quarta-feira, 10 de junho de 2026

5238) Quatro filmes de maio (10.6.2026)



 
Como faço de vez em quando, vai aqui um pequeno balanço de filmes vistos recentemente. Hoje em dia saio pouco, e em geral vejo filmes em streaming, ou em DVDs comprados, ou cópias emprestadas por amigos.


TESTAMENT, de Lynne Littman (EUA, 1983)
Uma família enfrenta o “day after” de um ataque nuclear aos Estados Unidos, numa pequena cidade da Costa Oeste. Depois que uma bomba atômica cai em San Francisco (onde o pai trabalhava), a esposa e os filhos, junto com os vizinhos, tentam organizar a vida, poupar energia, poupar comida, e enfrentar a morte lenta causada pela poeira nuclear. 
 
O filme não se volta para as hecatombes militares; a guerra é algo distante mas a radiação é fatal. A narrativa acompanha os problemas miúdos e preciosos de quem, vendo todo mundo morrendo devagar ao seu redor, tenta aproveitar e organizar melhor os dias de vida que lhe restam. 
 
É um filme raro no subgênero “pós-apocalipse” da ficção científica. A esta altura, ninguém o chamaria de FC, embora lide com uma premissa surgida na FC da época da Guerra Fria: “Como serão os dias seguintes a uma guerra atômica?”. E é um filme dirigido por uma mulher, e com a atenção resolutamente voltada para o interior de uma casa, a perplexidade de uma dona-de-casa comum, e de uma família que fica nas mãos dela depois que o mundo começa a se acabar. 
 
O elenco é todo excelente, e não tem ninguém famoso. Eu conhecia apenas o ator que faz o pai (William Devane; ele faz o ladrão de jóias em Trama Macabra, de Hitchcock). A atriz principal, Jane Alexander, é o centro do filme, não deixa o filme afrouxar um instante sequer. As crianças são excelentes. É um filme que dói no coração, porque vemos a poeira radioativa pousando nos móveis, no chão, nos objetos...  Sabemos que todas aquelas pessoas estão condenadas, mas mesmo assim elas encenam pecinhas infantis no teatrinho da escola, elas pedem socorro pelo rádio, elas folheiam os próprios álbuns de fotografias, enquanto ao seu redor tudo vai se esgotando: energia elétrica, água potável, comida enlatada, pilhas de rádio... 
 
Acho que um filme assim é uma contrapartida necessária a filmes mais grandiloquentes como “The Day After”, que mostra os horrores da destruição das bombas propriamente ditas. 
 



 
CITY OF LIFE AND DEATH, de Lu Chuan (China, 2009)
Eu me lembro que quando eu era pequeno lia, nas revistas e livros de História, referências à “guerra sino-japonesa” e ficava pensando por que motivo chineses e japoneses entrariam em guerra, já que eram tão parecidos uns com os outros. Vendo este filme, essa idéia me voltou à cabeça. Hoje sei (ou imagino saber) por que motivo estavam em guerra, mas continuo me perguntando: por quê, se são tão parecidos? A mesma pergunta, aliás poderia ser feita diante de filmes como “E o Vento Levou” ou “Guerra e Paz”. Somos todos tão parecidos, e viveremos eternamente em guerra.
 
O filme conta a captura de Nanjing pelas tropas japonesas, e as semanas de massacre que se seguiram. Tem tela larga e fotografia em preto-e-branco, com excepcionais cenas de multidão. E é muito cruel ao mostrar, mais do que o absurdo da morte, o absurdo da vida: as negociações de poder entre os sobreviventes, as mil e uma sacanagens e humilhações impostas aos perdedores, as traições, as vergonhas de quem tenta sobreviver a qualquer custo. 
 
É curiosa a presença, no meio dessa guerra totalmente oriental, de um pequeno grupo de alemães nazistas, detentores de um certo poder político (afinal estão ganhando a guerra, que precede de pouco o início da II Guerra Mundial), mas veem-se meio perdidos no meio daquele terremoto que ajudaram a desencadear e que foge cada vez mais ao seu controle. 
 



A PRAIRIE HOME COMPANION, de Robert Altman (EUA, 2006)
Robert Altman gostava de dirigir de vez em quando filmes com elenco numeroso, distribuído entre dez ou quinze personagens igualmente importantes, com a narrativa focalizada num ambiente profissional (Prêt-à-Porter, Nashville) ou social (Gosford Park). São filmes onde vários fios narrativos vão se entrelaçando uns aos outros, interferindo-se, e a câmera passa de um pequeno grupo para outro, amarrando tudo, numa história bem montada que às vezes decorre em poucos dias, às vezes num dia apenas. 
 
É o caso deste filme sobre um famoso programa de rádio com música country, que ficou décadas em cartaz. O roteiro mostra o programa em sua última audição, com platéia cheia e transmissão ao vivo pelo rádio. É o ambiente “de época”, de um tempo em que o rádio era o grande ponto de encontro das pessoas, antes da televisão. Números musicais, piadas, propaganda, conversas vão se sucedendo no palco, diante dos microfones, enquanto o roteiro acompanha as intrigas de bastidores, as fofocas de camarim, as disputas, as vaidades. 
 
Há um número impagável em que a assistente não consegue encontrar a página com o texto de uma propaganda e o apresentador fica improvisando qualquer coisa durante minutos a fio diante do microfone. Rádio sem improviso não é rádio. Rádio com improviso é bicicleta ladeira abaixo.  
 



A GHOST STORY, de David Lowery (EUA, 2017)
Este filme é anunciado como filme de terror, mas de terror tem muito pouco. O que é? É o que chamávamos “história de alma”, de alma do outro mundo, espírito de gente morta. Um personagem morre logo nos primeiros minutos e daí em diante se transforma nesse lençol meio assustador que aparece no cartaz. Não fala, não interfere, apenas volta para a casa onde a viúva ficou, abatida... mas ele é invisível a todos. Ninguém percebe sua presença, e ele se torna aquela testemunha impotente do seu próprio pós-morte. 
 
A idéia pode não ser a mais original, mas a direção de Lowery é personalíssima. Não há sustos (bem, há um ou outro apenas). Os planos são longos, tarkovskyanos, mas, curiosamente, não são tediosos, porque aquela presença ectoplásmica injeta uma tensão de tudo-pode-acontecer até na cena em que a moça come sozinha uma torta durante longuíssimos minutos, observada pelo fantasma do marido. 
 
A música é minimalista e espantosamente adequada para nos dar a idéia de um tempo que escapa por entre os nossos dedos. Um morto (percebemos agora) não tem noção da passagem do tempo, que é um instinto físico, animal. Uma alma não tem isso. A alma pisca o olho e a casa está vazia de móveis. Pisca de novo, e tem uma família nova morando em seu lugar. Minutos parecem horas. Décadas parecem segundos. É um dos poucos filmes que conseguem nos transmitir um ponto de vista plausível de uma consciência, pós-morte, conseguindo ainda captar alguma coisa do mundo carne-e-osso. 

O escritor Mike McCormack é autor de um romance (sem relação com este filme), Solar Bones, cujo narrador é um fantasma. O livro consta de uma frase contínua, por centenas de páginas, sem ponto final. Diz o autor: “A mim parece óbvio que um fantasma não sabe o que fazer com um ponto. O ponto final é algo totalmente alheio à sua experiência.”  É bem por aí. 

 




 
 






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