quinta-feira, 6 de maio de 2010

2004) Orfeu em Solaris (11.8.2009)



(Orfeu)

No filme Solaris, de Andrei Tarkovsky, a jornada de Kris Kelvin é de certa forma uma jornada de Orfeu às avessas. Orfeu é o herói grego que penetrou no reino dos infernos para resgatar sua amada Eurídice e trazê-la de volta à vida. O deus dos infernos, Hades, atende seu pedido e diz que ele pode retornar à Terra, mas adverte que se durante o trajeto ele olhar para trás perderá Eurídice para sempre. Ora, em qualquer relato mitológico as proibições são feitas para serem desobedecidas. Orfeu, a certa altura da caminhada, começa a imaginar que Hades está trapaceando, e que ele na verdade está voltando sozinho para casa. Olha por cima do ombro... e vê Eurídice, que o seguia, desaparecer para sempre. (Não, leitor, não corra a consultar os gregos. Estou contando a versão que circula hoje. No original, vai ver que é diferente.)

Em Solaris (tanto no filme quanto no romance de Stanislaw Lem) o protagonista viaja para o planeta em busca de conhecimento. Na época (imprecisa) em que transcorre a história, já faz cerca de um século que a Humanidade descobriu o planeta Solaris, coberto por um oceano que já deu demonstrações de ser uma criatura pensante. (Imaginem um cérebro maior que os oceanos Atlântico e Pacífico somados.) Mas o contato tem sido impossível, porque o Oceano não dá mostras de perceber a presença dos humanos explorando sua superfície.

Kris Kelvin tem um nome que evoca tanto a religião (Cristo) quanto a ciência (Lord Kelvin, o físico britânico). Ele vai para o planeta em busca do conhecimento; quer decifrar o enigma de Solaris. Chegando lá, encontra na estação planetária uma réplica perfeita de sua falecida esposa, Harey, que se suicidou aos 19 anos. Fascinado mas cético, Kris a examina e descobre que ela não é um ser humano, e sim uma formação de neutrinos destinada a reproduzir (para os cinco sentidos) a pessoa que ele guardava na memória. A mulher parece ter amnésia: não sabe que morreu, não sabe como foi parar ali, sabe apenas que o ama e que quer ficar ao lado dele.

Kris é um Orfeu que foi parar no inferno, o Inferno dos Cientistas, que não é o dos tormentos físicos, mas o da incapacidade de compreender algo; e ali reencontra sua amada. Ele sabe que não é ela. Mas a réplica é tão perfeita que ele volta a se apaixonar. Os cientistas da Estação já chegaram à conclusão de que o Oceano é capaz de perscrutar seus inconscientes e materializar algo que esteja lá dentro, algo que pareça ser mais importante do que todo o resto. Eles se propõem a construir um desestabilizador de neutrinos, o que teria o poder de dissolver “Harey” em partículas subatômicas. E Kris acaba perdendo novamente sua amada, porque duvida, porque olha para trás. Ele sabe que ela não é de verdade, e permite que seja destruída. Prefere o conhecimento, mesmo precário, à ilusão do amor. Prefere destruir a cópia pirata, mesmo sabendo que o original foi perdido para sempre.

2003) O bebê e o bêbado (9.8.2009)




Se você tem ou já teve filhos pequenos, saberá do que estou falando. Criar um bebê até dois anos de idade é como cuidar de um bêbado, e mais do que isso, um bêbado que demora anos para ficar bom da carraspana. 

Acho que a experiência de cuidar de bêbados é mais rara do que a de cuidar de crianças, então vou descrever mais ou menos do que se trata, e vocês que me dêem razão.

Um bêbado do qual cuidamos é sempre um amigo, e um amigo do qual a gente gosta muito. Quando não é amigo a gente simplesmente o evita, e, no pior dos casos, pede a conta e vai beber noutro lugar. Mas, o que fazer quando estamos a sós com um bêbado chato, e esse chato calha de ser um grande amigo? Não há outro remédio senão cuidar dele.

Um bebê (como um bêbado) não entende o que a gente diz, mesmo quando é capaz de repetir em voz alta nossas ordens. Não entende e não obedece. Um bêbado (como um bebê) é uma criatura constantemente em perigo. Pode cair, pode se machucar, pode rachar a testa na quina de uma mesa, pode quebrar uma perna escada abaixo. 

Daí que é preciso estar sempre ao seu lado para onde quer que queiram ir, acompanhando, cercando, braços prontos para evitar que caia. Não adianta dar conselhos nem explicar o que devem fazer. Sua percepção do mundo é confusa, desorganizada, e mesmo que entendam o que estamos dizendo já o terão esquecido daí a pouco. O mundo mental de um bebê e de um bêbado abarca apenas os últimos minutos e os próximos segundos.

Isso para não falar nos momentos mais vexatórios. A gente se distrai por alguns minutos do bebê (ou do bêbado) enquanto atende um telefonema, e quando retorna o encontra em petição de miséria, porque vomitou ou fez xixi. É preciso conduzi-lo para o banheiro, tirar a roupa suja, empurrá-lo para o chuveiro (o bêbado, não o bebê) ou então dar-lhe um banho completo (o bebê, não o bêbado).

Bêbados e bebês têm outro aspecto em comum, o fato de que contam não com um Anjo da Guarda, como nós, mas com quatro: na frente, atrás, à direita e à esquerda. Somente esta teoria explica o fato de que sobrevivem aos próprios tombos e às bobagens que fazem, como enfiar o dedo na tomada ou dirigir de volta para casa. 

Cuidar de uma criança pequena significa ter dentro de casa esse bêbado permanente, essa fonte constante de inquietações e desassossegos, esse ímã de pequenos acidentes. Significa dormir com um olho aberto e o outro fechado para ver se de repente a criatura levantou sozinha e resolveu vagar pela casa; e com os dois ouvidos em alerta, para ter a certeza de que continuamos a ouvir o som da respiração no quarto ao lado.

Quando a gente cuida de um amigo que tomou uma carraspana, nunca deixa de cobrar-lhe no encontro seguinte: “Você, hem, rapaz? Vê se não apronta de novo. Na próxima vez te deixo dormindo na calçada!”. 

Ah, se pudéssemos dizer isso àqueles bebinhos inocentes, que cambaleiam vida adentro, ainda tontos do pileque da Eternidade!






2002) A consciência da glória (8.8.2009)




(Stendhal)

André Gide, em seus diários, conta que aos 20 anos ficava enraivecido quando caminhava pelas ruas de Paris e as pessoas não percebiam, pelo seu olhar, as obras-primas que ele viria a criar um dia. 

A consciência precoce da própria genialidade poderia ser um dos atributos típicos da genialidade, caso não existisse um fenômeno quase indistinguível dela: a ilusão precoce de que se é um gênio, sem ser. 

As mesmas ruas de Paris por onde caminhava André Gide estão sendo percorridas hoje (e o foram há dez anos, e há vinte, e há trinta) por outros jovens de olhar igualmente intenso e chamejante, conscientes das obras-primas que trarão ao mundo – mas que acabam não trazendo nada além de muita conversa em mesa de bar, algumas dúzias de artigos acadêmicos e muita fumaça de cigarro sem filtro.

Sem contar que muitos gênios em potencial não comungam dessas certezas. Criam, mas não crêem; criam massacrados pela descrença em si próprios. Kafka, nos seus Aforismos, diz: 

“Antes eu não entendia por que não recebia nenhuma resposta à minha pergunta, hoje não entendo como podia acreditar que era capaz de perguntar. Mas realmente não acreditava, só perguntava”. 

 Hoje em dia, numa época de Egos bombados a poder de esteróides, duvidamos que alguém possa criar uma obra de peso baseada na dúvida e na insegurança, mas não há dúvida de que muitos criaram assim, criaram quase a despeito de si próprios.

No contexto em que vi a citação, não fica claro se Gide escreveu em seu diário quando tinha 20 anos e era anônimo (o que daria mais credibilidade ao seu sentimento) ou se o fez depois de consagrado. Se foi este o caso, sua frase pode ser uma espécie de desabafo “a posteriori”, depois de conquistado o objetivo. Como aqueles torcedores que nos minutos finais da vitória do seu time erguem para as câmaras de TV uma cartolina com a frase “Eu já sabia”.

Em todo caso, é o mesmo fenômeno que, ao que parece, se dava com Stendhal. Num ensaio que li há anos e cujo autor não lembro agora, vi um comentário a respeito do autor de O Vermelho e o Negro dizendo que ele só veio a publicar sua obra-prima na idade madura (aos 47 anos, mais ou menos), mas que durante a vida inteira se comportara como se já fosse o seu autor. 

Se for verdade, pode ser um desses casos de um indivíduo naturalmente seguro de si e até meio arrogante, que, quando produz uma obra de peso, de certa forma justifica seu modo de ser. 

Mas pode ser também um desses sujeitos que têm certeza de que algo importante lhes está reservado no futuro. Alguns (como Stendhal ou Gide) encontram-se um dia com esse destino. 

Outros não. São como o protagonista de A Fera na Selva de Henry James, que pressente algo de grandioso em sua existência futura mas, a certa altura da vida, percebe que o momento passou... e nada aconteceu. Infelizmente, esse “nada acontecer” acontece com mais frequência do que O Vermelho e o Negro ou Os Subterrâneos do Vaticano.




2001) A nova revolução industrial (7.8.2009)



(Max Born, em 1921)

Surfista não vê a onda que está surfando. Ele só enxerga seu entorno. Para ver o formato da onda, ele vai ter que recorrer ao filmezinho que a namorada fez com o celular. Por falar em celular, nós ainda não temos muita idéia do que seja essa revolução vídeo-digital-eletrônica que estamos vivendo. Só enxergamos o nosso entorno: milhões de DVDs piratas, celular com Internet e câmara de filmar, conexão banda-larga com o mundo inteiro, filmes baixados de graça pela linha telefônica e assistidos num computador portátil.

Folheando o fininho mas precioso volume Problemas da Física Moderna (Ed. Perspectiva, 1969), coletânea de palestras de grandes cientistas, reencontrei uma observação de Max Born, Prêmio Nobel de Física em 1954, ao comentar a Revolução Industrial durante o que ele chama de “Idade dos Combustíveis Fósseis”: “Os sociólogos falam de uma revolução industrial, o que constitui um termo inexato, pois o que ocorreu de fato foi uma revolução na exploração da energia. Tudo o que se seguiu foi apenas um fruto dessa transformação”.

Até o século 17, todas as realizações materiais da Humanidade eram feitas “pelos músculos do homem e pelos animais domésticos auxiliados por moinhos de água e de vento”. A exploração do carvão (o primeiro combustível fóssil) e a invenção da máquina a vapor mudaram tudo; quando se deu o salto para o segundo combustível fóssil, o petróleo, aí o mundo decolou.

Como será vista e interpretada, no futuro, a revolução que estamos vivendo? Eu diria, tentando adaptar as palavras de Born, que é uma revolução na reprodução, armazenamento e circulação de dados. “Reprodução” envolve esse aspecto que desmoronou a indústria fonográfica: foi inventado um sistema de registro de dados que os torna facilmente copiáveis por qualquer pessoa, em pouquíssimo tempo e a custo quase zero, pois a tecnologia para isso se torna mais barata a cada ano que passa. “Armazenamento” envolve o aspecto de que os chips e HDs que armazenam essa informação crescem para dentro, ou seja, são capazes de uma subdivisão quase ilimitada do espaço, e assim conseguem armazenar cada vez mais dados em cada vez menos espaço. E “circulação” lembra o fato de que existe uma rede gigantesca abarcando todo o planeta com cabos e fios telefônicos (e em anos mais recentes com ondas de rádio, ou “wireless”) feita sob medida para o transporte desse tipo de informação.

A revolução na exploração de energia levou a uma sociedade industrial, baseada nas transformações da matéria e tendo como resultado uma espantosa melhoria no aspecto “hardware” da vida humana: transportes, moradia, construções e na produção de máquinas em geral para todo tipo de finalidade. A revolução dos dados, ou da informática, proporcionou até agora algo parecido com relação ao “software”: a cultura, a educação, a arte, e, inevitavelmente, o entretenimento e o lazer lucrativo. O próximo passo é que ainda não fazemos idéia do que será.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

2000) Contracapa de Facebook (6.8.2009)



(Algorithmic Art)

& mais alto do que essas torres? a fumaça dos seus incêndios, a poeira das suas quedas & dinossauros de vinil pastando jornais impressos & na TV apagada o reflexo de uma luminária acesa e de um homem olhando para a tela & Deus católico esculpido em madeira africana e pendurado na sala de um executivo ateu & toda vez que eu vejo um frigobar de hotel penso que tem um anão escondido lá dentro & daqui a cem anos as únicas coisas verdes na paisagem serão as garrafas pet & as pessoas são os olhos com que as casas observam as outras casas & assoletrando a cabala dos talibãs da Catalunha & quando a infância triunfar sobre os adultos... miserere nobis! & seres algorítmicos fatiados em ressonância magnética e ficcionados em GPS & cada bolero que eu canto reforça tudo que eu sinto e entorta tudo que eu sou & a premissa dela era um carnaval com hierarquia e depois tchau & por mais que Freud se barbeasse, a barba no espelho voltava a crescer & canário cantando num fio desencapado & vale a pena me arrastar pelo cimento para recolher cada ponta de cigarro, cada borracha de chiclete, cada papel amassado, e erguer meu castelo indestrutível, baseado no lixo do que eu sei & apertar no lugar certo, ferir na medida certa, lições de tocar violão & um albatroz tentando voar mas com um poeta pendurado ao seu pescoço & no fundo, para Neil Armstrong voltar foi mais importante do que ter ido & é o tipo do compositor que ao morrer vai deixar umas dez sinfonias inacabadas & um prisioneiro olhando as grades da cela e todo dia compondo mentalmente um problema de palavras-cruzadas & um Mito é um fato verbal reiterativo e auto-referente que finge reportar-se a uma instância factual externa a si mesmo & foi-se aquele tempo em que bastava a um príncipe conduzir um falcão no punho semi-erguido e de repente gritar-lhe: “Vai!...” & às vezes uma mulher precisa mais de um bom xale do que de um marido & “isto aqui não faz mal à saúde”, dizia ele, “complementa o metabolismo” & o caba que não tem moral nem o cursor obedece & meu corpo é uma vaca, resignada na fila do abatedouro, minha alma é um passarinho, impaciente para ascender aos portões de ouro & um rosto sem rugas é um livro sem linhas & condenado a prisão perpétua usando um piercing radioativo & o mágico puxa da cartola uma longa chaminé que enche o circo de fumaça negra & um navio que naufraga entre o porto e o horizonte & se Napoleão invadisse a Rússia sozinho talvez eles tivessem incendiado Moscou do mesmo jeito & todo filme preto-e-branco é feito de grãos de café e grãos de açúcar & a água que entrou no Titanic daria para apagar o fogo que envolveu o Hindenburg & o dragão negro bebeu a água do rio e mastigou os barcos como se fossem de chocolate & não me venha com filosofismas senão eu lhe pespego um energumento em pleno córtex epistemológico! & pois é, futebol de hoje: muito carrinho e pouca bicicleta &

1999) O cinema de arte e a FC (5.8.2009)




(Alphaville, de Godard)

Na última cena de 8 ½ de Fellini (1963) os personagens dançam uma ciranda em torno de uma plataforma de lançamento de um foguete espacial. 

Para mim, a plataforma tem um simbolismo: o temor reverencial que os intelectuais (incluídos aqui os diretores de filmes de Arte) têm para com a ficção científica. Olham para ela como Napoleão olhava para os hieróglifos da Pedra de Rosetta: algo que ele sabe que pode conquistar, comprar, vender, destruir, mas não consegue entender.

Enquanto isto, outros diretores europeus flertavam com a FC. 

Antonioni chegou a propor a John Kennedy a realização de um filme sobre o treinamento dos astronautas que se preparavam para ir à Lua, e Kennedy o convidou para ir à Casa Branca para conversar. O projeto não evoluiu, mas anos depois o livro de Tom Wolfe Os eleitos (“The Right Stuff”, 1979) deu origem ao filme homônimo de Philip Kaufman (1983).

Elio Petri, que viria a ficar famoso com Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, dirigiu em 1965 A décima vítima, adaptação de um conto futurista de Robert Sheckley em que indivíduos ricos e entediados se inscrevem num Clube onde podem matar vítimas sorteadas, e depois tornam-se vítimas eles próprios. 

Também de 1965 é Alphaville, um dos filmes mais inquietantes de Godard, em que ele pasticha a FC e o thriller policial ao descrever uma cidade futurista controlada por um super-computador.

Em 1966, foi a vez de François Truffaut embarcar na FC, adaptando Fahrenheit 451, o clássico de Ray Bradbury sobre uma distopia futura em que a leitura é proibida, as pessoas passam o dia vendo TV interativa, e cabe aos bombeiros queimar os livros que são lidos clandestinamente por dissidentes. 

Em 1968, Roger Vadim chamou sua então esposa Jane Fonda para estrelar Barbarella, adaptação dos quadrinhos de Jean-Claude Forest sobre uma astronauta sensual em aventuras eróticas pela Galáxia, num clássico do cinema “kitsch”. 

E no mesmo ano Alain Resnais, o “cineasta da memória”, dirigiu Eu te amo, eu te amo, onde uma experiência mal sucedida com uma máquina do tempo leva o viajante a ficar ricocheteando entre passado e presente, e revivendo uma história de amor mal sucedida que o levou a tentar o suicídio.

Há mais exemplos, mas estes bastam. Na década de 1960, estes jovens diretores do melhor Cinema de Arte europeu (todos então entre 30 e 40 anos) fizeram uma experiência com o cinema de ficção científica, experiência que não repetiram, mas que em todos os casos resultou em filmes dignos de atenção. 

Nessa década a FC começava a ser estudada nas universidades, e iniciava um diálogo com a vanguarda que esses diretores representavam. 

O rótulo de “New Wave”, dado à FC americana dessa época, foi uma adaptação explícita do nome de Nouvelle Vague usado pelos diretores franceses. FC e vanguarda tiveram ali um namoro breve, resultando em filmes cujo estudo conjunto ainda precisa ser feito.






1998) “Solaris” (4.8.2009)



Participei, no cineclube da Casa da Ciência da URRJ, de um debate sobre o filme Solaris de Andrei Tarkovsky. A obra de Tarkovsky foi relançado numa coleção de DVDs em que os filmes são complementados por discos com entrevistas, documentários e o “making of” de algumas obras. O diretor russo, falecido há alguns anos, é autor de um livro de ensaios sobre cinema, já traduzido no Brasil, intitulado Esculpir o Tempo. É uma boa definição para seu cinema, que valoriza o tempo dos personagens, das paisagens e das ações. Seus filmes têm um ritmo longo e largo, que provoca impaciência nos espectadores acostumados ao cinema em que uma nova cena surge na tela de 15 em 15 segundos. Tarkovsky gosta de planos complexos, com lentos movimentos de câmara, organizados em função dos deslocamentos sutis de seus personagens por um cenário que traz revelações à medida que nosso ponto de vista se desloca.

Solaris é um dos meus filmes de FC favoritos, assim como o romance de Stanislaw Lem, que lhe deu origem, é um dos meus livros favoritos. Solaris é um planeta que, depois de descoberto, torna-se o alvo principal das investigações da Humanidade, pois é coberto por um oceano de plasma que dá todos os indícios de ser uma criatura pensante. Entre outras coisas, o Oceano é capaz de corrigir a órbita do planeta, que gira em torno dos dois sóis. Violando as leis da física, o planeta otimiza sua órbita em torno dos sóis como se fosse manobrado por alguém. Durante um século, milhares de cientistas viajam para Solaris, fazem pesquisas intermináveis, mas não conseguem se aproximar de algo que possa ser classificado como um contato com essa inteligência colossal.

Quando a ciência solarística já está decadente, no entanto, os poucos remanescentes na estação planetária descobrem que o Oceano é capaz de ler suas mentes e projetar, em forma de seres materiais, imagens colhidas em sua memória. E o protagonista, Kris Kelvin, reencontra em Solaris a imagem – em carne e osso – de sua falecida esposa, Harey, que se suicidara por sua causa, num ataque de depressão.

Solaris é um dos grandes símbolos do Desconhecido, do Misterioso e do Desmedido na ficção científica. Como possível repositório de um saber inconcebível, assemelha-se à Biblioteca de Babel, de Jorge Luís Borges. Como local gigantesco e inacessível, lembra o Castelo, de Kafka. O planeta de Lem/Tarkovsky é um dos “Grandes Objetos Mudos” que os personagens da ficção científica encontram em suas viagens pelo Cosmos – enormes espaçonaves à deriva, ruínas ciclópicas de civilizações desaparecidas, máquinas subterrâneas ocupando todo o subsolo de um planeta, estações espaciais onde caberiam milhões de pessoas... Tudo vazio, tudo indecifrável. Espaçonaves ou portais de teleporte que somente depois de décadas de estudo são compreendidos pelos humanos, e quando postos em funcionamento abrem para eles caminhos inimagináveis pelo Universo, como na série Gateway de Frederik Pohl.

1997) Dante no Inferno (2.8.2009)



Falam que os jovens só querem saber de videogames, de banalidades, que abominam os livros e a cultura clássica. Quero ver a cara desse pessoal nas próximas linhas, quando ficarem sabendo por meu intermédio que no ano que vem será lançado o jogo Dante’s Inferno, para a plataforma Xbox 360, no qual (estou citando Tim Martin, num artigo em The Telegraph) Dante aparece como um anti-herói musculoso, abrindo caminho através dos Nove Círculos do Inferno com uma foice e uma cruz, para resgatar sua amada que foi aprisionada por Lúcifer.

Capturei na Internet uma prévia do que deve ser o jogo (em: http://tinyurl.com/cf9aug), que assim é descrito: “Os produtores do jogo revelaram que a história já havia sido adaptada para um game há um bom tempo. Afinal, converter uma trama de um ambiente como o Inferno de Dante para os games não é algo muito difícil, pois isso se resume a uma fórmula muito comum no entretenimento eletrônico: um herói vagando por locais perigosos e derrotando criaturas mitológicas (alguém se lembra de “God of War”?)”.

Ouvi agora um grunhido de dor, vindo da direção da Suíça. Acho que foi Jorge Luís Borges se revirando na tumba. Problema de Borges, que era refratário às coisas modernas, e criticava o livro de H. G. Wells A máquina do tempo por recorrer a uma máquina, e não a um tapete mágico. Mas o articulista explica mais: “Você deve estar imaginando: como Dante, que não é nada intimidador de acordo com a obra original, enfrentou a própria Morte e ainda roubou sua arma? Bem, a equipe adaptou Dante de acordo com os videogames, e o resultado é uma figura muito mais musculosa e poderosa do que a original, e com diversas habilidades. O personagem será capaz de executar diversas combinações de golpes através de um sistema de combo complexo que permite mesclar ataques fortes, fracos e aéreos.”

”A lâmina de Dante não será sua única opção para finalizar seus oponentes. O protagonista também poderá usufruir dos poderes de uma misteriosa cruz mágica, capaz de eliminar inimigos de maneira devastadora. Além disso, o herói é capaz de domar e pilotar feras gigantes. Para isso, é necessário, antes de qualquer coisa, eliminar o piloto original, algo que pode ser realizado através de minigames de contexto. Depois disso, basta subir nas costas de um dos monstrengos e aproveitar a viagem cuspindo fogo, pisando em seus inimigos e muito mais.”

Heresia, amigos? Sei lá. O Papa daquele tempo deve ter achado o poema de Dante uma heresia do mesmo tamanho. Um videogame baseado em Dante não deve ser heresia maior do que Proust quadrinizado, ou a Bíblia, escrita pelo Espírito Santo em pessoa, filmada por John Huston. Talvez, no futuro, jovens ansiosos por cultura clássica se debrucem sobre o jogo da Electronic Arts com o mesmo fervor com que os cristãos do século 20 assistiam O Rei dos Reis com Jeffrey Hunter no papel de Cristo. Há mensagens que resistem a tudo.

1996) Falsos documentos à venda (1.8.2009)



O “Fantástico” na TV Globo mostrou recentemente uma matéria sobre a venda de documentos estudantis falsos, uma indústria subterrânea florescente no País dos Bacharéis. Pelo que a gente viu, parece a coisa mais simples do mundo conseguir um diploma de Médico ou de Advogado, pagando 3 ou 4 mil reais. Uma pechincha, comparada com as despesas de um curso de verdade. As falsificações são anunciadas livremente nos cadernos de Classificados. O sujeito telefona, faz contato, fornece seus dados, diz o curso que quer, e dias depois recebe diploma, histórico escolar completo, e está apto a exercer a profissão – desde que encontre gente incauta o bastante para não checar a autenticidade dos documentos.

Falsificar documentos é uma arte. Num livro recente de William Gibson, um personagem que precisa de identidade falsa recebe uma carteira de motorista com sua foto e outro nome, e percebe que alguém se deu o trabalho de enfiar e retirar o documento centenas de vezes numa carteira de cédulas, para produzir micro-arranhões e dar verossimilhança à falsificação. Já dizia o Budista Tibetano: “Numa sociedade de aparências como a nossa, mais vale uma coisa falsa que pareça verdadeira do que uma verdadeira que pareça falsa”. Durante muitos anos tive uma Carteira de Identidade totalmente detonada, o plástico parecendo uma bolacha sete-capas, a assinatura desbotada, a foto quase se largando. Quando alguma autoridade (um policial, um funcionário de aeroporto) levantava alguma dúvida, eu dizia: “Se está assim é porque é de verdade, se eu fosse falsificar um documento ia ser uma coisa bem ajeitadinha.” Sempre funcionou.

Um saite intitulado “Corrupted-Files.com” oferece a estudantes norte-americanos arquivos em qualquer formato, mas corrompidos, ou seja, com uma alteração interna que torna impossível abri-los com qualquer programa. O objetivo é fazer com que estudantes preguiçosos ganhem algum tempo extra para enviar seus trabalhos escolares por email (prática comum nas universidades). Se o trabalho é para o dia 10 e não ficou pronto, basta ao estudante baixar um arquivo assim no saite, dar a ele o título do trabalho e enviá-lo para o professor. Este dificilmente vai abrir o arquivo no mesmo dia. Quando o fizer, lá pelo dia 13 ou 14, não vai conseguir, pois o arquivo estará corrompido. Ele entra em contato com o estudante, que reenvia o trabalho – desta vez num arquivo normal, e com o trabalho pronto, porque teve 3 ou 4 dias extras para terminá-lo.

Outro saite, “FalseExpense” oferece falsas notas fiscais de despesas variadas: passagem aérea, hotel, restaurante, etc. O cliente paga uma taxa e preenche um questionário online explicando as despesas que deseja justificar. Por exemplo, passagem de ida e volta entre Detroit e Miami, hotel tal, tantas refeições em hotéis com valor médio “x”... Depois que o pagamento é feito, ele recebe pelo Correio as notas que encomendou. Sem impostos... e sem perguntas.

terça-feira, 4 de maio de 2010

1995) “Oldboy” (31.7.2009)



Um homem é sequestrado por desconhecidos à noite, após deixar uma cabine telefônica. Acorda trancado num quarto onde há cama, TV, o essencial para um mínimo de conforto; mas não há janelas, e na única porta abre-se apenas uma portinhola por onde pessoas desconhecidas lhe entregam a comida. Passam-se dias, semanas, e ninguém lhe dá nenhuma explicação. A certa altura, ele grita na portinhola: “Me digam pelo menos por que motivo estou aqui! Já fazem três meses!” E a voz dele, em off, comenta, por cima dessa imagem: “Teria feito alguma diferença, se tivessem me dito, naquele dia, que acabariam sendo quinze anos?”

O filme Oldboy do sul-coreano Chan-wook Park (2003) tem toda a estrutura de um drama de vingança, acrescido de um mistério. A referência mais imediata que nos ocorre é O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas, em que o protagonista volta, depois de anos na prisão, para se vingar dos que destruíram sua vida. Mas no livro de Dumas sabemos quem o fez, e por quê. No filme de Park, antes da consumação da vingança é preciso elucidar dois mistérios. Quem se deu o trabalho de abduzir Oh Dae Su durante quinze anos? E por quê? E – principalmente – por que motivo ele foi solto inesperadamente, levado desacordado para a rua, e lhe deram dinheiro e um celular através do qual uma voz misteriosa lhe dá instruções e lhe faz desafios?

Mais do que ao drama de vingança, Oldboy pertence ao subgênero que John Clute definiu como “godgame”, o jogo de ser Deus, em que um indivíduo poderoso, com meios quase ilimitados ao seu dispor, interfere na vida de uma pessoa, fazendo com ela um jogo cruel de gato e rato. Liberado da prisão, Oh Dae Su percebe que está vigiado a toda hora. Sabem onde ele foi, com quem esteve, o que fez, o que falou. Como se espiões invisíveis viessem seguindo os seus passos, enquanto ele junta as peças do quebra-cabeças para descobrir a identidade do seu carrasco.

É um filme metafísico que no final faz alusões claras ao mito de Édipo, e ao mesmo tempo um desses filmes contemporâneos com cenas de sadismo explícito que fazem os mais sensíveis fecharem os olhos. A violência, apesar de excessiva, não é despropositada, porque se trata de uma tragédia, um filme sobre maldade gratuita, ódio a longo prazo e vingança feroz. Como é um desses enredos cheios de reviravoltas e surpresas, fica difícil comentá-lo em detalhe sem estragar o prazer de quem ainda não o viu. Mas basta dizer que Oldboy poderia ter pedido emprestado o título em português de um velho melodrama: Meu passado me condena. É um filme onde não há inocentes, em que as vinganças são excessivas, mas compreensíveis, porque o que as move não é a ética e sim o desepero de quem teve sua vida destruída. Como nas tragédias gregas ou elizabetanas, todos saem perdendo no final – menos o único personagem a quem é poupado o conhecimento da terrível verdade que não posso revelar aqui.