quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

4436) Jorge Luís Borges nos EUA (20.02.2019)



(Anthony Boucher)

Se o proverbial arcanjo realizador de desejos me oferecesse a possibilidade de passar uma tarde inteira tomando um vinho e batendo um papo com um autor (falecido) de ficção científica e romances policiais, o nome de Anthony Boucher (rima com “voucher”) certamente estaria na minha lista.

Falei meses atrás sobre a primeira tradução de Jorge Luis Borges no EUA, que foi feita por ele:


Boucher (1911-1968) foi um dos nomes mais importantes na literatura policial e de FC nos EUA, embora tivesse uma atuação mais de bastidores do que sob os holofotes. Como editor, crítico, antologista, tradutor e autor.

Quando traduziu para o inglês “El Jardín de Senderos que se Bifurcan” (“The Garden of Forking Paths”), em 1948, Boucher mantinha há anos uma campanha em favor de uma ficção popular de entretenimento – o policial, a FC – escrita com a mesma consciência literária e a mesma riqueza da alta literatura. Que ele tanto apreciava.

Boucher foi uma criança doente (sofria de asma) que ficava muito tempo na cama e lia muito (como Stevenson, como Bram Stoker). Sofreu dos pulmões a vida inteira; seu filho Lawrence White diz: “Ele nunca teve na vida um só dia que se pudesse chamar um dia normal de saúde.” Escreveu, traduziu, editou, era fã de ópera (tinha um programa de rádio a respeito), colecionador de discos, fã de futebol e basquete, cozinheiro, conhecedor de vinhos.

Como crítico, era exigente, mas tinha sempre uma palavra de incentivo. Philip K. Dick jamais esqueceu suas palavras de apoio no início da carreira.

Era um crítico exigente, de opiniões claras, bem humorado e bem informado. Cultivava um discreto não-conformismo. Era católico, e talvez tenha sido o primeiro no romance policial a criar uma freira detetive, a Irmã Ursula, que aparece, entre outras histórias, em O Enigma da Túnica Amarela (“Nine Times Nine”, 1940).

Pelos registros que existem, foi Boucher quem apresentou o nome e os contos de Jorge Luís Borges a seu amigo Frederick Dannay, o editor-em-chefe do Ellery Queen’s Mistery Magazine, que publicou Borges em 1948.


(Frederick Dannay)

O estilo editorial do EQMM previa que novos autores, fossem estreantes, fossem traduzidos, tivessem seus contos precedidos por apresentações redigidas por Dannay. Dannay era a metade cerebral do pseudônimo “Ellery Queen”: ele concebia crimes intrincados, em escaletas rigorosas e cheias de minúcia, e a outra metade, seu primo Manfred B. Lee, escrevia o romance, com diálogos, ação, descrições, etc.

Ao apresentar na revista o conto de Borges, “The Garden of Forking Paths”, Dannay escreveu em 1948:

É nossa crença, há muito tempo, que Anthony Boucher reúne as três maiores qualificações que pode ter um tradutor: ele próprio pratica a escrita criativa; ele é sem dúvida um crítico cheio de criatividade; e por último mas não por menos, ele é possuído daquele entusiasmo furioso que só pode descrito como “apaixonado”. Em resultado disto, o sr. Boucher traduz histórias estrangeiras de ficção detetivesca com inegável autoridade. O estilo original do autor, sempre tão difícil de capturar em palavras estrangeiras, surge plenamente; entendemos a essência do enredo e as luzes e sombras da atmosfera e da caracterização...

Foi o sr. Boucher quem teve a idéia de traduzir “The Garden of Forking Paths” e de persuadir o autor a inscrever a história no Terceiro Concurso Anual do EQMM. Somos gratos ao sr. Boucher em sua dupla função de parteiro de mistérios; sem isso, nenhum de nós iria ter o prazer de ler o que o sr. Boucher considera ‘um pequeno clássico’.

À sua maneira bem peculiar, “The Garden of Forking Paths” é exatamente isso: uma obra-prima em miniatura. A história toda se baseia numa tremenda, numa colossal coincidência. Sem dúvida, como o leitor irá descobrir, a coincidência é de tal escala que não é simplesmente um meio para `resolver a história: ela é a história. E a rica sessão de exibicionismo que reveste a idéia básica vem somar de modo incalculável à ousadia da concepção do autor.

O Señor Borges é uma importante figura literária na Argentina – poeta, crítico, ensaísta e antologista. Em toda sua obra, especialmente em sua ficção, o autor emprega o tema do labirinto –é uma monomania persistente, que retorna com pequenas variações, como (o sr. Boucher nos recorda) as muletas nas pinturas de Salvador Dali. Em “The Garden of the Forking Paths”, o tema labiríntico do Señor Borges atinge sua plena expressão.

A obra do Señor Borges revela outra mania persistente: ele revela um apreço desproporcional pela erudição fictícia. Ele é capaz, por exemplo, de inventar um autor completamente apócrifo, ou um movimento literário inteiro, e escrever uma longa e saborosa dissertação sobre a importância esotérica dessa figura ou desse movimento; mas a fantasia e a sátira que ele entretece às suas opiniões críticas não são sempre destituídas de relevância. Num dos seus ensaios mais brilhantes, intitulado “Exame da Obra de Herbert Quain”, lê-se o notável parágrafo abaixo:

‘Já contei que seu primeiro romance é uma história de detetive, O Deus do Labirinto. Devo acrescentar que a editora pôs o livro à venda nos derradeiros dias de novembro de 1933. Na primeira semana de dezembro, as árduas e agradáveis circunvoluções de O Mistério dos Irmãos Siameses de Ellery Queen passaram a preocupar Londres e Nova Iorque; prefiro atribuir a essa desastrosa coincidência o fracasso total do livro de nosso amigo. E também (quero ser completamente sincero) às suas insuficiências técnicas e a pompa frígida e oca de certas descrições marítimas. Depois de passados sete anos, é impossível para mim recordar os detalhes do enredo; mas eis aqui o seu esboço, na medida em que minha memória o empobrece (e talvez o purifique). Há um assassinato indecifrável nas primeiras páginas, uma vagarosa discussão do crime no trecho mediano, e uma solução nas folhas derradeiras. Depois que o enigma é solucionado, há um longo parágrafo retrospectivo que contém a frase: “Todos imaginaram que o encontro dos jogadores de xadrez fora por acaso.” Esta frase nos permite compreender que a solução estava errada. O leitor inquieto retrocede aos capítulos iniciais e então descobre outra solução, que é a verdadeira. O leitor desse livro singular prova, em última análise, ser mais perspicaz do que o detetive.”

Vocês agora sabem o que devem esperar!

Em termos do judicioso e erudito Dannay, não se poderia desejar melhor recomendação.

Alguns comentários ao comentário dele:

1) Fica implícito que houve pelo menos uma troca direta de cartas entre Boucher e Borges, para que este fosse convencido a se inscrever no concurso internacional promovido pela revista. Também foram incluídos nesse número especial contos de George Simenon (Bélgica), Victor Palla (Portugal), Anton Chekhov (Rússia), Karel Capek (Tchecoslováquia), Gabriele D’Annunzio (Itália) e outros, no número 57, volume 12, do MMEQ, de agosto de 1948.

2) Comparar as idéias fixas de Borges com as de Dali (as muletas) não é a primeira coisa que nos ocorre, mas não deixa de ter fundamento.

3) No conto original de Borges lê-se de fato essa referência a O Mistério dos Irmãos Siameses, de 1933, mas Borges não diz que o autor é Ellery Queen; provavelmente para não evidenciar demais a homenagem embutida no nome Herbert Quain.







domingo, 17 de fevereiro de 2019

4435) O pior de tudo (17.2.2019)




(ilustração: Robert Place)

O pior de tudo nem é esse ácido queimando na boca do estômago desde a hora do café até o escovar-dos-dentes antes de apagar de vez a luz; como também não é a pressão nas veias do cérebro, ou artérias, sei lá o que são, sei que parecem inchadas como se cada má notícia lida em silêncio diante do monitor fosse o pumpear acelerado de uma bomba de encher pneu de bicicleta, inflando esses condutos sanguíneos, que segundo se diz têm a espessura menor que um fio de cabelo, são tão finos que os glóbulos vermelhos passam por dentro deles em fila indiana, mas depois de meia hora de redes sociais cada veia dessas está da grossura de um macarrão de bom calibre, o que faz a cabeça latejar a cada mexida, a cada vez que a gente lê algo inominável e o primeiro impulso, o primeiro e infantil impulso é ficar fazendo assim com a cabeça, não, não, não pode ser, e a cabeça responde com fagulhas, com agulhas, com faíscas dolorosas de nervo-exposto.

Também não é (=o pior de tudo) o fato de saber que tudo ocorre fora dessa mesma cabeça; não há muita lógica no fato de ela ostentar tanta pressão, afinal é lá fora a catástrofe, afinal é lá fora o desmoronar de um mundo, afinal tanto faz para o mundo que essa cabeça esteja saboreando à noite seus pesadelos habituais em cima do travesseiro empapado de suor quanto que esteja aqui sendo balançada com incredulidade e (bora reconhecer) um certo teatralismo se quem se boquiabre diante de cada despautério do real, histrionicamente, como se houvesse por perto (nunca há) alguém que percebesse um movimento sutil e erguesse o sobrolho e perguntasse o que é que há, você está bem, está com uma cara engraçada.

Não, as coisas são o que são, são porque são mesmo e não adianta balançar cabeça, bater cabeça, perder a cabeça, e caso seja mesmo necessário continuar lendo tantos fatos espantosos às oito da matina, horário infame, horário da cafeína dos insones, então que seja, mais vale a pena ir lá dentro e derramar a meia caneca que já esfriou esquecida, enchê-la da droga negra fumegante, trazê-la para o primeiro gole, que não resolve nada, e deixá-la ali ao alcance da mão que nem se move, deixá-la entregue à entropia de si mesma, esfriando como se a temperatura ambiente estivesse uns dez graus abaixo do que efetivamente está.

Um placebo provisório é tentar frasezinha de efeito no arquivo-word ainda em branco, um comentariozinho metido a esperto a respeito desse falso paradoxo, dizer algo como: “O verão está tão brabo que a gente pode deixar uma xícara em cima da mesa durante meia hora e o café permanece tomável.”

O pior de tudo não é a guerrilha das dores que se deslocam corpo afora com a rapidez de um grupo de espartaquistas bem treinados, atacando agora nas costelas, depois no ouvido, mais tarde na sola do pé, e por aí vai; afinal a ciência já provou que há pessoas somatizadoras e a presente vítima certamente é uma delas; deve existir inclusive uma relação topológica entre checar a data de um boleto e sentir a pontada no ouvido, pensar em dinheiro e sentir a acelerada no coração, ver a manchete do sinistro e já adivinhar a alfinetada fina bem na vértebra cervical. Há uma correspondência do-in entre cada dor do mundo e cada ponto sensível do corpo, descobre ele, esfregando as mãos excitado diante deste futuro Nobel. Estimulando-se a violência policial nas comunidades encarapitadas no morro produz-se a notícia capaz de fazer o calo-de-sangue crescer sob a pele; toda vez é assim, parece uma parceria, uma combinação sob contrato. Cada vez que um direito fundamental é atropelado pela fúria quadrupedal dos congressistas as veiazinhas das meninges fritam que é uma beleza. E assim por diante.

O remédio seria então o solipsismo, o retorno larvar ao umbigo primevo, o refúgio na caverna de cajado em punho? Parece que não, porque afinal o vírus informacional já foi transferido para os neurônios, e mesmo em caso de exílio voluntário não seria mais a notícia – e sim a lembrança – a deflagrar a dor correspondente. Não. O processo já teve início. O contágio já aconteceu. Agora é só uma questão de tempo até a pressão da realidade fazer explodir um desses fusíveis, um desses pontos nevrálgicos, e colapsar o conjunto num monte informe de carnes e ossos agora definitivamente imóveis e em irreparável resfriamento.

O pior de tudo nem é essa reiterada fantasia de auto-imolação, é o fato de que a única redenção talvez seja a consciência impotente de que isso de fato acontece, e não poder fazer nada, e não poder chorar pitanga, e não poder redigir um obituário poético pelo leite derramado, não poder ver o mundo pegar fogo e murmurar a mais pragmática e reconfortante das orações fúnebres, a que diz “antes ele do que eu”. Nem é isso o pior: o pior é o retalhamento das expectativas, o vazamento deflacionário das esperanças, a coagulação opaca dos fluxos vitais, a sensação de que a encruzilhada crucial está ficando cada-vez-mais lá para trás, enquanto o caminho-errado se alarga à nossa frente e se acelera sob nossos pés a cada dia que corre, e não adianta ir à janela, fumar um cigarro, jorrar chuveiro frio, vestir roupa limpa, ir à geladeira, raspar a barba desse rosto que parece um terreno baldio, arreganhar os dentes como se alguém estivesse filmando aquilo com uma câmara, vai ver que estão, vai ver que enquanto eu dormia já estamos no século das coisas pensantes, da casa inteligente, o espelho é uma placa transmissora, o interruptor é um microfone embutido, e num plano superdimensional existem criaturas com três cérebros e onze pseudópodos se divertindo com a minha neurose, ou talvez as criaturas nem sejam essas, sejam meros sujeitos iguais a mim, aqueles do colégio, os que me cobriam de tapa no recreio e me cravavam um lápis ameaçador nas costelas durante a prova exigindo as respostas, e respostas é o que não tenho para lhes fornecer, muito menos agora, ensaboado imóvel diante do espelho e pensando em cortar os pulsos com o prestobarba, bela maneira de começar o dia, um dia igual a todos os outros, nem melhor nem pior, um dia que começa como todos e que (tomara, tomara) terminará como todos, no travesseiro suado, no escuro final, no instante de fechar os olhos exaustos de ver e pedir que não seja aquela a última vez, já que a vida é um pesadelo do qual ninguém quer despertar.










quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

4434) O Romance da Besta Fubana (14.2.2019)




Fiquei sabendo recentemente que está para sair uma reedição deste livro mitológico (em todos os sentidos) da lavra de Luiz Berto, prosador de mão cheia que de certa forma justifica a reflexão ouvida de um amigo meu, carioca, bastante idoso, anos atrás: “Eu acho que o Nordeste só presta porque todo nordestino é doido”.

Não, não somos doidos, mas vivemos num mundo que nos demanda outras prioridades perceptivas. Vemos coisas que os outros não veem – não por algum defeito do aparelho vedor, mas porque o mundo aqui se organiza por outros critérios de urgência e de aderência afetiva.

O Romance da Besta Fubana (Belo Horizonte: Itatiaia, 1984) é um romance na linha que alguns já quiseram chamar de “realismo mágico” por equiparação à obra de alguns autores latino-americanos, mas que tem outra substância.

O livro conta os eventos que tiveram lugar na cidade de Palmares em 1953, com a convergência de uma série de fatos espantosos: uma romaria messiânica em torno da mulher do mendigo Zé da Ferida, sujeita a fenômenos de levitação e falas estranhas; uma revolta de raparigas que depois de provocadas baixaram o cacete na polícia local; o apedrejamento do Forum e da Prefeitura por uma multidão que não sabia ao certo por que estava fazendo aquilo; a insurreição de esquerda chefiada verbalmente pelo sapateiro Joaquim, comunista calejado de pisas na delegacia.

Esses tumultos todos acabam sendo encampados pelo inevitável “homem certo no lugar certo”: o paraibano Natanael, violeiro repentista, camelô, intrujão, conversador-mor, estrategista de ambições alheias e manipulador de expectativas.

Ele se torna o Líder da Revolução, com o auxílio do cego Chico Folote, que mantém um harém de ex-donzelas a seu serviço; do horoscopista Telles Júnior, raizeiro, filósofo particular, pesquisador da História Secreta da Humanidade; da ex-rapariga Amara Brotinho, que ao ser anexada por Natanel se revela uma liderança nata, santa dos descamisados; e do citado sapateiro Joaquim, cujo faro bolchevista radical o leva a pegar carona na primeira insurreição popular que apareça, e calhou de ser aquela.

O clímax acontece na Parte IV do romance, quando a Besta Fubana desce dos céus e pousa no teto do Mercado, a única estrutura física capaz de suportá-la.

A Besta Fubana largou um bocejo longo e exauriu um hálito quente, soltando labaredas com extensões só possíveis de serem medidas em anos-luz. Línguas astronômicas de fogo e de gases quentes que percorriam o universo numa velocidade descomunal. Um dos respingos de labareda, após longa viagem pelo infinito, alcançou o Nordeste Brasileiro e provocou a grande seca de 1932. Uma das secas mais terríveis de que já se teve notícia naquela terra sofrida. Recém-acordada do sono secular, a Besta Fubana revirou os olhos numa preguiça de mulher acabada de ser comida. E, nesse revirar de olhos, perscrutou o escuro recanto do universo que tinha escolhido para dormir. (p. 232-233)

A prosa de Luiz Berto é de uma segurança absoluta ao narrar os fatos mais escandalosos ou inverossímeis; seus personagens, como o Quaderna do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna, mantêm o tempo inteiro um olho no destino supremo da Humanidade e outro nos varejo das próprias vantagens. Quando a Revolução triunfa e Natanel distribui ministérios aos ajudantes citados acima, começa uma segunda luta pelo Poder, desta vez uma luta interna e mortal.

Chico Folote era o encarregado do Ministério das Coisas, dos Santos e das Coisas Santas, responsável, entre outras atribuições, pela organização das festas populares e pela arrecadação dos impostos da feira. Os demais impostos eram administrados pelo Ministério do Povo e das Águas, entregue a Joaquim. O Ministério das Mulheres e dos Bichos, chefiado por Amara Brotinho, se encarregava dos assuntos femininos, da administração da zona boêmia e da pecuária da República. O Ministério dos Fenômenos e dos Estudos, responsável pela cultura, pela educação e pela saúde do povo, ficou nas mãos de Telles Júnior. (p. 148)

Ou seja:

O Ministério estava entregue a um sapateiro, um cego esmoler, uma prostituta e um astrólogo, capitaneados pela competência e pela sabedoria de um cantador de viola. (p. 226)

O livro se conecta por um lado com a obra de Ariano Suassuna e de seu mestre, também palmarense, Hermilo Borba Filho.  Por outro lado, lança uma corrente alternada na direção de livros como As Pelejas de Ojuara (1986) de Nei Leandro de Castro, que compartilha seu frenesi escatológico e fescenino, além da hospitalidade com que recebe criaturas mitológicas.

Esse clima alucinatório-coletivo está presente também no visionário A Cachoeira das Eras (1979) de Carlos Emílio Corrêa Lima e, com maior aderência ao lado histórico e factual, nos romances do ciclo de Princesa, de Aldo Lopes (O Dia dos Cachorros, 2005, e A Dançarina e o Coronel, 2014), com a reconstituição de revoltas populares que começam no confronto político e terminam nas lendas passadas de boca em boca.

Há referências à clef a pessoas reais; não apenas o presidente Getúlio Vargas e o governador pernambucano Etelvino Lins, mas os poetas Juharez Correia (sob seu próprio nome) e Orlando Tejo, este sob a transparente alcunha de Ornaldo Timbu.

O livro de Berto é mais um elo numa corrente de romances nordestinos meio fantásticos, mas costurados com minúcia realista e extrema fidelidade na recriação de tipos populares, ambientes, costumes. É um regionalismo endoidecido, por assim dizer; uma recomposição da realidade num nível meio delirante de entendimento. Para poder comportar a distância abissal entre seus próprios pontos extremos.

Ariano Suassuna, através de Quaderna, dizia não praticar o estilo regionalista, mas o estilo régio. Com isso, aludia à mania de grandeza do personagem. Todo mendigo tem algo de monarca, quando mais não seja porque no seu mundo mental, onde ninguém mais tem interesse de conviver, ele é déspota absolutista, mesmo que não tenha uma bolacha seca pra jantar.

A Grande Líder partiu majestosa, ganhando os insondáveis abismos do infinito. Voltava para a eternidade. Seu vasto terreiro de onde era natural. Novamente, sua trajetória deixou no céu um rastro de fogo, que foi visto de Oriente a Ocidente. Coriscos e extensas labaredas clareavam o escuro da noite. As tropas do governo olharam assustadas a grande massa esfumaçada e luminosa que levantava voo de dentro da cidade sitiada. Imensa nave partindo para uma viagem interplanetária. Uma visão encantada e fantástica, que haveria de ficar na memória das pessoas por todo o sempre. (p. 287)






segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

4433) "A Balada de Buster Scruggs" (11.2.2019)



Este filme dos irmãos Coen está em streaming no Netflix, não sei se chegou a passar nos cinemas, aqui no Rio pelo menos. Os sedentários agradecem. O Netflix, o YouTube e a UbuWeb têm seus pecadilhos, mas nada que rezar uns dois rosários não absolva. Têm crédito.

Os irmãos Coen são desses cineastas pouco convencionais que não apenas pegam idéias de todas as direções, como não fazem muita questão de fazer filmes parecidos uns com os outros. Este aqui, a meu ver, parece com E aí, meu irmão, cadê você? (“O Brother, where art thou?”, 2000), acima de tudo pela ambientação tipo Velho Oeste. E pelo agarre-o-que-puder de historietas, cáusos, anedotas.

Dias atrás eu estava comentando no meio de uns amigos o quanto o cinema de algumas décadas atrás nos dava filmes-em-episódios. As comédias italianas em episódios eram imbatíveis, fossem todos eles do mesmo diretor ou de vários.

O filme em episódios está para o longa-metragem comum assim como o livro de contos está para o romance.

Com aquela prudência de “acender velas a Deus e ao Diabo” dos comentaristas de futebol, os críticos exigem do filme em episódios que ele tenha coerência, sem por isso deixar de exibir variedade. Em Buster Scruggs, é a ambientação histórico-geográfica que dá a unidade do filme, por mais que as histórias que conta sejam diferentes em enredo, em tom, em paisagem social. É como um tecido inteiriço com várias estampas diferentes: percebe-se a mudança do desenho mas vê-se que os fios de algodão são os mesmos, independente da cor.


O primeiro episódio, “The Ballad of Buster Scruggs”, é o mais divertido, com Tim Blake Nelson fazendo um herói picaresco do faroeste, que cavalga de violão em punho na solidão dos desfiladeiros, cantando a plenos pulmões, para avisar o público que não é realismo que se deve esperar desse conto de façanhas munchausenianas.

O conto é tipo literatura de cordel, cheia de jactância verbal – um dos fios que costuram o filme inteiro. A toda hora brota um personagem com um “bife” de página e meia para recitar, com vocabulário preciosista e (os atores são muito bons) timing competente.


O segundo episódio, “Near Algodones” ainda tem algo do clima de “tall tale” do anterior, com a engenhosidade meio absurdista do caixa de Banco cheio de recursos contra assaltos, o suspense busterkeatoniano de quando o quase-enforcado vê o cavalo querendo ir embora de baixo dele, e assim por diante. É mais uma história que diverte pela imprevisibilidade.


O terceiro é “Meal Ticket”: aqui entramos no mundo meio bradburyano dos “travelling shows” em que um homem-tronco de incrível eloquência declama Shelley, Shakespeare, Lincoln e tudo o mais diante de embasbacadas platéias redneck oitocentistas.

Neste “conto”, o humor-risada se retrai um pouco. O que se produz é aquela risada-arquejo que explode e logo se contém, quando vemos algo bizarro demais para ser verdade.


O quarto conto, “All Gold Canyon”, baseado em Jack London, é um dos menos movimentados, mas tem praticamente um solo de Tom Waits como um velho garimpeiro escavando o chão escuro, úmido, de um vale espantosamente belo.

O velho é lacônico, e ademais está falando sozinho, mas aqui a gente percebe outro fio amarrando o filme: em praticamente todos os episódios um personagem canta uma canção inteira, diegeticamente (ou seja, é o personagem que canta, não a trilha sonora que aparece). Não há muita ação, a não ser na parte final; mas o personagem e o cenário sustentam tudo nas costas.


O quinto episódio, “The Girl Who Got Rattled” (baseado em Stewart Edward White) é uma história de amor que surge ao longo da peregrinação de uma caravana de carroções seguindo a famosa Trilha do Oregon, rumo à margem extrema ocidental do continente.

Um homem e uma mulher se conhecem, se ajudam, se entendem ao longo das pequenas tragédias da migração. Um casal de atores (Zoe Kazan e Bill Heck) com cenas de uma rara intensidade e contenção. Uma história que poderia ser menos cruel, mas ainda assim é a mais emocionalmente verdadeira de todo o filme. O roteiro severo ajuda a deixar a parte afetiva mais comprimida e poderosa.


O sexto e último, “The Mortal Remains”, é uma diligência com o habitual elenco de passageiros mutuamente desconhecidos que vão se revelando ao longo do trajeto. Tem um clima maupassantiano (“Bola de Sebo”), e aqui voltamos às longas perorações, cheias de retórica, que dão aos atores a chance de monólogos pitorescos. E mais duas canções dentro da diligência.

Este último episódio cria um efeito de estranhamento nas últimas cenas, como se ao longo da viagem a diligência tivesse penetrado inadvertidamente em outro filme. Ou os personagens, como num romance de Philip K. Dick, estivessem gradualmente sendo conduzidos para o Além Túmulo, sem perceber.

Os irmãos Coen conseguem harmonizar estas histórias porque é bem do temperamento deles essa facilidade em beber de todas as fontes, e de contar uma história meio surrealista com torção suficiente para que aquilo não só pareça ter mesmo acontecido, como pareça ter acontecido apenas uma vez.

A gente tem a sensação de que aquelas pessoas não se conhecem, nunca cruzaram umas pelas outras, mas tudo aquilo aconteceu meio que simultaneamente, num universo único, coerente. Mesmo os “tall tales”, com sua dose de mentira, pertencem àquele mundo, são as histórias que aquelas pessoas contam umas para as outras, em volta daquelas fogueiras entre os carroções, ou daquelas mesas de jantar de uma casa de hóspedes.

Eu sou suspeito, porque gosto de praticamente tudo que já vi dirigido pelos dois irmãos. É um jeito de fazer cinema que me agrada: ao mesmo tempo são perfecionistas e são descontraidamente leves. São eruditos e são completamente cultura-oral. Seus filmes geralmente sabem o momento certo da cena séria e da cena engraçada, da situação implausível e da situação dolorosamente verdadeira.






sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

4432) A arte do improviso (8.2.2019)




(ilustração: J. Borges)

Existem artes transversais, que se reencarnam em diferentes mídias, como se diz hoje em dia. A Narrativa, por exemplo: é uma arte transversal que é praticada, sempre com mutações, na literatura, no cinema, nos quadrinhos, no teatro, na poesia...

Outra arte transversal é o Improviso.  Talvez isso não constitua uma “forma de arte em si”, seja isto o que for. Para alguns, é um mero recurso, um mero elemento.

Improvisar solos de saxofone num clube de jazz não é precisamente a mesma coisa que glosar um mote numa Mesa de Glosas no sertão; mas se é improviso legítimo, e todos já constatamos que isso existe de fato, então há algo em comum entre os dois.

O Improviso, em casos assim, seria a capacidade de produzir uma resposta criativa e original dentro de um quadro de limitações específicas. Na música as limitações são o tom, o andamento, a proposta harmônica da canção, porque o músico vai ter que improvisar seu solo de acordo com essas regras. É a limitação prazerosa, que faz um artista de verdade arregaçar as mangas cheio de confiança de que vai conseguir.

Numa Mesa de Glosas, anuncia-se um mote e alguém vai ter no máximo (dependendo de sua ordem na fila) alguns minutos para inventar uma resposta, obedecendo rigorosamente à métrica e ao esquema de rimas. Pergunte se algum glosador reclama dessas exigências; pelo contrário. Só tem graça assim.

Ser capaz de improvisar dentro de regimes tão severos é prova de habilidade, de inteligência, de talento bruto até, mas também de uma experiência que dá ao improvisador a chance de nunca começar com as mãos vazias, já ter umas armações em mente quando se aproxima sua vez de improvisar.

O improviso, com todas as suas variantes, está presente no teatro, na dança, nos folguedos. Está presente no cinema, mais do que se imagina. Quando se filma sem grana e com poucas chances de repetir, o improviso é crucial. Ele está sempre colado a qualquer corpo de filmes independentes, vanguardistas, experimentais, etc. Quanto mais profissional o cinema, quanto mais produção, mais estúdio... menos improviso.

Teoricamente. Mesmo no cinema de Hollywood qualquer livro de memórias traz dezenas de exemplos de ações, diálogos, cenas inteiras criadas de improviso diante da câmera. Alguém improvisa algo, todo mundo concorda que ficou bem melhor assim. O que você faz quando cria algo “do nada”, e fica bem feito? Você salva, e incorpora.

O improviso em atividades com esse perfil não é fazer em alguns segundos o que alguns levam horas, é preparar em dois dias o que precisaria de dois meses.  Às vezes dá certo.

Eduardo Coutinho pegou uma equipe e arrastou-a consigo para o Sertão do Rio do Peixe, na Paraíba. Sem roteiro. Chegando lá, a primeira pessoa que entrevistou o ajudou a compor um roteiro de entrevistas em sítios e vilarejos ao redor. E o filme, O Fim e o Princípio, foi feito.

Em casos assim, é improviso porque algumas de suas manobras, (ensaios, filmagem) requerem dias para acontecer, então é um improviso dilatado no tempo, que pode muitas vezes ser revisto, ser redirecionado.

Desse modo, pode-se ter um conceito mais elástico do que é “improviso”, desde uma escala de segundos (na cantoria de viola, onde os versos são improvisados alternadamente e duram de 30 a 40 segundos) até uma escala de semanas (a improvisação da filmagem de um longa-metragem, em locação).










terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

4431) O free cinema inglês (5.2.2019)



Alguns movimentos cinematográficos parecem ter sobrevida garantida através de estudos acadêmicos, retrospectivas em cinematecas, mostras em museus, livros-álbuns “fartamente ilustrados” para a gente botar na mesa de centro numa posição onde as visitas vejam.

Outros não. É o caso do free cinema inglês, que teve, pelo menos na minha formação como espectador, uma importância tão grande (e continua a ter) quanto primos ricos como a Nouvelle Vague Francesa, a Vanguarda Russa, o Expressionismo Alemão.

Os filmes eram geralmente em preto e branco, uma tonalidade de preto e branco que não existe mais, com um granulado típico que evoca fumaça, neblina, fog londrino. E aquelas terríveis vilazinhas operárias inglesas, com casas todas iguais embaixo de chuva. (Spider, de David Cronenberg, capta o horror daquilo.) Aqueles jantares silenciosos de gente carrancuda. Aqueles rapazes de rosto fechado, olhos perdidos, mãos nos bolsos, chutando lata, chutando mendigos.

Um ambiente depressivo com uma geração (a geração que foi atrás dos Beatles e dos Stones) que olhava prum lado e via a derrubada das ruínas da II Guerra, olhava pro outro e via o desabrochar de um consumismo “American Way” que eles não tinham grana para acompanhar.

E aquelas meninas pré-pílula, que já transavam pensando em aborto. E o mito da virgindade, obrigatória para umas, motivo de bullying para outros. E aqueles pubs ingleses onde, como diz Maria da Conceição Tavares, os caras ou estão bebendo em silêncio ou trocando socos.

O free cinema mostrava isso tudo. Era um movimento mais ou menos unido; ao que parece, com o passar do tempo foi se fragmentando na carreira-solo de alguns dos seus principais diretores.


Por exemplo, todo mundo conhece John Schlesinger como o diretor de Perdidos na Noite (“Midnight Cowboy”), mas ninguém ouviu falar de Billy Liar, um dos meus dez filmes preferidos, sobre um rapaz do interior que morre de vontade (e de medo) de ir tentar a carreira artística em Londres.


Karel Reizs dirigiu pelo dois bons filmes de sucesso na maturidade, Isadora (1968) e A Mulher do Tenente Francês (1981). Mas para mim ele é o diretor de A Noite Tudo Encobre (“Night Must Fall”, 1964), um estudo sombrio de um serial killer de aparência angelical (Albert Finney). Dias atrás, assisti uma boa parte de seu documentário We Are The Lambeth Boys (1959), mostrando a vida de quem era jovem naquele tempo, e deixando bem claro o poder que teve o rock de arrebanhar e projetar tanta energia desperdiçada em tédio e em violência cega.


Tony Richardson se destacou dos outros porque fez um raro filme colorido de sucesso internacional, A Aventuras de Tom Jones (1963), que ganhou Oscars e mais uma penca de prêmios mundo afora. Mas para mim ele está todinho em dois filmes intimistas, P&B, com ar de semi-documentário às vezes: Gosto de Mel (“A Taste of Honey”, 1961) e The Loneliness Of The Long Distance Runner (1962).  


Não há como não falar no que foi talvez o mais famoso deles, Richard Lester, que dirigiu os filmes dos Beatles, dos quais A Hard Day’s Night (1964) tem todo o espírito free cinema de câmera solta na rua, atores não profissionais, montagem picotada.

Seu filme mais típico, contudo, é A Bossa da Conquista... e Como Consegui-la (“The Knack, And How To Get It”, 1965), uma verdadeira coleção de estrepolias de câmera e edição, que ganhou uma Palma de Ouro em Cannes. Tenho aqui, revejo de vez em quando: algumas partes excessivamente teatrais (é baseado numa peça) estão meio datadas, mas o filme foi uma explosão de liberdade num cinema industrial careta, terno-gravata-e-cachimbo como era o inglês daquele tempo.

Lindsay Anderson foi outro que levou uma Palma de Ouro, desta vez com o anárquico e rebelde If..., crônica de uma revolta estudantil num internato, que revelou o ator Malcom MacDowell.

Tudo isto me veio agora à memória lendo no blog da London Review of Books uma lembrança sobre uma diretora desse grupo. Lorenza Mazzetti (diz o artigo) era o primeiro nome da lista do famoso Manifesto do Free Cinema.

O manifesto diz:

Estes filmes não foram feitos em conjunto, nem com a intenção de serem exibidos em conjunto. Mas quando foram agrupados, sentimos que eles tinham uma atitude em comum. Implícita nessa atitude estão a crença na liberdade, na importância das pessoas e no sentido profundo de tudo que é cotidiano.

Nós, como realizadores de cinema, acreditamos que nenhum filme consegue ser excessivamente pessoal.

A imagem fala. O som amplifica e comenta.

Tamanho é algo irrelevante. A perfeição não é um objetivo.

Uma atitude significa um estilo. Um estilo significa uma atitude.

Lorenza Mazzetti
Lindsay Anderson
Karel Reizs
Tony Richardson

O texto da LRB faz um resumo da carreira dessa cineasta, citando seus filmes principais: K (1954) e Together (1956). Este último pode ser visto em streaming aqui:


O free cinema já foi até chamado de “British New Wave”. Foi um movimento que de certa forma dialogava com a nouvelle vague francesa, ressalvadas as profundas diferenças culturais.

Brotou entre meados dos anos 1950 e ao longo dos anos 1960, em paralelo com o movimento dos Angry Young Men do teatro e da literatura (Kenneth Tynan, Doris Lessing, Colin Wilson, Allan Sillitoe, etc.), com a ficção científica da revista New Worlds (Michael Moorcock, J. G. Ballard, Christopher Priest, Brian Aldiss, etc.).

Tudo isto estava acontecendo ao mesmo tempo, simultâneo com o surgimento dos Beatles e dos Rolling Stones. A melhor maneira de entender um desses fenômenos é vendo-o em paralelo com os demais.

Agora, o free cinema periga não ser citado nem no Google. Mas quando folheio uma revista e vejo uma foto preto-e-branco de Rita Tushingham ou de Julie Christie, ainda sinto aquele nózinho na garganta e um gosto de mel. 








sábado, 2 de fevereiro de 2019

4430) João Furiba, XXXX-2019 (2.2.2019)




“Perde-se na noite dos tempos” a data precisa de nascimento do violeiro repentista João Furiba, falecido dias atrás na cidade de Triunfo (PE). Algumas versões atestam que ele tinha completado recentemente 100 anos de idade, outras dizem que não passou dos 89.

Me senti como quando fui escrever neste blog sobre a morte de Chuck Berry e, pesquisando na web, achei quatro datas de nascimento, bem afastadas umas das outras.

Furiba, cujo nome civil era João Batista Bernardo, foi um dos mais simpáticos e imprevisíveis cantadores de sua geração. Seus traços principais eram o humor, a imaginação e a mentira criativa, entendida aqui como o ato onde o sujeito inventa uma história claramente impossível, para deleite da platéia, e não para enganar alguém.

“Mentir, não para prejudicar outra pessoa, mas por amor à arte”, como aconselhava Ariano Suassuna.

Baixinho, magrelo, cheio de dentes de ouro, era um conquistador inveterado. Viajava o Brasil inteiro e diz-se dele que jogava no time de Garrincha – nunca se hospedava num hotel sem acabar fisgando alguma camareira compreensiva.

Conheci Furiba nos Congressos de Violeiros de Campina Grande, a partir de 1975; viajei com ele durante um mês inteiro na famosa Viagem dos Poetas ao Brasil, organizada por Giuseppe Baccaro em 1979, atravessando 13 Estados. 

Vi-o em dezenas de cantorias, em palco de teatro ou em pé-de-parede de botequim em bairro distante, e era sempre o mesmo. Metade dele era um velhinho bem humorado, metade era um garoto traquina.

Num dos Congressos de Violeiros de Campina Grande, ele cantava em dupla com Diniz Vitorino, quando Diniz se revoltou com uma decisão do júri, irritou-se e declarou que não cantava mais, saindo imediatamente do palco. Furiba ficou dividido entre a solidariedade ao parceiro e o compromisso profissional (sem falar na vontade de ganhar o festival). Fez um discurso que conquistou o público e ganhou a noite:

-- Meus amigos... eu me sinto como o soldado que em pleno campo de batalha fica separado de seu pelotão... Devo erguer minha arma e partir sozinho na direção da morte?

A casa veio abaixo de aplausos. Furiba não foi o campeão do Congresso (como a disputa era em duplas, ela teve que se retirar também) mas durante meses não se falou noutra coisa nos círculos cantadorísticos de Campina.

Em 1991, por iniciativa e esforço dos apologistas Urbano Vilar e Zelito Nunes, do Recife, foi publicado o livro de memórias Furiba – Falando a Verdade (Imprensa Universitária da Universidade Federal Rural de Pernambuco), onde a brincadeira já começa no título.



Segundo algumas más línguas, a mentira já começa na abertura do capítulo 1, pela data de nascimento, que alguns dizem ser falsa porque ele queria posar de “mais novinho”. Mas ele começa o livro assim:

Nasci no dia 4 de julho de 1931, no sítio Bomba d’Água, de Serra de Cachoeira, no município de Taquaritinga do Norte, no Agreste Pernambucano.

Minha mãe lavava roupas à margem do rio quando, num repente, eu vim ao mundo. Muito nova e inexperiente minha mãe correu assustada para casa.

– Mãe! – disse à minha avó. – Acho que abortei na beira dágua!

Minha avó correu para ver e encontrou-me, do tamanho de um preá, ainda envolto na placenta. Pegando-me com cuidado, levou-me para casa julgando que eu estivesse morto.

Quando fiz alguns movimentos, procuraram agasalhar-me melhor. Encubadeira não havia. Com os restos de algodão da roca, embrulharam-me e colocaram-me numa caixa de sapatos. (p. 5)

O livro, no modelo habitual de memórias de cantadores, resgata inúmeros trechos de cantorias em que o companheiro encerra uma estrofe largando uma rima qualquer que serve ao protagonista para improvisar um verso arrasador. Um exemplo:

Na estação do trem, antiga, de Campina (1976), Luiz Bonifácio também perguntou:

– Como vai teu armazém
  está grande o movimento?

Eu, Furiba, o grande, respondi:

– Está fraco o sortimento
  não sei se é má sorte minha;
  gastei duzentos milhões
  acabei tudo que tinha
  lá no armazém pode ter
  cem mil cuias de farinha.  (p. 68)

Gabar-se de riquezas fantásticas e de conquistas amorosas era a linha temática principal dos versos de Furiba, aquela que os admiradores iam sempre na expectativa de escutar. As brincadeiras eram ressaltadas pela vida modesta que levava, sua feiura simpática, seu comportamento modesto, afável.

Basta ver uma coisa: nesse livro que estou citando, ele além de fazer uma antologia dos seus próprios versos inclui uma enormidade de versos de Severino Pinto, o rei dos cantadores, seu grande parceiro. Mesmo na hora de puxar os refletores para sua pessoa, ele dá um jeito de puxar Pinto para perto de si, celebrar os grandes versos do amigo.

Na década de 1980 eu já estava morando no Rio e colaborei em alguns roteiros de shows de Elba Ramalho, que estreavam no Canecão. Num deles, Coração Brasileiro (1983), para falar dos nordestinos que vinham morar no Rio de Janeiro e tinham experiências diferentes, umas boas, outras ruins, fiz Elba recontar esse episódio de uma cantoria entre Furiba e Pinto do Monteiro:

No SESI de Caruaru, numa cantoria organizada pelo major Sinval (1964), eu, chegado há pouco do Rio de Janeiro, fiz esta sextilha:

O que se vê no Nordeste
é caminhão pau-de-arara,
o povo passando fome
que o suor desce na cara,
a diferença é enorme
do povo da Guanabara.

Pinto faz, então, uma das suas mais conhecidas estrofes:

O que vi na Guanabara
foi nego descendo morro
desastre no meio da rua
gente no Pronto Socorro
ladrão batendo carteira
mulher puxando cachorro. (p. 38-39)

Este episódio, que sempre arrancava uma gargalhada geral, servia como introdução para Elba cantar a música Nordeste Independente, parceria minha com Ivanildo Vila Nova.

Num depoimento ao final do livro de Furiba, o apologista Antonio de Catarina, de São José do Egito, faz essa descrição verdadeira e divertida:

Por este motivo, vou falar sobre o João Furiba, de pequena estatura, que tem o costume de cumprimentar os amigos encostando a cabeça no nosso peito. Talvez seja para nos auscultar o coração, e com ele entrar em ressonância. Diz compadre Gregório que é pra sentir o volume da carteira e calcular a “facada”. (p. 81)

Cantando com Pinto, Furiba viu o amigo terminar a sextilha dizendo:

Não sei que tem vaca magra
come tanto e não engorda.

E Furiba respondeu:

É porque feijão de corda
já está custando cem;
farinha por cento e dez
e milho caro também;
se Deus não pisar no freio
não vai escapar ninguém. (p. 10-11)

O livro de Furiba é cheio dessas tiradas, e de episódios que sendo Furiba eu penso logo que é mentira, mas sendo num livro impresso em papel, com capa e tudo, penso que pode ser verdade. Como quando ele lembra o tempo em que foi comissário de bordo da antiga Panair, e quando o general Castelo Branco fechou a empresa ele viu-se ilhado na Itália, vagueou por Milão, Napoles e Roma até encontrar num aeroporto um piloto da Varig que era seu amigo e o contrabandeou de volta para o Brasil.

Furiba assevera que em 1961 sofreu um acidente num voo com um DC-7 da TAP, que vinha de Portugal, fazendo a rota Lisboa-Rio-Lisboa.

Ele caiu na Fazenda Modelo, perto do Recife. Eu estava nele como segundo comissário. Dessa vez vi morrerem 18 pessoas queimadas. Fui pouco atingido mas em 1964 comecei a sentir dores na espinha.

A opção pela viola lhe trouxe amigos, viagens seguras por chão de terra, namoros sem conta, e a modesta fama de quem brilha no céu da poesia improvisada.

Seria possível montar um belo livro sobre os versos e as aventuras de João Furiba, o Bem Amado. Com mentiras e tudo, para ser um livro mais fiel à verdade da vida.

Vi-o pela última vez uns três anos atrás, em São José do Egito, durante a “Festa de Louro”. Eu estava bebendo nas barracas quando vieram dizer que Furiba tinha chegado. Fui até lá. Ele estava numa cadeira de rodas, cercado de fãs. Se já era magro quando no auge, agora depois dos 90 estava parecendo uma espinha de peixe.

Cheguei perto, passei o braço nos seus ombros, ele me olhou com olhos meio desfocados e um sorriso firme. Eu disse:

– Fala, Furiba. Tá me conhecendo? É Braulio, lá de Campina Grande.

Ele sorriu e respondeu:

– Braulio? E cadê o cabelão? – E fez o gesto, descrevendo a cabeleira de dois-palmos que eu usava na época.

Dias atrás, quando circulou a notícia de sua última decolagem, começaram a pipocar no Facebook dezenas de postagens cheias de saudade e homenagens ao grande repentista.

Zelito Nunes postou um texto de despedida, e o mote: “Depois de Pinto, o maior, / Furiba nos deixa agora.”

Deixei lá esta glosa de lembrança, e um abraço ao poeta que se foi:

Magro, pequeno, mirrado,
cheio de dentes de ouro,
tinha no peito um tesouro:
um coração bem amado.
Foi querido e respeitado
por este Brasil afora,
e hoje não mais namora,
nem é mais dono da Ford...
depois de Pinto, o maior,
Furiba nos deixa agora.




(Zelito Nunes e João Furiba)









quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

4429) A literatura não é tudo (30.1.2019)



A literatura não é tudo na literatura. Ou, formulando melhor: não é apenas a arte literária que a gente procura quando começa a ler um livro.

Como sou escritor (e da linha “a arte acima de tudo”, ao invés da linha “socialmente engajada”) sinto-me na obrigação de dizer que a arte literária está presente “com força” em praticamente todos os grandes livros – os cânones de cada cultura, os clássicos, os livros reeditados e retraduzidos centenas de vezes, etc.

Mas esses livros, por mais respeitáveis que sejam, são apenas uma fina fatia da produção literária que incessantemente se escreve, se publica e se lê no mundo inteiro.

Digo isto “no escuro”, cruzando os dedos, porque não faço uma idéia muito clara do que é lido por bilhões de chineses e de indianos, para dar apenas um exemplo bem óbvio.

Os grandes livros nos dão, sempre uma idéia forte, intensa, do que era uma época, um ambiente social, um país, uma cidade, uma região. Isso não se discute. Mas é preciso saber ver.

Vamos pegar um desses exemplos mais óbvios: o subestimado Machado de Assis. A maioria dos estudantes que lê Machado não lê os contemporâneos de Machado, os figurões da sua época, os best-sellers da sua época, a arraia-miúda da sua época. Fica sem referência para comparar os pontos em que Machado se diferencia do resto.

Fica parecendo aquele episódio do Barão de Munchausen em que ele adormece num campo nevado, à noite, e amarra o cavalo num galo de metal que aponta do meio da neve. Somente de manhã, depois que a neve derrete, ele percebe que havia uma aldeia, e que a neve havia coberto tudo, menos o galo do campanário da igreja, onde o cavalo agora está pendurado e esperneando.

Machado de Assis (e outros, em outras circunstâncias – Edgar Allan Poe nos EUA de 1840, p. ex.) é esse galo. Não enxergamos hoje, em 2019, o ambiente literário em que ele se movia. Vemos apenas esse galo, e achamos que ele está ao rés-do-chão. “Não vi nada de mais... já li centenas de histórias assim...”

O galo está muito alto, mas a altura dele está oculta pela neve do nosso desconhecimento.

Em volta desses “galos”, desses autores geniais, existem dezenas de outros, centenas de outros, que são igualmente importantes. Não é só o gênio que é importante. Não é só a obra-prima que precisa ser lida.

Para quem tem um interesse real pelo mundo, a literatura serve também como uma espécie de “estudo das mentalidades”. Os grandes autores (os que são considerados “grandes” hoje talvez não o fossem cem anos atrás, e talvez não mais o sejam daqui a mais cem) são aqueles que, em nossa opinião, foram mais fundo na descoberta de alguns aspectos da vida humana no seu lugar, no seu tempo.

Há muitos romances brasileiros que não chegam às alturas verbais de um Guimarães Rosa nem às profundidades psicológicas de Clarice Lispector – mas que são experiências notáveis na captação de um ambiente social, de um grupo, de um conjunto de pessoas. Podem servir como documentos de época, por serem livros bem observados, bem anotados, bem pesquisados – mesmo que não sejam extraordinariamente bem escritos.

Voltando ao ponto inicial: a arte literária não é a única coisa que buscamos nos livros. Quando está presente, é uma beleza. Mas muitas vezes está presente de forma apenas discreta, e o que aquele livro tem a nos dar, e é igualmente importante, é o pensamento de uma época sobre si mesma, através de um autor talvez menor, mas que talvez por isso mesmo seja um exemplo do tempo em que viveu.


Nenhum autor está “à frente do seu tempo” como a imprensa tanto repete. Os grandes autores estão apenas captando uma área mais ampla desse tempo. Mas não são os únicos que o estão percebendo.