terça-feira, 27 de setembro de 2011
2672) A palavra inchirido (27.9.2011)
Até hoje não sei como se escreve: Inchirido? Enxerido? Não importa; esse adjetivo é uma daquelas palavras tipicamente nordestinas, como arretado, oxente, mangar.
O cara inchirido é o cara atrevido, metido, ousado. No sentido sexual, é o homem que dá em cima, que “avança o sinal”, que “azara”, que dá cantadas, que fica rondando e pedindo uma chance.
Como tantos outros termos nessa área, pode ter um sentido pejorativo e um sentido elogioso, dependendo do interesse que a vítima possa ter pelo cara que se comporta assim: “Não suporto Fulano, além de feio é inchirido”, ”Eu fico toda nervosa quando ele chega junto, porque ele é muito inchirido”, “Minha filha, eu só gosto de homem inchirido, porque a gente já sabe que ali acontece alguma coisa”.
Também se usa, meio metaforicamente, em outras circunstâncias. “O brasileiro é um povo muito inchirido, se metendo a fazer Copa do Mundo e Olimpíada ao mesmo tempo!”. “O São Caetano montou naquele tempo um time meio inchirido, que acabou sendo vice-campeão brasileiro e vice-campeão da Libertadores”.
Ou seja, “inchirido” no sentido geral de ambicioso, disposto a ir além dos limites que lhe haviam sido traçados por outros. E existe, claro, o verbo “inchirir-se”, reflexivo: “Cuidado, Fulana, teu marido anda se inchirindo pra aquela galega do bar”.
Surge a questão: qual a origem da palavra? Por algum tempo pensei que viesse do verbo “encher”, mas logo descartei. Pensei que viesse de “inserir, inserido”: “Fulano anda se inserindo no meio de uma turma que não é a dele”.
Num livro de Carter Dickson, Os Crimes da Viúva Vermelha, encontrei uma referência de que a palavra “Enchiridio” se referia a “uma coleção de orações mágicas inventadas pelo Papa Leão III e oferecidas a Carlos Magno no ano 800”.
Agora, o saite A Word A Day me explica que a palavra significa “manual, pequeno livro de informações básicas”, e vem do grego “encheiridion”: en (em) + chiros (mão) + idion (sufixo diminutivo). Ou seja, um livrinho com informações essenciais que pode ser levado na mão; daí o sinônimo “manual” (em inglês é “handbook”).
Diz o saite que o uso mais antigo documentado, é de 1541. Mas isso não importa. A questão é: o Enchiridio (que aliás deve se pronunciar “enquirídio”) medieval pode ter dado origem, pelas vias tortuosas de sempre, ao nosso conceito de “inchirido”?
O inchirido seria, então, aquele sujeito que leva consigo um livrinho com todas as respostas (espécie de Manual do Escoteiro) e que devido a isso passa a ostentar uma cultura-de-almanaque, se torna pedante, metido a besta, sabe-tudo, atrevido? E ainda por cima conquista todas as mulheres com isso?!
domingo, 25 de setembro de 2011
2671) Livros Proibidos II (25.9.2011)

(Capa de Harry Potter, recriada por M. S. Corley)
A Semana dos Livros Proibidos (última semana de setembro), chama a atenção para o que os organizadores, nos EUA, chamam de “Banned and Challenged Books”. “Banned” é o livro banido, proibido oficialmente por um governo, com todas as consequências (apreensão policial dos exemplares à venda, com prejuízo para o livreiro, etc.). Muitas vezes isto envolve a ameaça à liberdade ou à integridade física do autor ou do editor. “Challenged” significa que o livro é impugnado, questionado, denunciado por grupos ou entidades, sob a alegação de que infringe algum princípio. O número de livros denunciados, claro, é muito maior do que o de livros de fato proibidos, já que nem toda denúncia é aceita. Ainda assim, o estrago é grande, porque a denúncia produz efeitos locais, principalmente no que diz respeito à eliminação de livros das bibliotecas e do currículo escolar de colégios e universidades.
Todo mundo entende que o Minha Luta (“Mein Kampf”) de Hitler seja proibido. O furibundo alemão é o saco-de-pancadas preferencial do Ocidente. A tal ponto, aliás, que por todo lado brotam jovens carrancudos, insatisfeitos, irritados com a hipocrisia da época, e começando a murmurar uns com os outros: “Por que será que proibiram o livro do cara? Vai ver que ele denunciava isso-tudo-que-está-aí... Era um idealista...”. E pronto, a proibição tem um resultado inverso: projeta uma aura de contestação e de martírio sobre a obra de um desorientado.
Já os livros de Harry Potter têm sido largamente denunciados nos EUA porque grupos evangélicos de variadas colorações os consideram uma apologia ao satanismo, à magia negra, etc. Se você acha isso absurdo, e que Harry Potter é inofensivo, o que dizer então da denúncia contra a série Capitão Cueca de Dav Pilkey? Sucesso aqui no Brasil, os livrinhos ficaram em sexto lugar na lista de obras mais denunciadas nos EUA em 2002, por “falta de sensibilidade”, por serem “inadequados à faixa etária” e por “encorajarem as crianças a desobedecer as autoridades”. Pois é. Começa com Capitão Cueca, daqui a pouco os meninos vão estar lendo Che Guevara.
A denúncia contra Harry Potter, é claro, é proporcional ao seu sucesso. Há incontáveis livros sobre meninos bruxos que entram e saem dos lares e das escolas sem que ninguém lhes dê importância ou os considere Os Evangelhos de Belfegor. Mas os professores não são bobos. Harry Potter foi um movimento social em torno de um livro, um movimento que arrebatou dezenas de milhões de garotos. Ninguém faz sucesso impunemente. Ninguém atinge milhões de pessoas sem que alguma autoridade se debruce sobre o caso, luneta em punho, para saber por quê.
sábado, 24 de setembro de 2011
2670) Livros Proibidos I (24.9.2011)

Está começando nos EUA a Semana dos Libros Proibidos (“Banned Books Week”), celebrada na última semana do mês de setembro. É uma iniciativa conjunta de associações representando editores, professores, livreiros, bibliotecas e entidades culturais que combatem a censura a obras literárias, desde a proibição pura e simples até a sua retirada de currículos e do acervo de bibliotecas. Eu nunca tive um livro proibido pela censura. Tive uma música (“Nordeste Independente”, composta com Ivanildo Vila Nova, gravada por Elba Ramalho) que teve sua execução pública proibida durante o último ano da ditadura militar. Mas é como leitor que durante os próximos dias comentarei algumas dessas obras que foram retiradas de circulação, e por que motivos isso aconteceu.
Os principais motivos para um livro ser proibido são: 1) conteúdo sexual; 2) cenas de violência ou sadismo; 3) linguagem chocante (não necessariamente palavrões de cunho sexual, mas linguagem considerada agressiva, vulgar, violenta, etc.); 4) cenas envolvendo drogas e parecendo endossar o seu uso; 5) conteúdo racista ou discriminatório contra maiorias; 6) idéias políticas contrárias ao regime vigente; 7) agressões, calúnias ou afirmações graves contra um indivíduo ou grupo. Há outros, com certeza; estou enumerando de memória. As razões mudam de lugar para lugar.
A liberdade de literatura é muito parecida com a liberdade de imprensa. Todo mundo é a favor até o instante em que se torna vítima dessa liberdade, até quando surge um livro dizendo algo que nos ofende, nos envergonha ou nos ameaça. Nesse instante, nosso discurso democrático vai dar uma volta no espaço sideral, e a vontade que a gente tem é mandar apreender aquele livro, queimá-lo em praça pública, e premiar o autor com uma surra de fio-desencapado e um banho de sal grosso.
Digo isto para lembrar que a luta pela liberdade de expressão não é uma luta do Bem contra o Mal, a luta dos Cem Por Cento Certos contra os Cem Por Cento Errados. É um dilema, uma encruzilhada entre duas opções, ambas envolvendo ganhos numa direção e perdas na outra. Somos contra a proibição de James Joyce ou de Rubem Fonseca, mas aposto que muitos de nós somos a favor da proibição dos livros de Hitler. Cada sociedade se define pelos seus critérios para proibir um livro e ameaçar seu autor, porque ao fazer isto ela atinge um limite de si própria, atinge aquela fronteira ética na qual em nome dos mais elevados valores se cometem os atos mais graves. Somos todos a favor da liberdade de expressão. Mas cada um de nós tem pelo menos um livro que proibiria com prazer e vingança. Bora, rapaz. Fala a verdade.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
2669) Romero Cavalcanti (23.9.2011)
(recorte de Romero Cavalcanti)
Há artistas paraibanos que são famosos na Paraíba e desconhecidos no resto do Brasil. Romero Cavalcanti, pelo contrário, é famoso no Brasil e quase desconhecido na Paraíba. Explica-se pelo fato de que, tendo nascido em Itabaiana e estudado na capital, ele foi muito cedo para o Rio de Janeiro, onde construiu uma carreira de artista plástico, artista gráfico, ilustrador, capista de livros e discos, criador de cartazes e de programações visuais. As técnicas e os meios são os mais variados: óleo, bico de pena, desenho, objetos, colagem, aerógrafo, etc.
Fizemos muitos trabalhos juntos até agora, mas o mais importante talvez seja a série de capas e ilustrações que Romero produziu para minhas antologias de contos fantásticos lançados pela Casa da Palavra: Páginas de Sombra (2003), Contos fantásticos no labirinto de Borges (2005), Freud e o Estranho (2007), Contos Obscuros de Edgar Allan Poe (2010) e, a ser lançado em breve, Páginas do Futuro: contos brasileiros de ficção científica. São ilustrações feitas com colagem de fragmentos de gravuras antigas, num estilo muito usado pelos Surrealistas nos anos 1920 (principalmente Max Ernst).
Depois de décadas no Rio, Romero faz sua primeira exposição individual na Paraíba dentro do evento “Setembro Fotográfico” (24 a 30 de setembro). Alguém perguntará: Mas ele é fotógrafo? A resposta é: Não, ele é um desconstrutor de fotografias. A exposição “Ex-Fotos” (com um saboroso trocadilho no título, cheio de sugestões) mostra fotos alheias que o artista recorta com estilete até transformar em coisas completamente diversas. O corte do estilete produz uma nova silhueta que nada tem a ver com a original, e nessa nova silhueta as zonas de cor, de luz e de sombra sofrem uma leitura que também nada tem a ver com a da imagem em que foram produzidas originalmente.
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Existem as artes aditivas, que consistem em colocar coisas onde não havia nada (a pintura, p. ex.), e artes subtrativas, que consiste em pegar uma massa informe e retirar partes dela até deixar ali uma obra de arte (a escultura, p. ex.). A desconstrução promovida por Romero é de uma terceira natureza, porque pega uma obra de arte acabada (ou pelo menos um produto informacional acabado, no caso uma foto) e interfere nela até transformá-la numa voluta abstracionista, numa caricatura grotesca, numa colagem de formas surrealistas.
A exposição “Ex-Fotos” está aberta no Casarão 34, de 24 de setembro a 30 de outubro, de 2ª. a 6ª. feira, das 8às 12 e das 14 às 18 horas. Além da exposição, o artista estará ministrando a oficina “Recorte da Imagem a Partir da Fotografia”, nos dias 27 e 28, das 15 às 18 horas.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
2668) O preço do ingresso (22.9.2011)

(foto: Alexey Titarenko)
Num país do Leste Europeu, um governo corrupto foi derrubado por um golpe chefiado por militares nacionalistas. Rasgaram a Constituição e impuseram outra, prenderam dissidentes, o de sempre. Entre outras providências, resolveram interferir no mercado cinematográfico. Havia uma polêmica interminável ali sobre a invasão de filmes norteamericanos, que estava sufocando a criatividade dos realizadores locais. O Ministério das Artes Visuais, chefiado por um tenente-coronel com especialização em mísseis balísticos, chegou a uma curiosa conclusão. Argumentou ele que era uma injustiça muito grande que o cinema dos EUA, riquíssimo e poderoso, concorresse nas bilheterias em igualdade de condições com o cinema local, notoriamente amadorístico, pobre de recursos. Assim como (raciocinou o Governo) uma garrafa de vinho francês safra 1920 não custa o mesmo que um vinho banal, por causa dos insumos envolvidos em sua produção, o ingresso de uma superprodução norteamericana não pode custar o mesmo que o ingresso de um filme feito por meia dúzia de cabeludos que estão querendo mudar o mundo em uma hora e meia.
Vai daí, o Governo gerou um complicado mecanismo de avaliação de custos para os filmes, e enfiou goela abaixo dos distribuidores e exibidores a exigência de que o ingresso para ver um filme deveria custar cerca de 0,001% do orçamento total do filme (o exemplo do relise distribuído à imprensa era: “O ingresso para um filme que custou um milhão de dólares deveria custar dez dólares”). Falou-se em redistribuição de renda, em geração de empregos, em incentivo à produção local.
Isto provocou, é claro, um enorme mal-estar e uma saia muito justa com os distribuidores internacionais, que até então achavam muito natural que um filme de Indiana Jones cobrasse o mesmo preço de ingresso cobrado por um filme-de-arte como Seis tonalidades de bruma de Zbigniew Tornatolski. Como a essa altura a economia do país já estava totalmente dolarizada (um pão francês chegava a custar mais de 10 milhões de “vezlatys”, a moeda local), o mercado exibidor se deparava com filas gigantescas querendo ver filmes importados a custo quase zero (Andy Warhol, Julio Bressane, John Cassavetes), cuja entrada custava alguns centavos de dólar ao espectador. E no cinema ao lado, havia um engarrafamento de limusines, tapete vermelho, gambiarras de luzes e cronistas sociais para receber a burguesia local e o alto escalão do governo, gente capaz de pagar um ingresso de 2.370 dólares para assistir o Avatar de James Cameron (claro que todos recebiam dos cofres públicos uma ajuda de custo especial para isto, mas aí já é outra história).
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
2667) Bicicleta abandonada (21.9.2011)

(foto: Joe Schumacher)
A idéia é de Avram Davidson, em “Or all the Seas with Oysters” (que eu traduziria por “E os mares cobertos de ostras”). É uma teoria científica heterodoxa (os cientistas ortodoxos são incapazes de ter novas idéias sobre o Universo). O conto, ganhador do Prêmio Hugo de 1958, mostra o diálogo entre dois amigos: Ferd (que gosta de livros, LPs e conversas de alto nível) e Oscar (que gosta de cerveja, boliche e mulheres). Ferd se interessa por fenômenos biológicos: o mimetismo, que faz algumas criaturas vivas se disfarçarem como objetos (galhos, pedras, etc.) para atrair vítimas; e a regeneração, que faz um lagarto crescer um rabo novo depois de ter o rabo cortado.
E Ferd diz: já repararam como os alfinetes de segurança (ou “broches de fraldas”) parecem sumir quando a gente, com bebê em casa, mais precisa deles? Já repararam como os cabides de roupa (ou “ombreiras”) parecem se multiplicar nos armários – a gente deixa dois e no dia seguinte encontra cinco? Ferd descobre que o mundo está sendo invadido por uma espécie nova, uma raça de seres metálicos. Sua forma inicial é o alfinete de segurança. Daí ele evolui para a forma de cabide, que é a larva. E finalmente desabrocha na forma adulta, que é a bicicleta.
Ferd explica ao boquiaberto Oscar que essas criaturas vivem de elementos que captam do ar; e que evoluem, mudando de forma, apenas quando não são vistas por ninguém. Uma grande parte das bicicletas que vemos na rua (acorrentadas aos postes e às grades, abandonadas nos parques, etc.) não foram feitas numa fábrica. São formas mutantes que esses seres metálicos adotaram por mimetismo, para passar despercebidos.
O fotógrafo Joe Schumacher, que mora no Harlem (Nova York) tem um websaite onde fotografa de tudo, inclusive bicicletas abandonadas. Uma das suas fotos mostra um desenvolvimento insuspeitado da teoria de Davidson. (http://bit.ly/qZTVjj) Num daqueles mourões de metal usados para “ancorar” bicicletas nas ruas, ele registrou a presença de três dessas criaturas, acorrentadas juntas. Uma delas é um carrinho de supermercado – esse nosso carrinho comum, de trepidantes varetas metálicas. A segunda é uma bicicleta normal e a terceira é uma dessas bicicletas de entrega, com uma caixa plástica de colocar garrafas de leite. Um casal com seu filhote? Um sambaqui onde jazem três estágios sucessivos da evolução de um alienígena, uma forma de vida baseada no alumínio e agora, darwinianamente, incorporando o plástico? Ah, amigos, a ciência oficial não se pronuncia a respeito, está ocupada projetando cíclotrons que não servem para nada, e inventando antidepressivos para a indústria farmacêutica.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
2666) Tudo já foi dito? (20.9.2011)
Os escritores de hoje querem ganhar a vida honestamente, e ninguém pode negar esse seu direito. Mas se querem dizer uma frase nova, contar uma história inédita, trazer alguma idéia original, vão perder a viagem: podem ir tirando o cavalinho da chuva, alojando-o no estábulo e acomodando-se na cama para passar a noite.
John Barth é um desses escritores doidos para dizer algo de novo e constatando, com uma espécie de euforia horrorizada, que tudo já foi dito. Num artigo no The Atlantic (http://bit.ly/r2sswu), ele cita um texto egípcio de 2.000 a. C., em que o escriba Khakheperresenb comenta, com nostalgia:
John Barth é um desses escritores doidos para dizer algo de novo e constatando, com uma espécie de euforia horrorizada, que tudo já foi dito. Num artigo no The Atlantic (http://bit.ly/r2sswu), ele cita um texto egípcio de 2.000 a. C., em que o escriba Khakheperresenb comenta, com nostalgia:
“Ah, se eu tivesse frases que não fossem conhecidas, numa linguagem nova que jamais foi usada, sem uma só frase que tivesse perdido o viço e que já tivesse sido dita pelos homens de antigamente!”.
Barth, um deus-pequenino do Pós-Modernismo, é um desses escritores que, vendo a impossibilidade de contar uma história que ainda não foi contada, mexem o tempo inteiro no software da contação de histórias. Como a maioria dos escritores oriundos do meio acadêmico, ele dá a impressão de que leu 50 romances e 500 livros sobre Teoria do Romance. Ou, como disse certa vez uma amiga minha: “Ler um romance escrito por um professor de Literatura é como fazer sexo com um ginecologista”.
É típico não do escritor, mas do professor de Literatura, pensar se aquilo que está dizendo já foi dito antes, e dito melhor. O professor de Literatura compara o livro que está escrevendo com os livros que já foram escritos; o escritor compara o tumulto da página com o tumulto que está na sua cabeça e esquece o resto.
É típico não do escritor, mas do professor de Literatura, pensar se aquilo que está dizendo já foi dito antes, e dito melhor. O professor de Literatura compara o livro que está escrevendo com os livros que já foram escritos; o escritor compara o tumulto da página com o tumulto que está na sua cabeça e esquece o resto.
Se um indivíduo escreve tendo em mente o propósito de acrescentar algo de novo à Literatura Universal (ou mesmo à Literatura Paraibana, se suas ambições forem mais modestas) vai se ver num beco sem saída, porque há milhões de direções em que essa brava literatura pode ser expandida com proveito. Faria melhor se considerasse que o livro que pretende escrever não pertence nem à Paraíba nem à Humanidade, mas a si mesmo.
Se algo já foi dito e já foi escutado, nada nos impede de dizer e escutar de novo, porque nenhuma pedra é arremessada duas vezes à água do mesmo rio. As histórias pedem para serem contadas de novo, porque sempre haverá quem ainda não as escutou, e é um privilégio contá-las pela milésima vez a alguém que as está escutando pela primeira.
domingo, 18 de setembro de 2011
2665) Um cão achado na rua (18.9.2011)

Meia-noite de um daqueles domingos intermináveis em que o Tempo corre devagar, cedendo ao desejo de bilhões de pessoas que abominam ou temem as manhãs de segunda-feira. O domingo é um monstro que se recusa a morrer. Mesmo fuzilado, eletrocutado, envenenado, decapitado e incinerado, ainda mostra estremeções na ponta da cauda que não foi reduzida a cinzas. Você volta para casa a contragosto, porque os companheiros de mesa entregaram os pontos, pediram a conta, recusaram a saideira. Você vai pela Rua do Catete, de volta ao apartamento abafado onde ressona a família. Uma vez você batizou esse apartamento de “A Jangada da Medusa”, porque a única coisa que o prende àquelas pessoas é o fato de estarem conseguindo sobreviver juntos até agora.
Um cão remexe o lixo e ergue os olhos. Procurando um pretexto para retardar a entrada em casa, você pergunta: “E aí, achou o que comer?”. Uma das leis ocultas do Universo é que os cães são incapazes de falar, a menos que alguém lhes faça uma pergunta a sério. Frasezinhas carinhosas não contam. O cão larga dos dentes um naco corroído e diz: “Achei, mas será que na tua casa não tem alguma coisa melhor?”. Algumas coisas são tão improváveis que quando acontecem a gente reage da maneira mais prosaica possível. Você diz: “Gosta de presunto? Bora”.
Todos dormem. Na cozinha exígua, o cão se sacia de presunto. Depois percorre com você o apartamento. Ele é um cão meio psicólogo. “Essa é tua mulher? Rapaz, tu não pode reclamar. Sim, não é capa da Playboy. E daí? E tu, já te olhasse no espelho? Bota as mãos pro céu. A madame aqui dá um caldo.” Segundo quarto. “Esse teu filho tem asma. E essa tua menina vai ficar dentuça, tira esse dedo da boca dela. Pô, tu é um pai relapso, hem?”. Na bicama da sala, a sogra. “Parece gente boa. Implica contigo? Claro que implica. Ela achava que a filha ia casar com o Príncipe de Mônaco. E se ela tivesse casado com ele, ia reclamar do desodorante que ele usa. Mãe é mãe.”
Você oferece dormida, ele abana as orelhas. “Deus me livre, aqui tem muito gás carbônico, prefiro dormir na rua. Vou te dar uma dica. Vi tua casa, tuas estantes, teus CDs... Vai na Rádio Lux, fala com Domício Pereira. Ele vive atrás de um diretor de programação, e eu acho que você entende do assunto. Ele me serviu um hamburger uma vez. Gente fina, mas fuma pra caramba”. Você o leva até a porta, os dois se despedem. Este encontro mudará sua vida, mas nem mesmo Domício, seu futuro patrão, iria acreditar, embora diga às vezes: “Rapaz, uma vez eu levei um cachorro lá em casa, dei um hamburger, o bicho comeu como se fosse um menino de dez anos...”
sábado, 17 de setembro de 2011
2664) Café não costuma faiá (17.9.2011)

Pegar a garrafa térmica, lavá-la em água corrente, deixá-la na pia, perto do fogão. Pegar a chaleira e enchê-la até um ponto que o olho já sabe. Acender o fogo, colocar a chaleira, colocar o suporte e o porta-filtro sobre a boca da garrafa. Pegar o vidro com o pó, pôr no filtro a quantidade certa, também sabida “de olho”, impossível de quantificar. Quando outra pessoa vai fazer e pergunta: “quantas colheres?”, não há resposta possível. É no olho, ponto final.
Sento e fico olhando a chaleira esquentar. Café é uma droga? Espero que a “Food and Drugs Administration” norte-americana nunca chegue a esse veredito. É um estimulante artificial; produz um estado de euforia mental durante algum tempo; produz insônia, nervosismo e outros efeitos colaterais (em gente fraca, é claro); e vicia. Será que vicia mesmo? Não sei porque nunca parei de tomar. Nos últimos 50 anos certamente não se passaram dez dias seguidos sem que eu tomasse uma xícara de café. E a quantidade normal do meu dia é pelo menos um litro.
O café produz em mim o que o uísque produzia em Humphrey Bogart (“Todo mundo está três doses abaixo do normal”) ou em Paulo Francis (“Bebo para tornar as outras pessoas mais interessantes”). Ele produz uma argamassa neuronial que une a paisagem na janela, a data no calendário, a imagem no espelho, as tarefas na agenda, as mensagens no monitor, o milhão de versos incompletos perpetuamente esvoaçando no meu espaço mental como mariposas em torno de um poste aceso. O café é um diapasão energético que deixa tudo vibrando no mesmo mantra. Deixa nossa mente vibrando em uníssono com o cosmo, dizendo a si mesma e ao cosmos: Yes, we can! Qual é o cosmos que resiste a uma cantada dessas?!
A água chia; depois, borbulha. Dizem os experts que a água não deve ferver, pois queima o pó e altera o gosto. Uma vida inteira de hábitos rústicos me acostumou a esse gosto alterado, portanto sempre exijo que a água esteja fervendo quando a derramo no centro do pó, num fio contínuo, fazendo movimentos circulares para que o pó inteiro fique umedecido por igual (movimento que os experts também desaconselham, eita povinho desmancha-prazeres). O aroma sobe. Lembro a frase de um amigo: “O melhor momento do café é o cheiro antes do primeiro gole, assim como o momento mais bonito da mulher é quando ela se despe enquanto a esperamos na cama”. O cheiro do café é a prelibação, o antegozo. O estímulo que anuncia o prazer anuncia sempre o prazer total e sem condições, o prazer perfeito e platônico. A realidade fica sempre aquém, mas não importa. Todo café é perfeito, na trajetória da chaleira à xícara, e da xícara à boca.
2663) Como escrever depressa (16.9.2011)
(Tom Gauld)
Escrever depressa, produzir tantas mil palavras de texto por dia... É engraçado como se falava pouco nisso na História da Literatura Brasileira. A mentalidade nos 200 anos de nossa prosa de ficção é a da criação de obras de arte, não a da produção profissional de laudas de texto.
O literato brasileiro vê com admiração e simpatia a frase atribuída a Oscar Wilde: “Levei a manhã inteira para tirar uma vírgula, e a tarde toda para colocá-la de volta”.
E vê com certo constrangimento (é o meu caso, pelo menos) a afirmação de Isaac Asimov de que datilografava um conto inteiro do começo ao fim, e depois, sem sequer fazer correções à mão, botava num envelope e mandava para todas as revistas conhecidas até que alguma o aceitasse para publicação.
São o Artista e o Profissional: o que quer escrever muito bem e o que quer escrever bem muito.
Ambas as mentalidades podem produzir grandes livros e livros medíocres. Um artigo de Michael Agger na revista eletrônica Slate usa uma maneira diferente de classificar esses dois tipos. Diz ele:
“Alguns escritores são beethovenianos, que desprezam os resumos prévios e as anotações, e ao invés disso compõem rascunhos de imediato, para descobrir o que querem dizer, enquanto outros são mozartianos, cujo costume é adiar indefinidamente a hora de escrever, enquanto se dedicam a longa planificação e planejamento”.
Não é exatamente a mesma coisa, mas reforça a idéia de que existem pelo menos duas abordagens básicas para o ato da escrita. E muitos pretendentes a escritor perdem um tempo danado em oficinas literárias onde professores (bem intencionados, claro) tentam convencê-los a escrever de um jeito que não é o seu jeito natural de pensar e de produzir esforço intelectual.
Agger cita Chenoweth & Hayes (The Cambridge Handbook of Expertise and Expert Performance), para quem as frases da prosa são produzidas numa estrutura do tipo rajada-pausa-avaliação, rajada-pausa-avaliação, sendo que quanto mais experiente o autor mais longas são as rajadas de texto que ele produz a cada vez.
Já Kellogg, na mesma obra, afirma que escrever a sério é ao mesmo tempo uma questão de pensamento, de linguagem e de memória, e pode se comparar ao esforço mental de um jogo de xadrez profissional ou de uma performance musical de alto nível.
A mente do escritor está manejando três coisas: o texto que escreve, as coisas que pretende dizer em seguida, e, de modo crucial, teorias de como os seus possíveis leitores irão interpretar o que foi escrito.
Talento, experiência e estado mental adequado podem fazer com que alguém escreva dessa forma durante um tempo bem longo, e com razoável rapidez.
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