sexta-feira, 15 de abril de 2016

4103) O psicógrafo Rogério Duarte (15.4.2016)




("Rogério Duarte", por Caó Cruz Alves)



Já conversei por cerca de meia hora com Rogério Duarte, o grande tropicalista agora falecido. Se me pagassem cem mil dólares por um relato desse papo eu teria que deixar passar a oferta, ou então recorrer aos meus talentos de ficcionista (ou às minhas licenças de cronista), porque não me lembro de nada. Foi no Encontro da Nova Consciência, em Campina Grande, num ano em que o tema central era A Contracultura (tem trechos da fala dele no YouTube). A conversa foi num grupo numeroso, no saguão do teatro, com o zum-zum-zum de muita gente em volta, num evento em que pelo menos algumas dezenas de pessoas presentes eram fãs dele.

Em 1968, Gilberto Gil lançou o seu famoso disco do fardão, o Gilberto Gil tropicalista. É o disco de “Domingo no Parque”, “Marginália II”, “Frevo Rasgado”, “Ele falava nisso todo dia”. Minhas músicas preferidas ali são “Domingou” e “Luzia Luluza”. A capa, atribuída a Antonio Dias e Rogério Duarte, é cheia de elementos pop. Na foto principal, Gil veste um fardão estilo Academia Brasileira de Letras, mas que também evoca o Sgt. Pepper’s dos Beatles, lançado pouco antes. Fotos menores mostram o cantor fazendo poses com uniformes e figurinos diferentes. Não sei avaliar o que, na parte visual, pode ser atribuído a Antonio Dias ou a Rogério. Parece com os dois. Mas no pezinho da contracapa aparecia um texto.

O texto era este aqui:

Eu sempre estive nu. Na Academia de Acordeão Regina tocando La Cumparsita, eu estava nu. Eu só sabia que estava nu, e ao lado ficava o camarim cheio de roupas coloridas, roupas de astronauta, pirata, guerrilheiro. E eu, do mais pobre da minha nudez, queria vestir todas. Todas, para não trair minha nudez. Mas eles gostam de uniformes, admitiriam até a minha nudez, contanto que depois pudessem me esfolar e estender a minha pele no meio da praça como se fosse uma bandeira, um guarda-chuva contra o amor, contra os Beatles, contra os Mutantes. Não há guarda-chuva contra Caetano Veloso, Guilherme Araújo, Rogério Duarte, Rogério Duprat, Dirceu, Torquato Neto, Gilberto Gil, contra o câncer, contra a nudez. Eu sempre estive nu. Minha nudez Raios X varava os zuartes, as camisas listradas. E esta vida não está sopa e eu pergunto: com que roupa eu vou pro samba que você me convidou? Qual a fantasia que eles vão me pedir que eu vista para tolerar meu corpo nu? Vou andar até explodir colorido. O negro é a soma de todas as cores. A nudez é a soma de todas as roupas. (Texto de Gilberto Gil psicografado por Rogério Duarte)

É um texto bem da época, aquele fluxo de frases puxadas por associações de idéias, de imagens, de palavras, ao invés dos raciocínios cartesianos com começo, meio e fim, praticado pelos conservadores tanto da direita quanto da esquerda. Um dos grandes problemas do Tropicalismo com a esquerda não foi nem o cabelo nem as roupas de plástico, foi o questionamento dessa história de que tudo tem que ter começo, meio e fim.

Melhor que o texto era essa assinatura refratada, no final. Como minha família é cheia de espíritas kardecistas, inclusive minha mãe, eu sabia calcular o peso da palavra “psicografado”. E pensei: “ É isso, você pode psicografar uma pessoa que você conhece muito bem, porque conhecer bem uma pessoa é como ter na mente um filmezinho dela onde você pode ver-se ouvindo-a dizer isso ou aquilo com propriedade absoluta e achar que ela disse mesmo. Tudo isso, é claro, à revelia do de cujus, seja ele um morto ilustre ou um vivo indefeso."

Na casa de Jakson e Marcos Agra, junto à velha Estação Rodoviária de Campina, eram noites inteira de dedo apontado para cada elemento da capa, cada verso do encarte, quando havia. Foi nessa época que os discos começaram a trazer as letras impressas, uma grande novidade; talvez pela influência maciça de Sgt. Pepper’s. Algum de nós perguntou: “É possível psicografar uma pessoa viva? Como? Telepaticamente?”  Falei que essa seria a explicação de ficção-científica, mas que a explicação psicossemiótica, digamos, era essa que descrevi no parágrafo de cima.

Meu amigo releu o texto todo, cuidadosamente, aí bateu na linha final com o dedo e disse: “Eu sinto o dedo de Gilberto Gil nesse negócio”. Implicando, claro, que o texto seria do próprio Gil imitando o que, na cabeça de Gil, poderia ser Rogério imitando Gil. Esse meu amigo pronunciava “Gílberto Gil”, proparoxítono.

De modo que quando cheguei à “Autopsicografia” de Fernando Pessoa já havia terreno aplainado para ele passar, ou quando Silviano Santiago escreveu um romance de Graciliano Ramos, ou quando John Banville psicografou Benjamin Black que psicografou Raymond Chandler.

Há pessoas que imitam a voz de alguém com perfeição, e outras que sabem fazer sua assinatura de modo que nem ela mesma percebe que é falsa. Então, pode haver quem consiga pensar em nome de outro, produzir um texto, literário ou não, que poderia ter sido produzido pelo outro. Um texto que o outro ao tomar conhecimento e ler, dissesse sinceramente: “Nunca vi isso, mas puxa vida, é a minha cara. Eu já pensei algumas dessas coisas.”  O que Cervantes pensaria ao ler Pierre Menard.

Se o texto atribuído a Gil no álbum parece ou não com Gil é assunto para outro tipo de análise. Tem referências a Noel Rosa e a João Cabral (no poema dedicado a Drummond em O Engenheiro, 1942-45). Tem Caetano. Tem um pouco do espírito dos dois primeiros discos pop de Bob Dylan, com longas contracapas poéticas. Tem um pouco dos arranjos tropicalistas de Rogério Duprat, que muitas vezes não tinham nenhuma intenção melódica nem propriamente harmônica, eram comentários sonoros à canção. Mesma relação que ilustração/texto.

Um dos conceitos psicoestéticos mais interessantes da época foi esse estilhaçamento do “eu poético” como exercício de suporte para os violentos estilhaçamentos do eu pessoal que a sociedade de consumo (o termo era novo) impunha. A multiplicação de eus falsos para reduzir a pressão sobre o eu verdadeiro no centro de tudo, senão o cara endoidece. Como endoideceu Bispo do Rosário. Como o “homem duplo” de P. K. Dick (A Scanner Darkly, 1973). Como Edward Norton no Clube da Luta (1999). Fernando Pessoa não endoideceu, por mais que vestisse identidades novas a cada vez que sentava à mesa.

As pessoas psicografam a si mesmas o tempo todo: para enfrentar situações práticas diferentes, relacionamentos afetivos diferentes, ambientes de trabalho diferentes, culturas diferentes da sua cultura de origem. Usei em sala de aula uma vez um texto que falava dos três grandes golpes que o Homem tinha sofrido em sua empáfia cósmica. Com Darwin, ficou sabendo que era um animal igual aos outros. Com Freud, ficou sabendo que havia um outro eu dentro dele, tão ele quanto ele próprio, e que em geral era esse outro ele que mandava, não ele. Com Marx, ficou sabendo que as sociedades humanas estão sujeitas a gigantescos movimentos tectônicos da economia e da política, e que somos absolutamente impotentes e insignificantes diante deles. Não há como controlá-los individualmente. Mais fácil um indivíduo controlar a atmosfera.

Só nessa breve passada são três estilhaçamentos do eu, da primeira e da última certeza dos cartesianos. Depois que descobrimos que pensar não é prova de existir, agora só falta alguém vir me dizer que o eixo das coordenadas e abscissas também não existe.

Psicografar qualquer um é saber que é impossível ser esse um, mas que é permitido tentar aproximar-se dele como um limite, um horizonte de eventos inalcançável, num avanço negativamente exponencial onde cada passo à frente nos deixa mais próximos do 1 pretendido, mas ao preço de um avanço cada vez mais lento mesmo que nunca venha a cessar.

Pois bem: Rogério Duarte plantou essa faísca. Quando Chico Buarque, depois de “Com açúcar, com afeto”, começou a se especializar em canções numa primeira pessoa feminina, alguém da nossa turma falou: “Chico é o Chico Xavier da mulher brasileira”. É engraçado que o Tropicalismo acabou chamando a atenção da gente para um tal de Fernando Pessoa que fazia um cameo no famoso improviso oratório de Caetano, “Ambiente de Festival”, onde ele gritava para a platéia em fúria: “Hoje não tem Fernando Pessoa!”. Alguém perguntou, ouvindo o compacto simples: “E quem danado é esse Fernando Pessoa?” Outro coçou o bigode e respondeu: “Deve ser dos Pessoa de Umbuzeiro.”

Foi o bravo Fernando, psicografista emérito em mais de um sentido, quem melhor explicou num famoso texto seu conceito de poesia dramatúrgica (não sei se o termo é exatamente este). É aquela poesia onde o poeta não imagina apenas os personagens do drama que está a escrever, mas imagina um personagem a mais: o poeta imaginário que vai escrevê-lo. Os heterônimos nasceram assim.

Autores imaginários são mais interessantes do que personagens imaginários. Bustos Domecq, autor de algumas coletâneas de contos curtos e de ensaios, é um nome fictício adotado por Jorge Luís Borges e Adolfo Bioy Casares. Seus textos têm enredos extravagantes e cheios de alusões, mas os autores afirmavam se deleitar mesmo era com as paródias e os pastiches de vozes argentinas, faladas e escritas, familiares aos dois. Nos diários de Bioy (Borges, Buenos Aires, Destino, 2006) transparece o quanto se divertiam; era uma forma sofisticada de falar mal da vida alheia. E nessas horas, diz Borges, brotava o ectoplasma literário de uma terceira personalidade que não era nenhum dos dois, era uma síntese fictícia verbalizada em voz alta (um pouco como se faz com personagens de role playing game) e que nenhum dos dois conseguiria reproduzir sozinho.

Eu gostaria de jogar isto como mote numa conversa para Rogério Duarte, mas, dadas as circunstâncias, melhor deixar aqui para ele psicografar.




quinta-feira, 14 de abril de 2016

4102) Julio Cortázar, os Beatles e os hippies (14.4.2016)



Quando a contracultura roqueira explodiu no mundo ocidental em meados da década de 1960, Julio Cortázar era um circunspecto senhor argentino de seus 50 anos, morando em Paris com a esposa, Aurora Bernárdez, trabalhando na Unesco e já famoso pelo romance O Jogo da Amarelinha (Rayuela, 1962), publicado nos primeiros anos da década. 

Um intelectual cheio de leituras filosóficas e influenciado pelo Surrealismo. 

Em princípio nada o identificava com aquela coorte de criaturas hirsutas e esfarrapadas cantando iê-iê-iê.  Lembro de nos anos 1970 mostrar os livros de Cortázar aos meus amigos malucos-beleza dizendo o velho papo de “você tem que ler esse cara, esse cara é doido demais”. Eles pegavam o livro, viam na contracapa a foto de Julio de terno e gravata e sentenciavam: “Vestido desse jeito careta não pode ser doido. Mande ele desencaretar, e aí traga de novo.”

E no entanto foi Cortázar o inventor dos cronópios, uma das criações literárias que para mim melhor exprimem o espírito da contracultura anglo-americana, aquele misto cambiante de ingenuidade, alegria de viver, imprevidência, imprevisibilidade, imaginação, prazer lúdico de mexer em tudo e por tudo.

Existe alguém mais cronópio do que os Beatles? Se não os Beatles reais, pelo menos os Beatles mostrados nos filmes de Richard Lester (A Hard Day’s Night, 1964; Help!, 1965).  Um grupo de rapazes mordazes e felizes, dançando na rua, correndo pra todo lado, brincando com qualquer objeto que lhes caísse às mãos, fazendo trocadilhos, sempre em movimento, sempre de alto astral.

Numa carta datada de Genebra (7-3-1966), para o pintor e poeta argentino Eduardo Jonquières (em Cartas a los Jonquières, Alfaguara, 2010), Cortázar troca confidências e comentários com o amigo distante. 

Fala da emoção de receber o primeiro exemplar da tradução norte-americana de Rayuela (Hopscotch, traduzido por Gregory Rabassa), fala de ter terminado de ler Pale Fire (Fogo Pálido, 1962) de Nabokov, e a certa altura diz:

“Você não vai acreditar, mas ontem fomos assistir Help!, o filme dos Beatles, e tampouco vai acreditar, nos divertimos muito. Acontece que quando a pessoa vive à beira na inópia [=penúria, escassez] lança-se a explorar as zonas mais absurdas da programação cinematográfica, e acontece também que isto lhe reserva grandes surpresas. Se você viu o filme, terá percebido que sociologicamente é um documento de primeira ordem sobre a ‘alienação’, tão celebrada e difundida nos salões das velhas sabichonas todas as sextas-feiras à cinco da tarde. Nem os Beatles nem o diretor do filme sabem, provavelmente, que nos deixaram um curioso testemunho do robotismo dos ‘sixties’. Primeiro que tudo, os 4 Beatles são robots, bonecos de cera que não têm relacionamento algum nem entre si nem com os demais. (Símbolo evidente: a casa com as 4 portas, que finalmente consiste em um único aposento, mas tampouco aí há possibilidade de contato, pois até para conversar de uma cama para a outra os B. utilizam o telefone e além disso limitam-se a monossílabos muito britânicos. Etcétera: é para dar calafrios se se leva a coisa a sério, pelo qual é melhor rir-se das aventuras absurdas que acontecem a esses pássaros simpáticos.)”

Alguns anos depois, noutra carta (Viena, 1-10-1970), Julio narra uma viagem que fez a Wiesbaden (Alemanha) para uma conferência, e os passeios que fez de carro, sozinho, por aquela região. E diz a certa altura:

“Vi o belo vale do Neckard, cheio de ecos de Hölderlin e com um vinho sobrenatural, e Heidelberg me fascinou. Estranhas circunstâncias me puseram em contato com um grupo de hippies, e durante toda uma noite descobri até que ponto não somente não são o câncer social denunciado pelos bem-pensantes, mas que o câncer é precisamente tudo aquilo que os rodeia e os hostiliza; em todo caso, nesse grupo havia algo muito parecido com a felicidade, com o fim de uma longa viagem, com uma reconciliação. A marijuana ajudando, claro (eles a fumam, e fumamos sentados nas escadarias da catedral, o que em si já era engraçado, e sem que a polícia interferisse em momento algum, apesar do cheiro, que tem muito pouco a ver com o incenso). E eu durante todo esse tempo lendo (relendo) Pedro Salinas, do qual vou organizar uma antologia, e tudo isto se harmonizava tão bem com esse pessoal fora-do-sistema.”

Em Ultimo Round (México, Siglo XXI, 1969), Cortázar reproduz a foto de uma pichação de parede na Venezuela, registrada na revista Rocinante, que diz: “Aqui habita la poesía – los cronopios vs. el sistema”.  Uma pichação que não ficaria deslocada nos muros de Abbey Road ou na esquina de Haight/Ashbury em San Francisco.





quarta-feira, 13 de abril de 2016

4101) A perda do centro (13.4.2016)



Uma nação começa a se formar quando obriga (por exemplo) todo mundo a falar a mesma língua. Em cada país da Europa, antigamente, cada um falava sua língua e a de meia dúzia de vizinhos. Chega uma fase na História, contudo, em que todos têm que falar a mesma língua.  A Espanha toda fala castelhano (mesmo havendo regiões com fala própria: catalão, galego, basco...). A Itália fala italiano e é toda cravejada de dialetos ininteligíveis no resto do país. E por aí vai.

E depois todos têm que usar a mesma moeda. Impor moeda única naquele quebra-cabeças de condados e baronatos europeus deve ter sido um sofrimento. O que é isso? É uma formalização, uma maneira de facilitar a comunicação entre todos, facilitar as transações comerciais, a atividade humana em geral. Uma coisa boa. Na intenção, pelo menos. A tentativa recente com o euro, de subir um degrau mais alto nessa formalidade, está meio bambeante. Muita gente acha que nunca vai dar certo.

A destruição da civilização se dá às vezes de dentro para fora. Entre outros processos, com um que pode ser chamado de desformalização, ou quebra do padrão coletivo, do “centro” a que todos os segmentos da sociedade estão conectados. A civilização é um contrato social, é uma formalidade consensualmente aceita em algum momento da história. Quando uma nação afunda, dá-se aquilo que falou o poeta Yeats: “the centre cannot hold”. O centro não mais se sustenta.

Os economistas sempre distinguiram entre a Economia Formal e a Economia Informal, o famoso por “debaixo do pano” ou “caixa-2”. Quando o contrato social é forte, quando um Estado é forte (há outras possibilidades), ele pode impor uma formalização: todo mundo usa a mesma moeda.  “Só quem emite moeda sou eu” (o Estado). Todo mundo que ganhar bem ou que passar por aqui tem que pagar tanto. Ou pelos menos registrar que passou.

Lucro e controle. São dois oásis do capitalismo num mundo incompreensivelmente repleto de coisas que ele não compreende. Só compreende as relações que têm a ver com lucro e com controle. São seus dois eixos de ordenadas e abscissas.

Enquanto existe um pacto social, uma Constituição que é obedecida, ou até mesmo uma família real servindo de âncora simbólica com a tradição, os Estados se sustentam. Quando tudo isso se esfarela, vira cada um por si.

Quando não há um Livro que decida, não há livro sagrado como nas religiões, nem Constituições como primeira e última instância, o centro não se sustenta. Não existe mais lei. A economia informal engolirá a economia formal, e a política informal engolirá a outra, com o mesmo silêncio de duas torres desmoronando juntas num dia de sol.




terça-feira, 12 de abril de 2016

4100) O Kafka da era digital (12.4.2016)



(ilustração: Elena Scotti)

A fazenda de Joyce Taylor, 82 anos, no Kansas, tem sido assediada nos últimos anos, para grande espanto na região, por “agentes do FBI, xerifes federais, cobradores da receita federal, ambulâncias tentando socorrer veteranos-de-guerra suicidas, policiais à procura de crianças desaparecidas”.  Ninguém ali sabe por quê. É uma zona rural, e a cidade mais próxima tem 13 mil habitantes. Levou algum tempo para alguém perceber que isso se devia a um erro básico de mapeamento da Internet.

Quando a gente diz que “está na Internet” pensa o que? Eu penso em algo como uma biblioteca, onde a localização exata de um livro obedece a um código numérico. Tendo o número de código, a gente se encaminha para o andar, o setor, a estante, a prateleira, o volume procurado. Do mais amplo para o mais restrito. É como procurar a cidade, o bairro, a rua, o prédio, o apartamento.

A Internet é um pouco assim, só que mais bagunçada. Todo computador (celular, etc.) tem um endereço IP, que é como um CPF, da máquina que você usa. É um número único, que fica registrado cada vez que a gente conecta em algum ponto. (Teoricamente, é assim que a polícia localiza os pretendentes a malfeitores do ciberespaço – os verdadeiros malfeitores sabem como evitar isso.)

Uma matéria recente de Kashmir Hill no websaite Fusion revela o lado avesso desse processo que parece tão certinho. Explica ele que existem empresas especializadas em mapeamento digital, ou seja, em informar a localização de um endereço IP. Digamos que alguém me mandou mensagens ameaçadoras, ou que me aplicou um conto-do-vigário via Internet, e que eu consegui descobrir o endereço IP do computador original, que fica nos EUA. O que faço? Entro em contato com uma empresa como a “MasterMind”, e ela me diz o endereço onde está essa máquina.

Só que o processo de rastrear a máquina é falível, imperfeito, cheio de buracos. Às vezes chega à precisão de indicar um quarteirão, uma casa. Mais frequentemente, diz apenas: “Este IP está na cidade tal”. Quando ela não consegue saber algo mais específico, diz em que país está, mas para isso precisa fornecer coordenadas (latitude e longitude). O que faz a MasterMind, quando um IP é difícil de rastrear, e sabe-se apenas que está nos Estados Unidos? A companhia indica as coordenadas relativas ao centro geográfico do país. (É o mesmo raciocínio, acho eu, que faz com que quando o computador seja iniciado o mouse apareça exatamente no centro do monitor).

Sempre que um endereço de IP fica difícil de rastrear e sabe-se apenas que está no país, o “país” é indicado pelo seu centro geográfico. Acontece que esse centro, conforme foi calculado pela MasterMind, fica perto da fazenda de Joyce Taylor! O autor da matéria pediu um levantamento desses endereços e encontrou nada menos de 600 milhões de endereços IP que ninguém pôde localizar com mais precisão e jogou para o centro dos EUA, ou seja, para a fazenda da pobre sra. Taylor.

A matéria cita vários outros exemplos dessa nuvem de endereços fantasmas que ninguém sabe onde estão situados mas um cálculo meio descuidado (os próprios diretores da empresa admitiram) acabou empurrando para uma direção física, cheia de gente real, cuja vida começou a ser bagunçada unicamente por conta de um “gatilho técnico”. É o Kafka da era digital.

A matéria completa, de Kashmir Hill:
http://fusion.net/story/287592/internet-mapping-glitch-kansas-farm/





segunda-feira, 11 de abril de 2016

4099) Literatura e coincidências (11.4.2016)



Por que motivo ficamos um pouco decepcionados com um livro (um filme, etc.) onde uma grave situação de mistério ou de ameaça é resolvida por causa de uma coincidência espantosa e bem vinda, dessas de uma em um milhão?. O leitor sente que o autor trapaceou em benefício próprio.

Eu já vi em último capítulo de telenovela um crime antigo ser finalmente desvendado quando a polícia faz uma última varredura no local, e acha a carteira de identidade do assassino, que ele perdeu no dia em que praticou o crime.  Nem ele tinha voltado para buscar nem a polícia tinha encontrado na primeira investigação, cinquenta capítulos atrás.

O público se julga trapaceado porque o autor está usando um “deus ex machina”, está resolvendo de uma maneira meio ditatorial um problema que precisaria de uma certa diplomacia dramatúrgica. Li recentemente um ótimo livro policial onde se conta um sequestro. Procura-se por toda parte, em várias estradas do município, algum vestígio da pessoa sequestrada. A certa altura, um amigo do protagonista pede a este que pare o carro ali numa estrada remota, pois ele precisa ir urgentemente ao banheiro. Ele para, e quando fica esperando resolve ele próprio tirar água do joelho. Quando vai até o mato, vê brilhando ali o capacete da pessoa sequestrada.

Já aconteceram comigo coincidências de cair o queixo, mas não tinham outro significado a não ser o de sua raridade estatística. Não parecia que era uma falha da Matrix, ou que era uma forma nova de mandar recados. Mesmo que se prove que somos o videogame de Alguém, isso não resolve nenhum dos nossos problemas. A história continua a mesma.

Emma Coats, roteirista da “Pixar”, diz: “Coincidências para botar os personagens numa confusão, ótimo; mas coincidências para salvá-los são trapaça.”  Não sei até que ponto a maioria dos leitores controla esses detalhes à medida que vai lendo. O melodrama teatral e o folhetim literário de antigamente usavam muito a coincidência nesses dois sentidos. Uma conversa entreouvida ao pé de uma janela, uma carta ou documento que se perde por acidente, pessoas compartilhando nomes, lugares, sendo ligadas entre si por um número ou por um fato aleatório.

A coincidência “a favor do roteirista” (para tirá-lo de um beco narrativo sem saída) é golpe baixo, é como um coringa sujando uma canastra quase real. Perderá esse agravante se outras coincidências randômicas se abaterem sobre a narrativa, em diferentes pontos, sem propósito específico. Aleatório como a realidade. Num contexto assim, a coincidência salvadora se dilui entre outras que se abateram sobre o protagonista. Uma porção de coincidências inexplicáveis e sem grande repercussão no enredo podem atenuar a presença eventual de uma coincidênciazinha que ajuda o personagem.





sábado, 9 de abril de 2016

4098) Os extraordinários (10.4.2016)



É um personagem recorrente na história da humanidade. É o sujeito que tem todas as qualidades: gente boa, honesto, simpático, inteligente, trabalhador, esforçado, um profissional realizado, quando maduro, um grande potencial de futuro, quando jovem. Alguém detentor de todos os méritos, herdeiro de todas as conquistas. É o personagem sonho-de-consumo de incontáveis pés-rapados, zés-ninguém, borra-botas, os sem ofício, os sem preparo, os sem fuga, os sem noção. A fantasia de quem para na calçada e fica olhando na vitrine uma TV ligada, onde acontecem coisas incompreensíveis que despertam a veemência do senhor de terno. Nessa imagem o transeunte reencontra o personagem que ele queria ser se um dia crescesse.

Há milhões de sujeitos iguaizinhos a ele (ao notívago na calçada, no clarão da vitrine, regressando a contragosto para uma casa que é um moído de problemas que nunca se acabam) que já tiveram a chance de se aproximar do homem de terno. Puderam pedir um autógrafo, apertar sua mão por cima dos braços retesados dos seguranças, fazer um selfie, ganhar um tapinha no ombro dado por ele (o homm de qualidades). E nesse instante, ao ser valorizado pelo líder, zé-mané se infla de cidadania, sente-se realizado.

No momento republicano do selfie, o fã e o ídolo são nivelados diante de uma lei maior, de um espírito cujo culto criou as circunstâncias concretas para aquele encontro e aquela mensagem de otimismo. O fã pensou: “Somos cidadãos, somos iguais.”  E o ídolo pensou consigo: “Sim, mas é claro que uns merecem ser mais iguais do que os outros”.

E na hora em que isso é pensado (e pior, quando é agido) pela primeira vez, some tudo que não é o Arquétipo, somem o terno Armani e a toga romana, some o coronel do rancho e some o lorde inglês. Quem está ali é o arquétipo, o personagem, o cara que descobre em si mesmo um insuspeitado (ou melhor, implícito, quase minimizado) superpoder.

É por isso que o Raskólnikov de Crime e Castigo pergunta: o que aconteceria se no lugar dele estivesse Napoleão, e como um obstáculo à sua ascensão houvesse apenas alguma velha ridícula, usurária, e fosse preciso matá-la e saquear seu cofre para financiar os estudos, uma carreira literária, quem sabe um cargo de projeção política na Corte?! O Corso titubearia? Não, porque ele sabe que é um extraordinário, se não pelo sangue nobre, pela ousadia. Napoleão forneceu a Raskólnikov o argumento de passar por cima dos inferiores, a crença de que o mundo pertence a eles, os Extraordinários, e que eles não precisam sequer de justificativas. “Eu não matei para obter recursos e poder,” diz ele, “eu simplesmente matei; matei para mim, só para mim.”

(Esta foi a minha última coluna no "Jornal da Paraíba", cujas atividades impressas se encerram neste domingo, dia 10 de abril de 2016. A publicação de novos artigos continuará normalmente, apenas aqui no blog Mundo Fantasmo.) 






sexta-feira, 8 de abril de 2016

4097) A Ciência numa frase (9.4.2016)



Richard Feynman, ganhador do Prêmio Nobel de Física, foi professor numa universidade carioca durante algum tempo. Era um cientista questionador, anticonvencional. Embora tivesse adorado o Brasil pelo seu espírito extrovertido, alegre, ele deu em seus livros de memórias um retrato muito pouco elogioso da educação brasileira. “A maioria dos universitários não são estimulados a pensar,” dizia ele, “tudo que querem é decorar fórmulas e aplicá-las nas provas, sem muito interesse pelo seu significado”.  Diagnóstico que bate com a minha experiência pessoal.

Propuseram a Feynman certa vez um problema conceitual. Digamos que acontecesse na Terra um cataclismo e toda a nossa civilização fosse destruída, com todas as nossas conquistas científicas e tecnológicas. 

E digamos que fosse possível preservar, para a humanidade futura, apenas uma frase, uma frase que contivesse o máximo de informação sobre nossa ciência, sobre o máximo a que conseguimos chegar na decifração dos segredos do Universo. Que frase seria essa?

Feynman propôs esta resposta: 

“Todas as coisas são feitas de átomos, pequenas partículas que giram em movimento perpétuo, atraindo-se umas às outras quando estão próximas, mas repelindo-se quando são ‘apertadas’ umas de encontro às outras”.

Para Feynman, bastaria um pouco de imaginação filosófica e de experiências práticas para, partindo desse ponto, recomeçar a civilização. É algo que a humanidade procurava tateando, desde os filósofos pré-socráticos, e acabou estabelecendo como hipótese central de trabalho, milhares de anos depois, no decisivo século 20. 

A definição “partículas” é questionável, mas é um bom ponto de partida para discutir a natureza da matéria. O fato de que se atraem e se repelem em diferentes condições deixa implícita a cadeia de reações cuja existência comprovamos, e cuja natureza até hoje tentamos explicar (“força forte”, “força fraca”, “gravidade”, “eletromagnetismo”, etc.). 

Como faria a civilização futura para reconstituir todo o nosso edifício científico a partir dessa frase? Bem, isso aí daria um bom romance de FC na linha de Um Cântico para Leibowitz

A frase de Feynman mata a charada? De jeito nenhum. Um biólogo, um químico, um antropólogo, um economista etc. proporiam frases-síntese muito diferentes. 

O que desafios desse tipo têm de bom é que nos forçam a voltar para o básico-das-coisas, como quando uma criança nos faz totalmente a sério uma pergunta fatal: Por quê que chove? O sol é feito do quê?  Por que umas coisas caem e outras (uma pena, p. ex.) não? Pra onde a gente vai quando dorme? O que tem embaixo do chão? De que é que eu sou feito?





quinta-feira, 7 de abril de 2016

4096) Como narrar histórias (8.4.2016)



(Emma Coats)

Volta e meia estou aqui comentando conselhos narrativos de Emma Coats, roteirista da Pixar que vive tuitando pequenas dicas. Alguns roteiristas curtem, alguns literatos acham meio plebeu ficar usando o cinema norte-americano como referência para a literatura. Ora, a arte da narrativa é algo que corta transversalmente tudo: literatura, cinema, teatro, histórias em quadrinhos, poema épico... A Narrativa tem certas regras topológicas internas que independem da linguagem utilizada. Contar uma história é uma arte transversal.

Nem toda regra se aplica a tudo, mas quanto mais atentarmos para elas mais perto estaremos de entender como se conta uma história. Estou falando de entender intuitivamente: aquele entendimento que vem de muita informação prática acumulada e que nos faz perceber de imediato o melhor caminho. É assim que um mestre de xadrez olha uma posição no tabuleiro e rapidamente elimina algunas dezenas de milhões de possibilidades nulas, para se concentrar na meia dúzia que podem dar-um-caldo.

Diz Emma: “Quando você estiver bloqueado, sem saber como avançar no enredo, faça uma lista das coisas que NÃO aconteceriam em seguida. Muitas vezes isso vai fazer aparecer as idéias para desencalhar sua história.” Esse conselho é hábil, porque quando queremos saber apenas o que DEVE acontecer, isso põe um peso muito grande na lógica, nas relações causa-e-efeito. Ficamos mais presos à explicação da história do que à dinâmica viva da história. E muitas vezes acabamos derivando para a região de alta redundância narrativa. Aquela guinada plenamente justificada mas que faz o leitor pensar: “Oi, era só isso?”.

Pensar no que não deve acontecer significa abrir diante de si mesmo todo o leque de opções da história. Se você admite que algo não deve acontecer aos personagens naquele momento é porque a narrativa está com um viés, com uma direção que precisa ser seguida. Às vezes a gente não percebe esse viés, está escrevendo somente pelo prazer de criar os episódios isolados, mas esses episódios podem estar pendendo a história numa direção geral que a gente não percebe.

Por isso acho interessante um aspecto do método criativo de William Gibson (Neuromancer), embora seja algo que eu jamais faria. Diz ele, numa entrevista recente à Paris Review: “Todos os dias, quando me sento com o manuscrito, começo na página 1 e releio o texto completo, revisando à vontade.” Quem faz isso todo dia percebe com muito mais clareza para onde a história está indo. É diferente de quem todo dia pega onde largou e, se estiver na página 120, a esta altura já esqueceu o que tem na página 50 (comigo é assim).





quarta-feira, 6 de abril de 2016

4095) Falando paraibano (7.4.2016)



No capítulo da fala paraibana (ou nordestina), tenho recorrido às minhas anotações para ver até que ponto certas expressões que sempre me pareceram “nossas” são brasileiras de ponta a ponta. Ou se (caso também possível) são nordestinas mesmo, mas as migrações e as trocas culturais já as espalharam pelo resto do país. Aqui vão mais alguns verbetes do meu inédito Dicionário Paraibano.

“Amarrar o cocó”. Diz-se de quando a chuva torna-se mais forte e mais cerrada, ameaçando durar por muito mais tempo. “Eu estava pensando em ir pra casa, mas agora a chuva amarrou o cocó e acho melhor dormir aqui mesmo.”

“Desconfiado que só cachorro em bagageiro de bicicleta”. “Desconfiado”, no caso, vem no sentido de “pouco à vontade, inseguro, receoso”.  No Rio usa-se muito uma variante: “Desconfiado que só cachorro que caiu da mudança.”

“Dar uma subida”. Passar uma descompostura; repreender alguém com veemência e agressividade.  “Quando eu cheguei atrasado no primeiro dia de trabalho, o cara me deu uma subida na frente do escritório todo, morri de vergonha.”  Tem relação com a expressão “subir de tamanco”, que tem sentido semelhante: “Com Fulano a gente tem que subir de tamanco nele de vez em quando, senão ele bota tudo a perder.”  É frequente usar complementos exagerados: “Ele subiu de tamanco e desceu de botina em cima do porteiro, porque ele dormiu e deixou a porta aberta.”

“Carrego (ê).” Pessoa complicada, com energia negativa, que só atrai problemas e confusões.  “Fulano é um carrego muito grande, quando ele senta na mesa eu vou logo perguntando quanto foi minha parte na conta”.  Tem ligação com expressões como “Aquele ambiente é muito carregado”, ou “Vou tomar um banho de sal grosso pra descarregar”.

“Bufo-bufo”. Onomatopéia usada no futebol: é o jogo à base de chutões para a frente e muita correria. "Eu não sei qual foi o milagre desse técnico pra fazer o Treze baixar essa bola, o Treze sempre foi um time de bufo-bufo."

“Até meia noite.” Modo brincalhão de confirmar uma data perguntada por alguém. "-- Hoje é sábado?...  -- Até meia-noite!"   Tem relação com o hábito de pessoas do tipo "idiotas da objetividade", que, quando alguém diz: "O aniversário de Fulano é amanhã", o sujeito exibe o relógio num inexplicável gesto de triunfo: "Amanhã, não!  Hoje!  Já passou de meia-noite!" Reflexo da substituição da noção natural de dia, que se inicia ao nascer do sol, pelo dia conceitual, que se inicia à meia-noite. 

“Despranaviar”. Cair na farra, cair na gandaia.  “O carnaval está chegando, eu agora quero é despranaviar”.   Termo popularizado pelo Coronel Ludugero, personagem criado por Luiz (pai de Lula) Queiroga.




terça-feira, 5 de abril de 2016

4094) As cartas de Cortázar (6.4.2016)



Em 1951, Julio Cortázar mudou-se de Buenos Aires para Paris. Aos 37 anos, já tinha publicado Bestiário (1951), um dos seus melhores livros, mas a pressão política do regime peronista era insuportável. Um médico, com quem se consultou devido a crises de alergia e cefaléia, disse: “Seu problema não é de doença, é de opinião. Vá embora daqui”. Na época, dois de seus melhores amigos eram o casal Eduardo e Maria Jonquières, com quem começou uma longa correspondência que durou até o fim da vida.

Cartas a los Jonquières (Buenos Aires, Alfaguara, 2010, 576 págs.) reúne 126 cartas que ele mandou ao casal. Eduardo era pintor e poeta, e grande parte da correspondência consta de discussões sobre arte, e relatos das viagens que JC fazia visitando museus, igrejas, galerias de arte. Mais velho que o amigo, Cortázar lhe dava conselhos estéticos, fazia piadas, comentava a vida dos amigos em comum. Essas cartas (diz um dos organizadores do livro, Carles Álvarez Garriga) equivalem a um diário dos seus primeiros anos em Paris.

“Ir embora não é nada,” diz Cortázar em 8.11.51, “o pior é dar-se conta de que existe uma mecânica de chiclete, de que a gente continua aderido e vai se esticando.”  Ele vai se embebendo da cultura local e da vivência. “Rimos dos turistas,” diz em 24.2.52, “mas te asseguro que quero ser até o final um turista em Paris. (...) O que é atroz em Buenos Aires é que se trata de algo muito mais intelectual do que estético, e acelera esse horrendo processo de cristalização de um homem. Por isso os argentinos são pessoas de tanto caráter (!), de tanta ‘personalidade’, repertórios de idéias definitivamente fixas, coaguladas, sem movimento possível. Todo mundo lá tem sua ‘opinião’ sobre as coisas, mas concordarás comigo que basta opinar sobre uma coisa para no mesmo instante deixar de vê-la. (...) Todo homem inteligente e sensato sabe que uma ‘prova’ é sempre outra coisa, que não toca em nada a realidade essencial daquilo de que se fala.”

Ao longo dos anos, ele oscila entre a alegria de estar no centro de uma cultura que admira e a preocupação pelos que ficaram, como a mãe, a avó e a irmã. “Sim, tens razão,” diz em 5.4.52, “fui embora na hora certa. Mas se achas que isso é um consolo te equivocas. Estar fora do incêndio não é um consolo, quando as pessoas que estão queimando te são queridas.”  As cartas documentam, indiretamente, o período em que ele produziu seus melhores contos, inventou os cronópios e os famas; curiosamente, há muito poucas alusões à criação de O Jogo da Amarelinha, seu romance principal. Mas existe aqui material suficiente para alegrar qualquer estudioso do escritor.