A narrativa de mistério muitas vezes se confunde com o romance policial. A sua essência, contudo, não depende da existência de um crime ou de uma investigação policial. Falando de um modo bastante genérico, o elçemento “mistério” pode ser introduzido em qualquer tipo de narrativa, de qualquer gênero literário.
Existe o mistério de horror (como em Stephen King). Existe o mistério romântico (Dom Casmurro). Existe o mistério de ficção científica (Stanislaw Lem, Philip K. Dick). O mistério existencial (Paul Auster, Franz Kafka). Cada tipo de ficção pode acolher dentro de si histórias onde o mistério é o motor principal.
O mistério pode ser, por exemplo, um fato do passado que nunca se esclareceu direito. Uma “história mal contada”; aqueles segredos de família em que ninguém tem coragem de mexer, porque vai desagradar a X, ou manchar a reputação de Y, ou provocar a fúria de Z... Os anos passam, os segredos sussurrados vão se acumulando, as versões fantasiosas se multiplicam... Até que um dia algum personagem pensa: “Vou acabar com esse trauma” – e geralmente o romance é a história desse personagem, e do que ele mais cedo ou mais tarde vai acabar descobrindo.
Pode ser a história de uma pessoa que desapareceu para sempre. Desaparecimentos misteriosos aparecem muito na literatura policial, mas nem todo sumiço implica num crime. Pessoas podem sumir por acidente, doença, vontade própria. Quantas histórias não existem, na vida real, de crianças que sumiram durante um passeio na floresta, uma viagem de férias, um acidente em que sua família morreu mas o corpo da criança nunca foi achado?
Inúmeras histórias circulam aí sobre pessoas que se apresentam, anos depois, dizendo: “Aquela criança sou eu.” É verdade? É golpe? É este o mistério.
São casos famosos, como o da Princesa Anastasia, a filha do Czar que foi fuzilado pela Revolução Bolchevique. Ou o caso do “herdeiro Tichborne”, na Inglaterra: um rapaz rico eesapareceu num naufrágio, e anos depois um indivíduo se apresentou dizendo ser ele. Durante anos a Inglaterra não discutiu outra coisa. (Pelo que eu li, tenho certeza de que era golpe, mas a família estava ansiosa para acreditar.)
Aqui mesmo no Brasil, há uma verdadeira enciclopédia de casos de crianças sequestradas ou de bebês roubados (ou involuntariamente trocados) nas maternidades. São mistérios. Não são necessariamente histórias de crime. Mas as pessoas têm fascinação por isto.
E as crianças órfãs, abandonadas por pais que ninguém sabe quem são? Toda novela ou série de TV tem um personagem assim, para ser envolvido em mistério e proporcionar lá na frente uma revelaçção surpreendente.
(A Gruta das Conchas)
Há lugares que são misteriosos, por serem resquícios de civilizações que não existem mais (as Pirâmides, as cidades em ruínas na jângal, etc.). Ou então por serem exemplos em pequena escala, mas não menos misteriosos, como a “Gruta das Conchas” (“Shell Grotto”), na Inglaterra, gruta subterrãnea casualmente descoberta por um agricultor, com centenas de metros quadrados e paredes completamente cobertas por milhões de conchas do mar. Quem fez isto? Não se sabe.
Outro tipo de mistério que fascina a todo mundo é o desaparecimento de um objeto valioso. Uma jóia, uma pintura, um documento, uma peça de mobília... O valor não precisa ser monetário, pode ser valor afetivo, mas é o bastante para motivar uma busca e para que esse mistério mobilize uma aventura: Como desapareceu? Por ação de quem? Com que propósito? Foi destruído ou ainda existe, oculto em algum lugar? Histórias assim são capazes de gerar romances com centenas de páginas, se o autor souber imaginar um conjunto adequado de circunstâncias e explorar, pouco a pouco, as investigações, e a possível solução final.
Tudo que nos deixa perplexos e que pode gerar uma boa história faz parte da literatura de mistério. (E aqui, vejam bem, estou incluindo a literatura de ficção e a de não-ficção: reportagens, relatos históricos, livros investigativos, etc.).
("Os Dançarinos")
Histórias que se baseiam em mensagens cifradas são histórias de mistério. O exemplo clássico é “O Escaravelho de Ouro” de Edgar Allan Poe, um dos primeiros exemplos em que a criptografia (que era uma das obsessões de Poe) serviu deelemento essencial para uma história de aventuras. Algo que seria imitado por Conan Doyle em “Os Dançarinos”, e que Jules Verne iria reutilizar anos mais tarde. Várias aventuras de Verne se iniciam com a descoberta de um criptograma que, depois de decifrado, projeta seus heróis numa aventura. Para não falar nos livros de Dan Brown e seus seguidores.
Há também o recurso ao “mistério retrospectivo”. Algumas histórias, aparentemente comuns, sem mistério algum, fazem no final uma revelação bombástica – ou uma sugesto sutil – que de repente lança uma luz diferente sobre tudo que foi mostrado até então. Nas últimas páginas, há uma Revelação. O livro se encerra. O que fazemos? Voltamos ao começo e passamos a reler a história, à luz desta informação nova, e descobrimos mil e uma pistas, mil e uma dúvidas novas.
Em “Exame da Obra de Herbert Quain”, Borges fala de um romance policial aparentemente comum, mas nele há uma frase que, se o leitor lhe dá a devida atenção, obriga-o a uma releitura da história e à descoberta da verdadeira solução.
Mistérios retrospectivos aparecem em Grande Sertão: Veredas (Diadorim é mulher), Blade Runner (Rick Deckard pode ser, ele próprio, um andróide), Testemunha de Acusação de Agatha Christie (o réu é culpado; perdoem o spoiler, mas a narrativa vale a pena), Lolita de Nabokov (a garota traía Humbert o tempo todo com Clare Quilty), e assim por diante.
Aliás, um argumento interessante em favor do romance policial clássico (tipo Conan Doyle ou Agatha Christie) é que os bons romances oferecem uma segunda leitura superior à primeira. Somente ao saber “quem é o criminoso” somos capazes de perceber, retrospectivamente, as mil pequenas alusões e pistas que o autor, exercendo o “fair play”, distribuiu ao longo da história.
Temos também o tema do personagem misterioso, ou invisível. Algumas narrativas se baseiam na existência de um personagem que é mencionado o tempo inteiro, por todo mundo... mas nunca aparece. Tudo se atribui a ele, tudo depende às vezes de uma opinião ou de uma ordem dele, mas isso só é conseguido de forma indireta. Os outros personagens façam longamente a seu respeito, dão opiniões, louvam ou queixam-se; mas ele nunca aparece. E no entanto tudo na história gira em torno dele.
É o caso de Rebecca, do romance homônimo de Daphne Du Maurier; do elusivo Almotásim, em « A aproximação a Almotásim” de Jorge Luís Borges; do enigmático Godot, de “Esperando Godot” de Samuel Beckett.
A ficção científica nos acostumou a novos tipos de mistério. Entre eles, um dos que mais me fascinam é o das macroestruturas cósmicas. Alguns críticos já as chamaram, com bom humor, de “grandes objetos mudos” ou “grandes objetos burros” (“Big Dumb Objects”). Estas histórias descrevem a descoberta, por astronautas humanos, de “macro-estruturas” artificiais, de dimensões gigantescas e enorme complexidade tecnológica, deixadas ali por alguma raça de tecnologia muito superior à nossa. São verdadeiras civilizações espaciais, mas estão abandonadas e vazias. Quem as construiu? Quando? Pra quê? Como funciona tudo aquilo?
O mistério, basicamente, consiste numa informação incompleta, ou misturada, que requer clarificação, requer resposta. Se o mistério for bem apresentado, ele gera na mente do leitor uma porção de hipóteses, uma porção de expectativas diferentes, tentativas de explicação para aquilo que parece inexplicável. E o leitor não descansa enquanto não souber qual é a explicação verdadeira.
E com isto chega-se à bifurcação final deste gênero. É uma bifurcação definida pelo que eu chamo de “Protocolo da Resposta” e “Protocolo da Pergunta”. No primeiro caso estão as histórias que prometem ao leitor: “vai ter uma resposta certa no final, fique firme, continue lendo e todo o mistério vai ser esclarecido”. O romance policial detetivesco se baseia nessa certeza de que “tem uma resposta à nossa espera”.
Mas existe, por outro lado, o “Protocolo da Pergunta”, que é mais arriscado e talvez mais difícil de manipular. Nas histórias regidas por este protocolo, não há resposta final. O enigma se mantém. Os personagens alcançam, no máximo, soluções parciais para o mistério, mas a maior parte dele permanece no escuro. E isto faz com que uma parte do público saia irritada do cinema ou largue o livro com aborrecimento, depois de ler a última página. “Cadê a resposta que eu esperei todo este tempo?”, pergunta o leitor insatisfeito.
Por isso é importante cercar o livro (ou o filme) de certas sinalizações, para prevenir o público a respeito do que esperar. Não prometer que há uma resposta. Histórias baseadas no “Protocolo da Pergunta” são aquelas que anos depois todo mundo continua discutindo com o mesmo afinco. É um mistério que nunca se resolveu. Cada pessoa tem sua hipótese. O autor fica em silêncio. E o mistério continua.
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No próximo sábado, 6 de junho, das 13 às 15:00, estarei discutindo este tema, presencialmente, como convidado da Feirinha do Livro do Largo de Santa Rita, no centro do Rio de Janeiro, ao lado da Av. Visconde de Inhaúma. É uma feira de editoras independentes, com palestras, debates, lançamentos de livros, em mais um esforço para revitalizar o Centro do Rio.
É uma “workchope”, como dizem os organizadores, com inscrições pagas e direito a um chope. Inscrições e informações: (21) 9-8816-7955.


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