quarta-feira, 10 de março de 2010
1774) O capitalismo e a Starbucks (15.11.2008)
Hoje incomodarei os colegas que sofrem de adição à minha droga preferida: a cafeína.
Bendita cafeína, a quem devo milhares de laudas jornalísticas ou literárias, poemas, letras de música. Se prestam ou não, é questão a ser arbitrada pelos pósteros, mas só escrevi aquilo tudo porque a bendita beberagem negra eletrificou meus neurônios e arrancou minha alma do torpor atávico que vive a empurrá-la para diante da tevê.
O leitor conhece as casas de café Starbucks? Há 19 delas no Brasil, todas em São Paulo. Conheço a da Alameda Santos, que é de marejar os olhos (e as papilas gustativas) de um viciado.
Pois um artigo recente de Daniel Gross na revista Slate equaciona o café e o delírio capitalista que vem fazendo um estrago no mundo nestes últimos meses. Gross teoriza o seguinte: quanto maior a concentração de cafés Starbucks na capital financeira de um país, maior a probabilidade de que este país venha a sofrer perdas financeiras catastróficas no futuro.
A comprovação vem do fato de que somente na ilha de Manhattan há quase 200 cafés desse tipo. O café dessas lojas, diz ele, provê o combustível para um “boom” financeiro. Sua cafeína ajuda os especuladores a passarem horas a fio oferecendo papéis do mercado futuro, e agentes de hipotecas a sancionarem empréstimos pouco confiáveis.
“Estrategicamente”, diz ele, “a Starbucks instalou muitas de suas lojas no andar térreo dos grandes bancos de investimento”.
Gross diz que, assim como o capitalismo financeiro dos EUA, a Starbucks pegou uma boa idéia e levou-a longe demais, diluindo desnecessariamente seus bons aspectos, e edificando suas apostas no futuro na fé desmesurada num crescimento ilimitado e sempre lucrativo. Não deu.
Assim como o mercado imobiliário norte-americano, a Starbucks atingiu seu pico na primavera de 2006 e desde então vem caindo sem parar.
Haverá mesmo uma relação entre as egotrips da cafeína e o descontrole financeiro? Gross aponta que Londres tem 256 lojas Starbucks, Madri tem 48, e o paraíso financeiro de Dubai tem 48 lojas para uma população de 1,4 milhão de pessoas. A Coréia do Sul tem 253 lojas, e a cidade de Paris tem 35.
Na outra ponta da estatística, por exemplo, fica o continente africano com apenas três lojas (todas no Egito); a Argentina tem apenas uma; o Brasil tem 14 diluídas numa população de 180 milhões. Países como Itália, Suécia, Finlância e Noruega não tem uma sequer.
Pouparei o leitor de mais números; quem quiser esmiuçá-los vá aqui (http://www.slate.com/id/2202707/).
Em julho deste ano, a Starbucks fechou cerca de 600 lojas, quase um décimo de seu efetivo. Tal desmoronamento acontece ao mesmo tempo que a falência das financeiras e dos bancos ligados à área imobiliária. Haverá relação? Já vi muita gente reclamando que a voracidade do capitalismo era movida a cocaína, conhecida como A Droga do Egoísmo. Será que o café, o nosso santificado cafezinho, é mesmo um cúmplice neste apocalipse?
1773) Borges e a associação de idéias (14.11.2008)

Li a resenha, assinada por Alberto Manguel, de um livro recente sobre Jorge Luís Borges, The Unimaginable Mathematics of Borges’ Library of Babel. O autor, o matemático William Goldbloom Bloch, analisa as idéias matemáticas contidas neste conto em que o escritor argentimo imagina uma biblioteca formada por livros que contêm em si todas as combinações possíveis de letras, e assim reproduzem a totalidade dos livros possíveis.
Muita tinta já correu sobre este conto; os textos que o analisam são tão numerosos que já encheriam alguns dos hexágonos de que se compõe a Biblioteca fictícia. Mas Manguel revela um detalhe que inquietou minha curiosidade. Diz ele que as orelhas do livro de Bloch reproduzem em fac-símile o manuscrito original do conto de Borges, redigido em sua letra minúscula, regularíssima. Ao que parece, Borges escreveu o conto em folhas de um livro ou caderno de contabilidade, daqueles que têm colunas intituladas “Deve” e “Haver”. Nas folhas que usou, essas palavras estão em letras góticas, e na palavra em espanhol “Haber” o “H” maiúsculo parece um “B”, e o “r” minúsculo parece um “l”, fazendo com que “Haber” sugira “Babel”.
É claro que Borges (ou qualquer outro escritor) não precisaria desta dica do Acaso para comparar sua biblioteca à Torre de Babel, onde todos os idiomas humanos se misturaram e se desentenderam. Mas na sua obra existe um componente casual que muitas vezes desnorteia os críticos. Ele mesmo já afirmou que os números que aparecem no conto não têm qualquer alusão cabalística; apenas se referem aos livros e às prateleiras que estavam do seu lado quando ele escrevia, numa biblioteca pública de Buenos Aires.
Outras referências casuais aparecem em outros contos. Em “A Morte e a Bússola”, as primeiras páginas mostram um crime misterioso que envolve um Tetrarca da Galiléia e o misterioso Tetragrammaton, o nome secreto de Deus, composto de quatro letras. Robert Irwin, em The Mystery to a Solution, pergunta: “Preciso indicar que o verbete sobre ‘tetrarca’, na décima-primeira edição da Enciclopédia Britânica [a edição que Borges possuía], está na página oposta ao verbete sobre o Tetragrammaton?”
Borges, como muitos autores cerebrais, descansa o cérebro pegando no ar um sem-número de dicas, sugestões, inspirações, que ele intuitivamente incorpora ao texto, porque sente, como todos os autores verdadeiramente cerebrais, que o cérebro tem um lado oculto que também sabe tomar decisões. Folheando uma enciclopédia para checar uma informação, ele fica aberto para sugestões do Acaso, e pode incorporar ao texto palavras ou elementos que são vistos “em passant” e cuja natureza não interfere no enredo. Detalhes secundários e ilustrativos, citações, nomes de pessoas ou lugares, tudo isto tanto pode ter uma natureza intencional e até alegórica como pode ter sido apenas um elemento encontrado no meio do caminho.
1772) O leitor enroscado no sofá (13.11.2008)

Estive participando de uma discussão literária entre vários blogs, em torno de um livro meio modernista, de leitura um tanto complicada. A certa altura, um dos participantes escreveu: “É um bom livro, um livro importante, mas não é o tipo de livro que escolho quando me enrosco no sofá, numa noite tranquila, com uma xícara de chá”. A imagem corresponde às circunstâncias ideais de leitura: um local aconchegante, um tempo prolongado, sem interrupções, uma bebida leve ou algum lanche miúdo para ficar “beliscando”...
No contexto em que esse leitor se pronunciou, ele queria dizer que o livro em discussão era um livro difícil, intelectual, que não provocava o envolvimento do leitor. Ele não conseguia “se identificar com o protagonista”, nem “se importar com o que acontecia aos personagens”. Era um livro que lhe causava um estranhamento, um distanciamento. E na hora de se enroscar no sofá, o que esse tipo de leitor procura é um livro que o envolva, no qual ele mergulhe esquecendo-se do mundo à sua volta, emocionando-se com o que acontece aos personagens, vivendo e respirando junto com eles.
Em função disto, vou definir que existem dois Leitores, ou pelo menos duas Leituras: a Leitura Brechtiana e a Leitura Stanislavskiana. Isto se baseia no teatro do intelecto pregado por Brecht, e no teatro da emoção pregado por Stanislavski. A primeira leitura procura abordar o livro intelectualmente, observando a narrativa, analisando sua estrutura, decompondo seus elementos, anotando as referências culturais que ele desperta (cada livro nos remete a um universo seletivo, a um cardápio cultural único e irrepetível). A segunda leitura é para rir, emocionar-se, excitar-se, assustar-se, participar daquela narrativa com a voluntária suspensão da descrença.
Não é para me gabar, mas eu acho que sou o Leitor Completo. Porque eu não apenas sou capaz de ambas as leituras, como salto de uma para outra sem precisar sequer apertar um botão ou dar um Alt+Tab. E só o que vejo à minha volta são pessoas que são cronicamente incapazes de ler de uma dessas duas maneiras. Tem gente que só consegue entender Robbe-Grillet, e gente que só sabe entender Agatha Christie. Para mim, a cena de estar numa madrugada silenciosa enroscado no sofá com uma taça de vinho (no inverno) ou uma lata de cerveja (no verão) significa imersão total da leitura, rendição total ao discurso literário, e para mim é irrelevante se estou lendo um tratado de Freud (“leitura intelectual”) ou um romance de Jorge Amado (leitura de entretenimento, por puro prazer).
A maioria dos leitores, quando se enroscam no sofá, não querem fazer nenhum esforço intelectual além do necessário para se divertir com uma história bem contada. Pra mim é um desperdício. Sofá, vinho, madrugada silenciosa, isso é o momento ideal para ler Guimarães Rosa ou T. S. Eliot. O resto eu leio no metrô ou na fila do Banco.
1771) Os Atlas Poéticos (12.11.2008)
(O Rastro dos Cantos, de Bruce Chatwin)
Poemas descritivos de uma geografia são um gênero antigo. Poderíamos chamá-los de cartografias literárias, porque equivalem a um mapa de palavras, mnemonicamente dispostas em versos bons de decorar, para que seu encadeamento não se perca nem se confunda. Recitando baixinho o poema, o viajante poderá se orientar, saber por onde está passando, saber o que vem depois.
“O Rio” (1953), de João Cabral, é descrito de forma cabal pelo seu subtítulo: “Relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife”. Cronologicamente se situa entre “O cão sem plumas”, que é um retrato puramente poético do mesmo rio, e “Morte e vida severina”, descrição da viagem que fazem os retirantes num percurso parecido.
Reza a lenda que o poeta compôs o poema no Rio de Janeiro, com o auxílio da mapoteca do Itamaraty. (Me pergunto quantos poetas de hoje em dia se dariam o trabalho de fazer uma pesquisa para escrever um poema.)
Textos assim, em que o autor leva o leitor a percorrer em mente um espaço físico, são batizados às vezes de “itinerários líricos”, como o que Jomar Morais Souto fez em verso para a cidade de João Pessoa, e o que José Nêumanne fez em prosa para a cidade de Campina.
Frederico Pernambucano de Mello (Guerreiros do Sol) lembra o poema de Francisco das Chagas Batista, “A política de Antonio Silvino”, de 1908, repleto de “fidelidade microgeográfica”:
Santa Rita, Espírito Santo
Mamanguape, Mulungu
Pilar, Sapé, Guarabira
São Miguel de Traipu
Serra da Raiz, Caiçara
Bethlém, Curimataú.
Poemas enumerativos, catalográficos, que constituem, para o homem do campo sem alfabetização e sem mapas, uma espécie de Atlas poético a que recorre quando quer checar a existência de um nome, e sua relação com os que lhe estão nas vizinhanças.
Em seu magnífico livro O Rastro dos Cantos (“Songlines”, 1980; no Brasil, Companhia das Letras, 1996, trad. Bernardo Carvalho), Bruce Chatwin estuda a mitologia dos aborígenes australianos, cujo mundo foi criado através de uma canção, ou de um poema.
Para os aborígenes, os Ancestrais primitivos dormiam sob a terra e foram despertados pelo sol. Cada ancestral de cada coisa viva deu origem a uma espécie: o Homem Cobra, o Homem Cacatua, etc. Rompendo a crosta da terra eles se puseram em marcha, dizendo: “Eu Sou!” Eu sou Formiga. Eu sou Pássaro. Eu sou Cobra. E assim por diante.
A cada passo dado, eles pronunciavam outro nome, batizando assim os rios, as pedras, os arbustos. No momento em que diziam um verso com o nome daquela coisa, a coisa passava a existir.
Segundo Chatwin as “songlines” são estes cantos intermináveis, que reproduzem, tanto na letra quanto na melodia, o percurso desses Ancestrais pelo continente. Mesmo ouvindo o canto no idioma de uma tribo que desconhece, um aborígene seria capaz de reconhecer, pelo formato da melodia, o trecho que está sendo cantado – se é um rio, uma baía, uma lagoa nova, uma lagoa seca, um mato grosso, um belo horizonte, uma serra talhada, uma pedra lavrada, uma campina grande.
terça-feira, 9 de março de 2010
1770) O lixo da História (11.11.2008)

Falei aqui sobre o filme Sob o domínio do mal (The Manchurian Candidate) de John Frankenheimer, um thriller político de 1962 em que um oficial do exército americano, preso pelos chineses na Guerra da Coréia, sofre uma lavagem cerebral que o transforma num assassino em potencial. Depois que ele volta aos EUA, os chineses mexem os pauzinhos para que ele assassine um candidato à presidência, facilitando a subida ao poder do marido de sua mãe, um anti-Comunista ferrenho que na verdade está a serviço dos comunistas.
Revi este filme em DVD nesta semana que antecedeu as eleições presidenciais norte-americanas. Revi-o pensando, como penso com frequência, na veia de irracionalismo e brutalidade que corre ao longo de um dos povos mais racionais e cordatos que existem. Existe uma veia gótica no organismo da América, por onde corre um sangue sanguinário, um sangue de tragédias macbethianas, de poder conseguido pelo força e mantido pela opressão, mesmo no seio dos cavaleiros-andantes da democracia ocidental. Nós também, aqui em nosso país tropical e afetivo, temos os nossos cromossomos escravagistas e chacinadores. Todo povo tem. O que fascina nos americanos é a linguagem única que eles usam para sarjar em público seus abscessos e expulsar os demônios que os atormentam, como John Frankenheimer faz neste filme.
Em seu livro The Dustbin of History, Greil Marcus comenta longamente o filme de Frankenheimer, lançado um ano antes de Kennedy ser assassinado em Dallas. Marcus comenta outros assassinatos políticos (ou tentativas mal-sucedidas) que ocorreram depois: Medgar Evers, Malcolm X, Martin Luther King, Bob Kennedy, Andy Warhol, George Wallace, Gerald Ford, George Moscone, Harvey Milk, John Lennon, Ronald Reagan. Todos foram vítimas, fatais ou não, de pesadelos indiretamente semelhantes ao pesadelo (ilógico, incoerente, exagerado) da conspiração de The Manchurian Candidate. Diz Marcus: “O filme pode fazer parte destes acontecimentos incompreensíveis, ou deste evento inexplicavelmente mas totalmente inteiro, completo, singular, desta corrente subterrânea em nossa vida pública: a transformação do que era tido como uma vida pública aberta e visível em crimes privados ou conspirações ocultas”.
As “forças ocultas” que Jânio Quadros denunciou renunciando, em 1961, geraram este filme-pesadelo, geraram a série de crimes políticos citados por Greil Marcus, e transformaram a segunda metade do século 20 num vitrine cheia de luzes e de música berrante, encobrindo manobras escusas, “tenebrosas transações”, tramas secretas em que vultos sem nome e sem rosto traçam o destino das nações e eliminam, da maneira mais tosca, mais descuidada e mais impune, quem se atravessar na sua frente. A Guerra Fria real não é travada entre o Ocidente e o Oriente, e sim entre Os Que Mandam Na Sombra e nós, que vivemos na luz, que tudo enxergamos e pouco compreendemos. Boa sorte, Barack Obama.
1769) O Candidato da Mandchúria (9.11.2008)

O título brasileiro deste filme é Sob o domínio do mal, um desses títulos banais que a gente ou esquece ou confunde com o Sob o domínio do medo atribuído a Straw Dogs de Sam Peckinpah No presente caso, é um thriller político feito em 1962 por John Frankenheimer e refilmado há poucos anos com Denzel Washington no papel principal. Não vi a refilmagem; é do notável filme de 1962 que falarei aqui. Durante a Guerra de Coréia, soldados americanos são presos e submetidos a lavagem cerebral que os transforma em futuros assassinos robotizados. O objetivo é, no momento certo, assassinar um candidato à presidência dos EUA e substituí-lo por um pseudo-direitista que tem a função de abrir caminho para um complô russo-chinês.
O filme não é uma análise política, é um exercício em paranóia. Laurence Harvey é o militar em quem basta um jogo de paciência no baralho para desencadear o condicionamento hipnótico. Os crimes que comete são encenados de forma seca e brilhante por Frankenheimer. A crítica fala na influência de Orson Welles na estética do filme: o uso da profundidade de campo, dos ângulos invulgares de câmera, da iluminação em claro-escuro. Há também uma porção de elementos hitchcockianos. A cena em que Harvey entra à noite no quarto de dormir do patrão, para matá-lo, parece tirada diretamente de Pacto Sinistro. O atentado programado para quando o candidato disser uma frase específica do discurso lembra o famoso momento dos címbalos em O homem que sabia demais, para não falar na presença do caveiroso Reggie Nalder no elenco de ambos os filmes, e da “psicosiana” Janet Leigh.
Pacto Sinistro também está presente na semelhança entre o personagem de Harvey e o de Farley Granger nesse filme, um homem que se vê impelido a cometer um crime contra a própria vontade. Frankenheimer, que nunca foi um diretor de grandes ousadias, dedica-se aqui a compor uma narrativa visual cheia de lances espetaculares. A cena em que os cientistas chineses fazem Harvey matar dois soldados diante de uma platéia, imaginando que assiste uma reunião de um Clube de Jardinagem, é uma das mais desnorteantes que já vi no cinema, mesclando ilusão e realidade de uma maneira brilhante como linguagem, e aterrorizante como recurso dramatúrgico.
Frank Sinatra faz o oficial encarregado de vigiar Harvey e, ele também, vítima do mesmo condicionamento hipnótico. Em seu comentário do filme, Roger Ebert chama a atenção para um possível sub-enredo, em que ele também seria um criminoso e Janet Leight a sua “supervisora” – um pouco como Harrison Ford, em Blade Runner seria ele também um andróide igual aos que caçava. The Manchurian Candidate foi feito dois anos antes de Lee Oswald assassinar John Kennedy. Revê-lo agora, depois de ver Barack Obama em campanha para a presidência sob gritos de “Kill him!” nos dá o que pensar como “plus ça change, plus c’est la même chose”.
1768) O três no conto popular (8.11.2008)
(Sílvio Romero)
Lendo os contos populares ou, como chamamos aqui na Paraíba, “histórias de Trancoso”, a gente vê que existe uma fascinação pelo número três. São episódios que acontecem três vezes, são três objetos ofertados ao herói, são três tarefas que precisam ser cumpridas, são os três filhos de um velho casal, são três princesas encantadas.
Essa fixação numérica pode ser interpretada de acordo com Freud, com Marx, com Jung, com Lévi-Strauss, com Peirce, com a Cabala, com a Numerologia, e por aí vai.
Cada interpretação enriquece o fenômeno, nenhuma o esgota. A razão de sua longevidade é justamente esta: significar, de forma plausível, coisas diferentes para diferentes leitores.
Para este leitor aqui, existem padrões narrativos para os quais cabe uma pequenina explicação. Refiro-me àquelas situações, nesses contos, em que o herói recebe a ajuda de (ou precisa enfrentar) três criaturas sobrenaturais sucessivas.
Pego um exemplo entre centenas, o conto “O Bicho Manjaléu”, recolhido por Sílvio Romero em Contos Populares do Brasil.
O herói sai à procura de suas três irmãs, que casaram com três desconhecidos. Chega na casa da primeira e descobre que o rapaz com quem ela casou é o Rei dos Peixes. Ele é um cara muito brabo, que chega em casa procurando intrusos, ameaçando matá-los, mas depois que toma banho e faz uma refeição sossega. A esposa revela a presença do irmão, e os dois tornam-se amigos. O herói procura então a segunda irmã, que casou com o Rei dos Carneiros, e depois a terceira, que casou com o Rei dos Pombos. Os três episódios são rigorosamente iguais.
Estes episódios, que fogem à vivência cotidiana do herói, ensinam-lhe uma maneira de se relacionar com o sobrenatural, e se repetem para que seus elementos sejam reconhecidos com segurança. Correspondem a três fases: 1) informação, 2) revelação, e 3) confirmação.
No primeiro encontro, acontecem situações inesperadas em que o herói é forçado a improvisar procedimentos para se relacionar com o sobrenatural. Tudo aquilo é informação nova, algo que fugia a sua experiência prévia, e ele tem o direito de recear que, num segundo encontro, tudo recomece também do zero e as lições deste primeiro episódio não lhe sirvam para nada.
No segundo encontro, ocorre a Revelação. Certos elementos do primeiro encontro se repetem, e só então ele tem a idéia de quais são as regularidades, as “constantes” do fenômeno sobrenatural. Ele age de acordo com essa revelação, e desta vez seu procedimento não é totalmente improvisado ou intuitivo, é produto de uma reflexão e de um conhecimento.
O terceiro encontro serve apenas como Confirmação do que fora improvisado no primeiro e posto conscientemente em prática no segundo. O terceiro é quase pró-forma, quase supérfluo, está ali apenas para que não restem dúvidas. Ele “rubrica e carimba” a ação do herói, certificando-o de que sua maneira de lidar com o sobrenatural estava correta, e de que ele agora é o senhor da situação.
1767) O Presidente Negro (7.11.2008)

São 3:20 da madrugada de terça para quarta-feira (horário de verão no Rio), e acabei de ver o discurso de Barack Obama em Chicago, como presidente eleito dos Estados Unidos. Às 2 horas, a CNN já tinha proclamado o resultado, baseando-se nas projeções das pesquisas. Às 2:20 o senador republicano McCain subiu ao palanque para reconhecer publicamente a derrota, num discurso calmo, comedido e emocionado. A vitória de Obama parece ter sido aplastante (ainda não saíram os números definitivos, mas a esta altura vocês já devem saber). Senti nesta noite a emoção de ver a História acontecer diante dos meus olhos, como a senti quando o homem chegou à Lua, quando caiu o Muro de Berlim, quando um operário nordestino foi eleito presidente do Brasil.
É engraçado um sujeito tão desiludido com a política brasileira ainda marejar os olhos quando vê coisas aparentemente boas acontecerem em países distantes. Acho que a política dos EUA me emociona porque é colorida e distante como um filme, e é fácil emocionar-se com um simples filme, com uma coisa que não alcança nossa vida real. É como um jogo de futebol, cujo resultado não muda rigorosamente nada no mundo, e que por isso mesmo permite que nos entreguemos sem prudência à euforia e ao desespero. O Brasil não emociona porque sabemos como é o jogo, sabemos o quanto as cartas estão marcadas, conhecemos aqueles personagens e não conseguimos ver neles um super-herói. Mais fácil enxergá-lo em alguém que noutro país, no Olimpo dos Super-Heróis, e que no frigir dos ovos não tem carne nem osso, é apenas uma imagem eletrônica como tantas outras.
Por outro lado, a vitória de Obama me emociona porque, como todo escritor de ficção científica, eu tenho a deformação profissional de achar que o mundo é mais importante do que o meu país. Comparada a uma eleição presidencial norte-americana, que muda o perfil do mundo, a eleição de um presidente brasileiro é uma mera substituição de barnabés obscuros. Os EUA, queiramos ou não, gostemos ou não, detêm Poder. São os “senhores do baraço e do cutelo” cantados pelos poetas antigos. Nunca pensei que viveria para ver um presidente negro ser eleito dessa forma, com uma campanha limpa e equilibrada, num momento em que o país se afunda num pântano moral e definha numa hemorragia econômica.
Obama será um salvador da pátria? Duvido. Não existem salvadores. Existem funcionários escolhidos pelo povo para resolver seus problemas. O funcionário cujo mandato (ilegalmente conquistado através de fraude nas urnas) se encerra em janeiro próximo não passou de um mamulengo daquilo que existe de pior em seu país, e ajudou a precipitá-lo em guerras inúteis, mal-intencionadas e cruéis. A eleição de Obama pode reconquistar um pouco de respeito pelos EUA no resto do mundo, dependendo, é claro, das políticas que adotar, das decisões que tomar. A História está em movimento, e é emocionante ver quando a História, este paquiderme reumático, dá um passo à frente.
1766) O mundo infra-real (6.11.2008)

(José J. Veiga)
Falei aqui nesta coluna sobre uma recordação de infância do poeta Gerardo Mello Mourão, de quando seu irmão de oito anos, antes de morrer, saiu pela casa se despedindo de todos os objetos: o pote, o caneco, a poltrona... Diz Mourão que existia, naquelas pessoas simples do interior, um apego afetivo às coisas. Não o apego materialista de quem se cerca de objetos caros, para ostentação, mas o apego sentimental que a gente desenvolve por coisas simples, que de tanto nos fazerem companhia parecem estar se humanizando, estar fazendo parte de nós mesmos.
Na mesma revista (Azougue 10 Anos, Rio, 2004), há outra entrevista com o escritor goiano José J. Veiga, autor de belos livros de contos regionais (Os Cavalinhos de Platiplanto) e curiosos romances fantásticos (A Hora dos Ruminantes). Veiga, da mesma geração de Gerardo, e também interiorano, ecoa, sem saber, o depoimento do colega, dizendo:
“Os objetos que você usa em casa, que fazem parte de sua vida como se fossem da família, suscitam um apego enorme. Quando acabam, quebram ou ficam inutilizados, me dá uma certa tristeza... Puxa, aquele aparelho de barba, tão bom, que eu tinha, caiu, entortou, não entra mais a lâmina... Que pena. Posso comprar outro, mas não é o mesmo. Tenho apego às coisas que me servem, das quais eu me sirvo”.
Esse amor aos objetos banais é, para mim, sintoma de um humanismo transbordante, de uma vontade de afeto, vontade de humanizar e de carregar de sentimento mesmo as coisas mais corriqueiras. Como dizia Drummond: “amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas”. No caso, distribuído pelas coisas ínfimas, pelos objetos caseiros, por pedaços de matéria a que ninguém lança um segundo olhar, e que, para esses humanistas incorrigíveis, alçam-se quase à condição de um animal doméstico a quem é preciso conceder uma atenção, um acarinhamento.
O que me lembra o “tamagochi”, os bichinhos eletrônicos que eram moda entre as crianças alguns anos atrás. Era uma espécie de videogame do tamanho de um celular, com um bichinho virtual que era preciso alimentar, cuidar, dar carinho... Se o tamagochi fosse esquecido, “morria”. E já vi histórias de crianças que por descuido perdiam seu tamagochi e desfaziam-se em lágrimas. Lágrimas que eu achava idiotas: “Em vez de criar um cachorro ou um hamster, esses cyberboys ficam levando a sério um mero agregado de bytes made-in-Taiwan, como se fosse um bicho de verdade!”
Mal sabia eu que é melhor ter afeto por um tamagochi ou um aparelho de barba do que não tê-lo por um peixe de aquário ou um passarinho de gaiola, como muitos por aí. O grande perigo para esses garotos viciados em games é a diluição da afetividade, a desvalorização da experiência única que é a vida: porque no jogo você tem sete vidas ou mais, aí morre, recomeça, nem liga. O game torna o mundo daqui menos real. Viva o tamagochi, viva tudo que nos leve a transbordar nossa afetividade até pelas coisas que não existem.
1765) Machado: “Idéias de Canário” (5.11.2008)
(Machado, por Stegun)
Este sempre foi um dos meus contos preferidos de Machado (em “Páginas Recolhidas”, 1899). Curtinho, semi-fantástico, filosófico, bem-humorado, é um apólogo com múltiplas leituras, que nunca se esgotam.
O narrador é Macedo, mais um dos gênios incompreendidos machadianos, um sujeito voltado para a investigação de assuntos abstrusos a fim de comunicar suas descobertas ao Museu Nacional, ao Instituto Histórico ou a universidades alemãs.
Ocorre-lhe entrar um dia numa loja de belchior, atulhada de objetos imprestáveis, e descobrir ali uma gaiola onde saltita um canário falante. A uma pergunta sua, o canário diz não saber o que é o céu, ou o sol, e assim define o seu mundo:
“O mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira”.
Macedo se deslumbra, compra a ave e a leva para casa, onde lhe destina uma paisagem mais arejada, e gaiola mais hospitaleira. Passa a tomar notas copiosas:
“Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno, sem dizer nada a ninguém, até poder assombrar o século com a minha extraordinária descoberta. Comecei por alfabetizar a língua do canário, por estudar-lhe a estrutura, as relações com a música, os sentimentos estéticos do bicho, as suas idéias e reminiscências. Feita essa análise filológica e psicológica, entrei propriamente na história dos canários, na origem deles, primeiros séculos, geologia e flora das ilhas Canárias, se ele tinha conhecimento da navegação, etc.”
A certa altura da pesquisa, Macedo volta a indagar do canário sua definição do mundo, para passá-la a limpo, e se surpreende.
“O mundo,” responde-lhe o pássaro, “é um jardim assaz largo com um repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira”.
Macedo adoece, e ao melhorar fica sabendo que o canário fugiu durante a limpeza da gaiola. Deixa-se abater pelo desespero, procura em vão, nenhum sinal da ave. Passa-se algum tempo. Um dia, visitando a chácara de um amigo, ouve o canário cumprimentando-o do galho de uma árvore. Implora-lhe que volte; não estará com saudade do jardim, do repuxo?... O canário afirma nunca ter visto semelhante paisagem, e, indagado sobre o que é o mundo, responde com firmeza:
“O mundo é um espaço infinito e azul, com o sol por cima”.
É uma recriação da parábola dos três brâmanes cegos, que apalpam um elefante e o descrevem pelas partes que lhes tocam. Do canário de Machado pode-se dizer que evolui, mesmo que sua visão-do-mundo seja fenomenológica, capaz de conceber apenas o que percebe a cada momento. É uma pequena sátira intelectual, com ironia, mas uma ironia simpática, pois o próprio Macedo não sabe se seu mundo é mais ou menos veraz que o do canário.
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