quarta-feira, 7 de junho de 2023

4949) Contracapa de Midjourney (6.6.2023)



(Joan Miró: A Fazenda)


&   o choro é livre – e a gargalhada também

 

&  uma multidão com texto e com ensaio seria capaz de muita coisa

 

&  a força da gravidade é uma mistura de ação presencial e wi-fi

 

&  o espelho: tem sempre esse fantasma pronto, à minha espera

 

&  podem fazer o que quiserem com meu boneco de cera; não ficou parecido

 

&  você só sabe a honestidade de alguém se lhe fizer uma proposta irrecusável

 

&  uma foto preserva um segundo do passado e afunda o resto nas trevas do esquecimento

 

&  tem gente que sempre repete as frases que diz, como se quisesse deixá-las em negrito 

 

&  entre outras variantes clássicas, tem se projetado ultimamente o conceito de “a boçalidade do Mal” 

 

&  nada como o silêncio luminoso das noites do sertão 

 

&  tem gente que lava o rosto e joga a água fora sem nem agradecer a ela 

 

&  classificar as coisas assim é como dizer que os biscoitos se dividem em redondos e quadrados – e só 

 

&  certos filmes antigos têm o encanto dos navios naufragados, das catedrais em ruínas 

 

&  o bom enxadrista é o que consegue usar as peças do adversário para fazer sua jogada 

 

&  nos fuzilamentos vendam-se os olhos dos prisioneiros para proteção dos executores 

 

&  a paz não pode destruir a guerra, mas pode diluí-la 

 

&  certos textos parecem radioativos, basta ler aquilo e o pensamento fica envenenado 

 

&  o bom cineasta filma um pavão em preto-e-branco e ninguém percebe esse detalhe 

 

&  o futebol hoje é assim: “Autoriza o árbitro!” – e “Desautoriza o juiz do VAR...” 

 

&  onde subiu prédio sofreu pedreiro 

 

&  o Tempo não é algo que se desloca; ele vibra, ele estremece 

 

&  liberdade hoje em dia é feito um colírio que a gente leva no bolso e pinga umas gotas quando sente falta 

 

&  uma pedra no meio do caminho incomoda menos do que uma pedra no sapato 

 

&  a elevação dos oceanos talvez liberte, talvez sufoque a população dos aquários 

 

&  a pena é mais poderosa do que a espada, porque pode desenhar uma balança em que ela tem mais peso 

 

&  todo jatinho de empresários é um Cavalo de Tróia

 

&  em vez de proibir alguma coisa, deviam ridicularizar; seria mais eficaz 

 

&  ensinar não é iluminar, é acender 

 

&  um Deus não é onipresente se o seu castigo vai mais longe que o seu perdão 

 

&  ser honesto não é uma fraqueza, embora muitos só sejam honestos porque lhes falta a força de não sê-lo 

 

&  ela tinha a nobreza das pessoas feias que só podem contar consigo mesmas 

 

&  um homem vai ser fuzilado mas pede para esperarem o nascer da lua cheia 

 

&  não, o Romance não está morto, apenas num estado agudo de catalepsia mental 

 

&  todo mundo tem um olho que enxerga melhor do que o outro 

 

 

 


sábado, 3 de junho de 2023

4948) Democracia e linguagem (3.6.2023)





Na cabeça de muita gente, democracia é um regime onde eu tenho a liberdade de fazer o que me dá na telha sem que nenhuma autoridade interfira. Ou, como dizia impagavelmente Millôr Fernandes, “ditadura é quando você manda em mim, e democracia é quando eu mando em você”.
 
Nem vou entrar no campo minado da política, mas tento às vezes aplicar esse conceito abstrato, “democracia”, ao uso da língua e da linguagem oral, até porque não mexo com outra coisa o dia inteiro, o ano inteiro. A linguagem é a água onde eu sou peixe.
 
Sou escrevedor de profissão, e inúmeras vezes fui obrigado a negociar com revisores de jornais, revistas, editoras de livros, editoras de enciclopédias, editorias de websaites e de publicações on-line, porque certas coisas que eu havia escrito não passam no crivo gramatical e ortográfico da publicação.
 
Em geral, o revisor passa o trator por cima do meu texto, arranca tudo que lhe parece erva-daninha e planta em cima suas flores de estilo. Só vejo o resultado quando abro o livro impresso. (E de vez em quando, ao constatar a mudança que foi feita, preciso ficar dois dias de cama, com bolsa-de-gelo sobre a testa.)
 
Outras vezes, recebo as provas, antes do livro ser impresso. Em geral, concordo com 90% das mudanças feitas pelo revisor, porque são apenas maneiras diversas de dizer ou escrever, algo que (como se diz em Campina ) “não inflói nem contribói”, então eu deixo passar. Outras vezes são correções (que acabo aceitando) de coisas que eu escrevo do meu jeito. A palavra “idéias”, por exemplo – não há quem me faça escrever “ideias”. Já me pediram explicações, e dei-as.




Mas não brigo por causa disso! Quer corrigir, corrija. Às vezes, contudo, o que parece “erro” é necessário. No texto literário, principalmente. Imaginemos o seguinte diálogo:
 
– Oi, Zé. Tu é o caba que faz amplificador?
– Não, isso é Dóda, lá das Malvina. Tu já falasse com ele aqui.
 
Passando nas mãos de um revisor cauteloso, este pequeno fragmento de campinensês pode ficar horrorosamente assim:
 
– Oi, Zé. Tu és o cabra que faz amplificadores?
– Não, esse é Dóda, lá das Malvinas. Tu já falaste com ele aqui.
 
Ou seja, esses esparadrapos gramaticais desconsertaram o texto e desconcertarão o leitor.
 
Oswal de Andrade bradou pela “contribuição milionária de todos os erros”. Eu concordo, mas salientando que esse “erros” terá que vir entre aspas, forçosamente, porque não se trata de erros e sim de ruídos. Todos nós emitimos ruídos (no sentido de “distorções, interferências, modificações não-intencionais em algo que tem uma forma padrão”) quando falamos nossa linguagem pessoal.
 
E aqui vem um termo importante: existe a linguagem social e existe a linguagem pessoal. E a democracia da linguagem precisa atentar para as duas, porque o equilíbrio harmônico precisa dessa tensão permanente entre “o jeito que todo mundo fala” e “o jeito que eu falo”. Um não pode jamais cancelar o outro.
 
Se eu quiser, eu posso inventar uma linguagem que só eu conheça. Ninguém pode me proibir. Aliás, historicamente, há milhares de indivíduos que tentaram criar um idioma artificial – consultem Babel e Anti-Babel, de Paulo Rónai, um delicioso resumo dessas excentricidades. Homens (é engraçado, não tem nenhuma mulher) que dedicaram a vida a inventar uma língua sem defeitos.




Aí surge o “pobrema”. (Olha aí, um bom exemplo de distorção intencional – “pobrema” é uma forma particularizada da palavra-coletiva “problema”, pronunciada num tom de auto-ironia, bom-humor, descontração.)
 
Se eu invento uma linguagem minha, ainda que seja um pequeno glossário, como vou me comunicar?!  Acho que todo mundo conhece uma variante do conto popular em que um garoto é maltratado por um padre (que exige ser chamado de “papa-hóstia”) e depois de várias lições vocabulares ateia fogo a um chumaço de algodão no rabo do gato e grita:
 
– Acuda, seu papa-hóstia, dos braços da folgazona! Venha ver o mata-rato, com clareiamundo norabo; se não acudir com abundância, leva o demo a traficância!
 
A história completa, junto com uma divertida versão inglesa, está comentada aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2016/10/4175-acuda-seu-papa-hostia-31102016.html
 
Eu posso decidir chamar qualquer coisa por qualquer nome, mas se começar a usar esses nomes fora de casa vou ter que me explicar – e ensinar aos outros. E quem sabe possa até ter a sorte de muitas pessoas, que inventaram uma palavra e a palavra “pegou”. Ouvindo Rita Lee estes dias, pus-me a pensar em qual teria sido o primeiro grupo social em que a palavra “auê” pegou e começou a ser usada, com a multiplicidade de sentidos que tem hoje (rolo, confusão, celebração, algazarra...).




Já conversei sobre a questão da “linguagem neutra”, reivindicada por vários grupos sociais, para quebrar o binarismo sufocante de idiomas como os latinos que (de certa forma) sexualizam tudo. Já vi muitas crianças quebrando a cabeça e perguntando aos pais: “Por que é que árvore é mulher e mato é homem, pé é homem mas mão é mulher, faca é mulher mas garfo é homem, chão é homem mas parede é mulher?...”
 
Essa formulação homem-mulher está mal feita, mas é o primeiro recurso comparativo de centenas de milhões de pais sofredores, tias, avós, que se veem obrigados a avalizar os despautérios do idioma, e a sugerir lógica onde ela não existe.
 
A linguagem neutra é sociologicamente necessária, porque exprime um protesto.  Toda linguagem que exprime um protesto sofre repressão e angaria simpatias, pelo menos a minha. Os fundamentos gramaticais são questionáveis, mas dane-se, os fundamentos gramaticais de “pobrema” também são. A linguagem neutra, que tantas vezes soa incômoda, deslocada, contraditória, exprime a posição emocional e existencial de quem se sente, no mundo, incômode, deslocade, contraditórie. (Não sei se é assim – valha como exemplo.)
 
Vai colar? Não vai colar? Dirá o tempo, que mesmo assim nunca diz a última palavra, pois ambos, tempo e palavras, existem justamente em função de sua renovação constante, pela pressão de quem precisa.
 
Eu não uso linguagem neutra porque de idiossincrasias já me bastam as minhas, que são muitas; mas não por ser contra ela. Dou a maior força. Para que ser contra uma deformação da língua no sentido de mais expressividade? (Haveria problema com ela – e aqui fala o escritor de FC – se numa sociedade futura a linguagem neutra, ou alguma equivalente, fosse imposta por um Estado totalitário, ou por uma Inteligência Artificial politicamente-correta e roboticamente bem-intencionada, hipótese que já brota no horizonte.) 
 
Por força de trabalhos simultâneos, que fazem o meu dia passar rápido, tenho lido muito dois dos meus autores preferidos, Ariano Suassuna e Guimarães Rosa. São dois modelos de linguajar idiossincrático. Ariano tinha um exemplo muito bom para isso. Na opinião dele, a língua escrita precisava estabelecer uma versão-oficial das palavras, mas a língua falada ficava a cargo de cada um. Dizia: 
 
Vejam essa cadeira aqui. Quando eu escrevo essa palavra, escrevo “cadeira”, e todo mundo me entende. É a versão coletiva da palavra, serve para todos. Mas quando eu falo, eu pronuncio “cadêra”, porque sou paraibano. É a minha, ou a nossa, versão da palavra, em nossa comunicação oral. E se algum falante do português disser que não entende a pronúncia “cadêra”, bom, aí é muita má vontade, não é não?...
 
E agora voltamos à palavra “democracia”, um conceito mais escorregadio do que muçu ensaboado. É a conjugação (nem sempre fácil, como toda relação conjugal) entre a conveniência coletiva e o interesse pessoal. Uma palavra precisa ter uma forma “oficial”, sancionada pelos gramáticos, lexicógrafos, etimólogos e acadêmicos, e ao mesmo tempo admitir muitas variantes, usadas por grupos específicos, e até por indivíduos isolados.
 
A linguagem precisa de uma forma básica, essencial, consensual, coletiva. Essa base é fornecida pela "norma culta". Mas ela não é uma camisa-de-força, e sim um mero núcleo para que a nuvem de linguagens parciais possa fervilhar ao seu redor.
 
A linguagem precisa da contribuição constante de pessoas, grupos formais e informais. Precisa (por exemplo) de gírias, regionalismos, bairrismos, jargões profissionais ou comportamentais, modismos passageiros. Precisa também de toda a inventividade e força comunicativa da poesia, da prosa, do teatro, da oratória, das telecomunicações. Precisa tirar dos eruditos a carteirada da erudição, e dos incultos o trauma da incultura, e permitir que se exprimam como lhes der na telha. Alguma coisa boa acaba se incorporando. 
 
O indivíduo propõe o novo. O coletivo decide o que vai permanecer.
 
 


 







terça-feira, 30 de maio de 2023

4947) "Editando a Editora": Maria Amélia Mello (30.5.2023)


 
Terminando de ler o livrinho bem cuidado e simpático da coleção “Editando o Editor”, da EdUsp. É uma coleção voltada para depoimentos autobiográficos de editores brasileiros, traçando sua trajetória, sua formação, e a sua atividade como editor de livros.
 
Em seu décimo número, a coleção mudou de nome para “Editando a Editora”... porque coube às autoras Marisa Midori Deaecto e Carolina Bednarek Sobral entrevistar a primeira mulher dessa seleção majoritariamente masculina.
 
Maria Amélia Mello é minha editora, e amiga desde que pus os pés para morar no Rio de Janeiro. Ou até antes disso, porque antes de alugar casa aqui pela primeira vez me lembro de ir visitar o Centro de Cultura Alternativa que ela dirigiu na RioArte (ela fala disso no livro), e de deixar ali meus cordeizinhos e provavelmente meu livro Sai do Meio Que Lá Vem o Filósofo (1980).  



(Maria Amélia Mello) 
 
Somos da mesma geração e não é de admirar tantas coincidências de filmes, músicas, leituras (ponha Cortázar, Campos de Carvalho...). Ela observa que desta geração em diante os cargos editoriais começaram a ser ocupados por pessoas que, como ela, vinham da área do Jornalismo. Comenta o susto que teve ao descobrir o quanto Frida Kahlo era famosa, e que o olho de um editor precisa se estender a todos os campos além das “Letras”:
 
Esta história demonstra que o editor tem que ser ousado, mas também muito atento, fazer as sinapses, as conexões entre tudo que está acontecendo na área cultural. (...) Quando entrei na [editora] Civilização [Brasileira], em 1978, havia pouco diálogo entre as áreas, os livros “apareciam” na minha mesa e ninguém sabia de onde saíam. Os editores vinham da Sociologia, História, Letras. Mas na década de 1990, na época de Frida Kahlo, havia muitos jornalistas migrando para o editorial. E jornalista é assim, tem agilidade, faz pauta, sabe quem pode escrever sobre um determinado tema, vai atrás de uma informação. Coisas que faltavam no mercado, para o qual a entrada dos jornalistas trouxe um novo fôlego. E uma curiosidade: a entrada de mulheres como editoras, em cargos de comando. (p. 123-124)
 
Eu sou principalmente um literato (poeta, contista, romancista) mas já trabalhei em jornal, estudei fugazmente num curso de Ciências Sociais, e sempre achei que o mercado editorial deveria servir a todos estes senhores. A Literatura é vista por uns como uma aristocracia do espírito, por outros como a prima pobre cuja fama se esgota na noite do coquetel. O(a) editor(a) tem que ter essa visão de perceber as diferentes frequências-de-onda de um livro de poesia e um tratado sociológico, de uma antologia de contos e uma biografia, de um romance e um livro de história do cinema. Não se pode tratar tudo isto com os mesmos modelos estatísticos, como se fossem creme dental ou cerveja.
 
Acho o olho jornalístico tão importante quanto o olho científico, o olho entretenimento, o olho show-business e muitos outros, porque em toda área existe a possibilidade de descobrir um livro novo, um livro bom, um livro que vai trazer uma nova voz, um novo enfoque. Não existe só a alta literatura. Existe o livro de boa qualidade, que não vai ser best-seller, mas que vende.
 
A presença de mulheres no mercado editorial é muito um fenômeno da nossa geração. Há muitas editoras (mulheres) que publicaram livros meus, e nesse “publicar” está incluído ler, avaliar, sugerir, mexer, questionar, fazer alertas, propor, dar forma final, divulgar. 

Posso estar esquecendo alguém, mas já tive livros meus editados por Andréa Mota (Pirata), Maria Emilia Bender (Brasiliense), Vivian Wyler (Rocco), Valéria Gauz (Biblioteca Nacional), Bia Bracher (34), Martha Ribas (Casa da Palavra), Clotilde Tavares (Engenho e Arte), Maria Amélia Mello (José Olympio), Renata Nakano (Casa da Palavra), Fernanda Cardoso (Casa da Palavra), Inez Koury (Bagaço), Lucinda Azevedo (Imeph), Sandra Abrano (Bandeirola)... Minha gratidão a todas, pela paciência e clarividência. 
 
Isto sem falar nas que me guiaram em mil outros trabalhos, como redator e tradutor. Algumas, em casas editoriais gigantes, outras em editoras da sala-de-visitas; não importa. 

E não se pense que não tive (e tenho) excelentes editores, talvez até mais numerosos. Far-lhes-ei a devida vênia no melhor momento.  São meus parceiros, eles e elas. Sempre que um leitor argumenta algo comigo nos termos de "Ah, mas o livro é seu", respondo: "O que é meu é o texto; o livro foi a editora que fez". O processo é sempre o mesmo: “isto aqui é bom, vale a pena gastar dinheiro para imprimir cópias numa gráfica e tentar vendê-las ao povo”. 

Existe um “olhar feminino”, um “radar feminino” na escolha e publicação de livros? É bem capaz, mas não me arrisco a defini-lo. Minha teoria básica é de que no plano literário tudo que um homem é capaz de pensar uma mulher também pode, e vice-versa. Para além disso, entram as histórias pessoais, as sensibilidades individuais, as leituras e experiências – que são sempre únicas, são só da pessoa. 



O bom é quando vem a encomenda, como no dia em que Maria Amélia me mandou um email pedindo um livro sobre Ariano Suassuna, que escrevi em dois meses. O ABC de Ariano Suassuna (José Olympio, 2007) não é um estudo aprofundado sobre o criador de Quaderna, mas me parece uma boa introdução ao universo variado e intenso que ele criou. 
 
Diz a editora:
 
Este “novo” editor participa das pautas, das vendas, do marketing, da divulgação, ou seja, de todo o processo. Nós fazemos, muitas vezes, até o preço do livro, pois quanto mais falamos em letras mais nos preocupamos com números. Esse diálogo é saudável, pois assim é possível encontrar o melhor momento para publicar um livro, lançando mão de ferramentas de outras áreas. Existe também a relação com sites, blogs, tecnologias, como as de printing on demand, que vêm ganhando espaço. Tudo para acertar mais nas escolhas, enxugar custos, evitar estoques e focar melhor. (p. 172-173) 
 
Eu tenho a sorte de poder publicar constantemente (um amigo meu diz que eu tenho mais títulos publicados do que exemplares vendidos). E sempre vejo no editor um parceiro de criação. O editor é o primeiro leitor de um livro, e mesmo que uma sugestão dele não seja aceita pelo autor, ela revela uma maneira-de-ler-aquilo para a qual o autor precisa estar atento. 
 
No fim das contas, o trabalho criativo de um editor é como o do antologista, função que exerço de vez em quando. É ficar atento para as coisas boas que aparecem ao longo das leituras, da vivência, das conversas. Perceber a qualidade e a novidade que há em cada uma, o toque diferente, relevante. Anotar muito, fazendo aproximações por diferentes associações de idéias (“isto aqui dá certo junto com aquilo”). Redescobrir coisas boas esquecidas; revelar coisas boas que acabaram de surgir. Compor, com obras alheias, uma vitrine capaz de revelar uma visão própria. 
 
Editar um livro é tratá-lo com mão de jardineiro para que ele floresça. (p. 172) 
 
 







sábado, 27 de maio de 2023

4946) Os virunduns e os mondegreens (27.5.2023)




Sérgio Rodrigues, jardineiro do idioma, publicou há pouco tempo um artigo (“Scooby-Doo dos sete mares”) sobre a importância do “virundum”, uma criação cultural que, tal como o futebol, não teve origem no Brasil mas foi devidamente digerida e reinventada. 
 
O “virundum” é o equivalente brasileiro do “mondegreen” norte-americano: a interpretação distorcida de um verso de música popular, gerando uma frase levemente absurda e em geral muito engraçada.
 
Já comentei aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2009/06/1100-mondegreens-na-mpb-2492006.html
 
Li o artigo com certo atraso, porque não assino a Folha de São Paulo, e para ler os textos dos meus articulistas preferidos dependo sempre de uma alma caridosa que os copie e pregue nas paredes comunitárias de uma rede social qualquer. Viva o dazibao controlvê. 
 
Sérgio defende a importância do virundum como uma fonte inesgotável de prazer dadaísta e alegria poética: 
 
Sim, na terra em que brotou o clássico indiscutível "trocando de biquíni sem parar" (por "tocando B.B. King sem parar", verso da canção "Noite do Prazer", da banda Brylho), a produção de virundums é tão vasta quanto variada.
 
Há quem aprecie a precisão onomástica de "Meu filho Válter Gomes dos Santos/ que é o nome mais bonito" ("Pais e filhos", Legião Urbana) e quem prefira o clima lisérgico de "Ao sair do avião/ Judy pisou num ímã" ("Açaí", Djavan).
 
Os exemplos citados são muitos, e os vários que eu não conhecia romperam minha casca espessa de mau-humor matinal, e me fizeram soltar a gargalhada de quem reencontra o prazer de estar-no-mundo.
 
O “virundum”, registra Sérgio, foi criado pela turma do Pasquim para ironizar o “Ouviram do...” que inicia o nosso hino pátrio. É muito comum a gente ouvir uma música à distância, num rádio ou TV, nm ambiente ruidoso, e entender mal certos versos. Os psicólogos estudam há muito esse processo em que identificamos os sons mais pelo contexto do que pela escuta em si. Ao ouvir mal o que outra pessoa diz, nossa mente pensa algo como “se ele está falando de tal-e-tal assunto, essa palavra que não entendi deve ser X ou Y”. Vamos preenchendo com a opção mais lógica.
 
Quando estamos em país estrangeiro, conversando em outra língua, esse processo é turbinado o dia inteiro.
 
O que há de interessante na arte do virundum é que ela começou com erros involuntários e se transformou numa distorção proposital. Uma guerrilha poética dadaísta. Pessoas portadoras do gene neurótico do trocadilho dedicam-se a inventar por conta própria essas torções num versinho inocente e disponível. E na primeira oportunidade, numa roda de violão ou numa platéia de show, mandam seu virundum a plenos pulmões.
 
Por que?
 
Eu penso que um dos processos essenciais – na invenção poética; na criação artística em geral; mais amplamente ainda, no uso coletivo da linguagem; e quem sabe até no universo mais micro-amplo das sinapses neuroniais – é a possibilidade de dar sentidos diferentes ao mesmo conjunto de estímulos.

Os psicólogos usam como exemplo básico desta processo a imagem do cubo transparente, cujas quinas podem ser vistas mais próximas ou mais afastados do nosso olho, por uma decisão e um esforço consciente de nossa parte.


Claro que é importante haver algumas coisas que só podem ser lidas de uma única maneira, irredutivelmente. Isto é muito útil quando precisamos ter certeza absoluta sobre algo. A Ciência busca isso o tempo todo, num universo repleto de dados contraditórios, fugazes, heterogêneos, em-mudança-constante. A gente precisa poder de vez em quando se apegar a algo com um suspiro de alívio, de olhos fechados, cheios de confiança.

Mas justamente pelo fato de nossa percepção do Universo – e da Linguagem – ser assim, é importante sabermos lidar com as formas ambíguas, indefinidas, contraditórias, mutáveis, estatisticamente imprevisíveis. Porque o mundo é feito basicamente delas.
 
Como usar isso literariamente?


 
Isaac Asimov dizia que seus contos policiais da série “Black Widowers” se baseavam geralmente num detalhe: na história há algo que pode ser visto de duas maneiras, todo mundo vê do jeito errado, e seu detetive, Henry O Garçom, vê do jeito certo. 
 
Ser capaz de ouvir uma frase de duas maneiras é um exercício de imaginação, um exercício de uma função mental que nos obriga a atribuir um sentido, ou um segundo sentido, a alguma coisa. Como a pareidolia, que nos faz ver rostos humanos em formas aleatórias. 



(foto: Jeroen Schipper)
 
Vou recorrer ao meu lugar-comum de sempre, o Surrealismo. Salvador Dali empregava o método que ele chamava de “paranóia crítica” em seus quadros, criando imagens que podiam ser vistas de diferentes maneiras. 
 
Diz Dali em La Femme Visible, 1930 (citado em Maurice Nadeau, Histoire du Surréalisme, 1945, trad. BT):
 
Trata-se de especular com ardor sobre essa propriedade do devir ininterrupto de todo objeto sobre o qual se exerce a atividade paranóica, também chamada ‘atividade ultra-confusional’, que tem sua origem na idéia obsessiva. Esse devir ininterrupto permite ao paranóico, que o testemunha, considerar as próprias imagens do mundo exterior como instáveis e transitórias, para não dizer suspeitas, e ele tem o preocupante poder de permitir aos outros que verifiquem a realidade de sua impressão. 
 
O paranóico é alguém que impõe um excesso de interpretação a fatos banais. Às vezes bastam uma buzina de carro na rua e o barulho do elevador para ele imaginar que agentes da CIA ou da KGB estão se encaminhando para sua porta. 
 
Dali usa a consciência de que os fatos em si estão em mudança incessante (“devir ininterrupto”) e que cabe ao artista impor seu olhar, seu desejo, sua interpretação sobre esse torvelinho em perpétuo movimento. Apontar para uma nuvem e dizer: “Aquilo é um navio a vela”. 



(Salvador Dalí, “Slave Market with Disappearing Bust of Voltaire”, 1940; no Dali Museum, St. Petersburg, Florida)


É apenas a prática deliberada do processo que nos faz (como já me aconteceu) ver na parede um lambe-lambe da banda “Sorriso Maroto” e ler, de relance, “Sobrado Mardito”. 
 
Esse processo criativo, imaginativo, tem a mesma origem que o virundun, o mondegreen: a leitura errônea, proposital, de uma realidade que todos veem de um jeito e que o poeta, esse corruptor de rotinas linguísticas, consegue ver de um modo distorcido, novo, inesperado, hilário, surrealista.
 
 





quarta-feira, 24 de maio de 2023

4945) Cinco começos Bulwer-Lytton (24.5.2023)


O Prêmio Bulwer-Lytton é concedido anualmente a quem apresentar o pior começo de romance, o mais mal-escrito possível. Criar começos assim acabou se transformando num passatempo para escritores, uma espécie de demonstração prática de "como não escrever". 


1

“Never Say I Don’t Know”, de Barbara Scanlan.

“Em todo o Hemisfério Ocidental (e por que não dizer, também no Oriental) milhões de mulheres suspiravam à noite ao serem assaltadas não por assaltantes propriamente ditos, mas pela fantasia de um dia viverem a vida de Tabatha Westinghouse, e de estarem em seu lugar quando ela percorria em seu Rolls Royce (no banco traseiro, evidentemente) as avenidas mais chiques de Paris e Londres, duas cidades onde ela provavelmente não poderia caminhar na calçada sem ser abordada de forma álacre e incrédula justamente por essas mulheres que acompanhavam religiosamente sua vida pelas colunas sociais dos tablóides sensacionalistas dos dois hemisférios, sem saberem, distanciadas que estão, que nem toda vida de mulher de milionário é o mar de rosas ou o colchão de plumas que é descrito nos tablóides, mas que uma vida como esta, como mostraremos a partir das próximas páginas, é composta também, em grande parte, de momentos, dias e anos de renúncia, de angústia, de tensão, e por que não dizer do sonho de se tornar novamente aquela menina camponesa que saltitava alegremente nos prados da fazenda onde foi criada, antes de se tornar a adolescente que lia tablóides e em seguida, num golpe do Destino que também não nos furtaremos de narrar, em Tábatha Westinghouse, a esposa e futura única herdeira do império de Benjamin Westinghouse, o maior fabricante de fraldas geriátricas de todos os hemisférios.”


2

“Tough Guy At Large”, de Skip Driscoll

"Ele estava sentado no chão, apoiando as costas na parede. Arfava. O sangue lhe escorria pelo queixo, pelo pescoço, empapava a gravata de seiscentos dólares. “Vamos”, disse eu, só para dizer alguma coisa, “diga alguma coisa”. Ele mexeu a boca, mexeu, mexeu, cuspiu um dente e rosnou: “Diga a Morello que ele me matou de graça, porque não vou entregar ninguém.” “Não matamos você ainda”, ripostei de pronto. “Você vai morrer bem devagarinho, enquanto entrega todo mundo.” Ele olhou para a mesa. Havia uma automática sobre a mesa. A três metros. Ele não poderia dar um salto de três metros do lugar onde estava, mas mesmo assim fiquei de olho. Ele era guarda-costas de um mobster, e um sujeito não se torna guarda-costas de mobster sendo bobo. Pelo menos é o que acontece na maioria dos casos."



3

“Saudação ao Crepúsculo”, de Anastácio Dalemberte.

"Longas são as noites de primavera quando a atmosfera inteira parece se impregnar do perfume das flores recém-desabrochadas, que, tímidas, abrem-se para o mundo cheias de delicada expectativa de todos os seres que veem na vida um cumular de sensações extasiantes, e se preparam para toda uma existência consistindo apenas no dar perfume e receber adoração. Sim, nessas noites de primavera tudo é possível! Todos os desejos parecem maduros a ponto de serem concretizados, os sonhos transpõem o limiar do real, e todo esse frêmito de nova vida que ressurge está vibrando ao diapasão – não, não recuemos diante desta palavra sagrada – ao diapasão do Amor." 


4

“O x”, de Pietro Barbieri

"A página. A página branca, retangular. Fita-me com seu vazio. Incita-me com sua disponibilidade. Provoca-me com a sua nitidez. Tudo é possível diante da página em branco. E ao mesmo tempo tudo é impossível. Qualquer começo é impossível, no feixe de virtualidades que se superpõem e que mutuamente se cancelam. A página tudo aceita, e ao mesmo tempo tudo proíbe. A página é um reflexo desta minha existência, destes meus 27 anos dedicados mais a ler que a viver, e talvez por isto mesmo ela me lance o desafio, o desafio esfíngico, de me propor mudamente: É isto que queres –  escrever? Por que não vais viver, tu que viveste tão pouco? E no mesmo impulso eu sinto a resposta brotar de dentro de mim: Não, não quero viver, porque viver é um ato filosoficamente gratuito, como já foi demonstrado à saciedade por outros filósofos; eu quero escrever, para provar que escrever me justifica. Página, estás prestando atenção?! " 


5

“Guerra nos Planetas” de J. Wilson Perdigão

"O sistema solar de 47-XFK-38 estava em polvorosa com a notícia, divulgada minutos antes pelos principais meios de comunicação, de que uma Frota Estelar composta de onze torpedeiros, doze naves logísticas, doze naves-mães e vinte e cinco espaçonaves leves de tiro rápido próprias para se locomoverem com rapidez e agilidade numa atmosfera semelhante à da Terra estava se aproximando. As intenções eram visivelmente hostis, visto que foi rapidamente confirmado pelos observadores nos telescópios que era uma frota Remulana, país com que o sistema solar estava em guerra há vários anos, e bastou isso para que soasse em todos os planetas o sinal de alarme e os soldados conscritos que estavam de sobreaviso para qualquer emergência fossem rapidamente arregimentados para pilotar a frota de defesa. A galáxia se preparava para contemplar uma batalha nunca jamais vista! " 

 

 (Ilustrações produzidas com o software de Inteligência Artificial "Bing".





domingo, 21 de maio de 2023

4944) Perry Mason, o melhor advogado do mundo (21.5.2023)




O objetivo do romance policial detetivesco é apresentar um crime misterioso e mostrar o processo do descobrimento da verdade: quem matou, como matou, por quê matou.   
 
Perry Mason, criação de Erle Sanley Gardner (1889-1970), é o advogado-detetive. Certamente não é o primeiro desse tipo, mas é o que de forma mais consistente transformou o tribunal do júri, com sua platéia, no palco-de-teatro que ele sempre tendeu a ser.  Ali a verdade é revelada: sempre de forma melodramática e cheia de suspense, de surpresas, de reviravoltas. 
 
Se o palco de Hercule Poirot e Ellery Queen era a clássica cena final da “reunião dos suspeitos”, Gardner transpôs esse ritual revelatório para o tribunal do júri. E com o ingrediente adicional do conflito, porque Perry Mason não precisa apenas desmascarar o criminoso, mas impor sua narrativa, diante de uma platéia tensa e indecisa, sobre a narrativa de um promotor hostil (o eternamente desafortunado Hamilton Burger).



Gardner é um escritor formulaico. Ou seja: praticamente todos os livros obedecem a uma mesma estrutura, que o leitor conhece, e espera reencontrar. Ele é, contudo, um dos mais hábeis de todos os tempos, porque sua fórmula é larga e flexível, e ele sabia como recheá-la de situações rebuscadas, mas verossímeis.
 
Um detalhe bem típico da ficção formulaica é a repetição de um esquema nos títulos, para indicar ao leitor que são livros em série. Gardner adotou (não em todos os livros, claro) um esquema facilmente reconhecível, de intitular os livros “O Caso do…”, às vezes com repetição de iniciais: The Case of the Lucky Legs (1934), The Case of the Caretaker’s Cat (1935), The Case of the Dangerous Dowager (1937), The Case of the Haunted Husband (1941), The Case of the Drowning Duck (1942)…



(The Case of the Borrowed Brunette, 1946)
 
A fórmula básica de seus enredos é simples. Uma pessoa vem a Mason porque está sendo acusada (ou a ponto de sê-lo) de um crime. Mason acredita na sua inocência, e cai em campo para investigar o crime por conta própria. Seus ajudantes são sua secretária Della Street e o detetive particular Paul Drake, que tem um escritório vizinho ao seu. Mason dá instruções, distribui tarefas, recebe resultados, traça estratégias. 
 
Não há nesses livros os ingredientes sensacionalistas da pulp fiction policial da época. Lembro que ao ler O Caso dos Peixes Dourados me toquei de que era o primeiro livro (depois de dezenas) em que eu via Mason dar um soco num adversário e dar um beijo em Della Street. 


 
Os crimes que Mason investiga não têm a atmosfera gótica e sinistra dos livros de John Dickson Carr ou a complexidade barroca de Ellery Queen. São crimes comuns, praticados em situações comuns, e a façanha do detetive é descobrir a verdade deslindando um novelo de pistas falsas, pistas verdadeiras, mentiras, enganos, versões truncadas, ações inexplicáveis, desculpas implausíveis, gestos irrefletidos, erros de julgamento. 
 
No universo detetivesco de Perry Mason, chega-se à verdade fazendo um levantamento das ações das pessoas, e depois confrontando essas pessoas, no banco de testemunhas, com as próprias contradições. 



Mason é um detetive que usa a oratória como nenhum outro. Não no sentido da “frase bonita”, mas da torção das idéias; das ênfases premeditadas; das alusões veladas que deixam clara uma acusação sem que ninguém possa, tecnicamente, se queixar; das elipses propositais em que ele, sem acusar alguém, induz o júri a uma interpretação.  Sua estratégia é a da gradual imposição de um sentido forçando a platéia a reavaliar os fatos – mais ou menos como no famoso discurso de Marco Antonio no Julio César de Shakespeare. 
 
Gardner era capaz de tirar coelhos e mais coelhos de sua inesgotável cartola de situações. Seu método de trabalho, aliás, favorecia essas narrativas intensamente dialogadas. Em seu rancho, ele tinha secretárias com máquina de escrever, copiando os livros que ele ditava em voz alta. Ele usou longamente o ditafone, modelo de gravador das primeiras décadas do século 20 (gravação em cilindros). 



Na sua biografia The Case of Erle Stanley Gardner (New York: William Morrow, 1946), Alva Johnson compartilha algumas estatísticas do seu sucesso.
 
Seus romances de mistério, em todas as diferentes edições, das de dois dólares às de 25 centavos, tiveram um total de vendas de 4.547.922 livros em 1943, 4.903.685 em 1944 e de 6.104.000 em 1945. (...) Em 1932, ele ditou seu primeiro livro de Perry Mason O Caso das Garras de Veludo, em três dias e meio. (...) Depois, diminuiu esse ritmo para um livro por semana. Hoje (1946), ele desacelerou e produz cerca de um livro por mês. (trad. BT)


Um grande admirador de Perry Mason foi Raymond Chandler, seu colega na revista Black Mask, que no início da carreira se deu o trabalho de datilografar uma história inteira de Gardner, copiando-a, para entender melhor a dinâmica e a tensão de um tipo de narrativa tão envolvente. Anos depois, os dois tornaram-se amigos. Chandler escreveu a Gardner, numa carta de 1946: 
 
Quando um livro, qualquer tipo de livro, atinge uma certa intensidade de performance artística ele se torna literatura. Essa intensidade pode ser uma questão de estilo, situação, personagens, tom emocional, idéia, ou meia dúzia de outras coisas.  Pode ser também uma perfeição de controle sobre o movimento da história, semelhante ao controle que um grande arremessador de beisebol tem sobre a bola.  Para mim, é isto que você tem, mais do que qualquer outra coisa, e mais do que qualquer outra pessoa...  Cada página joga o gancho que nos puxa para a próxima. Eu considero isso uma forma de gênio.  Perry Mason é o detetive perfeito porque tem a abordagem intelectual da mente jurídica e ao mesmo tempo aquele desassossego do aventureiro que não consegue ficar quieto. (trad. BT) 
 
Recentemente, foi lançada uma série com o nome Perry Mason, até interessante, mas que não tem absolutamente nada do personagem original. É outro clima, outro estilo, outras pessoas. A série em si não é ruim, mas seria bem melhor se os personagens (que não têm nada a ver com os de Gardner) tivessem outros nomes. 


 

A série de TV Perry Mason (1957-1966, 271 episódios) foi um grande sucesso na sua época, com Raymond Burr no papel do advogado. Vi vários episódios dela; tem qualidades positivas de ritmo narrativo, bons atores, e roteiros com a tarefa ingrata de compactar em 50 minutos os enredos intrincados de romances de 250 páginas. No seriado, complexas discussões de seis ou oito páginas precisam ser resumidas em meia dúzia de falas. Tudo se torna muito rápido, e quebra uma das principais qualidades folhetinescas do original: o exasperante prolongamento das discussões em que Mason pega um suspeito no banco das testemunhas e arranca dele, gota por gota, as informações que já conhecia, mas que precisam ser reveladas ao juiz e ao público. 
 
O suspense dos livros de Erle Stanley Gardner requer esta condição: longas discussões e interrogatórios, uma escavação implacável das narrativas pessoais, até fazer aparecerem os fatos escondidos sob as palavras. 



O Brasil é o País dos Bacharéis. Somos uma cultura baseada na fala, na conversa, na oratória. Temos uma admiração instintiva por quem “fala bem”, por quem “escreve bonito”. E por quem (como se diz lá em Campina) “tem um papo de derrubar avião”, ou seja, uma conversa capaz de subjugar o impossível. 
 
Perry Mason é o herói da conversa, da argumentação muitas vezes falaciosa, cheia de armadilhas dialéticas, mas sempre com um objetivo: usar todas as armas da retórica para impor a sua “narrativa”. Um Sócrates do tribunal do júri, que, em vez de dizer o que pretende revelar, limita-se a formular as perguntas certas – e a fazer o criminoso, no banco das testemunhas, confessar seu crime. 



quinta-feira, 18 de maio de 2023

4943) A arte do trocadilho infame (18.5.2023)




O melhor livro sobre o trocadilho é o clássico de Sigmund Freud Os Chistes e a Sua Relação Com o Inconsciente (1905). A tradução “chiste” me parece seguir o modelo espanhol; conheci esse livro numa tradução espanhola, e tenho agora o volume VIII da Edição Standard da Ed. Imago, tradução de Margarida Salomão. 
 
No prefácio desse volume, discute-se a tradução do termo original alemão (“der Witz”). Ele deu em inglês “wit” e “joke”, mas grande parte dos exemplos freudianos, sem deixarem de ser “piadas”, “chistes”, “gracejos”, são principalmente trocadilhos, termo que em inglês é “pun”. (Evidentemente, nenhum brasileiro habituado a soltar um trocadilho deixou passar impune essa palavrinha sugestiva.) 
 
Resumindo: todo trocadilho é um chiste, mas nem todo chiste é em forma de trocadilho.
 
Tenho a doença do trocadilho; pertenço a uma irmandade informal de viciados, onde posso incluir sem medo Marcus Vilar, André Aguiar, José Araripe, Henrique Rodrigues, Fraga, e outros calemburistas de reputação duvidosa. O trocadilho é um sintoma neurótico, no sentido de que o indivíduo dotado dessa capacidade sente uma compulsão irresistível de trocadilhar tudo que lhe apareça pela frente, e, pior, de dizer em voz alta cada trocadilho que lhe ocorre. 
 
É difícil, ao viciado, não armar um trocadilho quando as palavras se articulam e se oferecem ao seu ouvido; e é praticamente impossível não dizê-lo. Nenhum trocadilhista autêntico cala um trocadilho que lhe ocorra em público. 




Vou teorizar um pouquinho sobre esta arte, usando um exemplo autobiográfico. Eu teria uns dezoito anos; na casa dos meus pais, vi uma maçã numa fruteira e fui pegá-la para comer. Minha mãe, que já tinha examinado a fruta antes, avisou que ela estava com uma metade podre. “Não tem problema,” disse eu, “eu jogo fora a metade má e como a metade sã.” 
 
É um bom trocadilho, e é por coisas assim (não porque leio Freud) que sou tido por inteligente na família. Mas esta pequena façanha tem características que o trocadilho ideal em geral apresenta: 
 
1) foi um improviso, uma resposta instantânea a uma situação não planejada; 
 
2) houve uma notável economia de meios, ou seja, não precisou de nenhum raciocínio complicado, nem fez alusão a algum elemento externo ao fato em si; 
 
3) a intenção da resposta foi instantaneamente compreensível, sem precisar de explicações posteriores. (Piada explicada é piada perdida.) 
 
Darei como contra-exemplo uma graça contada por Ariano Suassuna, que também manifestava pendor por esse traquejo. Ariano, aliás, eu coloco no rol dos trocadilhistas clássicos, ao lado de Guimarães Rosa, Paulo Leminski, François Rabelais, Millôr Fernandes, Emílio de Menezes, James Joyce, Lewis Carroll e John Lennon.



Foi no tempo em que Ariano era jovem. Ele vinha andando na rua, numa tarde ensolarada e abafada do verão recifense. Um amigo se aproximou, os dois trocaram algumas frases, e o amigo disse:
 
– Olhe, Ariano, eu admiro muito você. Um sujeito íntegro, intelectualmente firme.
 
– Muito obrigado – disse Ariano.
 
– Você é uma pessoa admirável, uma pessoa íntegra. Eu diria mesmo: uma pessoa una.
 
– É mesmo? – disse Ariano, já com alguma coisa coçando atrás da orelha.
 
– E ainda mais nesse calor! – exclamou o amigo, erguendo a mão de encontro à luz do sol. – Esse calor terrível, que faz a gente suar.  E aí... suas, una?... 
 
Ariano fazia um muxoxo de incredulidade e comentava: “Veja bem, o sujeito faz um arrodeio desse tamanho, traz uns assuntos que não têm nenhuma relação, somente pra fazer um trocadilho vagabundo como esse.”  
 
É a contraprova do primeiro exemplo! Porque claramente não foi improvisado (foi pensado em casa e trazido para a rua), precisou introduzir dois temas não relacionados (integridade pessoal, e calor) e mesmo não precisando de explicação adicional fica bem claro que para juntar essas duas palavrinhas o sujeito precisou dar o equivalente a uma volta no quarteirão. 
 
Isso é o chamado “trocadilho infame”. E agora vou propor a segunda parte da minha teoria: se o trocadilho é uma arte, o trocadilho infame é uma anti-arte, uma paródia de si mesma, uma versão grotesca do Belo e uma versão disparatada da Sabedoria. Ou seja: é Arte também. 



Um trocadilho bem–feito nos leva a guardar alguns segundos de silêncio e depois dizer um palavrão admirativo ou um elogio ao geniozinho que o fez. Um trocadilho infame faz o grupo inteiro gargalhar ao mesmo tempo, dar tapa na perna, tapa na barriga, fazer munganga de arrancar os cabelos ou de cortar o próprio pescoço; provoca crises lacrimais de hilaridade e – em suma – reforça a boa-vontade entre os seres humanos, e consequentemente contribui para a Paz Universal. 
 
Pertence ao domínio do trocadilho infame a famosa “charada trocadilhesca”, tão dependente da deformação sonora dos vocábulos que não tem cristão no mundo que adivinhe a resposta. Meu exemplo preferido: “O animal na torre da igreja encontra-se doente. Duas e duas.”  (Resposta: tatu / sino).
 
Ou esta clássica: “Sofre de gagueira o filho do Couto. Não é ele, é o outro. Duas e três.” (Sacadura Cabral). 
 
O trocadilho infame só presta se for uma forçação de barra, um pino quadrado enfiado à força num buraco redondo (ou vice-versa), algo tão desnecessariamente complicado quanto aqueles mecanismos rubegoldberguianos em que dezesseis objetos diferentes são conectados uns aos outros para acender um interruptor de parede. 



(Ilustração: Rube Goldberg)
 
O trocadilho é uma Arte porque implica num mínimo de esforço para obter um máximo de efeito. O trocadilho infame é uma anti-arte porque implica num máximo de esforço para obter um mínimo de efeito. (E portanto, pelas leis do Humor, é uma Arte também.) 
 
(Este texto foi motivado por uma postagem de Alex Antunes no Facebook, onde ele dizia: “Se um baiano tem abdome negativo, ele é chamado de 'meu rei côncavo'?) 



 (cartum: Odyr)