segunda-feira, 17 de agosto de 2020

4611) O consertador de potes (17.8.2020)



Existe uma tradição no artesanato japonês de barro chamada “kintsugi” ou "kinsukuroi". É a arte e a ciência de pegar um vaso de barro que se quebrou e consertá-lo, emendando de volta os cacos, reconstituindo o formato original do vaso. Acontece que as rachaduras não podem ser escondidas, pois o barro cozido e endurecido não pode mais ser moldado. O que fazem os artesãos? Eles preenchem as rachaduras com outros materiais, até mesmo com ouro, tornando-as ainda mais visíveis. Assumindo a história, sem disfarçá-la. O vaso quebrou, sim, quebrou mas foi consertado.

 

Existe uma lição nesse processo: a de reconhecer defeitos e incorporá-los à personalidade, depois de remediar a situação. Um pote de guardar água foi quebrado. Alguém juntou os cacos. Recompôs a forma. Preencheu as rachaduras com uma porcelana qualquer, um metal qualquer. As rachaduras continuam lá mas agora são inofensivas: o pote pode voltar a guardar água dentro de si. E o desenho do quebrado alerta as pessoas. Cuidado. Isso quebra.

 

Uma cicatriz, numa pessoa, conta uma história. O que aconteceu aqui? Ah, foi um acidente, foi isso, foi aquilo... Muita gente se esforça para camuflar cicatrizes, e é claro que algumas são desagradáveis de ver. Mas uma cicatriz pode ser transformada em elemento estético, numa tatuagem, por exemplo. Kintsugi.

 

Philip K. Dick tem um curioso livro de FC, Galactic Pot-Healer (1969), um dos menos comentados pelos críticos, mas que me parece um dos mais encantadores. Não é um livro que pudesse ser filmado por Steven Spielberg ou por Ridley Scott, mas eu gostaria de vê-lo adaptado pelos Estúdios Ghibli.


É um livro quase intraduzível, aliás, porque no mundo futuro que ele descreve as pessoas participam de um jogo (“The Game”) todo baseado em trocadilhos e naquilo que a gente chamada de “charadas infames”, charadas absurdas que só fazem sentido (ou um arremedo dele) na língua original.

 

Joe Fernwright é um “pot-healer”, um consertador de potes, de vasilhas de barro. Num mundo onde tudo é de plástico, artigos de barro são raros e preciosos, mas pouca gente lhes dá atenção. E Joe se dedica a consertar coisas de barro quebradas. Não se trata apenas de um artesanato visando uma função utilitária. Há toda uma filosofia.

 

Força. A força de ser, pensou ele, e em oposição a ela a paz do não-ser. Qual era melhor? A força acaba se gastando toda no fim, todas as vezes; então talvez a resposta fosse essa, e nada mais fosse preciso. A força – o ser – era temporária. E a paz – o não-ser – era eterna. Ela já existia antes do seu nascimento e recomeçaria depois de sua morte. O período entre esses dois pontos, o período da força, era apenas um episódio, o rápido flexionar de músculos recebidos de empréstimo, de um corpo que teria que ser devolvido... ao verdadeiro dono.

(p. 43, trad. BT)

 

Lembrei desse livro durante a leitura do quinto romance da série “Earthsea”, de Ursula LeGuin, The Other Wind (2001). Nele reaparece o mago Ged, conhecido como Sparrowhawk. Ele é o protagonista da série, que o acompanha desde o seu nascimento e o despertar da magia (A Wizard of Earthsea, 1968), uma aventura de sua entrada na vida adulta (The Tombs of Atuan, 1971), sua grande batalha na maturidade (The Farthest Shore, 1972), o surgimento de uma protagonista feminina (Tehanu, 1990) e finalmente sua velhice neste quinto livro.


Nele, Sparrowhawk, já com setenta anos, recebe no começo do livro a visita de Alder, um mago jovem, que está passando por um período atribulado e vem se consultar com ele. Aqui não interessa tocar no enredo central do livro, mas na figura de Alder. Ele é apresentado como um “consertador” (=”mender”), alguém com o talento especial de consertar coisas com o uso da magia.

 

Alder era um consertador. Ele era capaz de recompor. De tornar algo inteiro de novo. Uma ferramenta partida, uma lâmina de faca ou de machado que trincou, um pote de barro despedaçado: ele podia juntar de novo os fragmentos sem deixar fendas ou junturas ou pontos fracos. Seu mestre o mandou sair em busca das várias fórmulas de encantamento para consertar coisas, e ele as encontrou quase todas entre as bruxas da sua ilha, e começou a trabalhar com elas até aprender a consertar.

– Consertar é um pouco como curar – disse Sparrowhawk. – Não é um dom menor. Não é um ofício fácil.

(p. 15, trad. BT)

 

LeGuin surgiu na década de 1960 na fantasia norte-americana como um necessário contraponto a uma Fantasia Heróica em que os poderes mágicos ou tinham função militaresca (alvejar com raios, desmoronar muralhas, incendiar tropas) ou eram um instrumento de “wish fulfillment”, realização gratuita de desejos, final-feliz a custo zero: ressuscitar pessoas amadas, transformar qualquer-coisa em ouro, deletar inimigos, etc.

 

É inevitável que sua fantasia seja descrita como “feminina”, porque ela volta conscientemente sua atenção para o universo feminino, sua cultura, suas atividades. Num dos ensaios de Dancing at the Edge of the World, ela questiona com bom humor a visão masculina (ilustrada em 2001, uma Odisséia no Espaço) de que o primeiro instrumento usado pelos antropóides que deram origem ao homem tenha sido o bastão, a clava, o instrumento de bater e de matar. “Por que não teria sido alguma coisa côncava?”, pergunta ela. “Para guardar água, para guardar sementes?...”




A discussão pode ser ociosa para antropólogos ou historiadores, mas para ficcionistas, capazes de impor suas próprias regras, desde que sua ficção as sustente, é essencial.

 

E nessa de ter potes para água e sementes eu acho que não teria passado despercebido a LeGuin um título como o do livro de Philip K. Dick: O Consertador de Potes da Galáxia. Ela admirava demais Dick, a quem chamou “o nosso Jorge Luís Borges, cria de casa”. E o personagem de Alder em The Other Wind é uma versão mágica do Joe Fernwright do autor californiano.

 

Em certo momento, Sparrowhawk, que está hospedando Alder em sua choupana (é um Mago humilde, estóico) pede-lhe que conserte um vaso de barro que pertenceu a sua esposa.

 

Pouco tempo atrás ele lhe escapara das mãos, ao tirá-lo da prateleira. Ele recolheu os dois pedaços maiores e todos os fragmentos miúdos, com a intenção de colá-los de volta para que o vaso pudesse pelo menos ser visto de novo, mesmo que ficasse sem uso. Cada vez que olhava os cacos guardados num cesto ele se irritava com sua própria falta de jeito.

                Agora, fascinado, ele observou as mãos de Alder. Esguias, fortes, hábeis, sem pressa, elas rodeavam a forma do vaso, alisando, ajeitando, encaixando os pedacinhos de barro, instigando e acariciando, os polegares forçando e dirigindo os pedaços menores até o ponto certo, rejuntando todos, tranquilizando-os.

(p. 45, trad. BT)

 

É uma magia simpática, empática, que trata os objetos insensíveis como se fossem sentientes, que junta os cacos de um vaso como se fosse a patinha de um cão. Para mim o “pot-mender” de LeGuin foi inspirado, salvo melhor idéia, pelo “pot-healer” de P. K. Dick.

 

A magia literária fascina os leitores por causa desse substrato humano, que aliás muitas tradições da magia ritual clássica enfatizam. A necessidade da convivência longa e profunda com os materiais do rito (basta lembrar dos milhares de operações longas, enfadonhas, dos alquimistas com seus fornos e retortas). A familiaridade também – a antiga recomendação de que o recinto de práticas mágicas seja construído pelo próprio Mago, suas mãos abrindo o solo, misturando o cimento, assentando os tijolos.

 

A magia pode não funcionar no mundo real, concordo, mas para que funcione na literatura precisa de argumentos em que o leitor perceba um peso humano.  Não basta um abracadabra, um abre-te-sésamo.


Lord Darcy é um mago-detetive criado por Randall Garret, com interessantes histórias de um universo paralelo onde a magia funciona. Numa dessas histórias, o mago é capaz de recuperar um documento manuscrito com pena e tinta, sobre o qual alguém derramou por acidente o tinteiro. Ele pega aquela folha de pergaminho ensopada de tinta preta, e com uma fórmula pacientemente repetida retira dela toda a tinta indesejada, e deixa apenas o documento redigido e assinado, como era antes.

 

Como é possível? – pergunta alguém. E ele responde: Porque as linhas do documento e da assinatura são linhas traçadas por uma vontade humana, com uma concentração de propósito tipicamente humana; têm peso; têm força. A tinta derramada passou ali por acaso, era algo superficial, descartável, que uma fórmula mágica simples consegue remover, sem alterar o que, num certo sentido, foi gravado na pedra.



(Ursula LeGuin, foto de Dana Gluckstein)  







sexta-feira, 14 de agosto de 2020

4610) Minhas canções: "Nordeste Independente" (14.8.2020)

 



Esta música ficou conhecida por caminhos meio tortuosos, até porque não surgiu com a intenção de “ser uma música”, nem de ser gravada.

 

Dentro do ambiente dos cantadores de viola e dos “apologistas” (os “defensores” da cantoria) é comum o habito de dar motes aos cantadores para que eles desenvolvam versos. O mote pode ter muitas formas. Vou explicar a forma usada nesta música, que é a do mote de dois versos decassílabos.

 

A estrofe de dez versos usada pelos cantadores de viola nordestinos é uma estrofe típica da poesia barroca da península ibérica, muito usada em Portugal e na Espanha, e trazida para cá pelos colonizadores. Uma prova disso é que em toda a América Latina a mesma estrofe é usada. Já a encontrei na poesia popular e nas canções da Argentina, Chile, Uruguai, Peru, Cuba e por aí afora.

 

Essa estrofe, chamada de décima, tem este formato, com as letras indicando a posição obrigatória das rimas:

 

1....................................A

2....................................B

3....................................B

4....................................A

5....................................A

6....................................C

7....................................C

8....................................D

9....................................D

10..................................C

 

Ou seja: cada estrofe desse tipo utiliza quatro rimas diferentes, uma nas linhas 1, 4 e 5, outra nas linhas 2 e 3, outra nas linhas 6, 7 e 10, e outra nas linhas 8 e 9.

 

O violeiro não tem apenas que improvisar os versos: ele tem que improvisar colocando as rimas exatamente nessa posição, porque se ele estiver cantando no sertão pode ter certeza que mais da metade da platéia conhece isso e vai perceber toda vez que ele errar. É como Ginástica Olímpica. Errou, perde ponto. (Simbolicamente, é claro – na cantoria ninguém conta ponto.)

 

Já com relação ao aspecto de métrica, o Nordeste Independente é uma letra feita em decassílabos, versos de 10 sílabas, que nesse estilo tem uma acentuação mais forte na 3ª., na 6ª, e na 10ª. sílabas.

 

I-ma-GI-no-Bra-SIL-ser-di-vi-Di(do)

Eo-nor-DES-te-fi-CAR-in-de-pen-DEN(te)

 

Coloquei em negrito as sílabas com acentuação mais forte. A última sílaba, que coloquei entre parênteses, não é contada por ser (no caso) uma sílaba átona – só se conta até a última sílaba tônica, que no exemplo acima são respectivamente DI e DEN.

 

Complicado? Sim, é uma estrofe que vem sendo elaborada e praticada há seculos. Difícil de fazer, ou até mesmo de compreender? Sem dúvida. Como diz Zé Ramalho, “se fosse perto, todo mundo ia”.

 

O mote é quando a gente sugere ao cantador a última ou as 2 últimas linhas do verso, para que ele improvise o resto. É uma tradição, um hábito, um desafio.

 

Você está bebendo num bar às 4 da manhã e o garçom se aproxima querendo fechar. A mesa está cheia de cantadores. Aí você diz:

 

Seu garçom, por favor, mais uma Brahma

que eu só saio depois do sol nascer!

 

Esse é o mote. Seriam as linhas 9 e 10 da estrofe, e aí todo mundo se assanha, cada um querendo fazer o verso mais “tampa”. Faz parte da cultura.

 

Em 1980, no Bar de Seu Manu (atualmente Bar de Genival), em Campina Grande, eu estava com alguns cantadores, e Ivanildo Vila Nova se queixava das discriminações contra os nordestinos, narrando algum episódio recente. No fim desabafou:

 

– Era melhor separar logo os dois, em dois países diferentes.

 

E eu disse:

 

– Pois vou lhe dar o mote: Imagine o Brasil ser dividido / e o Nordeste ficar independente.

 

Todo mundo achou graça. Ele estava de saída, mas decorou. No outro dia, trouxe algumas estrofes rabiscadas no papel. (Porque esses motes não são apenas para glosar de improviso. Se você gostar do mote, leva pra casa, e escreve. É como eu faço.)

 

Ele produziu várias glosas, eu escrevi outras, e um dia Elba Ramalho me viu cantando numa mesa de bar e decidiu gravar. Foi um grande sucesso no show Coração Brasileiro, no Canecão, em 1983 (quando eu já estava morando no Rio), e foi gravado ao vivo e incluído no disco seguinte dela, Do Jeito Que a Gente Gosta (1984).

 

Por que eu disse acima que “não é uma canção”?

 

Uma canção é uma coisa mais ou menos redonda, pronta, fechada. Depois de feita e gravada, ninguém mexe mais. (Há muitas exceções, é claro.)

 

Mas quando a gente dá um mote assim, o mote começa a circular. Outras pessoas começam a fazer glosas. Eu mesmo, quando vejo um mote bonito, decoro e quando chego em casa tento escrever algumas glosas. E é de bom-tom, de boa educação, citar sempre que possível o autor do mote. Embora muitos deles a gente não consiga rastrear de quem é.

 

Tem motes meus de 40 anos atrás que eu vejo hoje sendo sugeridos aos cantadores, eu estou na platéia, e ninguém sabe que o mote é meu. Não tem problema. Cultura oral. O poeta passa e o verso fica.

 

Depois da gravação de Elba Ramalho, Ivanildo lançou um disco com Severino Feitosa, onde gravou as estrofes dele. Porque eram muitas. Na época do show de Elba, eu mostrei para ela umas 20 estrofes diferentes e ela gravou 6. No disco dela, as primeiras 4 são de Ivanildo, e são minhas as duas últimas.

 

Depois disso, Ivanildo produziu muitas outras estrofes, e eu também.

 

Aqui, versos só de Ivanildo, gravados em dupla com o grande Severino Feitosa:

https://www.youtube.com/watch?v=CvMAJnwF16s


São minhas por exemplo, estas outras, que ninguém gravou:

 

Se São Paulo é a tal locomotiva

que carrega estes mais de 100 milhões

então deixe pra trás estes vagões

que lhe tornam a carga cansativa.

Eles vão ter a iniciativa:

ser puxados por boi, cavalo e gente

talvez andem bastante lentamente

mas seu rumo é seguro e conhecido;

imagine o Brasil ser dividido

e o Nordeste ficar independente.

 

Todo ano no Rio de Janeiro

chegam levas e levas de migrantes

são milhares de braços retirantes

que fabricam montanhas de dinheiro;

pois que o Rio prossiga em seu roteiro

e o Nordeste não seja um afluente

que conduz mil riquezas na torrente

e nem mesmo no mapa é conhecido;

imagine o Brasil ser dividido

e o Nordeste ficar independente.

 

Se houver essa tal separação

através de um acordo ou um tratado

o Brasil se verá desobrigado

de amparar esta imensa região;

e o Nordeste será uma nação

mais vistosa, mais rica e mais contente,

sem ninguém que lhe humilhe e lhe sustente,

sem um pai, um patrão ou um marido;

imagine o Brasil ser dividido

e o Nordeste ficar independente.

 

A música foi proibida pela Censura Federal (era o último ano da ditadura militar) por “pregar o separatismo”. E muita gente no próprio Nordeste adotou essa perspectiva: “Vamos separar!”.

 

Quando pedem a minha opinião sobre o assunto, digo sempre que a simples separação não adiantaria de nada se o Nordeste continuasse sendo o paraíso de desigualdade social que é ainda hoje. Se separarem, comecem fazendo uma Reforma Agrária rigorosa, taxando as grandes fortunas, moralizando a administração pública etc. Se não, continuarão iguais ao Brasil.

 

Acho possível que isso aconteça? Não. Essa canção, para mim, é uma canção meio de ficção científica, na base do “What if...” perguntando: “E se... (tal e tal coisa acontecesse, como seria?)”.

 

E atentem para o mote. Imagine o Brasil ser dividido. Imagine there’s no heaven. É um sonho hippie, impossível como tantos, necessário como todos.

 

Letra (gravação de Elba Ramalho):

 

Versos de Ivanildo Vila Nova:

 

1

Já que existe no Sul este conceito

que o Nordeste é ruim, seco e ingrato

já que existe a separação de fato

é preciso torná-la de direito.

Quando um dia qualquer isto for feito

todos dois vão lucrar imensamente

começando uma vida diferente

da que a gente até hoje tem vivido.

Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

 

2

Dividindo a partir de Salvador

o Nordeste seria outro país

vigoroso, leal, rico e feliz

sem dever a ninguém no exterior.

Jangadeiro seria o senador

o cassaco-de-roça era o suplente

cantador de viola o presidente

e o vaqueiro era o líder do partido.

Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

 

3

Em Recife o Distrito Industrial

o idioma ia ser Nordestinense

a bandeira de renda cearense

“Asa Branca” era o hino nacional

o folheto era o símbolo oficial

a moeda, o tostão de antigamente

Conselheiro seria o Inconfidente

Lampião o herói inesquecido.

Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

 

4

O Brasil ia ter de importar

do Nordeste: algodão, cana, caju,

carnaúba, laranja, babaçu,

abacaxi e o sal de cozinhar.

O arroz e o agave do lugar

a cebola, o petróleo, o aguardente:

o Nordeste é auto-suficiente

e seu lucro seria garantido...

Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

 

 

(Versos de Braulio Tavares:)

 

5

Se isso aí se tornar realidade
e alguém do Brasil nos visitar
neste nosso país vai encontrar
confiança, respeito e amizade;
tem o pão repartido na metade
tem o prato na mesa, a cama quente:
brasileiro será irmão da gente
venha cá, que será bem recebido...
Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

 

6

Eu não quero com isso que vocês
imaginem que eu tento ser grosseiro
pois se lembrem que o povo brasileiro
é amigo do povo português.
Se um dia a separação se fez
todos dois se respeitam no presente
se isso aí já deu certo antigamente
nesse exemplo concreto e conhecido,
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

 









terça-feira, 11 de agosto de 2020

4609) O mistério das figuras de cera (11.8.2020)

 


Sigmund Freud elegeu, como um dos elementos mais propensos a nos transmitir a impressão do Estranho, do sobrenatural, do Unheimlich, a reprodução de figuras humanas sem vida – bonecos, estátuas, etc.  Quanto mais parecido com um ser humano, mais inquietante torna-se aquela imagem. Recuamos instintivamente, porque percebemos que tem algo estranho ali. E tem. Não é uma pessoa. Não tem vida.


As reflexões de Freud sobre o Unheimlich (“the Uncanny”) mostram uma zona limítrofe entre o ser e o não-ser. Há atualmente uma expressão muito usada hoje, no tempo das recriações digitais: “The Uncanny Valley”, O Vale do Estranho. É esse vacilo da razão em que vendo uma imagem somos incapazes de saber se aquilo é ou não uma pessoa. Sentimos essa estranheza que é um misto de susto, medo e repulsa.

 

Assunto importante, numa época de deep fake, falsificações digitais capazes de pegar (como já vi na web) uma cena de Onde os Fracos Não Têm Vez e substituir a imagem de Javier Bardem pela de Arnold Schwarzenegger, dizendo as mesmas frases, lançando os mesmos olhares, movendo do mesmo modo cada músculo do rosto.

Aqui:  https://www.youtube.com/watch?v=CO5ydSJzxLk


Sem falar nas imagens digitais criadas do nada, mas tão aparentemente reais quanto uma pessoa de verdade. Como Rei Toei, a cyber-cantora de Idoru (1996) de William Gibson, tão linda que um cantor de verdade se apaixona e quer casar com ela. Tão perfeita que a projeção 3-D de sua imagem num palco ou num restaurante requer “um iceberg, não, uma Antártida de informação binária”, diz alguém.

 

É o mesmo Gibson que já nos anos 1990 nos imaginava vendo na TV de casa uma versão de Casablanca com nossa imagem e nossa voz substituindo Humphrey Bogart.

 

As imagens de cera têm um papel importante nessa história, pela mitologia que criaram em torno de si. A partir do século 17, essa arte foi capaz de reproduzir com fidelidade espantosa as feições de uma pessoa. E de absorver toda a mística uncanny da ausência-presente.


Marina Warner, em seu livro Phantasmagoria (Oxford University Press, 2006) analisa as reproduções do corpo e da alma humana em dez capítulos (“Wax”, “Air”, “Clouds”, “Light”, “Shadow”, “Mirror”, “Ghost”, “Ether”, “Ectoplasm”, “Film”).

 

No primeiro destes, ela passa um pente-fino na história das imagens de cera. Imagens religiosas adoradas em catedrais e santuários. Reproduções anatômicas para o estudo da medicina. Museus de figuras históricas, como o de Madame Tussaud. “Carnivals” de barracas ambulantes com mostruários de vidro exibindo reproduções em cera de doenças, deformidades, males venéreos, raridades teratológicas que o mundo inteiro sempre pagou para ver.

 

A cera, segundo ela, tem a propriedade (em comum com o alabastro) de absorver luz, em vez de defleti-la, e assim parece emitir luminosidade de dentro para fora. Depois que se resfria, tal como o vidro, a cera não pode mais ser moldada, apenas quebrada.  Sua extrema maleabilidade quando ainda quente permite fazer moldes perfeitos por contato – e ela conta histórias arrepiantes de Madame Tussaud e seus assistentes, nos necrotérios da Revolução Francesa, fazendo moldes dos aristocratas decapitados. Por seu envolvimento com a realeza, a Madame acabou se transferindo para Londres em 1802, onde estabeleceu a sede do seu museu em 1835.


(Museu Tussaud, Londres: Madame Tussaud moldando)

Marina Warner lembra que essa febre por simulacros de cera coincidiu com o auge da popularidade do romance Gótico, e de seus descendentes como o Frankenstein (1818) de Mary Shelley. O Museu Tussaud, em Londres, tinha uma secção chamada “A Câmara dos Horrores”, com reconstituição de crimes e criminosos célebres. O terror vinha se somar à sensação do “uncanny valley”. E essa sensação é permeada pela uma fascinação erótica.

 

Diz Marina Warner que o século 18 teve “uma nebulosa convergência entre ciência e libertinagem”: o estudo de minúcias anatômicas não estava destituído de uma carga de fetichismo e de exploração pornográfica. A imagem mais antiga, hoje, do museu é a chamada “Sleeping Beauty”, a Bela Adormecida: uma mulher jovem que dorme num canapé.


(Museu Tussaud, Londres: Sleeping Beauty)


Digressão: há um episódio divertido envolvendo Jards Macalé, que quando morou em Londres nos anos 1970, junto com os tropicalistas exilados, tomou um ácido lisérgico e foi visitar o Museu Tussaud, tendo, diz ele, se apaixonado imediatamente pela Branca de Neve, e sendo retirado do museu aos prantos. Ele conta essa história no documentário de Geneton Moraes Neto A labareda que lambeu tudo (2011). Embora no relato ele fale em “Branca da Neve”, tudo indica que se trata da “Bela Adormecida”, inclusive pelo detalhe, lembrado por ele, de que um delicado mecanismo de relojoaria faz o peito da estátua deitada se expandir e se abaixar ritmicamente, dando a impressão de que respira (Marina Warner, pág. 47).

 

O filme, aqui. A fala de Macalé está em 1:18:00.

https://www.youtube.com/watch?v=WetMubGVcAo

 

Ao que se diz, a modelo para essa estátua teria sido a famosa Madame Du Barry (1743-1793), amante de Luís XV, guilhotinada na Revolução Francesa.

 

Aqui entra a minha memória afetiva pessoal. O que sei eu de Madame Du Barry, a beldade capaz de apaixonar um rei em vida, e um poeta brasileiro em simples efígie?


(Mme. Du Barry)

O bolero “Escultura”, de Nelson Gonçalves e Adelino Moreira, cantado por Nelson no filme O Camelô da Rua Larga (1958), de Eurides Ramos, conta a história de um homem que precisava criar para si mesmo a mulher ideal e recorre a detalhes de mulheres famosas (tal como o Dr. Frankenstein o fez com partes do corpo de vários cadáveres) para inventá-la. A certa altura, a letra diz:

 

Em Gioconda fui buscar o sorriso e o olhar;

em Du Barry o glamour.

E para maior beleza dei-lhe o toque de nobreza

de Madame Pompadour.

 

Nelson Gonçalves, “Escultura”:

https://www.youtube.com/watch?v=kXPm32kA-zI

 

A letra da canção é um raio-X curioso do nosso bolero, canção masculina em sua essência, o gênero mais revelador do que os homens brasileiros medianos pensavam (e ainda pensam) sobre a mulher, o amor e o sexo. Entre as mulheres convocadas para contribuir com a “escultura” ideal, estão Dulcinéia, Frinéia, a Virgem Maria, Gioconda, Du Barry, Mme. Pompadour.

 

E assim de retalho em retalho terminei o meu trabalho

o meu sonho de escultor;

e quando cheguei ao fim tinha diante de mim

você, só você, meu amor...

 

Das mulheres citadas temos três cortesãs famosas (Frinéia, Du Barry, Pompadour), duas figuras mais ou menos neutras (Dulcinéia, a amada platônica de Dom Quixote; e a Mona Lisa, cuja verdadeira identidade se debate até hoje). E Nossa Senhora, coitada, tendo que equilibrar sozinha os pratos dessa balança lúbrica.


O homem vê a mulher como uma boneca de cera, uma escultura, uma figura dúctil, maleável, que ele pode moldar a seu gosto, vestir e desvestir como lhe apraz, fazê-la representar papéis. Como faz o personagem de Scotty em Um Corpo Que Cai (filme de Hitchcock, também de 1958): ele tem um ideal de mulher na cabeça e quer que a mulher real à sua frente encarne essa fantasia.

(Um Corpo que Cai)


Madame Du Barry, bela e adormecida para sempre, está no Museu como a prostituta adolescente próxima e intangível do velho personagem de Garcia Márquez em Memória de Minhas Putas Tristes (2004), por sua vez inspirado nas cortesãs-meninas de Yasunari Kawabata em A Casa das Belas Adormecidas (1961).

 

Elas estão numa espécie de Uncanny Valley moral / afetivo / sexual / psicológico onde o homem oscila: essa criatura à sua frente é uma boneca ou uma mulher?

 

Eu passei minha casta infância e fescenina adolescência ouvindo canções deste tipo:

 

“Boneca de Pano”, de Assis Valente (com 4 Ases e 1 Coringa):

“Em vez de boneca de louça, hoje é boneca de pano, em um sombrio cabaré...”

https://www.youtube.com/watch?v=5Cp-LCGbiTs

 

“Boneca Cobiçada”, de Bolinha e Biá (com Palmeira e Biá)

“Boneca cobiçada das noites de sereno, teu corpo não tem dono, teus lábios têm veneno...”

https://www.youtube.com/watch?v=NevYSMS3EVw

 

“Boneca”, de Antonio Marcos, Celso Clóvis e Waldemar Soutello (com Ângela Maria)

“Boneca / ele falou quando passei / com um jeitinho / que eu gostei...”

https://www.youtube.com/watch?v=zgQvVL1gDg8

 

“Meu Vício é Você” de Adelino Moreira (com Nelson Gonçalves)

“Boneca de trapo, pedaço da vida, que vive perdida no mundo a rolar; farrapo de gente que, inconsciente, peca só por prazer, vive para pecar...”

https://www.youtube.com/watch?v=9vMBbcS4dEw&t=96s

 

É curioso perceber que pelo contexto de cada canção a boneca é sempre um sinônimo da prostituta, e não da moça de família. Boneca é um termo com que o homem busca a intimidade. A mulher que ele cobiça não se distingue muito, nesta última canção, da “bonequinha de luxo” de Truman Capote e Blake Edwards, no filme com Audrey Hepburn:

Boneca noturna que gosta da lua,

que é fã das estrelas, e adora o luar;

que sai pela noite e amanhece na rua

e há muito não sabe o que é luz solar.

 


(Museu Tussaud, Shangai: Audrey Hepburn)



É essa boneca dúctil, dócil, passiva, que ele procura, num sentimento não muito distante deste expresso por Rainer Maria Rilke, citado por Marina Warner (p. 55), a respeito da função das bonecas nas brincadeiras da infância:

 

Eu sei, eu sei que era necessário para nós possuir coisa desse tipo, que aquiescem em tudo. As mais simples das relações amorosas eram algo além da nossa compreensão; não seríamos capazes de viver e de lidar com uma pessoa que fosse alguém; na melhor das hipóteses, poderíamos apenas adentrar essa pessoa e nos perder lá dentro. Com a boneca, éramos forçados a assumir uma posição assertiva, porque, se nos submetêssemos a ela, então não haveria mais ninguém ali... ela era tão abissalmente desprovida de fantasia que nossa imaginação tinha que se tornar inesgotável, para poder lidar com ela.

(R. M. Rilke, “Some Reflections on Dolls – Occasioned by the Wax Dolls of Lotte Pritzel”, trad. BT)



(Museu Tussaud, Madrid: Marilyn Monroe)





sábado, 8 de agosto de 2020

4608) Entrevistas Transcendentais: Philip K. Dick (8.8.2020)

 

O carro, um Cadillac rabo-de-peixe, veio devagar ao longo da rua longuíssima e larga, sem prédios, sem muros. Fiquei olhando os gramados em diferentes tons de verde, casas largas de um ou dois andares, espalhando-se sem culpa por um terreno amplo. Árvores aqui e ali, céu brilhante, bem californiano. No horizonte erguiam-se colinas azuladas, pintalgadas pelas fachadas das mansões.

 

Paramos mansamente junto à calçada rebaixada, em frente ao endereço que eu trazia de cor. Desci, e quando me virei na direção da casa, ele já vinha devagar em minha direção. Calçava chinelos, e trajava uma calça preta, folgada, uma camisa de estampa colorida com as mangas arregaçadas, aberta na frente, deixando ver a camiseta branca que cobria o tórax possante e a barriga de cervejista. “Hail Brazil!”, ele exclamou, com a mão estendida. Apertamos as mãos, ele me abraçou como se eu fosse um amigo que não via há anos, e me conduziu para dentro de casa, com o braço paternalmente sobre os meus ombros.

 

BT – Obrigado por me receber, não sabe o trabalho que tive com a burocracia.

 

DICK – O prazer é meu. Sabe, há sempre uma fila de pessoas querendo ter a chance de uma conversa assim. Por mim receberia todos. Não é mais a mesma coisa. O mundo mudou, e a gente tem que aproveitar o que pode, dentro dos limites que tem. Mas quando vi suas recomendações separei logo seu nome, porque fiquei curioso. Seus ex-professores, suas atividades... Vamos entrando.


A casa ampla era na verdade um conjunto de apartamentos, com dois andares, virados para um pátio interno, onde subimos uma escada. A sala tinha a mobília previsível: posters de rock e de cinema nas paredes, uma estante de prateleiras simples atulhadas de livros, outra estante de madeira, fechada, com vidraças, onde pareciam estar obras de tamanho maior. Poltronas simples, tapete simples, uma ótima vitrola estéreo modelo 1980 e uma prateleira de vinis com uns dois metros de extensão.

 

Ele se inclinou sobre uma mesinha, onde havia uma bandeja com xícaras, etc., e uma garrafa térmica.

 

DICK – Como você é brasileiro, sei que não recusará um café. Se bem que muitas pessoas de fora se queixam do café daqui da América. (Serviu as xícaras, pus açúcar, bebi; o café estava ótimo.)  Dizem que nosso café é fraco, mas esses espressos atuais me dão dor de cabeça. Isto é arriscado – para quem tem um histórico médico como o meu, não acha?

 

BT – Meu café é exatamente como o seu. Faço um pouco mais fraco para poder ficar bebendo, em maior quantidade, ao longo do tempo.

 

DICK – Exatamente! Criou-se em torno do meu nome uma mística das drogas, mas deixe-me ser honesto, se criássemos uma escala de avaliação das drogas tendo num extremo um máximo de efeito positivo sobre a mente e no extremo oposto um mínimo de efeitos nocivos sobre a saúde, tenho certeza de que o café estaria situado num ponto ótimo entre os dois. Todas as outras drogas perdem pontos numa direção ou na outra, e acredite-me, já experimentei muitas.

 

BT – Mr. Dick, sem dúvida contam-se muitas histórias suas a esse respeito. Li em alguma parte, talvez num artigo de Paul Williams, que o senhor teve uma experiência com LSD mas tudo que escreveu saiu em latim ou em sânscrito...

 

DICK (erguendo um dedo em advertência) – Phil. Me chame de Phil. E sim, Paul está correto, aconteceu algo desse tipo, e o mais interessante é que eu compreendia tudo que estava ouvindo, mas tentava transcrever foneticamente, o que não faz sentido. Além do mais, eu olhava para o teclado da minha máquina, era uma Remington, e não achava as letras que estava procurando, mas não podia perder tempo, porque não só ouvia as vozes, o que os meus personagens estavam dizendo, eu tinha que transcrever os diálogos completos, e também dizer o que eles estavam fazendo, mostrar o ambiente... e eu não reconhecia as palavras, mas sabia o que significavam. Era um pouco como o fenômeno místico do “falar em línguas desconhecidas”. Você deve ter familiaridade com certos conceitos da psicologia e da linguística contemporânea, em que se determinadas áreas do cérebro forem estimuladas elas poderão produzir idéias não-verbais semelhantes às que temos às vezes nos sonhos. Sonhamos com algo e ao acordar, mesmo lembrando de tudo com clareza, percebemos que não há palavras associadas àquela impressão tão vívida, tão forte, que nosso cérebro retém.

 

BT – Achei interessante esse aspecto de que você parecia estar “vendo” a cena, e precisando descrevê-la.

 

DICK – Pelo que vi, você também é escritor, certo? Então você deve ter tido experiências similares, em algum momento. É como se estivesse acontecendo algo num palco, ou numa tela de TV, mais precisamente. É algo meio independente de nossa vontade. Não são visões no sentido religioso da palavra, eu diria antes que se trata de um processo imaginativo tão sofisticado que adquire um sistema operacional próprio, não necessita de decisões da nossa consciência para elaborar cada detalhe.

 

BT – Robert Louis Stevenson dizia que com ele acontecia um processo semelhante. Bastava-lhe fechar os olhos, às vezes, para presenciar pequenas cenas, onde aconteciam coisas que o deixavam totalmente surpreso.

 

DICK – Acho que acontece com muitos de nós. Como se tivéssemos duas mentes rodando em paralelo, uma delas imaginando situações e projetando nessa “telinha” que vemos com os olhos fechados, e a outra sendo capaz de olhar e de anotar o que está vendo. Porque para mim todos eles são reais, ou pelo menos tão reais quanto eu. Joe Chip é real. Ragle Gumm é real. Eu vejo o que acontece com eles mas não tenho poder de influir naquilo, assim como não tenho poder de influir num filme que passa na TV.

BT – Sempre fiquei admirado com a sua capacidade de escrever sem parar durante 15 ou 20 horas, de terminar um romance de três ou quatro dias.

 

DICK – Justamente por isso: porque não posso parar. Aquilo não para de acontecer, e eu tenho que ficar anotando. Se parar para fazer uma refeição e dormir, quando conseguir ligar aquilo de novo tudo já acabou, tudo já aconteceu. Se tiver sorte, está acontecendo uma história diferente, com outras pessoas, e então lá vou eu de novo. Mas a primeira história se perdeu.

 

BT – Você deixa muitas histórias inacabadas? Eu deixo centenas.

 

DICK – Ah, mas talvez você não dependa tanto da venda essas histórias, para sobreviver! Quando a gente vive disso, tem que terminar as histórias. Assim, há histórias que me arrebatam de início, seja um conto, seja um romance, e eu vou correndo atrás dela, horas seguidas, dias seguidos, mas aí acontece qualquer coisa, porque a vida da gente está sujeita a interferências, e preciso interromper. Depois, tudo acabou, não existe mais a visão inicial mas eu preciso me obrigar a terminar aquela história que não entendo mais, não sei mais o que os personagens queriam fazer... Às vezes a história se interrompe sozinha.

 

BT – Tenho essa impressão com Time Out of Joint, a história simplesmente se detém.

 

DICK – Pode ser. Tive algo parecido com Flow My Tears. Posso lhe oferecer um uísque?

 

Aceito; não é minha bebida preferida, mas não posso perder uma chance como esta. Dick continua falando enquanto serve duas doses otimistas de Laphroaig, gelo e soda, entrega-me uma. Começa a passear pela sala, de copo em punho, desafiador, altivo, baronial; passa os dedos pela barba alvinegra, com os olhos brilhando, parece a ponto de levantar voo.

 

DICK – Uma das minhas teorias a respeito das drogas, da maioria delas, é que elas não trazem inspiração, no sentido de que não fornecem idéia nenhuma. As idéias, pelo menos as idéias literárias, que são do reino da minha experiência pessoal, decorrem de um processo intelectual desencadeado por fatores emocionais. Veja o caso do álcool, por exemplo. Podemos passar o resto da tarde bebendo aqui, conversando, e iremos nos entusiasmando, porque a bebida nos provoca essa inebriação, essa euforia. Ela não dá idéias nem a mim nem a você. Acontece que – vamos fazer uma comparação com dirigir automóveis – as idéias intelectuais, para fluírem, requerem que o automóvel esteja na terceira ou quarta marcha, esteja avançando com bastante rapidez. Elas não ocorrem num carro parado. Quem põe o “carro” da nossa mente em movimento? As emoções. Um indivíduo deprimido, e olha que eu sei o que é depressão, não produz idéias, ele é incapaz de desenvolver uma história equivalente a “boy meets girl”, está além de sua capacidade. É a emoção que esquenta nossa mente e nos faz produzir idéias, quando vamos trocando de marcha e entramos na velocidade necessária. Nesse momento, nosso cérebro está excitado pelas emoções, o que acontece nele (Já sentado novamente, PKD ilustra pequenas “explosões” prendendo as pontas dos dedos com os polegares e soltando-as bruscamente) são girândolas de pensamentos. É o enthusiasmus, uma palavra latina que vem do grego, indicando que estamos possuídos por um espírito. Que espírito? Ora, o nosso.

 

BT – E o LSD? Os alucinógenos em geral?

 

DICK – Boa questão. Neste caso, é diferente. As drogas psicodélicas produzem alterações químicas permanentes no cérebro, se não permanentes, pelo menos demoradas, que custam a se dissipar; portanto, são de outra natureza. Por isso tenho certa retração em relação a elas, porque como você deve saber tenho tendências paranóides às vezes, esquizofrênicas, não quero ultrapassar certos limites. Mas as anfetaminas, as coisas que compramos na farmácia não são psicodélicas. Elas mexem com nosso estado emocional, acelerando-o, retardando-o, produzindo energia... São mais seguras, mais fáceis de controlar, embora também tenham um custo para o organismo, disso tenho consciência. Pago um preço. Mas e daí? Os livros ficam. 

 

BT – Nessa direção, eu diria que seus livros mais poderosos são Palmer Eldritch e Scanner Darkly.

 

DICK – São dois dos meus preferidos, porque sinto que neles fui bastante longe em assuntos que me tocam muito de perto, têm a ver com minha história pessoal. Alguns críticos elogiam o que esses livros têm de visionário ou de fantástico, outros até se queixam deles por esse mesmo motivo, mas para mim é como se fossem pedaços de um diário que eu tivesse mantido em certas fases da minha vida. Não tenho diário, meu diário são meus romances. Aquelas pessoas são eu.

 

(Editora Aleph, São Paulo)


BT – Você é os seus vilões, também? Você é Howard Straw, é Palmer Eldritch?...

 

DICK – Num certo sentido. Eu não sou Eldritch, no sentido de que ele não parece com a imagem que tenho de mim mesmo; ele pode ser a encarnação da minha percepção do Mal. Palmer Eldritch é uma criatura infra-humana, ao invés de sobre-humana, por maiores que sejam os seus poderes artificialmente aumentados. Ele me desperta terror, como desperta também em muitos leitores, ou pelo menos é o que ouvi dizer. Vejo-o em minha mente – e foi daí que surgiu sua imagem – como aquelas casamatas de cimento da I Guerra, duas aberturas horizontais no lugar dos olhos, onde ficam ocultos os canhões. É essa imagem destrutiva que brotou na minha mente como representação do Mal. Dei-lhe um nome, um corpo, uma história, e ele foi arrastando tudo. Mas também sou Leo Bulero, o homem comum que vive à sua sombra.

 

BT – Há uma certa unanimidade, sobre o fato de seus protagonistas não serem heróis de inteligência superior, coragem superior, qualidades superiores. São o Zé da Silva que trabalha num supermercado, num escritório, no balcão de uma loja... sujeitos comuns que de repente enfrentam poderes cósmicos ou grandes catástrofes.

 

DICK – Sim, porque eu sou um desses. Tenho minha vaidade, talvez, mas nunca me considerei um indivíduo excepcional, pelo menos em relação aos meus colegas escritores, aos meus amigos, à rapaziada da rua que vinha fumar maconha da minha casa. Eu me acho um cara comum e sei o que os caras comuns pensam.

 

BT – O que não impede que você tenha também seus personagens “maiores que a vida”.

 

DICK – Sim, porque como todo sujeito comum eu também tenho uma admiração meio infantil por heróis. Eu admiro muitos desses líderes: Sadat, Kadhafi, Che Guevara... Uma admiração meio irracional em alguns pontos, talvez, mas é a admiração que nós, os Zés da Silva, sentimos pelos homens que enfrentam os desafios do Poder.



BT – Gino Molinari, o governante mundial em Now Wait For Last Year, é um grande personagem.

 

DICK – Sim! Ele é imprevisível, ele morre, ele ressuscita, ele trai, ele manipula, ele blefa e ganha, ele vai para a cama com uma adolescente... Ele é cheio de defeitos, é mentiroso, é covarde, é aproveitador, mas é uma figura vital, ele não é Palmer Eldritch, que tem a energia da morte.

 

BT (olhando o relógio) – Phil, eles dão muito pouco tempo à gente. Eu ficaria aqui um dia inteiro, ou mais.

 

DICK (levantando-se, olhando o relógio da parede) – Eu também. Não posso me queixar. Todo dia vem uma pessoa diferente, pena que não posso encher a sala de gente, como em outras época, mas enfim... Vamos, é perigoso se atrasar.


Descemos os degraus, passamos pelo pequeno pátio e saímos de novo para a rua. Volto a olhar o relógio: faltam poucos minutos para o limite que me deram. Ele para na calçada, com o peito estufado, as mãos nos quadris. Faz um gesto com o queixo apontando a casa.

 

DICK – Não sei se percebeu... Aqui fora é Fullerton, aquele redutozinho republicano, chego a pensar que estou em Stepford. Minha sala lá dentro é minha sala em Santa Ana, mas não sei se você reparou.

 

BT – Não, não percebi, mas acho interessante.

 

DICK – Claro. Afinal, desde que nascemos vivemos num idio kosmos, numa simulação do que nossos sentidos nos informam, uma simulação permanentemente renovada. A realidade tem uma forma diluída, que é o mundo da matéria à nossa volta (faz um gesto largo, mostrando o ambiente). E uma forma concentrada, que é a mente humana, onde essa matéria é reprocessada. É como o oxigênio diluído que respiramos, e o oxigênio em combustão na chama de um fósforo. A mente é a chama do fósforo.

 

BT – Uma boa imagem.

 

O carro que me trouxe vem se aproximando. Olho para longe, e o horizonte que antes me parecera nítido agora está brumoso, desfocado, com pouca resolução; e não tem mais colinas, é como um areal amarelado, desbotado, que se expande e avança em nossa direção. Ergo os olhos: começa a anoitecer, o céu tem uma bela cor violeta com estrelas douradas, mas num determinado ponto a noroeste há um retângulo negro, vazio, como o local de onde uma placa se despregou. Aponto para lá e gracejo com Phil:

 

BT – Eles precisam construir um universo que não se faça em pedaços.

 

DICK (Olha para cima, mas parece não entender) Sim, parece que é mesmo.

 

O carro para junto ao meio-fio; o motorista faz um gesto, dizendo que eu me apresse. O mundo em volta começa a escurecer. O horizonte está se quadriculando em pixels cada vez maiores.

 

BT (estendendo a mão) – Phil, foi um prazer poder vir até aqui, conversar com você. Se cuida. Toma um spray de Ubik.

 

DICK – Ubik? (aperta minha mão) O que é isso?

 

Seu olhar está se esvaziando, está com aquela expressão lancinante de um pai com Alzheimer. Ergue a mão, numa despedida vaga, hesitante, volta para dentro de casa arrastando os chinelos. Entro no carro. O motorista acelera e comenta: “É sempre assim, ele sempre estoura os cinquenta minutos, adora conversar”.

 


(Nota necessária: esta série de "Entrevistas Transcendentais" é composta por textos imaginários. Eu não entrevistei essas pessoas.) 

Augusto dos Anjos:

Julio Cortázar:

Agatha Christie: