terça-feira, 24 de abril de 2012

2852) Jão Balaêro (24.4.2012)


 

Cap. 1 – De como Jão Balaêro não nasceu: surgiu no mundo já pronto, aos dez anos, calçando havaianas diferentes, o cós da bermuda na virilha, a camiseta suja com um nome em inglês, um picolé na mão e o balaio na cabeça, e berrando: “Rampali, tantão!”, frase cujo significado ninguém sabia. 

Cap.2 – De como Jão Balaêro cresceu na feira de Campina, chutando laranja chupada, e foi descoberto por um olheiro que o convidou para treinar nas divisões de base do Corinthians. 

Cap. 3 – De como Jão Balaêro viu-se dias depois numa fazenda no sul da Bahia, trabalhando acorrentado, comendo angu com bolacha seca e dormindo numa antiga cocheira de vacas. 

Cap. 4 – De como Jão Balaêro conheceu, entre os trabalhadores, Natan, um sujeito magro, alfabetizado e veemente que lhe ensinou em poucas semanas o que eram os livros, a mais-valia e o coquetel molotov.  

Cap. 5 – De como Jão Balaêro e Natan, aos gritos de “Rampali, tantão!”, mobilizaram 120 trabalhadores exigindo colchonetes, sabão e sopa de legumes, o que resultou em serem todos chicoteados pelos capangas e pendurados de cabeça pra baixo nas árvores uma noite inteira, para exemplo dos demais.  

Cap. 6 – De como, dias depois, caminhões na rodovia próxima recolheram um número incalculável de caroneiros, enquanto no horizonte se elevava um fumaceiro parecido com o da queima de um depósito de algodão, uma casa grande, 35 capangas e um fazendeiro gordo. 

Cap. 7 – De como Jão Balaêro e Natan desembarcaram de um pau-de-arara no Rio e arrumaram emprego numa funilaria. 

Cap. 8 – De como Natan ensinou a Jão Balaêro o que era uma armadura medieval, um robô e um assalto a banco. 

Cap. 9 – De como a polícia frustrou o assalto de dois homens sem documentos vestindo contrafações feitas de folhas de alumínio. 

Cap. 10 – De como a perplexidade da polícia carioca a fez transferir os dois indigitados para o presídio de Ilha Grande. 

Cap. 11 – De como em poucos meses Natan e Jão Balaêro transformaram o presídio, aos gritos de “Rampali, tantão!”, num serpentário trotskysta, onde até os agentes presidiários discutiam acaloradamente sutilezas estratégicas do tratado de Brest-Litovsk. 

Cap. 12 – De como o Alto Comando das Forças Armadas decidiu acabar com a festa, transferindo Jão Balaêro e Natan para um lugar seguro, mas contou com encarniçada resistência dos presos, que resultou em 87 baixas das forças da legalidade e 238 dos amotinados.  

Cap. 13 – De como finalmente Natan foi explodido com uma granada e Jão Balaêro abduzido num helicóptero da Marinha, onde foi amarrado num saco e jogado no Oceano Atlântico, onde submergiu gritando algo que soou como “Glugluglub, glub-glub!”.


domingo, 22 de abril de 2012

2851) Os fracos não têm vez (22.4.2012)


O romance de Cormac MacCarthy e o filme dos irmãos Coen têm o mesmo título, No Country for Old Men, que foi traduzido aqui como Onde os Fracos Não Têm Vez. É uma citação ao poema “Sailing to Byzantium”, de William Butler Yeats.  O poema do irlandês conta a ânsia de viagem de um homem maduro para longe do país em que vive, um país voltado para os jovens e os deleites da vida. O homem quer ir para Bizâncio e entregar-se a atividades de natureza mais espiritual.  No filme e no livro os indivíduos mais velhos estão diante de atos de violência de uma proporção que lhes parece espantosa, e se queixam (principalmente nas sequências em que aparece o xerife Bell, interpretado por Tommy Lee Jones) de que “os jovens hoje fazem o que bem entendem, e o mundo está perdido”.

Na verdade a culpa nem é dos jovens, a menos que vejamos neles um mercado significativo para as drogas que desencadeiam a verdadeira matança que ocorre ao longo da narrativa. O enredo é uma variante do argumento “Sujeito Descolado Põe as Mãos Sem Querer Numa Fortuna Que Pertence a Gente Braba”.  Daí em diante, a narrativa vai se transformar num jogo de gato e rato onde os gatos são muitos e o rato é um só.  Llewellyn Moss (Josh Brolin) é um ex-veterano do Vietnam cheio de pequenos truques e que sabe usar uma arma, mas além da polícia e dos traficantes ele está sendo caçado por Anton Chigurh (Javier Bardem), um dos vilões mais imprevisíveis e filosóficos que a literatura e o cinema nos deram nos últimos tempos. Chigurh mata por crueldade, mas mata também por algum tipo de missão cósmica que não entendemos bem, mas que parece guiar suas decisões muitas vezes surpreendentes.

Há um diálogo emblemático no filme, quando um xerife idoso diz: “Alguém iria imaginar que um dia, nas ruas do Texas, passariam rapazes com cabelo verde e um osso enfiado no nariz?  E alguém iria imaginar que seriam nossos filhos?”. Os tempos estão mudando. O livro de MacCarthy é uma reflexão sobre a enorme importância da droga dentro de nossa sociedade.  A droga que leva homens a se fuzilarem uns aos outros, a sangue frio, numa chacina progressiva que dura semanas e atravessa várias cidades.  Alguém dirá que estão se matando por dinheiro; mas a droga é um dos meios mais baratos para produzir dinheiro fácil.  É um dos negócios mais lucrativos, em termos do quanto se investe.  A droga significa Prazer para uns e Dinheiro para outros.  Enquanto o Prazer e o Dinheiro forem o objetivo de tudo que fazemos, a sociedade não se livrará da droga. E daqui a algumas décadas em nenhum país existirão pessoas velhas. Todo mundo morrerá cedo – por causa da droga, do prazer e do dinheiro.

sábado, 21 de abril de 2012

2850) Temple Grandin (21.4.2012)




Temple Grandin é uma mulher autista, e tem 64 anos.  Na infância teve professores especiais, mas depois estudou em escolas de crianças normais.  Como se sabe, crianças “normais” não perdoam crianças que sejam um pouquinho diferentes delas. Quando percebem que Fulano é “estranho”, elas mangam, zoam, perseguem, às vezes dão porrada.  Temple Grandin diz hoje que tinha dificuldade em entender a razão daquilo: “Eu pensava que todo mundo pensava igual a mim, e não entendia por que eles me tratavam daquele jeito”.  Todo autista é uma pessoa completa, e toda pessoa é diferente.  Quando alguém tem uma condição especial como autismo, isso é apenas 10 ou 20%, e os outros 80 ou 90% dela são tão imprevisíveis quanto os de qualquer pessoa.  Nenhum ser humano pode ser definido exclusivamente em função de alguma condição especial que possua, seja ela qual for.

Temple estudou Psicologia e tornou-se uma defensora dos “direitos humanos dos animais”, se bem me exprimo.  Planejou fazendas, currais e matadouros menos estressantes para o gado. Mesmo reconhecendo a necessidade do sacrifício do gado para nos alimentar, ela resume sua reivindicação para eles em “uma vida digna e uma morte indolor”.  Incapaz de sentir emoções, como muitos autistas, ela mesmo assim fez muito mais pelos bichos do que muita gente que se comove com a tragédia deles mas não move uma palha em seu favor (eu, por exemplo).

Aqui está uma palestra dela (com legendas em português: http://bit.ly/HLYZQs), “O mundo necessita de todos os tipos de mentes”. É uma mulherona grisalha, com camisa florida de cowboy, um jeito meio masculino. Vi-a pela primeira vez anos atrás, num documentário da TV que mostrava uma engenhoca bizarra que ela construiu, a “máquina do abraço”, uma coisa feita de traves de madeira, roldanas e tudo mais. Ela entrava naquela estrutura, movia controles, e as partes de madeira pressionavam partes diferentes das costas, das pernas e dos braços dela, produzindo-lhe “uma indescritível sensação de bem estar”. Deve ser o que as crianças normais sentem quando são abraçadas e acarinhadas pelos pais.  O fato de Temple ter precisado inventar uma trapizonga mecânica para obter esse efeito mostra, como diria Drummond, que “cada pessoa é diferente e somos todos iguais”. 

Os autistas se fixam em pequenas obsessões, diz ela: animais, automóveis, livros. Pode-se usar essas obsessões para lhes ensinar matemática, desenho, história, etc.  Infelizmente nosso ensino não é (nem tem como ser) personalizado. Existe um conjunto de fórmulas que todos devem assimilar até a graduação e o diploma. Quando os autistas forem maioria (estão aumentando!), talvez isso mude.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

2849) Rehab (20.4.2012)



O café da manhã seria o melhor momento do dia, se não fosse pelo café da manhã. Piada recorrente aqui na clínica. Gostamos do ambiente claro, acolhedor; gostamos de ver, na TV do refeitório, as reprises de I Love Lucy ou A Ilha da Fantasia. (Todas as TVs são ligadas num mesmo canal, para estimular a socialização e a troca de idéias). 

Gostamos do zum-zum-zum, do tilintar de pratos e talheres. Só não gostamos da comida. Não tem sabor nenhum, o que ressalta a textura repugnante de algumas delas. O Duque de Hagen comentou ontem comigo: “Mastigamos estas coisas insípidas e sem cheiro em busca de sofrimento. Só alimentam a ilusão de que nos fazem bem”.

Piscina com água pela cintura, olhares vigilantes dos salvavidas. Baralho ou gamão no Espaço Convivencial. Mme. Tepes, como sempre, passeia no jardim sem guarda-sol, rosto erguido; perdida em alguma viagem épica, triunfante. Eu caminho ao seu lado, ouço histórias suas de épocas passadas, mas todas pasteurizadas, irrepreensíveis. Com a idade que tem, não cansa de dizer que vive em função do futuro.

Hoje não recebi diálise, só as injeções e o rebatismo. Depois, caminhei em volta da clínica, que tem para isso uma pista larga, arborizada. Caminhar me faz bem, e é apenas nestes momentos que sinto algo próximo ao arrebatamento de quem se joga sem medo num abismo, de quem voa por sobre as nuvens guiado pela lua. 

O moleton está encharcado quando o dispo no banheiro; um chuveiro frio; uma roupa leve; e o detestável almoço, onde é ainda maior a quantidade de coisas pastosas que é preciso engolir, de coisas ásperas e úmidas que é preciso desfazer com os dentes.

Minha tardes são sempre melancólicas; costumo me alegrar com a companhia do Signor Polidori, sempre bem-humorado, com duas ou três anedotas picantes na ponta da língua. E quando a noite começa a cair e os enfermeiros nos conduzem para o prédio principal, tem início a parte terrível do meu dia, do dia meu e de todos. 

Trancafiados em nossos quartos, com portas e janelas protegidas, câmaras de vigilância piscando mecanicamente seu olho vermelho, entretemo-nos em ler A Bíblia na Linguagem de Hoje, revistas de modas ou de vida social. Uns assistem vídeos de Papai sabe tudo ou de Os pioneiros. Outros escutam MP3 de Pat Boone ou de Brenda Lee. 

Alegria e conforto são as palavras de ordem nessa noite interminável que se inicia e que todos nós temos que atravessar. A noite que agora precisamos temer e abominar, sem lembrar o tempo em que éramos seus imperadores, em que o mundo se estendia imenso por baixo de nossas asas abertas, e o prazer da vida borbulhava quente e saboroso por entre os nossos caninos.






quinta-feira, 19 de abril de 2012

2848) Millôr Fernandes (19.4.2012)



Não conheci Millôr pessoalmente. No lançamento de um livro, há quase 20 anos, num salão repleto de gente, vi-o a cinco passos de distância, conversando com alguém. Poderia ter ido até lá e dito a bobagem de sempre, “sou seu fã desde pequenininho”, a que ele responderia com bom humor e atenção, como me parece que era seu jeito. Paciência. Um autor tem vida própria, tem sua família, seus amigos. E tem seus leitores, que são uma espécie de amigos virtuais: nunca conviverão com ele, nunca tomarão um cafezinho na esquina ou um chope na calçada, nunca compartilharão confidências pessoais, nunca telefonarão um para o outro quando estiverem precisando trocar idéias ou reclamar da vida. Paciência; a vida é assim, não adianta reclamar.

Cresci numa época em que a revista O Cruzeiro era uma espécie de Fantástico, o Show da Vida impresso, que levávamos uma semana saboreando. Eu lia as reportagens sobre futebol, crimes e discos voadores; e lia as seções de humor, o Pif-Paf de Millôr, o Amigo da Onça de Péricles, a página de Carlos Estêvão, os cartuns de Appe ou Borjalo. Millôr saiu da revista brigado, por causa da sátira “A Verdadeira História do Paraíso”, que desagradou a Igreja. Fundou seu próprio Pif-Paf, depois entrou no Pasquim, tornou-se uma figura onipresente na minha vida adulta. Por causa dele conheci a obra de Steinberg, e a palavra “cartum” virou uma forma de arte. Li quase todas suas peças de teatro, a começar pela colagem Liberdade, Liberdade com Flávio Rangel (um dos mais célebres espetáculos anti-ditadura), e depois É..., Um elefante no caos, Os órfãos de Jânio, Computa, computador, computa!... Millôr era uma espécie de Bernard Shaw carioca. Seu teatro era engraçado, profundamente crítico, e cheio de teorizações sobre o Brasil e o mundo.

Foi o maior fazedor de frases do Brasil? Difícil dizer, porque este é um dos talentos mais espontâneos e viscerais do nosso povo. Mas mesmo nesta concorrência acirrada Millôr poderia reivindicar o título pelo mero fator quantidade (basta folhear A Bíblia do Caos). Era um agnóstico tranquilo e um individualista renitente. Brigava pelo direito de não usar cinto de segurança, o que me parece idiota na prática mas compreensível como atitude ideológica (“quem manda em mim sou eu, não o Estado”). Tinha uma independência de espírito que muitos intelectuais também poderiam ter, se para isso não fosse preciso ter a coragem de passar a vida batendo com a cabeça nas paredes e dando murros em pontas de faca. Millôr fez isso até o fim, e, pelo menos daqui de onde enxergo, as paredes e as facas nunca mais tiveram o mesmo poder sobre seus leitores virtuais.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

2847) No pé da página (18.4.2012)




Houve um tempo em que os livros eram copiados a mão nos mosteiros, em folhas de pergaminho. Obras importantes eram passadas a limpo por escribas hábeis, com caligrafias meticulosas que, vistas hoje, parecem ter sido impressas com tipos móveis, pela sua regularidade, harmonia e clareza. Ser escriba medieval exigia, além da caligrafia perfeita, boa cultura (para não cometer erros de grafia, e para poder eventualmente corrigir os erros da cópia que estava servindo de modelo), paciência e resistência física; porque em geral o escriba tinha que passar o dia inteiro debruçado sobre uma mesa, molhando a pena no tinteiro e desenhando letras após letras, hora após horas, dia após dia, ano após ano. Não era um serviço para qualquer um; e pelo menos uma grande obra literária, O Nome da Rosa de Umberto Eco, fez justiça a esses operários do saber, de um mundo que não existe mais.

O número da primavera da revista Lapham’s Quarterly (http://bit.ly/GDbCwa) traz uma matéria sobre o lado emocional desses artesãos anônimos: os comentários que eles deixavam anotados nas margens ou no cólofon das obras que copiavam. Ninguém é de ferro, não é mesmo? Esses monges de 800 anos atrás também não eram, e deixavam rabiscados, aqui e ali, seus pequenos protestos. “Estou com muito frio”, anota um. “Esta é uma página difícil dá muito trabalho para ser lida”, anota outro, lembrando-nos que estas cópias impecáveis eram muitas vezes feitas a partir de manuscritos muito velhos, danificados, com trechos arrancados ou ilegíveis. Alguns se queixam de pequenos problemas técnicos: “O pergaminho é peludo”, “A tinta é rala”, “Pergaminho novo, tinta rala, e não digo mais nada”. Alguns fazem uma autocrítica: “Esta página não foi escrita muito devagar”.

Mais comovente são os desabafos mais longos, que expressam bem o sentimento provocado por esse trabalho estafante: “Agora acabei tudo, pelo amor de Deus me deem algo para beber”. “São Patrick de Armagh, libertai-me do ofício de escrever”. “A escrita é um trabalho enfadonho. Ela enverga nossas costas, cansa nossa visão, torce o nosso ventre e as nossas ilhargas”. “Eu estava gelado enquanto escrevia, e o que não pude copiar aos raios do sol terminei à luz de velas”. “Assim como a visão do porto é bem vinda ao marinheiro, a da última linha o é para o escriba”. “Isto é tão triste! Oh, pequenino livro. Chegará um dia em que alguém lerá esta página e dirá: A mão que a escreveu não existe mais”. São pequenas queixas de homens anônimos que humanizam essas obras centenárias. É como encontrar na argamassa de uma catedral a marca de uma mão ou de dois joelhos humanos.

terça-feira, 17 de abril de 2012

2846) Bob Dylan no Rio (17.4.2012)



(Dylan em Copacabana. Foto: Nana Tucci)

Não fui ver Dylan no Citibank Hall. É a quinta vez que ele canta na cidade, e vi todas as outras quatro. Pra que ver mais? Dylan é uma espécie de Ronaldinho Gaúcho: a gente não vai assistir pensando no que ele pode fazer, mas para agradecer o que ele já fez. Isso não impede nenhum dos dois de eventualmente produzir algo genial. Os monstros sagrados nunca morrem de todo. Quando menos se espera, as cinzas começam a se juntar sem que nenhum vento esteja soprando.

Dylan cantou no Rio pela primeira vez em janeiro de 1990, na Apoteose. Abriu o show com “Subterranean Homesick Blues”. Eu estava no gargarejo, e o cara que ajeitou o pedestal do microfone dele era mais alto do que eu. Dylan tem 1,65m. Cantou a primeira estrofe inteira de guitarra em punho, para um microfone apontado para sua testa (no fim da estrofe, ajeitou rapidinho). O show foi uma mistura de gente emocionada e gente reclamando. No meio de “Hattie Carroll” estourou uma briga perto de onde eu estava, ele cantou a música inteira olhando para os brigões.

Em agosto de 91, ele cantou no extinto Imperator, no Méier. Um show fechado, acolhedor. A certa altura faltou energia na casa inteira. O baterista fez um longo improviso acompanhado com palmas pela platéia. Em 1998, ele abriu o show dos Rolling Stones, novamente na Apoteose. “Apoteose” é um eufemismo para a cena em que, no show da banda principal, ele voltou ao palco para cantar “Like a Rolling Stone”. Na turma que foi a este show estava minha filha Maria, então com 20 anos. O quarto show de Dylan aqui foi na Arena Multiuso, em março de 2008 (ver: http://bit.ly/HL8N0L). Fui com meu filho Gabriel, então com quase 16 anos. Dylan abriu o show com “Rainy Day Women # 12 e 35”, levantando a platéia, cantou razoavelmente bem algumas músicas, o tempo todo em pé, num tecladinho.

Por que não fui agora, além do preço? Não sei. Ano passado vi Milo Manara aqui no Rio, autografando quadrinhos. Vinte anos atrás eu passaria uma madrugada sob a chuva para pegar um autógrafo dele. Desta vez, esnobei. Não, não esnobei ele, nem Dylan, nem qualquer outro. Esnobei a necessidade de guardar uma prova palpável de que por alguns minutos compartilhamos as mesmas coordenadas espaçotemporais. Dizem que com a idade a gente vai ficando mais indiferente às pequenas coisas; já ouvi alguém dizer que velho não guarda lembrancinhas porque não vai ter muito tempo para lembrar. Eu diria que a idade torna meio irrelevantes esses rituais. O mundo é dos jovens. Pessoas como eu e Dylan estamos por aqui curtindo a música da festa, a inebriação do vinho; mas na verdade já estamos na calçada, esperando o táxi.

domingo, 15 de abril de 2012

2845) Evolução dos games (15.4.3012)



(The Elder Scrolls V: Skyrim)

Quando Thomas Edison inventou o fonógrafo, não pensou que aquilo serviria futuramente para vender canções para bilhões de pessoas. Achava que a máquina ajudaria no estudo de línguas estrangeiras. Quando os irmãos Lumière inventaram o cinema, acharam que era uma “invenção sem futuro”, e foi preciso o gênio de Georges Méliès (homenageado agora com o belo filme A invenção de Hugo Cabret) para descobrir o potencial de narração e de fantasia daquelas imagens em movimento. Alguma coisa parecida (numa escala diferente, e de mistura com outras variáveis) está ocorrendo com os videogames nestas décadas iniciais de seu desenvolvimento. O avanço técnico dos gráficos e da jogabilidade está sendo muito mais rápido do que o dos aspectos (digamos) dramatúrgicos e literários.

No seu livro Extra Lives (2010), Tom Bissell afirma: “Games são produtos de entretenimento corporativo, criados por dúzias de pessoas, com uma grande expectativa de ganhar dinheiro. Eles têm mais inteligência formal ou estilística do que são capazes de utilizar; e não têm nem um traço de inteligência temática, emocional ou moral”. O julgamento é duro, mas como é feito por um sujeito que se confessa viciado em games, talvez não seja preconceituoso. Bissel justifica esse desenvolvimento defeituoso com uma razão principal: “Um número desproporcional de designers de games hoje em atividade vem de um background de sistemas, programação ou engenharia, o que contribuiu para formar suas personalidades e interesses. Uma consequência disto é que os designers imaginam os games de dentro para fora: Que variável posso inserir no sistema para produzir um efeito interessante?”.

Ou seja: os games não foram inventados por artistas, mas por técnicos. Quem os criou estava tentando reproduzir o movimento de corpos num espaço tridimensional através de pontos luminosos. Eu sou dos primórdios dos games de computador (raramente joguei games de console, tipo PlayStation ou Xbox). No tempo dos computadores pré-Windows, usei joguinhos em que os personagens eram representados por letras maiúsculas, os muros da prisão eram uma série de XXXX maiúsculos, a jóia que eles procuravam roubar era um asterisco, e assim por diante, tudo isso em letras verdes sobre fundo preto. Ou seja, “mó toskera”, como diriam os jovens de hoje. Desse mundo para o de Mass Effect 3, vai uma distância que foi coberta em vinte anos. Diz Bissell: “A indústria dos games, que começou com uma cultura de engenheiros, transformou-se num negócio, e agora, como um milionário talentoso que se volta para a poesia, está cheia de aspirações confiantes, mas inseguras, de se transformar numa arte”.

sábado, 14 de abril de 2012

2844) Reescrever um livro (14.4.2012)



(Neil Gaiman, por Mizzy Chan)

Grande parte das carreiras literárias são resultado de uma experiência inesquecível de leitura que faz alguém pensar: “Quero escrever assim também”. Ninguém começa a escrever sem ter lido algo que o emocionou, que lhe deu uma nova maneira de pensar, de ver as coisas. Jean-Paul Sartre, na infância, copiava à mão romances de aventuras, trocando os nomes dos personagens e algumas peripécias, e os assinava com seu próprio nome. August Derleth era um fã tão ardoroso das histórias de Sherlock Holmes que inventou um detetive praticamente idêntico, mas para poder publicar as histórias trocou o nome do personagem para Solar Pons. Outras vezes, a motivação pode vir de um livro ruim. Diz-se que Fenimore Cooper trabalhava como marinheiro e um dia, numa daquelas longas esperas a que os marinheiros são submetidos, estava lendo um livro de aventuras. A certa altura jogou-o para um lado dizendo: “Que coisa idiota, até eu seria capaz de escrever um livro melhor do que este”. Os amigos riram dele, fizeram algumas apostas, e Cooper escreveu O Último dos Moicanos.

Neil Gaiman, o autor de Sandman, falou numa palestra sobre a impressão que lhe causou a leitura de O Senhor dos Anéis de Tolkien. Totalmente arrebatado pela obra, diz ele, “cheguei à conclusão de que O Senhor dos Anéis era, provavelmente, o melhor livro que poderia ser escrito, o que me colocou numa espécie de sinuca. Eu queria ser um escritor quando crescesse. Não, não é verdade: eu queria ser um escritor naquele momento exato. E eu queria escrever O Senhor dos Anéis. O problema é que ele já tinha sido escrito”. Esse tipo de entusiasmo é resolvido, hoje, pela existência do que chamamos “fan fiction”, histórias escritas pelos fãs utilizando o universo e os personagens de uma obra que admiram. Prolongamentos, extensões amadorísticas de uma obra profissional em sua origem. É uma atividade ironizada por muita gente, mas que acho positiva, porque ajuda o jovem fã a treinar sua mão dentro de um contexto dramatúrgico que ele já conhece bem e onde sabe se movimentar.

Depois da fan fiction, entretanto, pode surgir a literatura profissional. Neil Gaiman não reescreveu Lord of the Rings, em compensação criou a série Sandman de quadrinhos e uma porção de ótimos romances, como Neverwhere, American Gods, The Graveyard Book. Será que são tão bons e tão historicamente importantes quanto obra de Tolkien? Não importa: são os livros de Gaiman, os livros que ele tirou de sua própria imaginação e de sua memória afetiva, livros modernos ambientados em Londres, nos EUA, em cidadezinhas imaginárias... Livros que Tolkien não poderia ter escrito.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

2843) Obsolescência (13.4.2012)



Uma página interessante faz uma avaliação do grau de obsolescência de vários tipos de controles e consoles para games, desde os mais antigos. Christian Sandvig (http://bit.ly/Iu8p6J) é professor de “Tecnologias da Comunicação e Sociedade” na Universidade de Illinois, e comenta: “Minhas tecnologias tornaram-se obsoletas, em sua esmagadora maioria, devido a avanços tecnológicos ou a defeitos. Além disso, algumas se tornaram obsoletas devido ao aparecimento de produtos mais atraentes injetados no mercado pela cultura de consumo intenso cada vez mais presente nos EUA. Concordo com quem diz que as tecnologias estão sendo substituídas muito antes de se tornarem de fato obsoletas. Um bom exemplo disso é quando Slade diz que telefones celulares fabricados para durar cinco anos estão sendo descartados depois de dezoito meses”.

Pode-se “tomar o pulso” do descontrole industrial de uma civilização quanto ela vai na direção de um destes extremos: 1) ser incapaz de substituir produtos obsoletos por produtos novos que cumpram bem a função; 2) aposentar cedo demais produtos ainda válidos, simplesmente para convencer o consumidor a comprar um produto novo do qual ele, na verdade, ainda não precisa. No primeiro caso, a economia vai mal porque está lenta, preguiçosa, recessiva, ou então não tem o know-how necessário para resolver seus próprios problemas. No segundo caso, está acelerada demais, como uma pessoa que tomou estimulantes em excesso e perdeu a capacidade de administrar direito o que faz.

Diz Sandvig: “As empresas que produzem eletrônicos deviam ser obrigadas pelo governo a oferecer algum tipo de subsídio para motivar e ajudar o comércio num plano de recolhimento e reciclagem do lixo eletrônico. Até mesmo o consumidor poderia ganhar um pequeno desconto na compra de um equipamento novo se trouxesse o equipamento velho e o devolvesse. Isto manteria o fluxo da inovação tecnológica, diminuiria o lixo eletrônico, e manteria satisfeitos os consumidores”. É um ponto de vista correto, mas parece mais próprio da sociedade norte-americana. Aqui no Brasil, pela minha experiência, um eletrônico só vai pro lixo quando já deu tudo que tinha que dar. Televisão, celular, notebook, monitor de PC , tudo isso é repassado para outra pessoa (filho, pais idosos, amigo, empregada, porteiro do prédio) quando a gente compra um novo. A obsolescência é gradual – quando a gente está com mais grana, compra um modelo novo, e repassa o antigo para quem não pode comprar. A ida pro lixo não é imediata, é o fim de uma longa cadeia de presentes ou de transações informais, numa sociedade de classes mais próximas e mais permeáveis.