo brotar um sangue espesso e marrom. Na parede, o rosto quadrado de alguém que ele conhecia estava partido ao meio por uma janela. O que viera fazer ali? Por que estava agora imóvel, num corredor vazio, fitando a parede oposta, a poucos centímetros do chão?

2586) Ronaldo Fenômeno (18.6.2011)



Ronaldo Fenômeno despediu-se da Seleção Brasileira, mas não do futebol. Ao falar para a torcida que assistia o jogo no Pacaembu, ele disse: “Até a volta, mas não dentro de campo”. Jogador que abandona os campos sempre procura um jeito de não abandonar o futebol. A primeira opção de muitos, claro, é virar técnico. Temos jogadores medianos que se tornaram bem melhores como técnicos: aí estão Wanderley Luxemburgo (Flamengo), Abel Braga (Fluminense), Felipão (Palmeiras) e tantos outros. Craques que se tornam técnicos têm carreiras mais problemáticas, porque se espera que eles façam como estrategistas o que fizeram como atletas: Zico e Maradona são dois exemplos. Será que Ronaldo vai se tornar um cartola, como provavelmente será o caso do futuro presidente do São Paulo, Rogério Ceni? Duvido. Ronaldo não tem perfil para isto, e tudo indica que se tornará uma figura de relações públicas e de propaganda, pelo seu carisma de simpatia, acessibilidade, bom mocismo.

A discussão recente era se Ronaldo poderia ser comparado a Pelé. Acho que a única coisa em comum entre eles é o fato de que foram grandes artilheiros em Copas. Pelé era um jogador completo, talvez o mais completo de todos os tempos, o jogador que era craque em praticamente todos os fundamentos. Ronaldo não foi um craque completo. Era um artilheiro, com enorme visão de gol e precisão ao bater na bola, e acima de tudo um jogador de arranque extraordinário, como o provam os numerosos gols (consultem o YouTube, ou a memória) em que ele parte do meio do campo, perseguido por uma alcatéia de zagueiros que tentam tomar-lhe a bola, e consegue levá-la ao fundo das redes. Saber entrar na área em velocidade com a bola, sem ser desarmado, é uma virtude cada vez mais rara no futebol de hoje (ninguém, hoje, faz isto melhor do que Lionel Messi). Era um dos pontos fortes de Ronaldo, que parecia capaz de dar a volta à arquibancada do Maracanã com a bola nos pés sem que ninguém da torcida conseguisse roubá-la.

A agilidade do começo da carreira, quando era magrinho, foi destruída pela preparação física que o tornou um gladiador musculoso. E que destruiu sua carreira, porque seus tendões e ligamentos não suportaram aquela massa muscular. Seu auge foi no período entre o Barcelona (1996-97), Inter de Milão (1997-2002) e Real Madrid (2002-2007).

Além de ser um goleador fantástico e ter jeito de menino bom, Ronaldo ganhou o amor da torcida pela impressionante recuperação entre as Copas de 1998 (quando sua misteriosa convulsão desarmou o Brasil no jogo final) e 2002, quando, contra as expectativas de muitos que o deram como acabado para o futebol, não somente jogou, como foi o artilheiro da Copa e deu o título ao Brasil. Foi um daqueles jogadores que fazem o estádio inteiro ficar de pé quando eles recebem a bola, porque naquele instante tudo pode acontecer. Não pode haver homenagem maior do que esta.

2585) A Internet e o microfone (17.6.2011)



Acho que muitos de vocês já presenciaram esta cena. Durante um seminário, simpósio, mesa-redonda ou seja lá que diabo for, há sempre um momento em que se faculta a palavra “para as perguntas da platéia”. Eu sempre achei essa premissa um tanto tendenciosa. E se a platéia, ao invés de perguntas, tiver respostas? E se, ao invés de pedir esclarecimentos aos luminares assentados na mesa, alguém tiver questionamentos a fazer, ou novas idéias a propor? Mas enfim, é o ritual, e coloca-se um microfone num pedestal perto do palco, ou circulando às mãos das mocinhas da produção, para que as pessoas façam suas perguntas. Um ou outro faz, e são respondidas. Mas aí alguém chega ao microfone e inverte a equação.

Ele começa sempre parabenizando o evento, parabenizando os participantes da mesa, elogiando a todos pelo brilhantismo de suas exposições... Aí depois fala um pouco de si mesmo, do quanto ele próprio perde noites de sono a pensar em todas aquelas questões importantes que estão sendo debatidas ali... Começam alguns murmúrios de impaciência, mas ele, impávido, começa a relatar um episódio que lhe ocorreu na juventude e que marcou toda sua vida a partir de então. Quando tentam interrompê-lo, pedindo que seja breve, ele assegura a todos que a narração desse episódio é essencial para a pergunta que fará a seguir; e há sempre algum participante da mesa que democraticamente aconselha, com um gesto, que é melhor “deixar o rapaz concluir o seu raciocínio”. Ele conta um episódio longuíssimo, fala em seguida do livro que acabou de lançar, menciona o endereço da editora, seu telefone, agradece e volta à sua poltrona.

Isso é igualzinho sabe a quê? À Internet. A Internet é uma espécie de microfone que de repente foi dis-po-ni-bi-li-za-do para uma platéia que há quinhentos anos, desde a invenção da imprensa por Gutenberg, estava acostumada a ficar apenas ouvindo, e julgando-se bem paga com isto. O mero direito de ouvir já era lucro. O privilégio duplo de saber ler e poder comprar livros era razão para festa, e não passava pela cabeça dos leitores que eles também poderiam ter seus 15 segundos de fama.

A maioria das pessoas que vai ao microfone nas mesas-redondas não tem perguntas a fazer nem respostas a distribuir. Quer apenas ver-se ali na frente e ouvir-se falando. O microfone lhe serve de espelho, no qual ele por alguns minutos sente-se pertencer ao mesmo mundo daqueles Olimpianos do palco. A Internet, idem ibidem. Na Internet, no blog, no saite, cada um de nós sente-se democraticamente escritor, porque o fato é que escreve, e tem todo o direito de pelo menos imaginar que é lido, mesmo que não o seja. (Quem publica livros imagina a mesmíssima coisa.) A Internet dis-po-ni-bi-li-zou um microfone para alguns bilhões de pessoas. Está saindo besteira a dar com um pau, mas paciência, mais vale deixar as pessoas concluírem o raciocínio delas.

2584) Ariano Suassuna, 84 anos (16.6.2011)




(detalhe de foto de Gustavo Moura)

“Por enquanto, só existem dois tipos de Governo: o dos opressores do Povo e o dos exploradores do Povo. O primeiro, é o dos Tiranos, o segundo é o dos Comerciantes. No primeiro tipo, o Povo é submetido e esmagado em nome da grandeza; no segundo é explorado em nome da Liberdade” (“A Pedra do Reino”, 1958-70). 

“A carne implica essas coisas turvas e mesquinhas. Quase tudo o que eles faziam era por medo. Eu conheço isso, porque convivi com os homens: começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo.” (“Auto da Compadecida”, 1956). 

“É possível? Então não fomos feitos / somente para o amor e seus cuidados?” (“A Zélia”).

“As regras da Arte são constituídas pelos achados do gênio pessoal dos grandes artistas, achados que, depois de formulados intuitivamente, tornam-se exemplares, isto é, transformam-se em normas.” (“Iniciação à Estética”, 1972). 

"[Eu escrevia assim] porque aquilo firmava uma tradição e um estilo, valorizava o que já existia na consciência coletiva, aproveitava, com maior solidez, uma arquitetura preexistente e que já recebera, na sanção coletiva, o selo de uma perenidade que só um orgulho muito tolo deixaria de lado em nome da criação exclusivamente individual.” (“O Casamento Suspeitoso”, 1957).

“Os brasileiros de compreensão e caráter menos elevados estão satisfeitos e sem remorsos, absolutamente de acordo com a situação e subornados por seus carros, suas piscinas, seus apartamentos, seus salários, suas rendas, seus empregados ou seus títulos universitários.” (“Aula Magna”, 1992). 

“Eu tenho dentro de mim um cangaceiro manso, um palhaço frustrado, um frade sem burel, um mentiroso, um professor, um cantador sem repente e um profeta.” (entrevista, 2000).

“É melhor estudar um só livro, qualquer que seja ele, com raça, alegria e entusiasmo, do que estudar todos os livros do mundo friamente.” (“Iniciação à Estética”, 1972). 

“Pior do que o escuro em que nos debatemos é a mania de ser dono da luz.” (“O Santo e a Porca”, 1957). 

“Eu canto as Formas vivas, trabalhadas / pelo esforço que limpa e que Nos cansa.” (“Concepção, Quadro e Ode”, 1947). 

“Homem, se é proibido eu não sei. O que eu sei é que você achava que era e depois, de repente, passou a achar que não era.” (“Auto da Compadecida”, 1956). 

“Nós não precisaremos nunca de inventar uma imagem falsa da Vida para poder amá-la. Porque, na dureza e sob o Sol, nós aprendemos à força a amá-la, com o que ela tem de ardente e glorioso, mas também com o que possui de degradado, sangrento e sujo.” (“A Pedra do Reino”, 1958-70).

“Somos seres terríveis, majestosos, / mas ainda incompletos, / soltos no seio áspero da terra / em que abrimos primeiro os parcos olhos.” (“A Laurênio”, 1955) 

“O inquérito continua aberto e em suspenso, de modo que, pelo menos por enquanto, sua Obra ficará assim, em suspenso e aberta, dependendo sempre de novos depoimentos que o senhor nos prestar.” (“A Pedra do Reino”, 1958-70).





2583) A badalação das celebridades (15.6.2011)



Semana passada a Seleção Brasileira se reuniu para dois amistosos, e o Globo do dia 3 anunciou no caderno de esportes: “Histeria por Neymar inaugura nova era na seleção brasileira”, comentando no corpo da matéria: “Natalle, Julliana, Noamy e Loyse, todas entre 15 e 17 anos, chegaram cedo, por volta das 9h, ao Hotel Castro, onde a seleção está hospedada em Goiânia. Barradas pelos seguranças, ficaram na porta, máquina fotográfica em punho, esperando Neymar”. É gozado como a imprensa adora a badalação juvenil. E pensando bem, também para um time de futebol é menos arriscado ser cercado por uma multidão de peruazinhas saltitantes do que por brutamontes de soco-inglês nos dedos reclamando que o time fez corpo mole.

A “nova era da Seleção” me lembra os tempos saudosos da Beatlemania, os quatro cabeludos correndo pela estação do trem, perseguidos por dez milhões de inglesinhas histéricas emitindo juntas um som equivalente ao de um milhão de turbinas de jatos da BOAC. Tudo muito divertido quando se tem vinte e poucos anos. Mas acabou cansando. George Harrison disse: “Me recuso a continuar subindo num palco para tocar música e não conseguir escutar o que estou tocando. I Feel Fine no show de ontem ficou horrível”. E Paul: “Oi, e tocamos I Feel Fine ontem?”. Em 1965 eles acabaram sua “nova era” do rock, trancaram-se num estúdio e se tornaram Os Beatles, pra valer.

É engraçado. No dia 7 de junho o mesmo Globo fez uma matéria sobre os 80 anos de Cauby Peixoto, “famoso no passado pelas estratégias de marketing de seu empresário Di Veras, que arranjava moças para desmaiarem diante do cantor (‘Só uma desmaiou de fato’, diz Cauby hoje) e rasgarem roupas já preparadas para este fim”. Não tenho dúvida de que as “macacas de auditório” de Cauby também inauguraram uma nova era na música brasileira.

E assim, meio serendipiciamente, esbarrei nesta página (http://tinyurl.com/3tu8q95) que comenta a histeria coreografada das fãs de Frank Sinatra após 1943, quando ele contratou o publicitário George Evans para planejar o tumulto das fãs. Evans dava 5 dólares a cada garota e as instruía cuidadosamente sobre o tipo de grito que deveriam emitir, e em que momento (sempre quando a canção subia de volume, nunca nos trechos mais intimistas). Treinava algumas garotas para gemerem em uníssono, e outras para desmaiarem nos corredores do teatro ou onde quer que houvessem fotógrafos por perto. .

Como se vê, a era Neymar não é tão nova assim. É velha a arte de manipular a libido de mocinhas saturadas de hormônios eufóricos. No mundo pop, sucesso é sinônimo de fotos autografadas e mocinhas gritando. O modelo do mundo pop é a herança maldita do século 20. Aguardem o noticiário da Flip ou das demais festas literárias. A imprensa mostrará escritores autografando a blusa de jovenzinhas incapazes de ler mais de 140 caracteres, e anunciará que isto inaugura “uma nova era para a literatura brasileira”.

terça-feira, 14 de junho de 2011

2582) Um Museu do Cordel na Lua? (14.6.2011)



Uma notícia ainda não confirmada vem sacudindo os corredores da NASA, e interessa muito de perto ao leitor brasileiro, ao nordestino em particular. Segundo as agências noticiosas, trata-se do envio para a superfície da Lua, durante a Missão Apolo 12, em 1969, daquele que pode ser o primeiro museu interplanetário da Literatura de Cordel. A façanha se deve à presença de um grupo de brasileiros na equipe de centenas de pessoas (engenheiros, astrofísicos e analistas de sistemas) responsáveis pelo voo, contando com a cumplicidade eventual de norte-americanos.

No grupo de técnicos brasileiros foi confirmada a existência de dois pernambucanos, dois paraibanos e um cearense, sendo que ainda estão sendo interrogados um potiguar e um alagoano. Segundo as informações confidenciais que vazaram para a imprensa, o grupo conseguiu miniaturizar uma placa feita de uma liga especial de silício e titânio, que foi clandestinamente afixada a uma das pernas do “Intrepid”, o módulo lunar que após a missão permaneceu pousado na superfície do satélite.

A placa teria cerca de 16 milímetros de altura por 11 de largura, e segundo seus criadores reproduz as proporções de um folheto de cordel (que tem essa medida em centímetros), e transcreve trechos (em português) de alguns clássicos da Literatura de Cordel – a qual com isto, ironicamente, tornou-se a primeira expressão literária da Humanidade a ser oficialmente depositada em outro corpo celeste. A primeira biblioteca interplanetária, por assim dizer.

Interrogados, os autores do projeto confirmaram que a plaqueta contém seis palavras, cada uma delas extraída de um folheto. A palavra “Plutão” foi retirada da quarta linha da 5a. sextilha de A Chegada de Getúlio Vargas no Céu e o seu Julgamento, de Rodolfo Coelho Cavalcanti. A palavra “ultra-vermelha” foi retirada da quinta linha da 91a. sextilha de A Fada da Borborema de Delarme Monteiro da Silva. A palavra “futuro” foi retirada da sexta linha da 11a. sextilha do folheto Conheça o Enigma das Inscrições Rupestres do Lajedo Pai Mateus de Manuel Monteiro. A palavra “inteligência” foi retirada da sexta linha da 20a. septilha do folheto Sacco e Vanzetti aos olhos do mundo, de João Martins de Athayde. A palavra “perguntou” foi retirada da terceira linha da 11a. sextilha de Casamento e Divórcio da Lagartixa de Leandro Gomes de Barros. Finalmente, a palavra “vida” foi retirada da sexta linha da 4a. estrofe do folheto Trigésimo Aniversário da Conquista da Lua de Gonçalo Ferreira da Silva.

Uma fonte de NASA, que não quis se identificar, asseverou que em momento algum o transporte desta plaqueta (que pesa apenas poucas gramas) colocou em risco a segurança da missão, e que a investigação tem caráter mais administrativo do que criminal. “Recebemos cópias dos livros utilizados”, disse a fonte, “mas ainda não entendemos o critério científico da escolha dessas palavras, bem como o propósito desses poemas sem pé nem cabeça”.

domingo, 12 de junho de 2011

2581) O menor lugar do mundo (12.6.2011)




Algum tempo atrás estive pesquisando sobre as micronações, aqueles países que são oficialmente reconhecidos como nações independentes mas têm apenas alguns hectares de território e algumas centenas de habitantes. (O Vaticano é o melhor exemplo – não passa de um bairro de Roma.) 

Um conceito parecido com este é o de cidades (ou vilas) pequenas. Descobri que a menor vila do mundo é a brava Monowi, que fica no Estado de Nebraska, nos Estados Unidos. De acordo com a Wikipedia, ela tem apenas uma habitante, que atende pelo nome de Elsie Eiler, tem 77 anos, e dirige uma lanchonete, o único estabelecimento comercial ali existente.

No censo de 2000, Monowi tinha uma população de dois habitantes; no censo de 2010, teve uma perda de 50% e agora tem apenas um. A explicação: o marido de Elsie morreu. 

Monowi tem uma área de pouco mais de 6 km2. Foi fundada em 1900, e por volta de 1930 tinha cinco mil habitantes, que aos poucos foram indo embora, em busca de melhores oportunidades de trabalho. Em 1971, o fechamento da estrada de ferro que passava por ali decretou a morte da vila, em termos práticos. 

Ela ainda pode ser considerada uma localidade, creio, porque dispõe de uma escola com duas salas, uma igreja, uma biblioteca. Tudo isto vive fechado, mas eventualmente é utilizado por moradores das localidades vizinhas, quando necessário. (Como Monowi é muito pequena, as localidades em volta ficam a poucos quilômetros, não é muito diferente da maioria das localidades em nosso interior. A pessoa entra no carro e dez minutos depois chega lá.)

Todas as estatísticas sobre Monowi podem ser encontradas neste saite: http://www.city-data.com/city/Monowi-Nebraska.html. 

Estatísticas em situações assim são sempre divertidas (não sei se há muitas cidades norte-americanas cujo índice educacional é de 100% para “secundário completo”). Mas a existência desta cidade me lembra um fato que citei aqui há pouco tempo, o de um idioma indígena mexicano que está a ponto de desaparecer porque tem apenas dois falantes. 

Os linguistas têm uma série de critérios bem precisos para qualificar um idioma como vivo ou morto: número de falantes, faixa etária dos falantes (ou seja, a probabilidade de continuar a ser falado nas próximas décadas), publicações escritas, uma porção de coisas. Qual o critério para que uma localidade possa ser considerada uma vila ou coisa semelhante?

Porque isso me lembra aquela famosa imagem de Jorge Luís Borges sobre o mundo de Tlon, onde os lugares só existem enquanto alguém se lembra deles. Diz ele que às vezes, naquele mundo, as ruínas de um anfiteatro se preservam porque são frequentadas por um cavalo ou por alguns pássaros. A existência de Monowi tem um pouco dessa afirmação teimosa de vida, dessa recusa em deixar alguma coisa morrer enquanto alguém ainda está vivo. Por exemplo, enquanto houver num pé de serra uma casinha com uma velhinha escutando um forró no iPod, o forró estará vivo?






sábado, 11 de junho de 2011

2580) A FC da América Latina (11.6.2011)



Acabo de receber um exemplar de The Emergence of Latin American Science Fiction de Rachel Haywood Ferreira (Middletown: Wesleyan University Press, 2011), o mais recente título na crescente bibliografia de brasilianistas norte-americanos sobre a FC no Cone Sul. Rachel é professora na Iowa State University, e esteve no Brasil anos atrás entrevistando autores e pesquisadores da FC brasileira. Fez o mesmo em outros países, e seu estudo é um apanhado da FC praticada em nosso continente antes de 1920, ou seja, antes que o próprio termo “science fiction” fosse inventado. (Oficialmente, o termo surgiu em 1926, criado por Hugo Gernsback na revista Amazing Stories. No mesmo ano, Monteiro Lobato já estava publicando aqui O Choque – Romance do Choque das Raças na America no Anno de 2228, que atualmente tem o título de O Presidente Negro e voltou a ser discutido em função da eleição de Barack Obama.)

Qualquer estudo desse período mostra de maneira muito clara que a ficção científica de nosso continente não deriva dos “pulp magazines” norte-americanos pós-1926, mas dos chamados “romances científicos” europeus do século 19, tipicamente as obras de Julio Verne e H. G. Wells. Naquele tempo, era a Europa que nos colonizava culturalmente, que era contemplada e imitada pelos nossos literatos. Os EUA só a ultrapassaram após a II Guerra Mundial, quando a invasão foi maciça, e, ironicamente, não poupou sequer a debilitada Europa. Na história de qualquer país europeu, 1945 é um divisor de águas, é o momento em que Verne & Wells foram suplantados pela pulp fiction.

O livro de Rachel Haywood Ferreira refere obras brasileiras como Páginas da História do Brasil Escritas no Ano 2000 (folhetim, 1869-1872) de Joaquim Felício dos Santos, São Paulo no Ano 2000 (1909) de Godofredo Barnsley, Doutor Benignus (1875) de Augusto Emilio Zaluar, O Fim do Mundo (1856) de Joaquim Manuel de Macedo e “Demônios” (1893) de Aluísio Azevedo. São textos familiares aos pesquisadores brasileiros, embora praticamente desconhecidos pelo público leitor em geral. Creio que para nós a maior descoberta será a análise de RHF sobre autores de outros países, tais como Eduardo Ladislao Holmberg, Eduardo Ezcurra, Amado Nervo, Miguel Cané, Juana Manuel Gorriti, etc. Alguns, desconhecidos para nós; outros famosos, como é o caso de Leopoldo Lugones, mas sobre cuja obra de FC pouco sabemos.

O livro de RHF vem se somar a outros lançamentos recentes como Ficção Científica Brasileira de Elizabeth M. Ginway (São Paulo: Devir, 2005), Cosmos Latinos: an Anthology of Science Fiction from Latin America and Spain, editada por Andrea Bell e Yolanda Molina-Gavilán (Wesleyan University Press, 2005) e o brasileiro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil – 1875 a 1950 de Roberto de Sousa Causo (Editora UFMG, 2003). São as primeiras escavações em busca da pirâmide soterrada da literatura fantástica em nosso continente.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

2579) O final onírico (10.6.2011)



blackandwtf.tumblr.com

Um subgênero interessante do conto fantástico são as histórias de final onírico. Numa narrativa protocolarmente realista começam a acontecer coisas estranhas, impossíveis. A narrativa avança, e quando chega ao clímax, nas últimas linhas, o autor diz: “Pois tudo aquilo tinha sido um sonho!”. Isto se tornou um clichê tão reiterativo que a enorme maioria dos manuais literários do tipo Como Escrever um Conto risca do mapa essa possibilidade, logo de cara: “Não faça isto! Todo mundo já fez! Ninguém aguenta mais!”.

Às vezes é um sonho propriamente dito, porque o protagonista adormeceu na poltrona. Outras vezes é uma alucinação provocada pela bebida ou alguma outra droga. Outras vezes uma história contada por um narrador pouco confiável (“Um esqueleto”, de Machado de Assis). Ou um estado de devaneio momentâneo, estado alterado de consciência que faz o personagem “viver” mentalmente uma situação surreal, mesmo desperto (“A chinela turca” de Machado de Assis). Ou então um delírio criativo de um escritor que confunde a realidade com as visões que registra no papel (“Demônios”, de Aluísio Azevedo). Mas o desfecho obedece à mesma mecânica: “não, caro leitor, nada disto aconteceu, era tudo uma ilusão”.

A crítica principal que se pode fazer a esse tipo de história é que ele se constitui numa espécie de fraude literária, onde o leitor é induzido a fazer um investimento de energia emocional (identificando-se com os personagens, preocupando-se com os perigos que correm, etc.) para no final ser informado de que esse investimento foi em vão, pois não havia nada em jogo. Argumento válido – mas contra ele pode-se dizer que, sendo assim, toda literatura é uma fraude, uma vez que nem Madame Bovary nem os irmãos Karamazov existem de fato, tudo não passou de um sonho sonhado de outra forma. (Dever de casa: Produzir um argumento irrefutável, contra ou a favor desse subgênero).

Creio que essas histórias são, antes de tudo, um sintoma. Um estudo sério da ficção fantástica precisa levá-las em conta, porque elas exprimem, a meu ver, a difícil negociação íntima do autor que tem uma idéia fantástica mas está escrevendo num contexto literário e social em que tais idéias são esnobadas ou temidas. O romance realista foi o clímax da literatura da burguesia, que expulsou do mundo (ou julgava ter expulsado) o sobrenatural, que a burguesia ascendente identificava com seu adversário histórico, a religião. O autor precisa, portanto, criar uma moldura realista para sua história visionária. O conto, por medida de precaução, começa “aqui” (o território do Real, literariamente permitido), vai para “lá” (o fantástico, o estranho, o maravilhoso) e no fim volta para “aqui”. A ida só é permitida se a volta for obrigatória. Existe um ensanduichamento da história (peço perdão por este termo bárbaro), para que o leitor não tenha que pegar com a mão no conteúdo fantástico, e o faça protegido pelas duas camadas de realismo que o protegem.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

2578) O Mauzão e o Bonzinho (9.6.2011)



Emparelharam com sirene, luzes piscando, fizeram sinal pra encostar no meio-fio. Obedeci, puxei o freio de mão e fiquei por ali. Veio um por um lado e o outro pelo outro. “Desce”, disse o primeiro, que tinha um bigode preto que parecia um rôdo. “Boa noite”, disse eu, bem alto, mesmo a rua estando sem um pé de pessoa às três da madrugada. O bigodudo abriu minha porta com força, me puxou pela gola da camisa, quase rasgando, e no mesmo movimento me fez dar uma volta e bater com o peito na lateral do carro. “Êpa”, falei, “vamos com calma”. “Cala a boca, seu porra”, disse ele, me apertando contra o carro com a mão esquerda. Foi arrancando tudo dos meus bolsos com a outra mão e jogando em cima do teto do carro. Enquanto isso o outro deu a volta e perguntou, como se a gente estivesse num domingo de sol assistindo uma regata: “E aí, tudo em ordem?”. Esse era louro e usava óculos. Era o Bonzinho. O Mauzão botou um cotovelo pontudo na minha espinha, me apertando, enquanto manuseava meus documentos, habilitação, carteira, sei lá o que ele estava olhando. “Pode trazer o bafômetro”, falei, só para dizer alguma coisa. Ele deu uma pancada na minha coluna com uma baioneta do exército alemão, ou talvez fosse somente o cotovelo. O Bonzinho perguntou: “Por que não parou quando a gente deu sinal?” Sem me mexer, respirei fundo e disse: “Acho que não vi. Tava ouvindo música”. O Mauzão remexeu nas coisas em cima do carro, talvez procurando um papelote ou um baseado. Só ia achar alguma coisa ali se plantasse. O Bonzinho afastou pro lado o Mauzão (que estava olhando cada compartimento da minha carteira) e disse baixinho: “Fica tranquilo, ele é meio agressivo mesmo, mas eu te garanto”. Foi a gota dágua. Virei-me para ele (o outro logo ergueu os olhos ao me ouvir) e disparei: “Olha aqui, seus palhaços, cretinos, borrabotas, seus milicos melados-de-óleo, seus personagenzinhos de telenovela inframental, de filmeco policialesco sub-hollywoodiano... Tou cansado dessa clicheria ambulante, dessa catatonia formulaica de repetir o repetido e dissolver em entropia o eternamente recodificado!” Peguei um e outro pela gola, trinta socos cá, trinta pontapés lá, dei no Zé uma surra com o João e depois dei no João uma surra com o Zé, joguei no asfalto, pisei, sapateei, enrolei um no outro e malhei o asfalto como quem malha sisal. Bati tanto que quando parei para respirar a transformação estava feita, a fusão concluída, arre diabo, será que tudo na vida tem que dar tanto trabalho? Ele se levantou meio tonto, limpando o uniforme. Perguntei: “Tudo bem?” “Tudo, senhor” disse ele, “tive uma tontura... Aqui estão seus papéis”. Olhei-o: óculos, bigode louro parecendo um rôdo... Guardei os papéis. Ele ainda me deu uma lição de moral e de velocidade no trânsito. Ao me afastar, vi que ele se abaixava e se olhava no retrovisor da viatura, como alguém que escapou de um perigo e acabou de nascer de novo.