sábado, 11 de abril de 2009

0959) Quem foi o Padre Azevedo? (13.4.2006)


(a máquina do Padre Azevedo)

Dia 13 de março passado, garimpando nas bancas de livros usados junto da Estação Carioca do metrô do Rio, encontrei um exemplar do livro Um Inventor Brasileiro, de Ataliba Nogueira (São Paulo, Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1934), dedicado ao Padre Francisco João de Azevedo, nascido na Paraíba em 1814, e tido por muitos como o inventor da máquina de escrever. Durante a leitura fiz uma rápida consulta ao Google, e descobri que o jornal A União havia publicado no dia 4 de março passado uma matéria de Hilton Gouvêa dedicada ao Padre Azevedo.

Azevedo nasceu na capital paraibana, estudou no Seminário de Olinda e foi professor em cursos técnicos no Arsenal de Guerra do Recife, onde se fabricavam máquinas e equipamentos do Exército. Seu protótipo de máquina de escrever, quase todo em madeira, foi exibido na Exposição Provincial de 1861, em Pernambuco, e na Exposição Geral do Império do Brasil, no Rio de Janeiro, a partir de dezembro do mesmo ano. A máquina, muito elogiada pela imprensa, recebeu uma das nove medalhas de ouro concedidas entre os 1.136 participantes (que expuseram 9.962 objetos). Um resultado magnífico.

O que se seguiu foi a mansa tragédia de sempre: o inventor não conseguiu participar em 1862 da Exposição Internacional de Londres, por falta de espaço no local destinado aos produtos brasileiros; não conseguiu sequer produzir um protótipo fundido em metal. Envelheceu, desanimado, e viu depois sua idéia sendo copiada por inventores estrangeiros. Leia detalhes em: http://www.calendario.cnt.br/MAQUINAESCREVER.htm.

Já me referi nesta coluna à sorte melancólica de brasileiros (por nascimento ou por adoção) que se anteciparam a grandes invenções européias mas não conseguiram se fazer ouvir pelos governos ou pela comunidade científica: “Quem foi Landell de Moura?” (25.6.2003), e “Quem foi Hercule Florence?” (22.8.2003). Episódios como estes nos mostram que uma invenção tecnológica requer duas coisas: criatividade individual e ambiente cultural propício. No caso de todos, faltou o segundo item. Santos Dumont conseguiu levar sua invenção à frente porque era rico, morava em Paris e pôde criar por conta própria as condições de que precisava. Ainda assim, perdeu a derradeira batalha, a do reconhecimento histórico, pois os irmãos Wright se impuseram no mundo inteiro (com exceção do Brasil e da França) como os inventores do avião.

Diferentemente da criação artística, que em geral exige recursos relativamente modestos, a invenção tecnológica exige a produção de protótipos para que seja requerida a patente, e, em seguida, o início da produção industrial, mesmo em escala modesta, para que o registro não venha a caducar por decurso de prazo. Não é fácil hoje em dia, e o era ainda menos no Brasil agrário, cartorialista e retórico do século 19. Dizer isto não serve de consolo à memória dos inventores, mas no caso de Florence, Landell e Azevedo, eles tiveram sucesso; quem fracassou foi o país.

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