domingo, 18 de julho de 2010

2282) Cobertura de Copa (1.7.2010)



Não, não estou me referindo a apartamentos no andar de cima em Copacabana. É a cobertura jornalística de uma Copa do Mundo, algo que movimenta este país tanto quanto uma eleição presidencial. Como as duas coisas geralmente acontecem juntas, já se sabe nas redações e nas estações de TV: “Ano que vem, tem Copa e eleição”. São duas guerras pacíficas (até certo ponto) para as quais os órgãos de imprensa se mobilizam como se fossem os exércitos aliados preparando o Desembarque na Normandia.

Uma coisa que me incomoda, como espectador, é a quantidade absurda de informação irrelevante que essa situação produz. Toda TV brasileira, toda rádio brasileira, todo jornal brasileiro tenta mandar gente para a Copa. Algumas emissoras têm 100 ou 200 profissionais trabalhando por lá. (Multiplique isto por 32 países.) E esse pessoal quer somente uma coisa: mandar matérias para a redação. Estão sendo pagos para isso. Receberam passagem aérea, hospedagem, diárias de alimentação, equipamento, gratificação por hora-extra, o escambau. Precisam, portanto, registrar tudo que for possível dos jogos, dos adversários e da Seleção Brasileira. O problema é que quando não dá para achar uma matéria interessante, o pessoal começa a valorizar pequenos detalhes. Fulano mancou durante o treino; estará machucado? O ônibus da Seleção atrasou; terá havido alguma crise? Sicrano não cumprimentou o técnico ao ser substituído; ato de indisciplina?

A crise recente entre Dunga e a Rede Globo foi um sinal disso. Ao que se diz, Dunga cortou alguns privilégios que a Globo tinha em relação a outras emissoras. No tempo de Felipão, Fátima Bernardes viajava dentro do ônibus da Seleção, mandando entrevistas ao vivo para o “Jornal Nacional”. Está errada? De jeito nenhum, ela é jornalista e sua obrigação é conseguir a melhor matéria possível. Agora, Dunga disse: “Na-nani-nanão”. Está errado? De jeito nenhum, e eu como técnico faria o mesmo. O problema é que Dunga é mal-humorado e agressivo, e coloca todo mundo contra si. Quando desfechou palavrões contra um jornalista durante a coletiva isto lhe mereceu uma “blitz” monumental. No dia seguinte, todos os colunistas do “Globo” obedeceram a pauta de sentar o pau no treinador. Curiosamente, um dia depois o mar serenou ... Deve ter vindo uma ordem de cima: “Chega, já basta, vamos dar força pra Seleção, se não pega mal”.

Não é fácil encontrar um equilíbrio. Existe a privacidade de que os jogadores precisam. Eu, se fosse jogador, gostaria de ficar na minha, tranquilo, sem ter que dar 15 entrevistas por dia para a Rádio Bambala ou a TV Arimatéia. Mas também gostaria de poder bater um papo com jornalistas amigos (sim, muitos jornalistas e jogadores são amigos), ir num shopping ou dar uma volta para conhecer a cidade. Se fosse por Dunga, o time ficaria num quartel militar. Se fosse pela imprensa, ficaria num palácio com piscina e de portões abertos, como ficou em 2006 – e deu no que deu.

2281) “Bande à Part” (30.6.2010)



Vi em DVD este simpático filme de Jean-Luc Godard, que nunca tinha assistido. É um filme menor, talvez, um daqueles longas que Godard dirigia em algumas semanas com meia dúzia de atores e uma câmara. Casual, descontraído, com ocasionais momentos de beleza no diálogo. E a fotografia em preto-e-branco de Raoul Coutard, uma das melhores coisas não só do cinema de Godard, mas de toda a “nouvelle vague”. Nada parece tanto com a palavra Cinema quanto aquela tonalidade de pretos-e-brancos contra um fundo cinza.

A narrativa é de um policial B típico, baseada num romance de Dolores Hitchens (Fool’s Gold): uma moça e dois rapazes decidem roubar o dinheiro da casa onde ela trabalha, e, depois de um planejamento muito furreca, realizam um assalto mais furreca ainda, que acaba mal. Godard, Truffaut, Malle, Chabrol e outros passaram anos filmando variações desse enredo. Para eles, nada era mais moderno do que esquecer a Noite de São Bartolomeu ou a Queda da Bastilha e filmar pequenas aventuras de submundo à maneira norte-americana. Há toda uma ruptura sociológica e uma queda-de-braço cultural por trás disso.

O filme é pouco conhecido, mas duas sequências ficaram famosas. Uma é a da coreografia executada com displicência de cinema-verdade pelo trio de atores, tendo Anna Karina devastadoramente charmosa, de saia tartan, pulôver escuro e o chapéu de Sami Frey na cabeça. Esta dança (dizem) foi citada em Pulp Fiction de Tarantino, cuja produtora, aliás, chama-se A Band Apart em homenagem a este filme. (A cena pode ser vista no YouTube). A outra cena famosa é a dos três atores correndo pelas galerias do Louvre, tentando bater o recorde de um turista americano, que (dizem eles) viu o Museu inteiro em 9 minutos e 45 segundos. Esta cena foi citada e reconstituída por Bernardo Bertolucci em Os Sonhadores.

Uma terceira cena (que eu desconhecia até ver o filme) mostra o trio tentando fazer um minuto de silêncio. A trilha sonora é emudecida durante 35 segundos até que um deles se levanta da mesa do bar, dizendo “chega!”. Bergman retomaria alguns anos depois este desafio, em A Hora do Lobo, mostrando (“na sucessividade dos segundos”, como dizia Augusto dos Anjos) um minuto inteiro de Max von Sydow olhando um relógio e Liv Ullman olhando o rosto de Max von Sydow. (Para, sem mais do que isto, falar resmas de textos sobre o Amor, a Loucura e a Morte.)

O cinema de Godard é como a música de Philip Glass, a poesia de e. e. cummings ou a pintura de Edward Hopper. Há quem ame e quem deteste. Para os que nem-uma-coisa-nem-outra, é um documento inquietante de como um cinema feito por cinéfilos acaba se tornando, 45 anos depois, um cinema menos referencial e menos cheio de citações do que o cinema comercial de hoje. O encanto desses filmes, em 1964, era sua intelectualidade, sua ousadia vanguardista. Hoje, seu encanto é a pureza do seu olhar, que parece nunca ter sido corrompido por uma tecnologia, um Festival, um borderô.

2280) O shoooooow da Copa (29.6.2010)



(Maradona e os fotógrafos - foto de David Gray)

Os locutores da TV não param de comemorar: “Um shoooow de imagens para você! São 32 câmaras espalhadas pelo Estádio!”. De fato, o que salva as Copas do Mundo de hoje em dia é, mais que o jogo, a cobertura do jogo. A maioria dos gols é de uma banalidade assombrosa, mas se fixam em nossa memória depois que a gente vê de frente, de um lado, do outro, por trás, de cima, câmara lenta, câmara próxima, no detalhe... A Fifa descobriu, com meio século de atraso, o Canal 100. Descobriu que a beleza do futebol nem sempre é visível ao olho humano, é preciso retardar o movimento para que a gente tenha idéia do que acontece (e não é pouco) naquelas frações de segundo. Uma das imagens mais impressionantes desta Copa foi o pênalte cometido pelo zagueiro da Austrália no jogo contra Gana: ele está embaixo do travessão e a bola chutada pelo atacante se choca com seu braço, que evita o gol. A câmara lenta mostra o braço estendido, a jabulani se aproximando, explodindo de encontro ao braço, deformando-se, sendo mandada de volta, e todos os músculos do braço do sujeito estremecendo ao mesmo tempo. (Depois, é claro, o zagueiro reclamou do juiz e disse que não foi pênalti.)

Chegou um momento perigoso da relação entre imagem e mundo. Descobrimos ao longo dos séculos que o mundo enquadrado fica mais bonito (pintura, fotografia, cinema). Uma paisagem é banal? Vamos recortá-la em retângulo e reproduzi-la, emoldurada. Num instante ela fica poética. O recorte potencializa, concentra ali todos os significados possíveis. Cineasta gosta muito de erguer os polegares e indicadores das duas mãos formando um retângulo, para enquadrar rostos, paisagens, detalhes. Isolado do seu entorno, qualquer objeto vira signo. Dentro das quatro linhas da imagem, ele deixa de pertencer ao mundo físico e entra no mundo semiótico, deixa a Natureza para fazer parte da Cultura.

O momento perigoso foi quando alguém pensou: “Puxa vida, o simples ato de enquadrar uma coisa, por mais banal que seja, lhe confere um significado transcendental!”. Porque o pensamento seguinte é: “Bom, já que o significado transcendental está no enquadramento, e não na coisa, dispensemo-nos de escolher a coisa! A coisa pode ser qualquer uma! Tanto faz enquadrar o atentado às Torres Gêmeas quanto uma meia velha jogada no chão! Tanto faz enquadrar o rosto de Fernanda Montenegro quanto o de Xuxa! Tanto faz filmar em super-slow-motion um drible de Robinho quando uma trombada de Felipe Melo!”. E aí surgiu o cinema de Andy Warhol.

E este, amigos, é o futebol do futuro. Sou futeboleiro genético, não sei viver sem assistir um jogo de bola, e não me lembro quando fui a um estádio pela última vez, acho que foi quando o Treze foi campeão em 2005. Moro no Rio, e fui ao Maracanã pela última vez em 1990. Futebol para mim, hoje em dia, é um programa de TV, e com isto sou capaz de antever o futuro. Vinte e dois Felipes Melos em campo – e 128 câmaras dando um shoooow de imagens!

2279) As tartarugas telepáticas (27.6.2010)



Numa época remota (e bota remota nisso) o Cosmos era a carapaça de uma imensa tartaruga. Tão imensa era a condenada que olhávamos em 360 graus à volta do horizonte e não a víamos. Como o ser humano só captura o que a sua antena captar, a Tartaruga era tida como inexistente. (Modo inadequado de exprimir a situação. Melhor dizer: Não passava pela cabeça de ninguém que o mundo fosse o casco de uma tartaruga.) Mas era. Não havia ainda o “silêncio eterno dos espaços infinitos” que amedrontava Blaise Pascal. Tudo que conhecemos, o Sol, a Lua, a Terra, as Constelações, acomodava-se sabe Deus como naquele casco hospitaleiro, e vamos em frente. Como o casco é arredondado, cabia ali uma reprodução bidimensional da Esfera Armilar do Cosmos; como é abaulado ou convexo, cabiam ali inclusive umas duas páginas e meia da Teoria da Relatividade de Einstein e sua sugestão da existência de um espaço curvo. Beleza.

Ora, tartarugas têm cérebro, tanto quanto os caranguejos do mangue recifense. Se admitimos a ideia de Gaia, do planeta Terra consciente de si mesmo, por que recusaríamos a hipótese de um Cosmos lúcido? A Tartaruga do Mundo põe-se a pensar: “Muito bem, o mundo inteiro repousa sobre o meu casco, mas, eu mesma, repouso onde?...” O Cosmos, por lúcido que é, espia para baixo de si para ver onde repousa. Não sei o que viu; sei o que dizem os pergaminhos antigos. E dizem eles que a Tartaruga do Mundo repousa sobre o casco de outra Tartaruga, maior ainda.

Assimilaram, amigos, o terror desta descoberta? Quando postulamos que o Cosmos é uma Tartaruga, a proposta pode ser absurda, mas fica por aí mesmo, a gente empaca num beco sem saída. Porém no momento em que postulamos uma segunda tartaruga, o gene matemático em nós dá início ao processo reiterativo que às vezes é chamado Infinito (“e depois desta segunda uma terceira, e depois dessa terceira uma quarta...”), e às vezes é chamado Loucura.

Felicidade nossa que as Tartarugas do Cosmos são telepáticas. Destarte, a tartaruga número 1 pode se comunicar instantaneamente, de modo não-linear, com qualquer outra, seja a Tartaruga 12, a Tartaruga 35, a Tartaruga 222.111 ou não importa qual. E diz ela: “Meninas, tô com uma situação aqui. Os meus humanos estão meio abismados com esse Universo baseado, se bem me exprimo, numa proliferação concêntrica de quelônios, numa quantidade que bota Fernando de Noronha no chinelo. Não é por nada não, mas será que a gente não podia propor, telepaticamente, é claro, uma planta-baixa do Cosmos menos figurativa? Sabe como é, do século 20 em diante eles se tornaram mais abstracionistas, mais mondrianescos. Se a gente sugerir outro modelo pode ser que isto os sossegue”. Seguiram-se milênios (em tempo tartarugal) de debates e mesas-redondas, até que a Tartaruga 802.701 sugeriu: “Por que não sugerir telepaticamente a eles que o universo é composto, em níveis alternados, de ondas e de partículas?...” Assim foi feito; e fez-se a Luz.

2278) A estética do “Que Mundo Pequeno!” (26.6.2010)



O folhetim e seus derivados (o seriado do cinema, a telenovela, os romances de pulp fiction) criou uma estética dramatúrgica em que os acontecimentos oscilam o tempo inteiro entre duas forças cósmicas opostas e complementares: o Acaso e o Destino. Se o universo é regido pelo Acaso, então tudo é possível, mesmo os fatos mais mirabolantes, as coincidências mais gritantes, as casualidades mais imprevistas. Se é regido pelo Destino, essas surpresas são igualmente possíveis, porque o conceito de Destino pressupõe a presença de uma Vontade orquestrando, com autoridade absoluta, os fatos do Universo. Se “estava escrito”, tinha de acontecer.

Vai daí que algumas figuras narrativas são típicas deste gênero, porque exprimem de maneira recorrente as situações de que ele se vale para manipular acontecimentos e personagens.


Falei dias atrás sobre a “estética do Logo Agora”; podemos também chamar a estética do folhetim de “a estética do Que Mundo Pequeno”, porque esta é uma exclamação recorrente (explícita, ou subentendida) dos personagens. Não existe folhetim se não existir, em cada virada de página, a sensação de que aqueles personagens podem se deparar a qualquer momento com a última pessoa no mundo que eles imaginariam encontrar ali, naquele local, naquele momento.

Esses encontros inesperados podem trazer o êxtase ou a catástrofe, não importa. Para o Autor, trazem os cruzamentos indispensáveis entre as linhas narrativas, cruzamentos de que ele precisa para gerar ou resolver conflitos, produzir revelações, quebrar o fluxo narrativo e empurrá-lo noutra direção, propor mistérios, esclarecer mistérios.

As grandes cidades modernas são, portanto, o ambiente ideal para o folhetim, que é consequência dos grandes jornais modernos. A Londres de Charles Dickens tinha dois milhões de habitantes; a Paris de Balzac tinha um milhão; a Moscou de Dostoiévski tinha 800 mil.

Estas grandezas demográficas proporcionam tanto os encontros quanto os desencontros. O labirinto das ruas e dos bairros das grandes cidades permite que pessoas passem uma vida inteira sem se cruzar, mas também que pessoas possam se esbarrar inesperadamente quando menos esperam. O folhetim exige essa possibilidade simultânea de distanciamento e de aproximação, exige a possibilidade do Segredo Bem Guardado e a possibilidade da Revelação Súbita.

O folhetim é de certa forma um gênero guiado pela Fatalidade Estatística, pelo jogo constante entre o banal e o extraordinário, um jogo em que basta que algo não seja impossível (como afirmou Sherlock Holmes) para que possa ser verdade, por mais improvável que seja.

“Que mundo pequeno!” exclamam, ao se reencontrarem, dois amigos de infância, um casal de ex-namorados, dois parentes distantes, uma dupla de ex-sócios, todos aqueles personagens que, virando uma esquina, entrando num restaurante ou visitando um bairro distante se deparam, por obra do Acaso e do Destino, com a pessoa que irá mudar sua vida.

2277) George Orwell e o futebol (25.6.2010)



(foto: Laurence Griffiths)

Em tempo de Copa do Mundo, talvez valha a pena refletir sobre a impressão que essas disputas internacionais de futebol já causaram. Em dezembro de 1945 George Orwell publicou no jornal Tribune um artigo intitulado “The Sporting Spirit” em que comentava com azedume a visita do Dínamo de Kiev à Inglaterra para disputar alguns jogos amistosos, talvez como parte da política de boa vizinhança que Churchill e Stálin tentaram manter por algum tempo depois de derrotarem o nazismo. Se era esta a intenção, diz Orwell, eles podiam tirar os respectivos cavalinhos da chuva: “O esporte disputado pra valer não tem nada a ver com ‘fair play’; ele se alimenta de ódio, ciúme, jactância, desprezo pelas regras e o prazer sádico em observar atos de violência. Em outras palavras, é uma guerra sem armas de fogo”.

Ainda estava viva na memória de Orwell a maneira como Hitler tentou capitalizar politicamente as Olimpíadas de 1936, e ele via na utilização do esporte no mundo moderno uma manipulação cínica e deliberada de alguns dos piores sentimentos: “Na Inglaterra e nos EUA o esporte se tornou uma atividade de pesados investimentos financeiros, capaz de atrair enormes multidões e de despertar paixões selvagens, e essa infecção se alastrou de país em país. E foi nos esportes mais violentos e combativos, o futebol e o boxe, que ela mais se espalhou. Não há dúvida de que tudo isto está ligado à ascensão do nacionalismo, ou seja, este lunático hábito moderno de alguém se identificar com grandes estruturas de poder, e passar a enxergar todas as coisas do ponto de vista do prestígio competitivo”.

Estas reflexões são interessantes, de um lado, por revelar o pessimismo de um escritor e de um povo que mal tinham saído de uma das maiores catástrofes guerreiras que a humanidade já viu. E por outro lado nos levam a pensar que Orwell nesse momento estava iniciando a composição de seu último e melhor livro, 1984, que foi publicado em 1948. Li este livro há muito tempo e não me lembro se ele inclui o esporte entre as formas de manipulação totalitária do Big Brother. (Em todo caso, em 1975 Georges Perec publicou W, ou A Memória da Infância, uma aterradora parábola kafkeana sobre a utilização de esportes olímpicos como sustentáculo do fascismo.)

Orwell diz: “O mais significativo disso tudo nem é o comportamento dos jogadores, mas o da torcida, e, para além da torcida, das nações que se deixam tomar de fúria por causa dessa disputas sem sentido, e acreditam seriamente – durante um certo tempo, pelo menos – que correr, pular e dar chutes numa bola são testes das virtudes de uma nação”. O escritor talvez se decepcionasse ainda mais, se visse as somas fabulosas movimentadas pelo futebol de 2010, comparadas às de 1945. O lado positivo é o fato de que o esporte deixou de servir à guerra, à belicosidade, e hoje serve ao comércio e ao consumismo. Mas não sei se isso adoçaria a boca de um indivíduo lúcido e amargo como Orwell.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

2276) Saramago e o fantástico (24.6.2010)





A Passarola, de Bartolomeu Gusmão

Não sei se alguém estará celebrando José Saramago como o grande escritor de literatura fantástica que foi. 

 Seu livro mais conhecido, o Memorial do Convento (1982), é uma história gótico-alucinatória que envolve visões paranormais e uma máquina voadora, a Passarola de que ouvimos falar nos livros de História. É um romance “mainstream” que flerta com a fantasia e com a proto-ficção científica, e uma referência obrigatória para qualquer estudo sobre Fantasia Ibérica.

História do Cerco de Lisboa (1989) é uma experiência de História Alternativa: o que seria o mundo se determinado acontecimento histórico tivesse ocorrido de modo diferente do que de fato se deu? 

No livro de Saramago, isso acontece de maneira ainda mais fantástica, pois basta um revisor de provas tipográficas inserir a palavra “não” num texto, fazendo com que os Cruzados não ajudem os cristãos portugueses a retomar Lisboa, invadida pelos muçulmanos. Saramago reconta em tom de crônica história o que teria ocorrido nesse universo paralelo ao nosso.

Em A Jangada de Pedra (1986) a Península Ibérica desprega-se do continente europeu e sai à deriva pelo Oceano Atlântico, carregando seus milhões de habitantes, suas culturas e civilizações. É uma alegoria política (o viés político é um dos mais fortes na obra de Saramago) mas são notáveis a ousadia imaginativa e o modo rigoroso como ele extrapola as consequências da idéia inicial. 

Isso para não falar no Ensaio Sobre a Cegueira (1995), uma fábula apocalíptica em que toda (quase toda) a humanidade perde a visão, fazendo desmoronar a civilização. Uma idéia que a ficção científica já explorou de variadas formas, desde O Dia das Trífides (1951) de John Wyndham até A Escuridão (1963) de André Carneiro.

A alegoria também está presente em As Intermitências da Morte (2005), que tem um ponto de partida semelhante ao de A Desintegração da Morte do brasileiro Orígenes Lessa (1948): o que aconteceria ao mundo se de repente ninguém mais morresse? 

A narrativa de Saramago se inicia no dia 1 de janeiro, o que nos lembra a descrição da Morte feita por outro brasileiro, Augusto dos Anjos: 

Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro 
sai para assassinar o mundo inteiro 
e o mundo inteiro não lhe mata a fome!

Não duvido que na vasta obra de Saramago existam vários outros textos que poderiam ser considerados de natureza fantástica. Mas acho que estes exemplos bastam para mostrar que o recurso à mecânica do fantástico era algo natural no modo de pensar do escritor. Não era tentativa de imitar alguém, exorcizar uma influência, seguir uma moda. Mas duvido que algum crítico literário, indagado sobre os grandes nomes da literatura fantástica em língua portuguesa, lembrasse espontaneamente do seu nome. 

É uma dessas obras em que há uma face iluminada (o Realismo) e uma face oculta (o Fantástico). Algo que está ali mas ninguém vê, porque não foi ensinado a ver especificamente aquilo.





2275) Borges vai a leilão (23.6.2010)



A casa de leilões Bloomsbury, de Nova York deve leiloar hoje uma certa quantidade de livros e manuscritos de diversos autores, entre eles John Steinbeck, Thornton Wilder, Julio Verne e Jorge Luís Borges. O filé do leilão será um manuscrito do famoso conto borgiano “O Jardim das Veredas que se Bifurcam”, do qual não existe, ao que parece, nenhuma outra cópia do próprio punho do autor (o conto é da época em que Borges não tinha ficado cego). A Bloomsbury afirma que é o documento borgiano mais valioso já levado a leilão, e espera vendê-lo por uma soma entre 200 e 300 mil dólares. Fui no saite da Bloomsbury e capturei imagens das 12 páginas do manuscrito, na caligrafia miúda e insetóide de Borges, em que as letras quase não se enlaçam umas nas outras, mas sucedem-se isoladas, embora juntinhas. Acho que muita gente tem esse prazer meio fetichista de ver como é um texto famoso escrito de próprio punho pelo seu autor, com as correções, rasuras, substituições, flechinhas puxadas do meio de um parágrafo para indicar uma frase escrita na margem.

Este conto tem um interesse especial para os leitores norte-americanos. Foi o primeiro conto de Borges publicado nos EUA, no famoso Ellery Queen’s Mystery Magazine, revista cuja edição brasileira é muito conhecida dos aficionados da literatura policial. Em 1948 o EQMM publicou uma tradução desse conto feita por Anthony Boucher, com uma apresentação bastante elogiosa sobre o “Señor Borges”, que na época era conhecido apenas nos círculos literários de Buenos Aires.

Como sou tiete, fui no saite da casa de leilões e baixei as 12 páginas do manuscrito, para tirar uma dúvida, entre outras coisas. Quem já leu este famoso texto sabe que ele conta o encontro do narrador com um sinólogo, Stephen Albert, e que o nome desse personagem é o mesmo de uma cidade onde se deu um fato importante da I Guerra Mundial. Esse sobrenome é um detalhe essencial para o conto (embora o motivo dessa importância só se revele nas últimas linhas). Ora, na edição norte-americana (tenho um exemplar do EQMM de 1948) o sinólogo se chama Stephen Corbie, nome de outra cidade envolvida na I Guerra. Essa disparidade sempre me inquietou; será que havia duas versões do conto, usando cidades diferentes para dar nome ao personagem? Ver o nome “Stephen Albert” escrito pelo próprio punho de Borges elimina pelo menos uma das possibilidades. Tudo leva a crer que Ellery Queen usou do poder discricionário concedido aos editores para substituir, sabe-se lá por que razões historiográficas, o nome da cidade sugerida por Borges por outra que a seu ver seria mais plausível (pelo menos aos olhos de um leitor norte-americano). Editores fazem isso o tempo inteiro. O próprio Ellery Queen jamais terá imaginado que esse conto de um argentino desconhecido chegaria um dia a ser leiloado por uma fortuna. E fico imaginando a cara de Borges ao receber a revista pelo Correio e ver que tinham trocado o nome do seu personagem.

2274) Brasil 3x1 Costa do Marfim (22.6.2010)



O Brasil melhorou 100% do primeiro para o segundo jogo. Começou difícil, é claro, jogo amarrado e atravancado pela seleção africana, que marcava forte. O Brasil quase fez 1x0 com Robinho com um minuto de jogo, num contra-ataque em que deveria ter lançado Luís Fabiano. E Fabiano fez o gol após uma roubada de bola e troca rápida de passes com Kaká, para um chute final a queima-roupa, golaço muito semelhante ao que o Donovan (EUA) fez na Eslovênia. No 2o. tempo, Fabiano fez outro golaço dando dois lençóis nos zagueiros; mesmo tendo levado a bola com o braço na ajeitadinha final, foi um belo gol, e fez justiça. O Brasil começou a jogar do jeito que gosta e Elano fez o terceiro gol com relativa facilidade.

Aí começou a aparecer um lado preocupante da Seleção de Dunga: o jeito ríspido e impaciente, que (não, não é preconceito) tem muito a ver com o espírito que o técnico passa para o time. Como os africanos, em desespero, começaram a fazer faltas violentas e desleais, o Brasil entrou no jogo deles. Kaká, que apesar de evangélico não é nenhum santinho (pelo contrário, é um jogador que bate muito, e só entra rachando em bola dividida) acabou sendo expulso. Meu medo é que nos próximos jogos aconteça o mesmo com os nossos jogadores que têm antecedentes de brucutu: Luís Fabiano, Felipe Melo, Daniel Alves...

Outra coisa preocupante é o apagão crepuscular do nosso time, que em dois jogos contra adversários fracos tomou dois gols inadmissíveis quando já estava com um placar confortável. Os gols feitos pela Coréia e Costa do Marfim pegaram nossa defesa desatenta, relaxada, um esperando pelo outro. Se o time está ganhando de 2x0 de uma Alemanha ou Holanda e sofre um gol assim, vira um pesadelo.

O Brasil vai jogar com Portugal sem muito aperto. A Copa só começa na segunda fase, das oitavas em diante. Esta primeira fase de grupos é a festa político-turístico promovido pela Fifa, é a fase onde aparecem azarões como Honduras, Nova Zelândia, etc. Carnaval e Woodstock nas arquibancadas, todo mundo tendo a chance de jogar numa Copa. Nas oitavas, ficam só os 16 times que têm algo para mostrar, e a Copa de verdade começa. O Brasil vai estar lá, e agora, depois de ver o futebol pobre apresentado pela maioria, acho que suas chances aumentam. Africanos e europeus são uma decepção. Os times da América são a grande surpresa, quase todos estão indo bem e com chance de passar para a fase seguinte.

Escrevo este texto no domingo à noite; até agora nenhuma seleção empolgou, e só quem tem duas vitórias são Brasil, Argentina e Holanda. Isto não quer dizer muita coisa. Na segunda fase, quem perder sai, e ninguém garante que, por exemplo, a Argentina, que tem jogado muito bem, não possa perder para México ou Uruguai, por exemplo, ou que o Brasil não possa perder para Espanha ou Chile. Daí em diante a competição vai se nivelando – tomara que num nível melhor do que o que tivemos até agora.

2273) Drummond: “Alguma Poesia” (20.6.2010)



Alguma Poesia foi o primeiro livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade. Publicado em 1930, seus 80 anos estão sendo comemorados com recitais e uma edição especial organizada pelo poeta Eucanaã Ferraz. É um livro fundador, indispensável para entender a poética pessoal de Drummond (já está praticamente tudo ali, germinando, no livrinho do rapaz de 28 anos) e o modo como o Modernismo abalroou a poesia de então. E, por extensão, para entender a poesia que se faz hoje no Brasil. Alguma Poesia é uma leitura obrigatória e uma influência indelével nos jovens aspirantes a poeta dos últimos 40, 50, 60 anos.

Basta vermos o “Poema de Sete Faces” que o abre. “Anjo torto”, “gauche”, “uma rima e uma solução”... tudo isto saiu do livro para entrar no idioma. Precisava um bocado de coragem para chamar isso de poema, não porque não o seja, mas porque seu arranjo formal, sua dicção e seu olho enviesado sobre o mundo não são o que se esperava dos poetas de 1930. Pra começo de conversa, o poema não parece ter sequência, coerência, nem progressão. São sete fragmentos colados. Recordo a primeira impressão que tive quando o li há mais de quarenta anos: “sete retalhos de cores diferentes costurados uns nos outros”. Como se fossem sete tentativas de começar um poema, que não conseguissem avançar, mas fossem preservadas, por terem algum mérito próprio.

Os fragmentos se alternam entre confissões emotivas na primeira pessoa e flashes captados com certo distanciamento, certa neutralidade afetiva. As estrofes 2, 3 e 4 são como ceninhas de um videoclip urbano em que se confundem casas, homens, mulheres, bondes, pernas, bigodes, óculos. São o mundo de fora do poeta, o mundo que ele vê passar e que avalia com certo distanciamento brechtiano. É preciso um esforço de imaginação para pensarmos que o “homem atrás dos óculos e do bigode” poderia ser, talvez seja, o próprio poeta, vendo-se com olhos alheios, vendo a si próprio como rosto e mistério mudo.

Mistério que não existe na estrofe 1, sua auto-ironia, sua impudência juvenil de ousar ser do contra; na estrofe 4 e seu surpreendente lamento de auto-comiseração, que soaria até patético se não estivesse contrabalançado ou diluído pelas demais estrofes; pela melancolia e altivez solitária da famosíssima penúltima estrofe; pelo exemplar estranhamento da estrofe final, na qual tanto podemos interpretar a voz do poeta dirigindo-se a um amigo ou ao próprio leitor, quanto a voz de alguém dirigindo-se ao poeta.

Fernando Pessoa disse, celebremente, que toda poesia lírica é poesia dramática, todo sentimento é inventado, toda vez que o poeta diz “eu” está falando de outra pessoa, até quando julga sinceramente estar falando de si mesmo. Drummond, contemporâneo (à distância) de Pessoa, abriu seu livro de estréia com estes fragmentos que parecem pertencer a sete heterônimos. E o resto da vida tentou (ao inverso do poeta português) reunir todos sob um só nome e um só rosto.