quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

4421) Algumas leituras de 2018 - III de 3 (3.1.2019)




(conclusão)
PROSA CONTEMPORÂNEA

Memorial de Maria Moura (BestBolso) de Rachel de Queiroz foi talvez o romance que mais me impressionou este ano. Maria Moura é uma capitã de jagunços, uma espécie de Diadorim vestindo calças e montando a cavalo, mas sem ambigüidade sexual. O livro conta a criação, ao longo de muitos anos, de um valhacouto de assaltantes nas faldas da Serra do Padre. Os conhecimentos da autora sobre a História do Ceará dão solidez à narrativa, que é precisa e vai no osso. E a prosa é das melhores que o Brasil já deu. Límpida, forte, cheia de sutilezas inesperadas.

A árvore que falava aramaico e Cavalos de Cronos (ambos da Ed. Zouk, Porto Alegre) de José Francisco Botelho, são dois livros de contos onde o mainstream se alterna com o fantástico, e no segundo a prosa se alterna com a poesia narrativa. Botelho (que traduziu para o português obras de Shakespeare e de Conan Doyle, além dos Contos de Canterbury de Chaucer) é um narrador de prosa segura, rica de observação. Seus contos fantásticos exibem um sentimento ominoso que brota ao mesmo tempo da paisagem física e das memórias familiares. Há um pouco de Borges e de Kafka, mas nos melhores momentos ele evoca também os pesadelos ancestrais de Arthur Machen e Algernon Blackwood.

Days of Awe de A. M. Homes foi um volume de contos que traduzi para a Companhia das Letras. A autora tem uma prosa rápida, cortante, excelentes diálogos, e descreve um ambiente californiano meio surreal de tão específico; lembra os quadrinhos de Daniel Clowes. Aquelas histórias de classe média urbana onde uma coisa bizarra e surreal pode acontecer a qualquer instante.

A Colônia de Férias (Alfaguara) de Emmanuel Carrère. Publicado num volume conjunto com O Bigode, é a história de um menino amedrontadiço e fantasiador que se vê ilhado entre gente estranha, sendo que crimes hediondos ocorrem à sua volta. Carrère explora aquela linha romanesca bem francesa de descrever com minúcias todas as alternativas e contra-alternativas de pensamento de uma pessoa apavorada, arrastada por desejos que não compreende e aos quais tenta dar justificações pueris.



LIVROS SOBRE LIVROS

A Barca de Gleyre é um clássico, dois volumes das cartas de Monteiro Lobato para seu grande amigo, o tradutor e escritor Godofredo Rangel. São extensas discussões sobre mil assuntos mas principalmente literatura. Lobato, escrevendo para uma platéia de um só, era mais Lobato do que nunca. Poucos livros são capazes de revelar a este ponto, sem pose, no calor do momento, a paixão pela literatura.

A Marca do Z (Jorge Zahar Editor) de Paulo Roberto Pires conta a história da Editora Zahar, uma das editoras que fizeram a cabeça da minha geração, talvez a melhor editora de ciências sociais para o grande público. Cada capa de livro lido dá vontade de ler de novo. Um livro-homenagem cheio de revelações sobre as idas e vindas do mercado editorial antes, durante e depois dos anos da ditadura militar. E o retrato de um homem que amava os livros.

Em Memória de João Guimarães Rosa (Ed. José Olympio, obra coletiva) e Joãozito (Ed. José Olympio) de Vicente Guimarães são duas obras importantes sobre o escritor mineiro. O primeiro registra as numerosas homenagens logo após sua morte em 1967, inclusive os discursos na Academia Brasileira de Letras, e traz um ótimo material adicional sobre sua vida e obra. O segundo são as memórias de seu tio materno Vicente, que pela proximidade etária foi quase que um primo do escritor. Ambos são essenciais para conhecer o reflexo de sua personalidade e de sua obra sobre seus contemporâneos.

Autobiografia Poética (Ed. Autêntica) de Ferreira Gullar é um balanço comedido e frequentemente autocrítico do grande poeta sobre suas aspirações, paixões, desencantos e guinadas conceituais. Inclui alguns textos de prosa crítica sobre poesia, lúcidos e bem argumentados, como tudo que Gullar produziu.

A Arte do Romance (Companhia das Letras) de Milan Kundera é uma coletânea de artigos sobre a escrita. Algumas opiniões idiossincráticas, boas reavaliações da obra de seu conterrâneo Franz Kafka, de Jacques Diderot, e em geral um conjunto de reflexões que vale a pena ler e considerar.

O flâneur das duas margens (José Olympio) de Guillaume Apollinaire é uma coletânea de artigos do poeta surrealista sobre ambientes e personagens obscuros da Paris dos anos 1910. Poetas, donos de bar, sebistas, vagabundos, todos são retratados com riqueza de detalhes e de observação. Um mundo de cem anos atrás, mas que parece ainda vivo e a cores.

Shakespeare & Co (Casa da Palavra) de Sylvia Beach, é o volume de memórias, também do princípio do século 20, da livreira que se tornou a primeira editora do Ulisses de James Joyce. Como qualquer livro desse tipo, é um desfile de episódios pitorescos vividos por grandes escritores e artistas, suas excentricidades, suas polêmicas, seus pequenos gestos de generosidade ou de mesquinhez.









quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

4420) Algumas leituras de 2018 - II (2.1.2019)




(continuação)


FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA

Foi um ano em que também li pouca FC, por variadas razões, mas teve muita coisa boa.

A Trilogia de Terramar, de Ursula LeGuin (A Wizard of Earthsea, The Tombs of Atuan e The Farthest Shore) era uma leitura que eu vinha procrastinando há anos. Iniciada em 1968, a trilogia foi uma contribuição essencial de LeGuin à formação da literatura de fantasia nos EUA, registrando três fases sucessivas da vida do mago Ged. Uma das contribuições principais de LeGuin foi cristalizar a noção da magia como uma espécie de energia, onde nada se cria, tudo se transforma, cada prodígio tem um custo, e os riscos são proporcionais aos prêmios. Sem falar na prosa da escritora, um inglês límpido e clássico que evita os excessos retóricos de outros bons fantasistas.

Where Late the Sweet Birds Sang, de Kate Wilhelm. A morte de minha ex-professora na Clarion Workshop me levou a pegar de novo e desta vez ler até o fim este romance que já foi chamado, na época, de “o melhor livro sobre clones”. Num cenário pós-apocalipse, Kate imagina uma fazenda de uma família com dinheiro, tecnologia e coragem, onde os humanos-como-nós vão sendo substituídos por clones de si mesmos, a quem cabe viajar para longe do seu vale de origem e examinar o que restou da civilização. Um romance onde se contrapõem, em novas circunstâncias, a Sociedade Racional Antiemotiva e o Selvagem Instintivo-Individualista.

Mnemomáquina de Ronaldo Bressane (São Paulo, Ed. Demônio Negro). Bressane usa a prosa eletrificada, pop e intensa de autores como Thomas Pynchon e D. F. Wallace para falar de uma São Paulo pós-apocalipse, cibernética, delirante, numa cachoeira de pequenos detalhes que vão desde o surrealismo da FC new-wave até o hiperrealismo dos quadrinhos contemporâneos. Aquilo que os críticos chamam de trapézio sem rede, num ritmo de entontecer.

The Magic Toyshop de Angela Carter é o tipo de história que só essa autora seria capaz de levar a cabo: o rito de passagem de uma adolescente que a morte dos pais obriga a viver na loja de artigos mágicos de um tio tirânico e brutal, na companhia de primos que ele acha ameaçadores e fascinantes. Uma mistura de Charles Dickens com Neil Gaiman, com um ponto de vista feminino.

Nova de Samuel R. Delany. Uma space-opera com narrativa intrincada mas coerente, idéias ousadas de física e de astronáutica, prosa brilhante. É o que toda space-opera deveria ser, com personagens “maiores que a vida” mas verossímeis, lances teatrais, perseguições e vinganças ferozes, civilização galáctica bem imaginada. Um romance da mesma estatura de Duna de Frank Herbert ou de The Stars My Destination de Alfred Bester.

Piquenique na Estrada (Ed. Aleph, São Paulo) de Arkády e Bóris Strugátski. Um romance muito bom e que me pareceu uma fanfic de Stalker, de Andrei Tarkóvski, porque compartilha o ambiente e a premissa, mas se prende a outros episódios. (O livro, é claro, é bem anterior ao filme.) Alguns lugares da Terra receberam uma visita breve de alienígenas que nem se deram conta da presença da humanidade e foram logo embora, deixando atrás de si as Zonas, que são verdadeiros campos minados onde acontecem alterações bizarras da realidade.

peixes coloridos de alto-mar (Ed. Kafka, Curitiba) de Paulo Sandrini, é outro romance pós-apocalíptico, num vago Brasil futuro corroído pela chuva ácida e vítima de mutações bizarras. Um pai tenta criar a filha num ambiente brutal e decadente, em meio ao escambo constante de produtos essenciais, ao saque e à sujeira.

Clans of the Alphane Moon de Philip K. Dick é mais um que traduzi para a Suma de Letras. É a história de uma colônia manicomial terrestre, numa lua distante, onde os clãs se dividem pela doença mental de cada um: os esquizofrênicos, os paranóicos, os maníacos obsessivos, etc. As habituais quebras de realidade de Dick aparecem a todo instante, bem como sua mistura da filosofia existencial e a pulp fiction mais escancarada: boa parte das reflexões filosóficas vem de um “lodo viscoso de Ganimede”, uma gosma amarela que se esgueira por baixo das portas e se comunica por telepatia.


AUTORES PARAIBANOS

Se eu fosse botar aqui os cordéis que tenho lido ou relido, ia faltar espaço. Deixando os cordéis de lado, registro estes três títulos, para quem se interessar:

Memórias tristes do Rói-Couro de Pombal, de Jerdivan Nóbrega de Araújo. São as memórias de um freqüentador da zona boêmia de Pombal, contadas na velhice. Tem um viés nostálgico, mas sem embelezamento, e sem condenações morais. A vida de puteiro rememorada com carinho e dor por quem freqüentou puteiros sem culpa. O autor se inspirou em Garcia Márquez e suas Memórias de Minhas Putas Tristes.

Viajantes do Purgatório de Eilzo Matos. Uma cidadezinha do interior, suas fofocas, seu “muído” permanente de sexo e dinheiro, brigas por terras. Um cotidiano bem vivido, bem observado e bem descrito, cheio de detalhes verossímeis e observação de ambientes concretos. Alguém já disse que certas cidades interioranas são como um avião que roda, roda, e não levanta vôo. O mundo descrito por Eilzo Matos é exatamente isso.

As Conchambranças de Quaderna (Ed. Nova Fronteira, “Teatro Completo”) de Ariano Suassuna. A última peça de Ariano reúne três aventuras do anti-herói do Romance da Pedra do Reino, onde Quaderna deixa de lado sua face mística e cósmica e age como um autêntico trambiqueiro, enganador, costurador de intrigas, mentiroso, sedutor de moças entediadas... Mais uma vez é o cotidiano mesquinho e sem horizontes das cidades regidas com mão de ferro pela política, o poder e a corrupção.



(continua)








terça-feira, 1 de janeiro de 2019

4419) Algumas leituras de 2018 - I (1.1.2019)




Aqui vão algumas das minhas leituras de 2018. Podem valer como indicação para quem se interessa pelos mesmos assuntos. Muito do que leio são leituras de trabalho, apenas para informação. Algumas acabam se destacando. Também só comentarei abaixo os livros que li do começo ao fim. Minha leitura é fragmentária: de cada dez romances que começo, só termino um. E não é que os outros nove sejam maus livros; em geral é somente porque naquele momento não estou com vontade de ler aquele tipo de livro. O que leio, leio por prazer. Ninguém me paga e ninguém me cobra.



CULTURA POPULAR

Minhas pesquisas recentes sobre cordel e poesia popular passaram por títulos que recomendo com gosto.

O roteiro do verso popular, do português A. A. Freire, faz um breve apanhado das ligações entre a poesia popular brasileira e portuguesa, dando destaque a alguns personagens pouco conhecidos.  Deveríamos ler mais os registros portugueses sobre esse tipo de poesia. É sempre bom ver o que temos em comum com eles, e o que temos de irreprimivelmente nosso.

História da Literatura de Cordel, de Carlos Dantas, é uma pesquisa detalhada e bem documentada sobre as primeiras décadas de nossa poesia, e os primeiros pioneiros como Leandro, Chagas Batista e Athayde. Surgida de uma tese de doutorado, levanta com bastante rigor nomes, datas, locais, depoimentos e versos. Há pouca coisa escrita sobre esse período de cem anos atrás, e livros com este nível de dedicação são sempre bem vindos.

Uma História do Samba: as Origens, vol. 1 (Cia. Das Letras) de Lira Neto. O que foi dito acima vale também para o samba, embora a bibliografia neste caso seja muito maior. Lira Neto reconstitui episódios cruciais na transição musical do maxixe e outros ritmos para o que chamamos samba, destacando a origem social e os traços de personalidade dos grandes sambistas.

Água da Mesma Onda (Fortaleza: Editora Íria, 2011), de Francisca Pereira dos Santos, reproduz e comenta a correspondência, em prosa e em verso, entre Patativa do Assaré e a poetisa Bastinha. Mostra não apenas a presença meio obscura e discreta das mulheres no universo basicamente masculino da poesia do Sertão, como também o hábito, até hoje pouco analisado pelos estudos acadêmicos, de escrever cartas em versos, o que mostra a disseminação da dicção poética numa população de leitores de poesia que não se atrevem a se apresentar publicamente como poetas.

Almanaque de Brasilidades (Rio, Ed. Bazar do Tempo) , de Luiz Antonio Simas. Título auto-descritivo para um enorme apanhados de nomes, fatos, anedotas, definições, listas, registros cronológicos e históricos. Simas é um grande conhecedor de cultura popular, principalmente do samba e das religiões de matriz africana. Seu almanaque é para ser lido ao acaso, abrindo e colhendo o que se oferecer. (Embora eu o tenha lido do começo ao fim sem queixas.)



ROMANCE POLICIAL

Em matéria de livro policial, li pouco este ano.

O ano novo de Montalbano (Ed. Record) de Andrea Camilleri é mais um título das aventuras do Comissário Montalbano, de uma cidadezinha da Sicília. Desta vez é uma coletânea de contos, com algumas pequenas tramas engenhosamente concebidas, e principalmente os retratos inesperados e verossímeis de personagens miúdos. Já comentei outros livros da série aqui no blog.

Fogo na Carne (“Fire in the Flesh”), Edições de Ouro, de David Goodis, é um romance noir desse autor pouco convencional, que tinha leitores fiéis nos EUA dos anos 1940-50, e na França mereceu biografia e estudos críticos. A narrativa acompanha as conseqüências de um incêndio proposital com vítimas, no submundo de Filadélfia. É uma dessas histórias que decorrem praticamente ao longo de uma noite insone, com perseguições, violência, traições, personagens marginais escapando por pouco à polícia e à própria tendência autodestrutiva.

He Who Whispers de John Dickson Carr é justamente o contrário: um mistério detetivesco à moda clássica, na Londres pós-guerra, com um crime insolúvel do passado sendo deslindado no presente pelo detetive Dr. Gideon Fell e desestruturando as vidas de uma porção de pessoas. Como nos outros mistérios de Carr, muita engenhosidade, prestidigitação narrativa, uma certa concessão à coincidência e a alguma improbabilidade psicológica... Mas, como sempre, uma história de eventos inexplicáveis cuja explicação final nos deixa sem o que dizer.


POESIA BRASILEIRA

À Cidade (Fortaleza, Expressão Gráfica e Editora) de Mailson Furtado, ganhador do Prêmio Jabuti, é um livro-poema esmiuçando os minutos e os anos da vida numa cidadezinha do sertão nordestino, num ritmo recursivo cheio de sutilezas. Um livro promissor de um poeta jovem.

Sertão Japão (Ed. Casa de Irene) de Xico Sá e Grãos de Esperança (300 haikais) (Ed. Chiado) de Wilson Guerreiro Pinheiro são uma parelha de livros sobre a qual ainda pretendo escrever com mais vagar. Os dois poetas usam o haikai para comentar a natureza, as pessoas e a psicologia do Sertão. Xico com mais liberdade formal, Guerreiro com fidelidade estrita ao “modelo guilherme-de-almeidiano” do hai-kai. Ambos com flashes memoráveis de observação e delicadeza.

Anamnese (Ed. Lacre) de Alexei Bueno é mais um livro que me recupera a fé na poesia de forma fixa, as estrofes rimadas e metrificadas, que predominam aqui. Uma forma da qual Alexei é um executor da maior competência, num começo de século cada vez mais entregue às estrofes curtas de versos livres com rima eventual.

Lendário Livro (Editora Rubra) é uma antologia de que participei ao lado dos amigos Toinho Castro, Numa Ciro, Nonato Gurgel, Aderaldo Luciano e Otto. Dicções diferentes de uma trupe com diferentes focos, diferentes repertórios, e muita coisa em comum.

Quero morrer na caatinga (Ed. Areia Dourada) de Aderaldo Luciano é talvez o melhor livro de poemas do bardo de Areia. Um olhar sem ilusões e sem medo diante de um mundo em turvação, vazado em dísticos implacáveis como pancadas de enxada em terra dura.

(continua amanhã)










domingo, 30 de dezembro de 2018

4418) Resoluções para 2019 (30.12.2018)





Fazer como Lionel Messi, que toda vez que é derrubado se levanta e continua a arrancada rumo ao gol.

Fazer como Darcy Ribeiro, que estava brincando de roleta-russa com um amigo, girou o tambor do revólver, encostou na testa, e de repente virou na direção da parede, e abriu um rombo nela com um estrondo ensurdecedor.

Fazer como as mendigas cegas que cantam, não para atrair moedas, mas para mostrar que não são inferiores a quem lhes paga.

Fazer como Homero, que pode até nem ter existido, mas escreveu dois livros DESSE tamanho.

Fazer como Bobby Fischer, para quem o xadrez chegou a um ponto repetitivo demais, e sugeriu mudar a posição de todas as peças.

Fazer como Shelley Winters, que se trancava no camarim escutando as divas da ópera, e só saía quando o diretor estava pronto para rodar a cena.

Fazer como aquele bêbo anônimo que vinha passando de madrugada, um guarda pediu a ele os documentos, ele meteu a mão no bolso e puxou a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Fazer como o Bacharel de Cananéia, aquele português que quando Pedro Álvares Cabral chegou aqui ele já morava em São Paulo, com um harém de índias.

Fazer como Nara Leão, que cansou de ter discos nas paradas de sucesso e fazer shows lotados, e foi estudar na PUC.

Fazer como Erik Satie, que morava num subúrbio distante em Paris, voltava da farra a pé, e quando chegava em casa já estava na hora de sair de novo.

Fazer como Ishmael, que viveu para contar a história.

Fazer como Fritz Lang, a quem o Ministro Goebbels ofereceu a coordenação do cinema nazista, ele aceitou, marcou reunião para a semana seguinte, e saiu dali direto para a estação de trem mais próxima.

Fazer como aquela colhedora de algodão em Serra Branca, que interrompeu o trabalho, pariu um menino embaixo dum juazeiro, entregou para a sobrinha, e voltou a arrancar capuchos.

Fazer como aquele padre do interior que confessava os próprios pecados para as beatas, e a fila dobrava o quarteirão.

Fazer como Luís Carlos Prestes, que passou um ano preso na cela solitária e todo dia vestia terno e gravata, para não perder o moral.

Fazer como minha mãe, que nas horas de aperreio tomava um banho de tonel para esfriar a cabeça, e uma dose de uísque para esquentar o coração.

Fazer como a chuva, que cai em pé e corre deitada.

Fazer como Tim Berners-Lee, que inventou a World Wide Web e se recusou a requerer patente, royalties etc., porque não precisava – já tinha uma casa, tinha automóvel, economias no banco etc.

Fazer como aquela quenga da Unidade Moreninha que um dia explicou ao coronel: “o que o senhor está comprando é o seu prazer, não a minha liberdade”.

Fazer como Ulisses, que disse que não era ninguém; como Álvaro de Campos, que disse que não era nada; como John Lennon, que disse que não era de lugar nenhum.

Fazer como a octogenária Erundina, que todo dia agôa uma arvorezinha da qual não sentirá a sombra.

Fazer como aqueles livros fabricados tempos atrás, que uma vez abertos e largados sobre a mesa não voltavam a se fechar: deixavam-se ler, deixavam-se tratar como livros.

Fazer como aqueles soldados das histórias antigas, que recebiam a incumbência de levar um recém-nascido para o bosque e matá-lo, e desobedeciam, permitindo que uma obscura lenda se produzisse a partir daquele gesto.

Fazer como Audrey Hepburn, que quando o produtor ameaçou cortar do filme a cena onde ela canta “Moon River” respondeu: “só se for passando por cima do meu cadáver.”

Fazer como Salvador Dali, que ia para o aeroporto e emburacava no avião sem passagem, dizendo: “sou um gênio, a humanidade me deve isto”.

Fazer como o Cego Aderaldo, que percorria o sertão com um projetor 16mm., exibindo filmes que não podia ver.

Fazer como a abelha, que ferroa e morre, mas não deixa de ferroar.

Fazer como o Word, que tem o comando Ctrl+Z para voltar atrás quando faz besteira.












quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

4417) Onde fica o meio do mundo (26.12.2018)




São vários os contos populares onde esta cena aparece. Eu me refiro àquele confronto que geralmente se dá entre o herói, que é um cara apenas esperto, e o poderoso Rei. O Rei faz uma série de perguntas, e o esperto as rebate com um negaceio diferente de cada vez.

Aí, o Rei pergunta:

– Onde fica o meio do mundo?

E aí “Camões”, ou “Cancão de Fogo” ou qualquer outro diz:

– Exatamente ali, perto daquela coluna do palácio.

– Como é que você sabe?

– Pode mandar medir.

O Rei não tem como mandar medir, e talvez nem soubesse explicar o que era pra ser medido. Ele pergunta:

– Quantos cestos de terra tem naquela montanha? – aponta a janela escancarada.

O esperto diz:

– Um milhão, duzentos mil, e vinte e seis.

Se o Rei fosse esperto, os dois se engatariam nesse ponto, gerando um impasse absoluto, como um empate por exaustão no xadrez. Mas o Rei é um mero personagem, e precisa fazer a terceira pergunta, a frase fatal para que o vírus da História seja passado adiante:

– O que é que eu estou pensando?

E “Arlequim”, ou “Pedro Malazarte” responde:

– Está pensando que eu sou [a falsa identidade sob a qual ele se apresentou ao rei], mas não sou, eu sou [Arlequim, Malazarte].

E o conto se desenlaça. O que há de interessante nessas cenas é que pertencem ao conto de fadas, à literatura de cordel, ao esquete de humor, à arte da pergunta acachapante e da resposta relâmpago. São de circo, são de almanaque medieval, são das madrugadas radiofônicas. Um antropólogo talvez dissesse que ela cumpre um pouco a função de cortar nós-górdios filosóficos reduzindo tudo a uma cambalhota simples.

O interessante é que pode-se manter essa ceninha, vamos chamá-la “O Interrogatório” ou “As Três Perguntas do Rei”, entre os quadros de uma história, mas mudando-se, como convier, quais as perguntas feitas, as respostas dadas. É um bloco que pode ser trocado por diálogos novos, mas sempre mantendo essa função: o esperto “come o rei com farinha”.

Dando uma geral nas literaturas antigas do Ocidente e do Oriente a gente vê o quanto é comum esse conceito da cena que pode ser infindavelmente mudada e ainda assim continuar a mesma. Ela precisa cumprir sempre a mesma função: fazer o esperto revelar sua identidade ao rei, após derrotá-lo. A perguntas e as piadas podem ser mil vezes refeitas por quem encenar esse conto.

São centenas as aventuras de cordel em que um coronel ou rei ou fazendeiro põe a filha no balcão matrimonial, com a condição de que o pretendente responda três perguntas, ou formule três perguntas próprias, ou pratique alguma façanha, para merecer a mão da noiva em disputa. É a aliança estratégica entre o Poder (o rei) e o Saber (o esperto).

É claro que todas essas histórias são contos inventados, e é muito fácil imaginar um improviso de fração de segundo quando se está escrevendo e revisando em toda comodidade. Mas o “repente relâmpago” também existe na vida real, aquela resposta ideal imaginada, formulada e dita em voz alta ao longo de alguns segundos.

Diz-se que Bocage usava, em alguns círculos poéticos, o pseudônimo anagramático de Elmano, a partir de seu nome verdadeiro, Manoel Bocage.

Um dia vem ele por Lisboa quando cruza com outro poeta, que, vendo-o cabisbaixo, pergunta em verso:

– Elmano, a lira divina / por que razão emudece?

Bocage, que estava meio sorumbático, ripostou:

– Porque mais cala no mundo / quem mais o mundo conhece.

O amigo tornou, em cima da bucha:

– E o que tens visto no mundo / que tanto assombro te faça?

E “Elmano Sadino” fechou a estrofe:

– Um poeta com ventura, / um toleirão com desgraça.

Bocage era da linhagem de poetas malditos, como Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”.  Na vida de cada um deles vê-se a presença do improviso leve e solto, parte de uma cultura, que pode chegar a encenar grandes disputas de arquibancada cheia; mas no geral é para uso cotidiano, em mesa de bar.











segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

4416) Natal 2018 (23.12.2018)




(ilustração: Ralph Steadman)



... e um ano transcorreu num só segundo
como um flash, um relâmpago, um raio,
e eu aqui, tropeçante, e eu, cambaio,
cultivando as derrotas, como plantas;
não importa se feias, pois são tantas
que formando fileiras, curvas, retas,
traçam formas: mandalas incompletas
arabescos que algum valor terão...
Acabei de encontrar minha missão
no planeta dos cactos e das rosas.

Como Augusto, o das letras tenebrosas,
quero que o solo coma os meus resíduos
como sempre tem feito aos indivíduos
que recolhem do mundo os elementos
com que compor seus corpos suarentos...
A alma é um pião que na poeira
gira, gira; e o corpo é a ponteira
encravada no chão do mundo tosco
tirando chispas do terreno fosco
onde um dia seus ossos dormirão...

Que seja a Glória ter pisado o chão,
ter sido gente, bicho, fruta e flor,
ter sentido o prazer, quase uma dor,
da água fria escorrendo pelo rosto...
O prazer de escrever. De ter composto
um fio de melodia original
que deu prazer a quem, num dia tal,
num subúrbio distante, num distrito,
ouviu um som e disse; "que bonito,
isso aí que no rádio está tocando,,,"

"E eu pela estrada, entre estes monstros, ando"
dando o dedo ao destino que me aguarda,
e peço a Deus, esta eminência parda,
que me dê no relógio alguns acréscimos.
Convenhamos: os tempos estão péssimos,
mas mesmo assim insisto em desfrutá-los;
escrevo à noite enquanto espero os galos
e em dueto a difusa passarada
que gorjeia: "Aproveita, camarada,
vai fazer um café, não dorme agora!”.

Troco minhalma por mais uma aurora.
Troco o que fui pelo que não serei,
os futuros que nunca alcançarei,
a imensidão do que haverá sem mim...
Mas a vida não quer que seja assim
e me obriga a bebê-la de um só gole.
Quer saber?! Sanfoneiro,  puxe o fole,
faça o povo rodar, rode também!
Quanto mais vida vai, mais vida vem:
eis a única lei deste Universo.

Vale a pena (pergunto) mais um verso
celebrando o Natal e os jingobells?
Onde quer que eu me vire vejo os céus
piscando essas luzinhas de néon;
cada shopping um vírus do Leblon
se alastrando na taba brasileira...
Cem mães gritam, regendo a brincadeira
dos guris na piscina de bolinhas,
pula-pula, boliche e argolinhas,
nas descidas do escorregador...

E o Natal musical e multicor
volta a chiar na chapa do verão
e esta dor que voltou me dá razão
para pensar de noite, olhando a treva...
E o rio-tempo em seu passar me leva
e eu canto o tempo, e reinvento o rio,
e esta caneta desenrola um fio
de palavras que valem por meu rosto...
É dezembro, é abril ou é agosto
esse Natal que não melhora o mundo?...





quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

4415) Eu me lembro XIII (20.12.2018)




1
Eu me lembro de quando se aproximava o mês de setembro e a gente interrompia as aulas para ir ensaiar o desfile, na rua. Por um lado era bom porque nesse dia não ia ter mais aula. Quando acabava o ensaio a gente voltava pro colégio, pegava as coisas e ia embora. Mas o ensaio em si implicava às vezes sair marchando por aquelas longas retas, sair do Alfredo Dantas, descer a Irineu Joffily, dar uma volta no Açude Velho, subir pela Vila Nova da Rainha, pegar a Maciel Pinheiro, voltar ao colégio. Mas havia o fascínio de ver a banda marcial de perto, observar como os caras dos taróis controlavam o rufo, entender a função do bombão, do surdo; e sair um pouco no sol, tirar as teias de aranha, de vez em quando trazer “os povo” pras janelas, pálidos de espanto. Me lembro que havia um conundrum filosófico irrespondível: É melhor ser rabeira do pelotão 1, ou testa do pelotão 2? O que hoje talvez se dissesse: É melhor ser o lanterna da Série A ou o campeão da série B?” 

2
Eu me lembro de um Museu de Cera que ficou algumas semanas em exposição em Campina, em frente à Praça da Bandeira (onde hoje tem o camelódromo). Havia estátuas de vultos históricos, cientistas, personagens da literatura, da lenda. Havia Caryl Chessman, o “bandido da luz vermelha”,  na câmara de gás; era um fato ainda recente. Havia Jack o Estripador, etc.  Na porta de entrada, um disco de propaganda, chamando os clientes para entrar, tocava em loop um tango de Carlos Gardel, que diz “teu riso é como a brisa...”  Havia uma outra seção, só para maiores de 18 anos, que exibia de maneira gráfica (modelos de cera) uma infinidade de doenças venéreas, mostrando sua aparência exterior, explicando o que era e acho que sugerindo remédios. Anos depois, um museu de cera diferente, mais didático, menos carnaval-ambulante, ficou em exposição na Faculdade de Administração, na Getúlio Vargas, logo acima da esquina do Correio. Havia um pistoleiro de barba chamado Cruz Diablo, me pareceu um bom nome de personagem.

3
Eu me lembro de que no bairro de José Pinheiro, o popular “Zepa”, havia (será que ainda há?) um cinema pequeno, chamado Cine Art. Era um desses cinemas-poeira de rua, e tinha na entrada uma placa: “Proibido Entrar Descalço”. No auge do Cineclube de Campina Grande, surgiu uma idéia de promover ali uma sessão de cinema de arte, como já havia no Capitólio e no Babilônia. O idealismo de Luís Custódio, presidente do Cineclube, o levou a mil negociações com a gerência do cinema, onde só passavam bangue-bangues e pornochanchadas. Depois de marchas e contramarchas, o Cineclube promoveu ali a exibição do filme O Picolino (“Top Hat”), um musical com Fred Astaire, que nossa ingenuidade acreditou ser um título alegre, descontraído, capaz de agradar a qualquer platéia. Não fui assistir a sessão, o que hoje lamento, porque foi a única.

4
Eu me lembro do sebo de Câmara, um sebo que ficava na rua Maciel Pinheiro, entre aquela galeriazinha onde funcionou a Varig e a descida para o Beco dos Bêbos. Você subia dois ou três degraus da calçada e entrava numa sala ampla, com livros ao longo das paredes, empilhados em balcões ou em esteiras rente à parede. Câmara era um sujeito alto, meio calvo, tinha um gosto muito bom para literatura e poesia. Foi lá que eu comprei meu primeiro livro de Drummond, a Antologia Poética da Sabiá. Foi lá que vi um livro maluco chamado Kaos e guardei na memória esse título. Anos depois reencontrei o título citado no Pasquim, ligado ao nome do músico de Maracatu Atômico e cineasta de O Demiurgo, Jorge Mautner. Campina Grande sempre foi mais uma cidade de livrarias do que de sebos. O atual Catalivros de Ronaldo já é um dos sebos mais duradouros da história da cidade.

5
Eu me lembro de um jogador amador de Campina, chamado Lambretinha, pela velocidade. Ele jogava no Fracalanza, que era o time de funcionários de uma rede comercial, enxertado com jogadores vindos de outros times. Lambretinha era pequenino, não lembro bem da cara dele, mas me lembro de saltar de pé no meio das cadeiras cativas do Presidente Vargas quando a defesa deles rebatia uma bola e alguém esticava o passe longo esperado por todos. O estádio ficava de pé, e ele dava arrancadas que revivi depois quando vi um gol de Jacozinho num jogo comemorativo no Maracanã. O Fracalanza era verde e amarelo, acho, e jogava na preliminar. (Naquele tempo antediluviano, jogo de futebol era um programa duplo: quem chegasse mais cedo via um jogo de dois times amadores, geralmente; e depois o programa principal da noite, o jogo do dono do estádio contra um visitante.) Era o famoso esfria-sol.

6
Eu me lembro de Lampião, apelido de Judite, uma das meninas-da-noite que batiam calçadas nas madrugadas de Campina, fazendo programas com qualquer cara que parasse um carro e botasse elas para dentro. Lampião era a mais velha e uma espécie de líder de um grupo que tinha Olindete, Menininha, Rute... As mais novas tinham uns quinze anos, mas eram todas escoladas, vividas, calejadas na conversa e no comportamento. Eu era da turma que fazia bacurau (conversas aleatórias noite adentro) em frente ao antigo Museu de Arte, na esquina da Maciel Pinheiro com a Floriano Peixoto. As meninas de vez em quando encostavam e a gente ficava tirando onda, puxando conversa com elas. Lampião era corajosa e agia como protetora das outras; me lembro de uma vez ela contando pra gente como uns PMs estavam querendo pegar na marra uma das garotas. Ela disse: “Os caba vieram tirando onda mas eu trevessei meu naife e falei: Quem vier eu furo! Oxente, foram simbora.” Judite faleceu algumas semanas atrás, com mais de 70 anos. Vi sua foto nas redes sociais: negra, envelhecida e valente.










domingo, 16 de dezembro de 2018

4414) Sobre a tradução poética (16.12.2018)





(Piet Hein)

Uma das coisas mais incômodas quando a gente tenta traduzir poesia é a obrigação de seguir a métrica do original. Métrica é uma coisa muito matemática, muito precisa. O mínimo deslize fica tão evidente como (na comparação famosa de Raymond Chandler) “uma tarântula numa fatia de manjar branco”.

Quando é um poema de “verso livre”, cada linha pode ter qualquer número de sílabas, a critério do poeta. O poema ganha com isso uma alternância muito variada de cadências, e uma sílaba a mais ou a menos se destaca pouco.

Mas nas famosas formas fixas, onde se trabalha com versos obrigatoriamente de sete sílabas, de dez, de doze, etc., a reiteração desse ritmo faz com que mesmo o leitor não-ligado nesse aspecto perceba quando no meio de uma porção de linhas de dez sílabas aparece uma com onze.

É um verdadeiro prodígio conseguir traduzir um poema estrangeiro mantendo o sentido original, mantendo as rimas finais dos versos e mantendo a contagem de sílabas em cada linha. (Nem vou falar de outros efeitos, como rimas internas, aliterações, contrastes, etc.)

Daí o meu argumento de que mais do que a contagem exata das sílabas, vale a manutenção de uma cadência bem próxima à cadência do original, mesmo que, digamos, num soneto em decassílabos (no original) a tradução oscile entre versos de 9, 10, 11, 12 sílabas – procurando, claro, sempre ficar próximo do sentido do original, e rimando os versos na mesma ordem.

Uma argumentação muito clara e sensata a esse respeito foi feita pelo tradutor Álvaro Faleiros, num texto publicado no Suplemento Literário Minas Gerais (maio 2015):

“O ritmo do poema não se devia apenas à distribuição acentual do verso, mas (...) a sintaxe, o léxico e o encadeamento das idéias eram tão determinantes quanto a rima e a métrica. Desde então, tenho procurado inverter a famosa máxima de Haroldo de Campos, para quem a tradução deve ser isomórfica (ou paramórfica) e o sentido deve ser uma ‘baliza demarcatória’. No jogo de perdas e ganhos da tradução, estou tentando tratar os aspectos formais como ‘baliza demarcatória’ e fazer da sintaxe e do encadeamento de imagens o meu ‘topo’”.

Os tradutores da linha isomórfica tentam preservar com o maior rigor possível os efeitos métricos e sonoros do original, mesmo que à custa do sentido dos versos, em casos extremos. Faleiros inverte isso: para se manter próximo do sentido e das imagens do original, ele admite pequenas diferenças em relação à rima e à métrica.

Vou dar exemplo com um poeminha minúsculo de Piet Hein, o autor do famoso poema da luva (“Perder uma luva é uma dor profunda / mas nem se compara à dor pungente / de perder a primeira, jogar fora a segunda / e encontrar a primeira novamente”).

Hein cultivava esses poeminhas curtos a que chamava “grooks”, e um deles diz, em sua versão inglesa:

There is
one art,
no more,
no less:
to do
all things
with art-
lessness.

Hein defende aqui a simplicidade, a chamada “arte invisível”, aquela que a gente frui sem perceber como está fruindo. Nisso ele parece concordar com aqueles escritores que aconselhavam: “procure tudo que estiver muito bem escrito no seu texto, e então corte”.

O “muito bem escrito” é aquela arte vaidosa, exibicionista, onde o autor parece estar chamando a atenção para si mesmo e não para o texto. (Visualize uma peça de teatro sendo representada e de vez em quando o autor aparecendo no palco e acenando para o público. Tem coisa mais patética?)

Os grooks de Piet Hein são tão bem-humorados que eu vejo uma certa ironia dele nestas duas últimas linhas, porque ao quebrar a palavra “artlessness” (=a qualidade daquilo que não exibe “arte” alguma) ele chama a atenção para esse recurso, e mostra que tem uma artezinha ali, sim senhor.

Esse recurso da quebra da palavra também é usado por Gilberto Gil na letra de “Refazenda”. Esta canção propõe um modelo bem rígido de quadras com 4-7-7-7 sílabas, aquilo que eu chamo “o verso da embolada”.

(Sobre esse verso, ver aqui:

Diz o poeta:

Abacateiro (4 sílabas)
acataremos teu ato - 7
nós também somos do mato - 7
como o pato e o leão... - 7
Aguardaremos - 4
brincaremos no regato - 7
até que nos tragam frutos - 7
teu amor, teu coração. – 7

Ele propõe essa cadência de sílabas poéticas, 4-7-7-7 e para mantê-la acaba partindo as palavras mais longas, como Piet Hein fez, para que caibam na estrofe:

Abacateiro
teu recolhimento é justa-
mente o significado
da palavra temporão.

(...)

Abacateiro
serás meu parceiro soli-
tário nesse itinerário
da leveza pelo ar.

Existe arte nisso; é o próprio antônimo da “artlessness” defendida por Piet Hein. Mas acho que ele e Gilberto Gil se defenderiam dizendo: “Mas meu preto... me diga... quantas pessoas, fora você e meia dúzia, perceberam isso?...”

A gente não percebe. A cadência nos arrasta pelo ouvido com a mesma autoridade com que a mãe da gente nos arrastava pela orelha.

Eu queria traduzir o versinho inglês de Piet Hein, mas teria (pelo sistema dos irmãos Campos) que seguir a métrica dele, que é uma métrica 2-2-2-2-2-2-2-2. São oito versos, cada qual com duas sílabas.

A melhor saída foi lembrar o conselho de Álvaro Faleiros e propor uma tradução com o esquema silábico 3-3-2-2-2-3-2-2, verdadeira violentação do original, de acordo com as regras mais puristas da tradução. A esperança, no entanto, é que a cadência (e aqui a quebra de linhas é essencial para impor essa cadência ao ouvido do leitor, via olho) não sofra nenhuma sacudidela brusca:

Só existe
uma arte,
nem menos,
nem mais:
fazer
sem ninguém
ver como
se faz.

Perde-se alguma coisa? Muita!  A palavrinha quebrada foi pro espaço, o Expresso 2222 da métrica decolou junto com ela...  Mas minha intenção, mais do que reproduzir os efeitos sonoros e visuais, era passar o insight, o sentido, o famigerado “conteúdo” do poema.

Conteúdo que, em poemas metalinguísticos como este, poemas que refletem sobre a arte de poetar, está na própria forma, na maneira de dizer, e dizer fazendo concessões, aceitando limites, justamente para que o leitor veja sem perceber como viu, e pense que não fez esforço algum para entender.


(Aqui, uma página de “grooks de Piet Hein:




quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

4413) Cineasta, o administrador de acidentes (13.12.2018)



Orson Welles dizia que um diretor de cinema era na verdade uma espécie de administrador de acidentes. Interpreto isto como um cara que vai esbarrando em imprevistos à medida que avança, mas consegue assimilar esses imprevistos e encaixá-los no projeto. E de repente até consegue usá-los como trampolins para a imaginação, ou rotas de fuga para fora de um impasse narrativo.

Tem gente que acha que o cinema profissional é excessivamente planejado e burocratizado – eu, por exemplo. Mas ele precisa mesmo ser assim, porque é sujeito a uma quantidade injusta de incógnitas e de variáveis.

São trinta, cinqüenta, cem pessoas (com transporte e alimentação para todos), toneladas de equipamento, de materiais diversos. Uma logística complexa que tem necessidade de sol, ou de chuva, ou de vento, ou de mar agitado, não importa: numa filmagem (que não seja em estúdio) sempre se tem necessidade de que no dia de amanhã a Natureza se comporte exatamente assim.

Lembro de novo a história de que Nelson Pereira dos Santos arribou-se do Rio de Janeiro com sua equipe para ir rodar Vidas Secas na Bahia, mas quando chegou lá tinha chovido, o Sertão estava num verde constrangedor. Nelson hospedou todo mundo, mexeu nuns papéis, escreveu, rascunhou, e eles fizeram Mandacaru Vermelho pra não perder a viagem.

Um cineasta que depende do tempo, inclusive meteorológico, é uma espécie de lavrador, sempre de mão à testa, perscrutando o horizonte. Tal como o plantador, ele precisa de uma conjunção de conveniências que não dependem dele.

Isso é na escala mais ampla, mas na escala miúda do dia de filmagem as coisas não são diferentes. O movimento de câmera imaginado não vai ser possível por uma razão técnica qualquer, e a cena tem que ser concebida de novo, de improviso, com a equipe toda esperando.

Uma história do folclore de Hollywood fala da demora de Chaplin para resolver uma cena crucial de Luzes da Cidade, onde ele precisava fazer com que a vendedora de flores, que era cega, pensasse que o vagabundo Carlitos era um sujeito rico. A equipe ficou ganhando diárias e devorando quentinhas durante dias e mais dias até que o diretor teve o “eureca!” e filmou a cena. (Ele fez o vagabundo atravessar uma rua com o sinal fechado passando por dentro de uma limusine com o banco de trás vazio; ao ouvir a porta da limusine batendo, a cega pensa que ele é o dono do carro.)

Alguns diretores são extremamente minuciosos no roteiro justamente para evitar esse tipo de ocorrência; para reduzir ao máximo a chance de um imprevisto. Alfred Hitchcock e Luís Buñuel eram famosos pela exatidão do seu planejamento. Hitchcock desenhava tudo em storyboards com tal precisão que, se quisesse, bem poderia ir para casa e deixar que um assistente qualquer coordenasse a filmagem em si. Buñuel fazia apenas um take de cada cena, para economizar negativo, o que deixava os montadores de cabelos brancos, porque se um daqueles takes se perdesse não teriam um take alternativo para substituí-lo. Roberto Farias era um diretor meticuloso e prático: Walter Carvalho conta que em Os Trapalhões no Auto da Compadecida praticamente todos os planos filmados foram usados no filme.

Não se pode aplicar os critérios de um cinema produzido assim a um outro tipo de cinema onde uma equipe pequena sai para a rua com duas ou três páginas de diálogos e de indicações, rabiscadas à mão. Esta é um sistema que não apenas está pronto para acolher o imprevisto, mas também faz dele um ingrediente essencial.

A definição de Orson Welles citada no início poderia ser modificada então para “administrador de imprevistos”, porque existem também os acidentes positivos, que vêm para ajudar, e não para atrapalhar. Tudo que não é previsto pode gerar numa tensão num filme de preparação muito rígida, mas pode ser uma resposta bem vinda num tipo de produção que não se importa de acolher o que lhe cai do céu.

E não só nesse tipo. Stanley Kubrick, durante a produção de 2001, uma Odisséia no Espaço, estava encalacrado com o problema da famosa sequência em que o computador HAL se rebela contra os astronautas e tenta assumir sozinho o controle da missão.

Kubrick precisava mostrar que os dois astronautas, interpretados por Keir Dullea e Gary Lockwood, conspiram entre si para desligar HAL, mas este toma conhecimento do plano. Foi Lockwood quem sugeriu a Kubrick a idéia de que os astronautas se trancassem numa pequena cápsula para discutir o assunto, com o sistema de som desligado, mas o computador fosse capaz de ler os seus lábios, o que é indicado com movimentos laterais da câmera (ponto de vista de HAL) para a boca de um e do outro, alternadamente.

Idéias dos atores são bem vindas quando de fato se enquadram no tom do filme e contribuem para o roteiro. O ator Rutger Hauer, que faz o andróide Batty em Blade Runner de Riddley Scott, foi um entusiasta do filme desde o início, um dos que mais acreditavam  estar trabalhando num futuro clássico do cinema. A cena da morte do andróide no final, na cobertura de um prédio banhado pela chuva, murmurando lembranças das batalhas que presenciou, e soltando uma ave que sobe voando ao céu, foi em grande parte uma contribuição do ator, assimilada e incorporada pelos roteiristas e pelo diretor.

Quando existe esse tipo de sintonia entre diretor e elenco, qualquer imprevisto pode ser transformado de acidente em efeito. No filme Django Livre de Quentin Tarantino há uma cena famosa em que Django e seu comparsa estão jantando na mesa de um fazendeiro (Leonardo DiCaprio) do qual pretendem roubar uma escrava. O fazendeiro acaba descobrindo; fica furioso, ergue-se na mesa e começa um discurso violento contra os visitantes e contra os negros em geral.

Na empolgação do discurso, DiCaprio, que segurava uma taça de vinho, quebrou a taça sem querer e deu um corte fundo na mão, que começou a sangrar, mas ele continuou “no personagem”, sem interromper a cena, e o diretor também mandou seguir. Ele esfregou a mão ensangüentada no rosto da escrava, e subiu o tom do discurso enquanto envolvia a mão num lenço. O pequeno acidente acabou tornando a cena melhor do que era, devido à capacidade de improvisação do ator e à percepção do diretor – que se fosse um cara menos experiente talvez tivesse gritado: “Corta!” ao ver o acidente.

Estes exemplos são exemplos extremos. Cada dia de filmagem, desde o mais caro blockbuster de super-heróis até um curta-metragem feito por estudantes, está cheio de exemplos dessa dimensão aleatória do cinema , cuja essência pode ser definida mais ou menos assim: É indispensável planejar, e é indispensável estar aberto para o que não pôde ser previsto.