quarta-feira, 31 de março de 2010
1853) Os bagunceiros e os arrumadinhos (15.2.2008)
Todo mundo ficou triste quando Edmilson e Flavinha se separaram. Eram um casal alegre, sempre de alto astral, tinham dezenas de amigos em comum, e pareciam se dar tão bem. Um ano de namoro os levou ao sétimo céu; seis meses de casamento os trouxeram sem paraquedas ao chão pedregoso da desilusão.
E o pior é que se separaram jurando amor eterno um pelo outro. O que é ainda mais trágico do que quando os separantes desabafam coisa como “ainda bem que me livrei daquela mala sem alça” ou “felizmente percebi a roubada em que estava me metendo”. Não, nada disso. Edmilson, depois do décimo chope, confessava: “Nunca mais vou amar ninguém, só quero ela”. Flavinha pendurava-se ao telefone com as amigas: “Se ao menos ele cedesse um pouco! Um pouquinho só! Eu seria a mulher mais feliz do mundo!”.
Aos olhos dos amigos, os dois se sincronizavam sem esforço, como patinadores escandinavos deslizando no gelo. Todo o problema (vim a apurar) começava em casa. Fechada a porta e acesa a luz, começava o desespero, porque Edmilson era a ordem e a limpeza em pessoa, enquanto Flavinha tinha sido criada por pais meio ripongas e era aquariana (explicava: “nós não ligamos para os aspectos superficiais da realidade”). Do tipo que deixa um prato sujo em cima da TV durante uma semana, calcinhas jogadas pela casa, livros abertos onde quer que a leitura fosse interrompida. Seu conceito de arrumar a casa consistia em apanhar os objetos no chão (contas a pagar, casca de banana, saco plástico vazio) e colocá-los sobre o móvel mais próximo.
Edmilson não podia ver uma revista oblíqua em cima da mesa de centro, tinha que colocá-la em paralelo com as bordas. Beber água incluía o ato de lavar o copo, enxugá-lo e colocá-lo de volta no armário. Sua mesa de cabeceira tinha sempre a caixa de óculos para ver TV, o despertador digital, um vidro de pílulas e uma foto emoldurada de Flavinha. A mesa de cabeceira dela tinha revistas amassadas, frutas roídas pela metade, calcinhas, invólucros rasgados de preservativos, meias, e uma foto emoldurada de um ex-namorado, que ela planejava trocar um dia pela de Edmilson, porque adorava aquela moldura.
Descobriram uma das mais duras verdades da vida: amor não basta, e amor havia. Edmilson não podia vê-la sem sentir na garganta um nó de ternura. Flavinha via nele um arquétipo paternal, um ursinho de pelúcia e um garanhão que a deixava de pernas bambas. O problema é que cada um tinha a sensação de viver numa casa totalmente dominada pelo outro. Ele considerava aquele apartamento um pesadelo rabelaisiano, uma proliferação barroca e insensata de justaposições surrealistas, um pesadelo de Ionesco dirigido pelo Monty Python. Para Flavinha, ele representava a ditadura do Número, da Medida, da Ordem, da Disciplina, um delírio de Kafka administrado por economistas de Chicago e designers da Bauhaus.
Era o amor entre uma ave e um peixe, em que ir viver no mundo do outro significa a morte.
1852) Incrementando o celular (14.2.2009)

O celular começou como telefone portátil, e já acomodou agenda, calculadora, câmara fotográfica... O passo seguinte foi compor e enviar mensagens de texto, acessar a internet, mandar e receber emails. Tem celular com lanterna pra gente se orientar no escuro, teclado para compor musiquinhas simples, vibrador... As possibilidades, como sempre, são infinitas. O celular acabou se tornando um bicho de estimação eletrônico, um tamagochi sem perfil zoomórfico, mas, em compensação, capaz de trocar uma idéia com a gente.
As pessoas têm com ele uma intimidade que talvez nunca tenham tido com acessórios mais antigos como um relógio ou um par de óculos. Talvez o cachimbo se assemelhe, visto que requer atenção e paciência do usuário, sempre a limpá-lo, esvaziá-lo, enchê-lo de novo. Com o banco-de-dados biográfico que conduz em si, o celular vira uma mistura de diário, agenda, porta-retratos...
Foi feito um estudo patrocinado pela Wi-Ex, empresa que trabalha (nos EUA) com equipamentos para intensificação do sinal de celular dentro de edifícios. Ela concluiu que 62% dos usuários que costumam fazer ligações a partir de casa fazem algo fora do comum para tentar melhorar a recepção do sinal. Isto está criando uma cultura gestual nova, que não existia antes do celular e que vai se impondo enquanto os padrões de recepção continuarem problemáticos.
Entre as técnicas empregadas pelos usuários, algumas têm finalidade óbvia. A Wi-Fix constatou comportamentos que qualquer um de nós reconhece: “esticar a cabeça num ângulo esquisito”, “debruçar-se na janela enquanto fala ao celular”, “ficar mexendo com o braço”... Tudo isto são coisas que eu mesmo faço quando o sinal está ruim dentro de casa.
Mas a criatividade humana é inesgotável, e as pessoas não temem nem o ridículo nem o absurdo. Uma usuária afirmou que costumava “subir para o primeiro andar” para ver se melhorava o sinal; outro disse que “subia num móvel, como um sofá ou uma cadeira”. Houve que preferisse “ficar imóvel” e quem optasse por “correr de um lado para outro”. Um entrevistado afirmou que “entrava num closet e deixava a luz apagada”, enquanto outro “ficava ao lado de objetos de metal”. Uma entrevistada confessou: “vou para o quarto da minha filha e fico segurando a correntinha que pende do ventilador de teto”. E outro disse: “fico movendo o celular até conseguir sinal, e já cheguei até a me inclinar para trás, naquela posição do filme Matrix, tentando manter o sinal”.
Toda essa doidice me lembra aquele tempo em que ficávamos mexendo na antena interna da TV, apontando-a de um lado para outro, pendurando bombril na ponta, etc. E as horas intermináveis com alguém gritando de cima do telhado: “Melhorou?” e as pessoas de baixo gritando de volta: “Assim! Não, volta! Mais um pouco! Do jeito que estava!” e as crianças roendo as unhas. Está para se inventar uma tecnologia que não tenha uma mistura de superstição, “simpatia” e magia corporal.
1851) A narrativa pré-moldada (13.2.2009)

Quando um tipo de narrativa é repetido ao longo de décadas, de séculos, algumas de suas partes começam a se cristalizar, a se tornar quase obrigatórias. O público as espera, e o narrador, que também é público, espera de si mesmo o ritual de repeti-las. Isto vale para gêneros formulaicos como o conto policial, de terror, etc. O leitor pouco afeito a esses gêneros queixa-se: “A fórmula é sempre a mesma! Quem lê um, leu todos”. Admite, no máximo, que há variações entre os textos. Sua descrição não difere muito da descrição que um fã faria. Ambos concordam sobre o que acontece ali (reiteração de efeitos já conhecidos, com uma pequena margem de novidades), só que um gosta justamente disto, e o outro não.
O cinema comercial, mais formulaico que qualquer gênero literário, é feito de blocos de cenas assim. Há sub-seções dos estúdios encarregadas de preparar essas cenas, sob a supervisão do diretor do filme. São as chamadas equipes de “segunda unidade”: o pessoal que faz a Perseguição de Automóveis, o pessoal que faz o Baile no Palácio Imperial, o pessoal que faz a Transformação em Lobisomem... Cada tipo de filme tem algum desses blocos, e uma equipe inteira que já sabe como fazê-los. Vêm sendo feitos, com lentíssima evolução, há cem anos.
Na literatura, esses blocos também ocorrem. O romance policial clássico sempre tem como uma de suas últimas cenas a Reunião dos Suspeitos, todos trazidos pelo detetive e agrupados numa sala enquanto Hercule Poirot (Ellery Queen, Philo Vance, etc.) rememora as circunstâncias do crime, expõe as pistas, indica os raciocínios falsos e os becos sem saída. E por fim propõe a hipótese final,o raciocínio certo que demonstra que o criminoso é... VOCÊ! Com essa revelação bombástica, o acusado às vezes tenta dar uma desculpa esfarrapada, outras vezes pula pela janela, ou saca de uma arma e alveja o próprio peito... É uma cena clássica. Alguém (sei lá, Otto Penzler, Bill Pronzini, algum desses antologistas de mão cheia) devia preparar uma antologia desses capítulos, extraídos de romances clássicos (e precedidos, claro, por introduções explicando o crime e todo o contexto anterior). Daria um delicioso e desfrutável volume de umas mil páginas.
Filmes de faroeste têm cenas pré-moldadas típicas: a Perseguição Pela Campina; o Ataque dos Índios (à Diligência, aos Carroções, ao Forte); o Duelo na Rua Principal; a Briga no Saloon. Os filmes de ficção científica renovam seu repertório de acordo com a influência dos clássicos. Os filmes de FC até 1950 eram econômicos em mostrar o vôo de espaçonaves, discos voadores, etc. Mostravam o mínimo necessário para dar a informação, e cortavam antes que o espectador percebesse a precariedade dos efeitos. Depois de “2001”, uma cena pré-moldada é o baile das espaçonaves tendo ao fundo planetas em contraluz; depois de “Star Wars”, virou obrigatória a cena das espaçonaves se metralhando umas às outras, como bimotores da I Guerra Mundial.
1850) Piadas metafísicas (12.2.2009)
Um grupo de cariocas e um grupo de paulistas embarcaram num trem para participar de um evento. Todos os paulistas compraram bilhetes, e observaram que apenas um dos cariocas fez o mesmo.
Quando alguém avisou que o condutor estava se aproximando, os cariocas correram para o banheiro e trancaram-se lá. O condutor viu a porta fechada e bateu: “Bilhete, por favor!” O bilhete foi enfiado por baixo da porta, o condutor o perfurou, devolveu e seguiu em frente.
Na viagem de volta, os paulistas decidiram comprar apenas um bilhete e fazer o mesmo. Mas aí perceberam que os cariocas não compraram nenhum! De qualquer modo, quando alguém avisou que o condutor estava vindo, os dois grupos correram para os dois banheiros, que ficavam lado a lado.
Depois que os paulistas se trancaram num deles, um carioca bateu na porta e disse: “Bilhete, por favor!” O bilhete foi enfiado por baixo da porta, ele o levou para o outro banheiro e o apresentou quando o condutor pediu.
Boa piada, não é mesmo? Eu a recolhi num saite onde os dois grupos eram compostos por matemáticos e engenheiros. Como todo mundo sabe, os matemáticos são uns sujeitos ingênuos, abstraídos, incapazes de tomar providências práticas, enquanto os engenheiros são hábeis, pragmáticos, cheios de expedientes.
A piada acima exprime muito bem o modo como os dois grupos se vêem – ou talvez como os engenheiros vêem os dois grupos.
Mudar para cariocas e paulistas deixa a mecânica da piada intacta, porque a estamos transpondo para um conjunto de preconceitos que não altera o funcionamento da anedota.
Não é que os paulistas sejam “ingênuos, abstraídos, incapazes de tomar providências práticas”, e que os cariocas sejam “hábeis, pragmáticos, cheios de expedientes”. Estas descrições não correspondem ao clichê habitual de cada tipo. Mas a piada funciona porque tendemos a achar (mesmo que não seja verdade) que os cariocas são espertalhões, trambiqueiros, especialistas em pequenos golpes deste tipo; e que os paulistas são bitolados, sem imaginação, sem jogo de cintura.
As piadas sobre grupos étnicos, sobre categorias profissionais, etc. se baseiam sempre em noções pré-concebidas sobre esses grupos, noções que são tomadas como uma premissa implícita, e que precisam ser reafirmadas pela anedota. “Estavam num avião um japonês, um alemão, um francês e um brasileiro...”
É com clichês que estamos lidando, e o que esperamos (para produzir o riso) é a obediência ao clichê, ao preconceito.
Se essa piada do trem fosse atribuída, por exemplo, a um grupo de brasileiros e de portugueses, todo mundo também acharia graça. Mas se o fosse a um grupo de tipógrafos e um grupo de tintureiros, a esperteza do golpe seria percebida, mas o ouvinte se sentiria na obrigação de perguntar: “Mas... por que logo os tipógrafos? Por que os tintureiros?”
Pré-conceito é qualquer característica atribuída a um grupo que será sempre tomada como axioma sempre que esse grupo for invocado. Mesmo que não seja verdadeira.
terça-feira, 30 de março de 2010
1849) O anti-intelectualismo (11.2.2009)

Um amigo meu foi assistir o Ensaio Sobre a Cegueira de Fernando Meirelles e comentou comigo que um jornal paulistano se referiu desdenhosamente ao filme como “uma mera tentativa de fazer filme de arte”. Achei engraçado esse menosprezo ao conceito de Cinema de Arte, que para mim não difere do Teatro de Arte, Pintura de Arte, Poesia de Arte... Parece que nestas outras áreas o termo “arte” é tão subentendido que se torna supérfluo, mas no cinema, uma mídia bastarda, tecnológica, popularesca, “divertimento de feira”, é preciso fazer a distinção. E nos dias que correm, ao que parece, essa distinção desvaloriza a arte em benefício do “entretenimento”.
Comparei essa frase a outra que li no mesmo dia na Folha de São Paulo sobre o recente CD de Lenine. O cara dizia (não exatamente assim, cito de memória): “Lenine é um artista inteligente, ou seja, já está a meio caminho de se tornar um mala”. Esclareço que no Sudeste “mala” não quer dizer “malandro, esperto”, como na Paraíba, e sim “um chato”, a famosa “mala sem alça”. Para esse jornalista, ser inteligente é meio caminho para ser chato. Imagino que com isto ele queira exigir dos artistas que sejam meio burrinhos para poderem ser compreendidos e assimilados pelos milhões de burrinhos que constituem O Público.
Por que essa preconceito contra a arte e a inteligência? Faço esta pergunta em benefício próprio, porque gosto de arte, me considero inteligente, e acho que ser inteligente é ser menos propenso à chatice do que ser burro. E neste últimos quarenta anos tenho percebido uma tendência interessante. A cada década que passa, aparece mais gente querendo desvalorizar conceitos como inteligência, cultura, intelectualidade, erudição, profundidade e tudo o mais. Se um artista é associado a qualquer desses termos, logo é acusado de elitista, incompreensível, esnobe, inimigo das “pessoas comuns”, enfim, um “mala sem alça”, um cara chato, pedante, que não deixa os outros se divertirem.
Acho que isto tem a ver com uma certa mentalidade mau-caráter que a cada década vem ampliando seu espaço no Brasil. É a mentalidade conhecida como a malandragem (no pior sentido), o golpismo, a “lei-de-Gérson”, o conto-do-vigário, o blefe. Esses indivíduos são os principais adversários de tudo que se diga inteligente, intelectual, culto, etc. Por que? Porque o contrário de “inteligente” não é burro, é esperto: “ichperto”, espertalhão, trambiqueiro, cascateiro, picareta, um-sete-um. O espertalhão não gosta dos inteligentes porque estes não caem com facilidade nos seus golpes. (Caem de vez em quando, claro – os inteligentes em geral são honestos, porque sabem que isto é mais benéfico a longo prazo, mas em compensação tendem a imaginar que todo mundo também é honesto.) Enquanto existirem inteligentes haverá alguém para abrir os olhos dos burros contra os golpes dos espertos, e isso é algo que os espertos morrem ciscando mas não admitem.
1848) “Moacir Arte Bruta” (10.2.2009)

Revi no Canal Brasil este documentário de Walter Carvalho sobre um desses personagens que são às vezes chamadas de “para-artistas”, no sentido de que alguns fenômenos são chamados de “parapsicológicos”. Moacir é um sujeito com problemas mentais, que fala com dificuldade, e que desde pequeno demonstrou, se não um grande talento para o desenho, pelo menos uma compulsão irresistível para desenhar. Mora com os pais e duas irmãs num conjunto de casinhas, na periferia de uma cidade pequena de Goiás. Depois de uma vida inteira de trabalho, e de aparecer algumas vezes nos jornais e na TV, sua obra é procurada por turistas e colecionadores.
Todos nós temos uma certa simpatia implícita por esses artistas que, chamados vulgarmente de “doidos”, perderam a aura de ameaça ou de opróbrio que tinham antigamente. Graças à psiquiatria e a novas teorias estéticas, somos capazes de olhar com simpatia e condescendência para a obra de artistas como Carlos Pertuis e Fernando Diniz, revelados pelo trabalho da Dra. Nise da Silveira na série de trabalhos (filme, exposição, livro) Imagens do Inconsciente.
O problema com Moacir é que sua arte é bruta mesmo, no sentido de que é tosca, mal-feita, sem qualidades estéticas que, aproximando-a da arte convencional, a redimam. Do ponto de vista da técnica é como se um garoto de cinco anos estacionasse para sempre naquele estágio de representação visual, repetindo incessantemente os mesmos traços, as mesmas composições, as mesmas imagens. Moacir diversificou suas técnicas (lápis cera, lápis, tinta e pincel, etc.); diversificou suas superfícies (ele desenha e pinta em papel, em metal, em madeira, nas paredes e no chão da casa); mas não mudou de traço nem de tema.
Aí entra a parte mais desconfortável, capaz de fazer bambear um observador politicamente correto, ansioso para reconhecer que um doido pode ser tão artista quanto um não-doido. Porque há dois aspectos da arte de Moacir que podem incomodar muita gente. Um deles é o fato de ele pintar diabos (diabinhos mesmos, com chifres e cauda) o tempo todo. O pai dele, que tem um olho esperto e cúmplice, e se exprime por elipses e subentendidos, diz para a câmara: “Só não pode é pintar aquele. O do chifre. Por que? Porque não pode. Né?”
O outro são as suas imagens de sexo explícito envolvendo homens, mulheres, diabos e animais, em combinações que às vezes deixam o espectador meio desconfortável. Cenas de auto-erotismo, de bestialismo, de pessoas de todos os sexos executando posições de um Kama Sutra bizarro. Moacir interpreta todos os seus desenhos, menos esses: “Esse aqui eu não sei o que é...” Faltam palavras ou falta coragem de pronunciar as que sabe? Moacir não é um caso de doente mental que se curou através da arte. A arte nele é a apoteose do sintoma. Ele e o sintoma estão numa queda de braço que, a menos que ocorra um fato extraordinário, deve durar pelo resto de sua vida.
1847) Madame Bibiloni de Bulrich (8.2.2009)
O diário Borges de Adolfo Bioy Casares (Ediciones Destino, 2006) retrata de forma indireta personagens de uma Buenos Aires que parece inventada por dois humoristas sardônicos.
Uma delas é a Madame Bibiloni de Bullrich, ou, mais precisamente, Beatriz Bibiloni Webster de Bullrich. É pena que o livro não seja ilustrado, porque muito me agradaria ver a reprodução de um retrato a óleo (só serviria assim) dessa socialite de vasta inocência, que nunca recuava diante de um solecismo, um absurdo ou um haraquiri verbal.
À página 65 se diz que ela foi convidada a um baile, e à saída lhe perguntaram o que tinha achado. Respondeu: “Gostei, mas prefiro aqueles onde há gente conhecida que nos tira para dançar”.
Quando sua irmã se suicidou, ela tentou suavizar o fato informando (p. 210): “Minha irmã é tão exagerada que tomou essas coisas para dormir”.
Tinha uma noção bem peculiar sobre o talento. Foi informada de que alguém conhecido havia ganho na loteria. Quando soube que havia comprado o bilhete inteiro, ganhando com isto o grande prêmio, comentou: “Que inteligente!” (p. 179).
Tinha opiniões muito claras sobre si mesma: “Eu não sou uma mulher frívola. A única coisa que me interessa é o dinheiro” (p. 134). Vá se adivinhar o que ela entendia nesse adjetivo, porque também afirma: “Minha irmã era uma mulher frívola, mas eu a trouxe ao clube de bridge e agora ela passa o dia jogando” (p. 463).
Este exemplo gera uma discussão filológica entre Borges e Bioy, onde cabe a este, mais afeito à alta sociedade, explicar ao amigo que “frívola” não significa superficial, e sim “mulher que se deita com muitos homens”. Borges comenta: “Esta noite fizeste uma grande descoberta filológica. Mas a elas não podemos perguntar essas coisas porque ficam ofuscadas, pensam que estão sendo submetidas a uma prova”.
Ela conta um episódio em que saiu com umas amigas para ver fogos de artifício numa praça: “Vimos uma bola de fogo que avançava sobre nós. As outras fugiram. Eu, com meu psiquismo, compreendi que não me aconteceria nada. Depois tive que ir à farmácia, porque fiquei com as pernas cheias de queimaduras”. E Borges comenta: “Ela é invulnerável à realidade” (p. 62).
Lamento não ser portenho para saborear a ênfase com que ela elogia uma festa a que compareceu: “Nessa festa estava tudo que é Unzué e tudo que é Madero” (p. 395). Com que sobrenomes uma socialite paraibana lapidaria um elogio desse porte?...
Na década de 1950, o marido da madame era presidente de uma associação beneficente dos refugiados húngaros. Borges comenta: “Às vezes ela é incapaz de recordar o nome da entidade e diz: ‘Ele é presidente dos húngaros’. Fala como quem entrega peças de um quebra-cabeças, e o interlocutor deve encaixá-las. Ela mesma afirma que "para conversar com ela é preciso ser muito inteligente” (p. 383).
Se a sra. Bibiloni não existisse talvez nem mesmo Borges e Bioy, dois sarcásticos de truz, pudessem inventá-la.
1846) O jornal intacto (7.2.2009)

(Dorothy L. Sayers)
Há poucas maneiras mais agradáveis de começar o dia do que sentando à mesa, diante de um café da manhã substancial e sortido, com café recém-passado, e abrir o jornal do dia para iniciar nosso gradual retorno à vida real, depois de uma noite inteira no Mundos dos Sonhos. O jornal novo, cheirando a tinta e a rotativas, é um ingrediente crucial neste processo. O que me lembra um trecho do famoso conto “Suspicion”, de Dorothy L. Sayers, em que o protagonista, Mr. Mummery, recomenda a sua esposa: “A propósito, querida, por favor recomende à cozinheira que, se ela quer mesmo ler o jornal pela manhã, antes que eu desça para o café, eu ficaria muito grato se ela o dobrasse depois, bem cuidadosamente.” A esposa brinca com ele, dizendo que ele é cheio de manias, e a narradora diz: “Mr. Mummery soltou um suspiro. Ele não conseguia explicar que lhe era importante, por algum motivo, que o jornal da manhã chegasse às suas mãos liso e intacto, como uma virgem. Mulheres eram incapazes de compreender essas coisas”.
Já falei disto em “A flor do coco”(27.11.2005). É a nossa necessidade do novo, do intacto, do que durante todo o tempo esteve se guardando, à nossa espera. Amigos meus que dirigem automóvel sentem tal afeição por essas engenhocas que lamentam não serem capazes de engarrafar num frasquinho o “cheiro de carro novo”, para aspirá-lo quando a carência ficar muito grande. Não mango deles porque sou do tipo que gosta de cheirar as páginas de um livro, tanto faz que seja velho quanto novo. Papel de livro tem sempre um cheiro próprio e único. Alguns há que nem têm grande valor literário, mas os mantenho em minhas estantes somente por causa do perfume único e inimitável de suas páginas.
O café recém-passado, o jornal cheirando a tinta... Tudo isto nos garante a sensação da vida voltando a desabrochar, da máquina do mundo abrindo-se para nós como se abriu para Carlos Drummond, oferecida, desfrutável, “como uma virgem”, intacta na sua pureza e tentadora na sua oferta. Após uma noite de sono o mundo nos recebe de volta, através do jornal dobradinho e liso, para que desdobremos sua primeira página e vejamos o rosto multifário da Vida. Não importa se as notícias nos alarmam com enchentes, quedas de aviões, quebras da Bolsa, atentados, potentados. É o ato de recebê-las prontas que nos dá o piso mínimo de normalidade-das-coisas, sem a qual ninguém se anima a encarar o dia à frente.
Não há sensação maior de sacrilégio do que procurar o jornal pela manhã e ver seus cadernos espalhados, as folhas amarfanhadas, uma ou outra caída no chão, como se fossem as ruínas de um vilarejo saqueado por vândalos que sumiram sem deixar outro rastro que o da destruição. Mr. Mummery estava certo. Mesmo que alguém insista em ler o jornal antes, por favor, recomponha-o, recoloque seus cadernos na ordem, dobre-o, alise-o, para que ele nos receba do jeito que é para ser.
segunda-feira, 29 de março de 2010
1845) A cultura como interface (6.2.2009)
Ligo meu computador e durante vários segundos se sucedem uns códigos indecifráveis, letras brancas sobre fundo preto, tabelas, fichas técnicas repletas de códigos e de números. Então há uma espécie de recomeço e brota na tela a confortável e acolhedora paisagem do Windows XP, aquele céu azul e as verdes colinas que depois de alguns anos acabam se tornando uma espécie de Pátria, de terra natal.
“Pronto!”, murmura o usuário, “estou em casa”. Por isso mesmo os teclados e menus nos fornecem a palavra “Home”. Só faltam botar “Home, sweet home”.
Essas imagens existem? Essas colinas do Windows, esses peixinhos-de-aquário que me servem de descanso de tela, esses quadros abstracionistas que escolhi, com um clique, para ser meu papel de parede? Poderei dizer que esta página onde escrevo agora existe, é real, é palpável?
Estou vendo agora uma página branca com letras pretas, em Time New Roman, tamanho 12 (a que uso como padrão para estas colunas). Nada disso existe. São instruções matemáticas do programa.
Quando abro o Word, o programa determina que pontos luminosos brancos apareçam na tela, emoldurados por pontos, traços e formas de diferentes cores que compõem as molduras. A barra de ferramentas e os menus desta página são ficções visuais. Desligado o computador, os pontos de luz se apagam, e só voltam a existir de novo quando o programa ordena que reapareçam.
É isto que chamamos interface gráfica. Foi criada para que não tenhamos que dar instruções ao computador. Os computadores mais antigos eram todos movidos a instruções. Era preciso dialogar com eles o tempo todo. Faça isto, agora faça aquilo.
A interface gráfica surgiu para esconder o fato de que estamos dando instruções, e para imitar o ambiente, os objetos e os gestos de nossa vida física. Clicamos, arrastamos, copiamos & colamos, abrimos e fechamos janelas e menus. E quando apontamos o dedinho do cursor num link e clicamos, estamos autorizando o computador a dar o comando correspondente à ação que queremos.
Assim também é nossa cultura. Criamos, para nossa mútua proteção, uma super-estrutura de cidades, civilizações, códigos, princípios, arte, religião, conceitos de política e economia.
Tudo para não ter que pensar na infraestrutura, nos comandos rudes e toscos, em tela preta, que determinam nossa vida: o funcionamento dos nossos órgãos, o funcionamento do planeta que habitamos.
Os processos físicos e químicos que me mantêm vivo, e que ignoro solenemente; e os processos que mantêm o planeta habitável para nossa espécie, e que também ignoramos.
A cultura é uma interface gráfica cheia de prioridades em tecnicolor: o trabalho, o lazer, a família, a diversão, a vida espiritual. Mas toda ela repousa numa infraestrutura invisível de processos, cuja existência só percebemos quando alguma coisa começa a dar errado e vamos parar na UTI, reduzidos ao conflito binário fundamental entre continuar existindo ou parar de existir.
1844) A memória perfeita (5.2.2009)
(Jill Price)
Existem pessoas com memória perfeita, memória total? Quais os limites da memória?
Leio de vez em quando sobre isto, e uma coisa que percebo é que nossas memórias são personalizadas. Pessoas de memória excepcional só se assemelham por esta condição, no mais são muito diferentes: usam processos diferentes, têm mais facilidade para coisas diferentes, etc.
Vejamos o caso de Jill Price, uma californiana de 42 anos. Entrevistada por Samiha Shafy para “Der Spiegel” (http://tinyurl.com/58o9nm), ela conta as tribulações por que passou, os problemas familiares, as depressões, até o dia em que digitou no Google a palavra “memory”, encontrou o dr. James McGaugh, da Universidade da Califórnia, em Irvine, e descobriu que era uma pessoa fora do comum.
Price é dessas pessoas capazes de, ouvindo uma data, dizer imediatamente qual foi o dia da semana. Ela diz que tem uma lembrança normal da própria infância, consegue lembrar a maioria das coisas entre os 9 e os 15 anos, e a partir daí não esqueceu mais nada: “A partir de 5 de fevereiro de 1980, eu lembro de tudo. Era uma terça-feira”.
Basta alguém dizer um dia e ela lembra o que fez, com quem estava, o que foi conversado, o tempo que fazia, a roupa que estava usando, a comida que comeu, os pequenos fatos ocorridos à sua volta.
“Mas,” diz Shafy, “muitas vezes as lembranças voltam por conta própria”. Cenas belas, horríveis, importantes, banais, cruzam de forma desordenada o seu “monitor mental”, muitas vezes obliterando o momento presente.
E muitas vezes retornam, também, “cada palavra dita com raiva, cada erro, cada decepção, cada choque e cada momento de dor; nada é esquecido. No caso de Price, o tempo não cura as feridas”.
Ela se queixa de que “é como estar passando de novo por tudo aquilo, vezes sem conta, um filme sem fim, caótico, que toma conta de mim, e não existe um botão que eu possa apertar e interromper aquilo”.
Para mim, o mais interessante, o que distingue o caso de Jill Price é o fato de que ela mantém desde os dez anos de idade um diário minucioso de tudo que lhe acontece: “Ela já preencheu mais de 50 mil páginas com caligrafia miúda, documentando cada acontecimento, não importa o quanto seja insignificante”.
Graças a isto os médicos são capazes de “sabatinar” Jill Price e verificar que aqueles detalhes não estão apenas no papel, estão todos no seu HD mental e ela pode acessá-los instantaneamente.
Este detalhe do diário é significativo, porque mostra que desde muito cedo Jill descobriu uma forma de lidar com essa memória hipertrofiada. E o remédio que encontrou só fez aumentar a doença, porque sem dúvida o registro por escrito afiou ainda mais sua capacidade de recordação.
Já li muitos casos de memórias privilegiadas, mas este é o primeiro em que o ato de escrever serve como terapia, como fator potencializador do “problema” e como parâmetro de julgamento para os pesquisadores.
Assinar:
Postagens (Atom)





