quarta-feira, 7 de julho de 2010

2242) McGuffin (15.5.2010)



(foto: Jeanloup Sieff)

“McGuffin” é o nome genérico de um objeto qualquer que dá origem às peripécias de um enredo, geralmente um objeto que é ferozmente disputado por várias pessoas. Não importa muito o que seja, contanto que sua mera existência possa gerar conflitos, situações e reviravoltas. Alfred Hitchcock, que introduziu o termo, contava a seguinte piada. Dois sujeito se encontram num trem, e um deles está levando consigo um objeto extravagante. O primeiro pergunta: “O que diabo é isso”. O segundo: “Um McGuffin”. O primeiro: “E que diabo é um McGuffin?” O segundo: “É um instrumento que serve para caçar leões nas Montanhas Adirondacks”. O primeiro: “Mas não existem leões nas Montanhas Adirondacks!” O primeiro: “Bem, então isto aqui não é um McGuffin”.

Esta historieta, que foi divulgada no livro de François Truffaut sobre o cineasta inglês, é apenas um pequeno paradoxo, que parece as brincadeiras de lógica intuitiva de Lewis Carroll nos livros de Alice. O que Hitchcock parece sugerir é que uma coisa só é ela mesma se cumprir sua função, por mais absurda que possa ser esta. E o McGuffin que ele coloca em seus filmes é um mero detalhe; como ele mesmo disse, “não importa o que é o objeto, importa o que as pessoas são capazes de fazer para ficar com ele”. Hitchcock lembra as histórias de espionagem de Rudyard Kipling, passadas no Oriente, em que alguém estava sempre roubando “a planta baixa da fortaleza” ou um segredo militar qualquer. Não é preciso explicá-lo: basta ser algo que tenha a aparência de ser importante e justificar toda aquela perseguição toda aquela sucessão de crimes.

Ele se orgulhava de dizer que o McGuffin mais perfeito de seus filmes era o de Intriga Internacional, quando na cena do aeroporto, já na segunda metade do filme, Cary Grant, que está sendo perseguido por assassinos, consegue perguntar ao homem da CIA o que é afinal que o personagem interpretado por James Mason faz. O outro responde: “Digamos que ele trabalha no ramo de importação e exportação”. “Sim, mas de quê?” “De segredos do Governo”. Isto é tudo: e Hitchcock afirmava, com orgulho: “E neste caso reduzimos o McGuffin a sua expressão mais pura, ou seja, o nada”.

Kurt Vonnegut Jr. inventou em Cat’s Cradle um termo que exprime uma idéia parecida: “wampeter”. Segundo ele, é “um wampeter é um objeto em torno do qual giram as vidas de numerosas pessoas que, com exceção disto, não têm nenhuma relação entre si”. Ele dá como exemplo o Santo Graal, objeto mágico procurado por inúmeros indivíduos que nem sequer se conhecem. A diferença entre os dois deve ser o fato de que o McGuffin de Hitchcock não precisa, e na verdade não deve, ter um significado que chame a atenção. Basta ser importante para aquelas pessoas. Sua única função é desencadear situações, e as situações desencadeadas por ele é que são o objeto do filme. Para um espectador calejado e cético, todo Santo Graal é um mero McGuffin.

2241) A lista de Dunga (14.5.2010)



Não creio que tenha algo a acrescentar a tudo que o Brasil já falou sobre a convocação da nossa Seleção para a Copa do Mundo. É o problema do colunista quando esbarra num “assunto obrigatório”. Por ser obrigatório (por atrair a atenção da grande maioria dos leitores), ele não pode perder a chance, sob pena de parecer incompetente ou omisso. E pela mesma razão são ralas, rarefeitas, as suas chances de dizer algo que os outros não já tenham dito.

Malhei aqui a seleção de Dunga durante os três anos em que ela entrou em campo, mas tive a sensatez de elogiá-la quando ganhou a Copa América, a Copa das Confederações e as Eliminatórias. Quando se acertou, a Seleção satisfez. É a cara do treinador: um sistema compacto e aguerrido do meio para trás, perseguindo o adversário, roubando bolas, não dando descanso, e ao dominar a bola escapando com velocidade para dar a punhalada certeira. Uma seleção no modelo italiano, portanto, e que encontrou em Robinho e Luís Fabiano os atacantes mais adaptados para esse estilo.

A lista de Dunga desagradou quem torcia por jogadores como Neymar, Paulo Henrique Ganso, Ronaldinho Gaúcho. Apostei que nenhum seria convocado. Neymar e Ronaldinho são moleques demais para nosso treinador. Ganso é um bom rapaz, comportado, firme e ao que tudo indica é craque mesmo, mas segundo Dunga ele não teve uma boa passagem pela seleção sub-20, e parece que nos pesos e medidas do técnico isso conta mais do que o que o jogador faz no clube. Pode não ser um valor absoluto, mas pelo menos faz sentido.

Dunga e Mauro Silva foram dois dos melhores jogadores da nossa Seleção campeão em 1994. Criaram uma barreira ali na frente da área onde nada passava. Toda vez que o ataque inimigo se aproximava dali eu pensava, “lá vai”, e um dos dois ia, dava o bote, e partir com a bola para o contra-ataque. O defeito daquele time seria mais ou menos o do time de agora: pouca criatividade no transporte da bola de trás até os dois atacantes.

O time de Dunga vai longe na Copa? Para mim, tem mais chance de ir do que o anterior, o de Parreira. Não pelo técnico, mas pelo ambiente criado. Aquela seleção de 2006 era um grupo de pândegos fazendo turismo e amealhando recordes geriátricos. Os times de Dunga podem ter qualquer outro defeito mas são competitivos. A imprensa carioca e paulista (irritada com as não-convocações de Adriano, Neymar, Ganso & companhia) ironizou ferozmente o discurso patriótico do treinador e suas limitações teóricas. Não importa. Direi agora algo que não li ainda: o time brasileiro é basicamente muito bom (quando tivemos uma defesa tão sólida?) e pode enfrentar qualquer um de igual para igual: Espanha, Inglaterra, Portugal, Itália, Argentina, nenhum desses (pelo que tenho visto na TV) tem um time melhor que o nosso. Não há favoritos. São apenas sete jogos, onde podem ocorrer surpresas consagradoras e desastres inexplicáveis. Se não fosse assim não era Copa do Mundo, e não tinha graça nenhuma.

2240) Welles e Wells (13.5.2010)



Os nomes de H. G. Wells e Orson Welles estão ligados para sempre, em nossa memória cultural, pela adaptação radiofônica feita por Orson em 1938, com base no romance The War of the Worlds, publicado por H. G. em 1898. Como se sabe, a transmissão da invasão dos marcianos, em forma de noticiário, levou o pânico aos Estados Unidos e tornou Orson famoso da noite para o dia. As pessoas ligavam o rádio e ouviam alguns números musicais que eram bruscamente interrompidos para que locutores nervosos anunciassem o desembarque de naves alienígenas, a mortandade causada pelos seus “raios de calor” e as multidões em pânico pelo país afora. Somente esta última parte era verdadeira: houve pânico, acidentes, tentativas de suicídio, e a CBS, dona da emissora, teve que cortar um dobrado nos meses seguintes para enfrentar as dezenas de processos judiciais que sofreu. Orson ficou famoso e foi contratado por Hollywood, onde realizou Cidadão Kane.

Em 1940, os dois autores dessa transmissão memorável se encontraram pessoalmente, durante uma turnê de conferências que H. G. Wells realizou na América do Norte. Em San Antonio (Texas), ele falou para a United States Brewers Association; por coincidência Orson estava na cidade para uma palestra, os dois foram apresentados, e no dia seguinte foram para a rádio local. No YouTube (em: http://www.youtube.com/watch?v=nUdghSMTXsU) pode-se escutar um áudio de 7 minutos e meio do único encontro entre os dois. A voz grave e profunda de Orson, então com 25 anos, contrasta com a voz mais débil, fatigada (mas sempre bem-humorada) de H. G., então aos 74 anos. Os dois trocam amabilidades, fazem brincadeiras com o fato de terem quase o mesmo sobrenome, comentam a política mundial (estava-se em pleno começo da II Guerra, é inevitável que se refiram a Hitler), e discutem o pânico causado pela transmissão do programa.

Orson parece referir-se a um discurso de Hitler segundo o qual o pânico provocado por A Guerra dos Mundos mostrava a condições corruptas e o estado decadente das democracias ocidentais. Wells comenta que isso só pode ser dito por quem desconhece a tradição do Halloween na América, quando todo mundo faz de conta estar vendo fantasmas (a transmissão ocorreu, propositalmente, numa véspera de Halloween). Orson refere-se às profecias do inglês, cita seu livro The shape of things to come (1933) e diz que “hoje estamos vivendo num futuro de H. G. Wells, num daqueles mundos sobre os quais ele falava”.

No fim da conversa, Wells pede que Orson fale sobre o filme que está dirigindo, e pergunta se o nome é Citizen Cain (“Cidadão Caim”). Orson ri e diz que não, é “Kane”, mas que é muito gentil da parte de Wells dizer isto abertamente. E explica: “É um novo tipo de filme, como um novo método de apresentação, e alguns novos tipos de experiências técnicas e novas maneiras de narrar um filme”. Em matéria de eufemismo, de “understatement”, é de botar qualquer britânico no chinelo.

2239) O jogo de 180 minutos (12.5.2010)



O futebol tem adotado cada vez mais o sistema classificatório chamado de “mata-mata”. São dois jogos, um no campo do primeiro clube, o outro no campo do segundo. Antes, esse sistema levava em conta apenas a vitória de cada um. Se o time A ganhasse o primeiro jogo por 1x0 e o time B ganhasse o segundo por 5x0, havia uma vitória para cada um, e era preciso um novo critério de desempate, que variava de acordo com o regulamento: prorrogação, disputa em pênaltis, etc. Ou então calculava-se desde antes qual dos dois tinha melhor campanha (maior número de pontos ao longo do campeonato, ou maior número de vitórias, ou maior saldo de gols, ou melhor resultado no confronto direto entre os dois times, etc.), e decidia-se que esse time seria vencedor no caso de resultados iguais (uma vitória para cada um, ou dois empates).

Mas sempre tinha alguém (eu, muitas vezes) que ficava injuriado quando acontecia uma disparidade qualquer. Afinal, uma vitória de 1x0 não pode se comparar a uma derrota por 5x0. Mesmo no caso de uma diferença menor, havia uma impressão de injustiça: então meu time ganha por 3x1, perde o outro jogo por 2x1, e ainda vai ter que decidir nos pênaltis?! Surgiu então o modelo atual, em que não apenas se consideram as vitórias, mas se somam os placares, formando o tal “resultado agregado”. Se o Treze perde o primeiro jogo por 3x2 mas ganha o segundo por 2x0, considera-se como resultado final a soma dos dois: o Treze vence 4x3. É o chamado “jogo de 180 minutos”.

Todo esporte tem essas sutilezas mas no caso do futebol surgem situações contraditórias. Dias atrás, pela Libertadores, o Flamengo perdeu de 2x1 para o Corinthians mas conseguiu se classificar e fez a festa; na mesma noite, pela Copa do Brasil, o Vasco venceu o Vitória por 3x1 e saiu derrotado (porque perdeu o primeiro jogo por 3x0). No caso do Flamengo, a classificação veio por mais uma sutileza recente: o gol marcado fora de casa vale por dois. Como o Fla ganhou no Rio por 1x0 e perdeu em São Paulo por 2x1, o placar dos 180 minutos ficou em 2x2 – mas o Fla fez um gol no campo do adversário, e o Corinthians não.

A questão é que muitas pessoas se queixam disso. Que coisa absurda, comemorar uma derrota! Que coisa irracional, vencer o jogo e sair de campo chorando! Para mim, essas regras recentes (ou seja, de uns 10 ou 15 anos pra cá) significam (digamos) a vitória do resultado a longo prazo sobre o resultado imediato. O que, no mundo de hoje, é uma influência saudável. O mundo está muito imediatista. As pessoas só enxergam o que podem tocar com a ponta do nariz. Ninguém pensa nas consequências, ninguém imagina que vai pagar a conta. Só vale a satisfação imediata. É bom que o esporte nos acostume a pensar na semana que vem, no jogo que vem, como parte do jogo que estamos disputando agora. Na vida só contam os resultados agregados. Cada gol que a gente sofre hoje, fica para sempre. Cada gol que a gente marca, fica também.

terça-feira, 6 de julho de 2010

2238) A nuvem do vulcão (11.5.2010)



A explosão do vulcão na Islândia foi mais um indício da fragilidade do nosso estilo de civilização. Isto poderia ser evitado? A erupção propriamente dita, não, porque a Humanidade não tem condições científicas e tecnológicas de intervir num processo de tal natureza e tais proporções. É mais fácil levar um homem à Lua e trazê-lo de volta do que evitar que um vulcão exploda. Vivemos na Terra como um jangadeiro vive no mar. Sabemos que não temos controle sobre ela. Só nos resta prestar atenção, e nos adaptarmos.

O que se questiona é como evitar as consequências. Criamos uma rede de transporte aéreo (principalmente no Hemisfério Norte) eficiente, veloz, utilíssima e frágil. Como em qualquer mecanismo de alta precisão, basta um grão de areia para impedir que funcione. A Europa, ao contrário do Brasil, tem excelentes estradas e excelentes transportes ferroviários, que bem ou mal conseguiram durante esses dias escoar parte do tráfego. Mas o episódio todo deixa um gosto amargo de incompetência científica. Talvez até tenhamos condições de produzir instrumentos caoazes de enfrentar esse tipo de situação, mas não sabemos criá-los.

O físico Haim Harari declarou à revista “Edge”: “A crise das cinzas e a crise financeira têm muito em comum. Ambas resultam do fato de que as pessoas que tomam as grandes decisões não entendem de Matemática nem de Ciência, mesmo num nível rudimentar, enquanto que a maior parte dos matemáticos e cientistas não têm sensibilidade para com as implicações que seus cálculos podem ter sobre a vida real. Os engenheiros de finanças criam complexos instrumentais matemáticos, evitando chamar a atenção para as premissas que estão propondo, enquanto que os banqueiros e as agências reguladoras não admitem que não têm a menor idéia do que esses documentos significam, e nunca fazem perguntas sobre os parâmetros ocultos por trás dessas novas estratégias do lucro fácil. Modelos teóricos provam às autoridades que a nuvem de cinzas está aqui ou ali, sem se dar o trabalho de medir coisa alguma, e ninguém pergunta se os modelos estão baseados em dados realistas.

“Os que tomam decisões, se tivessem preparo científico, perceberiam imediatamente o problema, mesmo que não entendessem nada de finanças ou vulcões. Quando alguém propõe um esquema onde é possível ganhar sempre, não é difícil enxergar as pegadas de um “esquema pirâmide”, e a existência de uma nuvem mortífera que afeta um continente inteiro mas ninguém pode ver, e que não se baseia em nenhuma medição real, devia fazer as pessoas inteligentes erguerem as sobrancelhas. O mundo está descobrindo a profissão que lhe falta: pessoas cientificamente preparadas para tomar decisões. Bons cientistas sem experiência administrativa, ou políticos espertos sem conhecimentos de ciência, não são capazes de detectar esses problemas. Precisamos de pessoas que tenham ambas essas qualidades”.

2237) O Woodstock do futebol (9.5.2010)



Faltam não sei quantos dias para a Copa do Mundo! É a contagem regressiva do Globo Esporte, programa com o qual tenho uma relação parecida com a que certos débeis mentais têm com o “Big Brother Brasil”. Fazer o quê? O futebol nivela todo mundo a um nível meio primata de ser, o que é uma boa coisa, pelo menos para gente que vive lendo livros de metafísica e semiótica. Não custa nada lembrar de vez em quando que os nossos antepassados viviam brigando por causa de um coco. Correr atrás de uma bola nos leva de volta à infância da espécie.

A Copa é uma espécie de Woodstock no futebol. Woodstock foi o primeiro festival onde amanhecia, anoitecia, era um show atrás do outro, o sujeito adormecia durante um show de Santana e acordava num show de Jimi Hendrix, adormecia de novo num show de Joe Cocker e acordava num do Ten Years After... Copa do Mundo é tipo isso, são três jogos por dia e mesmo quando jogam times menores sempre existe a expectativa de um grande gol, uma grande jogada, que ganham dimensão ainda maior quando pensamos nos bilhões de pessoas que estão vendo aquilo. E quando pensamos que os jogadores sabem disso. Para eles, é sempre um tudo ou nada, e há casos incontáveis de jogadores de países obscuros que se consagraram porque fizeram numa Copa um grande gol, uma grande defesa, e entraram para a História. Pelo fato de ser vista por bilhões de pessoas e reproduzida pela imprensa de centenas de países, a Copa não registra somente o craque, mas todo aquele que consegue ter ali um momento de craque.

Não sei se alguém aí fora ainda lembra dos nomes de Boniek, Schilacci, Butragueño, Petras, Kempes, Masopust, Lato, Torres... São jogadores que tiveram seus 15 minutos de Pelé, coisa que qualquer um tem. Até eu já devo ter tido, quando jogava no “campinho das barreiras”. Até Maradona já teve 15 minutos de Pelé; o difícil é continuar sendo Pelé a vida toda. A Copa do Mundo pega os 15 minutos desses Zés-das-Couves e os amplifica, repercute, desenvolve, faz o mundo inteiro sentir-se aos pés do sujeito (ou melhor, faz o sujeito sentir-se como se o mundo estivesse aos pés dele). Depois, fumaça.

Mas onde há fumaça é porque já houve fogo, e quem viveu um momento de glória verdadeira tem o que guardar pro resto da vida. Os colecionadores de Copas, como eu, guardam momentos mágicos de cidadãos que nem sei se ainda estão vivos. De quatro em quatro anos o futebol promove um festival gigantesco em que depois do show da superbanda com centenas de milhões de discos vendidos vai subir ao palco um cabeludo sozinho com voz roufenha e violão de aço, e vai arrebatar a multidão. É aquele momento em que a energia da platéia parece passar através daquele filamento de gente que brilha no palco, tornando-o incandescente e imortal. Assim é o futebol na Copa, quando até um menino negro de 17 anos pode revelar que já é o Maior Jogador do Mundo.

2236) Maiakóvski e o Futuro (8.5.2010)



Vladimir Maiakóvski era obcecado com o futuro, e não só por fazer parte dos futuristas russos. Os futuristas eram poetas anárquicos, irreverentes, meio plebeus, que usavam linguagem das ruas, e se contrapunham ao simbolismo russo, feito de poetas intelectualizados, sofisticados, um tanto elitistas. O futurismo era uma coisa meio hip-hop para a época – a Rússia dos anos 1920. O maior poema de Maiakóvski nunca foi (penso eu) inteiramente traduzido em português. Seu título russo é “Pro eto” – nas variadas traduções, “Sobre isto”, “A respeito disto”, “About that”, etc. É um poema-livro em várias partes. A última parte, chamada “O Amor”, foi traduzida para o português por Ney Costa Santos, musicada por Caetano Veloso, e gravada por Gal Costa sob o título “O amor – sobre o poema de Vladimir Maiakóvski”, em seu álbum Fantasia, de 1981.

Neste trecho do poema, Maiakóvski se dirige aos cientistas do século XXX, porque prevê que sua amada será ressuscitada por eles no futuro: “Talvez quem sabe um dia / por uma alameda do zoológico / ela também chegará / ela que também amava os animais / entrará sorridente assim como está / na foto sobre a mesa / ela é tão bonita / que na certa / eles a resssuscitarão”.

Maiakóvski tinha duas idéias fixas: a do suicídio e a da ressurreição. Como se ele confiasse tanto no futuro que dissesse a si mesmo que podia meter uma bala na cabeça toda vez que tivesse uma desilusão amorosa: a Ciência o traria de volta. Ele diz: “O Século Trinta vencerá / o coração destroçado já / pelas mesquinharias / agora vamos alcançar / tudo o que não podemos amar na vida / com o estrelar das noites inumeráveis”.

Até aqui, a canção de Caetano tem uma melodia discreta, intimista. Mas quando começa o refrão, a música começa a galgar patamares sucessivos de modulação, de subida de tom, de um grito que parece querer alcançar cada vez mais longe, mais perto do Século Trinta: “Ressuscita-me! / Ainda que mais não seja / porque sou poeta / e ansiava o futuro. / Ressuscita-me! / Lutando contra as misérias / do cotidiano, / ressuscita-me por isso. / Ressuscita-me! / Quero acabar de viver o que me cabe / minha vida / para que não mais existam / amores servis...”

Como diz Fernando Peixoto, é “um poema sobre um amor trágico e desesperado... num clima quase permanente de alta tensão”. Maiakóvski não pensa em renascer por um milagre. Dizem que ele acreditava sinceramente que no futuro seria possível ressuscitar alguém. Para quê? O poema finaliza: “Ressuscita-me / para que a partir de hoje / a família se transforme / e o pai seja pelo menos o Universo / e a mãe seja no mínimo a Terra”. O que ecoa, invertidamente, no grito igualmente desesperado de Lennon em “Yer Blues”: “My father was of the sky / my mother was of the Earth / but I’m from the Universe / and you know what it’s worth”. Poetas de uma época em que o Futuro e o Universo estão mesmo no cerne de cada tragédia e de cada paixão.

2235) Atentado em Nova York (7.5.2010)



Vejam que coisa insólita esse episódio do quase-atentado ocorrido dias atrás em Nova York. No sábado à noite, camelôs avistam um carro estacionado junto à calçada, perto de Times Square, soltando uma fumaça suspeita, e avisam a polícia, que descobre lá dentro bujões de gás, explosivos, etc. Rastreando a origem do carro, descobrem que ele havia sido vendido uma semana antes para um paquistanês. Saem à sua caça, e na 2a.feira à noite o descobrem num avião prestes a decolar rumo a Dubai. O paquistanês é preso e confessa tudo.

Beleza não é mesmo? O dr. Watson, por exemplo, fechou o jornal e exclamou: “Maravilha, Holmes! A rapidez dedutiva e a pronta ação da polícia estadunidense são de entusiasmar qualquer um! Telegrafarei hoje mesmo ao presidente Obama, e...” Sherlock Holmes interrompeu seu solo de violino e disse: “Meu caro Watson... Você não acha que essa história está mais mal-contada do que um capítulo de Viver a Vida ou Tempos Modernos? Reflita, meu caro doutor. Que terrorista é esse que não sabe preparar um detonador decente, um que realmente explôda e mande pelos ares, se não um quarteirão inteiro, pelo menos as lojas e os transeuntes num raio de cinquenta metros?” Watson cofiou o bigode nervosamente: “Ora, Holmes, a bomba era potente. Segundo o NY Times, consistia de três latas de propano, duas de gasolina, oito sacos de fertilizante, fogos de artifício e dois relógios.”

Holmes soltou uma risada escarninha e começou a caminhar pela sala: “Excelente descrição, Watson! Parece um carro-bomba preparado por uma comissão multi-partidária, onde cada qual conseguiu enfiar o que mais lhe interessava. Não me admiraria se, procurando melhor, a polícia encontrasse seis garrafas de champanhe, um tubo de oxigênio e 500 caixas de fósforos com a data de validade vencida. Quem preparou essa bomba não foi a Al-Qaeda, foram dois casais de meia-idade, bêbados, durante um churrasco”.

O dr. Watson ainda tartamudeou algumas justificativas, mas Holmes já empunhara o jornal e apontava outra matéria: “E diga-me, Watson, qual o terrorista profissional que, precisando de um carro para um atentado, compraria um, fornecendo na transação o seu próprio número de celular? Foi assim que o rastrearam, não é mesmo? No Rio de Janeiro, muitos bandidos não sabem ler, mas quando querem sequestrar um comerciante roubam o carro de que precisam. E que terrorista é esse que deixa uma bomba para explodir no sábado e só embarca para longe do país 48 horas depois? Ora, ora, Watson. Até mesmo você, cidadão exemplar, tomaria a prudente iniciativa de deixar a bomba ligada e rumar direto dali para o aeroporto, não é mesmo?” “Por Deus, Holmes!”, gritou o doutor. “Quem poderá estar por trás disso, então? Que cérebro diabólico...” Holmes o interrompeu: “Não sei, Watson... Mas depois que o professor Moriarty deixou crescer a barba, converteu-se ao islamismo e adotou o nome de Osama Bin Laden... tudo, tudo é possível”.

2234) Por que usar drogas (6.5.2010)



Para as pessoas que não tomam drogas, a Terra é a única realidade, é o único mundo que elas conhecem. Para os que tomam, existem duas outras realidades: o Paraíso e o Inferno, porque estes dois sempre andam juntos, a existência de um é sempre equilibrada pela existência do outro. 

Existem pessoas para as quais a existência normal, cotidiana, já tem prazeres e problemas de sobra. Existem outras, no entanto, para quem esta existência é banal, comportada, descolorida, muito sem graça. Querem experimentar sensações diferentes, querem prazeres intensos, querem forçar os próprios neurônios a impressões de uma força quase insuportável, querem ir até o limite da própria mente e dos próprios nervos, mesmo sabendo que o preço a pagar pode ser alto demais. É aí que entra a droga.

Para mim, o maior erro na discussão pública sobre as drogas é considerá-las um problema de ordem moral, quando esta é uma questão que só se coloca muito mais adiante.

Muitos dos que são contra as drogas acham que usá-las é um ato de baixeza moral, e as pessoas que as usam são necessariamente más, ou pusilânimes, ou depravadas em algum aspecto.

Segundo esse raciocínio, se uma pessoa usa drogas este é um motivo suficiente para nos afastarmos dela, para evitá-la, proibir que nossos filhos convivam com ela; para nos queixarmos ao síndico, fazermos abaixo-assinados pedindo que essa pessoas seja excluída dos círculos sociais a que pertencemos. Porque uma pessoa que usa drogas é uma pessoa que tem um grave defeito moral.

Isto está errado. Existem milhões de pessoas que usam drogas e que são moralmente questionáveis, mas uma coisa não é a causa da outra. Nem todo mau caráter usa drogas, e nem todos os que usam drogas são maus caráteres (o plural desta palavra é uma questão à parte, que vou deixar para outro artigo).

Não é por canalhice que as pessoas procuram as drogas, é por variados tipos de carência psicológica (uma necessidade de compensações ou de experiências extraordinárias, mesmo que ao risco de sofrimentos extraordinários) que, em si, não constituem um defeito, nem uma baixeza, nem uma calhordice. Procuram algo parecido com o que as pessoas procuram em variadas atividades, quando dizem: “ah, isso aqui é minha terapia...” ou então “gosto de fazer isso por causa da adrenalina”.

Existe gente que encontra essa adrenalina no alpinismo, no videogame, na dança de salão, no skate, no excesso de velocidade ao volante, em práticas sexuais pouco ortodoxas, no paraquedismo, nos jogos de cassino, no esqui, em mil e uma atividades que nos tiram da realidadezinha besta e nos colocam numa situação de concentração total da mente e alta produção das adrenalinas, endorfinas, serotoninas ou sei lá que diabo o organismo segrega durante esses minutos.

Quem recorre às drogas o faz porque elas são hoje muito mais acessíveis do que esses substitutos. Combatê-las (substituí-las por algo mais saudável e igualmente excitante) não é tão difícil assim.








segunda-feira, 5 de julho de 2010

2233) Anna Karina e Godard (5.5.2010)



(Anna Karina em Alphaville)

Talvez não sejam o casal diretor/atriz mais famoso ou mais bem sucedido do cinema. Temos os exemplos clássicos de Lubitsch & Marlene Dietrich, Fellini & Giulietta Masina, Antonioni & Monica Vitti... Exemplos de casais em que não se sabe se era o talento do diretor que transformava a mulher num símbolo de erotismo e mistério, ou se era o contrário, se era a presença dela e o fascínio exercido por ela que extraíam dele a libido que, como se sabe, é um dos combustíveis preferenciais da criação artística. No caso de Godard e Anna Karina isso se deu ao longo de um breve casamento e uma relação intensa em que ela foi a figura central de sete filmes, ainda hoje inquietantes e cheios de charme: O pequeno soldado (1960), Uma mulher é uma mulher (1961), Viver a vida (1962), Bande à part (1964), Alphaville (1965), O demônio das onze horas (1965) e Made in USA (1966).

Um artigo de David Ehrenstein no L. A. Weekly (http://tinyurl.com/y2lu39d) comenta a sintonia total entre a imagem e o espírito da atriz e o olho do diretor: “Na tela e fora dela, Godard e Karina pareciam numa tal conexão emocional e intelectual que bastava a ele um olhar para conseguir dela o resultado que buscava”. Ela diz: “Havia um grande entendimento entre nós dois. Jean-Luc dizia apenas, ‘Anna, um pouco mais rápido, ou, um pouco mais devagar’, e isso era tudo”.

Karina era bela mas de uma beleza cinematográfica, uma das belezas mais cinematográficas que o cinema já exibiu, porque era um tipo comum, uma colegialzinha, uma balconista ou uma secretária com quem se cruza na rua sem reparar. Não tinha aquela sensualidade de mulher-que-sabe-tudo de Jeanne Moreau nem o erotismo “vulcão sob a neve” de Catherine Deneuve. Seu corpo, seu rosto e seus olhos, principalmente quando filmados em preto e branco, equilibravam doses máximas de sensualidade, espiritualidade e intelecto. Era a imagem ideal para os personagens de Godard, que habitam um universo paralelo próximo e distante do nosso.

David Ehrenstein diz que não era fácil encontrar uma atriz capaz de apunhalar um homem e em seguida, ignorando o cadáver, cantar uma canção (como ela faz em O demônio das onze horas). Ver no YouTube a cena de Bande à part em que ela e dois amigos executam uma coreografiazinha de colegiais, dançando, rodopiando, estalando os dedos, nos faz esquecer que é a mesma atriz que recita versos de Paul Éluard em Alphaville ou que, como garota de programa, encena uma antologia de cenas de sexo banal num quarto de hotel vagabundo (em Viver a vida). Numa época em que o colorido já reinava soberano, e as grandes estrelas do cinema eram potrancas como Ursula Andress e Rachel Welch, a imagem de Anna Karina, com sua saiazinha e pulôver de estudante, nos reconciliava com as meninas do mundo real, e nos permitia crer que nelas também estava guardado o mesmo mistério e a promessa implícita do mesmo paraíso.